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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

NENA, DODA E ROSA


NENA, DODA E ROSA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Eram três. Inseparáveis. Não eram poucos a afirmarem serem elas uma só. Nasceram juntas, lá para as bandas do limite entre os dois estados mais meridionais do país, contudo pertenciam a épocas distintas. Siamesas só na formalidade cartorial, pois que na vida eram terra e mar, noite e dia. Nena parecia jamais ter crescido, pois que eterna e teimosamente guria. Conservava, ainda, os cachos daqueles tempos. Doda, por sua vez, transpirava uma espécie de adolescência duradoura, mal escondendo a sexualidade à flor da pele. Rosa, por fim, pousava de madura, em que pese os incontáveis “escorregões” a aproximá-la das outras duas. Univitelinas, mas – por vezes – diametralmente opostas. Nuances da feminilidade num único corpo. Incompreensível para alguns, para elas não. Compreensível, natural e necessário. Um só invólucro para tempos e experiências tão distantes. Amálgama de sentimentos, memórias e desejos. Alguns deles pueris, outros nem tanto. Alguns deles ingênuos, outros carregados de malícia. Pecaminosos ou não, aos olhos de outrem, porém todos sinceros. Cinco, quinze ou cinquenta. Pouco importava a cronologia humana. Sentiam-se senhoras do tempo, por ele não se deixando subjugar. Enquanto Nena ainda brincava com a boneca de pano e, diante da chuva, lançava nacos de sabão sobre o telhado da casa, Doda se deleitava com a leitura dos livros desbotados e de capa dura, recheados de príncipes e princesas, fadas e duendes, mocinhos e bandidos. Rosa, por sua vez, muito comumente ficava a se perguntar o porquê de todas aquelas atas, ofícios, pareceres e resoluções. Às vezes, admitia, sentia uma ponta de ciúmes e inveja da Nena e da Doda. A maioridade tinha lá suas vantagens, é verdade. Quais? Não sabia ao certo. Por sinal, as certezas há algum tempo deixaram de ser amigas. Veja só, mais uma vez se via a lamentar. Nena e Doda, se por um lado gozavam da seiva jovial, por outro, desconheciam muitos dos amores vividos, do enlace dos corpos e das carícias trocadas. Afinal, a vida é assim mesmo, cheia de idas e vindas. Feito as ondas do mar. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

MENDICÂNCIA PEDAGÓGICA


MENDICÂNCIA PEDAGÓGICA
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

               

                Ser professor é tarefa árdua. Ser professor de escola pública, mais ainda. Ser professor de escola pública estadual do Rio Grande do Sul é quase uma tragédia, quando não caso de polícia. O que estão fazendo com os educadores? A situação é para lá de desesperadora. Salários aviltantes (abaixo dos já parcos valores garantidos em lei), condições de trabalho aquém do razoável, jornadas de trabalho extenuantes, estruturas físicas das escolas deterioradas, alunos desestimulados, pais cada vez mais omissos... As exceções só comprovam a regra. Frente ao dantesco quadro, o que se vê é um governo absoluta e perigosamente perdido. Discursos e promessas não faltam. A práxis, contudo, é escassa. Incompetência, inoperância e ineficácia se misturam nesse triste caldeirão da desesperança. O professorado acaba por ser penalizado várias vezes. O é quando se depara com os valores pífios trazidos no contracheque, quando tem sua imagem maculada frente à dita “opinião pública”, sendo taxado de “chorão” e avesso ao trabalho. É penalizado, ainda, quando precisa assumir a responsabilidade pelo cumprimento de um calendário repleto de horas e dias letivos, sem a mínima garantia de qualidade. Fica o professor entre a cruz e o punhal. A estratégia dos “donos do poder”, ao que parece, tem surtido efeito. Desmobilizou a classe. Paralisar ou ter que trabalhar nos meses costumeiramente tidos como de férias? Criou-se no educador a síndrome da vítima. Esta, ironicamente, ao mesmo tempo em que sofre nas mãos do algoz, sente-se culpada. O servidor, ao mesmo tempo em que é “violentado” pelo Estado, sente-se culpado em desejar gozar momentos de prazer e alegria nos meses de verão. Pérfida e diabólica ironia. Há muito, neste país – e de forma muito particular neste Rio Grande – tem se criado e recrudescido uma espécie de autocomiseração por parte dos professores. Hora nos menosprezamos, hora nos menosprezam. Ser mediocrizado – e os valores pagos atestam de maneira inequívoca o desprezo pela classe – soa como “natural”, aceitável e plausível. Grande engodo. Por que não dispensar tratamento pecuniário similar (e vergonhoso!) a juízes, desembargadores, procuradores, médicos... Funções e rubricas orçamentárias diferentes? Sim, é verdade. Ainda assim, injustificável a oceânica diferença salarial em desfavor do magistério. A recomposição salarial dos professores é urgente e necessária. Sem ela, resta comprometida e impossível a busca da qualidade no ensino. Ninguém dá o que não tem. Como trabalhar conceitos como o da dignidade sem vivenciá-los? A situação do educador gaúcho é vexatória, degradante e desumana. Atenta contra a dignidade da pessoa humana e, portanto, contra diversos diplomas legais, nacionais ou não. Representa um tapa no futuro e lança por terra muitos dos sonhos e utopias. A mendicância pedagógica marginaliza não apenas o professor, mas todos os que dele dependem. Marginaliza a família do educador (sim, senhores governantes, o professor tem família!), assim como põe à margem, também, a comunidade escolar como um todo. Não por acaso, o ensino público vai de mal a pior. Pouco e mal se aprende. A flagrante mediocridade intelectual dos educandos é, por certo, resultante – em grande parte – da mendicância que assola o professor. É passada a hora de uma verdadeira, profunda e emergencial transformação no ensino destes páreos, mudança esta que passa, necessária e obrigatoriamente, pela real valorização profissional do magistério.   

ÍNDIO VELHO


ÍNDIO VELHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Falam alguns de um índio velho lá para as bandas de Caçapava. Dizem que é um figuraço, daqueles que só se encontra uma vez na vida. Costuma acolher a visita com a cuia estendida, pronta para a mateada. Os que o conhecem, descrevem o homem como um grande par de orelhas. É só ouvidos. Deixa quem o procura bem à vontade. Apenas escuta, ao menos de início. Ainda esses dias – segundo dizem – um sobrinho vindo da capital, um piazote mal saído das fraldas, estudante de Direito, sentara ao lado do velho e começou a falar sobre um tal de “garantismo”. A conversa girava em torno do assassinato de uma senhora, mãe de não sei quantos filhos, aposentada. Depois de morta, noticiavam, teria sido esquartejada. O ex-companheiro, réu confesso, teria alegado ciúmes para tamanho disparate. Enquanto falava, o sobrinho parecia não fazer questão de esconder certa complacência em relação ao criminoso. O índio velho só escutava. Dizia o rapaz que ao acusado deveria ser oportunizado o contraditório, a ampla defesa e a possibilidade de responder ao processo em liberdade, afinal era primário e tinha residência fixa. O tio, desacostumado ao palavrório acadêmico, ia sorvendo o chimarrão. Vez em quando, levantava os olhos por debaixo da aba do chapéu. Para o índio velho, fazer justiça era fazer o certo. Errou, que pagasse pelo erro. Por que tanto rodeio? Para que tanto estudo, pensava (mas não dizia...), se não era para resolver a questão? Sentia pena era da falecida. Pudesse, depositaria sobre o túmulo uma flor. Quando soube, pelo próprio sobrinho, que o bandido estava solto sob o beneplácito da Justiça, não entendeu. Até a erva pareceu amargar de uma hora para outra. Como assim? Noutros tempos, ai dele se olhasse atravessado para o pai ou desobedecesse a mãe. A vara corria solta. Jamais passara por sua cabeça a ideia de tirar a vida de alguém, menos ainda de perdoar quem o fizesse. O sobrinho ia, a cada espaço de tempo, usando novos conceitos e jargões jurídicos. Atrevera-se até usar latim. O índio velho não sabia se ria ou se dava uma camaçada de pau no guri. Não conhecesse o sobrinho, diria que este o estava ofendendo ou caçoando. Aos poucos o tio ia compreendendo o porquê da “distância” dos tribunais. Jamais pisara num. Não fazia questão, pois toda aquela gente vestida naquelas togas negras mais cheirava a enterro. Parecia-lhe outro mundo. Talvez por isso, não conseguia entender a “lógica” de quem anunciava a Justiça. Como fazer-lhe crer, homem vivido que era, que o certo era errado e o errado era o certo? Matar era errado. Punir o erro era o certo. Pronto. Simples assim, pensava o tio. Fora isso, era conversa fora. Enquanto o índio velho pensava, com os braços sobre a bombacha, o bacharelando tomava um laço da bomba. Virava daqui, virava dali, nada de fazê-la chiar. Via-se que o rapaz não levava jeito. Respeitoso, o tio fazia de conta nada reparar. Aos poucos, o sol, que até então os esquentava, ia se retirando. O índio velho, agradecido por mais um dia, parecia resignado. Não fosse a demora do sobrinho em devolver-lhe a cuia, sentia-se feliz. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

RELATIVO


RELATIVO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Tudo é relativo? Comum é ouvirmos opiniões – quase sempre pouco fundamentadas – afirmando que sim. Será? Ainda esses dias, estávamos conversando, eu e algumas colegas de trabalho, sobre pessoas que buscam fazer o que é certo, em conformidade com a ética. Não são poucas é verdade, porém raramente viram notícia. Tem sido comum, isto sim, ocuparem as páginas de jornais, revistas, redes sociais e programas de televisão fatos pouco elogiáveis, quando não completamente condenáveis. Mais vale, ao que parece, um enorme traseiro a dançar vulgarmente sob a batida ensurdecedora dos alto-falantes do que boas ideias. Mais rápido do que a luz, as “curtidas” no face se propagam quando da postagem de fotos comprometedoras e fofocas bisonhas. Mais do que nunca, a pobreza de espírito tem encontrado campo fértil para frutificar. Por vezes, o pretenso anonimato fomenta a calúnia, a difamação e a injúria. A liberdade de expressão, errônea e irresponsavelmente, tem sido confundida com a falta de limites. Pipocam ações judiciais em busca do dano sofrido na mesma proporção que surgem novas ferramentas virtuais a favorecerem as práticas delituosas. Comungam do mesmo leito, os sentimentos de impunidade e liberalidade. Dia após dia, o agir ético soa forasteiro, deslocado, estrangeiro. Um misto de impotência, revolta e tristeza. O relativismo vazio e doentio tem lançado na sarjeta os valores éticos construídos pela humanidade ao longo da história. Valores que não se confundem com a moral. Esta é volátil e difere, com muita frequência, de região para região. A ética, contudo, é estrutural e estruturante. Os valores que aqui se defende deveriam estar no alicerce atemporal de todas as culturas. Honestidade, lealdade, responsabilidade, solidariedade, compromisso com a verdade, alteridade... Valores que transcendem os limites do tempo, do idioma, da crença, do matiz político ou ideológico. Sem eles, toda e qualquer civilização está fadada ao fracasso, à guerra fratricida, à submissão. Como e quem (de)forma nossas crianças e jovens? É triste e desesperador vê-las caminhando em direção ao precipício, onde grassam as drogas, o egocentrismo exacerbado, a indiferença em relação à sorte alheia, a carência de vínculos duradouros e o apego exagerado ao “ter”. Uma geração, por vezes, sem rumo. Quem dará a ela o norte? Os pais ou, então, “terceiros”? A mídia? O mercado? Ao contrário de quem ama, o “mundo” está a prometer só prazer e satisfação. Oferece diante dos olhos de nossos filhos um belo “contrato”, repleto de sonhos e fantasias. Esconde, contudo, por detrás das minúsculas letras e notas de rodapé, as amargas e fatais contraindicações. Amar é acolher, elogiar, apoiar, mas também exigir. É dizer “sim”, mas também “não”. É auscultar o coração e decifrar o olhar. Amar é orientar, proteger e defender, sem, contudo, aquiescer com o erro ou com este condescender. O amor exige posicionamento. É comprometer-se. Amar e relativizar, apesar da aparente semelhança sonora, pouco têm em comum. O amor não transige com a falta de ética e tampouco dialoga com a “cultura de morte”. O amor não é relativo!



terça-feira, 17 de setembro de 2013

CRITÉRIOS, PARA QUEM?


CRITÉRIOS, PARA QUEM?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Para que e para quem servem os critérios? A primeira indagação – em se tratando de vaga nas escolas de Educação Infantil mantidas pelo Poder Público –, apesar de complexa, remete para a necessidade do Estado em garantir, primeiramente, aos mais pobres o acesso ao ensino obrigatório na primeira etapa da Educação Básica. Frente à oferta de vagas aquém da demanda, o ente público acaba por criar mecanismos “seletivos”, priorizando e privilegiando as classes de menor poder aquisitivo. Tal iniciativa fere, talvez, um importante princípio constitucional, o da igualdade, ainda mais em se tratando de um direito básico subjetivo, qual seja o da educação. O ideal, portanto, seria que o Estado desse conta de toda demanda da Educação Infantil. Contudo, ainda assim, surgiriam alguns problemas: qual a real demanda? Quais os investimentos necessários a serem previstos e disponibilizados no orçamento? Como conciliar tais investimentos sem comprometer o “fechamento” das contas públicas e a consequente responsabilização do gestor? O fato é que não se vive o mundo “ideal”, mas “real”. A pomposidade dos gabinetes e o luxo dos banheiros de juízes e promotores pouco têm em comum com o dia-a-dia da maioria dos mortais. O descompasso entre a realidade que se tem e aquela que se espera, muitas vezes joga por terra os critérios estabelecidos pelo Executivo quando da distribuição das vagas nas instituições públicas que ofertam a Educação Infantil. É cada vez maior o número de crianças que entram pela “porta dos fundos”, sem atenderem aos critérios pré-estabelecidos e respeitados pela maioria. É nesse contexto que entra em cena a indústria das liminares. As decisões prolatadas pelos magistrados, se por um lado atendem a uma pretensão muitas vezes justa e razoável, por outro reforça a cultura do jus sperniandi, onde quem “pode mais, chora menos”. Assim, não tem sido incomum somente as pessoas mais esclarecidas e afortunadas conseguirem um lugar ao sol, sob o manto da Justiça. Frente à tamanha incoerência, o Judiciário tem respondido por meio de alguns chavões para lá de desgastados, como aquele que diz que a Justiça só acorre a quem dela se socorre.  Portanto, não é para todos. É tão ou mais seletiva do que os critérios por ela condenados. Ora, se a raiz do problema está – por exemplo – nas leis, Portarias e Editais, sejam tais documentos legais atacados em sua gênese. Proíba-se, então, a publicação de regramentos que, mesmo em tese, afrontem direitos coletivos ou individuais. O que soa como inadmissível é, no meio da “partida”, mudar ou olvidar as regras do jogo. Na prática, penaliza todos aqueles que seguiram à risca o previamente estipulado. As liminares, comumente, representam um “fura-fila”, o velho “jeitinho” de se fazer as coisas. Mais do que uma pretensa “solução” tupiniquim, cheira a malandragem e, via de regra, ofendem o bom senso e a inteligência. Assim, os critérios – se válidos na origem – devem prevalecer. Aplicá-los “apenas” à maioria (olha só que contradição!) e desprezá-los em relação a alguns poucos, significa criar e reforçar privilégios, situação esta inaceitável. Os critérios devem servir para democratizar, ao máximo e dentro do possível, as escolhas, não para penalizar os que a eles se submetem. A segunda indagação: para quem servem mesmo os critérios? Apenas para os mais pobres e desavisados? Para todos? O próprio Judiciário não usa de critérios quando de muitas de suas decisões? Até que não se alcance o mundo “ideal” (nele, vale lembrar, o Judiciário seria dispensável...), precisamos resolver as questões do mundo “real”. Eis o desafio! Ao que parece, portanto, o estabelecimento de critérios (idade, renda, endereço, etc.) para a garantia de vaga na Educação Infantil das escolas públicas é, por assim dizer, um “mal necessário” e tomara provisório.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

SEMANA FARROUPILHA


SEMANA FARROUPILHA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Semana Farroupilha. Mais um momento para reflexão acerca do passado, mas, sobretudo, do presente. Ao que parece, não fomos capazes de aprender com o tempo. Assim não fosse, os ideais farrapos – quase sempre não ultrapassando o limite do discurso – pertenceriam tão-somente à história. Contudo, a igualdade e a liberdade, por exemplo, seguem pertencendo ao campo das utopias. Nosso querido Rio Grande caminha à margem do verdadeiro desenvolvimento, aquele capaz de distribuir renda e promover a felicidade e o bem coletivo. Até a esperança gauderia parece combalida frente à incompetência atávica dos “estancieiros” encrustados no poder – detentores de feudos em forma de secretarias, gabinetes, autarquias, agências reguladoras, etc. – em construírem alternativas capazes de alavancarem os serviços públicos. Por estas bandas do Sul, se gasta muito tempo, recursos e energia com as intermináveis campanhas eleitorais. As estratégias e planejamentos voltados ao interesse público são preteridas em favor dos conchavos partidários. A sigla destes páreos tem dado lugar à confusa e intragável sopa de letrinhas. PT, PTB, PSB, PMDB, PDT, DEM, PSDB, PPS, PR, PFL, PPS, PP, PCB, PSD... Haja guaiaca para sustentar toda essa gente e aplacar a gana voluptuosa pelas patacas do contribuinte. A preocupação com o preço do charque cedeu lugar à labuta diuturna na busca das moedas para a ração básica do vivente. Não bastassem os abusos do mercado, nós gaúchos precisamos alimentar, ainda, o mastodôntico Estado, pesado e ineficaz. Os tributos, feito o corvo de Prometeu, nos comem por uma perna, passando pelo fígado e acabando na/com nossa paciência. Quanta semelhança com o passado. A corrupção corre solta, de mãos dadas com a impunidade. Enquanto o Judiciário brinca de cabra cega, o sentimento de justiça e segurança se esvai. A verborreia togada causa asco, quando não passa em branco para o “grosso” acostumado ao trabalho duro para sustentar a prole. A corja engravatada e de paletó alinhado que, vez por outra, comparece às sessões legislativas, soa como estrangeiro aos olhos do pobre “índio”. O luxo e ostentação de palácios, tribunais, câmaras e assembleias ofendem a gauchada, esta acostumada à rudeza da vida. Não por acaso, não os tem por seus tais espaços. Por que então defendê-los quando de eventual “ameaça” vinda das ruas, da turba enraivecida?  O asseio pretendido pelos “estancieiros” não encanta. Desencanta, ultraja e maltrata. Verdadeiro fermento capaz de levedar o sentimento, ainda que sob a forma de uma quase invisível fagulha, de levante em nome de uma dignidade perdida, ou quiçá jamais conquistada. Sirva a Semana Farroupilha de instante, mais um, de contemplação, não a do tipo meramente romântica ou quixotesca, mas contemplação crítica, propositiva e revolucionária. Transformemos nossa apatia em façanha e que esta, por sua vez, sirva de modelo a toda a terra.  

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A DITADURA E A ESQUERDA NO BRASIL


A DITADURA E A ESQUERDA NO BRASIL
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A Ditadura Militar no Brasil, que se estendeu entre 1964 e 1985 – na prática, contudo, só voltamos a eleger (errado!) o presidente em 1989 –, esteve marcada pelo significativo crescimento da economia, mas, também, pelo cerceamento de importantes direitos, como o da liberdade de expressão. Tempos difíceis? Para quem? Por certo, para alguns, sim. À época, a participação política restava prejudicada, por exemplo, pelo bipartidarismo. A verdadeira oposição se dava à margem do sistema partidário. A dita “esquerda” no Brasil vivenciou momentos delicados, onde não foram incomuns a perseguição, a tortura e o ostracismo. O discurso combativo ao regime militar vinha ao encontro de importantes segmentos da sociedade. Parte desta, contudo, é bom que se diga, se mostrava simpática ao sistema implantado em 1964. Inexistia unanimidade de parte a parte. O tempo escoou e muitos dos antigos militantes de esquerda – após a chamada “redemocratização” – assumiram postos importantes em todas as esferas de poder, postos estes conquistados ou pelo voto ou pela “proximidade” com os donos do poder. Multiplicaram-se os cargos de confiança e funções gratificadas na mesma proporção que se deterioraram os já precários serviços públicos. Ao que parece, a memória dos equívocos tão condenados pela esquerda durante os “anos de chumbo” ficou perdida em meio às páginas amareladas dos livros de história. O discurso revolucionário de transformação das estruturas socioeconômicas esfarelou-se. Os descaminhos e práticas condenáveis do passado ditatorial seguem de vento em popa. Não menos comuns são a política de apadrinhamento, a compra de votos, as negociatas e os lobbies dos grupos econômicos junto ao Estado como um todo. Independência do Judiciário? Autonomia do Legislativo? Eficácia do Executivo? Apenas balela. O Estado brasileiro do pós-Ditadura guarda mais semelhanças do que diferenças em relação ao passado. Apesar da multiplicidade de bandeiras partidárias, a prática é – salvo honrosas exceções – a mesma de outrora. Jogo de interesses, troca de benesses e muita, muita mesmo, encenação! Os “mocinhos” da Ditadura, muitos deles, se transformaram em vilões. Os vícios horrendos por eles condenados se transformaram em práticas corriqueiras em meio aos corredores de palácios, prefeituras, tribunais, câmaras e assembleias. Vale mais um antigo militante corrupto do que um torturador do DOPS? Imensurável é o dano causado por ambos ao “patrimônio”, principalmente, social e ético do país. Fazem acreditar que “direita”, “esquerda” e “centro” apontam para o mesmo lado, lado este diametralmente oposto ao interesse da maioria. Reforçam a desconfiança em relação ao pretenso Estado Democrático de Direito, exacerbam a apatia política, dilaceram e soterram sonhos e utopias. Crime por deveras hediondo, pois contra o mais precioso e caro bem de um povo: a esperança!


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

CONVERSA PARA BOI DORMIR


CONVERSA PARA BOI DORMIR
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Não fosse trágico, nosso país seria o paraíso da comédia e das cenas hilariantes. Quem não tem acompanhado, através de uma imprensa muitas vezes sensacionalista, a “indignação” do governo brasileiro face à pretensa espionagem do Tio Sam? Reação, ao que parece, teatral, cênica, conversa para boi dormir. Como se fosse novidade a espionagem, seja ela nas próprias entranhas do país, seja a do tipo alegada pelo nosso (?) governo. Internamente, grampo telefônico, venda de dados pessoais, espionagem industrial são como pé carregado de chuchu. Internacionalmente, não é diferente. Tão antiga quanto o homem. A espionagem antecede o advento do Estado Moderno. Está aí, por exemplo, a Literatura para nos dar algumas amostras das intrigas palacianas. Assim, a espionagem perpassa todas as Idades e tempos da história. Não poupa qualquer civilização, por mais estranha que nos soe a cultura. Por que seria diferente hoje? Ora bolas, o avanço tecnológico, cada vez mais, cria novas ferramentas de bisbilhotagem alheia. Talvez nem precisasse, afinal – feito peixes – morremos pela boca (virtual!), ou seria pelos dedos? Fornecemos, irresponsável mas voluntariamente, para o mundo nosso “perfil” completo. A bandidagem agradece! Nossa nudez, que antes ficava entre quatro paredes, tornou-se pública. Ainda assim, por vezes, seguimos num discurso pudico e hipócrita. Portanto, conversa para boi dormir. O governo brasileiro reclama do quê mesmo? Dá publicidade ao que é banal, apesar de não dito. Tão banal quanto a corrupção, malversação de recursos, violência, precariedade dos serviços públicos, marginalização de enormes parcelas da população, descontrole orçamentário... Haja boi para fazer dormir diante de tamanho barulho. Não por acaso, os marqueteiros do governo, com alguma frequência, mudam o tamanho, a cor ou o nome do boi: Carnaval, Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas, Mega Sena da Virada. Uma boiada! O boi da vez é a espionagem americana. No fundo, a tentativa de desviar os holofotes (ou parte deles) para outras questões que não a da incapacidade do Estado brasileiro em cumprir com suas obrigações constitucionais. Estratégia tão antiga quanto o próprio boi. É verdade que, às vezes, a artimanha governamental não funciona e o boi vai para o brejo. Salve-se quem puder. A merda, até então disfarçada pelo cheiro da perfumaria do Estado, fede como nunca. É quando, então, muitos tomam as ruas e praças a procura de ar fresco. Rolam cabeças (a corda costuma arrebentar do lado mais fraco), enquanto sobram discursos e promessas. Apressam-se os porta-vozes do ente público em acharem explicações para o injustificável. Ante o estrondo e o cheiro fétido (que faz lembrar o ar dos corredores de hospitais e presídios) busca-se uma boa história, mesmo que de além-mar ou da parte rica da América (santo de casa não faz milagre!): conversa para boi dormir. 

domingo, 1 de setembro de 2013

Discurso do Presidente do Uruguai, José Pepe Mujica na Rio+20 - Legendad...

CONAN (OU SERÁ CONAE?), O BÁRBARO


CONAN (OU SERÁ CONAE?), O BÁRBARO
Gilvan
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                Saudade dos tempos de herói. Como esquecer daquelas batalhas homéricas, das lutas corpo a corpo tendo à mão a espada forjada pela tradição dos antepassados? Poucas não foram as histórias onde, por um triz, sobrevivera. Só em menor número do que os inimigos mortos. Sem dó e nem piedade. Parecia sentir, ainda, o cheiro do sangue em meio às intermináveis pradarias. Não lhe saía da memória os olhos esbugalhados do infeliz atravessado pela navalha. Era temido, de norte a sul, do ocidente ao lado que nasce o Sol. Conan, o Bárbaro. Tema de filmes, trilhas sonoras. Povoara a imaginação libidinosa de mulheres, servira de modelo aos homens. Músculos e mais músculos. Derrubava, naqueles tempos, dois touros de uma só vez. Certa feita, rasgara a boca de um leão. Coisa de causar inveja a Sansão e Golias. O que era Hércules comparado a ele? Quanta saudade daqueles tempos... Agora, quem diria, todos passavam de largo diante dele. Ser desprezível, anônimo, comum. Enfiado ali, no terceiro andar daquele prédio de Cachoeirinha City, era nada mais do que um singelo servidor público a esperar a minguada aposentadoria. O olhar agudo e assustador de outrora há muito cedera lugar às lentes a lhe corrigir a miopia. Sem autógrafos, sem reconhecimento. Sequer um aceno de cabeça. Quanto às mulheres, ou chamavam-lhe de “tio”, ou cediam a ele o lugar no elevador. Deprimente. Conan? Quem? Esquecido em meio à poeira do passado. Os poucos que o conheciam, o chamavam, isto sim, era de Conae. Por quê? Ninguém sabia ao certo. A origem do nome, nem ele próprio sabia. Nome não, alcunha! Alguns diziam que era produto de um surto psicótico que o infeliz tivera após um esgotamento nervoso. Ao que parece, teria sido em decorrência de uma conferência ocorrida há alguns anos, onde coubera a ele parte da sistematização dos ditos “eixos”. Não podia nem ouvir falar neles. Causavam-lhe arrepios. Segundo diziam, o coitado, por dias a fio, não parava de balbuciar “três, três, três...”, enquanto batia a cabeça contra a mesa. Era querer vê-lo nervoso, bastava convidá-lo a visitar Sapiranga, Santa Maria, Taquara... São Sebastião do Caí, então... Durante muito tempo, não dizia coisa com coisa. Chegara ao ponto de quase se lançar pela janela. Não fosse os conselhos da Índia – que, nas horas vagas, vendia pães –, teria passado desta para melhor. Algumas lendas foram se formando em torno do pobre homem. Os mais maldosos teriam, inclusive, espalhado a falsa notícia de que Conae assassinara suas colegas de trabalho e escondido os corpos sob o sanitário. Pura invencionice. Era incapaz de fazer mal a uma mosca. Vivia só. Ele e a saudade dos tempos de herói.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

OS VÁRIOS TONS DA MORTE


OS VÁRIOS TONS DA MORTE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira


                Trazia ainda na lembrança o cadáver a descansar no ataúde. Braços junto ao corpo, as mãos cruzadas sobre o peito, o terno impecável, o silêncio entrecortado por alguns sussurros misturados ao choro aqui e acolá. A boca a borbulhar, o algodão enfiado nas narinas. Tinha lá seus dez ou onze anos. Talvez mais, talvez menos. Ele, não o defunto. Este, ao contrário, era um homem passado dos quarenta. Motorista de ônibus. Segundo diziam, teria sido acometido de um infarto fulminante. Mal tivera tempo de parar o coletivo e pronto! Tudo acabado. Deixara um guri de tenra idade. A viúva parecia fora de si com aquele olhar perdido a mirar não sei o quê. O velório se dava no interior da pequena Assembleia de Deus. Naquela época era comum, assim como o acento agudo na denominação do templo. Era a primeira vez que tinha visto um morto assim, tão de perto. Misto de curiosidade, medo e nojo. Não conseguia compreender o porquê do algodão no nariz e nem tampouco do lenço a cobrir, vez por outra, o semblante pálido do sujeito. Diferentemente da maioria, sequer cogitava tocar naquele corpo. Deveria chorar? Até que tentara. Imaginava cenas trágicas envolvendo algum ente querido como forma de impulsionar as lágrimas a jorrarem. Nada. Nenhuma gota. Não queria ser tomado por insensível, mas fazer o quê? Mal conhecia o falecido. Não muito distante daquele tempo, antes ou depois – triste memória esta que me trai –, tinha acompanhado, meio que de longe, outro velório, o do velho Balbino, tio do Tonico, seu pai. Era um ancião, coração enorme, jamais largava o pito e a bombacha larga. A casa era simples, de madeira, com a patente disposta na parte dos fundos. Parecia ainda ouvir o zumbido das varejeiras cruzando de um lado para outro, ziguezagueando em volta das fezes misturadas à urina e uma infinidade de papel. Como se fosse hoje, lembrava do receio que tinha de ser espiado entre as frestas da “casinha”. Pior do que aquela sensação, só a aspereza do jornal ou do papel de enrolar pão que fazia o vivente, menos acostumado à rudeza do interior, pensar duas vezes antes de arriar as calças. Funeral em casa, na sala. Colocado sobre dois bancos, dispostos nas extremidades, o caixão parecia flutuar no meio da peça contígua à cozinha. Ele, gurizote ainda, preferia esta última. Distante do corpo petrificado e próximo ao simpático conjunto formado por uma mesa e algumas cadeiras com estrado de vime, onde repousava um pão de quilo e um pote de “Mu-Mu”. Não muito longe, um relógio em forma de galinha. Tia Mercedes, a viúva, apesar da dor pela perda do companheiro, achava forças para acolher a cada um que chegava. Enquanto isso, passava de mão em mão o prato de bolinhos de chuva regados a café misturado à cevada. Ruim ao paladar do guri, acostumado com a vida urbana bem diferente daquela gente de Santa Maria do final dos anos setenta. Depois foi a vez do Vô Juca, da Vó Ina, dos Tios Nenê, Neno, Darci... À medida que os anos foram passando, a morte parecia se aproximar. Chegara a vez do Tonico. A eterna inimiga tornara-se, por fim, íntima. Passara a integrar a família. A morte é assim. Não pede passagem, nem tampouco licença. Invade. O que outrora era conhecida, porém distante, sentara à mesa, sem cerimônias. Indesejada, mas fazer o quê? A morte, feito aquele primo “mala”, come e bebe conosco, sem nada a acrescentar ou retribuir. Só castra. A partir de um certo ponto, quando já se sente dona de nossa casa, passa a dar as cartas. É autoritária, intransigente, arrogante, insensível, fria... Tudo parece girar em torno de seu umbigo. Mesmo odiada e mal quista, não há um só instante em que deixe de ser lembrada. Não negocia, tamanha sua autossuficiência. Pudera, seu poder despótico prevalece desde os tempos mais remotos. Fica à espreita do berço, da cama, do leito de hospital, da curva na estrada, da orla do mar, das entradas de cinemas, boates e danceterias. Pacientemente, aguarda o momento de dar o bote fatal. Fica a contar cada gota de soro ou de sangue, batidas cardíacas e movimentos torácicos, até a expiração final. Apagam-se as luzes. Ao fechar das cortinas, o que vem depois?  Ironicamente, só ela, a morte, é capaz de dizer!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

PAI


PAI
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                Domingo próximo, dia onze de agosto. Como tantas outras, uma ótima oportunidade de fazer um afago no teu pai. Dizer-lhe o quanto é importante, inflar seu ego com elogios, mesmo que exagerados. Professar e confessar teu amor, mesmo que óbvio, por ele. Envolvê-lo num forte e interminável abraço. Sentir seu cheiro, acariciar sua face e dividir com ele o tempo aparentemente eterno, tempo que ali adiante, quiçá, se transformará em saudade. Pedir que conte uma história ou mesmo uma daquelas piadas que só ele ri, pois a graça das mesmas reside é no contato dos corpos, na troca de olhares, no sorriso de quem narra e de quem ouve. Mais do que as palavras, o que resistirá ao tempo é a lembrança do encontro, o jeito inconfundível do pai dizer as coisas. Momento de gratidão por ser ele, teu pai, mais do que um provedor, mas também teu herói e guardião. Agradecer-lhe pela vida, alimento, segurança, lazer, abrigo... Pelas noites mal dormidas em face das tuas dores e pesadelos noturnos. Desculpar-te pelas lágrimas, por vezes sorrateiras, que provocaste. Submeter-te ao suave e amoroso jugo paterno, como sinal não de fraqueza, mas de reconhecimento e aceitação de um nobre mandamento bíblico. Expor-lhe e comungar com ele teus sonhos, mas também teus medos, anseios e, por que não, alguns de teus segredos. Fazer memória da infância, tua e dele, nascendo daí um oceano de boas gargalhadas. Ao fundo, o ritmo do coração a palpitar, bombeando sonhos e juras de amor eterno. Dia dos Pais. Data para presentear? Também, mesmo que uma “lembrancinha” em forma de cueca, lenço, gravata, loção... Grandes ou pequenos, caros ou baratos, úteis ou não, artesanais ou “sonhos de consumo”, no fundo o que conta é a oportunidade de estar junto, de calar na alma a singularidade do encontro, onde abraços e beijos, assim como as palavras de carinho, têm valor imensurável. Quanto aos pais que se foram, como o meu, fica a profunda e indescritível saudade. Quantas coisas poderia ter-lhe dito e não o fiz? Quantas oportunidades perdidas de traduzir meu amor e gratidão por ele através de gestos e atitudes? Poderia ter amado mais... Poderia... Sorte tua que podes conjugar o verbo noutro tempo. Aproveitas, portanto. Bem-aventurado és pela oportunidade de não deixares passar em branco o dia de hoje. Seja cada momento, filho(a), dedicado a teu PAI. 

ESQUECI


ESQUECI
Gilvan Teixeira
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                Perdão! Uma, entre tantas outras virtudes de um homem santo. Quatro de agosto foi o Dia do Padre. Como poderia ter esquecido? Imperdoável, não fosse a misericórdia divina e a condescendência de meu querido Diretor, Padre José Luiz, estaria condenado a ferver no lago de fogo e enxofre. Espero mitigar tamanha falha com este singelo, porém sincero, texto. Coincidência ou não, o Dia do Padre é comemorado apenas alguns dias após a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Estadia esta emblemática. O Sumo Pontífice pautou sua fala, principalmente, nas questões sociais, descortinando importantes verdades bíblicas que, ao que parece, ficaram à beira da estrada do mundo cada vez mais globalizado. Lembrou, por exemplo, que o capital não deve ser um fim em si mesmo, nem tampouco deve estar a serviço de uma ínfima minoria, mas deve, isto sim, promover a justiça social e a diminuição das desigualdades. O exercício do sacerdócio, neste mundo cada vez mais laico e avesso à fé, se reveste de indelével importância. Verdadeiro farol em meio ao encapelado mar. Espécie de norte frente ao relativismo exacerbado que a muitos confunde. Vão-se não apenas as certezas de outrora, mas os caros valores cultivados ao longo do tempo. Num contexto que espezinha o amor, a vida, a honra, a família e a ética, ser sacerdote é como que nadar contra a maré. É, por vezes, opor-se ao “politicamente correto” e assumir posicionamentos pouco simpáticos ao modismo midiático. O sacerdócio, não raras vezes, pressupõe abrir mão da família, do lazer, da privacidade e do conforto. Os parcos recursos para a grande Obra, comumente, contrastam com uma demanda cada vez mais crescente. Falta não apenas pão, mas espiritualidade. Viceja a apostasia. Mais do que nunca, urge um sacerdócio capaz de fazer a diferença, comprometido com a sorte alheia, solidário aos que têm dor no corpo e na alma. O pastor é o sal numa terra cada vez mais insossa. Portanto, justa é a homenagem aos homens que fazem da batina sua armadura de fé. Parabéns, de forma muito especial, aos Padres da Rede de Escolas São Francisco.  Ao homenageá-los, o faço a todos os sacerdotes.


O SUMIÇO DA PASTA


O SUMIÇO DA PASTA
Gilvan
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                Verdadeiro enigma. Não se sabe como, o fato é que a pasta que até então descansava sobre a “área de trabalho” do computador sumira. O pavor tomou conta do lugar, menos pelos documentos perdidos do que pelo temor quando da chegada da Bruxa. Já não bastava todo o estresse da mudança de casa, das noites mal dormidas por causa das intermináveis insônias, das horas perdidas em salas de pronto-atendimento por causa dos netinhos... Agora mais esta.  Nem as simpáticas propagandas veiculadas na RBS seriam capazes de aplacar a fúria da chefa. Foi um deus-nos-acuda na sala. A Mulher-Gato até esquecera a dor no joelho. Corria de um lado para outro, fazendo inveja ao mais rápido velocista. A Doidinha então, endoidecera de vez! Feito barata tonta, seguia daqui para lá e de lá para cá, transtornada. O Lanterna Vermelha, ao que parece, não apenas recuperara a visão do olho esquerdo – quase perdida depois de uma longa inflamação da conjuntiva ocular –, como ampliara a capacidade visual, metendo inveja no Clark Kent. Não tinha canto que não olhasse na máquina. Meticulosa e cirurgicamente mexia em cada um daqueles intermináveis arquivos e pastas. Tudo em vão. Nada de aparecer a maldita pasta. Praga de sogra, sabotagem, coisa do capeta... Explicações não faltavam para o sumiço. Enquanto isso, os ponteiros do relógio seguiam avançando na mais absoluta indiferença, como a zombar daqueles pobres mortais. A Doidinha, num de seus raros espasmos de lucidez, esboçara uma saída, apesar de meramente protelatória: atrasar, ao máximo, o retorno da Bruxa e, com isso, ganhar mais alguns minutos até que se achasse a pasta. Ligar para ela? Dizer o quê? Ora, de boba a Bruxa não tinha nada. Ao que tudo indica, tinha lá seus informantes. Noutros tempos eram o espelho, a bola de cristal e as cartas. Hoje, eram os incontáveis “amigos” do facebook. Verdadeira e poderosa rede de espionagem. Bastava meia dúzia de toques e pronto! Tudo e todos estavam lá. Nome (civil ou “social”), endereço, (des)ocupação, idade, sexo (ou falta dele...), preferências, fotos (muitas delas comprometedoras), rotina, etecetera e tal. Os arapongas eram coisa do passado, assim como a velha vassoura da Bruxa. Ambos caíram em desuso, o que não deixava de ser uma pena, especialmente para os românticos, ébrios e boêmios. O mundo já não era o mesmo. Devaneios à parte, o fato é que o grupo precisava resolver o problema da pasta ou, melhor, da falta dela. Como ia dizendo, a Doidinha tivera a ideia de atrasar o retorno da Bruxa. Forjar uma denúncia acerca de uma creche, inventar uma palestra em algum município (de preferência, bem distante) ou, ainda, propagar a falsa notícia de uma paralização do transporte coletivo. Qualquer coisa que garantisse mais tempo até que a pasta voltasse a aparecer. A teoria parecia simples. Assim como tudo o que sobe desce, o que some reaparece. Certo? Errado. Ao menos era o que se desprendia do relógio que não cessava de correr. A demora na solução do misterioso sumiço da pasta só fazia aumentar o pavor do trio. Ante o desespero, encheu-se a cuia com folha de laranjeira, melissa e erva doce, tudo misturado à erva-mate, como forma de mitigar as prováveis consequências do furor de quem estava por chegar. Ligou-se para o homem das cucas e para a índia que vendia pães, preparando-se um verdadeiro banquete de “boas vindas” à Bruxa. Só por precaução, a Mulher-Gato acionou, também, a SAMU e o Corpo de Bombeiros. Vá que a chefa não se deixasse seduzir pelos manjares... Coube ao Lanterna Vermelha escrever o testamento, dele e das colegas. Exceto o da Mulher-Gato, proprietária de um Cerato e de alguns imóveis no metro quadrado mais caro de Cachoeirinha City, bastou um pedaço de papel de pão para arrolar os parcos bens do grupo. Não demorou muito, a porta da sala se abriu e por ela adentrou a Bruxa. Como de praxe, parecia elétrica. Fazia tudo ao mesmo tempo. Comia, bebia, lia, falava, remexia nos papéis sobre a mesa. O que para outros era impensável, para ela era trivial. Não demorou, veio a temida pergunta: “quem salvou a pasta?”. O grupo se entreolhou. A Doidinha – não fosse o pedido de calma do Lanterna Vermelha – quase se jogou pela janela do prédio. A Mulher-Gato, por sua vez, sorveu a pimenta trazida do México, pensando ser a bomba do mate. Quando tudo parecia estar perdido, o alívio. “Achei, não precisa mais”, anunciou a Bruxa. Não é que a pasta estava lá, na área de trabalho do computador, como se nada tivesse acontecido. Ninguém entendeu nada. Inexplicável. Tudo parecia ter voltado ao normal, ao menos até o próximo mistério...


terça-feira, 30 de julho de 2013

O HOMEM QUE NINGUÉM VIA


O HOMEM QUE NINGUÉM VIA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Passeava pelo pátio da escola. Alguns minutos do recreio já tinham se ido. A gurizada formava grupos aqui e acolá. Alguns mais numerosos, outros não mais do que duplas. Por mais que insistisse – Bom dia! Bom dia! Tudo bem? Tudo bem? – ninguém respondia. Só silêncio do outro lado. Tantos anos dedicados ao lugar e o que recebia agora era tão-somente a indiferença. Sentia-se invisível. Todos pareciam ignorá-lo. Não tivesse recém retornado de um período de descanso, juraria ser coisa da cabeça, produto do estresse. Contudo, estava bem e gozando de plena consciência. Enquanto andava, com os braços escondidos por detrás do próprio corpo, alguns guris cruzavam pelo homem, numa espécie de frenesi de estrelas cadentes. É como se não estivesse ali. No fundo, até que desejara que um daqueles piás lhe esbarrasse, dando a certeza de que tudo aquilo era real. Uma espécie de belisco, capaz de vencer o torpor que, talvez inconscientemente, tivesse-lhe lançado naquele sentimento de modorra crescente. Estaria ali? Começava a duvidar da própria existência, não fosse o desconforto gástrico que o incomodava já há alguns dias. As conversas cruzavam daqui para lá e de lá para acolá. Impossível decifrar aquele emaranhado de vozes e mescla de assuntos. Vez por outra, uma que outra palavra marota fugia ao círculo e vinha soprar junto aos ouvidos do homem. Solta, mais parecia criança sozinha. Era no grupo, com outras palavras e gestos permeados dos mais diversos sentimentos, que encontrava sua razão de ser. Ao que parecia, até elas, as palavras, passavam de largo do pobre homem. Rejeitado. Quase que execrado, mesmo que tacitamente. Sentia na pele o ostracismo que, ainda ontem, discorria em suas aulas. É bem verdade, que exclusão duma outra espécie. Mais perversa. Profundamente dolorosa. Sentia-se estrangeiro em sua própria terra. Pior, um párea destituído de tudo, inclusive do próprio invólucro da alma. Invisibilidade tamanha a ponto de aniquilar o fio condutor da humanidade: o diálogo com o outro. Passara a sentir saudade do confronto, do embate mesmo que áspero. Onde estariam as diferenças? Naquele momento, o consenso soava funesto e sombrio. Ansiava pela voz adversa, tábua de salvação para a profunda tristeza que o assolava. Gritasse, talvez o escutassem. Talvez o vissem. Aspirava por nem que fosse um par de olhos que o resgatasse daquele insuportável anonimato. Olhos da alma, prontos para saudá-lo, acolhê-lo, ressignificá-lo. Ao fundo, mesmo que tímido, o sinal que dera fim ao recreio se mostrara incapaz de pôr fim, também, ao niilismo daquele homem.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

O PIJAMA


O PIJAMA
Gilvan Teixeira
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                Detestava aquele pijama. Não lhe saía da cabeça a noite em que o maridão dissera ao ouvido dela: “foi a melhor noite de minha vida”. Maravilha, não fosse o fato dele ter chegado ao ápice após eróticas esfregas no pijama da companheira. Só no pijama! Ela, por sua vez, ficou a ver navios... Até que deu algumas indiretas ao infeliz. Sem sucesso. Demorou para “entender” os apelos da esposa. Quanto a “atender”, parecia fora de questão. A idade talvez ou, quem sabe, os longos anos de convivência militavam contra o pobre varão. Ele, até que tentara reacender a chama, todavia esta se esvaíra em meio ao último espasmo de prazer. O monólogo sexual não fora proposital. Podia jurar que a mulher estava acompanhando todo aquele frenesi corpóreo. Mal sabia ele que, no quebrar das ondas, quando se ouve aquele “chuááááá”, era um lobo solitário. Quanto à mulher, mais lembrava uma andarilha em meio ao deserto. Completamente seca. Árida e indignada ante o aparente egoísmo do marido. Diante das explicações do sujeito, a revolta só aumentava. Preterida pelo pijama. Ora essa! Não bastasse, a infeliz exclamação do parceiro: “foi a melhor noite...”. Desgraçado. Insensível. Grosso. Por mais extensa que fosse a lista de impropérios, era um nada diante da indisfarçável raiva da mulher. A vontade que tinha, por mais que se desculpasse o homem, era aleijá-lo. Nos momentos mais obscuros do ódio, a mulher parecia ver o marido transformado em eunuco, enquanto ela, por sua vez, estaria rodeada de meia dúzia de gladiadores “saradões”, recém-chegados da longa batalha, com as enormes espadas em riste. Tanto quanto radical, foi efêmera a vingança imaginativa da esposa. Seis homens mijando fora do vaso, cheirando a cerveja, soltando flatulências mal cheirosas, bagunçando o orçamento doméstico... Não, nem pensar. Melhor só um. Mesmo que fosse aquele infeliz. Não bastasse o infortúnio causado pelo traste, teria ainda que lavar o maldito pijama. O marido, ante o mal-estar causado, já não sabia o que dizer. Ampliara, de última hora, o rol de elogios: ninfeta, rainha, sereia. Diante da cara amarrada da esposa, apelara para o outro extremo: piranha, vagabunda, messalina... Nada, nem sinal de perdão. Pelo visto, a noite seria longa. Pior era ter de acordar e encarar a mulher nos olhos, enquanto lá fora, estendido no varal, estaria o pijama com aquele ar da mais pura satisfação.



quarta-feira, 17 de julho de 2013

SIMPLES ASSIM !


SIMPLES ASSIM!
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

               
                Por que complicar o que é fácil? Eis aí flagrante retórica daqueles que se apoderaram[1] do Estado brasileiro. Por vezes, deveríamos pedir que nos belisquem[2], tamanho o mar de fantasias criado por marqueteiros muito bem pagos. O Brasil que nos vendem nas propagandas, nem de perto parece com aquele que conhecemos. “Anões” não faltam para contar a história. Assim como não faltam cuecas recheadas de dinheiro, vultosas aposentadorias compulsórias de magistrados corruptos, viagens particulares custeadas pelo dinheiro do contribuinte, malversação de recursos públicos, privilégios corporativistas legitimados por imorais planos de carreira, entre tantos outros tristes ingredientes que fazem deste país uma enorme e cara pocilga. Apesar de tamanhos e graves problemas, ao que parece, o Estado brasileiro – capitaneado por Brasília – já tem a solução. Simples assim! Como um passe de mágica. Para o caos na saúde pública (e privada também...), importa-se médicos. O resto é só “o resto”. Falta de leitos, precariedade física dos hospitais e postos de saúde, jornadas de trabalho desumanas e mal remuneradas dos profissionais da saúde, má gestão do erário público, lucro exorbitante de empresas que veem na saúde apenas uma máquina de fazer dinheiro... São apenas “detalhes”. Para o caos no ensino público, algumas outras soluções mágicas. Simples assim! Falta de escolas? Mete-se as crianças em containers. Universaliza-se o acesso à Educação Básica na mesma proporção em que se universaliza a mediocridade do saber. O resultado não poderia ser pior. Feito cão em torno do próprio rabo, fica o país a dar voltas em torno de problemas como a evasão, a repetência e a desvalorização do magistério[3]. Quanto às injustiças étnico-sociais criadas ao longo do tempo, o Estado brasileiro também achou a solução, através das famigeradas “políticas afirmativas”[4]. Simples assim! Enfia goela abaixo das universidades todos os que se declaram pobres, negros, pardos ou índios, e pronto! Quanto aos outros, são só os “outros”. No que tange à (in)segurança pública, não é diferente. Tudo tem solução. Converte-se, por exemplo, o dito regime semi-aberto  em “prisão domiciliar” e, adivinhem, resolvido o problema da superlotação dos presídios. Simples assim! Ah, sem falar nos indultos natalinos (onde o presunto somos nós...), na progressão de regime sem critérios, entre outras maravilhas jurídicas. “Garantismo”, há muito vem sendo sinônimo de absoluta, vergonhosa e perigosa impunidade. O Estado, contudo, segue no seu faz-de-conta. Quando o “berço esplêndido” se torna um tanto que incômodo e boa parte do “povo” ganha as ruas, o Poder Público logo apresenta a solução: plebiscito, referendo, Constituinte... Simples assim! Triste engodo. Já assistimos essa história. Plebiscito para escolha da forma de governo (República ou Monarquia), referendo para o desarmamento, Constituinte para mudança da Constituição... Melhoramos? Seguem as mazelas, a corrupção corrói a cada dia as estruturas do Estado, a violência fugiu ao controle, os serviços públicos estão aquém do irrisório e aceitável. Quem era lobo, segue lobo. Nós, a maioria dos contribuintes, seguimos feito cordeiros. Sendo tosquiados a não dar mais. Talvez estejamos exagerando, fazendo tempestade em copo d’água. Quiçá, a solução seja, de fato, simples: acabar de vez com o Estado. Simples assim!




[1] Alguns, através do voto é verdade...
[2] O Analista de Bagé optaria por um joelhaço no vivente (ver Luís Fernando Veríssimo).
[3] Muitos são os lugares neste país em que inexiste a qualificação mínima necessária para lecionar. Curiosamente, não se aventou a possibilidade de também importar professores de outros lugares... Pudera, com o que se paga... nem os cubanos topariam.
[4] Muitas de tais “políticas” têm se mostrado questionáveis, tanto do ponto de vista legal, quanto ético. As desigualdades sociais, econômicas e de qualquer outra natureza são complexas e, como tal, exigem soluções que passam, obrigatoriamente, pela refundação do Estado. Este último segue assentado no clientelismo, na confusão entre público e privado e na hegemonia do poder e do interesse do capital. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

O OUTRO LADO DA COSTELA


O OUTRO LADO DA COSTELA
Gilvan Teixeira
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                Quinze de julho. Dia do homem. Você sabia? Eu, sinceramente, não. O comércio, no afã desesperado de enfiar seus produtos goela abaixo, cria e reforça datas como a de hoje (ontem?). Ora, como se todos os dias não nos pertencessem. No princípio era o Verbo, lembra? Na Pré-história era o homem das cavernas. Durante a Antiguidade, quem eram os reis, faraós e profetas? Na Idade Média, eram os senhores feudais quem davam as cartas. A Modernidade foi marcada pelos mecenas, enquanto na Contemporaneidade somos nós, os homens, que seguimos à frente das grandes empresas, agremiações partidárias e clubes de futebol. Não fossemos nós, o que seria delas? Eva, sem Adão... Inimaginável. Corpo sem costela. Insustentável. Bambo, ao sabor do vento. São os homens o alicerce, o sustentáculo, o provedor. Daí não haver espaço para a dor, para o choro e para o sorriso fútil. Nossa insensibilidade foi tecida pelas agruras do tempo, pelas guerras travadas em campo aberto e junto às trincheiras. O ar sisudo, o forjamos ante a eterna ameaça do potencial concorrente. Traçamos um círculo imaginário em torno de nossa casa e de nossa família e, com unhas e dentes, afastamos tudo e todos que representem risco ao que julgamos ser nosso. Não admitimos fraqueza e condenamos a covardia. Quinze de julho, que nada. Somos senhores do tempo. Subjugamos o medo e afugentamos as forças etéreas ou terrenas, jamais demonstrando qualquer titubeio frente ao desconhecido. Somos faca na bota. Ainda mais para estas bandas do Sul, onde peão é peão e prenda é prenda, onde ximango e maragato não se misturam. Cabe a nós a última palavra, nem que seja para... aquiescer (minha mulher acabou de chegar neste momento!). O que nos torna especiais é a possibilidade de nos vermos em nossa “cara metade”. O que é nossa labuta perto das dores do parto? O tempo que aparentemente perdemos a espera da mulher amada, envolta em suas compreensíveis vaidades, em nada se compara com a longa espera gestacional. Mulheres guerreiras, valentes, multifuncionais. Não fossem vocês, estaríamos perdidos, incapazes que somos de cuidar para que o leite não se espraie pelo fogão, de enrolar as meias ou de achar as próprias cuecas. Somos tolos, isto sim. Morremos mais cedo, nos matamos mais fácil e nos corrompemos por quase nada. Ano após ano, geração após geração. Teimamos em não aprender com os erros do passado. Quebramos prefeituras e insistimos em discursos que pouco mais produzem do que cuspe e mau hálito. Pensando bem, ter um dia em alusão a nós já é muito. Quase um exagero. Quiçá, presente de uma mulher. Viva o nosso dia! Parabéns a todos os homens... 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A BRUXA


A BRUXA
Gilvan Teixeira
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                O inverno mal iniciara e o frio já era intenso. O minuano diminuía ainda mais a sensação térmica naquela manhã. Cachoeirinha estava envolta pelas brumas. Apesar do adiantado da hora – passava das seis –, ainda era escuro. O rio, ou o que sobrara dele, exalava uma densa nuvem a esconder tudo a sua volta. A artéria principal da cidade metropolitana mais parecia aqueles fiozinhos tomados de pequenas lâmpadas, muito comuns em período natalino. Verdadeiro pisca-pisca das lanternas traseiras dos automóveis, enfileirados naquele lerdo movimento de arrancadas e freadas. No interior dos coletivos, vultos. Anônimos, espremidos feito gado. Prontos para o abatedouro, para a dureza da lida. Verdadeiras sardinhas em direção à enorme boca recheada de dentes dos tubarões. Lado a lado, carros particulares, luxuosos alguns, e ônibus lotados. Entre eles, em comum, os vidros embaçados pelo contato do ar quente saído daqueles corpos com o gélido ar que brotava do polo meridional. O barulho artificial saído dos motores afugentara, há muito, o canto do galo. Não fosse o Mato do Julho e o “Bosque”, teriam desaparecido todos os vestígios do tempo em que o lugar trazia os ares do interior. Lá, no Bosque, em meio à paisagem bucólica, diziam os mais antigos, vivia a Bruxa. Não eram poucos os que juravam, de pés juntos, tê-la visto. É bem verdade que as narrativas pouco tinham em comum, salvo um ou outro detalhe. Alguns afirmavam tê-la visto enfiada num longo vestido preto, coberto por uma capa escarlate. Outros, contudo, eram menos caricaturais. Descreviam a mulher como um ser belo, encantador, quase uma sereia a enfeitiçar os incautos. No lugar da vassoura, um ramalhete de flores multicoloridas e perfumadas. Muitas eram as versões envolvendo a origem, características e intenções da Bruxa do Bosque. A lenda mais aceita era a de que ela teria vindo das bandas do Passo de Torres. Nascida no interior, já teria muito cedo dado mostras de suas particularidades. Ainda pequena – naquela época o cabelo cacheado já a diferenciava –, diziam, teria demonstrado enorme interesse pelos segredos da floresta. Os sons, cheiros e movimentos que para a maioria dos mortais eram motivo de medo avassalador, para a menina soavam como inspiração. Era duvidar, lá estava ela a observar ervas aromáticas e pássaros exóticos. Ao que tudo indica, era inquisidora, curiosa e insistente. Enquanto a mãe não lhe explicasse a funcionalidade daqueles vegetais, não sossegava. Esta serve para quê? Aquela, e aquela outra? Absorta, prestava atenção a cada explicação. Os olhinhos brilhavam embalados pelas histórias que se seguiam. O poder curativo da natureza despertava na guria um misto de respeito e devoção. Passara a ver e se ver a partir do vento, da chuva e do fogo. Para ela, nada era por acaso. O que de início era desconfiança, com o tempo se tornou certeza. Segundo diziam muitos, a Bruxa nada tinha de má. Era como que uma extensão da “Grande Mãe”, uma parte da natureza ainda não coisificada pelos atropelos do mercado. Viam-na como manifestação positiva, fonte de boas vibrações e sinônimo de um bem-vindo animismo. A ideia de uma velha nariguda, verruguenta e sinistra passava de largo dos que viam a Bruxa com simpatia. Afugentavam, ainda, a imagem associada ao enorme caldeirão, cheio daquele líquido incandescente alimentado por insetos, anfíbios, répteis, morcegos, mexas de cabelo e pós de origem duvidosa. Para os defensores da Bruxa, ou de sua imagem, a pequena cidade perderia muito de seu romantismo, não fosse as histórias contadas. Verdadeiras ou não. O que é a verdade, senão aquilo em que se acredita? Valem pelo efeito que produzem. O cheiro do orvalho a embeber a pequena cidade parecia convidar os transeuntes a sonhar, mesmo que a contragosto acordados. Vez por outra, em meio ao clima leitoso do inverno, um vulto. Duvidasse, era ela, a Bruxa, a espreitar grandes e pequenos, homens e mulheres. Pura diversão, talvez. Serelepe e faceira. Como nos tempos de criança lá para as bandas do Passo de Torres. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

SISTEMA PARTIDÁRIO: ONDE ESTÁ MESMO O PROBLEMA?


SISTEMA PARTIDÁRIO: ONDE ESTÁ MESMO O PROBLEMA?
Gilvan Teixeira
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                Simplista é tentar explicar a desconfiança em relação ao sistema partidário brasileiro a partir de apenas uma causa. Simplista e ingênuo. Simplista, ingênuo e irresponsável. Os motivos que têm levado uma incontável multidão à ojeriza em relação aos partidos políticos são inúmeros e complexos. A começar pela história deste país. Mais de trezentos anos de submissão à Coroa portuguesa, mais de meio século de modelo imperial, décadas de República Velha, mais de trinta anos de ditadura civil (Estado Novo) ou militar (1964-85)... O que sobra? Apenas um vintém de experiência democrática e quase nada de know-how político partidário. Ainda que democracia e sistema partidário não sejam sinônimos. No Império, mesmo no período mais sombrio, tínhamos partidos, ainda que sob denominações diversas. Na República Velha, onde vicejou o coronelismo e o cabresto, também as agremiações partidárias deram o ar da graça, em que pese a forte conotação regional das mesmas. Mesmo na Ditadura Militar, a partir de 1964, o famigerado bipartidarismo esteve presente. O segundo grande entrave para o fortalecimento e reconhecimento dos partidos políticos como canais de representatividade é a extensão territorial do Brasil. Há uma enorme distância não apenas física, mas sobretudo de interesses regionais. A pretensa unidade nacional, é sabido, não passa de mera construção teórica. Não fosse o idioma – e, mesmo assim, tomado de nuances – e alguns rompantes esporádicos em período de copa do mundo, juraríamos serem vários países, tamanho as idiossincrasias existentes. Alguém duvida ser o gaúcho mais admirador da própria bandeira do que a nacional? O hino rio-grandense, qualquer guri o tem na ponta da língua, ao contrário do “ouviram do Ipiranga...”. Tal complexidade, nascida do gigantismo físico do Brasil associada ao processo histórico que levou à formação cultural, política e econômica do país, por exemplo, obstaculiza a construção de uma plataforma político-partidária que seja válida para todos os estados e regiões. Os conchavos e alianças aqui aceitos não o são acolá. O que aparenta ser coerente lá não o é aqui. Assim, o descrédito dos partidos junto ao eleitor só aumenta. O que ainda ontem era pouco mais do que desconfiança, hoje é quase ódio. Tamanha aversão, apesar de compreensível, é perigosa. Ora, se por um lado é inegável a falência do histórico, atual e carcomido modelo político-partidário brasileiro, por outro não se pode negar a importância dos partidos políticos como instrumentos de representação dos mais diversos matizes sociais. O problema não está no partido em si, mas nas relações que, através dele, se estabelecem. As agremiações partidárias devem, primeiro, construir uma identidade clara que os caracterizem. Devem assumir posições inequívocas, sejam à “direita”, ao “centro” ou à “esquerda”. O mimetismo há muito adotado pelos partidos confunde o eleitor. O temor do insucesso quando dos pleitos tem feito deles uma “massa” disforme, opaca e insossa. Não se sabe quem é quem. A preocupação com o discurso “politicamente correto” tem ofuscado e aniquilado a essência do que venha a ser um partido político. Partidos lembram “partes”, onde uma difere da outra, pois do contrário não seriam partes, mas sim um “todo”. Este último, enquanto visão ideológica, inexiste numa verdadeira democracia. Acreditar e defender a “unidade” de pensamento cheira a ditadura, a fascismo, a totalitarismo. Portanto, nada mais natural e aceitável do que partidos que defendam o vermelho, o azul, o lilás ou o amarelo.  No Brasil, tal obviedade passa de largo. As bandeiras partidárias não passam de trapos coloridos. As siglas, por sua vez, pouco dizem. Mais parecem sopa de letrinhas. Letras que se prostituem, que se vendem, que negociam postos, secretarias e ministérios. Letras vazias. Frias. Escorregadias, tanto quanto contraditórias. Ontem discurso de “oposição”, hoje prática de “situação”. Qual é a saída? Não há receita que garanta sucesso na empreitada de reverter o preocupante contexto. Urge, entretanto uma profunda reflexão no que tange, por exemplo, à organização, fidelidade e ética partidárias, bem como ao financiamento de campanha. Outro desafio: como estabelecer um viés partidário capaz de levar em conta as, por vezes profundas, diferenças estaduais e regionais? Como conciliar o direito à livre associação e a coibição do surgimento de “partidos de aluguel”? Mister é que, também, se crie mecanismos voltados ao fortalecimento da identidade partidária, aproximando prática e estatuto da agremiação, restando clara sua opção ideológica, de modo a pôr fim no presente “estelionato eleitoral”, onde o eleitor acaba, quase sempre, comprando gato por lebre. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Gilvan Teixeira
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                Nada original o título, não é mesmo? Contudo, precisava de uma “entrada” à altura do nobre ato levado a cabo por um aluno do São Francisco. Quem? Pouco importa aqui. O que deve ser destacado é seu gesto. O rapazote, no auge da adolescência, estava conversando com alguns amigos numa banca de cachorro-quente quando não mais do que alguns metros adiante uma senhora, aparentemente cega, vinha caminhando em sua direção. A mulher parecia arrastar os pés. Andava lentamente, como que temerosa em esbarrar em alguém ou alguma coisa. Não trazia bengala. Tateava. Apesar dos cuidados, o acidente parecia inevitável. A questão era o quando aconteceria e qual a gravidade. A velha senhora vinha, ao que tudo indicava, driblando postes e lixeiras, assim como driblara – muito provavelmente – a própria vida. Sorte ou não, destino ou não, o fato é que sobrevivera e estava ali para contar a história. Qual seria mesmo sua história? Vinha ela pela calçada quando, de repente, esta afunilou cerceada pela parede lateral da lanchonete. Mudança abrupta que pegara a coitada de surpresa. Estava flagrantemente confusa. Atônita, talvez. Parecia perdida, sem saber ao certo o que fazer. Simplesmente freara. O aluno, enfiado em seu uniforme, não titubeou. Largou tudo, abandonou os amigos e saiu em direção à velha senhora com intuito de ajudá-la. Ofereceu-lhe o braço, ao qual a mulher prontamente aceitou. Feito banhista em apuros, quando diante da boia salvadora do guarda-vidas, a senhora agarrou-se ao aluno. Porto seguro. Impossível deixar de sorrir. Gratidão. Lembrava um filho grato quando diante de sua genitora. A diferença era que ele, o rapazote, não tinha nenhum laço consanguíneo, nenhum compromisso jurídico, nada que o vinculasse formalmente àquela mulher. Apenas e tão somente o sentimento ético do que seja “certo” ou “errado”. Nada demonstrava esperar em troca, sequer um “muito obrigado!”. Sem falar, é claro, que correra o risco de ser motivo de chacota entre seus pares. Que nada! Parecia por demais despreocupado com o que os “outros” haveriam de pensar. Valia, isso sim, sua consciência. A convicção de que agira justa e corretamente. Ficara a certeza, para quem – como eu – por ali passava, de que existe esperança. Feito fagulha sob o carvão, basta um sopro para avivá-la. O que ainda há pouco era escuro, enche-se de ardente vida. Por certo, a limitação visual daquela velha senhora se esvaíra ante o apoio do braço amigo. A gentileza, o cavalheirismo, a solidariedade, o compromisso com a sorte do outro são apenas algumas das pérolas a serem buscadas em meio às ostras, mesmo que hermeticamente fechadas, mesmo que enfiadas no mais íntimo dos oceanos. A pior cegueira não é a do tipo que assola pessoas como a velha senhora, mas aquela que atrofia as relações, fere de morte a ética e põe em risco a esperança. O pior cego, já diziam os antigos, é o que não quer enxergar!  

quinta-feira, 27 de junho de 2013

EMBARCAÇÕES


EMBARCAÇÕES
Gilvan Teixeira
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                Feito embarcação, a escola por vezes se vê envolta em mar encapelado. Escolas fazem lembrar embarcações. Algumas parecem jangadas, pequenas, aparentemente frágeis, mas com imensurável capacidade de transportar sonhos. Outras escolas são maiores, lembrando ou cargueiros – brutas em sua arquitetura – ou verdadeiros transatlânticos, tamanho o luxo e conforto que ostentam. Todas as escolas, contudo, têm algo em comum: o mar por onde navegam. As águas são as mesmas e os desafios, em regra, guardam enorme semelhança. Mais do que o tamanho ou imponência da embarcação, o que garante ou não a sensação de segurança e serenidade é a disposição de quem navega. Disposição em chegar ao porto, disposição em curtir a viagem, disposição em contemplar o que de melhor oferece o mar. Este assusta e encanta. O mesmo mar dos corais, golfinhos, jubartes e tartarugas é o mar das ondas gigantes, icebergs e vendavais. Cada um fixa o olhar naquilo que o coração aponta. Alguns atentam somente para os riscos e eventuais perigos do mar. Mesmo com os pés secos, parecem e agem como se náufragos fossem. Embora vivos, jazem numa espécie de sarcófago interior. Até o cheiro os aproxima do mundo subterrâneo. A visão turva e cinzenta impede-lhes de vislumbrar além do próprio umbigo. Outros viajantes, porém, acompanham – numa bela dança corporal – o gingar das ondas do mar. Por meio da imaginação, lançam voo com as gaivotas e pastoreiam o rebanho de alvas nuvens. Juntam os pontinhos luminosos do céu, formando corações, flores e figuras abstratas. Verdadeiros artistas. Anônimos talvez, mas amantes das artes, das letras e, antes de tudo, dos homens. Tem escolas – quase sempre públicas – que mais parecem sobras de embarcação, tamanha precariedade. Não fosse a obstinação dos que, por vezes desesperadamente, agarram-se aos “destroços”, sumiriam, em meio à imensidão de água salgada. Homens e mulheres esfarrapados, enfiados no que sobrou dos guarda-pós, que, apesar da sede e da fome, teimam em não abandonar suas utopias. Otimistas, não desistem de sonhar, em que pese saberem que o que veem muitas vezes são nada mais do que miragens. Escolas fazem lembrar embarcações. Quem nelas trabalha, ali está para servir. À tripulação cabe acolher, oferecer o que há de melhor aos passageiros. Incluí-los. Encantá-los. Desejá-los. Escola vazia é embarcação à deriva. Navio fantasma, sem vida, frio, sepulcral. O que seria da prataria, dos lençóis de seda, da comida farta, sem os passageiros? O prazer do timoneiro está, sobretudo, em alcançar seu norte. Este, por sua vez, confunde-se com o destino do “outro”. O professor inexiste sem o aluno. Confundem-se. Relação, por certo, umbilical, daí ser necessária e irremediavelmente profunda. Feito as águas do mar. Escolas fazem lembrar embarcações. 

Ver:
http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=291e0142b29f69a48e79e5b75bd7c024

sábado, 22 de junho de 2013

FLATULÊNCIAS


FLATULÊNCIAS
Gilvan Teixeira
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                Esses dias, o Betão, grande amigo e ex-colega de empresa, foi categórico ao falar da experiência pessoal, aparentemente constrangedora, frente às medidas invasivas, apesar de necessárias, adotadas pela equipe médica: o que é um peido para quem já está todo cagado? Lembrei do Betão quando diante das inúmeras matérias jornalísticas acerca dos movimentos reivindicatórios que tomam as ruas e avenidas do país. A mídia, salvo raras exceções, tende a lançar seus holofotes nas “flatulências” e não na comida putrefata envolta pelas paredes do intestino. As primeiras, apesar de mal cheirosas, são como que tão somente a ponta do iceberg. É bem verdade que chamam atenção pelo desconforto que causam aos presentes. Apesar de “contaminarem” o ar, mínimas são as efetivas consequências das flatulências para os mortais. Por outro lado, o “bolo fecal” escondido nos porões do corpo é que, de fato, desencadeia quase todas as espécies de puns, do mais ao menos fétido, do mais ao menos espalhafatoso. Ainda assim, a corda arrebenta do lado mais fraco. Os movimentos de massa que pipocam do Oiapoque ao Chuí têm como força propulsora o bolo fecal composto pela corrupção, impunidade, lucros abusivos, apropriação do dinheiro público, aniquilamento ideológico dos partidos políticos, partidarização dos sindicatos, superfaturamento, falência dos serviços públicos e tantas outras mazelas. O cheiro não poderia ser pior. São anos, décadas, séculos de acúmulo de insensatez, falta de ética, escassez de verdadeiro espírito público. Formas e sistemas de governo passaram. Partidos ditos de direita, de centro e de esquerda passaram. Mudanças de moeda, planos econômicos, medidas provisórias... Inúmeras Constituições... Todavia, apesar de belos discursos e plataformas de governo, segue o profundo e inaceitável descaso com a saúde, educação e segurança públicas. A multidão de miseráveis segue envergonhando o país, em que pese algumas medidas paliativas, paternalistas e eleitoreiras levadas a cabo por este ou aquele governo. O tempo passa e o que não passam são as práticas coronelistas enraizadas nas relações de poder. Seguem governando muitas das figurinhas e famílias que governavam no século passado, que fazem de algumas cidades, estados e regiões do país verdadeiros currais eleitorais. Cargos, funções, secretarias e ministérios, pagos pelo contribuinte, são criados para acomodar interesses escusos, sob o manto da pretensa “governabilidade”. Tudo isso entalado na garganta de nosso povo. Melhor, nas vísceras. Diante da dor lancinante, o que é um pum? É, meu amigo Betão, o que é um peido para quem está todo cagado?  

TAL PAI, TAL FILHO


quinta-feira, 20 de junho de 2013

O JOIO E O TRIGO


O JOIO E O TRIGO
Gilvan Teixeira
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                O negócio é separar o joio do trigo, já dizia uma conhecida parábola bíblica. Apesar da distância de tempo, espaço e cultura, a ideia segue válida. Pipocam pelo país, inúmeras e bem-vindas manifestações, tendo como pano de fundo o já conhecido descontentamento em face aos vícios que há muito carcomem, feito câncer em fase terminal, as estruturas do Estado: descaso, omissão, incompetência, inoperância, corrupção, apadrinhamento, escassez ética, superfaturamento, impunidade... Incontáveis, tanto quanto vergonhosos e execráveis, são os exemplos do “jeito” de se fazer política neste país. Público e privado se confundem nesta grande latrina que se transformou o Brasil. O Estado tem cavado sua própria cova, tornando-se – na visão do homem médio – dispensável. Eis o terreno perfeito para eclosão dos movimentos de massa. Ainda que questionáveis quanto ao grau de politização e de organização, por vezes mais parecendo uma enorme colcha de retalhos (potencialmente inflamável...), tais mobilizações escancaram o profundo descontentamento de enormes parcelas da população no que tange à incapacidade do Poder Público em dar respostas aos mais elementares anseios de quem o sustenta. Condenáveis são os excessos cometidos ao longo das passeatas, alguns deles, delitos positivados na legislação pátria, passíveis de sanções nas esferas criminal e cível, por exemplo. Contudo, não menos condenáveis são os fatores desencadeadores dos protestos, servindo de levedo para sentimentos há muito represados. Por certo, os prejuízos causados aos patrimônios público e privado – injustificáveis, como já dito – ao longo das manifestações, são ínfimos, comparados aos danos trazidos pelos que, historicamente, se apropriam das esferas do Poder. Apesar de muito mais “dissimuladas”, as práticas associadas à malversação dos recursos públicos trazem prejuízos incontável e imensuravelmente maiores à sociedade. São práticas criminosas sorrateiras que, à guisa de não terem a aparência de “violentas”, soam como “toleráveis” aos olhos do Estado. Há de se questionar o verdadeiro sentido da “violência”. A retórica hipócrita utilizada pelos “donos do poder” deve ceder lugar a uma verdadeira ética, onde o interesse público seja o grande balizador do que venha a ser certo ou errado. Portanto, urge separarmos o joio do trigo. Saber reconhecer, entre os manifestantes, aqueles – esmagadora maioria – que fazem das ruas o palco do salutar exercício da cidadania, espaço de sonhos e utopias, escopo de insatisfações e desejos de um país melhor, mais justo e menos desigual. A rua mostra ser lugar privilegiado de aprendizagem, de práxis libertária, verdadeira seara onde deve vicejar o trigo. Quanto ao joio, este tende a fenecer à medida que a sombra que o alimenta e o encobre vai sucumbindo frente à luz que nasce com o raiar do dia. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

OVOS OU BACON?


OVOS OU BACON?
Gilvan Teixeira
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                O Brasil está discutindo educação. Municípios do país afora estão a discutir o documento “referência” da Conferência Nacional de Educação (CONAE 2014) que culminará, no próximo ano, num grande encontro na capital federal. Inúmeras são as proposições que embasam o movimento, muitas delas “remixadas” e requentadas, fazendo lembrar as proposições da CONAE anterior (2010). Não que tais propostas careçam de importância. Muito pelo contrário. Contudo, o que salta aos olhos é o quanto neste país tem sido difícil superar o limite do mero discurso. Os problemas apontados lá atrás, em sua grande maioria, não apenas permanecem, como (o que é mais preocupante!) se tornaram mais graves e mais dramáticos. O ensino, principalmente público, neste país é desesperador. Descaso, malversação de recursos, corrupção, incompetência, precariedade das escolas, salários aviltantes pagos aos profissionais da educação, corporativismo classista, indiferença e letargia da comunidade no que tange à efetiva participação junto à escola, fracasso escolar, evasão, pífio nível de aprendizagem, são apenas alguns dos tristes “sinais” de que o ensino vai de mal a pior. Além de parcos (luta-se por garantir dez por cento do Produto Interno Bruto, PIB, para investimentos no ensino público), os recursos não são otimizados. Os resultados obtidos são vexatórios. Não raras vezes, a preocupação com as estatísticas (de preferência “simpáticas” às políticas de governo adotadas...) supera a preocupação com a “essência”. Doura-se a pílula como se fosse possível esconder um cadáver em avançado estado de putrefação sob o belo tapete da sala de estar. Aparências... Há alguns dias, ouvi – durante a Conferência Intermunicipal da CONAE 2014, envolvendo Cachoeirinha e Glorinha (dois municípios do Rio Grande do Sul) – uma curiosa fala da palestrante. Afirmara que não basta “envolvimento” para mudar o ensino neste país. É necessário, segundo ela, “comprometimento”. Para ilustrar tal assertiva, a conferencista comparou a galinha e o porco. Enquanto a primeira, em regra, apenas “se envolve” na tarefa de pôr o ovo, sem o compromisso de chocá-lo, o porco, ao contrário, deve entregar-se por inteiro para que dali saia o bacon. Este jamais existiria não fosse o verdadeiro sacrifício do bicho. Inexiste espaço para escamoteio, “corpo mole”, indiferença, omissão, transferência de responsabilidade, “terceirização”. É vai ou racha! Bacon sem dor, sem “doação”, sem “paixão” (sei que o porco, coitado, deve estar discordando...) não existe. O ensino, assim como a educação como um todo (aqui entendida como algo mais amplo e complexo do que o processo que se dá no seio da escola), precisa de mais bacon e de menos ovos. Urge pessoas comprometidas com a árdua, mas urgente e necessária, tarefa de mudar os rumos da educação neste país. Mister é que o bacon esteja à “mesa” das famílias, gabinetes, escolas, conselhos de direitos, sindicatos, entre outros. Faz-se necessário que a “gordura” dele unte as relações e permeie as ações. É gordura da boa, ao contrário daquela historicamente produzida, em larga escala, pelo Estado brasileiro. Este último tem entupido as artérias e veias que alimentam a esperança do povo. Chega de gordura que entorpece, ludibria e aliena. Gordura que satura. Gordura que, não raras vezes, nos é enfiada goela abaixo sob a forma de ovos coloridos e aparentemente doces, tão comumente distribuída em estádios de futebol, passarelas do samba, novelas e inúmeros outros “espetáculos” circenses. A quem cabe mesmo o papel de palhaço? O produto da galinha não é de todo ruim, mas socialmente insuficiente e de baixíssimo potencial revolucionário. O porco, por sua vez, apesar da sorte que lhe aguarda, traz consigo, por debaixo da pele às vezes rude e plasticamente pouco invejável, a poderosa “gordura” capaz de subverter estruturas e grilhões que aprisionam nossa gente e perpetuam as infames desigualdades. Viva o bacon!