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terça-feira, 28 de março de 2017

FRATERNIDADE: BIOMAS BRASILEIROS E DEFESA DA VIDA


FRATERNIDADE: BIOMAS BRASILEIROS E DEFESA DA VIDA
Gilvan Teixeira
 Blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br
 
 
            A Campanha da Fraternidade 2017, assim como a do ano anterior, vem ao encontro não apenas de nosso componente curricular, a Geografia, mas de todos os demais. É um convite à reflexão propositiva. O tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” ultrapassa a mera questão teórica e sacode a consciência de cada um de nós, queridos ouvintes. Longe de ser uma discussão “pedante” e “acadêmica”, a preocupação com nossos biomas é, sobretudo, a preocupação com o próprio homem. Diz respeito à minha e à tua vida, meu amado. Diz respeito à nossa família e à nossa comunidade. Diz respeito, ainda às futuras gerações. O que temos feito com o espaço onde nascemos, trilhamos e descansamos nossa cabeça? Qual é o tratamento que temos dispensado ao meio em que vivemos? O que temos feito das maravilhosas dádivas que, ao longo da história, Deus tem colocado a nossa disposição? Como tem sido a relação da maior obra-prima divina, o homem, com seu espaço? Formados à semelhança de Deus, contudo, ao contrário do Criador, temos agido temerária, irresponsável e despotamente. Muito comumente, colocamos nossa razão a serviço de um hedonismo doentio, narcísico e materialista, nos distanciando dos mais elementares ensinamentos de Deus. Nosso olhar estrábico há muito vem se rendendo à catarata da indiferença, fazendo pouco caso dos frutos do amor. Dom Jaime, num encontro de escolas católicas, foi enfático ao lembrar que a maior crise da atualidade é de ordem “antropológica”, ou seja, uma crise de valores. O pano de fundo, sombrio e funesto, por detrás da “coisificação” do ser humano é o mesmo que tangencia a perversa relação entre o homem e seu espaço. Sofrem os biomas brasileiros, de norte a sul, do nascente ao poente. Ameaçados estão não apenas os recursos naturais, a fauna e a flora, mas também o próprio homem e suas mais diferentes culturas. Afinal, homem e meio são indissociáveis. Há como que uma imbricação necessária entre ambos. Pensar em dignidade da pessoa humana sem perpassar pela questão “espacial” soa como estranho e nada inteligente. Grandes ações são necessárias? Sim. Políticas de Estado e de governo são, por certo, bem-vindas. Investimentos em educação, saneamento, mobilidade urbana, reflorestamento, uso racional dos recursos naturais, etc.. Contudo, a mais urgente e eficaz mudança é “cultural”, comunitária, familiar, individual. Começa por mim, por ti, por nós, caros ouvintes. Façamos a nossa parte. Comecemos por nossa casa, trabalho, escola. Comecemos, sobretudo, pela forma como nos relacionamos com o outro, amando, valorizando, respeitando... Ao fazê-lo, aí sim estaremos prontos a compreender o verdadeiro significado dos biomas, bem como nossa inserção e relação com os mesmos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

PEDRA FUNDAMENTAL


PEDRA FUNDAMENTAL
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



           Feliz é aquele que edifica sua casa sobre a rocha. Por maiores que sejam as intempéries e por mais sombrias que sejam as nuvens, a morada permanece incólume. O lançamento da “Pedra Fundamental” da mais nova unidade da Rede de Escolas São Francisco marca, primeiro, a parceria entre esta e a Prefeitura Municipal de Gravataí. Marca, ainda, a crença de que o desenvolvimento econômico e social passa, obrigatória e necessariamente, pelo investimento em educação de qualidade, afinal “cuidar das pessoas faz uma cidade melhor”. Pode haver melhor demonstração de cuidado do que formar “seres humanos, felizes, sadios e prósperos”? Mais do que a justaposição de slogans, a iniciativa representa imensurável acréscimo ao Município, contribuindo na formação de sujeitos críticos, participativos, solidários e comprometidos com o bem-comum. A nova escola trará para Gravataí a experiência de mais de meio século na área do ensino, experiência esta permeada de sucesso reconhecido no Brasil e no exterior. Os incontáveis prêmios coroam, acima de tudo, o árduo trabalho dos excelentes profissionais que, pautados numa gestão eficiente, moderna e responsável, veem o educando como o “bem” principal, maior patrimônio do processo ensino-aprendizagem. Tamanho sucesso deve-se, ainda, ao incessante e permanente diálogo com as famílias e a comunidade em geral, partindo-se da premissa de que a educação de nossas crianças e jovens é responsabilidade de todos. A Rede de Escolas São Francisco traz para o Município não apenas um know-how em educação cristã de qualidade, assentada numa formação cognitiva e humana, mas, também, o compromisso social consubstanciado em ações efetivas, especialmente junto aos que mais necessitam. A “Pedra Fundamental”, assim como as raízes de uma frondosa árvore, coroa a aposta no presente e no porvir, mas, sobretudo, no homem, pois – como bem diz um conhecido provérbio – “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Votos, portanto, de muito sucesso e parabéns pela iniciativa!  

sábado, 18 de abril de 2015

MALHANDO TRIGO NO LAGAR?


MALHANDO TRIGO NO LAGAR?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Lugar de malhar trigo era na eira, lugar amplo e arejado, para que as impurezas fossem lançadas para longe, ficando somente o que era bom. O lagar, por outro lado, constituía-se num lugar escuro, escondido e de acesso bastante limitado, onde a uva era pisada. Assim como Gideão, um dos “juízes” de Israel, muitos são os que escondem sua autoridade nos “lagares” da vida. Pais, mães, educadores e educadoras, por exemplo, demonstram medo de exercerem o papel de ascendência que deles se espera. Autoridade esta que, por óbvio, não se confunde com tirania ou autoritarismo. Como o personagem bíblico, muitos são os genitores e professores que, acuados e amedrontados, parecem duvidar do “chamado” ético que lhes diz respeito. A visão turva, coberta pela catarata de um falso conceito de “modernidade”, tem colocado em risco gerações inteiras, estas cada vez mais presas ao terreno movediço das drogas, do engodo, da leviandade, do desrespeito, da indisciplina, da preguiça e, muito comumente, da criminalidade. O temor ou inabilidade de malhar o trigo na eira, às claras, portanto, tem levado muitos a optarem pelo breu dos lagares escorregadios, onde o artifício do relativismo doentio busca justificar o injustificável. Assim, malcriação, mentira, furto, agressão física, ofensa moral, consumo de álcool e de entorpecentes são vistas e tratadas com leniência, como se naturais e aceitáveis fossem. Apoiados em algumas teorias “psicanalíticas” e “pedagógicas” insanas e irresponsáveis, acabam muitos pais e professores, por exemplo, fazendo vistas grossas ao problema. Delegam ao “tempo” a responsabilidade que lhes é inerente, o mesmo tempo que muito provavelmente irá mostrar, ainda que tardiamente, o quanto estavam errados. Ora, o tempo, por si só, não educa. Somente ações efetivas, posturas exemplares, modelos seguros e confiáveis, palavras firmes, cobranças permanentes e salutar cumplicidade com a sorte dos rebentos são capazes de educar. O amor exigente é que educa, ao contrário da condescendência cega. Assim como não basta o vento para separar o trigo de sua casca, soa como ingênuo lançar sobre o tempo a educação de nossas crianças e jovens. Malhar o trigo exige disposição, iniciativa, bem como trabalho duro e persistente. Educar, da mesma forma. A casca, assim como as dificuldades e tendências talvez “inatas” do ser humano, precisa ser “malhada”. Negá-la ou mantê-la como se útil fosse para o uso do trigo não parece razoável. O ato de educar não deve ser terceirizado, mas assumido com responsabilidade. Pais não têm o direito ético, moral e legal de lançarem sobre os ombros de outrem a obrigação que lhes compete. A escola e o Poder Público, da mesma forma, resguardadas as atribuições de cada um. Urge colocarmos a educação de nossas crianças e adolescentes na eira. Abandonemos o covarde papel inicial de Gideão, mas como ele, viremos o jogo e, de forma corajosa, vençamos a difícil, porém necessária, peleja em prol daqueles quem mais amamos.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

DEUS NÃO ESTÁ MORTO


DEUS NÃO ESTÁ MORTO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O filme homônimo[1] desperta algumas reflexões. Manter a fé e, principalmente, levá-la a outras pessoas por meio da evangelização tem se revelado um desafio cada vez mais árduo. Uma profunda e generalizada apostasia vem se fazendo presente, trazida pelos ares de um processo globalizante incontrolável e imensurável. É flagrante e notório o esfriamento da fé, especialmente daqueles que se autodenominam “cristãos”. Preocupados em “dançarem conforme a música” da famigerada pós-modernidade, onde os tempos se mostram “líquidos”, os novos adeptos do Cristianismo aderem a uma espécie de mimetismo, onde ao tentarem ser de tudo um pouco, acabam, ao final das contas, por não serem nada. Pior, não apenas abdicam de alguma coerência religiosa como ainda, muito comumente, condenam aqueles que buscam, a muito custo, conservar a tradição de fé. Não por acaso, algumas religiões, ou segmentos, que buscam manter a essência do pentecostalismo, catolicismo, islamismo e judaísmo, por exemplo, são vistas de soslaio pela maioria, quando não abertamente discriminadas e perseguidas. Professar a fé vem exigindo um esforço hercúleo e uma grande dose de convicção. É titubear, lá estamos nós na vala comum dos que fazem da religião tão somente um brinquedinho à mercê dos próprios caprichos, onde entronizamos o ego e perdemos de vista o verdadeiro sentido da existência humana. Mercantiliza-se a fé, como se mercantiliza qualquer outra mercadoria. Boa parte das igrejas, não por acaso, mais se parecem com shoppings ou centros comerciais. Vende-se e compra-se de quase tudo. O templo que outrora se transformara em feira e que despertara a indignação de Jesus pareceria um monastério diante da maioria das igrejas de hoje. Muitos são os pastores e padres que fazem do púlpito seu palco narcísico e vitrine para venda de DVDs, camisetas e rosas miraculosas. Têm, ao centro, não a pessoa de Cristo, mas a própria imagem, engordando a vaidade e, por vezes, recheando a algibeira com a contribuição dos fiéis. Contudo, boa parte – quero acreditar que a maioria – dos líderes religiosos, cumpre fielmente com o papel para eles reservado, qual seja o de levar a mensagem pautada no amor, no respeito, na valorização da vida e na esperança do porvir, a mesma esperança que, cambaleante, teima em resistir aos ataques (voluntários ou não, conscientes ou não...) daqueles que, muitas vezes, em nome de uma pretensa e irresponsável “liberdade de expressão” ofendem criminosa e despudoradamente os sentimentos e crenças de outrem. Jamais esqueçamos: quem semeia ódio, dificilmente irá colher amor. Quem planta intransigência, colherá tolerância? Não se deve – em nome de uma perniciosa, falsa e aleivosa democracia – tentar “matar” Deus, pois ao fazê-lo atenta-se contra todos aqueles que, convictamente, nele creem. Há neste mundo, sem dúvida, espaço para todos: ateus, agnósticos, judeus, muçulmanos, xintoístas, católicos, protestantes, animistas, budistas, hinduístas... Há espaço para os que dizem crer e para os que afirmam não crer. O que não deve haver, isto sim, é espaço para a intolerância e desrespeito ao outro, por maiores que sejam as diferenças. Quero ver respeitado e salvaguardado o meu (e de muitos outros!) direito de crença num Deus vivo, glorioso, poderoso e verdadeiro, num Deus amoroso e misericordioso, num Deus disposto a transformar vidas. Deus não está morto!




[1] God’s Not Dead é um filme de drama cristão, datado de 2014, dirigido por Harold Cronk.

terça-feira, 1 de julho de 2014

AS PEDRAS DE DAVI


AS PEDRAS DE DAVI
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Certa feita, tive o privilégio de ouvir numa reunião de escola alguém falar das pedras de Davi. Quais são as “pedras” que temos escolhido para lançarmos em direção ao “Golias” que, a todo instante, atravessa nossa vida? Têm sido as pedras certas? Têm sido as pedras apropriadas? Temos assistido levas e levas de homens e mulheres, de todas as idades, condições socioeconômicas das mais diversas, instruídos ou não, religiosos ou agnósticos, enfim, miríades e miríades a usarem de pedras que mais parecem bumerangues, onde a grande vítima acaba por ser aquele que as lançou. Enquanto isso, o algoz se fortalece. Ao invés de um, passam a ser dois, três, quatro incontáveis e intermináveis problemas... A seiva que, talvez, já não fosse intensa, esvai-se ainda mais. O inimigo se fortalece. Por que há tantos que lapidam a si mesmos? Apedrejam-se? Voltam-se contra as próprias entranhas? Alimentam tumores do corpo e da alma? Espantam o sono e afugentam os sonhos? Homens e mulheres tristes e entristecedores. Contam nos dedos os momentos de felicidade e fazem vistas grossas à vida que brota a cada instante, em cada canto, em cada sorriso, em cada abraço. Pais que sofrem e fazem sofrer a prole, negando a esta o norte ou fazendo da paternidade uma espécie de roleta russa, onde – salvo os poucos lampejos de sorte – a droga, a indolência, a indisciplina e a morte espreitam e comprometem o futuro. Homens e mulheres que fazem da depressão uma espécie de moda, garganteando a dependência terapêutica e farmacológica. Entregam-se a um mundo de “faz-de-conta”, marcado pelo consumismo doentio e árido de valores perenes. Homens e mulheres que esperam do Estado, dos “outros” (amigos ou não) e dos filhos aquilo que jamais cultivaram. É crível que o lavrador colha o que jamais semeou? Qual é o Golias que desejamos enfrentar? Qual sua real força e tamanho? Quem o alimenta e de que forma? Não será ele, no fundo, a sombra ampliada por nós produzida? Onde reside a maior ameaça, no tamanho do inimigo à nossa frente ou na imagem que dele fazemos? Pedras, há muitas. Tamanhos, formas e cores das mais variadas. Talvez estejamos escolhendo as erradas, as mais (ou menos) acessíveis, as mais (ou menos) pesadas, as pouco resistentes... Urge certa dose de sabedoria para escolhê-las. Por que não ouvir a voz do coração? Por que não dar espaço ao silêncio que instrui? Por que não apostar no amor? Por que não confiar? Por que não dobrar-se sobre os joelhos e chorar? Por que não entregar-se à humildade? O verdadeiro gigante, quem é? Pertence a quem o nosso destino? Qual é o tamanho e o foco de nossos sonhos e desejos? Façamos das pedras poderosas armas, matérias-primas para edificação de estradas que apontem para um ser humano melhor. Pedras a adornarem mosaicos formados de solidariedade, ética, respeito, alteridade... Cumpram elas outro papel que não o de nossa lápide, sob o olhar zombeteiro e triunfal de Golias.  

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terça-feira, 17 de junho de 2014

FÉ: IGNORÂNCIA DE QUEM?


FÉ: IGNORÂNCIA DE QUEM?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br
                                                                       
                                                                                                                          


                Lembro, quando ainda pequeno, ficava a imaginar tamanha dificuldade de se professar a fé em tempos idos. Ouvia, durante a “escola dominical”, as narrativas bíblicas do Antigo e Novo Testamentos: A firmeza de Sadraque, Mesaque e Abednego frente ao temido Nabucodonosor, a convicção inabalável de Daniel, mesmo quando lançado – a mando do rei Dario – na cova tomada de leões, a esperança de Pedro, ainda que encarcerado, nos tempos de Herodes... Exemplos não faltam de homens e mulheres que, em nome da fé, arriscaram e, por vezes, perderam a vida acreditando, no fundo, ganhá-la. Tempos difíceis aqueles, sem dúvida. Passados centenas, milhares de anos, a impressão que fica é que involuímos. Escassearam os impérios territoriais de outrora e, com eles, os temidos “vultos” a governarem os povos com mãos de ferro. Avançamos, sem dúvida, no que tange ao reconhecimento e garantia de direitos que, antes, eram privilégio de uma ínfima minoria. A decantada democracia alastrou-se, em especial no chamado mundo ocidental. A dita modernidade e, mais ainda a controversa pós-modernidade, aguçou a liberdade de expressão e de pensamento, trazendo em seu bojo, por exemplo, uma forte ojeriza em relação à homofobia e ao sexismo. Vivemos hoje na chamada “sociedade do conhecimento”, onde o tempo é “líquido” e as relações cada vez mais horizontalizadas. Uma época onde a robótica, a nanotecnologia e a informática caminham a passos largos. Uma sociedade que se diz pautada na ciência e na razão, mas que ironicamente apela diuturnamente para a emoção. Afinal, é esta a mola propulsora do consumismo, pilar central do famigerado Capitalismo. Na verdade, inúmeros outros são os paradoxos criados e alimentados pela modernidade encastelada, por exemplo, e muito comumente, no meio acadêmico. Este apregoa a liberdade, mas satiriza e ridiculariza os que optam por acreditarem nesta ou naquela divindade. Defende a razão, mas deixa escapar a razoabilidade mínima ao menosprezar opiniões dissidentes. Levanta a bandeira da democracia, mas achaca escolhas que não aquelas condizentes com o meio pretensamente letrado da universidade. Fé e razão, necessariamente se contrapõem? Soa como sensato opor a fé à inteligência? Por vezes, silogismos mal intencionados têm feito crer que profissão religiosa seja sinônimo de alienação e atrofia intelectual. Ululante engodo. Exilar a fé em nome da razão representa enorme risco à humanidade. Associar ateísmo a elevado grau de inteligência e discernimento ou, então, fé à obscuridade e caducidade intelectual não passa de simplismo preconceituoso. Ignóbil tendência denuncia, isto sim, o profundo descompasso hoje existente entre o homem e sua espiritualidade. Defender a ideia de um homem puramente racional e agnóstico ofende a sensibilidade e empobrece as relações. A liberdade de crença, mais do que um preceito constitucional é um importante pilar constitutivo da dignidade da pessoa humana. Cerceá-la ou demonizá-la (o que não deixa de ser mais uma entre tantas ironias do meio acadêmico) em nada contribui para o enriquecimento da reflexão, da discussão e da pesquisa, esta última matéria-prima da própria ciência. 
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

RIOS E RITOS


RIOS E RITOS
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com




                Ritos se parecem com rios. Assim como estes trazem consigo as águas que nascem em meio às montanhas, os ritos carregam uma incontável gama de sentimentos, emoções e crenças. Rios e ritos não apenas dão sentido à vida, como a sustentam. Ritos, assim como rios, os temos dos mais diversos tipos. Alguns, mais longos, outros, nem tanto. Alguns mais pedregosos, profundos e densos do que outros. Todos, contudo, indispensáveis à “hidrografia” da vida. A fé está para o rito, assim como as águas para o rio. Indissociáveis. O rito sem “coração” soa como margens sem água. Sem esta, não há que se falar em rio. Não passa de terra seca, sem vida aparente. O rito, da mesma forma, não pode prescindir das motivações que o embalam. Assim como o rio serpenteia o vale, acrescentando-lhe beleza e vida, o rito traduz histórias pretéritas, sentimentos presentes e crenças no porvir. Sobre o rio curva-se o corpo na busca da água pura que sacia a sede, enquanto sob o manto do rito busca-se o acalento da alma. Rios e ritos trazem consigo o poder da cura, depende, muitas vezes, do quanto se crê. Assim como a água alimenta o corpo, o rito alimenta o espírito. Rios existem que deles só se ouve o rolar constante da seiva. Outros, contudo, parecem festa de aniversário, tamanha é a variedade de sons a se confundirem. Ritos da mesma forma. Há entre estes, os que exigem silêncio quase que profundo, enquanto outros convidam à troca de palavras e até mesmo abraços. Sisudos ou não, os ritos têm em comum o sagrado, assim como o Ganges no imaginário daqueles que nele se banham. Rios e ritos requerem respeito. Reconhecê-los e preservá-los significa reconhecer e preservar a própria vida. Desmerecê-los, ao contrário, é um triste convite à morte física e espiritual. Rios e ritos gritam por socorro. Lutam teimosa e desesperadamente para não sucumbirem frente à indiferença e apostasia humanas. Apesar de toda grandeza construída ao longo de gerações, rios e ritos mantêm aquele olhar sereno dos humildes. Não desperdiçam uma só oportunidade, sendo-lhes caro cada ser, cada gesto, cada sentimento, por mais singelo que seja. O importante é que seja verdadeiro. Rios e ritos, ao que parece, sabem reconhecer a importância do “outro”, pois é neste que eles ganham sentido. Dispensam o embuste e a altivez. Acolhem, isto sim, o coração quebrantado e todo aquele que estiver disposto a ouvir a voz do coração. Rios e ritos pressupõe fluidez, daí serem avessos ao muquirana de espírito. Rios e ritos voltam-se, isto sim, é à semeadura e à partilha. Os rios se aprazam em comungar suas águas com a flora e a fauna ali existentes. Nem mesmo as pedras, por mais duras e pesadas que sejam, representam motivo para tristeza ou desculpa para não seguirem adiante. Pelo contrário, cada obstáculo só faz aumentar a beleza de seu curso. Os ritos, da mesma forma, quando assentados no amor, desconhecem a exclusão deste ou daquele, por maiores que sejam as diferenças. Rios e ritos têm o poder de aproximarem todos os que orbitam em torno deles, ensejando verdadeiras obras de arte, onde o Autor – seja lá qual o nome que se dê a Ele – se vê encantado frente à criação. 
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terça-feira, 6 de agosto de 2013

ESQUECI


ESQUECI
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Perdão! Uma, entre tantas outras virtudes de um homem santo. Quatro de agosto foi o Dia do Padre. Como poderia ter esquecido? Imperdoável, não fosse a misericórdia divina e a condescendência de meu querido Diretor, Padre José Luiz, estaria condenado a ferver no lago de fogo e enxofre. Espero mitigar tamanha falha com este singelo, porém sincero, texto. Coincidência ou não, o Dia do Padre é comemorado apenas alguns dias após a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Estadia esta emblemática. O Sumo Pontífice pautou sua fala, principalmente, nas questões sociais, descortinando importantes verdades bíblicas que, ao que parece, ficaram à beira da estrada do mundo cada vez mais globalizado. Lembrou, por exemplo, que o capital não deve ser um fim em si mesmo, nem tampouco deve estar a serviço de uma ínfima minoria, mas deve, isto sim, promover a justiça social e a diminuição das desigualdades. O exercício do sacerdócio, neste mundo cada vez mais laico e avesso à fé, se reveste de indelével importância. Verdadeiro farol em meio ao encapelado mar. Espécie de norte frente ao relativismo exacerbado que a muitos confunde. Vão-se não apenas as certezas de outrora, mas os caros valores cultivados ao longo do tempo. Num contexto que espezinha o amor, a vida, a honra, a família e a ética, ser sacerdote é como que nadar contra a maré. É, por vezes, opor-se ao “politicamente correto” e assumir posicionamentos pouco simpáticos ao modismo midiático. O sacerdócio, não raras vezes, pressupõe abrir mão da família, do lazer, da privacidade e do conforto. Os parcos recursos para a grande Obra, comumente, contrastam com uma demanda cada vez mais crescente. Falta não apenas pão, mas espiritualidade. Viceja a apostasia. Mais do que nunca, urge um sacerdócio capaz de fazer a diferença, comprometido com a sorte alheia, solidário aos que têm dor no corpo e na alma. O pastor é o sal numa terra cada vez mais insossa. Portanto, justa é a homenagem aos homens que fazem da batina sua armadura de fé. Parabéns, de forma muito especial, aos Padres da Rede de Escolas São Francisco.  Ao homenageá-los, o faço a todos os sacerdotes.


sábado, 1 de dezembro de 2012

O MERCADOR



O MERCADOR
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                Qual é a ideia que temos ou fazemos de Deus? É comum vermos cristãos (e também os que não o são) tentando como que “negociar” com o Senhor. Como se Deus agisse sobre a vida do homem mediante permuta, escambo ou qualquer outra forma de pagamento. Ora, Deus age sim, porém movido pela Sua misericórdia e amor. Não por aquilo que oferecemos a Ele. Age não pelo que fomos, somos ou seremos. Age por Seu infinito amor. Crer que Deus operará cura, libertação ou qualquer outra espécie de bênção em troca de promessas – por mais sinceras que estas sejam – é atribuir a Ele o papel ou função de “mercador”. É transferir para o plano espiritual os mesmos vícios tão comuns no plano material. É “capitalizar” a relação entre o homem e seu Criador. Deus não é fruto deste ou daquele modo de produção econômico (como dissera, certa feita, Marx). Portanto, “mercantilizar” a relação espiritual soa como algo por demais perigoso e nocivo ao crescimento interior do homem. É um pensar pequeno. Pensar mesquinho. É um pensar que reproduz no plano divino a mesma relação verificada no plano terreno. Relação de medo, de credor-devedor, de vergonha frente às promessas (dívidas) não cumpridas (não pagas). A quem interessa tal relação senão ao inimigo de nossas almas e também aqueles que avolumam riquezas pessoais em detrimento do sofrimento e ingenuidade alheios?

                O amor de Deus pela minha e pela tua vida é incondicional. A misericórdia d’Ele por cada um de nós é imensurável, sem limite, infinita. Daí o fato de ele operar verdadeiros milagres na vida de homens e mulheres que sob o nosso olhar jamais mereceriam sequer o perdão, menos ainda qualquer espécie de benesse por parte do Senhor. Como entender que um parricida, homicida, estuprador, matador em série, corrupto, sequestrador, traficante, violentador de menores, estelionatário e tantos outros praticantes de atos tipificados como crime, mesmo que hediondo, possa receber alguma graça nascida do coração de Deus? Parece injusto e incoerente. Todavia, o que Ele vê, vai muito além daquilo que vemos. O que Ele sonda, extrapola nossa capacidade de compreensão. A essência do perdão de Deus em relação ao mais execrável criminoso é a mesma do perdão d’Ele em relação a cada um de nós. Ele olha para sua criação, para o homem e não para o pecado deste último. Isso faz do Senhor um Ser que ama e, nem por isso, conivente ou omisso em relação às transgressões humanas.

                Precisamos aprender mais da pessoa de Deus. As intempéries de toda sorte (enfermidades, escassez de recursos, violência, depressão, animosidades, crises conjugais, drogadição, etc.) são fruto das ações/omissões humanas. Devem ser compreendidas e resolvidas no plano terreno. Depende, a solução ou mitigação dos problemas, da mudança de postura, de ações concretas, de iniciativas. Esperar que Deus aja no lugar do homem beira a insensatez. Com Ele não se brinca, pois o que o homem semear, também ceifará – diz a Bíblia. Crer em algo distinto é fazer de Deus um mercador, é diminuí-lo em Sua santidade, é limitá-lo em Seu poder, é perder a oportunidade de conhecê-lo e de usufruir do Seu inesgotável amor.