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domingo, 28 de fevereiro de 2016

PARA ALÉM DO "SHORTINHO"


PARA ALÉM DO SHORTINHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Não são poucos os que vivem sob a ditadura de infantes, filhos e filhas de pretensos reis que, muito comumente, preparam a prole para ser “herdeira” e não “sucessora”. Trata-se de uma geração mimada, dada à estupidez narcísica de olhar não mais além do que o limite do próprio umbigo. Uma geração que, na busca insana do prazer a qualquer preço (ainda que, quase sempre, efêmero...) entrega-se de corpo e alma às drogas, anabolizantes, álcool e inúmeros outras “bengalas” produzidas pelo consumismo doentio e desenfreado. Mais importa a aparência do que a essência, o ter do que o ser. Enquanto, por vezes, ecoam discursos sob uma roupagem ética, seguem indiferentes às agruras dos pobres mortais. Entorpecem a consciência com seus smartphones modernos, looks a peso de ouro e viagens à Disney. Passam longe das filas do SUS, desconhecem a masmorra em que se transformaram nossos presídios, nem, tampouco, sabem o que é a fome ou a miséria. Enquanto o inglês fluente contrasta com o vernáculo mal escrito, os príncipes e princesas dedilham nas redes sociais em busca de aceitação e fútil notoriedade. Amizades, eles as têm, contudo quase todas tomadas da típica frieza do mundo virtual. Parecem cegos e indiferentes ante à dura realidade da vida e, até por isso, buscam levantar bandeiras que preencham o enorme vazio existencial. Daí venha, talvez, o endeusamento do “eu”, relativizando a autoridade e negando os limites e as regras. Terreno fértil à formação de homens e mulheres individualistas, egoístas e avessos ao bem comum. Homens e mulheres que, apesar de avançada idade, se portam feito crianças. Seres mal resolvidos emocionalmente e presos a um eterno cordão umbilical. Dar as costas, irresponsavelmente, às convenções sociais – se justas, necessárias e oportunas – soa como algo perigoso. Atenta contra não apenas uma regra ou instituição, mas sim contra a própria noção de “autoridade”. Esta é imprescindível na formação de pessoas equilibradas, felizes e sadias. Indispensável na construção de uma sociedade verdadeiramente solidária, menos injusta e mais fraterna. Uma sociedade capaz de educar seus mancebos para os difíceis desafios do mundo moderno, livrando nossos guris e gurias das armadilhas impostas pela mercantilização do corpo e coisificação das relações. A escola – pública ou privada – tem indelével importância nessa empreitada. Precisa, com o apoio da comunidade, fazer valer suas convicções. É, indubitavelmente, um espaço privilegiado para a reflexão propositiva, esta capaz de superar o limite do discurso fácil, ainda que “politicamente correto”. Urge sairmos em defesa da escola, pois sob sua guarda está nosso bem mais precioso: nossos filhos!



sábado, 18 de abril de 2015

MALHANDO TRIGO NO LAGAR?


MALHANDO TRIGO NO LAGAR?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Lugar de malhar trigo era na eira, lugar amplo e arejado, para que as impurezas fossem lançadas para longe, ficando somente o que era bom. O lagar, por outro lado, constituía-se num lugar escuro, escondido e de acesso bastante limitado, onde a uva era pisada. Assim como Gideão, um dos “juízes” de Israel, muitos são os que escondem sua autoridade nos “lagares” da vida. Pais, mães, educadores e educadoras, por exemplo, demonstram medo de exercerem o papel de ascendência que deles se espera. Autoridade esta que, por óbvio, não se confunde com tirania ou autoritarismo. Como o personagem bíblico, muitos são os genitores e professores que, acuados e amedrontados, parecem duvidar do “chamado” ético que lhes diz respeito. A visão turva, coberta pela catarata de um falso conceito de “modernidade”, tem colocado em risco gerações inteiras, estas cada vez mais presas ao terreno movediço das drogas, do engodo, da leviandade, do desrespeito, da indisciplina, da preguiça e, muito comumente, da criminalidade. O temor ou inabilidade de malhar o trigo na eira, às claras, portanto, tem levado muitos a optarem pelo breu dos lagares escorregadios, onde o artifício do relativismo doentio busca justificar o injustificável. Assim, malcriação, mentira, furto, agressão física, ofensa moral, consumo de álcool e de entorpecentes são vistas e tratadas com leniência, como se naturais e aceitáveis fossem. Apoiados em algumas teorias “psicanalíticas” e “pedagógicas” insanas e irresponsáveis, acabam muitos pais e professores, por exemplo, fazendo vistas grossas ao problema. Delegam ao “tempo” a responsabilidade que lhes é inerente, o mesmo tempo que muito provavelmente irá mostrar, ainda que tardiamente, o quanto estavam errados. Ora, o tempo, por si só, não educa. Somente ações efetivas, posturas exemplares, modelos seguros e confiáveis, palavras firmes, cobranças permanentes e salutar cumplicidade com a sorte dos rebentos são capazes de educar. O amor exigente é que educa, ao contrário da condescendência cega. Assim como não basta o vento para separar o trigo de sua casca, soa como ingênuo lançar sobre o tempo a educação de nossas crianças e jovens. Malhar o trigo exige disposição, iniciativa, bem como trabalho duro e persistente. Educar, da mesma forma. A casca, assim como as dificuldades e tendências talvez “inatas” do ser humano, precisa ser “malhada”. Negá-la ou mantê-la como se útil fosse para o uso do trigo não parece razoável. O ato de educar não deve ser terceirizado, mas assumido com responsabilidade. Pais não têm o direito ético, moral e legal de lançarem sobre os ombros de outrem a obrigação que lhes compete. A escola e o Poder Público, da mesma forma, resguardadas as atribuições de cada um. Urge colocarmos a educação de nossas crianças e adolescentes na eira. Abandonemos o covarde papel inicial de Gideão, mas como ele, viremos o jogo e, de forma corajosa, vençamos a difícil, porém necessária, peleja em prol daqueles quem mais amamos.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

DEUS NÃO ESTÁ MORTO


DEUS NÃO ESTÁ MORTO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O filme homônimo[1] desperta algumas reflexões. Manter a fé e, principalmente, levá-la a outras pessoas por meio da evangelização tem se revelado um desafio cada vez mais árduo. Uma profunda e generalizada apostasia vem se fazendo presente, trazida pelos ares de um processo globalizante incontrolável e imensurável. É flagrante e notório o esfriamento da fé, especialmente daqueles que se autodenominam “cristãos”. Preocupados em “dançarem conforme a música” da famigerada pós-modernidade, onde os tempos se mostram “líquidos”, os novos adeptos do Cristianismo aderem a uma espécie de mimetismo, onde ao tentarem ser de tudo um pouco, acabam, ao final das contas, por não serem nada. Pior, não apenas abdicam de alguma coerência religiosa como ainda, muito comumente, condenam aqueles que buscam, a muito custo, conservar a tradição de fé. Não por acaso, algumas religiões, ou segmentos, que buscam manter a essência do pentecostalismo, catolicismo, islamismo e judaísmo, por exemplo, são vistas de soslaio pela maioria, quando não abertamente discriminadas e perseguidas. Professar a fé vem exigindo um esforço hercúleo e uma grande dose de convicção. É titubear, lá estamos nós na vala comum dos que fazem da religião tão somente um brinquedinho à mercê dos próprios caprichos, onde entronizamos o ego e perdemos de vista o verdadeiro sentido da existência humana. Mercantiliza-se a fé, como se mercantiliza qualquer outra mercadoria. Boa parte das igrejas, não por acaso, mais se parecem com shoppings ou centros comerciais. Vende-se e compra-se de quase tudo. O templo que outrora se transformara em feira e que despertara a indignação de Jesus pareceria um monastério diante da maioria das igrejas de hoje. Muitos são os pastores e padres que fazem do púlpito seu palco narcísico e vitrine para venda de DVDs, camisetas e rosas miraculosas. Têm, ao centro, não a pessoa de Cristo, mas a própria imagem, engordando a vaidade e, por vezes, recheando a algibeira com a contribuição dos fiéis. Contudo, boa parte – quero acreditar que a maioria – dos líderes religiosos, cumpre fielmente com o papel para eles reservado, qual seja o de levar a mensagem pautada no amor, no respeito, na valorização da vida e na esperança do porvir, a mesma esperança que, cambaleante, teima em resistir aos ataques (voluntários ou não, conscientes ou não...) daqueles que, muitas vezes, em nome de uma pretensa e irresponsável “liberdade de expressão” ofendem criminosa e despudoradamente os sentimentos e crenças de outrem. Jamais esqueçamos: quem semeia ódio, dificilmente irá colher amor. Quem planta intransigência, colherá tolerância? Não se deve – em nome de uma perniciosa, falsa e aleivosa democracia – tentar “matar” Deus, pois ao fazê-lo atenta-se contra todos aqueles que, convictamente, nele creem. Há neste mundo, sem dúvida, espaço para todos: ateus, agnósticos, judeus, muçulmanos, xintoístas, católicos, protestantes, animistas, budistas, hinduístas... Há espaço para os que dizem crer e para os que afirmam não crer. O que não deve haver, isto sim, é espaço para a intolerância e desrespeito ao outro, por maiores que sejam as diferenças. Quero ver respeitado e salvaguardado o meu (e de muitos outros!) direito de crença num Deus vivo, glorioso, poderoso e verdadeiro, num Deus amoroso e misericordioso, num Deus disposto a transformar vidas. Deus não está morto!




[1] God’s Not Dead é um filme de drama cristão, datado de 2014, dirigido por Harold Cronk.

domingo, 7 de dezembro de 2014

REMÉDIO E VENENO: UMA QUESTÃO DE DOSAGEM


REMÉDIO E VENENO: UMA QUESTÃO DE DOSAGEM
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Quem trabalhou ou trabalha em escola sabe o quanto é difícil, porém necessário, explicar às crianças e adolescentes a diferença entre a “brincadeira” e o “ato de indisciplina”, este último sujeito aos “puxões de orelha” previstos no Estatuto Disciplinar ou algo que o valha. Comum é lidarmos com situações onde o educando é encaminhado para a Direção ou Coordenação de Disciplina porque ofendeu, machucou ou ameaçou o colega, por exemplo. Não menos comum é nos depararmos com a “justificativa” dada pelo aluno: ”tudo não passava de uma brincadeira”. Sincera ou não a explicação – até porque é difícil averiguar a verdadeira intencionalidade do ato –, precisamos admitir o quanto é tênue o limite que separa o “brincar” daquilo que o extrapola, passando a ser um problema. Faz lembrar o conhecido dito popular de que o que diferencia o remédio do veneno é, no frigir dos ovos, a dosagem aplicada. Brincadeira é quando todos os envolvidos se divertem, sem qualquer espécie de prejuízo a eles e/ou a terceiros. Por outro lado, quando alguém – mesmo que de fora do circuito da “brincadeira” – sai ferido, magoado, lesado ou diminuído em sua dignidade, aí passamos a ter um problema. Toda brincadeira tem limites, marcos estes que devem estar assentados no respeito, na ética, na verdade, na honestidade e, é claro, na diversão e no lúdico. Divertir-se é não apenas aceitável, como necessário e saudável, algo indispensável à formação do sujeito enquanto pessoa. O prazer que nasce da diversão é como cimento imprescindível à edificação de homens e mulheres mais felizes e melhor preparados para construção de uma sociedade mais harmoniosa e menos desequilibrada. Contudo, o próprio “brincar” obedece, ou deveria obedecer, certas ordens, alguns paradigmas necessários para que a alegria de “um” não se transforme em tristeza para “outro”. O que é, por exemplo, o bullying senão uma perversa e abominável prática onde alguém se “diverte” às custas de outrem? Brincar, é remédio para alma. Extrapolar a brincadeira, por sua vez, é veneno para as relações. A brincadeira aproxima, enquanto o exagero não apenas distancia, mas – por vezes – é tão cruel a ponto de apagar até mesmo as pegadas que poderiam levar a um novo encontro de perdão. A brincadeira rejuvenesce, o excesso recrudesce a vil tirania do aparentemente mais forte em face da vítima. A brincadeira abre portas e faz brotar a amizade, já a maldade sepulta a confiança mútua. Brincar é como bálsamo que restaura a saúde, faz correr a dor e afugenta a nuvem sombria da descrença na vida. Distorcê-la, contudo, é lançar irresponsavelmente o sentimento alheio contra os duros penedos, deixando – por vezes – cicatrizes eternas na memória. À escola e, principalmente, à família cabe educar o rebento, orientá-lo a discernir entre o certo e o errado (aos defensores do relativismo doentio, afirmo existir sim o “certo” e o “errado”!), diferenciar o veneno do remédio, primar pelo respeito ao outro, sem abrir mão ou deixar de lado a brincadeira e a felicidade. Boa diversão a todos! 
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A LISTA


A LISTA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Procurando o nome na lista de alunos aprovados por média? Por quê? Tens alguma dúvida? Ora, o resultado final não deveria causar nenhuma surpresa ou solavanco, não é mesmo? Afinal, quase sempre, colhemos aquilo que plantamos. Qual foi o grau de dedicação e comprometimento com os estudos? A resposta é diretamente proporcional à certeza que tens (ou deverias ter...) quanto ao fato de veres, ou não, teu nome inserido na tão aguardada Lista. Claro, há que se admitir certa “margem de erro”, especialmente para aqueles raros casos em que, apesar de todo esforço, ainda assim, o conteúdo explicado nas aulas parece teimar em entrar na cachola. A Lista não deveria surpreender, seja para o bem do próprio educando, da família, da escola, da sociedade como um todo, seja, ainda, para o bem da educação, afinal esta última carece, cada vez mais, de coerência e previsibilidade. Discursos não faltam em defesa da aprovação a qualquer custo, objetivando quiçá a obtenção de dados “positivos”, ainda que para lá de mascarados. Não menos danosos são os chavões que, na prática, fazem da nota um triste e perverso açoite para compensar a incompetência do educador em dar conta do recado. A Lista deveria revelar o “preto no branco”, coroando o casamento perfeito entre o previamente combinado e o efetivamente realizado. Estar nela deveria ser, ainda, regra e não exceção. Infelizmente, contudo, a Lista tem estado não apenas cada vez mais magra, mas também mais pobre em qualidade. Mesmo a flagrante mediocrização do ensino tem se mostrado incapaz de ampliá-la. Causa tristeza ver a Lista virar um fim em si mesmo. O que importa, para maioria, é ver seu nome ali inscrito, como se fosse o próprio Livro da Vida. Poucos demonstram preocupação em saber como seu nome foi parar ali, se foi produto do trabalho e verdadeira dedicação ou se foi obra do acaso ou, o que não deixa de ser pior e mais constrangedor, se foi resultado da “bondade” docente. O que seria mais preocupante, constar ou deixar de constar na Lista por alguns minguados “pontinhos”? Existem até aqueles que, em troca de um lugarzinho no tão sonhado rol da “fama”, se comprometem com alguns Pais-Nossos e pagamento de promessas. Há também os que juram, reiteradamente, que no próximo ano será diferente, fazendo lembrar a eterna dieta da segunda-feira. Para fazer parte da Lista, para muitos, vale de tudo, até botar uma “pressão” neste ou naquele professor. A Lista ressuscita até mortos. Aquela mãe que jamais compareceu na escola e sequer sabe o Ano do rebento ou o nome da “prô”, até ela, acreditem, resolve dar as caras e cobrar o nome do filho na Lista. Rola, por vezes, desde sutis ameaças até a mais escancarada agressão. O blefe corre solto: “caso rodem meu filho, vou tirá-lo da escola”. Como se o pobrezinho fosse vítima senão do próprio desleixo e da falta de vigilância familiar. É duvidar, lá está o guri no ano seguinte, acompanhado da mãe, como se nada tivesse acontecido... A Lista tem sido a própria síntese da decadência e do fracasso escolares. Urge repensá-la, vê-la como a ínfima parte de um perigoso iceberg que coloca em risco gerações inteiras de naus a espera de um norte. Cabe, principalmente, a nós adultos (pais, professores, gestores, estudiosos...) apontarmos o caminho. Ah, antes que esqueça: parabéns ao que tiveram (ou tiverem) o nome inscrito na Lista. Quanto aos demais... 

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domingo, 16 de novembro de 2014

BUMERANGUE


BUMERANGUE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Como um bumerangue mal arremessado que, ao retornar em direção a quem o lançou, atinge a jugular e ceifa a vida, assim tem sido comigo, contigo e com cada um de nós. A mesma sociedade que, diuturnamente, se queixa de ser “vítima” da violência – hoje não mais apenas urbana –, das mazelas nascidas da corrupção, da governança incompetente, quando não criminosa e irresponsável, do tráfico que a olhos vistos compromete o futuro de gerações inteiras e faz do viciado um completo imbecil, aniquilado do ponto de vista ético, moral, cognitivo e produtivo, esta mesma sociedade não passa, na verdade, de algoz dela mesma. As mesmas classes média e alta que tecem discursos inflamados contra a guerra do tráfico são as maiores consumidoras de maconha, ecstasy e cocaína, por exemplo. Muito comum é vermos o “filhinho de papai” – não raras vezes, o mesmo que ainda há pouco desrespeitava as regras da escola e mandava os pais tomarem no ... – infestar, em meio à roda de zumbis mentecaptos, o ambiente de praças e residências com o fétido cheiro da morte exalado pelo baseado. Ora, o que são as “aventuras” de tais adolescentes senão a face da mesma moeda que alimenta o crime organizado, as facções dentro dos presídios e o poder “paralelo” instalado, tal qual taenia, nas entranhas do Estado? Por que escandalizar-se com as cracolândias e não com as festas raves regadas a muito álcool, sexo e drogas? Por que escandalizar-se com a violência corporificada no vocabulário chulo ou no porte de arma do adolescente que guarda a boca de fumo e não com o uso irresponsável das redes sociais para ofender, difamar ou ameaçar? Por que escandalizar-se com as milhares de vítimas do trânsito e não com a direção perigosa, em alta velocidade e embaçada pelo torpor do álcool e dos entorpecentes? Quanta hipocrisia. Julgamos apenas pelo “fim” e não pelos “meios”, pela “aparência” e não pela “essência”. Assim, se a embriaguez não é descoberta e nem tampouco gera acidentes, está tudo bem. Caso o filho ou a filha, pouco mais do que uma criança, seja promíscuo, tudo certo, desde que se cerque de cuidados para evitar uma gravidez indesejada. Engravidando, contudo, é “só” abortar, desde que sob o manto da discrição e do anonimato. Observar que a prole chega em casa com objetos alheios ou com olhos a denunciarem o uso de drogas, tudo bem, mas que não venha ninguém reclamar. A sociedade que temos é a que merecemos. Colhemos, quase sempre, o que semeamos. Fazer da urna latrina e desejar que saia dela bons gestores ou representantes, é um engodo. Tratar o corpo como um receptáculo do consumismo doentio e querer uma longa vida com saúde física e mental é, no mínimo, uma grande ingenuidade. Imaginar um ambiente ecologicamente equilibrado e sustentável sem abrir mão dos penduricalhos nascidos do Capitalismo, por sua vez, não passa de um enorme paradoxo. O “destino” parece algo inexorável. Assim como um bumerangue, a vida, muitas vezes, tem um caráter retributivo, refletindo nossas escolhas. A sociedade, em última instância, é nossa própria imagem e semelhança. 

domingo, 9 de novembro de 2014

CONVITE À PERMISSIVIDADE


CONVITE À PERMISSIVIDADE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                O Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul (CEED), através de uma de suas Comissões, acenou com a possibilidade de emitir um documento, em princípio sob a forma de Parecer, que traz, dentre outras coisas, a vedação às instituições de ensino, públicas e privadas, de suspenderem ou transferirem compulsoriamente alunos com problemas disciplinares. A malfadada iniciativa do Conselho conseguiu algumas proezas. A primeira delas foi a de colocar do mesmo lado da mesa os sindicatos patronal (SINEPE/RS) e de professores (SINPRO/RS), o que para muitos parecia impossível. Além disso, a minuta engendrada nas entranhas do referido Colegiado suscitou a indignação, para não dizer a ira, de quase todos os segmentos que compõem o próprio Conselho, reação esta que lançou dúvidas sobre a própria legitimidade da iniciativa do CEED. Verdadeiro tiro no pé. A Audiência Pública ocorrida na Assembleia Legislativa corroborou o que já se sabia. A maioria acredita que retirar da escola o direito de suspender ou transferir compulsoriamente o aluno indisciplinado, em casos comprovadamente necessários e justificáveis, fere não apenas a autonomia constitucional das instituições de ensino (privadas), mas reforça o pérfido hedonismo que há muito vem sangrando a ética e os mais elementares princípios de convivência social. Apesar das eventuais boas intenções (dizem que o inferno está cheio delas...) por detrás da iniciativa personificada na minuta em questão, urge posicionar-se contrário à “fórmula mágica” encontrada por alguns conselheiros frente à necessidade de se garantir o direito a todos os educandos – mesmo aqueles que demonstram não quererem – de assento nos bancos escolares. Esquecem eles, contudo, que as escolas, em princípio, são as primeiras a desejarem, por exemplo, não apenas a permanência, mas, sobretudo, o sucesso do educando. Não por acaso, todo o empenho dos professores e diversos Setores que compõem a escola no intuito de contribuírem para o crescimento cognitivo e humano do aluno. Além do mais, transferência para outras instituições de ensino, no caso das escolas privadas, representa, dentre outros prejuízos, uma diminuição no fluxo de caixa. Portanto, não é uma medida nem simpática, nem tampouco bem-vinda. Todavia, em casos pontuais – vale lembrar, que as transferências compulsórias representam um ínfimo percentual no universo de alunos – é, sem dúvida, uma “saída” (literal) necessária. As medidas extremas, e a transferência compulsória é uma delas, vêm sendo aplicadas naqueles casos onde a indisciplina do aluno é reiterada, onde se observam práticas e posturas inadmissíveis e de elevada gravidade, onde a omissão, condescendência e permissividade da família põem a perder todo esforço da escola no sentido de “resgatar” o aluno indisciplinado e onde a permanência do educando significa uma ameaça ao sagrado direito da maioria a um ambiente ordeiro, sadio e pedagogicamente adequado, por exemplo.  A escola, por vezes, comete abusos? É provável que sim. Aí entra, numa última instância, o Judiciário para reparar eventuais danos causados ao aluno e sua família. A contrariedade, quase unânime (neste caso, não é sinônimo de burrice...), à minuta do CEED não deixa dúvidas quanto à pretensão da maioria em não tergiversar ante a escalada do relativismo doentio que olvida os mais nobres e necessários valores historicamente construídos, valores estes indispensáveis à construção de uma sociedade melhor e mais fraterna. 

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domingo, 5 de outubro de 2014

EXCEÇÃO OU REGRA?


EXCEÇÃO OU REGRA?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                A merecida homenagem ao aluno, que devolveu os cinquenta reais encontrados no pátio do Instituto de Educação São Francisco, suscita algumas certezas e desencadeia muitas dúvidas. É certo, por exemplo, que existe gente honesta. A dúvida, paradoxalmente associada à certeza anterior, diz respeito ao número de pessoas que podem ser arroladas como ilibadas. Até porque é comum, mesmo entre aqueles que se mantêm vigilantes quanto às inúmeras tentações da carne, deslizes, ainda que pequenos. Contudo, mesmo sendo todos pecadores – alguns tidos como mais, outros menos –, é inegável o sentimento de conforto e esperança quando nos deparamos com atitudes como a do aluno. Por que não ficou com o dinheiro? Poderia engambelar a consciência sob o conhecido argumento de que “achado não é roubado”. Optou por devolver o valor encontrado. Quebrou a perversa lógica de encontrar explicações para o inexplicável, e justificativas para o injustificável. Superou a vergonhosa tendência de trilhar o senso comum de que agir como a maioria, ainda que o referido agir seja eticamente repreensível, abona os eventuais deslizes cometidos. Assim como o aluno, muitos são os que não titubeariam em fazer o que é certo. Outros tantos, ainda, mesmo que titubeantes, após uma “crise” de consciência, também fariam o que é certo. O problema são aqueles que, sendo ou não abalados pelo dilema interior da consciência, optam pelo caminho errado. Trata-se de um liame, por vezes, muito tênue, mas que faz toda a diferença, pois que distingue o honesto do desonesto, o bom do mau, o probo do improbo. A família, sem dúvida, tem indelével papel no desenrolar da história. O exemplo dos pais, o zelo pela verdade, a disciplina exigida à prole são determinantes na formação do caráter dos filhos e filhas. Inegociáveis são, por exemplo, o respeito, a responsabilidade, o cumprimento às regras estabelecidas – desde que obviamente justas – e a honestidade. Virtudes não surgem do nada, mas brotam das relações que se estabelecem no cotidiano do lar. Os desejados frutos são semeados, amadurecidos e, quase sempre, colhidos, no seio familiar. Virtudes são construídas em meio ao afeto, à autoridade, ao perdão e a todos os demais frutos que nascem do amor. Este pressupõe condescendência e cumplicidade, mas apenas quando eticamente pertinentes. Amar exige compreensão e diálogo, desde que jamais confundidas com anuência aos desvios de conduta. Amar é cuidar, vigiar e insurgir-se contra as terríveis pragas do mundo moderno, por vezes escondidas sob o manto de modismos que, no fundo, corroem as estruturas da família e colocam em risco não apenas o presente, mas o futuro de nossas crianças e adolescentes. Os “zumbis” a povoarem as praças e “cracolândias”, por exemplo, ainda ontem não passavam de crianças sob os cuidados (descuidos!) dos pais. O medo ou a fraqueza de dizer “não” ao rebento, de colocar e exigir limites aos excessos da criança, serviram – mesmo que inconscientemente – de combustível  a alimentar o triste mundo do crime e do tráfico. Gerações inteiras de desgarrados e fracassados. Pais verdadeiramente presentes geram bons frutos. Parabéns ao aluno e aos amados pais que fizeram dele um exemplo a ser admirado e, principalmente, seguido.  

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terça-feira, 1 de julho de 2014

AS PEDRAS DE DAVI


AS PEDRAS DE DAVI
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Certa feita, tive o privilégio de ouvir numa reunião de escola alguém falar das pedras de Davi. Quais são as “pedras” que temos escolhido para lançarmos em direção ao “Golias” que, a todo instante, atravessa nossa vida? Têm sido as pedras certas? Têm sido as pedras apropriadas? Temos assistido levas e levas de homens e mulheres, de todas as idades, condições socioeconômicas das mais diversas, instruídos ou não, religiosos ou agnósticos, enfim, miríades e miríades a usarem de pedras que mais parecem bumerangues, onde a grande vítima acaba por ser aquele que as lançou. Enquanto isso, o algoz se fortalece. Ao invés de um, passam a ser dois, três, quatro incontáveis e intermináveis problemas... A seiva que, talvez, já não fosse intensa, esvai-se ainda mais. O inimigo se fortalece. Por que há tantos que lapidam a si mesmos? Apedrejam-se? Voltam-se contra as próprias entranhas? Alimentam tumores do corpo e da alma? Espantam o sono e afugentam os sonhos? Homens e mulheres tristes e entristecedores. Contam nos dedos os momentos de felicidade e fazem vistas grossas à vida que brota a cada instante, em cada canto, em cada sorriso, em cada abraço. Pais que sofrem e fazem sofrer a prole, negando a esta o norte ou fazendo da paternidade uma espécie de roleta russa, onde – salvo os poucos lampejos de sorte – a droga, a indolência, a indisciplina e a morte espreitam e comprometem o futuro. Homens e mulheres que fazem da depressão uma espécie de moda, garganteando a dependência terapêutica e farmacológica. Entregam-se a um mundo de “faz-de-conta”, marcado pelo consumismo doentio e árido de valores perenes. Homens e mulheres que esperam do Estado, dos “outros” (amigos ou não) e dos filhos aquilo que jamais cultivaram. É crível que o lavrador colha o que jamais semeou? Qual é o Golias que desejamos enfrentar? Qual sua real força e tamanho? Quem o alimenta e de que forma? Não será ele, no fundo, a sombra ampliada por nós produzida? Onde reside a maior ameaça, no tamanho do inimigo à nossa frente ou na imagem que dele fazemos? Pedras, há muitas. Tamanhos, formas e cores das mais variadas. Talvez estejamos escolhendo as erradas, as mais (ou menos) acessíveis, as mais (ou menos) pesadas, as pouco resistentes... Urge certa dose de sabedoria para escolhê-las. Por que não ouvir a voz do coração? Por que não dar espaço ao silêncio que instrui? Por que não apostar no amor? Por que não confiar? Por que não dobrar-se sobre os joelhos e chorar? Por que não entregar-se à humildade? O verdadeiro gigante, quem é? Pertence a quem o nosso destino? Qual é o tamanho e o foco de nossos sonhos e desejos? Façamos das pedras poderosas armas, matérias-primas para edificação de estradas que apontem para um ser humano melhor. Pedras a adornarem mosaicos formados de solidariedade, ética, respeito, alteridade... Cumpram elas outro papel que não o de nossa lápide, sob o olhar zombeteiro e triunfal de Golias.  

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domingo, 6 de abril de 2014

PRÍNCIPES E PRINCESAS


PRÍNCIPES E PRINCESAS
Gilvan Teixeira
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                Comum tem sido encontrarmos verdadeiros castelos encravados no meio da cidade, do bairro, da rua, de nossa (nossa?) própria casa. Castelos cercados por extensas e largas muralhas, aparentemente intransponíveis, formadas por enormes blocos que, ano após ano, foram sendo ali colocados, mesmo que de forma não intencional. Blocos pesados, infames e mal cheirosos. Blocos marcados por uma espécie de inscrição. Omissão, negligência, indiferença, falta de tempo, permissividade, mentira, medo, tirania, vergonha... Muitos nomes. Incontáveis. Feito os corais, tais blocos foram sedimentando. Diferentemente daqueles que ocupam os oceanos, as pétreas muralhas dos castelos abrigam a morte e a falta de esperança. Afundam sonhos e fazem naufragar o amor, o respeito, a ética e a saudável autoridade. Por detrás de todo castelo tem um príncipe ou uma princesa. Quem sabe, ambos. Os castelos urbanos, ditos modernos, convivem com a síndrome – que, quando não tratada a tempo, se transforma em “maldição” – da coroa. Herdeiros e herdeiras do trono que, desde muito cedo, intentam contra o Rei e sua companheira. Trazem uma teimosa inclinação ao despotismo. Nas masmorras por vezes encobertas pelo véu da aparente modernidade, torturam a memória e a tradição dos anciãos. Príncipes e princesas que não pedem, exigem! Não se desculpam, criam subterfúgios para esconder o erro e, se duvidar, ainda viram a mesa, passando de algozes a vítimas. Príncipes e princesas que dizem o que querem, na hora que querem e para quem querem. O olhar omisso, condescendente e, por vezes, envergonhado do rei e da rainha, feito lenha seca em meio às chamas, só faz inflamar o ego dos pequenos. Príncipes e princesas que vestem e falam como se reis e rainhas fossem. O cetro, desde muito cedo, tomaram para si. O que parecia simples brincadeira “engraçadinha”, toma proporções alarmantes. A insígnia real, nas mãos dos rebentos, torna-se víbora peçonhenta, destilando veneno para todos os lados. A língua “hiperativa” e sem controle desses príncipes e princesas ofende, fere, entristece, envergonha não apenas a própria estirpe, mas as famílias para além-muros do castelo. Tão cruel quanto às palavras, mais parecendo açoites à moral e à ética, são as ações desregradas e desmedidas dos príncipes e princesas que desconhecem os limites da razão e do bom senso. A tal ponto chegam seus disparates que nem as questionáveis amarras “ritalínicas” prescritas pelos doutos do reino são capazes de dar-lhes um basta. Não há fórmulas e nem tampouco farmacologia capazes de preencherem o espaço reservado à autoridade que deveria acompanhar todo rei e rainha. Ascendência real, justa e legítima se conquista e se constrói, não se compra e nem se terceiriza. Príncipes e princesas necessitam ser amados. Amor pressupõe, também, diálogo, respeito e limites. Príncipes e princesas merecem brincar, dar asas à imaginação, sonhar... Príncipes e princesas devem reinar, mas tão-somente nos castelos que brotam da fantasia lúdica. Príncipes e princesas devem aprender que a verdadeira realeza nasce do respeito ao outro, da alteridade e da solidariedade. É o amor quem, de fato, nos investe de brilho e distinção, não a do tipo midiático e superficial, mas duradoura, daquele tipo que acompanha os verdadeiros príncipes e princesas, futuros reis e rainhas a governarem seus castelos, onde as muralhas dão lugar a campos e jardins a perderem de vista.   

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terça-feira, 1 de abril de 2014

UVAS VERDES

UVAS VERDES
Gilvan Teixeira
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E veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Que pensais, vós, os que usais esta parábola sobre a terra de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram? [...]
Ezequiel 18:1-2



                A passagem acima permite uma série de interpretações. Para lá de uma análise bíblica, a parábola me faz pensar acerca dos incontáveis casos de crianças e adolescentes que violam as mais elementares regras de convívio social. As causas que levam à violação dos limites e princípios de convivência (estes últimos mais amplos do que as primeiras) são várias e complexas. Contudo, inegável é o papel da família no que tange à (de)formação de caráter do sujeito. Famílias omissas, frouxas, desorganizadas (sem papéis definidos) e permissivas tendem a parir indivíduos com sérios problemas de conduta ética. O problema perpassa por todas as classes socioeconômicas. Os segmentos com melhor poder aquisitivo, por exemplo, há muito esbarram com uma espécie de triste ironia, ou não seria hipocrisia? As mesmas classes média, dita ascendente, e alta, que mais esperneiam frente ao avanço da violência e da insegurança, (des)educam seus filhos e filhas, fazendo-lhes crer que o mundo gira em torno de seus umbigos. Quem já não assistiu a um pai ou a uma mãe arrotar, estúpida e arrogantemente, que “paga a escola” (como se isso não fosse mais do que obrigação!) e, por isso, deixem a “pobre” criança – às vezes, quase um homem de barba na cara – fazer o que bem entende. Infeliz e vergonhosamente não são poucas as instituições de ensino que se dobram frente ao temor de ou perder o aluno ou, quem sabe, se ver envolvida numa demanda judicial. São famílias paradoxais, onde muito comumente discurso e prática guardam uma distância estratosférica. Condenam a corrupção, mas sonegam impostos. Olham de soslaio para a improbidade, mas fazem da mentira companheira inseparável. Gritam por mais segurança, mas permitem que seus adolescentes tomem o volante do carro ou se embriaguem em festas regadas pelo álcool e pela droga. Desejam ordem no país, no estado, no município, mas a própria casa parece mais uma Babel, onde autoridade e respeito passam de largo. Não sabem elas que colhem o que semeiam? O tráfico vê nelas importantes aliadas. Tais famílias, em grande parte, é que sustentam o crime que, mais cedo ou mais tarde, baterá à porta, ceifará a vida, a saúde e a esperança da prole. Ontem era uma mentirinha aqui, outra ali. Hoje, um baseadinho aqui, outro acolá. Amanhã, o que virá? Ontem a cria se voltava contra o professor. Hoje, contra o criador. Amanhã, contra quem? A omissão e permissividade da família alimentam o caos social hoje conhecido. Está mais do que na hora da família dizer “não” aos caprichos desarrazoados dos mais novos. Dizer “não” à indisciplina, à desídia, à desonestidade, à mentira dos rebentos. Deixando de fazê-lo, alguém o fará. Quem sabe, o professor, o policial, o juiz, a morte... Amar é educar, envolver-se, comprometer-se, dar limites. Amar é ouvir, mas se fazer ouvir. É vigiar (o inimigo vem como ladrão...), é auscultar o mais discreto sussurro da alma. Amar é dizer “sim”, mas também dizer “não”. Amar é fazer brotar, crescer e frutificar os valores em nossos filhos e filhas. Parreirais, temo-los muitos, de todos os tipos. Uvas de qualidade, só a engenharia do amor e do cuidado as pode produzir.

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sábado, 15 de fevereiro de 2014

LIMITES


LIMITES
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                Erroneamente, a ideia de “limites” tem sido associada ao autoritarismo, como se sinônimos fossem. A geração que aí está, ao que se vê, encara – muito comumente – a imposição de limites com maus olhos. Apregoa, quase sempre de maneira pouco clara e nada convincente, uma pretensa liberdade, absoluta, destituída de quaisquer formas de regramentos, mesmo que tênues, que soem proibitivos ou moralistas. Uma geração que busca fazer valer aquela máxima dos anos sessenta: “é proibido proibir”. Ululante equívoco, contudo. Contextos diferentes, o de hoje e o da Tropicália. O atropelo à inteligência e ao bom senso tem produzido efeitos nefastos. O Estado - aqui entendido enquanto ente público – tem falhado no que tange à imposição de limites, da mesma forma que a família. Até porque ambos, vale lembrar, pertencem ao mesmo lado da moeda. Quem são os gestores, legisladores, juízes, agentes públicos de toda ordem, senão frutos da família? Quem são os larápios, assassinos, parricidas, estupradores, senão também frutos dela? O Estado somos nós. Sua falência é a própria falência da família. Esta é a principal responsável pelo forjamento de homens e mulheres, de boa ou de má índole. Das entranhas dela saem seres equilibrados ou não, honestos ou não, responsáveis ou não, dados ao trabalho ou não. Fala-se em “novas” organizações familiares, como se elas justificassem a inexistência de limites claros, justos e firmes em relação à prole. A escassez de virtudes e o deserto ético, por certo, não são apanágios desta ou daquela “classe” ou condição socioeconômica. São problemas de ordem cultural, espécie de erga omnes negativo, corroendo relações pessoais e sociais seja na favela, seja nos condomínios de luxo. A frouxidão estatal diante dos inúmeros e sérios desvios de conduta reflete a própria fragilidade da autoridade familiar. A desobediência civil e o desrespeito às leis nascem, sobretudo, dentro de casa, sendo irmãs gêmeas do não reconhecimento da autoridade familiar. Curiosamente, as estratégias – todas elas fadadas ao fracasso – para a resolução dos “conflitos” também seguem o mesmo passo, qual seja o do afrouxamento da regra, quando não o puro e simples “esquecimento” da mesma. Tudo em nome de um pretenso e falso diálogo. Ora, respeito, ética e honestidade, por exemplo, são inegociáveis. Abrir mão de valores pétreos representa cavar a própria cova, obstaculizando qualquer esperança de se construir uma “teia” social consistente. Soa como irresponsável a relativização de tais valores, mesmo que em nome de uma aparente paz. Urge o respeito aos limites na família, na escola, na rua, em todos e quaisquer lugares, ainda que não cobertos pelos “olhos” da vigilância eletrônica, esta própria resultante da desconfiança reinante e do “apagão” ético existente. Por óbvio, os limites devem se pautar no respeito à dignidade da pessoa humana, capazes de promoverem a edificação de uma sociedade mais justa e menos desigual. Diálogo não pode e não deve ser confundido com aniquilamento da verdade e da justiça.  

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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

SESSE OU FOSSE?


SESSE OU FOSSE?
Gilvan Teixeira
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                Quem tem filhos sabe: como esquecer aquela fase onde nosso pimpolho ou pimpolha (ou ambos...) troca o “fosse” pelo “sesse”? “Se amanhã sesse domingo...”, ou “se sesse a mãe, ela deixaria...”. Para alguns pais, boas e engraçadas lembranças. Para outros, situações do presente. Passado ou não, há algo em comum entre os pais de hoje e os de ontem: lá estávamos (ou estamos!) nós, os chatos, a corrigirmos a criança. “Pela milésima vez, não é ‘sesse’, é ‘fosse’”. A pobrezinha para, aparenta entender a lição mas, logo ali, está novamente a trocar as expressões. Um ou outro, é verdade, o faz só para caçoar do marmanjão. A maioria, contudo, é tão-somente coisa da idade. Vá entender gente grande, devem pensar os pequerruchos. Hora são só gargalhadas, hora condenam os pequenos. Hora se dão até ao trabalho de gravarem os escorregões gramaticais. É duvidar, ainda postam nas redes sociais. Contudo, logo ali adiante são capazes de ralharem com o rebento. Ao que parece, não sabemos nós, os adultos, o valor do “sesse”. Tempos bons. O “sesse” diz respeito ao universo infantil, onde as conjugações verbais se dão de forma distinta da nossa. O tempo para criança tem outra dimensão que não esta que adotamos depois de adultos. O tempo da criança é lúdico, multicolorido, sem muito compromisso com a ideia de início, meio e fim. O nosso, ao contrário, o tempo do “fosse”, nos amordaça, entorpece e escraviza. O “sesse” soa como devir. Mais parece a “casa da mãe Joana” (ou seria “coração de mãe”, pois tem espaço para todos?), onde pretérito, presente e futuro – quase nunca nesta ordem... – se misturam, feito maçaroca no cabelo. O “fosse”, por sua vez, é pobre em conjugações. Limita e atrofia os sonhos. Mais parece criação demoníaca de um Capitalismo doentio, vazio e frio. Mais do que triste rima, tais adjetivos são fruto (artificial, apesar – por vezes – da boa aparência) de um maquiavélico e funesto modelo. O “fosse” tem o pé no abismo. Talvez, por isso, mesmo que inconscientemente, o “sesse” represente uma ameaça, pois que o último denota vida, luz e magia. Ah, tem a alegria, a correria, o trava-línguas... Nos finais de semana tem, ainda, a casa da tia. Repararam? Também rima. Não nos enganemos, contudo, pois é de uma outra espécie, distinta da rima do “fosse”. A deste não tem graça, é – quase sempre – só desgraça. A rima do “sesse” faz chorar, mas é de tanto rir. Mijar de rir. Há quanto tempo nós adultos não “mijamos” de tanto rir? Acho que desde quando optamos pelo “fosse”. Sinceramente, se eu “sesse” vocês pensaria sobre o assunto... 

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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O PIOR CEGO


O PIOR CEGO
Gilvan Teixeira
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                Ainda guri, já ouvia o velho ditado: “o pior cego é aquele que não quer enxergar”. Lá se vão mais de quarenta anos, porém reforço a convicção de que o dito popular segue valendo. Talvez, mais do que nunca. Por vezes, fica a sensação de que vivemos numa terra de “cegos”. Tem sido muito comum nos depararmos com pais tomados de uma cegueira senão total, quase que completa. Apesar do discurso recheado de uma aparente autoridade e ascendência sobre o filho, este último reina absoluto dentro de casa. É ele quem, de fato, dita as regras. Sua palavra soa como verdade, em que pese todos os indícios a denunciarem exatamente o contrário. As vontades e manias do guri – por vezes, quase um homem – prevalecem, sob o risco de a família entrar em “conflito”. Triste e perigoso engodo. A demora de tais pais em detectarem e enfrentarem a falta de limites do rebento, muito provavelmente redundará, isto sim, numa tragédia familiar. Prato cheio para a delinquência, uso e/ou tráfico de drogas, mentiras reiteradas, irresponsabilidade, falta de compromisso, preguiça doentia, entre tantos outros dissabores. A escola, por certo, paga caro pela omissão e condescendência dos pais “cegos”. Contudo, o maior preço a ser pago é pela própria família. Caberá a esta, afinal, conviver por muitos anos, décadas e mais décadas, com os “pesadelos” por ela mesma criados e alimentados. Pesadelos que fazem chorar e sofrer. Pesadelos que levam à morte física, mental e espiritual. Pesadelos que, quase sempre, extrapolam os limites da própria casa, respingando em muitas outras famílias, com ou sem grau de parentesco. Pesadelos que aniquilam com a ideia de “lar”, pois que a tranquilidade, o diálogo, o carinho, a estabilidade, a paz, a felicidade duradoura e, acreditem, até mesmo a esperança, cedem lugar à desconfiança, à mentira, ao pranto, à enfermidade do corpo e da alma, ao medo, à violência... Pesadelos que comprometem e, não raras vezes, põem a perder as relações, mesmo aquelas mais profundas. É triste e preocupante observar, por exemplo, pais desautorizando decisões das instituições de ensino, mesmo que flagrantemente justas e juridicamente perfeitas. É vergonhosa a postura irresponsável de pais que se tornam reféns dos caprichos e baldas de crianças e adolescentes. Não sabem, ao que parece, os pais “cegos”, que ao serem omissos e coniventes frente à falta de respeito do filho pela hierarquia personificada na pessoa do professor, nada mais fazem do que abrirem mão da própria autoridade. Pais que pensam, agem e, não raras vezes, vestem como crianças e adolescentes. Tamanha aberração tem gerado imensuráveis prejuízos à teia social. Filhos e filhas paridos sem a existência dos modelos e referências indispensáveis. Naus sem bússola. A inexistência de um “norte” claro, firme e convincente tem engendrado seres vazios do ponto de vista ético e moral. Pais “cegos” temem em dizer não, mesmo quando necessário. Pais “cegos” criam uma redoma em torno do filho, onde, parecem acreditar, não há lugar para a dor e frustração. Formam o guri para o “mundo”, não o que desejamos, mas um mundo “paralelo”, onde o hedonismo, o materialismo exacerbado, o individualismo e a torpeza prosperam. Ironicamente, o mesmo mundo que eles, os pais “cegos”, paradoxalmente condenam em seus discursos bem elaborados. Cabe à escola, também, tensionar para que o olhar míope ou até mesmo tomado pela catarata retome a acuidade visual. Para isso, mister que haja coragem, disposição e convicção por parte das instituições de ensino. Tamanha e complexa “operação cirúrgica” requer paciência, resiliência, ética, competência, estudo, planejamento, coerência, capacidade para ouvir e auscultar inclusive o “não-dito”. Requer, sobretudo, amor.  

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ÍNDIO VELHO (2)


INDIO VELHO (2)
Gilvan Teixeira
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                O índio, remanescente da tribo guarani, parecia indiferente ao avanço da idade. Aliás, para ele o tempo escoava de maneira distinta do juruá. Jamais usara, por exemplo, relógio. Exceto a sucessão das estações e as mudanças de lua, o índio velho não atentava para o calendário. Janeiro, julho, dezembro... Pouco lhe diziam os meses do ano ou os dias da semana. Todo dia era de trabalho e de descanso. Todo dia era sagrado, portanto, dia de gratidão. Ao longo da vida, muito mais agradecera do que pedira. Por que seria diferente? Afinal, tinha tudo: o que comer, o que vestir, onde inclinar a cabeça. O índio velho, sentado sobre a cadeira de vime, sorvia o mate quente enquanto o olhar parecia distante, talvez acompanhando as lembranças de tempos idos. Não tinha do que se arrepender. Jamais prejudicara, intencionalmente, alguém. Não matara, não furtara, não roubara, não cobiçara o que é de outrem, não se apropriara de bem alheio (nem privado e nem, tampouco, público)... Acreditava o índio não fazer nada mais além do que era de sua obrigação. Aprendera com os antepassados assim. Vez por outra, fixava o olhar num que outro ponto, como que a observar meticulosamente um determinado objeto. Não muito adiante, uma criança parecia exigir do adulto, talvez seu pai, um brinquedo. Frustrado em sua intenção, o pirralho mais parecia um cavalo xucro, pinoteando daqui e dali. Diante da cena, o índio velho só abanou a cabeça, talvez em sinal de desaprovação ou, quem sabe, de desesperança quanto às futuras gerações. Tomou-lhe conta certo rubor, envergonhado que estava por ver a carroça posta frente aos bois. Ao ver o adulto refém dos caprichos da criança, sentiu uma espécie de ânsia, um mal estar a invadir o estômago. Não entendia e menos ainda aceitava a ditadura do piá. Outro dia ainda, um sobrinho vindo das bandas da capital, noticiara que não se podia mais dar uma palmada sequer no guri ou guria levados. O índio pensou, pensou... Não disse nada. Engoliu em seco a incredulidade. Fora criado em meio às leis advindas dos costumes, de pai para filho. Cabia ao último obedecer e respeitar o primeiro. Simples assim. A obediência e a hierarquia jamais foram fonte de rancor entre seu povo. Ao contrário. Era um tempo em que a tribo paria crianças sadias e felizes, emocionalmente equilibradas, respeitosas, disciplinadas, atentas, ágeis, comprometidas com o grupo, solidárias. Crianças que corriam, brincavam, “morriam” aqui para reaparecerem logo ali adiante. Apesar de uma que outra rusga, típica da idade, desconheciam a violência e ardilosa traição. Bastava um olhar do adulto e pronto! Os pequenos se aquietavam. O índio velho tinha dificuldade de compreender o que chamavam de “modernidade”. Como entender o profundo vazio das crianças de hoje? Têm, muitas vezes, tudo o que o dinheiro possa comprar, porém mais parecem um vale de ossos secos. Têm dificuldade para sentarem, escutarem, se concentrarem. A obesidade é não apenas do corpo, mas da alma. O índio velho nascera num tempo em que prática e palavra caminhavam juntas. Hoje, ficava espantado ao ver muitos juízes, pastores, advogados, psicólogos, médicos, psicopedagogos, professores gerando filhos desgarrados, desalinhados, desatentos, hipocondríacos, viciados, mentirosos, arrogantes, violentos, maldosos, desleixados, preguiçosos... Uma espécie de infanticídio espiritual. Centenas, milhares, milhões de crianças “natimortas”. Pele, osso e Coca-Cola. Pouco mais do que isso. O índio velho, com o olhar ainda absorto diante da cena da criança raivosa, não dizia nada. Limitava-se a lamentar. Sobre ele, uma revoada de caturritas a desaparecerem no horizonte. 

sábado, 5 de outubro de 2013

TERCEIRÃO


TERCEIRÃO
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                Mais uma Gincana que termina. Por um lado, alívio, pois só quem está envolvido com a organização da mesma sabe a carga de responsabilidade que ela representa. Por outro lado, alegria. Há muitos anos não via uma Gincana onde todas as turmas de formandos tenham se mostrado tão solidárias e cúmplices da felicidade alheia. Rusgas? Nenhuma que tenha chegado ao meu conhecimento. Ofensas, provocações, maus agouros? Nada, absolutamente nada. As turmas 31, 32 e 33 deram uma elogiável demonstração de civilidade. Belo exemplo a ser seguido por nós, adultos, acostumados que estamos a confundir “adversário” com “inimigo”. Ora, o primeiro nos faz crescer, amadurecer, melhorar. Não fosse nosso “oposto”, estaríamos condenados à modorrenta mesmice. O tensionamento é vital para que aprendamos a lidar com o “diferente”. Nossos formandos tiraram proveito de tal máxima. Defenderam suas respectivas bandeiras sem, contudo, rasgar as de outrem. Destacaram suas cores, sem espezinhar os demais matizes. Como esquecer os discursos das representantes de turma? Verdadeira lição de humildade. Perceberam os formandos fazerem parte de um mesmo “barco”, não o de Caronte, barqueiro do Hades. Os olhos tomados de lágrimas dos educandos revelavam um misto de contentamento e saudade. Felicidade pelo momento – mesmo que, para alguns, os números trazidos através do microfone não fossem aqueles desejados –, mas saudade, antecipada e profunda, pela proximidade do término do ano. Não um ano qualquer, mas do tipo especial, daqueles que calam na alma e na memória. Sabem eles que nunca mais desfrutarão de momentos com aquele. Última Gincana. Última turma. Último ano de São Francisco. Até das aulas de Geografia sentirão falta (é verdade!). Olharão para trás e lembrarão de cada canto do São Chico, dos professores, porteiros, auxiliares, padres... Não por acaso, as funcionárias da limpeza são chamadas de “tias”, tratamento quase sanguíneo, tamanha a afinidade forjada ao longo de quantos anos? Para muitos dos formandos, dez, onze, doze anos... Uma vida! Por muito tempo, para eles, o Instituto de Educação São Francisco, ou simplesmente São Chico, foi a segunda casa, quando não a primeira. Como todo lar onde transborda amor, muitas festas, mas também muitas cobranças. Quem ama exige. Saberão, no momento oportuno, reconhecer isso. O certo, ao ver o “Terceirão” fazendo a festa, é que estamos no caminho certo, em que pese todas as adversidades e intempéries. Formamos pessoas de bem, rapazes e moças que, ali adiante, serão trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães, homens e mulheres. Até então, nós os mais velhos, os tivemos “nas mãos”. Amanhã serão eles a nos governarem e protegerem. Daí o compromisso que temos em formarmos sujeitos capazes de construírem um município, estado, país e mundo assentados nos valores do Evangelho, onde prospere a paz, a solidariedade, a honestidade, o desenvolvimento sustentável e a justiça social. Parabéns aos alunos e alunas que fizeram da Gincana 2013 um momento especial. Parabéns aos pais que, direta ou indiretamente, contribuíram para o evento. Parabéns à Direção, professores e funcionários que, incansavelmente, não mediram esforços para o sucesso da Gincana. Parabéns ao “Terceirão”.


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

RELATIVO


RELATIVO
Gilvan Teixeira
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                Tudo é relativo? Comum é ouvirmos opiniões – quase sempre pouco fundamentadas – afirmando que sim. Será? Ainda esses dias, estávamos conversando, eu e algumas colegas de trabalho, sobre pessoas que buscam fazer o que é certo, em conformidade com a ética. Não são poucas é verdade, porém raramente viram notícia. Tem sido comum, isto sim, ocuparem as páginas de jornais, revistas, redes sociais e programas de televisão fatos pouco elogiáveis, quando não completamente condenáveis. Mais vale, ao que parece, um enorme traseiro a dançar vulgarmente sob a batida ensurdecedora dos alto-falantes do que boas ideias. Mais rápido do que a luz, as “curtidas” no face se propagam quando da postagem de fotos comprometedoras e fofocas bisonhas. Mais do que nunca, a pobreza de espírito tem encontrado campo fértil para frutificar. Por vezes, o pretenso anonimato fomenta a calúnia, a difamação e a injúria. A liberdade de expressão, errônea e irresponsavelmente, tem sido confundida com a falta de limites. Pipocam ações judiciais em busca do dano sofrido na mesma proporção que surgem novas ferramentas virtuais a favorecerem as práticas delituosas. Comungam do mesmo leito, os sentimentos de impunidade e liberalidade. Dia após dia, o agir ético soa forasteiro, deslocado, estrangeiro. Um misto de impotência, revolta e tristeza. O relativismo vazio e doentio tem lançado na sarjeta os valores éticos construídos pela humanidade ao longo da história. Valores que não se confundem com a moral. Esta é volátil e difere, com muita frequência, de região para região. A ética, contudo, é estrutural e estruturante. Os valores que aqui se defende deveriam estar no alicerce atemporal de todas as culturas. Honestidade, lealdade, responsabilidade, solidariedade, compromisso com a verdade, alteridade... Valores que transcendem os limites do tempo, do idioma, da crença, do matiz político ou ideológico. Sem eles, toda e qualquer civilização está fadada ao fracasso, à guerra fratricida, à submissão. Como e quem (de)forma nossas crianças e jovens? É triste e desesperador vê-las caminhando em direção ao precipício, onde grassam as drogas, o egocentrismo exacerbado, a indiferença em relação à sorte alheia, a carência de vínculos duradouros e o apego exagerado ao “ter”. Uma geração, por vezes, sem rumo. Quem dará a ela o norte? Os pais ou, então, “terceiros”? A mídia? O mercado? Ao contrário de quem ama, o “mundo” está a prometer só prazer e satisfação. Oferece diante dos olhos de nossos filhos um belo “contrato”, repleto de sonhos e fantasias. Esconde, contudo, por detrás das minúsculas letras e notas de rodapé, as amargas e fatais contraindicações. Amar é acolher, elogiar, apoiar, mas também exigir. É dizer “sim”, mas também “não”. É auscultar o coração e decifrar o olhar. Amar é orientar, proteger e defender, sem, contudo, aquiescer com o erro ou com este condescender. O amor exige posicionamento. É comprometer-se. Amar e relativizar, apesar da aparente semelhança sonora, pouco têm em comum. O amor não transige com a falta de ética e tampouco dialoga com a “cultura de morte”. O amor não é relativo!



quinta-feira, 23 de maio de 2013

TEKOHA


TEKOHA[1]
Gilvan Teixeira
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                Alma sem corpo. Errante, a andar a esmo de nenhum lugar para lugar algum. Assim somos nós. Povo sem terra. A verdadeira terra, tomada de simbolismos e significados. Não a terra vazia, amorfa, inerte, sem vida. A terra que nos falta é a do tipo sagrada, da mesma sonhada e perseguida por povos de outrora. Terra de leite, mel e erva-mate. Pródiga, farta, materna. Não a terra cercada por arames, muros e outras espécies de limites infames. Falta-nos a terra sem dono, mas ela própria senhora de nossos destinos. Terra de sonhos. Bons sonhos... do tipo sonhado por todos... Sonhos de igualdade entre os diferentes. Terra que traz as pegadas de nossos entes pretéritos e os sinais por eles gravados. Memórias que brotam, passeiam feito borboletas, cigarras, beija-flores e pardais... Dançam embaladas pelo vento. Mesmo o minuano parece não demonstrar a menor intenção de amainar o fogo nascido do afeto que permeia as relações. O calor que abrasa as almas. A chama a dançar feito o pensamento. Este, livre, solto, maroto... Mais parece criança envolvida em meio às peraltices e brincadeiras de roda. Nem de perto se parece com o “nosso” amontoado de concreto. É cimento para todo lado! Cubículos e poleiros. Não fossem as fachadas multicoloridas e, por vezes, envidraçadas, logo denunciariam sua verdadeira essência: arapucas. Aprisionam o físico e letargiam os sentidos. Enchem os bolsos de alguns poucos, enquanto esvaziam a caixa de Pandora. No lugar da mitologia, uma perniciosa e enganadora ideologia. Nesta última, não resta sequer a esperança. Escasseia-se o romantismo, sobejam muriçocas. Pudera! Usurpamos, defraudamos, extorquimos, abusamos... Não bastasse, imbecilizados pela arrogância e prepotência, ainda atribuímos a outrem a (ir)responsabilidade que nos pertence. Na linha de tempo, nosso egoísmo umbilical e doentio troca de nome: revolução, progresso, pós-modernidade... A essência permanece. Os frutos revelam a seiva que os alimenta. Por mais bem apresentados que pareçam, seguem perigosos, nefastos e prejudiciais. Pena que – ao contrário, por exemplo, dos insetos, jumentos e ratos – não nos damos conta do perigo. Quiçá, seja o preço de nossa decantada inteligência.

                Urge “ressignificarmos” o espaço em que estamos. Fazermos dele nosso tekoha.  Espaço sagrado, protegido, amado. Espaço onde possamos gerar e ver crescer nossas crianças, livres de estereótipos e preconceitos dissipadores de afetos. Espaço onde viceje o amor, respeito, solidariedade, perdão, responsabilidade... A casa, a escola, a empresa, a rua... Por que não fazer de todo e qualquer espaço um lugar “vital”, verdadeiro tekoha? Espaço de trocas, vivências, experiências, aprendizados...? Espaço de culto, louvor, reconhecimento ao Criador? Espaço de histórias, fictícias ou não, pois no fundo o que encanta é o “contar” e o “ouvir”, a intrínseca relação que daí nasce. Espaço de valorização da genealogia, fortalecimento da família, aproximação das pessoas. Espaço de amizade, saudável cumplicidade, alteridade... Espaço de boa e farta comida, que a todos alimenta, mesmo que estrangeiro. Espaço lúdico, alegre, pródigo em palavras e gestos que promovam a paz, o altruísmo, a autoestima e a confiança em si e no outro. Espaço onde o aprendizado nasça, sobretudo, do “fazer” e do “experienciar”. Espaço onde o livro ocupe o centro da sala, tomado pelas mãos de quem o explora. Espaço de palavras doces, nem por isso menos firmes. Espaço para sinceridade. Espaço para carícia e para o beijo, rápido ou não... Espaço para o afago, para o elogio e para crítica que faz crescer. Precisamos dar vida ao vale de ossos secos em que se transformou, quem sabe, “nossa” (nem tão nossa, pois transitória...) terra e nossa casa. Ressignifiquemos o espaço que hoje ocupamos. Façamos dele nosso verdadeiro tekoha.



[1] Para os guaranis, significa a terra enquanto “espaço vital”. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

SEQUESTRO



SEQUESTRO
Gilvan Teixeira
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                A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), oficializada em 20 de dezembro de 1996, trouxe importantes e positivas mudanças no que tange ao ensino neste país. Tensionou o Poder Público e a sociedade civil na busca de uma educação, de fato, universal e comprometida com a qualidade.  Alavancou novos paradigmas. Ao menos em tese, pois, infelizmente, na prática, a educação neste país – principalmente pública – segue muito aquém do aceitável. Recursos em quantidade insuficiente e mal aplicados, prédios sucateados, professores mal pagos, metodologias equivocadas, são apenas alguns dos fatores que acabam por produzir os pífios resultados por nós conhecidos. Não bastasse o flagrante descumprimento por parte do Poder Público (em todas as esferas: federal, estadual e municipal) no que tange ao texto constitucional, texto este que exige uma educação de qualidade, agora vem o Estado a nos obrigar a matricular nossas crianças na Educação Infantil a partir dos quatro anos de idade. Quatro anos!!! Não bastasse tamanha insanidade, impõe aos pequenos (quatro anos!!!) uma carga horária estúpida de não menos do que duzentos dias letivos e oitocentas horas. Obriga, ainda, a uma frequência não inferior a sessenta por cento da carga estipulada. Irresponsável tal exigência. Primeiro porque arranca das famílias, de forma compulsória e violenta, nossos filhos e filhas e os enfia nos estabelecimentos sucateados, onde o que menos viceja é segurança e qualidade no atendimento. Ora, o mesmo Estado que criou tamanha anomalia é o Estado que sequer dá conta dos demais níveis: Ensinos Fundamental e Médio. Apesar de “universalizados” – em especial o Fundamental – os referidos níveis, sabidamente, não se mostram capazes de formarem os educandos nem sob o ponto de vista cognitivo, nem tampouco sob os pontos de vista afetivo ou laboral, por exemplo. O Brasil como um todo tem formado levas e mais levas de sujeitos despreparados para a vida. As avaliações – mesmo aquelas levadas a cabo por instituições governamentais – revelam dados preocupantes e assustadores. Não por acaso, vem crescendo o número de famílias que defendem o direito de, elas próprias, arcarem com o papel reservado, inicialmente, à escola. Mesmo que a guisa da lei, a opção acima revela a total descrença em relação ao modelo – equivocado e fracassado – de ensino neste país. Entra ano e sai ano, entra governo e sai governo, a educação vai de mal a pior. Portanto, a alteração da LDB, passando a antecipar a obrigatoriedade da matrícula da criança a partir dos quatro anos, e não mais aos seis, causa estranheza. Corre-se o risco da perda da infância. Esta passa a ser “institucionalizada” por um ente historicamente incompetente, omisso, falho, quando não corrupto e destituído de qualquer sinal de ética. Sequestra-se a criança. Verdadeiro atentado a um direito natural das famílias. Ora, a Educação Infantil (de zero a seis anos incompletos) deve ter, isto sim, um caráter de “oferta” do Poder Público às famílias que, por algum motivo, não possam ou não queiram estar com a criança. Assim, a prole de quem precisa trabalhar ou então aquelas crianças em estado de vulnerabilidade, por exemplo, têm um local onde permanecer. Contudo, soa como tirano olvidar aquelas famílias que não precisam e não desejam colocar seus mancebos em instituições voltadas ao atendimento da Educação Infantil. Urge uma reflexão profunda acerca do assunto, sob o risco de perdas e sequelas irreversíveis para a infância e para as relações familiares como um todo.

Veja ainda:
http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=a0dd25e25ee3c27f016c54a19e61e828




quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

BONS FRUTOS



BONS FRUTOS
Gilvan
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                Filhos são uma bênção. Filhos bons são uma bênção maior ainda. Fui, portanto, duplamente abençoado. Ontem, dezenove de dezembro de dois mil e doze, foi um momento especial, pois vi minha filha finalizando o Ensino Fundamental. Mais do que isso. Formando-se na Escola onde também estudei e, há mais de vinte anos, trabalho. Novamente, duplamente abençoado! Filhos bons são como bons frutos. Saudáveis do ponto de vista moral e ético – infelizmente, nem sempre do ponto de vista físico... –; doces ou nem tanto, mas autênticos, sem os “agrotóxicos” e perfumarias do mercado. Filhos bons não são “bichados”. O conteúdo e interior deles combinam com o “invólucro”. São, portanto, confiáveis. Valem muito. Como preciosidades, são disputados e apreciados. Filhos bons, assim como bons frutos, não foram criados para serem lançados nas “lixeiras” da vida, onde proliferam as drogas, o descaminho, a promiscuidade e a escassez de limites. Filhos bons são motivos de orgulho. Por isso, estou assim... Orgulhoso. Faltam palavras, bem sei, mas sobra alegria. Como foi bom ver minha primogênita recebendo os louros da vitória. Dela, da família e da Escola. A formatura é, por paradoxal que possa parecer, feito o nascimento. Este é a coroação de uma relação de amor e afeto. Aquela é o ápice de uma relação, também, de amor e de afeto, ambos ingredientes indispensáveis no processo ensino-aprendizagem. Minha filha é fruto do amor. Amor dos pais, que educam, e dos professores que, feito os pais, zelam e cuidam durante horas, dias, semanas, anos... Mais do que um rito de passagem, a Formatura é uma consagração. É momento de reflexão, mas, sobretudo, de agradecimento. Por certo, representa também uma espécie de “fratura” (talvez nem tanto, sequer uma luxaçãozinha), um rompimento com o as coisas de criança...  Quem diria! Ainda ontem, minha guria não passava de uma criança. Hoje, uma moça. Linda, inteligente, maravilhosa... Que venha o Ensino Médio! Que venham novos colegas, amigos, experiências e responsabilidades. Estas crescem com o passar dos anos. Parece, só parece, uma equação simples: mais liberdade é (ao menos, deve ser) produto da responsabilidade multiplicada pela idade. O resultado não pode ser outro. Bons frutos. Olhem só, eles aqui novamente! Parabéns à minha filha pelo ótimo desempenho no Ensino Fundamental! Parabéns à família (aqui compreendida numa forma extensiva, onde pais e irmãos foram, juntamente com a avó Geci e a tia Fafá, fundamentais na árdua tarefa de cuidar e educar)! Parabéns ao Instituto de Educação São Francisco, em especial seus professores (meus colegas!), pela acolhida e formação intelectual de minha eterna guria. Formação não apenas intelectual, é verdade, mas também formação e reforço de valores cultivados no seio familiar. Parabéns aos colegas de minha filha, em especial àquelas amigas mais próximas dela. Amizade que, acredito, seguirá ainda por muito tempo... Apesar da distância. Apesar dos caminhos percorridos. Apesar das decisões tomadas. Afinal, amigos de verdade, são como filhos bons. Geram bons frutos!