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Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 16 de julho de 2015

URUBUS


URUBUS
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                A fauna em Cachoeirinha – que da antiga queda d’água só sobraram as lembranças registradas na memória dos quase centenários ou nas páginas amareladas da história –, ao que parece, tem se resumido aos urubus. Sobrevoando o céu da cidade, até que não são muitas as aves de rapina. Preferem elas, ao que tudo indica, alguns espaços públicos. O fétido odor exalado lá para as bandas de prédios onde público e privado se confundem e se amancebam, denuncia a presença dos malditos bichos. Vestem, muito comumente, terno e gravata, quando não uma bela toga a esconder a imundícia da própria natureza. Vivem da tragédia alheia, apesar, é claro, de jamais admitirem. Poucos são os urubus letrados em Cachoeirinha, a maioria mal consegue ir além de uma espécie de grunhido mal elaborado, apesar de inegavelmente poderoso e convincente. Não por acaso, a cada quatro anos, muitas dessas aves renovam suas penas e seguem monopolizando seus ninhos, recheados de filhotes comissionados a lhe paparicarem. Qual será o milagre de tamanha vitaliciedade? Quem sabe, a capacidade mimética de se confundirem com o ambiente. Os urubus que por aqui gorjeiam – uma espécie de infindável “melodia” da morte e do engodo – são de uma espécie muito similar às do Planalto Central. Cheiram a urubu, vivem da carniça do contribuinte, mas pousam de pavão. Talvez por isso, não larguem o naco de carne, afinal toda aquela pesada plumagem, embora artificial, custa caro. Fazem de tudo por um espaço na mídia, ainda que uma minúscula foto no canto da página de um jornaleco chinfrim. O negócio é aparecer, nem que seja emitindo opiniões vazias ou postando suas imagens bizarras nas ditas redes sociais. Nisso são bons. Os urubus daqui são capazes até de vez em quando – quase sempre às vésperas dos pleitos – darem uma voadinha numa vila aqui ou acolá, sujando as asas em meio à lama deixada pela enchente ou, ainda, correndo o risco de contraírem as doenças dos pobres mortais. O que não fazem os urubus para manterem seus privilégios intocáveis e suas cadeiras na famigerada Casa do Povo? O que não fazem eles para usufruírem dos momentos de glória na tribuna ou um lugarzinho junto ao Executivo? Os urubus, assim como as baratas, são mestres na arte de sobreviverem às intempéries e hecatombes econômicas e políticas. Sofre o cidadão comum, o servidor (concursado) mal pago, a dona-de-casa ante a panela vazia, a criança sem futuro e o jovem despreparado. Quanto aos urubus, salvo um ou outro esforço a sustentar, de tempos em tempos, todas aquelas bandeirolas multicoloridas à beira da avenida, parecem desconhecer o que seja trabalho e, menos ainda, crise ou carestia. Ao contrário de suas presas – esfarrapadas, maltrapilhas, viradas somente em ossos –, os urubus seguem robustos e altaneiros, desfilando suas asas tomadas de brilho. Eles custam caro à sociedade. São alimentados por ela e dela se alimentam. No fundo, surgem a partir dela, numa espécie de abiogênese maldita, alimentada por um sistema político falho e eivado de vícios. Feito Cronos, os urubus castram os ascendentes e tiram o fôlego de vida das gerações futuras, fazendo imperar o pessimismo e a desesperança. Restará, ainda, sob o céu da cidade outra imagem que não a da revoada das malditas aves a esconderem o brilho do Sol?  


domingo, 14 de junho de 2015

O GORDINHO DO ESPELHO


O GORDINHO DO ESPELHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Quem disse que os gordinhos são lentos? O do espelho, ao menos, era para lá de ágil. Bastava virar para avistá-lo, sumia como num passe de mágica. Mais incrível ainda era sua habilidade para imitar com absoluta perfeição os gestos e trejeitos de quem buscava surpreendê-lo. Feito assombração, teimava em aparecer. Bastava um espelho ou algo que o valha, lá estava ele. Mesmo nos lugares mais íntimos. Banheiro, quarto, trocador... Parecia desconhecer todas as regras de etiqueta. Intrometido e, não menos, evasivo. Como gato a escapar da água, o gordinho escapulia do olhar de todos, salvo do desgraçado que tomara para companheiro inseparável. Verdadeiro encosto. Tentara de tudo para dar um sumiço no gordinho do espelho. Receitas não faltavam. Alguns sugeriam “plantar” galinha preta afogada em cachaça na encruzilhada, outros indicavam benzedeira, sessão de descarrego ou rosa imantada em água benta. Tinham até os que pareciam zombar de seu tormento, preceituando – olhem só – coisas do tipo dieta à base de sopa, abdicar das delícias açucaradas e caminhadas diárias. É verdade que algumas sugestões surtiam resultado, mas por pouco tempo. Manter as luzes desligadas, retirar os espelhos da casa, passar longe das vitrines das lojas... Era reacendê-las, recolocá-los ou retomar os passeios ao shopping, lá estava o gordinho, com aquelas bochechas rosadas e carinha arredondada. Apesar de simpático, o sujeitinho era inoportuno e demasiadamente insistente. Já cansado e quase desesperado com aquela companhia indesejável, apelara para medidas extremas. Pedira à filha mais nova que permanecesse por perto e vigiasse cada passo do pai. Fosse este ao banheiro, por exemplo, caberia à pequerrucha denunciar a presença do gordinho atrás do coitado. Pura ilusão. Apesar de todos os cuidados e estratégias, a imagem de quem o perseguia continuava estampada no espelho. Não por acaso, urinava fora do vaso, pois tinha que dividir sua atenção entre o sanitário e a presença do gordinho. Tomar banho, então, virara uma tortura. Caísse o sabonete, ficaria jogado por lá, junto a um canto do box. Há muito já não se barbeava, pois não queria aquela presença indesejada a observá-lo feito predador diante de sua presa. Não bastasse ultimamente andar respingado de mijo, com cabelo feito palha de milho e barbudo, era ainda atormentado por uma insistente prisão de ventre. Pudera, manter a concentração durante o simples ato de ir aos pés virara um esforço hercúleo. Quando, finalmente, conseguia, desnecessário é descrever o cheiro fétido a impregnar o ambiente. Espantava toda família para longe não apenas do banheiro, mas da casa. Aliviado, com os intestinos desobstruídos, ia cuidadosamente até o espelho na esperança de ter se livrado do gordinho. Que nada, lá estava ele com aqueles olhinhos esbugalhados e a testa suada como se tivesse recém saído de uma guerra. Não tinha mais prazer nem mesmo no quarto. Tudo ia bem até que a mulher resolvera colocar um “senhor” espelho na cabeceira da cama. O gordinho, então, aumentou exponencialmente de tamanho, enquanto a libido do sujeito virou pó. Depois de muito resistir e ouvindo as súplicas dos amigos e da família, resolvera procurar um psicólogo. Indicação de um colega de serviço, o cartão trazia estampado em forma de marca d’água o símbolo da profissão e sobre ele o endereço, número do registro e nome do sujeito. Ao chegar no consultório, viu diante de si uma figura que mais parecia lutador de sumô a cumprimentá-lo de maneira muito simpática. Sua mão desapareceu entre os dedos rechonchudos do anfitrião. Ao lado do divã, como a chamá-lo, um grande espelho a refletir sua própria imagem e a do enorme corpo do psicólogo. O gordinho, como num passe de mágica, simplesmente desaparecera. Estava curado!  

Ver também: http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=ee99980be653c1d8c4051dc24fb11ed3

terça-feira, 26 de maio de 2015

O MENTECAPTO: PERGUNTAR NÃO OFENDE!


O MENTECAPTO: PERGUNTAR NÃO OFENDE!
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                O mentecapto é assim mesmo. Insiste em pensar bobagem. Atolado em seus devaneios, insiste ver chifre em cabeça de cavalo. Pudesse, inquiriria os mais entendidos sobre dúvidas que o perseguem. Afinal, perguntar não ofende, pensa. Como entender que o chefe de segurança de um ex-Secretário de Segurança fosse, ao mesmo tempo, guarda-costas de um dos maiores traficantes da região? Falta de informação, infelicidade, coincidência? O mentecapto não acredita no acaso. Por mais que o tentem convencer de que não se pode confundir alhos com bugalhos, segue pensando o pior. Teima em engolir a ideia de que o principal responsável pela morte do traficante, cliente do chefe de segurança, fosse preso e assassinado dentro do presídio. Como alguém que estava sob a tutela do Estado foi asfixiado? Mais uma coincidência? Assim como fora coincidência o fato de que a guarda responsável pela vigilância do preso fosse uma novata? Mesmo ele, um mentecapto e, portanto, um idiota, sabe que aquele preso, em especial, deveria receber atenção redobrada. O Secretário de Segurança, ao que parece, não sabia. O governador, o Diretor do presídio, o juiz e todos os outros agentes públicos também não sabiam. O mentecapto já não sabe quem é, de fato, o imbecil. Está preocupado e temeroso em desconfiar que o Estado tem flertado com o crime organizado. Tem calafrios só em pensar que as mais altas lideranças e outros servidores de todos os Poderes possam, de alguma maneira, se prostituir, vendendo suas consciências por algumas moedas, ainda que manchadas pelo sangue que brota da violência associada ao tráfico. Tem pesadelos ao imaginar que lobo e cordeiro, apesar da aparente distinção trazida pela toga ou pela gravata, possuem a mesma essência e desmedida malícia. O mentecapto anda desconfiado. Vê fantasmas por todos os lados. Já não dorme direito, achando que o Apocalipse se avizinha. Mesmo a propaganda oficial, com todas aquelas imagens, slogans e frases de efeito, é incapaz de insuflar nele um pouco de ânimo. Lembra uma barata tonta a escapar da morte que parece certa. O tempo arrefece a memória e tende a amarelar as páginas do jornal. Quiçá, ali adiante, também o mentecapto esqueça todas essas bobagens. Presídios controlados pelos encarcerados, ações policiais abortadas pela carência de vagas nas cadeias, “prefeitos” que determinam quem vive e quem morre nas galerias, pavilhões recheados de celulares, bebidas, armas e drogas... Quanta besteira! O mentecapto, ao que se vê, perdeu por completo o juízo. Exagera, inventa, vê o que ninguém mais vê. Coitado. A lucidez, feito lampejos, raramente tem dado as caras. Já não sabe quem “cheira”: ele, o traficante ou o Secretário. Alucinado, o idiota perambula pelas fétidas ruas escuras e desertas, por vezes esbarrando num ou noutro monumento coberto pela pichação. A cidade estaria cada vez mais feia ou tudo não passa de uma visão distorcida pelo avanço da esquizofrenia? Achassem-no agora, o tomariam por ébrio. Sem razão é claro, afinal tropeçava não nas pernas, mas nas próprias ideias. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

DIAS SOMBRIOS


DIAS SOMBRIOS
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                O sol teimava em brincar de esconde-esconde por detrás do espesso tapume acinzentado. A ausência do radiante disco só fazia aumentar uma espécie de melancolia que brotava sabe-se lá o porquê ou de onde. Talvez fosse aquela tristeza resultado do ocaso das férias ou da atávica e incômoda pindaíba típica de quem enveredara para a carreira do magistério. Não apenas ele, mas o país inteiro parecia enfiado na areia movediça do pessimismo, sendo que nem mesmo o Carnaval se mostrava capaz de afastar todo aquele clima modorrento. A economia ia de mal a pior, os casos de corrupção nas entranhas do arremedo de República pipocavam diuturnamente, a qualidade dos serviços públicos mais faziam lembrar um inferno dantesco... Para engrossar o caldo, tinha ainda a escassez de água, o aquecimento global, a tensão na Ucrânia e a ameaça terrorista. Agouravam alguns ser o “fim dos tempos”. Apocalipse ou não, o fato é que nunca os dias lhe pareceram tão sombrios como agora. Sentia-se impotente frente às ondas avassaladoras das más notícias que surgiam de todos os lados. Estava difícil enxergar uma luz, ainda que tênue, no fim do túnel. A desesperança há muito invadira os vazios da alma, fazendo nela morada. Os poucos nacos de poesia pareciam não resistir à morte do Urbim e ao descolorir da vida com a partida da Ohtake. As ações da Petrobrás caíam na mesma velocidade com que os preços alçavam as alturas, apesar de toda aquela maquilagem estatal paga a preço de ouro. Sobrava propaganda, enquanto corria solta a carestia não apenas pecuniária, mas de valores como a ética e a hombridade. Maldito tempo em que a palavra não valia sequer um vintém. Há muito, a autoridade não dava as caras, talvez porque perdida numa ou noutra praça escura, pichada e depredada por uma geração sem freio e sem futuro. As ruas tomadas pelo medo e por hordas de zumbis a tragarem seus cachimbos mal cheirosos, enquanto no interior de muitas casas o que se via eram pessoas separadas pela gélida distância de uma comunicação virtual e desumanizadora. Famílias sem norte, proles inteiras abandonadas à própria sorte. Rima sem graça, pois eivada de abandono, solidão e descaso. Filhos e filhas, muitas vezes, concebidos em meio às garrafas de vodka, na vã tentativa de ludibriar a consciência. Crianças paridas na sarjeta da indiferença, enlameadas pela desgraça e quase certeza de um futuro nada animador. No lugar de estrelas a repousarem no céu, simples, porém verdadeiras, o que se vê são smartphones com aquela luz artificial, memória artificial e amigos artificiais. Centenas, milhares de “contatos”, mas quase ninguém para dividir a lancinante dor. É duvidar, não haverá uma só alma para carregar o esquife até o derradeiro repouso. O sol, ainda que momentaneamente, parecia vencido pelo breu. Restava-lhe a esperança de, logo mais, toda ou parte daquela bruma, assim como sua tristeza, ser dissipada pela luz irradiada.  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SOLSTÍCIO DE VERÃO


SOLSTÍCIO DE VERÃO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Enquanto o rosto era, docemente, alfinetado por alguns nacos de sol, os pensamentos galopavam feito baio solto nas coxilhas. A vida, como nunca, parecia-lhe bela demais para ser deixada para trás, como um passageiro que, simplesmente, abandona o bonde e o vê partir. No caso dele, contudo, parecia que era a vida que tencionava pô-lo de lado, sem eira e nem beira. Sentia o vigor escapar-lhe como água por entre os dedos, esvaindo-se apesar de todo o esforço de quem, feito mouro sequioso no deserto, ansiava por dar nem que fosse alguns poucos passos adiante. A vida, entretanto, ao menos para ele, parecia um carteado de uma mão só. Para seu azar, faltavam-lhe as cartas necessárias. Sem coringa, sem chances... Simples assim, apesar de desesperador. Fosse ela como o solstício de verão, se estenderia por mais alguns instantes, ainda que fugazes. Era o tempo que precisava para, quem sabe, consertar o que deixara mal resolvido. Sua trajetória toda fora uma espécie de concerto a exigir conserto! Poderia ser diferente? Haveria outro caminho aos filhos de Adão que não o de uma sinfonia mal acabada, cheia de bemóis e sustenidos imperfeitos? Uma orquestra por onde passa uma infinidade de gente, às vezes mais, às vezes menos afinada? Alguns, feito meteoro, singram o céu num piscar de olhos. Outros, porém, entram e permanecem em nossas vidas. Todos, por certo, ajudam a compor – consciente ou inconscientemente, direta ou indiretamente, positiva ou negativamente – nossa complexa partitura. Fosse a vida um solstício de verão, viajaria quiçá o mundo a pedir perdão, pelo que fez e, principalmente, pelo que deixou de fazer. Retomaria conversas deixadas pela metade, prestaria mais atenção às palavras e entrelinhas alheias, aguçaria o olhar sobre as expressões faciais de todos a seu redor. Quanta coisa deixara escapar? Quantos abraços e palavras amigas deixara de oferecer? Quantas lágrimas, ainda que de alegria, deixara de compartilhar? Quantos pães perdera de dividir? Agora, e só agora, se dera por conta de que vivia numa espécie de casulo triste e sombrio. Ainda que sem dolo, pouco enxergava além do próprio umbigo. Enclausurado e cercado pelos muros de um cuidado excessivo consigo mesmo, assistira os dias passarem como um filme em 3-D, tão próximo, mas tão distante, capaz de causar alguns sustos e inquietações, mas, no frigir dos ovos, estéril. A vida, descobrira, não segue uma narrativa retilínea, uma trama perfeita. É uma estrada sinuosa, tomada de aclives e descidas, quase sempre sem sinalização. Muitas vezes tateamos por ela, como se dirigíssemos em meio às densas brumas. Buracos aqui e acolá, pedras que nos fazem desviar à direita ou à esquerda, pontes que precisam ser construídas... Não a controlamos. Somos, como pena sobre o mar, levados de um lado para outro. Sentia-se impotente ante o repuxo da vida. O que era diante dela? Quantos por ela passaram? A maioria, esquecida pela força impiedosa do tempo, mesmo os mais famosos e célebres. Quando muito uma placa de bronze instalada sobre o túmulo na vã tentativa de trazer à memória o que já não existe, incapaz de ressuscitar o cheiro, o sorriso, o jeito ímpar de falar, a doce companhia...  O pensamento seguia longe naquele final de tarde do solstício de verão.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O HOMEM DE PAU GRANDE


O HOMEM DE PAU GRANDE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br





                Desejado pelas mulheres e idolatrado pelos homens, o sujeito não fazia a menor questão de esconder, digamos..., seus “dotes”. Muitos meninos queriam ser como ele. Quem o via, ficava assombrado. Mesmo as pernas um tanto que tortas eram um nada diante daquilo que realmente chamava atenção. Aqueles que o conheciam de longa data, não tinham dúvida: nascera assim. Encantava as mulheres de todas as idades, desde as mais moças às mais maduras. Esqueciam o companheiro do lado e os olhos eram todos para o jovem moço. A paixão corria solta, sem escolher cor ou posses. Dizem que até importantes musas da música vergaram diante do sujeito. Como podia o grande Olimpo ter concedido a apenas um mortal tamanha “habilidade” para produzir indisfarçável prazer não em apenas uma, mas em várias criaturas ao mesmo tempo? Sucumbiam diante daquelas pernas ébrias, onde despontava o couro arredondado e firme, passeando de um lado para outro, ziguezagueando de forma mágica, enquanto os corações se entregavam, em uníssono, ao espetáculo de fazer inveja a Apolo. Fazia lembrar o pêndulo de um relógio, preciso, porém ao contrário do cuco, imprevisível e desconcertante. Era imaginar que o troço fosse para esquerda, lá estava ele na direita, como a bolinha por entre os dedos habilidosos de um ilusionista. Espantoso. A inveja que saltava aos olhos era apenas uma dentre tantas outras filhas da natureza humana. Por que ele e não eu? Estadistas, milionários, chefes religiosos, muitos deles trocariam tudo o que tinham por um naco daquela glória a cercar o jovem de não mais do que um metro e setenta. O brilho era-lhe natural, sem qualquer contribuição dos penduricalhos farmacológicos ou da cosmética moderna. Quem não o conhecia? Quem não o reverenciava? Vinham de longe só para vê-lo, mirá-lo com os olhos, ainda que a distância coibisse qualquer intenção de tocá-lo. O que eram as pernas femininas iluminadas pelos holofotes do mundo da moda comparadas às dele? Destas últimas nasciam momentos de uma espécie de orgasmo coletivo, indescritível, inarrável, ainda que por meio da voz de um Jorge Cury ou Oswaldo Moreira. Misto de piedade e sadismo da plateia em relação ao adversário. O desgraçado, muito comumente, quedava exausto sobre o tapete verde, completamente desnorteado após aquela sequência de dribles que surgiam sabe-se lá de onde, o mesmo tapete que servia de palco ao homem de Pau Grande. Saudades de Garrincha. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

LEI JOÃO DÁ PENA


LEI JOÃO DÁ PENA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Nasci numa época em que homem só casava com mulher e esta com homem. Numa época em que os pais se portavam como tal. Eram tempos em que cabia ao marido tomar as rédeas da casa, restando à esposa zelar para que as regras e vontades do senhorio fossem seguidas à risca. Hoje, dispensável é dizer, o mundo (ocidental!) mudou. Não sei se para melhor, mas que já não é o mesmo da minha época de criança, isso não é. Saímos de uma realidade fortemente machista e patriarcal para uma meleca a que alguns chamam de democracia. Inflacionou-se a legislação dita protetiva sem que isso tenha redundado, em absoluto, na melhoria das relações humanas. Nunca houve tanto desrespeito ao outro. Feito cachorro perdido correndo atrás do próprio rabo, vamos criando textos legais estéreis que pouco ou nada contribuem para qualificar e fortalecer a dita teia social. Mesmo as novas tecnologias e penduricalhos produzidos em larga escala pelo Capitalismo doentio se mostram incapazes de disfarçar o mau cheiro desta realidade decrépita que desova na sarjeta um incontável número de viciados e depressivos. Uma realidade onde boa parte da juventude não vislumbra ali na frente mais do que um baseado, um par de tênis da Nike ou um smartphone. As selfies, feito lago de Narciso, soam, muitas vezes, como eufemismo para um hedonismo mal disfarçado. A inversão (perversão) de valores é tamanha que, ao sair do oito para o oitenta, acaba por produzir algumas situações, também, hilárias. Qual o marido, por exemplo, que já não se defrontou com a tão temida “lista” pendurada, estrategicamente, na geladeira? Sim, aquela enorme e maldita “lista” escrita à mão de ferro pela impaciente companheira que, diuturnamente, faz questão de inquirir se a grama já foi cortada, a janela consertada ou o pinga-pinga da torneira estancado. Mais severa do que a cobrança divina em relação aos mandamentos trazidos do cume do Sinai, a esposa faz da dita “lista” a Lei do Talião. A mulher escreveu e o marido não leu, o pau comeu... Nessas horas, onde estão os Direitos Humanos? Mais fácil achar guarida na legislação que protege a bicharada do que numa eventual defesa em prol do marido desassistido. Daí, quem sabe, o esposo aguardar, quase desesperado, o fim das férias e o retorno ao trabalho, uma saída protelatória, mas interessante, para escapar da cobrança doméstica. Apelar para quem? Verdadeiro mato sem cachorro, beco sem saída. Propugnar, talvez, por uma espécie de “Lei João Dá Pena”, em contraposição à Lei que protege a mulher frente à violência doméstica e familiar. Quem sabe um diploma legal que traga, dentre outros artigos, incisos, alíneas e parágrafos, uma expressa vedação às “listas” produzidas por mulheres sem coração que escravizam e atormentam os pobres maridos. Estes merecem respeito, um lugar ao sol, de preferência acompanhados de um bom prato de petiscos regado à cerveja bem gelada. Abaixo as “listas” e bom verão a todos os meus amigos!



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

BANHO TCHECO


BANHO TCHECO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

               

                “Esta noite não vai ter”. Tamanha ameaça vinda da companheira só fazia aumentar a ira e indignação do desgraçado. Um dia inteiro sem água e, como sempre acontece, a corda arrebenta do lado mais fraco. Ora, que se penalizasse a companhia de abastecimento de água, seus diretores e funcionários ou, ainda, quem sabe, as imprestáveis agências reguladoras que nada mais servem do que meros cabides de emprego e trampolins político-partidários. Por que sobrar para ele? A mensagem da esposa era direta e objetiva – ao contrário da embromação por detrás da linha telefônica do maldito zero oitocentos –, não deixava margem para dúvidas: banho tcheco ou passaria a noite em seco. Até tentara convencê-la do poder miraculoso do Rexona, ainda mais se emplastado em várias camadas embaixo dos sovacos. Irredutível, a mulher nem lhe olhava, ignorando-o por completo. Até a água gelada da piscina de plástico enfiada nos fundos da residência parecia uma saída honrosa para o imbróglio alimentado pela resoluta insistência feminina. Contudo, como explicar aos filhos o banho àquela hora da noite? Fosse criança, tudo bem, mas logo ele, burro velho, enfiado na piscina em meio à madrugada, viraria motivo de gracinhas por parte da vizinhança. Portanto, fora de cogitação. A raiva aumentava à medida que os ponteiros do relógio avançavam sem que a esperada água aparecesse. Perdera as contas quantas vezes abriu a torneira da área de serviço em busca da perfeita mistura dos dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. O desespero era tamanho que bastava meio átomo de cada elemento. Contudo, nem água e nem vento saía da bica. O pavor era tal que até abriu mão da rotineira escovação dos filhos, além é claro de clamar aos céus que os pequerruchos não inventassem de cagar naquela altura do campeonato. A ordem era clara: poupar cada gota de água que fosse possível. Verdadeiro estado de guerra. Sem banho, pouca ração e sem televisão. Sim, afinal temia que as mensagens subliminares da programação pudessem desencadear uma vontade incontrolável da piazada em consumir água. Menos a caçula, esta movida a refrigerante e picolé. Quem diria, enquanto noutros tempos sentia certa inveja do carro ou da casa nova do vizinho, agora mirava o poço artesiano do felizardo. O ronco do motor a puxar água lá de baixo fazia lembrar o monstro da motosserra estraçalhando seu orgulho. Não bastasse, não é que o malvado, muito provavelmente, de forma proposital, deixava a água sair pelo ladrão, como que a zombar da sina alheia? A tardança da água era caso de polícia, um atentado ao contribuinte e uma ameaça à estabilidade familiar. A mulher, que de tcheca nada tinha, não cansava de ostentar que com dois copos e meio de água não só tomara banho, como lavara a cabeça. Impossível, pensava o pobre marido. Dois copos mal davam para lavar os olhos, quanto mais um corpito como o dele, para lá dos noventa quilos. Percebendo a falta de flexibilidade da esposa, partira para negociação. Quem sabe um aconchego aqui, uma carícia acolá... Banho tcheco ou nada! Apelara para filosofia, história, sociologia, bruxaria... Não! Bolas, até os Estados Unidos relaxaram o embargo econômico à Cuba, por que então tamanha incompreensão? “No, no, no estoy convencida” bradava ela num espanhol impulsionado por uma brabeza russa. Algo de assustar. Resignado, o coitado, de posse da canequinha, dirigiu-se ao banheiro. Até que sorteasse as partes a serem limpas e transformasse toda aquela pedra em pão, eis que a mulher entregara-se aos braços de Morfeu.


sábado, 26 de abril de 2014

(IN)FELIZ ANIVERSÁRIO!


(IN)FELIZ ANIVERSÁRIO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O último dia vinte e dois de abril, quando da passagem pelos quinhentos e quatorze anos do chamado “descobrimento” do Brasil, fez-me lembrar de uma mulher[1] avassaladora, mas fútil. Exuberante, porém vulgar. Corpanzuda, entretanto moral e eticamente mesquinha. Maria-chuteira embalada pela preguiça regada a sonhos de um casamento bem sucedido. Daquele tipo que posa no face com “biquinho” e tudo – não suporta estar à margem do que entende ser moda –, metida em roupas tidas por sensuais, enquanto o quarto, propositadamente às escondidas do foco da webcam, mais parece um entulho de lixo. A aparência, segundo ela, é o que importa. O fétido cheiro advindo do chorume que impregna a casa inteira, desde que não flagrado pelo vizinho, é apenas um detalhe. Uma mulher que apesar dos anos, segue imatura, entregue a devaneios e desejos muito além de suas posses. Doentiamente, segue acreditando num futuro que não chega. Tola e imbecilmente, teima em dar ouvidos às promessas de mal-intencionados que, após se deleitarem com o corpo dela, dão-lhe as costas e se voltam para seus próprios umbigos. Uma mulher que serve caviar às visitas, especialmente aquelas de além-mar, mas que aos filhos nada mais dá do que migalhas. Uma mulher que para preservar as “amizades” – feito cisternas rotas –, relativiza todos os seus valores, perdendo por completo sua individualidade. Promíscua, não perde tempo em lançar-se nos braços de quem acene com algum instante de prazer, mesmo que tênue e meteórico, já que a dor e a frustração causam-lhe pânico. Talvez por isso, a espera, a paciência, o planejamento a médio e longo prazos, o esforço, o trabalho árduo, a pesquisa e qualquer outra espécie de esforço físico ou mental soam-lhe tormentosas. À mulher, servem de modelo as “amigas” do Velho Mundo e a eterna “senhoria” do Norte, na maneira de vestir, comer e nos trejeitos de caça-homem, desde que o aprendizado não requeira renúncia à indolência e ao ócio infértil. Uma mulher pidona e sovina. Por um lado, extorque todos a quem pode, mediante promessas e, quando estas não convencem, apela para ameaças e intimidações. Por outro lado, é uma mulher que resiste em dividir o que tem com aqueles que, por direito, são os verdadeiros herdeiros de um Eldorado mal conhecido. Uma mulher que vive de apostas, que se acostumou aos “puxadinhos” e gambiarras só para inglês ver. Uma mulher dada ao vício e ao torpor nauseante que resseca as narinas e embrutece o cérebro. Vidrada nas teledramaturgias e reality shows, mostra-se incapaz de separar alhos e bugalhos. Para ela, virtual, real e ideal são sinônimos. Recusa-se a discutir política e faz desta última a grande algoz de seus dissabores. Faz da urna sua latrina, assim como do livro seu mouse pad, viajando pela “rede” e, ironicamente, nela se emaranhando. Mulher a escamotear, por meio de maquilagens pagas a preço de ouro, uma depressão que parece não ter fim, amedrontada pela violência que alimenta a insônia. O batom avermelhado ou em verde-amarelo lambuzando a boca só agrava a triste figura da mulher. Para ela, as mais de quinhentas velinhas apontam, ao mesmo tempo, para um passado inglório e para um futuro incerto.
Veja também:
http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=1423c72e086083cccf565767ec7e0d20





[1] Não me entendam mal as mulheres, não se trata aqui de “gênero”, mas tão-somente de uma “adaptação” textual. 

sábado, 19 de abril de 2014

CONJUNTIVITE


 CONJUNTIVITE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Dez dias. Não aguentava mais. Olhar o mundo como que pela metade era algo, por demais, sofrível. Perdera a conta de quantos curativos descartáveis, embebidos em chá de camomila, depositara sobre o dito cujo. Sem falar, é claro, no oceano de gotas a pingar do colírio. Cada uma delas causava-lhe certo mal estar, menos pelo contato com a córnea do que pelo risco de desembolsar mais um punhado de reais na compra de um novo frasco. Melhor, “frasquinho”, não mais do que 05 (CINCO!!!!) mililitros de um composto que, pelo preço, devem ter sido extraídos direto do trono divino. Devia ser benta aquela água, tamanho o valor cobrado pelas farmácias. Apesar disso, o colírio parecia ser feito leite, adulterado. Passado tantos dias, o olho direito seguia encarnado e, quase que totalmente, fechado. Fora aquela dor que surgia cada vez que deslocava o olhar para esta ou aquela direção... Dirigir soava como um flagelo, ainda mais quando havia claridade, natural ou artificial. Resumindo, sempre! A sensação de estar sendo observado pelos outros era ainda pior. A impressão é que a velhinha do supermercado, já à beira da morte, parecia mais preocupada em encará-lo (ao OLHO!) do que com o degrau a sua frente. Até os pequenos não deixavam passar em branco. Lançavam o olhar em direção à vista inchada e começavam a chorar. Eles e o cara do olho. A maldita conjuntivite parecia ter hora certa para lacrimejar. Bastava ter alguém por perto e lá estava ela a se manifestar. Gostava de chamar atenção. Mais fazia lembrar aquelas mulheres de cabaré barato, enfiadas em seus vestidos avermelhados, ancas enormes e coxas carnudas. Tudo, menos passarem despercebidas. A conjuntivite, da mesma forma. Feito marafona, insiste em dormir com a gente. Por mais que tentemos escondê-la, sempre dá as caras. Tipo aquele primo chato! A gente conversa daqui e desconversa dali, rezando para o sujeito ir embora, e nada. Consulta o relógio, boceja de forma grosseira e o primo segue inerte, nada de tomar suas coisas e se despedir. Até que bate o desespero: apela-se para os arrotos e flatulências. O sujeito nem de perto esboça um adeus. A conjuntivite, com ela, é a mesma coisa. Talvez, a única vantagem desta sobre aquele é que a conjuntivite, normalmente, é menos frequente e mais espaçada em suas “visitas”. É verdadeira estraga-prazer. Pior do que uma conjuntivite é tê-la em véspera de feriadão. Sabe, daqueles feriados que a humanidade espera décadas, séculos, milênios para ter? Feriados mais incomuns do que o encontro, na mesma órbita, da Terra, da Lua, do Sol e de todos os planetas e corpos celestes de nosso sistema? Pois é... Cinco dias de feriado (o mesmo número de mililitros do maldito frasco: merda de coincidência!). Todo esse tempo em casa, sob uma espécie de lusco-fusco para não agredir o olho machucado. Todos lançam sobre o infeliz um olhar de desaprovação: a mulher, os filhos, até mesmo o cachorro... Praia? Serra? Shopping? Não, nada disso. Casa! Dispensável é dizer que são dias de absoluta carestia sexual. Fazer o quê? Sexta-feira santa, diriam as carolas de plantão. Nenhum prazer. Pior, acumulando sobre a mesa da sala de jantar um incontável número de provas, trabalhos e planos de aula para serem corrigidos, revisados e retomados. Pareciam zombar do estado vil do sujeito com olho avermelhado. Pareciam desafiá-lo, certos da impotência do coitado. Atormentá-lo, ao que se via, também parecia ser intento de todo aquele material infame, perverso e desumano. Não fosse a conjuntivite forte aliada da inércia laboral, veriam eles o que é bom p’ra tosse. Quanto ao olho... Próxima semana, a gente conversa. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A CABANA


A CABANA
Gilvan Teixeira
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                Encomendara ao pintor desconhecido, daqueles que batem de porta em porta oferecendo seus trabalhos, uma tela tendo como temática uma cabana. Só se dera por conta do equívoco quando da entrega da encomenda. Decepção total. Não que a pintura, por si, deixasse a desejar quanto à estética, cuidado com os traços ou jogo de cores. Até que era bonita. Porém, em nada correspondia à expectativa. Cada um tem sua própria cabana. Esta é personalíssima, única, construída – sob medida – conforme a alma de cada um. A cabana dela era simples, a tal modo a se confundir com o entorno. Uma espécie de mimetismo natural, onde a morada aparecia como uma espécie de prolongamento da mata, dos galhos da figueira, do braço de rio. Uma cabana acolhedora, com as poucas paredes tomadas de cestos, arcos, pássaros perfeitamente esculpidos na madeira. No centro, a fogueira permanentemente acesa a exalar o inconfundível cheiro da lenha. Enquanto esta ia sendo consumida lentamente pelo filete de chama multicolorido a dançar de um lado para outro, sobre a chapa do fogão de barro ficava a cozer algumas batatas postas de véspera. A cabana dela desconhecia o frio. Acolhedora feito o ventre, ali dentro todo forasteiro era bem-vindo. Como pagamento, só o espírito desarmado e o sorriso largo. Afinal, pode haver maior riqueza do que uma boa companhia? Lá fora, o coral de sapos-martelo, grilos, lobos-guará e uma infinidade de seres da floresta. A iluminá-los, o pisca-pisca dos vagalumes e a romântica claridade da lua. No interior da cabana, a bebida cuidadosamente preparada e, por vezes, dividida. Bom mesmo era sorvê-la no grupo de amigos, com a taça passando de mão em mão, fazendo lembrar o verdadeiro sentido da ceia: a partilha. Contudo, mesmo quando sozinha na cabana, jamais se sentira solitária. O minuano a soprar no inverno ou o ar quente a prenunciar a chuva traziam consigo uma indescritível sensação de paz. As forças da natureza, ali eram bem quistas. Não as temia. Ao contrário, parecia confabular com elas. A cabana era seu porto seguro. Estava presa a ela. Ainda pequena, já a imaginava. Comum era vê-la rabiscar no caderninho os traços do lugar que a acompanharia por toda vida. Um espaço de descanso, meditação, tomada de decisões. Ela e a cabana se confundiam numa relação umbilical. Ninguém melhor do que a cabana para conhecê-la. Segredos, medos, projetos... Cumplicidade total, irrestrita, fiel. Tamanho significado, de fato, só poderia caber no coração, jamais num pedaço de papel. Quanto ao pintor desconhecido, seguisse talvez a vender por aí suas telas. Clientes, quem sabe, destituídos de uma cabana que pudessem chamar de sua. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O EXAME


O EXAME
Gilvan Teixeira
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                Seria a primeira vez, e tomara que última, que passaria por aquela situação, todo aquele constrangimento. Histórias não faltavam, de tal forma que o sofrimento só aumentava. Sem falar, é claro, nas piadinhas e indiretas fazendo alargar, ainda mais, a ferida. Nos últimos quinze dias, só pensava naquilo. Algo lhe dizia que o exame era como que o divisor de águas da própria vida. Antes e depois. Só em pensar no tal do dedo, arrepiava. Não fosse macho, desandaria a chorar. Procurara na lista de urologistas um nome que pudesse, quem sabe, indicar algumas características do sujeito. A primeira estratégia era fácil, eliminar as doutoras. Só de imaginar de ficar de quatro para uma mulher... Ora bolas, alguma dignidade ainda lhe restava. Excluídas as do sexo oposto, a tarefa de escolher o médico “certo”, do seu “tamanho”, ia se tornando mais complicada e arriscada. Qualquer vacilo, estaria em maus lençóis. Passava e repassava nome a nome na lista dos médicos conveniados. Cuidado parecido com o que tinha na escolha dos números da mega-sena. Torcia para que na escolha do dito cujo tivesse mais sorte, do contrário estaria frito. Eram muitos nomes. Quais os critérios a serem usados? Pela antiguidade do CRM? Arriscado, vai que pegasse um médico com técnicas ultrapassadas, querendo fazer o troço pegar no tranco, sem nada de diálogo ou preliminares? Quem sabe, ainda, um velho míope ou com mal de Parkinson... Já pensou, aquela tremedeira toda depois de iniciado o procedimento? Por outro lado, os recém-formados também eram perigosos. Inexperiência, falta de prática ou coisa que o valha. Pior, um gurizote com aquele sorriso no canto da boca a desdenhar da diferença de idade em relação ao paciente. Definitivamente não! Nem oito, nem oitenta. A hora pedia equilíbrio, ponderação. Meia idade, portanto. Qual? Merda, o que poderia ser considerado meia idade? Nunca pensara o quanto era difícil escolher um médico. Chutou: quarenta e cinco! Alguma vez na vida teria de acertar um número que fosse. Saudades do Padre Nácio, antigo pároco, astrólogo e numerólogo, que conhecera nos tempos de colégio. Escolhida a idade, o próximo passo era o nome. Todos os que terminassem ou pudessem receber uma flexão em “ão”, por exemplo, eram automaticamente eliminados. Paulo, Roberto, Marcos, Pedro... Nem pensar. Não lhe enganavam. Até podia ouvir a voz da consciência – ou do órgão prestes a ser invadido – dizendo: “Paulão, Robertão, Marcão, Pedrão...”. Eram nomes fortes demais para seu gosto. Preferia nomes mais suaves, tipo assim... Leopoldo, Décio, Juvenal. Nomes que não admitissem aumentativos. O que era uma lista enorme, foi se reduzindo. Agora, não passava duns trezentos ou quatrocentos nomes. A próxima peneira era a do sobrenome. Os de origem alemã, italiana, russa, polonesa foram ficando pelo caminho. Muito rudes. Além de serem dados ao vinho, chope, vodka, salame e polenta. Não! Precisava, isto sim, era de alguém mais “zen”, alternativo, leve. Quem sabe alguém capaz de fazer o tão temido toque por meio do espaço, sem o auxílio das mãos, impulsionado pela energia do cosmos. De repente, um insight. Rapidamente procurou por Allan Kardec, Chico Xavier, Nostradamus... Sem sucesso. O negócio era seguir a busca entre nomes comuns. Concentração total. Sequer piscava. Foi afunilando, afunilando, afunilando, até que chegou ao nome de um urologista de nome oriental: Fuji Miinho. Tudo parecia conspirar a seu favor. Finalmente! Homem, meia idade – ao menos é o que parecia indicar o CRM –, oriental e, para coroar, aquele nome tão delicado. Até parecia já ver o sujeito. Um japonesinho de um metro e sessenta, mãos pequenas, cabelinho preto escorrido sobre o rostinho delicado. O médico de seus sonhos. Batata. Não tinha erro, era ligar e marcar. Dito e feito, na mesma hora pegou o telefone e agendara a consulta para o dia seguinte. Incrível. Tirara a sorte grande! Soubera de gente que levara quinze, trinta, sessenta dias para conseguir uma consulta. Dia seguinte! Mal podia acreditar. À noite, optara pela castidade, tomara um banho demorado, usara o sabonete não sei quantas vezes na região a ser examinada. Afinal, tinha que fazer sua parte, dar sua cota de sacrifício. Dormira como uma criança naquela noite. Levantara cedo, tomara mais um banho para garantir e até fizera uso de talco infantil para, digamos assim, facilitar as coisas para o senhor, como era mesmo o nome?,  Fuji Miinho... O local em nada parecia indicar a existência de uma clínica. Tocara a campainha. Um sujeito enorme, quase dois metros de altura, com a cara tomada de sardas e um par de olhos levemente puxados – resquício de uma longínqua herança oriental, quando da separação entre os continentes –, com os braços que mais faziam lembrar duas toras de madeira, com os dedos... Ao reparar nos dedos do desgraçado, um frio percorreu-lhe toda espinha, de alto a baixo. Eram descomunais. Pareciam destroncados, tamanho eram as juntas. Não podia ser... Já não atinava no que aquele brutamontes perguntava. Suava frio. O corpo inteiro tremia. O jaleco, um tanto que amarelado, não deixava dúvidas. Ali, feito a inscrição na lápide do defunto, restava estampado, apenas o sobrenome do sujeito: Miinho. Melhor, Dr. Miinho.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

DEPOIS DOS QUARENTA


DEPOIS DOS QUARENTA
Gilvan Teixeira
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                Mais uma primavera. Passada a barreira dos quarenta, a gente meio que se perde na idade. Acho que são quarenta e cinco. Sou de sessenta e oito. Tirem suas próprias conclusões. Sabem como é, a idade avança de maneira inversamente proporcional à capacidade da memória em gravar datas, nomes, trajetos... Há exceções, claro. Não sou uma delas. Dizem que me encontro na “idade do lobo”. Tolice. Dele, não tenho a astúcia, a destreza, a capacidade de caça... Por que então a analogia? Talvez, na melhor das hipóteses, possa me equiparar a um lobo solitário, faminto, capenga e sem dentes. Para piorar, com o paladar e olfato comprometidos pela idade. Um lobo a causar mais dó do que medo. Mais asco do que admiração. Lobo, só de nome. É assim, neste estado, que cheguei aos quarenta e cinco (?). Mais para lá do que para cá. A luz a chamar-me no final do túnel, só não a vejo por conta da miopia. Para meu consolo, inúmeras têm sido as manifestações de carinho pela passagem de meu aniversário. Parentes, amigos, colegas, ex-alunos... Preferível hoje que depois. Amanhã, quem sabe, serei pouco mais do que uma lembrança, ainda que boa, entre tantas outras. Somos, no fundo, “substituíveis”, pois efêmeros e transitórios. Daí ser vã toda arrogância e prepotência. Corre-se o risco de garantirmos sequer a boa lembrança a nosso respeito. Nossa casa é um bom termômetro, talvez o melhor. Como minha esposa e meus filhos de mim lembrarão ali adiante, depois de passar o fosso que nos separa do além? Espero ter semeado e seguir semeando – até quando? – coisas boas. Por vezes, não tenho dúvidas, vacilo enquanto pai e companheiro. Equivoco-me, ainda, enquanto professor, amigo, colega de trabalho. Ainda assim, ao que parece, toleram-me. Tamanha paciência e condescendência frente às minhas fraquezas, só faz crescer minha admiração pelo ser humano. Como cobrar deste mais do que eu mesmo sou capaz de dar?  Como projetar nele o que jamais fui, sem deixar de ser coerente ou verdadeiro? Por isso, ao chegar aos quarenta e tantos anos, pouco tenho a reclamar. Devo, isto sim, é agradecer pelas imensuráveis dádivas recebidas, a começar pelos meus pais, irmãos, esposa, filhos, amigos, ex-alunos, colegas... Miríades e miríades de crianças, jovens, homens e mulheres de todas as etnias, crenças e idades que, ao passarem pela minha vida, mesmo que de maneira rápida e aparentemente discreta, deixaram marcas. Sou, em parte, reflexo de cada um e de cada uma. Verdadeiro amálgama, inegável dialética forjadora deste lobo capenga e sem dentes, porém feliz! Muito obrigado pelas mensagens de carinho pela passagem do meu aniversário. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

DIA DO "TROCA" !


DIA DO “TROCA”!
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Meu Deus, o que fora aquilo? Mais parecia pesadelo. Nunca vira “mulheres” tão feias. Desfiguradas pelo excesso de batom e blush, eram de arrepiar. Nem a pior das sogras, por mais mal amada que fosse, se compararia “aquilo”. Desesperador. Mais pareciam personagens daqueles filmes de terror. Por melhor que fosse a intenção daquelas figuras, com todas aquelas poses por elas tidas como sensuais, era o verdadeiro quadro da dor. Simplesmente horríveis. Uma pior do que a outra. Rebolavam daqui e dali, olhavam de soslaio, faziam caretas, “zoinhos” e “beicinhos”, tudo para chamarem atenção. Não por acaso, não foram poucos os olhares direcionados para a sacada do Prédio Dois, onde se formou uma espécie de “gaiola das loucas”, com um grupo de disparatados “travestis” de ocasião. Guris vestidos de gurias e vice-versa. Verdadeiro deus-nos-acuda. Ao som de “I Am What I Am”, alguns formandos fizeram do espaço uma discoteca improvisada, sob o olhar atônito dos mais novos. Duvidasse, naquele momento, até o corpo – ou o que sobrara dele! – do velho Monsenhor teria se revolvido. Ao contrário de uma que outra beata desconhecedora do “espírito” daquele momento, a maioria demonstrara aprovação. Até mesmo alguns professores, disfarçadamente, pareciam seduzidos pela música a embalar os movimentos da gurizada do Terceirão. Pezinho p’rá cá, pezinho p’rá lá, no íntimo, queriam gozar daquela liberdade. Os alunos haviam caprichado no look. Os guris enfiados naquelas saias, vestidos e bustiês, enquanto as gurias lançavam mão da “indumentária” masculina. Enquanto elas representavam jogadores de futebol ou “magrinhos” com as calças caídas próximas aos joelhos, os guris – em quase sua totalidade – trouxeram o que há de mais escandaloso dos bordéis e meretrícios do centro da cidade. A criatividade correra solta naquela manhã. Inesquecível. Algo para ficar na memória da escola encravada na Zona Norte da capital gaudéria. Uma leva de alunos e alunas que deixarão saudade. Histórias que foram sendo forjadas, também, em meio às salas de aula, à cantina, ao pátio, aos ginásios, aos corredores e, para alguns é verdade, à Disciplina... Mesmo estes últimos, por certo, cresceram e nos fizeram crescer. Afinal, ser “humano” é ser “devir”, eternamente “incompleto” e “complexo”, mas essencialmente “pronto”, pois imagem e semelhança do Criador. Basta estar vivo para poder ser amado, deixar-se amar e, de preferência, também amar. Pode haver melhor espaço do que a escola, além da família, para o exercício do amor, da gratidão e do respeito? Na escola criamos, recriamos e somos recriados. Formamos e somos formados. Ensinamos e aprendemos. É ela espaço privilegiado de humanização, de resgate ou até mesmo de “fundação” do sentido da vida. Exceto o olhar dos bons pais, nada se iguala ao cuidar do mestre que educa com carinho. O que será de nossos queridos formandos? Somente o tempo dirá. Entretanto, tempo como o que se foi ou que é, acreditem, jamais será. Por isso, aproveitem! O dia do “troca” mais do que simbólico ou ritualístico, é o extravasamento de uma alegria contida, alegria esta que, nós professores, queremos compartilhar. Parabéns a todos os formandos do Instituto de Educação São Francisco.   

Veja também:
http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=56613ebe7f7714ac9b11db43f55fa0a0



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A PROVA (2)


A PROVA (2)
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Final de mais um ano letivo. Alunos em polvorosa. Lembram um navio a naufragar. Nele, se vê de tudo, desde aquele a enxergar a tão falada luz ao fundo, como o que, precavidamente, constrói seu próprio bote salva-vidas. Tem, ainda, o grupo dos que transitam entre os extremos. Nem oito e nem oitenta. Tipo o náufrago com água pelo pescoço. Reza para todos os santos por um banquinho de areia, capaz de garantir-lhe algum fôlego. “Ano que vem será diferente”, prometem a si mesmos. Contudo, entra e sai ano, é sempre a mesma coisa. Fossem os santos vingativos (dizem que alguns têm memória curta...), tais alunos estariam em maus lençóis. Novembro é prenúncio não apenas do verão, mas da temida Recuperação de final de ano. Enquanto uma minoria conta os dias para as merecidas férias, coroando um ano letivo recheado de boas notas e conceitos, a maioria conta as “moedinhas”, torcendo para que alguns “centavos” caiam do céu. Dão a vida por um ou, até mesmo, meio “pontinho”. Parecem acreditar que, como num passe de mágica, aprenderão a nadar. Habilidade esta que, muitas vezes, propositada e irresponsavelmente, não fizeram a menor questão de aprender. Todas aquelas horas de treinamento, estudo e preleções pareciam demasiadamente chatas e desnecessárias. Agora, frente ao mar revolto e à distância da praia, os náufragos se ressentem das lições não apreendidas e não feitas. À medida que se avizinha a tragédia, muitos desses alunos demonstram certa crise de consciência. Por que aquela conversa paralela, enquanto o professor se estrebuchava lá na frente? Por que aquela atividade não feita ou entregue intempestivamente? Por que a desobediência às orientações mais elementares? Dizem que quando a morte se aproxima, passa como que um filme na cabeça do moribundo. Pois é... Mais ou menos assim na cabeça do aluno perante o cadafalso. Tarde demais, talvez. Quem sabe, reste um último suspiro. O desespero parece aumentar ao ver o olhar piedoso dos poucos colegas que “tiraram de letra” o ano. Enquanto estes usavam horas de sono e lazer preparando a “arca” que os livrasse do dilúvio típico e desesperador do término de ano, o aluno incauto prodigiosamente esbanjara seu tempo em fogosos prazeres. Chegara, todavia, a hora da ceifa. O que diria o professor? Resolvesse este dar, mais ainda, aos que têm e tirar do que não tem, jazeria o “filho desobediente” no mais profundo inferno astral. Entretanto, como bom pai, o mestre não se cansa de oportunizar mais uma, entre tantas outras, chance. Por alguns, chamada de amor ou de perdão. Para os pedagogos, simplesmente Prova de Recuperação. O nome, convenhamos, pouco importa. O que, de fato, conta, é a intenção. Esta, porém, para que não seja estéril, exige reciprocidade. Assim, queridos alunos, aproveitem cada momento e oportunidade para aprenderem e provarem, principalmente para si mesmos, de que são capazes de superarem as dificuldades, por maiores que sejam. 

sábado, 9 de novembro de 2013

BOAS IDEIAS


BOAS IDEIAS
Gilvan Teixeira
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                Boas ideias são como espermatozoides, a maioria não é aproveitada. Poucas são as que fecundam e chegam, digamos... a um destino. Este, na verdade, quase sempre é mais ponto de partida do que de chegada. A boa ideia, quando se materializa, logo passa a exigir outra boa ideia, depois outra e mais outra... Bem aventurados aqueles que conseguem ter boas ideias gêmeas. Os que têm trigêmeas viram lenda. Mais do que isso, convenhamos, é pura ficção. As boas ideias são como estrelas cadentes, quando pensamos em fixar o olhar, onde estão? Somem, como que num passe de mágica. Ficamos nós, meio embasbacados, a nos perguntar: teria sido um sonho? As boas ideias, normalmente, não se deixam fotografar. São meteóricas e, em regra, nada fotogênicas. Feito prenda bonita, é descuidar, ficamos a dançar sozinhos no meio do salão. Daí a importância de sermos ligeiros, do contrário outro as toma pelo braço, como sendo suas, enquanto para nós resta tão-somente aquele sentimento de raiva e de uma inveja mal disfarçada. Boas ideias não devem passar de largo. É vê-las se distanciando, lacemo-las. Talvez corcoveiem, pulem daqui e dali, mas como lindos corcéis multicoloridos – ideias, as temos de todas as cores, tamanhos e jeitos –, logo vão se deixando domar. Sensação indescritível, nós, tão pequenos, montados sobre grandes ideias. Estas, numa demonstração de humildade e de aparente (só aparente!) submissão, troteiam na direção por nós estabelecida. Todavia, é maltratarmos as boas ideias ou nos mostrarmos indiferentes, lá vem o troco! Estrebuchados no chão, passamos a ver o mundo sob a ótica das formigas, minhocas e tatus-bola. As boas ideias exigem tratamento diferenciado, atenção e, por vezes, até certa deferência. Algumas delas esperam compor a mesa junto às mais altas autoridades. Buscam os holofotes e ansiosamente aguardam o descerrar das cortinas. Outras boas ideias preferem o anonimato ou a simplicidade e bucolismo do campo. Estas últimas são práticas e um tanto que desconfiadas. Contudo, é conhecê-las, viram grandes e fiéis amigas. Não que as outras boas ideias – engravatadas e dadas a cerimoniais – não estejam, também, abertas ao convívio franco. Porém, são, quase sempre, excessivamente formais e demasiadamente teóricas. Frequentam círculos onde, muito comumente, a prolixidade e a vaidade correm soltas. Conservam, entretanto, em que pese certa antipatia, a essência das boas ideias. Estas, todas elas, têm lá sua importância. Algumas mais, outras menos. São belas e admiradas, nem que apenas para aqueles que as pariram. Afinal, boas ideias são como espermatozoides. A maioria se perde pelo “caminho da vida”. As que vingam, são como filhos e filhas. Gordinhas, magrinhas, altinhas, baixinhas, estrábicas, peraltas, quietinhas... Amadas por quem as têm.  

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

AMOR E SEXO


AMOR E SEXO
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                Diz a lenda que Amor e Sexo nasceram juntos. Gêmeos, portanto. Univitelinos, segundo reza a história. Daí tamanhas semelhanças, a ponto de, por muitos, serem confundidos. Persiste a dúvida: quem nasceu primeiro? Os românticos preferem acreditar ter sido o Amor. A maioria, entretanto, diz ter sido o Sexo. Até porque, é inegável, este último é mais “ligeiro” do que o Amor. Os irmãos apenas riem da celeuma criada pelos homens. Para eles, ao que parece, o que menos importa é a cronologia humana. Entre os irmãos, tamanhas vaidades passam de largo. Admitem, isto sim, serem diferentes. Deliberadamente, inventam, por vezes, confundirem os mortais. Hora vestem-se da mesma forma, hora trocam de roupas entre si, para desespero total dos que tentam identificá-los. “É o Amor!”. Não, era o outro. “É o Sexo”. Errado, se tratava do Amor. Bem-feito para os homens, quem mandou tivessem a mania de compará-los. Salvo os poetas, todos os demais teimavam em atribuir aos irmãos características e atributos distintos. Dizem: “o Amor é assim e o Sexo é assado...”. Por que a insistência em separá-los em “caixinhas” estanques? Umbilicalmente ligados, os irmãos gostavam, isto sim, é de andarem juntos. Um quebrava o galho do outro. Não foram poucos os momentos em que o Sexo precisava fazer-se presente e na hora “h” falhara... Quando tudo parecia perdido, lá estava o Amor para substituir o irmão. Perfeito. Todos saíam satisfeitos. Às vezes, era o inverso. É verdade que, um que outro desconfiava da artimanha dos manos. Esperava o Amor, vinha o Sexo. Esperava este último e quem dava as caras era o primeiro. Experienciaram alguns apuros. A título de safar-se, existiram momentos em que o Amor teve que vestir a camisinha do irmão, sob o risco de perder a companhia. Todavia, os instantes mais tensos foram aqueles em que o Sexo precisou se passar pelo Amor. Este tinha lá seus trejeitos, difíceis de serem imitados pelo irmão. Bastava, às vezes, um olhar mais acurado para desmascarar o Sexo. Este era mais debochado, inoportuno, expansivo, direto. O Amor, por sua vez, era – exceto quando tomava umas que outras – mais introspectivo, discreto, paciente, meticuloso, ponderado do que o irmão. Apesar das diferenças apontadas, no fundo, Amor e Sexo nutriam uma salutar inveja recíproca. O Amor bem que queria ter a espontaneidade e a “ginga” do irmão. Este, por sua vez, muitas foram as vezes que sentiu falta da prudência do Amor. Devido à pressa, entrara em becos e buracos errados, sujos e perigosos. A própria existência já vira ameaçada! O mais curioso é que, acredite, o Sexo parecia não aprender. O tempo passara e ele continuava um cabeça-dura. O Amor não. Este dava mostras de que aprendia com os erros. Verdade que se diga, sofria dias a fio. Depois passava. O Sexo era mais sanguíneo. Explodia, praguejava, mas logo-logo se acalmava. Era como se nada tivesse acontecido. Raramente guardava mágoa. Virava a página e pronto! O Amor, ao contrário, levava algum tempo para digerir os problemas. A serenidade se mostrava incapaz de disfarçar a tristeza e a decepção. Amor e Sexo. Dois irmãos que aprenderam a viver e a conviver. Não conseguiam vislumbrar outro mundo senão aquele onde, feito siameses, se completavam. Enquanto isso, inócua e tolamente, os homens seguiam discutindo: quem nascera antes, Amor ou Sexo?  



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PEDRAS TAMBÉM CHORAM


PEDRAS TAMBÉM CHORAM
Gilvan Teixeira
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                Acostumado à aspereza da vida, não pensava que choraria. Ao menos, daquela forma. Copiosamente. Teria o barulho do chuveiro elétrico disfarçado os suspiros e grunhidos vindos da alma? Temia que não. Afinal, tantos anos de farda e serviços prestados aos aparelhos repressores do Estado contribuíram para forjar uma espécie de máscara. Rude, mas pelo visto superficial. Não era tão forte assim. O box do banheiro servira talvez de escudo, não contra arruaceiros, baderneiros, torcedores tomados pelo fanatismo doentio. A única turba naquele instante era das mais profundas emoções e sentimentos que brotavam do peito. Este doía a ponto de temer pelo pior. Não se surpreenderia caso quedasse fulminado por um ataque cardíaco. Beirava os cinquenta, dormia e alimentava-se mal. Terreno propício às enfermidades do corpo. A proximidade da aposentadoria não fora suficiente para dar-lhe tranquilidade nem tampouco confiança no porvir. Dia após dia, noite após noite, pensava na família, em especial no filho mais novo. O mesmo que agora se tornara a fonte de todo aquela dor. As lágrimas corriam torrencialmente, confundindo-se com a água que caía por sobre a cabeça. Vez por outra, a imagem da esposa afogada no interminável choro só fazia aumentar o mal-estar. Onde errara? A fatídica pergunta o atormentava. Não conseguia, por maior que fosse o esforço, enxergar a luz no final do túnel. Tudo parecia perdido. Feito corvos, pensamentos nada otimistas, rasantes, sobrevoavam a cabeça do militar. Teriam sido cinco, dez, quinze minutos? Prolongara o banho mais do que de costume. Tentara mentalizar o trajeto entre o banheiro e o quarto de casal. O que diria se encontrasse alguém pelo caminho? Estava confuso. Optara pelo silêncio. Antes este do que palavras pela metade, quase sem nexo. Torcia para não cruzar com a mulher ou com os filhos, especialmente o mais novo. Sentia-se traído. O tiro saíra pela culatra. Tudo às avessas. Prendera larápios, abordara prostitutas, enfrentara homicidas, tiroteara com quadrilheiros... Afeito ao mundo do crime e da contravenção, sem com eles deleitar-se. O convívio com o submundo não fora suficiente para que se deixasse levar pelo canto da sereia. O dinheiro aparentemente fácil jamais o atraíra. O pouco que tinha era fruto dos longos anos de trabalho. A lisura de caráter sempre fora seu maior patrimônio, sua maior herança. Agora vinha o guri para jogar por terra tudo o que ensinara. Maldita hora que comprara aquele computador. O filho varava a noite dedilhando o teclado, metido nas redes sociais. Nelas, se transformava. Tentava parecer o que, no fundo, jamais fora. Afinal, de onde tirava aquele vocabulário chulo? Aquelas abreviaturas um tanto que sem sentido? Não serviu, por certo, a casa de escola para tamanho desmando. Triste ironia. Pai militar e o filho lhe apronta. O corredor parecia não ter fim. Nunca o quarto lhe parecera tão distante. A mulher já estava sobre a cama, virada para o lado contrário ao da porta. Talvez dormisse. Mais provável que não. O edredom floreado denunciava o soluçar da companheira. Não sabia como acalentá-la. Não se dá o que não se tem. Não tinha paz, como oferecê-la? Aceitaria a esposa mais sofrimento e dor? Não suportaria. O policial optara por apenas deitar, sorrateiramente. Ele fingia pensar que ela dormia. A mulher, por sua vez, fingia acreditar que ele pensava estar ela dormindo. Confusão de ideias. Entrara para baixo das cobertas. Entre eles, o silêncio. Não demorou, o choro voltou. Fazia lembrar o Vesúvio a inundar Pompeia. Impossível controlar. Ambos se entreolharam em meio às sombras do quarto. As silhuetas iam ganhando vida à medida que as lagrimas dos dois se encontravam. Nenhuma palavra. Pudera! O abraço mútuo se mostrara suficiente para aplacar a dor de ambos. Reacenderam eles não apenas o amor, mas também a esperança.  


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ÍNDIO VELHO (2)


INDIO VELHO (2)
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                O índio, remanescente da tribo guarani, parecia indiferente ao avanço da idade. Aliás, para ele o tempo escoava de maneira distinta do juruá. Jamais usara, por exemplo, relógio. Exceto a sucessão das estações e as mudanças de lua, o índio velho não atentava para o calendário. Janeiro, julho, dezembro... Pouco lhe diziam os meses do ano ou os dias da semana. Todo dia era de trabalho e de descanso. Todo dia era sagrado, portanto, dia de gratidão. Ao longo da vida, muito mais agradecera do que pedira. Por que seria diferente? Afinal, tinha tudo: o que comer, o que vestir, onde inclinar a cabeça. O índio velho, sentado sobre a cadeira de vime, sorvia o mate quente enquanto o olhar parecia distante, talvez acompanhando as lembranças de tempos idos. Não tinha do que se arrepender. Jamais prejudicara, intencionalmente, alguém. Não matara, não furtara, não roubara, não cobiçara o que é de outrem, não se apropriara de bem alheio (nem privado e nem, tampouco, público)... Acreditava o índio não fazer nada mais além do que era de sua obrigação. Aprendera com os antepassados assim. Vez por outra, fixava o olhar num que outro ponto, como que a observar meticulosamente um determinado objeto. Não muito adiante, uma criança parecia exigir do adulto, talvez seu pai, um brinquedo. Frustrado em sua intenção, o pirralho mais parecia um cavalo xucro, pinoteando daqui e dali. Diante da cena, o índio velho só abanou a cabeça, talvez em sinal de desaprovação ou, quem sabe, de desesperança quanto às futuras gerações. Tomou-lhe conta certo rubor, envergonhado que estava por ver a carroça posta frente aos bois. Ao ver o adulto refém dos caprichos da criança, sentiu uma espécie de ânsia, um mal estar a invadir o estômago. Não entendia e menos ainda aceitava a ditadura do piá. Outro dia ainda, um sobrinho vindo das bandas da capital, noticiara que não se podia mais dar uma palmada sequer no guri ou guria levados. O índio pensou, pensou... Não disse nada. Engoliu em seco a incredulidade. Fora criado em meio às leis advindas dos costumes, de pai para filho. Cabia ao último obedecer e respeitar o primeiro. Simples assim. A obediência e a hierarquia jamais foram fonte de rancor entre seu povo. Ao contrário. Era um tempo em que a tribo paria crianças sadias e felizes, emocionalmente equilibradas, respeitosas, disciplinadas, atentas, ágeis, comprometidas com o grupo, solidárias. Crianças que corriam, brincavam, “morriam” aqui para reaparecerem logo ali adiante. Apesar de uma que outra rusga, típica da idade, desconheciam a violência e ardilosa traição. Bastava um olhar do adulto e pronto! Os pequenos se aquietavam. O índio velho tinha dificuldade de compreender o que chamavam de “modernidade”. Como entender o profundo vazio das crianças de hoje? Têm, muitas vezes, tudo o que o dinheiro possa comprar, porém mais parecem um vale de ossos secos. Têm dificuldade para sentarem, escutarem, se concentrarem. A obesidade é não apenas do corpo, mas da alma. O índio velho nascera num tempo em que prática e palavra caminhavam juntas. Hoje, ficava espantado ao ver muitos juízes, pastores, advogados, psicólogos, médicos, psicopedagogos, professores gerando filhos desgarrados, desalinhados, desatentos, hipocondríacos, viciados, mentirosos, arrogantes, violentos, maldosos, desleixados, preguiçosos... Uma espécie de infanticídio espiritual. Centenas, milhares, milhões de crianças “natimortas”. Pele, osso e Coca-Cola. Pouco mais do que isso. O índio velho, com o olhar ainda absorto diante da cena da criança raivosa, não dizia nada. Limitava-se a lamentar. Sobre ele, uma revoada de caturritas a desaparecerem no horizonte. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

QUATROCENTOS


QUATROCENTOS
Gilvan Teixeira
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                Quatrocentos anos! Quatrocentos! A idade da figueira impressiona, apesar de saber que existem outras árvores, da mesma espécie ou não, com mais primaveras ainda. No meio da mata, ou do que dela restou, encravada em Cachoeirinha, a figueira chama atenção não apenas pela quantidade de anéis, mas também pelo tamanho e espessura do tronco. No meio deste, uma enorme passagem, por onde passa, tranquilamente, o corpanzil de um homem médio. Quanta coisa não viu e ouviu a figueira? Quantos abraços, tratos e destratos? Quantas carícias, juras de amor, promessas cumpridas ou não? Quantos criadores e criaturas? Maus e bons? Gente de todo gênero, etnia e credo? Letrados ou analfabetos? Empresários, operários, desempregados e mendigos? Religiosos, agnósticos, carcereiros e bandidos? Sãos, doentes e sarados? Sorridentes, carrancudos, simpáticos, expansivos e tímidos? Toda espécie de gente. Quatrocentos anos! A cidade sequer sonhava em existir. Mato para todo lado e, com ele, uma incontável variedade de espécies. Imensurável complexidade encerrada numa única palavra: Mato. Neste, a figueira fixou lugar, enraizou. Apesar do tamanho, socializou o espaço com cipós, bromélias e samambaias. Sobre e sob seus galhos fortes e densos, animais de toda ordem passaram e seguem passando. Mais escassos do que outrora, é verdade, afinal muitos não resistiram à barbárie civilizatória. Diante do olhar silencioso, nem por isso omisso ou indiferente, da figueira, os mais diversos seres se cruzaram, procriaram, se serviram ou foram servidos como alimento, sem espaço para culpa frente à grande “Mãe”. Não pode haver pecado onde inexiste a maldade. Não pode existir pecado onde inexiste o homem. A figueira, antes da chegada do juruá, sentia-se segura, como elefante em meio à savana. Hoje é diferente. A placa metálica próxima a ela, nem de perto lhe transmite confiança e nem tampouco otimismo frente aos dias vindouros. Feito certidão de nascimento, não é garantia de quase nada. Ora, se o homem mata os de sua própria espécie, o que esperar em relação às demais? A figueira teme por ela e pela mata. Receia pelo preá, capivara, serpente, formiga, sapo, beija-flor... Pouco lhe adianta a pomposidade do nome: fícus guaranítica. Prefere o apelido, ainda que tosco: “mata-pau”. Assim como o simpático cacique guarani a ciceronear o grupo de curiosos, a figueira por vezes se sentia peça de museu. Admirada, mas daquela espécie de admiração incapaz de mover o juruá a transformar, profunda e verdadeiramente, suas ações. Admiração burguesa, inócua, infértil, portanto, contrária à natureza da própria figueira. Esta nasceu para frutificar e ao fazê-lo garante a sobrevivência, dela e das demais moraceaes.  Enquanto o juruá retém os frutos, a figueira os partilha. Ironicamente, ele se “vai” – quase sempre cedo –, ela permanece. A figueira fica a observar quem a observa. São formas distintas de se ver o mundo. O juruá costuma querer conhecê-la a partir da copa, por isso olha para cima e, quase inevitavelmente, deixa escapar um “ohhhh”. Não sabe ele que a grandeza da figueira reside no chão, na terra. Feito o iceberg, grandioso é o que não se vê, exceto pelos olhos da alma. O juruá, talvez, tenha perdido a sua. A figueira olha o mundo de outra forma. Melhor, de outras formas, sem que uma aniquile ou dispense as outras. Vê o mundo por todos (?) os ângulos: de cima, de baixo, do nascente, do poente, do sul, do norte... É um olhar “feminino” na essência. Ao contrário do juruá que olha para o céu e o reverencia através de palavras vazias, deixando de lado os mais elementares valores “terrenos”, a figueira lança um olhar que envolve e se envolve. Seu olhar jamais passa em branco. É, como diriam muitos juruás, um olhar verdadeiramente cristão. A figueira olha e acolhe. Para maioria, olhar de Monalisa, indecifrável. Para o velho cacique, olhar familiar. Deixou-se abraçar pela figueira numa invejável – e, para o juruá –, incompreensível e inalcançável simbiose.