ÍNDIO VELHO
Gilvan Teixeira
e-mail: profpreto@gmail.com
blog:
profgilvanteixeira.blogspot.com.br
Falam alguns de um índio velho lá para as bandas de
Caçapava. Dizem que é um figuraço, daqueles que só se encontra uma vez na vida.
Costuma acolher a visita com a cuia estendida, pronta para a mateada. Os que o
conhecem, descrevem o homem como um grande par de orelhas. É só ouvidos. Deixa
quem o procura bem à vontade. Apenas escuta, ao menos de início. Ainda esses
dias – segundo dizem – um sobrinho vindo da capital, um piazote mal saído das
fraldas, estudante de Direito, sentara ao lado do velho e começou a falar sobre
um tal de “garantismo”. A conversa girava em torno do assassinato de uma
senhora, mãe de não sei quantos filhos, aposentada. Depois de morta,
noticiavam, teria sido esquartejada. O ex-companheiro, réu confesso, teria alegado
ciúmes para tamanho disparate. Enquanto falava, o sobrinho parecia não fazer
questão de esconder certa complacência em relação ao criminoso. O índio velho
só escutava. Dizia o rapaz que ao acusado deveria ser oportunizado o contraditório,
a ampla defesa e a possibilidade de responder ao processo em liberdade, afinal
era primário e tinha residência fixa. O tio, desacostumado ao palavrório
acadêmico, ia sorvendo o chimarrão. Vez em quando, levantava os olhos por
debaixo da aba do chapéu. Para o índio velho, fazer justiça era fazer o certo.
Errou, que pagasse pelo erro. Por que tanto rodeio? Para que tanto estudo,
pensava (mas não dizia...), se não era para resolver a questão? Sentia pena era
da falecida. Pudesse, depositaria sobre o túmulo uma flor. Quando soube, pelo
próprio sobrinho, que o bandido estava solto sob o beneplácito da Justiça, não
entendeu. Até a erva pareceu amargar de uma hora para outra. Como assim?
Noutros tempos, ai dele se olhasse atravessado para o pai ou desobedecesse a
mãe. A vara corria solta. Jamais passara por sua cabeça a ideia de tirar a vida
de alguém, menos ainda de perdoar quem o fizesse. O sobrinho ia, a cada espaço
de tempo, usando novos conceitos e jargões jurídicos. Atrevera-se até usar
latim. O índio velho não sabia se ria ou se dava uma camaçada de pau no guri. Não
conhecesse o sobrinho, diria que este o estava ofendendo ou caçoando. Aos
poucos o tio ia compreendendo o porquê da “distância” dos tribunais. Jamais
pisara num. Não fazia questão, pois toda aquela gente vestida naquelas togas
negras mais cheirava a enterro. Parecia-lhe outro mundo. Talvez por isso, não
conseguia entender a “lógica” de quem anunciava a Justiça. Como fazer-lhe crer,
homem vivido que era, que o certo era errado e o errado era o certo? Matar era
errado. Punir o erro era o certo. Pronto. Simples assim, pensava o tio. Fora
isso, era conversa fora. Enquanto o índio velho pensava, com os braços sobre a
bombacha, o bacharelando tomava um laço da bomba. Virava daqui, virava dali,
nada de fazê-la chiar. Via-se que o rapaz não levava jeito. Respeitoso, o tio
fazia de conta nada reparar. Aos poucos, o sol, que até então os esquentava, ia
se retirando. O índio velho, agradecido por mais um dia, parecia resignado. Não
fosse a demora do sobrinho em devolver-lhe a cuia, sentia-se feliz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário