Translate

Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de março de 2020

COVID-19, O MAIOR INIMIGO?


COVID-19, O MAIOR INIMIGO?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A pandemia associada à Covid-19 é, por certo, algo muito sério. Até mesmo as previsões mais otimistas – trabalho aqui somente com aquelas fundamentadas em pesquisas científicas (quanto às demais, são desprezíveis...) – trazem muita preocupação, em especial em se tratando de países subdesenvolvidos como o nosso. O impacto sobre o sistema de saúde tende a ser desastroso, comprometendo ainda mais os já precarizados serviços prestados à maioria da população. Não menos terríveis são e serão as consequências econômicas advindas da quase total paralisação da indústria, comércio e serviços, por exemplo, levando à quebradeira das empresas (a maioria, pequenas e médias) e aumentando o número de desempregados, alargando, sobremaneira, o fosso da ignóbil desigualdade social. Caminha-se, perigosamente, em direção ao caos social, aguçado pela raivosa e insana polarização político-ideológica que busca simplória e irresponsavelmente dividir o país em “gremistas” e “colorados”, “ximangos” e “maragatos”. Na prática, acabam por prestar um grande desserviço à sociedade, ainda mais diante do triste quadro hoje existente. Não menos criminosa é a busca de alguns grupos em obter dividendos eleitorais frente à crise, demonstrando de forma clara e inequívoca o descompromisso com nossa gente. Parecem não perceber que o momento exige união de todas as forças políticas, partidárias, sindicais, organizacionais, estatais, etc. objetivando planejamento, execução e avaliação conjuntas, de forma a mitigar ao máximo os danos trazidos pela pandemia. Não surpreende, contudo, a postura de boa parte da dita classe política brasileira, postura esta marcada pela imbecilidade e clientelismo. Vive-se num arremedo de República, onde os Poderes batem cabeça, embriagados que estão por interesses espúrios, onde “público” e “privado” se misturam em prol de alguns poucos, enquanto a maioria segue à margem dos direitos consagrados na Constituição. Mudou-se a forma de governo, da Monarquia para a República, mas a perversa lógica permanece. Executivo, Legislativo e Judiciário seguem, salvo raras e honrosas exceções, dissociados do verdadeiro espírito público, mais parecendo feudos loteados pelos “amigos do rei”. Quantos brasileiros perderam a vida nos últimos doze meses em decorrência da subnutrição, falta de exames preventivos, escassez de medicamentos, violência urbana, precariedade no saneamento básico, etc.? Quantos brasileiros perderam a esperança devido à falta de oportunidades, falta de celeridade da Justiça, inexistência ou insuficiência de políticas públicas voltadas à geração de renda, etc.? Quantos brasileiros seguem à margem de serviços públicos de qualidade na saúde, educação, segurança, etc.? Não tenho dúvidas de que o mal trazido pela Covid-19 é grave, mas infinitamente menos impactante do que o profundo e vergonhoso descaso do Estado e de seus agentes, em especial daqueles que sob seus ternos e togas se locupletam com dinheiro público, em prejuízo do país como um todo. Espero que a pandemia passe, mas que também “passe” o lacaio promíscuo que trai a ética, a verdade, a honestidade e a hombridade. Lutemos e sepultemos o mal, seja ele em forma de vírus, seja em forma de homem...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

OS TRÊS PATETAS


OS TRÊS PATETAS
Gilvan Teixeira
Blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


A comédia pastelão das décadas de 1960 e 70, quando eu ainda não passava de um guri, parece mais viva do que nunca. Menos engraçada, é claro, a versão tupiniquim criada na republiqueta verde-amarela não deixa de guardar algumas semelhanças com aquela encenada por Moe, Larry e Curly. As patetices destes últimos são um nada frente àquelas promovidas pelo Executivo, Legislativo e Judiciário de nosso vergonhoso país. A comicidade da arte pretérita dá lugar ao patético papel desempenhado por aqueles que, sob seus ternos e togas, não conseguem disfarçar o azedume que brota da ética putrefata e da arrogância abjeta. Batem cabeça os Patetas da República, fazendo lembrar baratas que, em fuga, esquivam-se da luz, pois que acostumadas aos ambientes escuros e fétidos dos porões das Câmaras, Assembleias, Prefeituras, Palácios e Tribunais de toda ordem. É falar em transparência, enlouquecem. É pensar em controle social, endoidecem. É cogitar em equidade, desfalecem. Não por acaso, o Brasil mais parece um enorme móvel tomado de cupins. Por fora, aparenta – por vezes – certa normalidade, não fossem os “farelos” em forma de violência urbana, escolas e hospitais sucateados, desemprego, desigualdade social, carga tributária insana, falta de saneamento básico, corrupção generalizada, precarização dos direitos trabalhistas e previdenciários, disseminação do ódio em relação às minorias… Farelos que vão sendo varridos para baixo do tapete, escondidos sob as cuecas, justificados por meio de sentenças, legitimados através de dispositivos legais, tornados palatáveis pela irracionalidade da propaganda. Enquanto isso, as estruturas da famigerada República e do falacioso Estado de Direito definham sob o ataque voraz das pragas. Quanta patetice! O equilíbrio sugerido por Montesquieu jamais existiu por estas bandas. Enquanto o país mais parece um ébrio a enrolar as pernas, pois que frágeis os membros que deveriam sustentá-lo, os Poderes batem cabeça. Fazem lembrar a Hidra de Lerna depois de uma grande “cheirada”. Falta um norte, sobra palermice. Quem sofre é a “plateia” que – a preço de ouro – , sentada sobre o piso frio e úmido, sustenta o bizarro espetáculo. No picadeiro, o que se vê são os Três Patetas num ridículo improviso, indiferentes à qualidade do espetáculo, confiantes talvez no conforto modorrento de seus cargos. Frases prontas, chavões e citações em latim tentam engambelar o espectador, que, a mexer-se no assento duro, já demonstra certa impaciência. Vez por outra, a velha e carcomida, mas ainda eficiente, política do “pão e circo” sofre algumas turbulências. Apela-se então para a “mudança”, pois que trata-se da melhor forma de deixar tudo como está. Os Patetas mudam uma fala aqui outra acolá, trocam seis por meia dúzia, invertem uma ou outra peça do baralho e pronto! Segue o espetáculo. À plateia, pode haver momento mais jocoso do que aquele em que os Patetas batem um no outro? É quando, então, o que era “público” torna-se “turba”, saindo em defesa deste ou daquele Pateta, na vã esperança de deixar a insignificância do anonimato para ser protagonista. Quem ri, agora, são os Patetas. Sim, riem de nós, de nossa imbecilidade e tendência a ver no algoz um amigo, ainda que Pateta.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À CORRUPÇÃO


DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À CORRUPÇÃO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


O dia 09 de dezembro foi escolhido pela Organização das Nações Unidas como Dia Internacional de Combate à Corrupção. Iniciativa esta interessante e seguida por muitos países, estados e municípios. Cachoeirinha, por exemplo, por meio da Lei Municipal nº 4574, de 2019, decidiu por fazer desse Dia um momento de reflexão voltada à conscientização dos munícipes sobre a importância do controle social e da necessidade de ampliação dos instrumentos destinados ao combate à impunidade. O que é, afinal, “corrupção”? Inúmeras são as formas de defini-la, tamanha sua variedade e complexidade. Dentre os conceitos interessantes acerca do termo, destaco aqueles que associam a corrupção à “deterioração”, “putrefação”, “modificação ou adulteração das características originais de algo”. Não por acaso, a corrupção é fétida, exala o mau cheiro da miséria criada e aprofundada por ela. Mesmo a aparente limpeza dos corredores e gabinetes de palácios, prefeituras, assembleias, câmaras e tribunais é incapaz de neutralizar o azedume cadavérico que brota das práticas espúrias que, histórica e diuturnamente, maculam as relações de poder. A corrupção, sabemos, é um câncer em avançado processo de metástase, que corrói o tecido social e lança por terra qualquer esperança de dias melhores. Mostra-se presente e estruturada nas organizações governamentais, intergovernamentais (ONU, por exemplo), esportivas (FIFA, CBF, etc.), em governos dos mais distintos matizes ideológicos (liberais, neoliberais, socialistas, sociais-democratas, “direita”, “centro”, “esquerda”…), partidos políticos, sindicatos patronais e de trabalhadores, Poderes do Estado (Legislativo, Executivo, Judiciário), órgãos de controladoria (Tribunais de Contas, corregedorias), agências ditas “reguladoras”, conselhos de toda ordem, empresas públicas e privadas… A lista é interminável, como o são as formas em que a corrupção se manifesta. Feito camaleão, essa praga faz uso de um diabólico mimetismo para se reforçar e perpetuar em nosso meio. Coopta pessoas e as corrompe sem nenhum pudor e não o conseguindo, as aniquila. Simples assim! Faz uso dos aparelhos do Estado, impudica e descaradamente, sob o manto da flagrante omissão – quando não o conluio – daqueles que, por dever ético e/ou legal, deveriam zelar pelos princípios republicanos. A corrupção, por certo, é a mãe dos maiores e mais cruéis males da humanidade. Ela mata, oprime, humilha, aniquila sonhos, destrói famílias, apodrece relações. Ao beneficiar alguns poucos, prejudica a imensa maioria. O ouro que reveste a pocilga dos corruptos, muitos deles togados e engravatados, contrasta com a desesperança das verdadeiras joias (muitas delas iletradas, calejadas, desdentadas) a madrugarem nas filas de hospitais, a chorarem sobre o corpo do ente querido vítima da insegurança e incompetência públicas, a vegetarem em meio a um ensino pífio, a disputarem espaço num transporte sem o mínimo de conforto, a buscarem o pão necessário à subsistência da família. A corrupção se retroalimenta por meio, também, de práticas que por vezes soam pequenas. Manifesta-se nas relações familiares, de amigos, de trabalho, de consumo, na escola… Como identificá-la? Como combatê-la? Inexiste receita, contudo o caminho passa necessária e obrigatoriamente pelo “meu”, pelo “teu”, pelo “nosso” posicionamento ético. Este precisa ser categórico, não tergiversar, ser inegociável ainda que prejudicial aos interesses particulares. Somente assim construiremos um país melhor, um estado menos injusto e uma cidade verdadeiramente para todos!

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O CIRCO

O CIRCO
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




            Noutros tempos, era lugar de diversão, de indescritível alegria, especialmente por parte dos de tenra idade. Ali, malabaristas disputavam espaço com animais e seus adestradores, palhaços e equilibristas. Bailarinas, enfiadas em suas roupas justas, a levitar com suas sapatilhas aladas. Destoando dos risos, apenas a inconfundível voz dos vendedores das maçãs do amor, algodão doce, pipoca e refrigerante. Sob a luz do picadeiro, os saltimbancos com suas brincadeiras a transformarem aquele momento em algo impar e inesquecível. Tempos bons em que o circo era certeza de boas risadas. Querem hoje, e não são poucos, vê-lo pegar fogo. Imprudente e irresponsavelmente, esquecem que sob suas lonas jaz, sim, um que outro desafeto, mas, também, incontáveis amigos, filhos, irmãos e companheiros. Parecem esquecer que o fogo é “democrático”, a todos queima indistintamente, pretos e brancos, cristãos e ateus, letrados e analfabetos, liberais e socialistas. Alimentadas pelo ódio e desprezo, as chamas vão ceifando vidas, evaporando a esperança e transformando em cinzas as relações. Não demora, pouco restará senão um vale de ossos secos, onde a conversa franca, o diálogo humanizatório e a companhia prazerosa serão coisas do passado. Ainda ontem, quando todos se sentiam pertencentes ao circo, o simples monóculo era suficiente para vislumbrar o mundo. Hoje, os tempos são outros. As lentes, por mais numerosas e potentes que sejam, vão, a cada dia, ofuscando nossa visão. Já não vemos e nem tampouco reconhecemos o outro. Não vemos a nós mesmos e nem nos reconhecemos. Involuímos. Quiçá seja a fumaça do circo, asfixiante, espessa, nauseante. Tamanha toxidade contagia, produzindo cenas de horror, um inferno dantesco, sombrio, desanimador. Escasseiam-se os pontos de fuga e multiplicam-se os gritos de socorro. Por todo lado corpos que, como copos vazios, por mais coloridos que sejam, há muito perderam o próprio sentido. Pobres recipientes, secos e sequiosos, já nada oferecem e nem tampouco recebem. Não tarda, o calor do fogo deles arrancará a frágil e fugaz beleza. Pura vaidade.  Enquanto arde o circo, as estruturas, até então tidas por sólidas, vão se desmanchando, sepultando valores, moral, leis, tradições… Na hora do aperto, um que outro -  tomado, quem sabe, por uma esquizofrenia momentânea derivada do caos – esboça teses de “direita” e de “esquerda”, enquanto segue cambaleante, sem norte, tropeçando nos corpos sem vida. As cortinas, que antes se abriam a marcarem os atos da peça, já não existem. Consumidas pelo fogo, não passam de fiapos incandescentes a denunciarem o ocaso da vida. O que antes era um circo vai se transformando numa grande pira, alimentada pelas páginas de Smith e de Marx, de Freire e de Carvalho, instigada por corpos de todos os tamanhos e idades, de todos os gêneros, de todas as crenças e ideologias. A fumaça escura vai formando uma triste coluna a alcançar o céu, exalando o fétido odor da vaidade, da intolerância, do egocentrismo e da indiferença. Saudade do velho circo, não daquele da política dos Césares, alienante e sarcástico, nem tampouco do espetáculo piegas e descompromissado com a sorte alheia, mas do circo das boas utopias, da convivência, da alegria, da confiança, do diálogo, da cumplicidade frente ao sentimento daqueles que acostumamos a chamar de “terceiros”, como se “primeiros” fôssemos. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

SUPERANDO O MANIQUEÍSMO


SUPERANDO O MANIQUEÍSMO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


     O término da campanha presidencial de 2018, assim como a posse do novo mandatário não foi capaz de sepultar a flagrante e danosa polarização político-ideológica. Sobram, ainda, discursos vazios, raivosos e recheados de chavões surrados que mais fazem lembrar aquelas roupas cheirando a mofo. O país precisa, urgentemente, superar o enfadonho e pernicioso maniqueísmo que atravanca o desenvolvimento e impede a necessária “união nacional” em torno daquilo que é, de fato, urgente e necessário ser combatido. A desigualdade social é fruto, sobretudo, de uma ignóbil distribuição de renda. Esta, por sua vez, vem sendo alimentada e reforçada pelos vícios que maculam a história deste país, garantindo, por exemplo, privilégios a determinados indivíduos, famílias e/ou grupos. O arremedo de República que possuímos jamais conseguiu romper com a cleptocracia, o clientelismo e a confusão entre interesses público e privado. O Judiciário e o Legislativo – até por contarem com orçamentos próprios (como se isso fosse garantia de independência de Poderes…) - seguem completamente descolados da triste e indecorosa realidade de nosso povo. Mostram-se incapazes de cumprirem com seus papéis constitucionais, mais soando como um peso morto para o contribuinte. Contaminados por interesses corporativos e espúrios, bem como por conchavos e apadrinhamentos, tais Poderes há muito convivem com o descrédito junto à população. Quanto ao Executivo… Verdadeiro desastre, onde a má gestão confunde-se e mistura-se à incompetência, desonestidade, descompromisso com a verdade e com as normas mais elementares da Administração Pública. Não por acaso, o Estado brasileiro (Executivo, Legislativo e Judiciário, em todos os seus níveis) chegou onde chegou. Hoje, tem se mostrado completamente desnecessário, pois que destituído de sentido. Tornou-se o maior problema do país, insuportável fardo nas costas do contribuinte. Este – por meio de uma carga tributária insana e irresponsável – paga, paga e paga, sem o mínimo retorno que se espera de um ente público sério e comprometido. Assim, saúde, segurança, educação, infraestrutura seguem jogadas às moscas, com imensuráveis prejuízos à população, especialmente daquelas camadas mais pobres. Percebe-se, portanto, que são problemas e desafios concretos a serem atacados e resolvidos. Discursos mais ao centro, à direita ou á esquerda, por certo, são incapazes de resolverem e desatarem os nós existentes. Pelo contrário, muito comumente, desviam do foco e ajudam a reproduzir e perpetuar as mazelas existentes. O que se deseja não é a existência de apenas um “ponto de vista”, mas sim um pluralismo inteligente, equilibrado, responsável e comprometido com o bem comum.

     Apoiar a livre iniciativa e o empreendedorismo, por exemplo, não significa abrir mão da justiça social. Ser simpático à menor intervenção do Estado na economia e na vida das pessoas não pressupõe descompromisso com o interesse público. Posicionar-se favorável ou contrariamente à flexibilização da posse de armas, à redução da maioridade penal ou ao aborto, por exemplo, não atesta a idoneidade ou grau de cidadania de quem quer que seja. São posicionamentos individuais e/ou coletivos que precisam ser ouvidos, discutidos e respeitados. As divergências existentes são salutares e necessárias, porém devem convergir na mesma direção, qual seja, a da superação das vergonhosas mazelas que, como metástase, têm levado o país ao caos. Precisamos ter clareza acerca dos inimigos que nos são comuns: corrupção, malversação do dinheiro público, confusão entre público e privado, privilégios corporativos, péssima e criminosa qualidade dos serviços públicos, violência de toda sorte, sucateamento e precariedade da infraestrutura, desemprego… Demandas, portanto, não faltam. São problemas tão graves quanto complexos a exigirem muita competência, organização e trabalho para superá-los.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

CADA ESQUERDA TEM A DIREITA QUE MERECE


CADA ESQUERDA TEM A DIREITA QUE MERECE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


        Não deveria surpreender a ascensão, no Brasil, de uma “direita” empunhando um discurso assentado no talião, na família “tradicional” e no “antipolítico”. Cada “esquerda” tem a “direita” que merece. Trata-se da já conhecida lei da ação-reação, onde o porvir refletirá aquilo que fazemos hoje, da mesma forma que as práticas pretéritas levam ao que hodiernamente se assiste. Da mesma forma que a redemocratização trouxe, em seu bojo, a ampliação dos direitos como resposta aos “anos de chumbo” das décadas de 1960 e 70, o fortalecimento da “direita”, hoje, nada mais é do que uma resposta às frustrações nascidas da dicotomia entre teoria e prática de governos ditos de “esquerda”. Os históricos e aparentemente atávicos problemas da educação, saúde e segurança não foram sequer minorados, quanto mais resolvidos, pelos governos alinhados ao, há muito surrado, discurso marxista. Vícios outrora combatidos – quando se estava na oposição – passaram a fazer parte do diabólico repertório do jeito de governar da “esquerda”. Carga tributária insana, confusão entre público e privado, promiscuidade e meretrício partidários, enriquecimento dos bancos, sucateamento dos serviços básicos, mendicância de estados e municípios frente ao centralismo do Planalto Central, incapacidade de transformar as riquezas do país em qualidade de vida para nossa gente, insignificância no cenário internacional, corporativismos de toda sorte, corrupção… Verdadeiro quadro da dor, onde os sete pecados capitais soam quase como brincadeira de criança. Infelizmente, a “esquerda” jogou ao lixo não apenas a esperança de milhões de brasileiros, mas a oportunidade de um “fazer” diferente. Movida pela desculpa da governabilidade, optou-se pelo presidencialismo de coalizão, vendendo-se a alma e a história de luta aos algozes que, desde sempre, vêm surrupiando nosso povo. Alianças espúrias e impudicas foram celebradas, desprezando a ética e a coerência. Não por acaso, coube – principalmente – à “base” a derrubada do famigerado governo da “esquerda”. Esta, portanto, colheu o que semeou. Não tardará, o país voltará às urnas. A “esquerda” precisa reconhecer os erros cometidos. Precisa, ainda, entender e aceitar que o Brasil – por sua extensão continental e formação cultural – é um país complexo, marcado por idiossincrasias, por vezes, irreconciliáveis. Urge, também, auscultar os sussurros de uma população refém do medo, ou os gritos de uma juventude que vê seu futuro esvaindo em meio à estreiteza de perspectivas. A “esquerda” precisa repensar-se antes de repensar o Brasil. Precisa submeter-se ao divã da humildade e forjar um novo pacto social, depurando suas fragilidades, seus vícios, seus discursos e suas posturas. Às demandas do século XXI, mostram-se inócuas as receitas do passado, ainda que bem intencionadas. A “esquerda” precisa entender que aqueles que dela discordam ou que, então, simpatizam com outras ideologias, têm o direito de fazê-lo, respeitados, por óbvio, os princípios da dignidade da pessoa humana e do verdadeiro Estado democrático de direito (não esse engodo que conhecemos...). A democracia não deve sepultar o antagonismo de ideias, sob o risco de enveredarmos para o caos. A “esquerda” precisa cortar na própria carne, rompendo, de fato, com práticas clientelistas e que têm levado este país ao jugo de uma cleptocracia asquerosa, insensível e desumana. Precisa quebrar os grilhões do corporativismo, que submete o interesse da maioria aos caprichos de alguns grupos que entravam o desenvolvimento social. Necessita romper com privilégios e com a cultura da “esmola”, pois que esta alimenta o coronelismo e a política de favores. À esquerda cabe propugnar por uma educação de qualidade, na formação de sujeitos autônomos, comprometidos, éticos e responsáveis. Lutar por um sistema tributário racional, justo e proporcional à capacidade econômica do contribuinte. Tensionar pela oferta urgente, com qualidade, de serviços públicos de saúde, diminuindo a dor, sofrimento e humilhação de milhões de brasileiros. Precisa sublevar-se frente à violência que ceifa vidas, combatendo o crime organizado em todas suas esferas, inclusive (principalmente...) estatal. Debruçar-se sobre políticas públicas de curto, médio e longo prazos, voltadas às diversas áreas, como transporte, moradia, saneamento, áreas estas que representam sérios gargalos a serem resolvidos. Somente assim teremos uma “esquerda” (e seu oposto, salutar e necessário) confiável, capaz de representar, a contento, importante parcela da população.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

  

            Quem balança nosso “berço esplêndido”? A quem temos delegado tamanha responsabilidade? O Sete de Setembro, como a Páscoa ou Finados, é um ótimo momento para reflexão acerca da vida ou da morte, da esperança ou da finitude, do porvir ou do ocaso. Qual é a história que desejamos escrever? Qual é o caminho que escolheremos trilhar? Qual é a força que pretendemos atribuir ao passado? Se “determinante”, então teremos de conviver, inevitável e fatalmente, com os descalabros por ele produzidos. Neste caso, sentemos e choremos ante tanta desigualdade social, corrupção, malversação do dinheiro público, indiferença com a educação, saúde e segurança. Porém, se – por outro lado – optarmos por fazer do nosso passado uma fonte inspiradora e propulsora de transformações, aí sim haverá espaço para subvertermos o triste e cruel status quo. A política nacional tem sido palco por onde desfilam “babás” da pior espécie. Desonestas, hipócritas, prepotentes, mentirosas, larápias e corruptas. Assim como a personagem criminosa do filme homônimo, aqueles que deveriam cuidar e servir a este país, o traem, o enganam, o fazem morrer à míngua, roubando-lhe o último suspiro. Tamanha vilania se agrava e se perpetua, alimentada que é por eleitores omissos, ignorantes, avessos à reflexão política e destituídos de memória. Como cães, retornam ao próprio vômito. Feito “corno manso”, traídos são pelas rameiras da política, candidatos que vendem a própria consciência e negociam a dignidade em troca dos votos que levam à dita “Casa do Povo” ou ao Executivo. São sabedores da deslealdade e da perfídia, porém com elas mantêm uma relação de hipocrisia e fingimento. Eleitores que tecem discursos inflamados, porém reproduzem, muito comumente, os mesmos vícios por eles condenados. O Brasil chora, enlutado pela violência desmedida e sem controle, entregue que está ao crime infinitamente mais “organizado” do que o próprio Estado. O país está em prantos ante a fome que assola milhões e milhões de nossos irmãos. A nação se contorce de dor, jogado às moscas frente à vergonhosa precariedade do (des)serviço de saúde pública. O “gigante” se apequena diante do dantesco quadro da educação, onde – enquanto alguns poucos enriquecem – professores são explorados e alunos relegados a uma (de)formação de péssima qualidade. Sobre o berço, a penumbra sombria de uma história marcada pelo descaso, instabilidade política e promiscuidade partidária. Fantasmas, com suas enormes togas negras, como abutres à espreita, sobrevoam a “criança”, aguardando a morte tida como certa. O que era para ser sonho virou pesadelo e o que deveria ser sono tem se transformado em morte. Qual é o futuro que se desenha, senão o triste infortúnio de gerações vindouras natimortas? Mesmo a esperança, ainda que um fiozinho, tem sucumbido sob a insistência doentia de trilharmos por caminhos tortuosos. Queridos amigos e amigas, aprendamos com a história.

sábado, 19 de agosto de 2017

CACHORRO, SOMOS NÓS...

CACHORRO, SOMOS NÓS...
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Verdadeira ofensa à classe dos mammalias e à família dos canidaes, a declaração de um ministro do STF não surpreende. Deixa às claras o que há muito é sabido: o Judiciário, nem de perto, é sinônimo de ética ou credibilidade. Os mesmos vícios, que deveriam ser exemplarmente punidos pela caneta do magistrado, tangenciam a conduta de inúmeros juízes Brasil à fora, da primeira à última instância, da longínqua comarca do interior à mais alta Corte. Os valores trazidos na cartilha são letra-morta, sucumbem frente à consciência putrefata daqueles que usam a normativa jurídica para defesa de interesses escusos. Hermético é não apenas o “juridiquês”, mas o corporativismo doentio que, historicamente, vem sangrando os cofres públicos e cristalizando privilégios, em detrimento do interesse público. Donos de uma falsa moral, não são poucos os togados que, feito abutres, alimentam-se da carniça de um país combalido e sôfrego. Ao que tudo indica, fazendo uso da verborreia do ministro que acredita ser Deus, o Judiciário – não apenas, e eventualmente, o instituto do habeas corpus – tem, muito comumente, se tornado um “valhacouto de covardes”. O dito ministro, ao que tudo indica, parece também ter confundido a relação entre o cachorro e seu rabo. Precisa entender que ele, SERVIDOR PÚBLICO, é o “rabo”, enquanto quem o paga (a quem ele chama de “opinião pública”) é o “cachorro”.  Tantos anos enfiado em seu gabinete, embasbacado entre incontáveis benesses, talvez o tenha feito perder o sentido da dura realidade da maioria de nosso povo. Não se ponha a carreta na frente dos bois, “Excelência”! Não passas de um “rabinho”, pois que insignificante diante daquele que te dá sentido. Cachorro, e dos grandes, somos nós! Infelizmente, cachorro cotó, pois que, lamentável e vergonhosamente, o nosso “rabo” tem sido de pouca serventia. Apesar de viver às custas de seu dono, mais tem estorvado do que ajudado. Não abana e nem tampouco espanta as moscas. Não denota tristeza, dor ou felicidade. Faz lembrar o apêndice, só lembramos dele quando inflama. Passou da hora do rabo colocar-se no seu devido lugar, assim como o Judiciário no seu. Saia este do meio entre as pernas da malfadada República e cumpra, já, com seu papel. Urge refundarmos este país, saldando a imensa dívida com seus cidadãos, sequiosos por serviços públicos de qualidade, necessitados de justiça social e cansados de tamanha exploração.  

terça-feira, 4 de abril de 2017

AS MURALHAS DE JERICÓ

AS MURALHAS DE JERICÓ
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas. Tendo ouvido o povo o sonido da trombeta e levantado grande grito, ruíram as muralhas, e o povo subiu à cidade, cada qual em frente de si, e a tomaram. (Josué 6; 20).

            Jericó fica aqui. Encravada no meio de Cachoeirinha, bem que poderia estar em Brasília, São Luís, Recife, Porto Alegre... Marcada pelo pecado, há muito a Câmara da cidade busca esconder suas vergonhas por detrás das muralhas, como se estas fossem capazes de escamotear o fétido cheiro exalado por tamanha imundície. Corre solta, ali, a pior espécie de prostituição, aquela onde são vendidas consciências, negociadas em nome de uma pretensa governabilidade. Como moeda de troca, alguns cargos em comissão, alimentando um ignóbil círculo vicioso, onde quem mais perde é o cidadão comum. Jericó é um lugar contaminado, vingando nela a falsidade e o narcisismo doentio. Apesar de muito feios, os que nela habitam, pavoneiam-se, buscando amainar a imagem bizarra por meio de trajes, penteados e perfumes que vão do caro ao cafona, do exagerado ao ridículo. Jericó custa caro, muito caro, ao contribuinte. Enquanto este convive com a violência, o desemprego, o ônibus lotado, a precariedade do ensino e a falência da saúde, Jericó esbanja suntuosidade. Bela arquitetura, veículos caros, ambiente climatizado, papel higiênico de invejável textura... Parece outro mundo. Jura ser o centro do universo, a Casa do Povo. Não surpreende, pois que risível e pífia a inteligência de sua gente. Quiçá, por isso, tamanha indiferença com o destino da educação para além de suas muralhas. Sim, outro mundo, aquele de um passado marcado pelo coronelismo e troca de favores. Apesar de ínfima no tamanho, os arredores de Jericó servem de latifúndio aos que tomaram assento (ou será de “assalto”?) no lugar. Elegem-se e reelegem-se com a dor e sofrimento alheios. Para os habitantes de Jericó, o fracasso dos serviços públicos, feito cabeleira de Sansão, representa força. Faltou remédio? Adivinha, lá está o coronel para consegui-lo. Faltou a lâmpada na rua, sobrou entulho na frente de casa, precisou de vaga na creche? O coronel, como que num passe de mágica, logo aparece. Feito vampiros, alimentam-se do sangue da gente desgraçada e pobre. Inebriados por um misto de gratidão e profunda ignorância, o eleitor faz de Jericó um lugar de privilégios eternos, onde viceja o nepotismo e a relação promíscua entre interesses público e privado. Pode sair algo bom de Jericó? Como quadrilha, os demais Poderes comungam à mesa de Jericó, restando ao povo não mais do que míseras migalhas. Comum é o viajante confundi-la com Babel, tamanha é a confusão de siglas a formarem o triste mosaico. Não passam de letrinhas mortas, destituídas de sentido e carentes de ideologia. Outros, a confundem com Sodoma, tal a impureza de Jericó. A leitura da Bíblia, junto a seus portões, há de livrá-la da ira divina? Servirá de carranca contra a fúria do povo? Certo é que hoje tem soado como deboche aos que, naquele lugar, ainda buscam algum socorro. A fé em Jericó é protocolar, não mais do que mero e insuportável formalismo. Ouve-se, a todo instante, feito mantra, os nomes de seus senhores. “Presente, presente, presente...”. Pudera, é um dos raros momentos em que parecem existir. Buscam, talvez, dar significado à própria insignificância. Jericó parece enferma, combalida, moribunda. Suas muralhas parecem ruir. Ouvem-se as trombetas anunciando novos tempos. Jericó chegou ao fim (!?)

sábado, 4 de março de 2017

O ESTADO CAFETÃO


O ESTADO CAFETÃO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


Para que serve, ou deveria servir, o Estado no mundo moderno? O Estado no Brasil há muito tem se convertido num grande cafetão, onde a maioria de nós – populacho, assalariados, servidores públicos mal pagos –, feito prostitutas, vemos nossos corpos serem explorados e maltratados pela aspereza da vida. Como vis mercadorias, somos lançados nos porões escuros e abjetos, até que a morte – pois que, cada vez mais, a parca aposentadoria tarda em chegar... – usurpe o último suspiro. Somos vilipendiados, abusados, extorquidos diuturnamente pelo Estado. Enquanto este último se apropria dos vinténs, resta às marafonas as tristes marcas do coito forçado. Sob o olhar indiferente e cúmplice do Judiciário, as raparigas são enganadas e judiadas. Poderia ser diferente, uma vez que a toga é garantidora de privilégios e deferências? Enquanto fede o prostíbulo, resultado de uma história de descaso, a dita Casa do Povo vê desfilar parlamentares em seus ternos alinhados, cercados de um exército de puxa-sacos que pouco mais sabem do que balbuciarem algumas palavras e tremularem suas bandeirinhas em período de campanha. Faltam às rameiras verdadeiros representantes. Como cafetão, o Estado acredita ser dono de nossos corpos. É sustentado por nós, sem nenhuma contrapartida, salvo algumas migalhas travestidas em hospitais, escolas, estradas e presídios sucateados. Como cafetão, o Estado bebe e come às custas do suor de “suas” vadias. Não satisfeito, sem parcimônia, usa da brutalidade sempre que as putas resolvem protestar. Cassetete, gás lacrimogênio, bala de borracha... Vez por outra, o algoz muda de estratégia. Usa a propaganda, paga, ironicamente, pelas próprias vítimas. Tenta confundir o público, buscando fazê-lo acreditar que “cidade” e “prostíbulo” são coisas distintas. O Estado, no Brasil, definitivamente, não nos representa! Somos um país acéfalo, sem verdadeira governança. O “Poder” não é público, mas atende a interesses privados. Executivo, Legislativo e Judiciário não passam de redutos de interesses espúrios e corporativos, tendo se tornado um fim em si mesmo. É a “casa” balançar, sob as intempéries de uma famigerada e duvidosa “crise”, o cafetão lança a culpa sobre as prostitutas. Usa de alguns jargões como se fossem mágicos e capazes de reverterem a incompetência crônica. “Meritocracia”, “gabinete popular”, “enxugamento da máquina”... Eufemismos a escamotearem a perversa intenção de estourar a corda do lado mais frágil. Enquanto o Estado cafetão se lambuza com seus privilégios e fartos manjares, perpetuados pela promíscua troca de favores partidários, as prostitutas lutam contra a desesperança e, muito comumente, se deixam levar pela lábia cafetina. Existem, ainda, aquelas que, numa espécie de “síndrome de Estocolmo”, desenvolvem uma doentia admiração pelo cafetão, deixando-se cooptar por um prato de lentilhas. Vadias, uni-vos! Rompamos os atávicos grilhões que amordaçam nossos sonhos. Subvertamos o status quo asqueroso que sustenta o cafetão, enfraquecendo-o e levando-o à míngua. Tomemos o prostíbulo e façamos dele um lugar limpo, justo e decente, onde todos sejam, de fato, iguais perante a lei, togados ou não, letrados ou não, alinhados ou não. Construamos um Estado, de fato, democrático, avesso a privilégios injustificados e intolerante com toda espécie de larápio, ainda que sob a forma de um cafetão.

domingo, 4 de dezembro de 2016

A BASTILHA



A BASTILHA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

                Menos pomposa e conhecida do que a de Paris, a Bastilha do Planalto Central quiçá tenha um destino parecido com a da capital francesa. Tomada pelos ratos da República, a Bastilha tupiniquim tem servido de palco não apenas a longos discursos vazios e mal escritos, mas à aprovação de leis que reforçam o status quo perverso, marginalizando a maior parte de nossa gente. Historicamente usurpada por uma classe política eleita, muitas vezes, por meios espúrios, a Bastilha do Planalto Central tem sido não fonte de esperança de um povo, mas de vergonha e descrédito no presente e no porvir. Não por acaso, na calada da noite, leis são gestadas e aprovadas, escarnecendo o interesse público e violentando, despudoradamente, a vontade popular. Acastelados em seus interesses inconfessáveis, acostumados a ardis e mesquinhas práticas, escondidas sob a máscara do foro privilegiado, larápios de toda espécie infestam a Bastilha. Enfiados em seus ternos bem alinhados, fajardos lotam os gabinetes. Estes, como bueiros, exalam o mau cheiro das consciências corrompidas pela ganância. A mesa farta da Bastilha, a contrastar com a fome do povo, só faz recrudescer a ignominiosa contradição. Enquanto o contribuinte, o trabalhador, o produtor e o empresário honesto veem o próprio suor escorrer pelo rosto e os vinténs fugirem pelo sumidouro da insana carga tributária, facínoras regurgitam seus dólares em contas secretas nos paraísos fiscais. Feito piranhas, os ocupantes da Bastilha, com maestria e invejável agilidade, unem-se para rasgarem a carne do brasileiro, num frenesi doentio e sem limite. É duvidar, sequer ficam os ossos para contarem a história. Ideologias e siglas partidárias são postas de lado, revelando o instinto assassino da bandalheira da Bastilha. Desdenham e traem o eleitor, fazendo pouco caso das promessas de campanha. Feito vermes, não têm palavra. Desonestos, indignos, repugnantes. Ao morrerem, não deixarão saudade e a história há de sepultá-los na vala comum dos indigentes, não daqueles sem posses, mas dos destituídos do maior patrimônio da pessoa humana, a saber, os valores universais e atemporais da ética, verdade e hombridade. Fazem lembrar não homens, mas moscas em torno da própria imundice. Seus perfumes caros, automóveis potentes, coberturas luxuosas e rechonchudos saldos bancários são insuficientes para torna-los verdadeiros homens e mulheres. Desmerecem a Bastilha. Esta não é para eles. Desratizemos seus corredores e usemos de todos os meios para torná-la um símbolo nacional. Pelo voto ou pelo fórceps, extirpemos a praga que tomou conta da Bastilha. Esta é patrimônio do povo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

UNIPARTIDARISMO: DEMOCRACIA A PIQUE

UNIPARTIDARISMO: DEMOCRACIA A PIQUE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Dentre as marcas de um governo totalitário, merece destaque a inexistência de partidos políticos ou, na melhor (pior?) das hipóteses, o unipartidarismo. As ditaduras, ao que tudo indica, preferem esta última “saída” à primeira. Assim, acreditam conseguir esconder suas práticas espúrias por detrás de uma falsa imagem de democracia. Mantém-se o formalismo e, sob seu teto, esconde-se a repressão a toda e qualquer espécie de oposição. O último pleito, em muitos municípios gaúchos, revelou o que já sabíamos, a saber, a flagrante tentativa de alguns setores em acabar com a dita “esquerda”. Para tanto, há algum tempo, tem sido recorrente uma poderosa e milionária propaganda midiática contra grupos políticos ideologicamente identificados com o marxismo, por exemplo. O fracasso de tais partidos nas urnas, por certo, é resultado, em parte, dos equívocos por eles praticados, traindo a esperança de grande parcela da população, especialmente a mais pobre. Contudo, inegável é, também, a orquestração de grupos políticos e econômicos com intuito de espezinharem projetos alternativos que pudessem ou possam colocar em risco o pérfido status quo. Para os “donos do poder”, algumas plataformas soam como inaceitáveis, especialmente aquelas que visam a distribuição de renda e o fortalecimento de políticas afirmativas. Demoniza-se a “esquerda”, como se a “direita” fosse o repositório da solução à violência, desemprego, precariedade da educação e saúde públicas. Ora, a história é reveladora: foram os setores que hoje fazem apologia da moralidade e da ética os que, ainda ontem, se locupletaram com os benesses da República Velha, do voto de cabresto, do populismo, da ditadura... Como apregoar equidade e justiça social com um passado maculado pela perfídia e insensibilidade em relação aos desvalidos? Como discursar em favor da probidade frente a um passado improbo? Como falar em esperança diante de uma história marcada pelo descaso quanto aos mais necessitados? Respaldados, por vezes, num Judiciário falido e sem crédito, alguns grupos políticos não conseguem disfarçar um misto de alegria orgástica e doentia com o insucesso dos “adversários”. Estamos a caminhar em direção a uma espécie de “unipartidarismo”, não literal obviamente. Ao contrário, nunca tivemos uma miríade tão grande, confusa e insana de agremiações partidárias, a maioria, verdadeiros balcões de negócio. São partidos ideologicamente vazios, voltados à obtenção e/ou manutenção de privilégios individuais ou de grupos. A pretensa “governabilidade” – comprada a preço de compadrios regados a cargos de confiança, funções gratificadas e outras trocas de favores – é garantidora, sobretudo, de vis privilégios e mesquinhos projetos pessoais de poder, em detrimento do interesse coletivo. Ganham alguns poucos, enquanto perde a sociedade como um todo. Tende-se a outra forma de “unipartidarismo”, travestido de “base governamental”. A “governabilidade” é o pretexto favorito, apesar de surrado, para incontáveis conchavos e troca de favores. À luz do dia, o interesse público é violentado sob o olhar complacente daqueles que, por força de lei (já que desconhecem a ética...), deveriam zelar pelo Estado democrático de Direito. Serve a quem e para quem o arcabouço jurídico? Ao que tudo indica, expressões como “impessoalidade” não passam de verbetes acadêmicos, indigestos no mundo dos fatos. Caminhamos em direção a uma ditadura “branca”, sutil, mas não menos cruel e danosa do que aquela que nos atormentou ao longo de duas décadas. É sôfrega nossa democracia e combalida, apesar de teimosa, nossa esperança. O futuro incerto aponta em direção às brumas, restando a desconfiança de que marchamos em direção ao precipício. 

domingo, 11 de setembro de 2016

À MINGUA

À MINGUA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Morrer à mingua. Conhecem a expressão? Certamente. O problema é vivenciá-la, levá-la à literalidade. Seria, quem sabe, à letalidade? É, o governo de Cachoeirinha, assim como do estado do Rio Grande do Sul, tem conseguido dar vida às mais fúnebres expressões. Antes, cidade “dormitório”. Hoje, cidade “pesadelo”. As aves que por aqui gorjeiam são as da pior espécie. Sujam as ruas com suas fezes mal cheirosas, robustecendo o chorume da perfídia e da vileza. O arrulho que soltam por entre os bicos lembram uma espécie de insuportável mantra. Os mesmos bicos que não cansam de arrancar enormes nacos da pouca carne que ainda resta do mísero contribuinte. Enquanto sobre a tribuna da Casa do Povo pavoneiam-se algumas aves de rapina com aqueles discursos mal elaborados, a denunciarem a fragilidade intelectual das mesmas, paira sobre a cidade uma profunda escassez ética. Daí, talvez, tantas diárias gastas em viagens obscuras e destituídas do mínimo pudor quanto ao dinheiro público. Qual a intenção? Apagar as digitais e pegadas de práticas indecorosas? Por que tantos cursos, seminários e simpósios? A ignorância não as abandona. Mal conseguem articular meia dúzia de palavras. Por que tantas idas e vindas à capital federal? Identificam-se, quiçá, com o ambiente daquela que é o maior símbolo de nossa débil e fracassada República. Cachoeirinha está jogada às moscas. Homicídios, latrocínios, roubos, estupros... Nada vale uma vida por aqui. Buracos nas ruas confundem-se com os dos cachimbos do crack. O tráfico se alastra, multiplicando o exército de zumbis que assombra a cidade e põe por terra qualquer faísca de esperança. A sujeira das ruas entope não apenas as bocas-de-lobo, mas, ao que parece, também as veias e artérias que alimentam a (in)consciência de quem governa. Os já caóticos serviços públicos conseguem piorar dia após dia. Crianças, mulheres e idosos veem suas dores sendo agravadas pelo nefasto descaso do Poder Público em relação à saúde. Sobram filas, faltam médicos, leitos e medicamentos. Sobra incompetência, falta humanidade. Alunos aprendem cada vez menos. Entra ano, sai ano, e nossos pupilos seguem à margem do conhecimento minimamente razoável. Quanto potencial desperdiçado em meio à tamanha mediocridade. Enquanto recursos públicos esvaem pelo ralo – em parte, para alimentar os “cortesãos” a mamarem nas tetas do Poder –, servidores públicos concursados minguam. Homens e mulheres que, apesar de terem ingressado pela “porta da frente”, seguem alijados dos “manjares” servidos à mesa. Sobram-lhes menos do que as migalhas. Parcelam-lhes o salário e esfacelam sua dignidade. Não bastasse, exigem deles abnegação e estoica resignação, numa brutal inversão de valores, onde a vítima torna-se algoz. É duvidar, a dívida social recai sobre o colo dos municipários, como se estes fossem os responsáveis pelos desmandos da cidade. Cachoeirinha precisa reagir, expurgar os larápios de toda ordem e de todas as espécies, inclusive aqueles que têm na lábia sua principal arma de manutenção do poder e dos privilégios. Sirva teu voto na urna, como fogo na pira, para queimar os cadáveres que teimam em levantar a cada pleito, infestando nossa cidade com seu cheiro nauseabundo. Morram eles à mingua, e não os valentes servidores que, como titãs, garantem alguma dignidade à Cachoeirinha. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

INDEPENDÊNCIA, PARA QUEM?


INDEPENDÊNCIA, PARA QUEM?
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Cento e noventa e quatro anos! Sonho duradouro este, não é mesmo? Quase dois séculos de história, desde a dita “independência” e continuamos como que a sonhar. A ideia de um país verdadeiramente livre, justo e solidário segue ainda no plano do discurso, vez por outra inflamado pela disputa eleitoral. A prosperidade até que deu as caras por aqui, mas apenas para uma minoria. Enquanto isso, a maioria de nossa gente – assim como os escravos de outrora – segue à margem da boa qualidade de vida. Nossa pátria tem sido “gentil” apenas para alguns poucos. Educação, saúde, segurança, assim como a renda, têm faltado à maioria. A grandeza do território e a pujança do subsolo contrastam com a esperança esfarrapada de nosso povo. Enormes clareiras, impulsionadas pela ganância, vêm acabando com o verde da bandeira, enquanto o amarelo tem sido surrupiado pela corrupção endêmica que contamina todas as esferas do Poder. O azul, há horas sombreado pelas brumas do egoísmo, ostenta não mais estrelas, mas pontas de baseados embebidas no cheiro nauseante saído de cachimbos tomados de pedra que levam à morte. O que antes era branco, agora é luto. Ouve-se, por toda parte, gritos de socorro. Mães desesperadas veem seus rebentos serem tragados pelo tráfico e por toda sorte de violência. Para elas, filhos. Para o Estado, números. Para elas, a tristeza e saudade eternas. Para o Estado, estatísticas. O que vale a vida por estas terras? Um par de tênis, um boné, um celular, um carro ou, quem sabe, um punhado de reais? Como bastardos, não temos sido reconhecidos por este país. A Constituição, feito letra morta, pouco mais serve do que carne putrefata aos vermes e abutres vestidos em suas togas a pousarem em tribunais asseados e astronomicamente distantes da realidade de quem os sustenta. É, o tempo passou e a real independência não veio. Por que então comemorar? Há razões para fazê-lo? Sim e não são poucas. Muitos são os que ainda teimam em crer no amanhã. Mais do que “crer”, levantam todo dia dispostos a “agir”, transformando mera intenção em ação. Estudantes, professores, serventes, porteiros, operários, empresários, médicos, advogados, servidores públicos... Empregados, patrões, desempregados, aposentados, pensionistas... Letrados, analfabetos, atletas, enfermos... Enfim, um universo de crianças, jovens, homens e mulheres que teimam em fazer “seu melhor”. Não titubeiam em optar pelo caminho da ética, da alteridade e da resiliência, esta jamais confundida com subserviência. Amigos que são da verdade e da justiça, enjeitam o dinheiro fácil e desonesto. Trilham o caminho da (auto)disciplina e do interesse coletivo, sem perder de vista o respeito às diferenças, ainda que incômodas. Não menor do que o Brasil, é o senso de justiça que brota em meio à indiferença e desesperança. No interior das casas, escolas, fábricas, hospitais, quarteis, igrejas e canteiros de obra pulsa uma esperança propositiva, irrequieta, explosiva, capaz de subverter qualquer status quo, ainda que com aparência atávica. Ora, que a fajuta independência registrada nos livros didáticos possa dar lugar à verdadeira, a saber, uma independência construída no dia-a-dia, nas relações de poder estabelecidas entre pais e filhos, homens e mulheres, governantes e governados, professores e educandos. País independente é aquele que prima pelo respeito à dignidade da pessoa humana, pela proteção e valorização da vida, pela educação fundada na qualidade, pela aplicação impessoal da lei, pela garantia de oportunidades iguais a todos, pela manutenção da ordem respaldada na soberania popular e pela capacidade de manter acesa a tão necessária esperança. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ROSAS, AINDA QUE COM ESPINHOS

ROSAS, AINDA QUE COM ESPINHOS...
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Há muito, nossa cidade sente falta do frescor das rosas. Estas, sufocadas pela insensibilidade fria do concreto e do asfalto, parecem ter sucumbido. Contudo, feito a esperança, ainda que tênue, o perfume das rosas resiste à maldade humana e teimosamente borrifa o ar com seu inigualável cheiro. Mesmo o mais forte odor do chorume, resultante do  engodo e da falta de ética, se mostra incapaz de liquidar, por completo, a simples – mas poderosa – fragrância das rosas. Insuperáveis na capacidade de encantarem, não são poucos os que tentam criar artifícios com o vão intuito de imitá-las. Imbecis. Não sabem eles que a beleza das rosas reside na simplicidade? Esta não tem preço. Rosas são belas não por serem caras, mas por serem tão-somente rosas. Ao contrário dos vermes camaleônicos que mudam de tez partidária conforme a direção do vento e de acordo com os interesses espúrios e inconfessáveis, consubstanciados em projetos de poder, as rosas permanecem firmes e resolutas. Esperam e querem ser aceitas como são: rosas. Os espinhos são tidos por elas não como empecilho ou vergonha, mas como virtude. Através deles, as rosas falam e sentem-se vivas. Como porta-vozes, os espinhos nos fazem lembrar que somos homens, portanto mortais. Daí, quem sabe, serem as rosas mal quistas pelos ditadores e por aqueles que se veem como eternos. Impérios são desnudos ante o poder avassalador dos espinhos. Pode alguém resistir à imperiosa verdade revelada pelas rosas? Cachoeirinha precisa mais de rosas. As ruas escuras e tomadas pelo medo, enlameadas pelas drogas que entorpecem e transformam gente em trapo, gritam por socorro. Indigentes, prostitutas, trabalhadores e toda sorte de gente esquecida pela “mãe gentil”, feito gado no abatedouro, lutam contra um destino aparentemente selado. O sorriso forçado e o impecável traje do candidato estampado na foto ao fundo só faz esgaçar o vergonhoso fosso entre governantes e governados. A quem pertence a cidade? Assim como as rosas, homens e mulheres de bem foram perdendo espaço para homicidas, estupradores, estelionatários, corruptos, traficantes e falsos políticos. Falsos porque fazem da política ferramenta para enriquecimento próprio. Sevem-se do eleitor e locupletam-se, fazendo do Estado meio para obtenção de vantagens sórdidas e mesquinhas. Tamanho egocentrismo e ganância mal cabem no interior do terno alinhado. Brincam e zombam da lei, sob o olhar embasbacado de um Judiciário pífio. Assim como as rosas, homens e mulheres de bem existem não para serem ardilosamente manipulados. Cachoeirinha precisa mais de rosas. Contagiem a cidade com sua beleza! Jamais seja a delicadeza das rosas confundida com subserviência. Rosas são pétalas, mas também espinhos! Afagam, mas também espetam! Fazem-se presentes entre apaixonados e debutantes, mas também entre seguidores do féretro. Aparecem no altar, mas também sobre a lápide. Invadam as rosas os espaços públicos! Ocupem a Câmara e demais repartições públicas! Espalhem seu bálsamo sobre a política da cidade, dando-lhe real significado e fazendo ressurgir a necessária e indispensável esperança. Cachoeirinha precisa mais de rosas!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

E.I


E.I
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                As iniciais acima trazem à lembrança o Estado Islâmico, mas também o Estado Irresponsável, o Estado Inconsequente, o Estado Insano... O que têm eles em comum? Tudo! Inegável é a relação, por exemplo, entre o avanço das ideias do Estado Islâmico e a miséria e vulnerabilidade da população. A omissão do Estado e a precariedade dos serviços públicos são como fermento que leveda a massa da revolta e indignação daqueles que diuturnamente são vomitados para longe do bem-estar social. Quantas vidas foram ceifadas, ao redor do mundo, pelo Estado Islâmico nos últimos doze meses? Quantas vidas, no Brasil, foram tiradas, em igual período? Alguma dúvida sobre onde reside, de fato, o maior perigo? A violência urbana neste país tem gerado consequências infinitamente mais funestas do que o famigerado grupo terrorista. Computemos, então, as vítimas do falido sistema de saúde e da carnificina do trânsito brasileiro e veremos que o Estado Islâmico mais parece brincadeira de criança. Qual o verdadeiro alcance do discurso odioso do Estado Islâmico para nós brasileiros? Será maior do que o histórico engodo travestido em promessas de nossas campanhas eleitorais? Quem mais mata, ameaça, oprime e aterroriza em nossas terras? Quem mais alicia, mente, suborna e entorpece nossa gente? Será o Estado Islâmico ou “nosso” (!?) Estado? Quem tem por triste hábito extorquir o contribuinte por meio de uma insuportável carga tributária, sem a devida contraprestação? Será o Estado Islâmico? Quem tem fechado os olhos à atávica miséria de nosso povo? Quem tem assistido e garantido a manutenção de privilégios corporativos de um grupo de togados e engravatados, sob o argumento esfarrapado da “independência e autonomia dos Poderes”, enquanto a maioria de nosso povo segue entregue às moscas? Será o Estado Islâmico? Quem alimenta a impunidade por meio de leis falhas e um sistema prisional que mais faz lembrar as masmorras medievais? Quem alija nossas crianças e jovens de uma educação de qualidade? Quem faz vistas grossas à corrupção endêmica há muito enraizada nas estruturas do poder? Será o Estado Islâmico? Quem confunde o público e o privado? Quem coloca o interesse individual espúrio à frente do interesse coletivo? Quem aniquila o direito e esperança de um povo? Quem surrupia dinheiro público ou frauda licitações? Quem faz “parcerias” com o crime organizado? Será o Estado Islâmico? Quem transforma o ente público em cabide de empregos, tomado de CCs que, em regra, pouco mais fazem do que empunhar bandeirinhas em período de campanha? Quem transforma repartições públicas em ilhas regadas a leite e mel, enquanto quem paga a conta vegeta na fome e desesperança? Será o Estado Islâmico? Quem fiscaliza as Agências Reguladoras que, salvo exceções, não passam de redutos de apadrinhados? Quem cria e mantém o profundo fosso que separa as poucas aposentadorias rechonchudas daquelas que são incapazes de garantirem a subsistência mínima de milhões de velhinhos? Quem mantém e fiscaliza as polícias que, muito comumente, ultrapassam o tênue limite do abuso de poder ou se deixam levar pelo mundo do crime? Será o Estado Islâmico? Por que então, toda preocupação com este último? Estamos tentando provar o “quê” e para “quem”? Valem mais os olhos do “mundo” do que os de nosso povo? Enquanto o aparato policial se debruça sobre criadores de galinhas do interior do Rio Grande do Sul, as raposas seguem soltas. Enquanto o discurso oficial se volta contra a etérea ameaça jihadista, nosso país segue entregue à triste sorte. Até quando? O terrorismo internacional precisa ser tratado com cuidado e responsabilidade, mas, não tenho dúvidas, nem de perto é nosso maior problema!

sábado, 26 de março de 2016

TERNEIRO MAMÃO


TERNEIRO MAMÃO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                No centro da atual e, ao que parece, interminável crise política que o país atravessa, o PMDB pousa como uma espécie de fiel da balança. Logo ele, um partido que – como nenhum outro – sempre esteve de braços dados com o Poder. Feito terneiro mamão, o Partido segue mamando nas tetas da República, dançando conforme a música. Amorfo ideologicamente, se prostitui em troca dos tão cobiçados “espaços” junto a ministérios, secretarias e autarquias. Não titubeia em mudar de cor, indo do vermelho marxista ao preto da suástica totalitária. Quiçá, uma técnica camaleônica de sobrevivência, apesar de vil e pouco confiável. Assim é que, por exemplo, o Partido atravessou o período da Ditadura, assumindo o papel de oposição “água-com-açúcar”, consentida (cooptada?) e, por isso, aceitável em tempos pretéritos. Entra governo e sai governo, lá está ele, o PMDB. Este está para o Brasil, assim como os ratos para o navio a pique ou como as baratas para o mundo assolado pela guerra. O PMDB tem se revelado um partido maquiavelicamente palaciano, comungando das orgias – pagas com dinheiro público! –, porém à espreita, sempre pronto a apear ante à fumaça que precede as eventuais mudanças de cetro. Trata-se de um Partido paradoxal: por um lado, obeso e robusto, espalhando seus tentáculos por incontáveis rincões deste país. Por outro, pífio e insosso, destituído de personalidade própria. Um Partido que pauta seu discurso na tênue ideia do “politicamente correto”, mas que, na prática, tem entre seus maiores “caciques” grandes vultos da pérfida e asquerosa história política deste país. Jamais ousou cortar na própria carne. Optou pelo (des)caminho da manutenção de privilégios, confusão entre público e privado, bem como pelas práticas eleitorais espúrias, onde prevalece o poder econômico a contrastar com a atávica fome que assola nosso povo. Como víbora, o PMDB troca de pele. Por vezes, ainda, assume ares de cordeiro, ainda que a catinga denuncie a raposa que ali se esconde. É este o PMDB que temos. É este o PMDB que ameaça romper com o governo. É este o PMDB que vem se aproximando dos que defendem o impeachment. É este o PMDB que, uma vez consumado o sepultamento deste (des)governo sórdido, não vê a hora de assumir o trono. Será a crise ética apenas do PT? Ao que se vê, soa evidente que não! Diz respeito a todas (ou quase todas) as agremiações partidárias, independentemente do matiz ideológico. Serão os partidos criações diabólicas ou, ao contrário, refletem a natureza humana? A bagunça político-partidária do Brasil é, sem dúvida, produto de nossa própria miséria no que tange à ética e aos valores. Estes diuturnamente são vilipendiados, “negociados”, negligenciados... Esperamos o quê em troca? Partidos confiáveis pressupõem filiados confiáveis. Filiados éticos pressupõem cidadãos éticos. Quem são os “políticos”, senão nós mesmos? Eleitos e eleitores fazem parte de uma mesma moeda, portanto indissociáveis, obrigatoriamente cúmplices e solidários. Mal ou bem, o sistema partidário-representativo ainda é o melhor caminho para perfectibilização da democracia. Assim, os partidos políticos precisam, neste país, passar por uma profunda reflexão propositiva, depurando seus quadros, zelando por condutas probas, cumprindo com suas promessas de campanha, afastando-se de qualquer espécie de conluio (travestido, às vezes, em “governabilidade”...), clareando e tornando factíveis suas teses. Sirva a presente crise política como pira expiatória para repensarmos NOSSA conduta, de modo a termos não apenas um PMDB, mas também um PT, DEM, PSB, PCB, PSDB ... melhores e em consonância com a busca do verdadeiro desenvolvimento econômico e social de nossa terra.




quarta-feira, 30 de setembro de 2015

MERETRÍCIO PARTIDÁRIO


MERETRÍCIO PARTIDÁRIO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Já, de antemão, peço escusas às “profissionais do sexo” pela comparação, mas Brasília há muito se tornou num enorme e malcheiroso bordel, onde a prostituição corre solta. Não a do tipo clássico, onde o sexo – quase sempre mal pago – é a principal mercadoria. O prostíbulo encravado no Planalto Central é o da pior e mais vergonhosa espécie, onde homens e mulheres vendem, alugam e permutam a própria consciência. Fazem “ponto” nos corredores e gabinetes, sem nenhuma parcimônia ou vestígio de decência. Enfiados em seus ternos finos, modelitos Versace e Prada ou togas negras, corrompem e se deixam corromper, num misto de escárnio e descaso com o populacho. Apesar dos perfumes caros, não conseguem disfarçar o cheiro de murrinha resultante da propina, do dinheiro fácil e dos incontáveis cadáveres que, teimosa e incessantemente, cobram a trágica morte nascida da violência urbana, da falta de leitos hospitalares, do vergonhoso transporte público, das estradas mal conservadas, das sentenças mal proferidas, da fome e da falta de esperança. Cheiram a sangue coagulado de inocentes: crianças, jovens, idosos, pais e mães de família. Ainda assim, não são poucos os que topam um “programa” com tamanhas aberrações paridas pelo arremedo de República. Lobistas, banqueiros, empreiteiros, fazendeiros, empresários, traficantes... Apesar de “rapidinha”, a relação traz profundas e imensuráveis consequências para quem mantém e sustenta o bordel: o contribuinte. Os recursos que escoam pelas pernas dos “gigolôs” e “marafonas” de Brasília, mal cabendo em suas cuecas e calcinhas, são os mesmos que faltam à educação, à moradia popular, à reforma agrária e aos mais diversos programas sociais. Há muito, os partidos políticos no Brasil mais fazem lembrar as vitrines de Amsterdã, onde as prostitutas expõem seus “dotes” aos transeuntes. Por aqui, não são poucos os “representantes do povo” que se oferecem a quem estiver disposto a gastar algumas patacas. Trocam de “vitrine” como quem troca de roupa, sem nenhum escrúpulo, até porque – no fundo – todas aquelas siglas se parecem. Um emaranhado de letrinhas, sem sentido, sem conteúdo, sem ética. Apenas letrinhas, confusas e mesquinhas. Quase toda legenda tem seu preço, verdadeiro balcão de negócios. Parlamentares trocam de “parceiros” sem ruborizarem. Pulam de galho em galho, conforme a direção do cheiro familiar das cédulas maculadas pela perfídia e odiosa escassez de espírito público. Lambuzam os beiços com o sêmen do inferno e tergiversam, dando as costas à maioria dos eleitores. O bordel, ainda quando em recesso, exala o nauseante cheiro do coito ímprobo e indigno, apesar do esforço do séquito formado de bajuladores comissionados que vivem de mamar nas tetas do Estado. Trabalham pouco ou quase nada os “rufiões” e “meretrizes” da capital federal. Pudera, cobram caro pela influência que exercem nas Comissões e Plenárias. Quando na tribuna, ante a forma fálica do microfone, usam do discurso e do poder do voto para a defesa, não raras vezes, de interesses espúrios e abjetos. Lançam mão da caneta para a elaboração de leis confusas e, muito comumente, inócuas, inflacionando, ainda mais, o dito ordenamento jurídico que onera quem, de fato, produz. Aceleram ou retardam Projetos de Lei conforme suas conveniências, ainda que em detrimento do interesse público. Prostituem-se em nome da suposta governabilidade ou, quando se sentem traídos, assumem ares de oposição, contudo sem deixar de lado os mesmos trejeitos e vícios de quem condenam. Rameira por rameira, há de se preferir as do tipo Madame de Pompadour, ao menos mais original e interessante do que as que gorjeiam por aqui.



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

SERVIDORES, NÃO SUBSERVIENTES !


SERVIDORES, NÃO SUBSERVIENTES!
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Vergonha, humilhação, tristeza, desrespeito... A lista de expressões associadas à situação dos servidores públicos do Executivo, no estado do Rio Grande do Sul, parece interminável. Verdadeira “crônica da morte anunciada”, sem, contudo, o romantismo e elegância da Obra original. A crise econômica – talvez falimentar –, associada à crise política, é inegável e compreensível (não, necessariamente, justificável...), precariedade esta intimamente associada, também, ao contexto econômico e político mundial e nacional. Porém, o que soa como inaceitável é jogar sobre o colo dos servidores os efeitos colaterais da referida crise. As “saídas” encontradas pelo governo gaúcho são não apenas patéticas, mas revelam um misto de incompetência e insensibilidade. A má gestão, a confusão entre público e privado, a transformação do Estado em balcão de negócios, o uso da máquina pública para alimentar interesses espúrios individuais e/ou de grupos e tantos outros conhecidos vícios há muito entranhados nas estruturas do Poder são, por certo, antigos, maculando a história deste arremedo de República. Por outro lado, deixar de enfrentar – sob a desculpa de um passado inglório – os problemas e demandas da sociedade hodierna, buscando respostas efetivas, concretas e duradouras, representa um ato de covardia. Assim, o que se espera de um gestor é sim capacidade para superação das intempéries surgidas ao longo do caminho. Espera-se dele iniciativa, honestidade, equilíbrio, ética, firmeza, isonomia, inteligência... Espera-se dele planejamento, trabalho árduo, coerência, compromisso com a verdade e cumprimento das promessas firmadas em período de campanha. Espera-se dele sensatez, hombridade, habilidade e destreza política... Espera-se dele espírito público e respeito os nobres valores que norteiam qualquer Constituição democrática. Falta ao Rio Grande do Sul um gestor à altura de nossas necessidades. Falta aos gaúchos um verdadeiro Estado democrático de Direito. A Magna Carta tem sido diuturnamente rasgada por aqueles que, sob juramento, prometeram respeitá-la. Executivo, Legislativo e Judiciário, em todas as esferas e níveis, ferem os princípios mais elementares da democracia, fazendo destas terras verdadeira pocilga onde, em meio à lama da corrupção e da defesa de privilégios mesquinhos, se locupletam em detrimento do interesse coletivo. Somos o país das desigualdades, o estado das políticas públicas fracassadas e capengas, o município da politicagem lesiva e perniciosa. Por aqui, o velho e conhecido ditado onde se diz que a “corda arrebenta no lado mais fraco” é reeditado a cada fração de segundos. Faltou dinheiro para “fechar as contas” do governo? Fácil, parcela os salários dos servidores, aumenta a já extorsiva carga tributária e reduz as já parcas verbas da educação, saúde e segurança, por exemplo. Macabra e perversa matemática, cujo resultado todos conhecemos: recessão, desemprego, falta de leitos nos hospitais, escolas sucateadas, superlotação dos presídios, precária infraestrutura e tantas outras pragas que nos envergonham e adoecem. Como servidores, urge sairmos em defesa do Plano de Carreira – desde que justo e sensato, sem devaneios corporativistas que lesam o interesse público e afrontam o contribuinte –, bem como lutarmos pela qualidade do serviço prestado à população. Urge sairmos em defesa do pagamento em dia, direito este inalienável e indispensável à sobrevivência dos servidores e suas famílias. Urge mostrarmos nossa força ante o descaso do Poder Público frente às necessidades de nossa gente. Urge apontarmos as incoerências de um governo que prega “austeridade”, mas que perpetua práticas de apadrinhamento político-partidário. Urge mobilizarmos a população (trabalhadores, desempregados, estudantes, donas de casa) em defesa dos interesses verdadeiramente nacionais, regionais e municipais. Urge resistirmos às investidas e afrontas morais, ideológicas, belicistas e midiáticas que buscam denegrir a imagem do servidor. Vamos à luta!