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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

ESCOLA DEMOCRÁTICA E PARTICIPATIVA


ESCOLA DEMOCRÁTICA E PARTICIPATIVA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


Teoria e prática. Entre elas, uma distância oceânica, tomada de profundas fossas onde são comuns as contradições, ranços, preconceitos, corporativismos, vícios, acomodações, arrogâncias e narcisismos egocêntricos, ainda que enrustidos. A legislação brasileira é pródiga na previsão e exigência de uma escola pública “democrática” e participativa”. O espírito “cidadão” trazido pela Carta promulgada em1988 foi e vem sendo ratificado por inúmeros outros diplomas legais, sejam federais, estaduais ou municipais. Cachoeirinha, por exemplo, conta com as Leis Municipais nºs 2263/2004 (versa sobre os Conselhos Escolares), 2265/2004 (eleição de Diretores) e 2384/2005 (Sistema Municipal de Ensino), todas elas apontando na mesma direção, a saber o da “descentralização”, da “participação” e da “democratização”. Portanto, a previsão legal é farta no que tange à possibilidade de fazer da escola pública municipal (EMEIs e EMEFs) um espaço verdadeiramente “democrático e participativo”. Contudo, em que pese a legislação favorável e as boas intenções consubstanciadas, por exemplo, no Plano Municipal de Educação, infelizmente, o que se vê é uma enorme distância entre o pretendido e o realmente alcançado. Os resultados obtidos, tanto do ponto de vista da efetiva participação da comunidade escolar, quanto – e principalmente – do ponto de vista da qualidade do ensino, são pífios, estando muito aquém do razoável e aceitável. A quem cabe a “culpa” por tamanho fracasso? Carência de recursos humanos e financeiros? Gestão equivocada? Despreparo por parte dos servidores? Desvalorização salarial e profissional? Apatia e ausência da família? Descomprometimento do corpo discente? Soa como inócuo terceirizar a “culpa”. O grande desafio está em, sim, buscar responsabilidades (gestor, professor, educando, família, sindicato, etc.), mas sobretudo buscar identificar os problemas, criar estratégias viáveis para superá-los e, principalmente, colocá-las em prática. Urge superarmos o plano do discurso e dos chavões. Uma escola “democrática e participativa” não é algo dado, mas construído. Pressupõe desacomodação, trabalho, doação, embate propositivo e abertura para o diálogo. Corporativismos doentios, intransigências pessoais e/ou de grupos, benesses e privilégios de alguns poucos precisam dar lugar à vontade coletiva (da maioria). A escola não é do Diretor, do professor, do pai ou do aluno. A escola é um espaço público, portanto pertencente a todos os segmentos da comunidade escolar, de forma equitativa. Os fóruns e Conselhos de participação, em especial o Conselho Escolar (“órgão máximo em nível de escola”, conforme o Art. 2º da Lei Municipal nº 2263/2004), precisam existir não apenas sob o ponto de vista formal, mas “de fato”. Tarefa árdua, por certo, pois requer superar uma longa e poderosa tradição patriarcal e clientelista presente nas estruturas e relações de poder, inclusive naqueles espaços, como a escola, que deveriam propugnar pela transformação social. Finalmente, vale lembrar, “democracia” e “participação” não são sinônimo de “confusão” de papéis. A “César o que é de César”… Cada ator a orbitar em torno da escola tem um papel a cumprir, com seus respectivos direitos e obrigações, muitos deles previstos na própria legislação. Uma escola “democrática e participativa” é aquela em que não apenas reconhece tais idiossincrasias, mas as respeita e exige as respostas esperadas de cada membro da comunidade escolar. Daí a importância de Propostas Político-Pedagógicas e Regimentos claras, conhecidas e factíveis, capazes de servirem de norte às ações pedagógicas e administrativas junto às instituições de ensino.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À CORRUPÇÃO


DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À CORRUPÇÃO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


O dia 09 de dezembro foi escolhido pela Organização das Nações Unidas como Dia Internacional de Combate à Corrupção. Iniciativa esta interessante e seguida por muitos países, estados e municípios. Cachoeirinha, por exemplo, por meio da Lei Municipal nº 4574, de 2019, decidiu por fazer desse Dia um momento de reflexão voltada à conscientização dos munícipes sobre a importância do controle social e da necessidade de ampliação dos instrumentos destinados ao combate à impunidade. O que é, afinal, “corrupção”? Inúmeras são as formas de defini-la, tamanha sua variedade e complexidade. Dentre os conceitos interessantes acerca do termo, destaco aqueles que associam a corrupção à “deterioração”, “putrefação”, “modificação ou adulteração das características originais de algo”. Não por acaso, a corrupção é fétida, exala o mau cheiro da miséria criada e aprofundada por ela. Mesmo a aparente limpeza dos corredores e gabinetes de palácios, prefeituras, assembleias, câmaras e tribunais é incapaz de neutralizar o azedume cadavérico que brota das práticas espúrias que, histórica e diuturnamente, maculam as relações de poder. A corrupção, sabemos, é um câncer em avançado processo de metástase, que corrói o tecido social e lança por terra qualquer esperança de dias melhores. Mostra-se presente e estruturada nas organizações governamentais, intergovernamentais (ONU, por exemplo), esportivas (FIFA, CBF, etc.), em governos dos mais distintos matizes ideológicos (liberais, neoliberais, socialistas, sociais-democratas, “direita”, “centro”, “esquerda”…), partidos políticos, sindicatos patronais e de trabalhadores, Poderes do Estado (Legislativo, Executivo, Judiciário), órgãos de controladoria (Tribunais de Contas, corregedorias), agências ditas “reguladoras”, conselhos de toda ordem, empresas públicas e privadas… A lista é interminável, como o são as formas em que a corrupção se manifesta. Feito camaleão, essa praga faz uso de um diabólico mimetismo para se reforçar e perpetuar em nosso meio. Coopta pessoas e as corrompe sem nenhum pudor e não o conseguindo, as aniquila. Simples assim! Faz uso dos aparelhos do Estado, impudica e descaradamente, sob o manto da flagrante omissão – quando não o conluio – daqueles que, por dever ético e/ou legal, deveriam zelar pelos princípios republicanos. A corrupção, por certo, é a mãe dos maiores e mais cruéis males da humanidade. Ela mata, oprime, humilha, aniquila sonhos, destrói famílias, apodrece relações. Ao beneficiar alguns poucos, prejudica a imensa maioria. O ouro que reveste a pocilga dos corruptos, muitos deles togados e engravatados, contrasta com a desesperança das verdadeiras joias (muitas delas iletradas, calejadas, desdentadas) a madrugarem nas filas de hospitais, a chorarem sobre o corpo do ente querido vítima da insegurança e incompetência públicas, a vegetarem em meio a um ensino pífio, a disputarem espaço num transporte sem o mínimo de conforto, a buscarem o pão necessário à subsistência da família. A corrupção se retroalimenta por meio, também, de práticas que por vezes soam pequenas. Manifesta-se nas relações familiares, de amigos, de trabalho, de consumo, na escola… Como identificá-la? Como combatê-la? Inexiste receita, contudo o caminho passa necessária e obrigatoriamente pelo “meu”, pelo “teu”, pelo “nosso” posicionamento ético. Este precisa ser categórico, não tergiversar, ser inegociável ainda que prejudicial aos interesses particulares. Somente assim construiremos um país melhor, um estado menos injusto e uma cidade verdadeiramente para todos!

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O CIRCO

O CIRCO
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




            Noutros tempos, era lugar de diversão, de indescritível alegria, especialmente por parte dos de tenra idade. Ali, malabaristas disputavam espaço com animais e seus adestradores, palhaços e equilibristas. Bailarinas, enfiadas em suas roupas justas, a levitar com suas sapatilhas aladas. Destoando dos risos, apenas a inconfundível voz dos vendedores das maçãs do amor, algodão doce, pipoca e refrigerante. Sob a luz do picadeiro, os saltimbancos com suas brincadeiras a transformarem aquele momento em algo impar e inesquecível. Tempos bons em que o circo era certeza de boas risadas. Querem hoje, e não são poucos, vê-lo pegar fogo. Imprudente e irresponsavelmente, esquecem que sob suas lonas jaz, sim, um que outro desafeto, mas, também, incontáveis amigos, filhos, irmãos e companheiros. Parecem esquecer que o fogo é “democrático”, a todos queima indistintamente, pretos e brancos, cristãos e ateus, letrados e analfabetos, liberais e socialistas. Alimentadas pelo ódio e desprezo, as chamas vão ceifando vidas, evaporando a esperança e transformando em cinzas as relações. Não demora, pouco restará senão um vale de ossos secos, onde a conversa franca, o diálogo humanizatório e a companhia prazerosa serão coisas do passado. Ainda ontem, quando todos se sentiam pertencentes ao circo, o simples monóculo era suficiente para vislumbrar o mundo. Hoje, os tempos são outros. As lentes, por mais numerosas e potentes que sejam, vão, a cada dia, ofuscando nossa visão. Já não vemos e nem tampouco reconhecemos o outro. Não vemos a nós mesmos e nem nos reconhecemos. Involuímos. Quiçá seja a fumaça do circo, asfixiante, espessa, nauseante. Tamanha toxidade contagia, produzindo cenas de horror, um inferno dantesco, sombrio, desanimador. Escasseiam-se os pontos de fuga e multiplicam-se os gritos de socorro. Por todo lado corpos que, como copos vazios, por mais coloridos que sejam, há muito perderam o próprio sentido. Pobres recipientes, secos e sequiosos, já nada oferecem e nem tampouco recebem. Não tarda, o calor do fogo deles arrancará a frágil e fugaz beleza. Pura vaidade.  Enquanto arde o circo, as estruturas, até então tidas por sólidas, vão se desmanchando, sepultando valores, moral, leis, tradições… Na hora do aperto, um que outro -  tomado, quem sabe, por uma esquizofrenia momentânea derivada do caos – esboça teses de “direita” e de “esquerda”, enquanto segue cambaleante, sem norte, tropeçando nos corpos sem vida. As cortinas, que antes se abriam a marcarem os atos da peça, já não existem. Consumidas pelo fogo, não passam de fiapos incandescentes a denunciarem o ocaso da vida. O que antes era um circo vai se transformando numa grande pira, alimentada pelas páginas de Smith e de Marx, de Freire e de Carvalho, instigada por corpos de todos os tamanhos e idades, de todos os gêneros, de todas as crenças e ideologias. A fumaça escura vai formando uma triste coluna a alcançar o céu, exalando o fétido odor da vaidade, da intolerância, do egocentrismo e da indiferença. Saudade do velho circo, não daquele da política dos Césares, alienante e sarcástico, nem tampouco do espetáculo piegas e descompromissado com a sorte alheia, mas do circo das boas utopias, da convivência, da alegria, da confiança, do diálogo, da cumplicidade frente ao sentimento daqueles que acostumamos a chamar de “terceiros”, como se “primeiros” fôssemos. 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

PARA ALÉM DO "SHORTINHO"


PARA ALÉM DO SHORTINHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Não são poucos os que vivem sob a ditadura de infantes, filhos e filhas de pretensos reis que, muito comumente, preparam a prole para ser “herdeira” e não “sucessora”. Trata-se de uma geração mimada, dada à estupidez narcísica de olhar não mais além do que o limite do próprio umbigo. Uma geração que, na busca insana do prazer a qualquer preço (ainda que, quase sempre, efêmero...) entrega-se de corpo e alma às drogas, anabolizantes, álcool e inúmeros outras “bengalas” produzidas pelo consumismo doentio e desenfreado. Mais importa a aparência do que a essência, o ter do que o ser. Enquanto, por vezes, ecoam discursos sob uma roupagem ética, seguem indiferentes às agruras dos pobres mortais. Entorpecem a consciência com seus smartphones modernos, looks a peso de ouro e viagens à Disney. Passam longe das filas do SUS, desconhecem a masmorra em que se transformaram nossos presídios, nem, tampouco, sabem o que é a fome ou a miséria. Enquanto o inglês fluente contrasta com o vernáculo mal escrito, os príncipes e princesas dedilham nas redes sociais em busca de aceitação e fútil notoriedade. Amizades, eles as têm, contudo quase todas tomadas da típica frieza do mundo virtual. Parecem cegos e indiferentes ante à dura realidade da vida e, até por isso, buscam levantar bandeiras que preencham o enorme vazio existencial. Daí venha, talvez, o endeusamento do “eu”, relativizando a autoridade e negando os limites e as regras. Terreno fértil à formação de homens e mulheres individualistas, egoístas e avessos ao bem comum. Homens e mulheres que, apesar de avançada idade, se portam feito crianças. Seres mal resolvidos emocionalmente e presos a um eterno cordão umbilical. Dar as costas, irresponsavelmente, às convenções sociais – se justas, necessárias e oportunas – soa como algo perigoso. Atenta contra não apenas uma regra ou instituição, mas sim contra a própria noção de “autoridade”. Esta é imprescindível na formação de pessoas equilibradas, felizes e sadias. Indispensável na construção de uma sociedade verdadeiramente solidária, menos injusta e mais fraterna. Uma sociedade capaz de educar seus mancebos para os difíceis desafios do mundo moderno, livrando nossos guris e gurias das armadilhas impostas pela mercantilização do corpo e coisificação das relações. A escola – pública ou privada – tem indelével importância nessa empreitada. Precisa, com o apoio da comunidade, fazer valer suas convicções. É, indubitavelmente, um espaço privilegiado para a reflexão propositiva, esta capaz de superar o limite do discurso fácil, ainda que “politicamente correto”. Urge sairmos em defesa da escola, pois sob sua guarda está nosso bem mais precioso: nossos filhos!



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

MANIFESTO


MANIFESTO
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Para que serve o Estado, senão para garantir, com qualidade, a materialização dos princípios constitucionais, como saúde, educação e segurança? Para que serve o Estado, senão para garantir a paz social fundada na justiça e respeito à dignidade da pessoa humana? Para que serve o Estado, senão para retirar da esfera privada iniciativas violentas que, na busca de proteção, vingança ou satisfação de desejos mesquinhos, acabam por fazer sombra aos avanços civilizatórios? O Estado não é um fim em si mesmo. Existe, sobretudo, para “servir” aqueles que não apenas lhe sustentam, mas lhe dão sentido.

                Vivemos tempos de medo. As ruas e avenidas há muito vêm sendo manchadas de sangue. As praças viraram local “seguro”, não para as crianças, jovens e trabalhadores, mas para o consumo e tráfico de drogas. Como zumbis, hordas de pichadores, arruaceiros, viciados e criminosos de toda espécie infestam a cidade, fazendo dos espaços públicos e privados um verdadeiro inferno. O velho ditado “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” vem assumindo proporções cada vez mais trágicas e preocupantes. Inexiste local seguro ou a salvo da barbárie que vem ceifando vidas e enlutando lares. Enquanto os muros altos das residências evidenciam a sensação de insegurança, as frágeis grades dos presídios – que mais parecem masmorras medievais – escancaram a falência do ente público, este há muito motivo de escárnio e deboche. O avanço da criminalidade contrasta com a incapacidade do Estado em transformar o conhecido e surrado discurso em ações concretas capazes de estancarem o avanço do câncer da violência urbana que tem levado à metástase da teia social.

                Queremos, merecemos e exigimos dias melhores. Nossas mães não geraram filhos para serem precoce e violentamente arrancados desta vida. O sangue, inocentemente vertido, de cada criança, jovem ou adulto, clama por justiça. Não apenas façamos memória a cada filho, irmão, pai, mãe, amigo que perderam a vida em decorrência desta guerra urbana – alimentada pela omissão, incompetência, quando não pela íntima relação do Estado com o crime organizado –, mas transformemos nossa dor e indignação em ações concretas. As escolas que compõem a Paróquia Estudantil, através do presente documento manifestam a profunda preocupação, repúdio e indignação frente ao avanço da violência. A dor da família do Gabriel (Escola Estadual Júlio César Ribeiro de Souza, em Alvorada), covardemente assassinado, é, também, a nossa dor. O sofrimento do Henrique (Instituto de Educação São Francisco, em Porto Alegre) e de sua família é, também, o nosso sofrimento. Quantos mais perderão a vida? Quantos mais serão privados de curtirem a infância e a juventude? Quantos mais trocarão muitos anos de vida por uma pequena nota nas páginas policiais de um jornal qualquer? Quantas flores de debutantes darão lugar àquelas postas sobre a lápide fria como a morte?

                Enquanto o cidadão de bem definha e agoniza, o crime engorda e avança a passos largos. Atinge, indistintamente, a todos: brancos e negros, pobres e ricos, letrados e analfabetos, crianças e idosos, homens e mulheres... Entrar ou sair de casa é um risco. Ir à escola, ao trabalho, à padaria, ao posto de gasolina é um risco. Andar a pé, de carro ou de ônibus é um risco. Sair de dia ou à noite, sozinho ou em grupo é um risco. Ser abordado por alguém com farda ou sem ela, é um risco. Estamos a ponto de temer a própria sombra, não sem razão. Nossos direitos vêm sendo vilipendiados diuturnamente. Há muito, não enxergamos sequer a luz no final do túnel. Foi-nos subtraída.

                Abaixo, portanto, à impunidade! Abaixo ao discurso evasivo ou ao leque de promessas jamais cumpridas. Abaixo à frouxidão do Poder Público. Abaixo às decisões de magistrados que, em nome de uma lei – por vezes equivocadamente interpretada – dão salvo conduto a delinquentes de toda sorte. Abaixo à gestão assentada no amadorismo, na troca de favores e na defesa de interesses espúrios. Abaixo ao corporativismo de toda espécie que, ao olhar para o próprio umbigo, olvida o interesse verdadeiramente “público”. Abaixo à falta de investimentos nas áreas vitais, como a da segurança.

Queremos, através do presente Manifesto, marcar posição, iniciativa esta que, tenham certeza, não se limitará à formalidade deste documento. Sozinhos, mais fazemos lembrar uma ovelha ameaçada pela matilha, mas juntos somos fortes. Assumamos aqui o compromisso com o “outro”. Uma relação pautada na ética, no respeito, na empatia e na solidariedade. Exerçamos nossa cidadania com firmeza, não titubeando ante às falhas e vícios do Estado.


Ante o exposto, encaminhamos este Manifesto – em nome das escolas (e comunidades a elas associadas) da Paróquia Estudantilaos representantes de todos os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), ao Ministério Público, à imprensa e à Sociedade Civil Organizada, para EXIGIR, por parte do Poder Público, ações concretas e duradouras que garantam a segurança de nossa comunidade, conforme previsto na Constituição Federal. 

Leia também: http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/noticias_visualizar.php?noticia_id_=1574 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

ATIROU POR QUÊ?


ATIROU POR QUÊ?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Por que atirou? Muitas são as respostas e vãs tentativas de “justificar” o ato imbecil, violento e covarde que quase levou à morte de um querido aluno e ceifou a vida de seu amigo no último dia dezesseis de junho. Atirou porque a vítima reagiu. Atirou porque ela não reagiu. Atirou porque a vítima se negou a dar o que o agressor pedia. Atirou porque ela entregou o solicitado pelo bandido, mas este não ficou satisfeito. Atirou porque a vítima correu. Atirou porque ela permaneceu imóvel. Atirou porque... A verdade, contudo, quase sempre, é que atirou porque decidiu fazê-lo. Influenciado ou não pela droga, instigado ou não pelos parceiros do crime, desconfiado ou não de uma eventual reação da vítima, fruto ou não de uma sociedade injusta e desigual, resultado ou não de uma família desestruturada, a responsabilidade deve recair, primeiro, sobre o autor do infame delito, ainda que sob a perigosa roupagem da dita menoridade. Tem sido comum o Poder Público, através da Secretaria de Segurança ou da polícia, por exemplo, insistir na falácia de que o melhor caminho é a não reação, como se tal opção fosse salvaguardar a vítima das atrocidades do criminoso. Será por isso que o Estado não tem reagido? Será por isso que o Estado tem se mostrado omisso ou nada eficiente frente à absurda escalada da violência? Será por isso que entra governo e sai governo, a insegurança segue produzindo as metástases que têm levado a sociedade gaúcha à falência total dos serviços públicos, inclusive o da segurança? O Estado tem se mostrado refém da criminalidade, enlameado que está, por exemplo, na areia movediça da incompetência, da corrupção, da falta de planejamento e de investimentos. Um Estado que não tem, nem de perto, cumprido com suas obrigações constitucionais e, portanto, questionável e, talvez, desnecessário. A violência que enlutou a família do Gabriel e pôs em desespero os pais do Henrique é, portanto, responsabilidade também do Poder Público. O Estado, assim como o criminoso, precisa ser responsabilizado. O gestor que descumpre com seu papel, o servidor que “suja as mãos” e denigre a própria consciência, o juiz (que, apesar da toga, é servidor e não Deus...) que irresponsavelmente permite ao criminoso ganhar as ruas, todos eles devem e precisam ser responsabilizados. O descontrole da violência é consequência, sobretudo, da certeza da impunidade. O arcabouço jurídico há muito tem sido motivo de chacota e escárnio, tamanha a distância entre a previsão e o cumprimento do mesmo. Crimes não investigados, inquéritos mal conduzidos, sentenças equivocadas, penas não cumpridas... Virou rotina. Triste realidade que tem alimentado a indignação e a convicção de que a saída para estancar a criminalidade, ainda que em parte, não passa pelo modelo pífio de Estado que temos. A sociedade precisa reagir sim! Precisa fazer uso de todos os meios, ainda que coercitivos, para garantir um direito que lhe é natural e, portanto, anterior à existência do próprio Estado. As pessoas de bem, ainda maioria, precisam se organizar, transformando a indignação e lancinante dor em ações concretas capazes de subverterem as estruturas modorrentas de um Estado que tem abandonado às moscas a população que o sustenta e lhe dá sentido. O Estado existe para servir e não ser servido. Não é um fim em si mesmo e nem tampouco espaço para realização de projetos mesquinhos de poder ou de enriquecimento fácil. Basta de tanta violência. Não podemos seguir assistindo nossas crianças serem violentadas, filhas sendo estupradas, juventude sendo viciada, casas sendo assaltadas, veículos sendo roubados, vidas inocentes sendo tiradas... A letargia do Estado precisa ser rompida. Tiremos o sono do presidente, governador, prefeito, ministro, secretário, senador, deputado, vereador, juiz, promotor, delegado... Não sejam em vão as lágrimas das mães que enterram seus filhos ou que, na calada da noite, suplicam aos céus pelo rebento à beira da morte. 

Veja também:
http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=9728c6a2784ee154c3c9cc8ee10132a7 

sábado, 18 de abril de 2015

MALHANDO TRIGO NO LAGAR?


MALHANDO TRIGO NO LAGAR?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Lugar de malhar trigo era na eira, lugar amplo e arejado, para que as impurezas fossem lançadas para longe, ficando somente o que era bom. O lagar, por outro lado, constituía-se num lugar escuro, escondido e de acesso bastante limitado, onde a uva era pisada. Assim como Gideão, um dos “juízes” de Israel, muitos são os que escondem sua autoridade nos “lagares” da vida. Pais, mães, educadores e educadoras, por exemplo, demonstram medo de exercerem o papel de ascendência que deles se espera. Autoridade esta que, por óbvio, não se confunde com tirania ou autoritarismo. Como o personagem bíblico, muitos são os genitores e professores que, acuados e amedrontados, parecem duvidar do “chamado” ético que lhes diz respeito. A visão turva, coberta pela catarata de um falso conceito de “modernidade”, tem colocado em risco gerações inteiras, estas cada vez mais presas ao terreno movediço das drogas, do engodo, da leviandade, do desrespeito, da indisciplina, da preguiça e, muito comumente, da criminalidade. O temor ou inabilidade de malhar o trigo na eira, às claras, portanto, tem levado muitos a optarem pelo breu dos lagares escorregadios, onde o artifício do relativismo doentio busca justificar o injustificável. Assim, malcriação, mentira, furto, agressão física, ofensa moral, consumo de álcool e de entorpecentes são vistas e tratadas com leniência, como se naturais e aceitáveis fossem. Apoiados em algumas teorias “psicanalíticas” e “pedagógicas” insanas e irresponsáveis, acabam muitos pais e professores, por exemplo, fazendo vistas grossas ao problema. Delegam ao “tempo” a responsabilidade que lhes é inerente, o mesmo tempo que muito provavelmente irá mostrar, ainda que tardiamente, o quanto estavam errados. Ora, o tempo, por si só, não educa. Somente ações efetivas, posturas exemplares, modelos seguros e confiáveis, palavras firmes, cobranças permanentes e salutar cumplicidade com a sorte dos rebentos são capazes de educar. O amor exigente é que educa, ao contrário da condescendência cega. Assim como não basta o vento para separar o trigo de sua casca, soa como ingênuo lançar sobre o tempo a educação de nossas crianças e jovens. Malhar o trigo exige disposição, iniciativa, bem como trabalho duro e persistente. Educar, da mesma forma. A casca, assim como as dificuldades e tendências talvez “inatas” do ser humano, precisa ser “malhada”. Negá-la ou mantê-la como se útil fosse para o uso do trigo não parece razoável. O ato de educar não deve ser terceirizado, mas assumido com responsabilidade. Pais não têm o direito ético, moral e legal de lançarem sobre os ombros de outrem a obrigação que lhes compete. A escola e o Poder Público, da mesma forma, resguardadas as atribuições de cada um. Urge colocarmos a educação de nossas crianças e adolescentes na eira. Abandonemos o covarde papel inicial de Gideão, mas como ele, viremos o jogo e, de forma corajosa, vençamos a difícil, porém necessária, peleja em prol daqueles quem mais amamos.

Veja também:
http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=940ecc768099e35917344cd69eef5774



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

DEUS NÃO ESTÁ MORTO


DEUS NÃO ESTÁ MORTO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O filme homônimo[1] desperta algumas reflexões. Manter a fé e, principalmente, levá-la a outras pessoas por meio da evangelização tem se revelado um desafio cada vez mais árduo. Uma profunda e generalizada apostasia vem se fazendo presente, trazida pelos ares de um processo globalizante incontrolável e imensurável. É flagrante e notório o esfriamento da fé, especialmente daqueles que se autodenominam “cristãos”. Preocupados em “dançarem conforme a música” da famigerada pós-modernidade, onde os tempos se mostram “líquidos”, os novos adeptos do Cristianismo aderem a uma espécie de mimetismo, onde ao tentarem ser de tudo um pouco, acabam, ao final das contas, por não serem nada. Pior, não apenas abdicam de alguma coerência religiosa como ainda, muito comumente, condenam aqueles que buscam, a muito custo, conservar a tradição de fé. Não por acaso, algumas religiões, ou segmentos, que buscam manter a essência do pentecostalismo, catolicismo, islamismo e judaísmo, por exemplo, são vistas de soslaio pela maioria, quando não abertamente discriminadas e perseguidas. Professar a fé vem exigindo um esforço hercúleo e uma grande dose de convicção. É titubear, lá estamos nós na vala comum dos que fazem da religião tão somente um brinquedinho à mercê dos próprios caprichos, onde entronizamos o ego e perdemos de vista o verdadeiro sentido da existência humana. Mercantiliza-se a fé, como se mercantiliza qualquer outra mercadoria. Boa parte das igrejas, não por acaso, mais se parecem com shoppings ou centros comerciais. Vende-se e compra-se de quase tudo. O templo que outrora se transformara em feira e que despertara a indignação de Jesus pareceria um monastério diante da maioria das igrejas de hoje. Muitos são os pastores e padres que fazem do púlpito seu palco narcísico e vitrine para venda de DVDs, camisetas e rosas miraculosas. Têm, ao centro, não a pessoa de Cristo, mas a própria imagem, engordando a vaidade e, por vezes, recheando a algibeira com a contribuição dos fiéis. Contudo, boa parte – quero acreditar que a maioria – dos líderes religiosos, cumpre fielmente com o papel para eles reservado, qual seja o de levar a mensagem pautada no amor, no respeito, na valorização da vida e na esperança do porvir, a mesma esperança que, cambaleante, teima em resistir aos ataques (voluntários ou não, conscientes ou não...) daqueles que, muitas vezes, em nome de uma pretensa e irresponsável “liberdade de expressão” ofendem criminosa e despudoradamente os sentimentos e crenças de outrem. Jamais esqueçamos: quem semeia ódio, dificilmente irá colher amor. Quem planta intransigência, colherá tolerância? Não se deve – em nome de uma perniciosa, falsa e aleivosa democracia – tentar “matar” Deus, pois ao fazê-lo atenta-se contra todos aqueles que, convictamente, nele creem. Há neste mundo, sem dúvida, espaço para todos: ateus, agnósticos, judeus, muçulmanos, xintoístas, católicos, protestantes, animistas, budistas, hinduístas... Há espaço para os que dizem crer e para os que afirmam não crer. O que não deve haver, isto sim, é espaço para a intolerância e desrespeito ao outro, por maiores que sejam as diferenças. Quero ver respeitado e salvaguardado o meu (e de muitos outros!) direito de crença num Deus vivo, glorioso, poderoso e verdadeiro, num Deus amoroso e misericordioso, num Deus disposto a transformar vidas. Deus não está morto!




[1] God’s Not Dead é um filme de drama cristão, datado de 2014, dirigido por Harold Cronk.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

APERTEM OS CINTOS, O DINHEIRO SUMIU


APERTEM OS CINTOS, O DINHEIRO SUMIU
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Nada original, não é mesmo? Apesar do título carecer de brilhantismo, a ideia por detrás do mesmo é, no mínimo, provocante. Finalmente, parece termos encontrado o “elo perdido” que distanciava as trajetórias nacional e regional. Vale lembrar que, enquanto o país reelegia o mesmo “projeto” dos últimos doze anos, o Rio Grande do Sul, por sua vez, mandava para as cucuias o alinhamento das estrelas, fazendo brotar das urnas sabe-se lá o quê. Contudo, o raiar do novo ano e dos novos mandatos trouxe algo em comum entre nós (os “farrapos”) e eles (o “resto” do país): estamos todos, do Oiapoque ao Chuí, atolados na merda! Não sou eu quem digo, mas sim os novos – e os antigos – mandatários que, aberta e categoricamente, deixam transparecer um misto de resignação e desespero quanto às finanças públicas. A mensagem não deixa dúvidas: apertem os cintos, o dinheiro sumiu. Não há recursos, tanto em nível federal quanto estadual, para dar conta das necessidades mínimas ligadas à saúde, educação e segurança, por exemplo. A economia vai de mal a pior, o espectro da inflação voltou a rondar e o mau uso do dinheiro público segue ocupando – há muito – as primeiras páginas dos jornais. Um verdadeiro caos, onde o que se vislumbra ali adiante em nada deixa a desejar às previsões apocalípticas de Nostradamus. Menos mal que, assim como as baratas, nós professores estamos acostumados e adaptados às hecatombes que marcam a vergonhosa história deste país. Todos esses anos de barriga vazia, pindaíba financeira e diuturna luta para sobreviver, em meio à falta de prestígio e abundância de promessas jamais cumpridas, criaram em nós como que uma espécie de resistência, “anticorpos” a protegerem o que de nós sobrou, ainda que pouco. Carestia, por exemplo, apesar de ser um verbete para lá de ultrapassado no vocabulário das elites, é uma das primeiras palavras balbuciadas pelos “filhos do magistério”. Inadimplência, insolvência, penúria, reumatismo, tendinite, depressão... A quantidade de sílabas em nada se compara à complexidade kafkiana da sobrevivência docente. Acostumamo-nos ao perigo de uma viajem sem piloto, onde a promessa era de alçarmos voo em meio às nuvens de glória. Hoje, mais nos parecemos com o personagem de Cervantes, envolto numa armadura velha, pesada e anacrônica, ocupado em fustigar dragões imaginários. A crise avassaladora que aí está, atinge a todos, mas especialmente aos menos favorecidos, os mesmos que, como moscas, vegetam no estrume em que se transformaram os serviços públicos. Atinge, ainda, a famigerada classe média, acostumada ao consumo de penduricalhos que, aparentemente (e só aparentemente...), a aproximam dos mais afortunados. É, pelo jeito, inexiste outro caminho que não o da parcimônia e austeridade. Foi-se o tempo das vacas gordas. Sorte delas, das baratas, acostumadas às vicissitudes da vida.  

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

LEI JOÃO DÁ PENA


LEI JOÃO DÁ PENA
Gilvan Teixeira
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                Nasci numa época em que homem só casava com mulher e esta com homem. Numa época em que os pais se portavam como tal. Eram tempos em que cabia ao marido tomar as rédeas da casa, restando à esposa zelar para que as regras e vontades do senhorio fossem seguidas à risca. Hoje, dispensável é dizer, o mundo (ocidental!) mudou. Não sei se para melhor, mas que já não é o mesmo da minha época de criança, isso não é. Saímos de uma realidade fortemente machista e patriarcal para uma meleca a que alguns chamam de democracia. Inflacionou-se a legislação dita protetiva sem que isso tenha redundado, em absoluto, na melhoria das relações humanas. Nunca houve tanto desrespeito ao outro. Feito cachorro perdido correndo atrás do próprio rabo, vamos criando textos legais estéreis que pouco ou nada contribuem para qualificar e fortalecer a dita teia social. Mesmo as novas tecnologias e penduricalhos produzidos em larga escala pelo Capitalismo doentio se mostram incapazes de disfarçar o mau cheiro desta realidade decrépita que desova na sarjeta um incontável número de viciados e depressivos. Uma realidade onde boa parte da juventude não vislumbra ali na frente mais do que um baseado, um par de tênis da Nike ou um smartphone. As selfies, feito lago de Narciso, soam, muitas vezes, como eufemismo para um hedonismo mal disfarçado. A inversão (perversão) de valores é tamanha que, ao sair do oito para o oitenta, acaba por produzir algumas situações, também, hilárias. Qual o marido, por exemplo, que já não se defrontou com a tão temida “lista” pendurada, estrategicamente, na geladeira? Sim, aquela enorme e maldita “lista” escrita à mão de ferro pela impaciente companheira que, diuturnamente, faz questão de inquirir se a grama já foi cortada, a janela consertada ou o pinga-pinga da torneira estancado. Mais severa do que a cobrança divina em relação aos mandamentos trazidos do cume do Sinai, a esposa faz da dita “lista” a Lei do Talião. A mulher escreveu e o marido não leu, o pau comeu... Nessas horas, onde estão os Direitos Humanos? Mais fácil achar guarida na legislação que protege a bicharada do que numa eventual defesa em prol do marido desassistido. Daí, quem sabe, o esposo aguardar, quase desesperado, o fim das férias e o retorno ao trabalho, uma saída protelatória, mas interessante, para escapar da cobrança doméstica. Apelar para quem? Verdadeiro mato sem cachorro, beco sem saída. Propugnar, talvez, por uma espécie de “Lei João Dá Pena”, em contraposição à Lei que protege a mulher frente à violência doméstica e familiar. Quem sabe um diploma legal que traga, dentre outros artigos, incisos, alíneas e parágrafos, uma expressa vedação às “listas” produzidas por mulheres sem coração que escravizam e atormentam os pobres maridos. Estes merecem respeito, um lugar ao sol, de preferência acompanhados de um bom prato de petiscos regado à cerveja bem gelada. Abaixo as “listas” e bom verão a todos os meus amigos!



domingo, 7 de dezembro de 2014

REMÉDIO E VENENO: UMA QUESTÃO DE DOSAGEM


REMÉDIO E VENENO: UMA QUESTÃO DE DOSAGEM
Gilvan Teixeira
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                Quem trabalhou ou trabalha em escola sabe o quanto é difícil, porém necessário, explicar às crianças e adolescentes a diferença entre a “brincadeira” e o “ato de indisciplina”, este último sujeito aos “puxões de orelha” previstos no Estatuto Disciplinar ou algo que o valha. Comum é lidarmos com situações onde o educando é encaminhado para a Direção ou Coordenação de Disciplina porque ofendeu, machucou ou ameaçou o colega, por exemplo. Não menos comum é nos depararmos com a “justificativa” dada pelo aluno: ”tudo não passava de uma brincadeira”. Sincera ou não a explicação – até porque é difícil averiguar a verdadeira intencionalidade do ato –, precisamos admitir o quanto é tênue o limite que separa o “brincar” daquilo que o extrapola, passando a ser um problema. Faz lembrar o conhecido dito popular de que o que diferencia o remédio do veneno é, no frigir dos ovos, a dosagem aplicada. Brincadeira é quando todos os envolvidos se divertem, sem qualquer espécie de prejuízo a eles e/ou a terceiros. Por outro lado, quando alguém – mesmo que de fora do circuito da “brincadeira” – sai ferido, magoado, lesado ou diminuído em sua dignidade, aí passamos a ter um problema. Toda brincadeira tem limites, marcos estes que devem estar assentados no respeito, na ética, na verdade, na honestidade e, é claro, na diversão e no lúdico. Divertir-se é não apenas aceitável, como necessário e saudável, algo indispensável à formação do sujeito enquanto pessoa. O prazer que nasce da diversão é como cimento imprescindível à edificação de homens e mulheres mais felizes e melhor preparados para construção de uma sociedade mais harmoniosa e menos desequilibrada. Contudo, o próprio “brincar” obedece, ou deveria obedecer, certas ordens, alguns paradigmas necessários para que a alegria de “um” não se transforme em tristeza para “outro”. O que é, por exemplo, o bullying senão uma perversa e abominável prática onde alguém se “diverte” às custas de outrem? Brincar, é remédio para alma. Extrapolar a brincadeira, por sua vez, é veneno para as relações. A brincadeira aproxima, enquanto o exagero não apenas distancia, mas – por vezes – é tão cruel a ponto de apagar até mesmo as pegadas que poderiam levar a um novo encontro de perdão. A brincadeira rejuvenesce, o excesso recrudesce a vil tirania do aparentemente mais forte em face da vítima. A brincadeira abre portas e faz brotar a amizade, já a maldade sepulta a confiança mútua. Brincar é como bálsamo que restaura a saúde, faz correr a dor e afugenta a nuvem sombria da descrença na vida. Distorcê-la, contudo, é lançar irresponsavelmente o sentimento alheio contra os duros penedos, deixando – por vezes – cicatrizes eternas na memória. À escola e, principalmente, à família cabe educar o rebento, orientá-lo a discernir entre o certo e o errado (aos defensores do relativismo doentio, afirmo existir sim o “certo” e o “errado”!), diferenciar o veneno do remédio, primar pelo respeito ao outro, sem abrir mão ou deixar de lado a brincadeira e a felicidade. Boa diversão a todos! 
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A LISTA


A LISTA
Gilvan Teixeira
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                Procurando o nome na lista de alunos aprovados por média? Por quê? Tens alguma dúvida? Ora, o resultado final não deveria causar nenhuma surpresa ou solavanco, não é mesmo? Afinal, quase sempre, colhemos aquilo que plantamos. Qual foi o grau de dedicação e comprometimento com os estudos? A resposta é diretamente proporcional à certeza que tens (ou deverias ter...) quanto ao fato de veres, ou não, teu nome inserido na tão aguardada Lista. Claro, há que se admitir certa “margem de erro”, especialmente para aqueles raros casos em que, apesar de todo esforço, ainda assim, o conteúdo explicado nas aulas parece teimar em entrar na cachola. A Lista não deveria surpreender, seja para o bem do próprio educando, da família, da escola, da sociedade como um todo, seja, ainda, para o bem da educação, afinal esta última carece, cada vez mais, de coerência e previsibilidade. Discursos não faltam em defesa da aprovação a qualquer custo, objetivando quiçá a obtenção de dados “positivos”, ainda que para lá de mascarados. Não menos danosos são os chavões que, na prática, fazem da nota um triste e perverso açoite para compensar a incompetência do educador em dar conta do recado. A Lista deveria revelar o “preto no branco”, coroando o casamento perfeito entre o previamente combinado e o efetivamente realizado. Estar nela deveria ser, ainda, regra e não exceção. Infelizmente, contudo, a Lista tem estado não apenas cada vez mais magra, mas também mais pobre em qualidade. Mesmo a flagrante mediocrização do ensino tem se mostrado incapaz de ampliá-la. Causa tristeza ver a Lista virar um fim em si mesmo. O que importa, para maioria, é ver seu nome ali inscrito, como se fosse o próprio Livro da Vida. Poucos demonstram preocupação em saber como seu nome foi parar ali, se foi produto do trabalho e verdadeira dedicação ou se foi obra do acaso ou, o que não deixa de ser pior e mais constrangedor, se foi resultado da “bondade” docente. O que seria mais preocupante, constar ou deixar de constar na Lista por alguns minguados “pontinhos”? Existem até aqueles que, em troca de um lugarzinho no tão sonhado rol da “fama”, se comprometem com alguns Pais-Nossos e pagamento de promessas. Há também os que juram, reiteradamente, que no próximo ano será diferente, fazendo lembrar a eterna dieta da segunda-feira. Para fazer parte da Lista, para muitos, vale de tudo, até botar uma “pressão” neste ou naquele professor. A Lista ressuscita até mortos. Aquela mãe que jamais compareceu na escola e sequer sabe o Ano do rebento ou o nome da “prô”, até ela, acreditem, resolve dar as caras e cobrar o nome do filho na Lista. Rola, por vezes, desde sutis ameaças até a mais escancarada agressão. O blefe corre solto: “caso rodem meu filho, vou tirá-lo da escola”. Como se o pobrezinho fosse vítima senão do próprio desleixo e da falta de vigilância familiar. É duvidar, lá está o guri no ano seguinte, acompanhado da mãe, como se nada tivesse acontecido... A Lista tem sido a própria síntese da decadência e do fracasso escolares. Urge repensá-la, vê-la como a ínfima parte de um perigoso iceberg que coloca em risco gerações inteiras de naus a espera de um norte. Cabe, principalmente, a nós adultos (pais, professores, gestores, estudiosos...) apontarmos o caminho. Ah, antes que esqueça: parabéns ao que tiveram (ou tiverem) o nome inscrito na Lista. Quanto aos demais... 

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domingo, 16 de novembro de 2014

BUMERANGUE


BUMERANGUE
Gilvan Teixeira
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                Como um bumerangue mal arremessado que, ao retornar em direção a quem o lançou, atinge a jugular e ceifa a vida, assim tem sido comigo, contigo e com cada um de nós. A mesma sociedade que, diuturnamente, se queixa de ser “vítima” da violência – hoje não mais apenas urbana –, das mazelas nascidas da corrupção, da governança incompetente, quando não criminosa e irresponsável, do tráfico que a olhos vistos compromete o futuro de gerações inteiras e faz do viciado um completo imbecil, aniquilado do ponto de vista ético, moral, cognitivo e produtivo, esta mesma sociedade não passa, na verdade, de algoz dela mesma. As mesmas classes média e alta que tecem discursos inflamados contra a guerra do tráfico são as maiores consumidoras de maconha, ecstasy e cocaína, por exemplo. Muito comum é vermos o “filhinho de papai” – não raras vezes, o mesmo que ainda há pouco desrespeitava as regras da escola e mandava os pais tomarem no ... – infestar, em meio à roda de zumbis mentecaptos, o ambiente de praças e residências com o fétido cheiro da morte exalado pelo baseado. Ora, o que são as “aventuras” de tais adolescentes senão a face da mesma moeda que alimenta o crime organizado, as facções dentro dos presídios e o poder “paralelo” instalado, tal qual taenia, nas entranhas do Estado? Por que escandalizar-se com as cracolândias e não com as festas raves regadas a muito álcool, sexo e drogas? Por que escandalizar-se com a violência corporificada no vocabulário chulo ou no porte de arma do adolescente que guarda a boca de fumo e não com o uso irresponsável das redes sociais para ofender, difamar ou ameaçar? Por que escandalizar-se com as milhares de vítimas do trânsito e não com a direção perigosa, em alta velocidade e embaçada pelo torpor do álcool e dos entorpecentes? Quanta hipocrisia. Julgamos apenas pelo “fim” e não pelos “meios”, pela “aparência” e não pela “essência”. Assim, se a embriaguez não é descoberta e nem tampouco gera acidentes, está tudo bem. Caso o filho ou a filha, pouco mais do que uma criança, seja promíscuo, tudo certo, desde que se cerque de cuidados para evitar uma gravidez indesejada. Engravidando, contudo, é “só” abortar, desde que sob o manto da discrição e do anonimato. Observar que a prole chega em casa com objetos alheios ou com olhos a denunciarem o uso de drogas, tudo bem, mas que não venha ninguém reclamar. A sociedade que temos é a que merecemos. Colhemos, quase sempre, o que semeamos. Fazer da urna latrina e desejar que saia dela bons gestores ou representantes, é um engodo. Tratar o corpo como um receptáculo do consumismo doentio e querer uma longa vida com saúde física e mental é, no mínimo, uma grande ingenuidade. Imaginar um ambiente ecologicamente equilibrado e sustentável sem abrir mão dos penduricalhos nascidos do Capitalismo, por sua vez, não passa de um enorme paradoxo. O “destino” parece algo inexorável. Assim como um bumerangue, a vida, muitas vezes, tem um caráter retributivo, refletindo nossas escolhas. A sociedade, em última instância, é nossa própria imagem e semelhança. 

domingo, 9 de novembro de 2014

CONVITE À PERMISSIVIDADE


CONVITE À PERMISSIVIDADE
Gilvan Teixeira
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                O Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul (CEED), através de uma de suas Comissões, acenou com a possibilidade de emitir um documento, em princípio sob a forma de Parecer, que traz, dentre outras coisas, a vedação às instituições de ensino, públicas e privadas, de suspenderem ou transferirem compulsoriamente alunos com problemas disciplinares. A malfadada iniciativa do Conselho conseguiu algumas proezas. A primeira delas foi a de colocar do mesmo lado da mesa os sindicatos patronal (SINEPE/RS) e de professores (SINPRO/RS), o que para muitos parecia impossível. Além disso, a minuta engendrada nas entranhas do referido Colegiado suscitou a indignação, para não dizer a ira, de quase todos os segmentos que compõem o próprio Conselho, reação esta que lançou dúvidas sobre a própria legitimidade da iniciativa do CEED. Verdadeiro tiro no pé. A Audiência Pública ocorrida na Assembleia Legislativa corroborou o que já se sabia. A maioria acredita que retirar da escola o direito de suspender ou transferir compulsoriamente o aluno indisciplinado, em casos comprovadamente necessários e justificáveis, fere não apenas a autonomia constitucional das instituições de ensino (privadas), mas reforça o pérfido hedonismo que há muito vem sangrando a ética e os mais elementares princípios de convivência social. Apesar das eventuais boas intenções (dizem que o inferno está cheio delas...) por detrás da iniciativa personificada na minuta em questão, urge posicionar-se contrário à “fórmula mágica” encontrada por alguns conselheiros frente à necessidade de se garantir o direito a todos os educandos – mesmo aqueles que demonstram não quererem – de assento nos bancos escolares. Esquecem eles, contudo, que as escolas, em princípio, são as primeiras a desejarem, por exemplo, não apenas a permanência, mas, sobretudo, o sucesso do educando. Não por acaso, todo o empenho dos professores e diversos Setores que compõem a escola no intuito de contribuírem para o crescimento cognitivo e humano do aluno. Além do mais, transferência para outras instituições de ensino, no caso das escolas privadas, representa, dentre outros prejuízos, uma diminuição no fluxo de caixa. Portanto, não é uma medida nem simpática, nem tampouco bem-vinda. Todavia, em casos pontuais – vale lembrar, que as transferências compulsórias representam um ínfimo percentual no universo de alunos – é, sem dúvida, uma “saída” (literal) necessária. As medidas extremas, e a transferência compulsória é uma delas, vêm sendo aplicadas naqueles casos onde a indisciplina do aluno é reiterada, onde se observam práticas e posturas inadmissíveis e de elevada gravidade, onde a omissão, condescendência e permissividade da família põem a perder todo esforço da escola no sentido de “resgatar” o aluno indisciplinado e onde a permanência do educando significa uma ameaça ao sagrado direito da maioria a um ambiente ordeiro, sadio e pedagogicamente adequado, por exemplo.  A escola, por vezes, comete abusos? É provável que sim. Aí entra, numa última instância, o Judiciário para reparar eventuais danos causados ao aluno e sua família. A contrariedade, quase unânime (neste caso, não é sinônimo de burrice...), à minuta do CEED não deixa dúvidas quanto à pretensão da maioria em não tergiversar ante a escalada do relativismo doentio que olvida os mais nobres e necessários valores historicamente construídos, valores estes indispensáveis à construção de uma sociedade melhor e mais fraterna. 

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domingo, 5 de outubro de 2014

EXCEÇÃO OU REGRA?


EXCEÇÃO OU REGRA?
Gilvan Teixeira
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                A merecida homenagem ao aluno, que devolveu os cinquenta reais encontrados no pátio do Instituto de Educação São Francisco, suscita algumas certezas e desencadeia muitas dúvidas. É certo, por exemplo, que existe gente honesta. A dúvida, paradoxalmente associada à certeza anterior, diz respeito ao número de pessoas que podem ser arroladas como ilibadas. Até porque é comum, mesmo entre aqueles que se mantêm vigilantes quanto às inúmeras tentações da carne, deslizes, ainda que pequenos. Contudo, mesmo sendo todos pecadores – alguns tidos como mais, outros menos –, é inegável o sentimento de conforto e esperança quando nos deparamos com atitudes como a do aluno. Por que não ficou com o dinheiro? Poderia engambelar a consciência sob o conhecido argumento de que “achado não é roubado”. Optou por devolver o valor encontrado. Quebrou a perversa lógica de encontrar explicações para o inexplicável, e justificativas para o injustificável. Superou a vergonhosa tendência de trilhar o senso comum de que agir como a maioria, ainda que o referido agir seja eticamente repreensível, abona os eventuais deslizes cometidos. Assim como o aluno, muitos são os que não titubeariam em fazer o que é certo. Outros tantos, ainda, mesmo que titubeantes, após uma “crise” de consciência, também fariam o que é certo. O problema são aqueles que, sendo ou não abalados pelo dilema interior da consciência, optam pelo caminho errado. Trata-se de um liame, por vezes, muito tênue, mas que faz toda a diferença, pois que distingue o honesto do desonesto, o bom do mau, o probo do improbo. A família, sem dúvida, tem indelével papel no desenrolar da história. O exemplo dos pais, o zelo pela verdade, a disciplina exigida à prole são determinantes na formação do caráter dos filhos e filhas. Inegociáveis são, por exemplo, o respeito, a responsabilidade, o cumprimento às regras estabelecidas – desde que obviamente justas – e a honestidade. Virtudes não surgem do nada, mas brotam das relações que se estabelecem no cotidiano do lar. Os desejados frutos são semeados, amadurecidos e, quase sempre, colhidos, no seio familiar. Virtudes são construídas em meio ao afeto, à autoridade, ao perdão e a todos os demais frutos que nascem do amor. Este pressupõe condescendência e cumplicidade, mas apenas quando eticamente pertinentes. Amar exige compreensão e diálogo, desde que jamais confundidas com anuência aos desvios de conduta. Amar é cuidar, vigiar e insurgir-se contra as terríveis pragas do mundo moderno, por vezes escondidas sob o manto de modismos que, no fundo, corroem as estruturas da família e colocam em risco não apenas o presente, mas o futuro de nossas crianças e adolescentes. Os “zumbis” a povoarem as praças e “cracolândias”, por exemplo, ainda ontem não passavam de crianças sob os cuidados (descuidos!) dos pais. O medo ou a fraqueza de dizer “não” ao rebento, de colocar e exigir limites aos excessos da criança, serviram – mesmo que inconscientemente – de combustível  a alimentar o triste mundo do crime e do tráfico. Gerações inteiras de desgarrados e fracassados. Pais verdadeiramente presentes geram bons frutos. Parabéns ao aluno e aos amados pais que fizeram dele um exemplo a ser admirado e, principalmente, seguido.  

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sábado, 12 de julho de 2014

A CARA DO MORTO


A CARA DO MORTO
Gilvan Teixeira
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                Mais um Conselho de Classe. Vira e mexe, é quase sempre a mesma história. Discute-se a “cara” do morto e não sua causa mortis. Desloca-se o foco da discussão para o vértice do iceberg (a ínfima pontinha que emerge do oceano) e não para o imenso e complexo bloco escondido sob as águas geladas e profundas. Por quê? Talvez por ser mais fácil e menos incômoda a observação. Qual é o sentido de discutir aquilo que é óbvio? Ora, que o morto está ali, estirado sobre o ataúde, todos sabem. Vã é a tentativa de melhorar a cara do finado. Apor um asterisco aqui ou acolá, objetivando diminuir o número de reprovados em favor dos “evadidos”, é como passar blush no “presunto”, não resolve o problema e pouco serve para mascará-lo. O corpo segue gelado, o cheiro típico permanece e, para piorar, aquelas mosquinhas insistentes fazem lembrar tratar-se de um velório. Por que o aluno reprovou ou, usando um (mais um!) eufemismo, “permaneceu”? Por que desistiu e quem o fez? Terá sido o aluno a abandonar a Escola ou esta (nós!) o largou de mão? Quem sabe, ambos? Quais as razões para tamanha fuga? Urge deixarmos de lado o amadorismo e a superficialidade. O esforço hercúleo e louvável de sair em busca de adolescentes e adultos para ocuparem as classes na EJA será em vão, caso não consigamos estancar a hemorragia discente. Qual é o caminho? Acredito inexistir um, já dado e pronto. Precisamos, coletivamente, buscar uma ou mais saídas para o problema. Ela(s) passa(m), obrigatória e necessariamente, primeiro, pelo “querer” de cada profissional, pela disposição individual em pesquisar, repensar, planejar e trabalhar com vistas ao interesse coletivo. Este último, diga-se de passagem, extrapola qualquer espécie de corporativismo funcional doentio e, a priori, deve estar consubstanciado na Proposta Político-Pedagógica, bem como no Regimento Escolar. Todos, em especial os educadores, devem conhecer os documentos norteadores da Instituição. Como é a comunidade no entorno da Escola? Qual o perfil “médio” do público que busca matrícula na EJA? Qual é a “cara” que desejamos dar à EJA? Qual a formação mínima que o educando deve ter ao finalizar o curso? O que defendemos enquanto princípios de convivência? Enfim, inúmeras são as perguntas que a Escola deve elaborar e buscar responder antes de simplesmente sentenciar o “avanço” ou a “permanência” do aluno. Tão irresponsável e perigoso quanto “reprovar” um educando sem ter-lhe garantido a oportunidade de “avançar” é, por outro lado, “aprová-lo” sem justificativa plausível. Tem sido muito comum o discurso que faz do educando um perfeito idiota, como se o mesmo fosse incapaz de aprender e/ou assumir responsabilidades. Cabe à Escola, sim, posicionar-se contrária à indolência e à indisciplina, por exemplo. Uma educação de qualidade passa pela valorização das práticas e iniciativas positivas, entronizando-se valores universais, como o respeito, a ética, a honestidade, o empenho e a responsabilidade. Esforços não devem ser medidos no intuito de resgatar o sujeito, valorizá-lo e incluí-lo. O “fracasso” (reprovação, evasão, etc.) de cada aluno, em regra, deve ser visto, também, como o fracasso da família, do Estado, do diretor, do professor, do orientador, do supervisor... Trata-se de um fracasso coletivo, de uma tragédia sem “culpados”, mas com múltiplas responsabilidades. A Escola – assim como os hospitais e os fóruns, por exemplo – não deve ser espaço para amadorismo. Requer muito trabalho e profissionalismo. Não deve haver lugar para “jeitinhos” e fórmulas mágicas. Exige-se conhecimento, coerência, planejamento, resiliência... Acreditar na EJA é apostar na possibilidade de construirmos uma sociedade melhor. Urge a necessidade de debatê-la, confrontá-la, eviscerá-la. Seja a Educação de Jovens e Adultos terreno fértil para transformações individuais e coletivas. Iniciativas como a do EAD, abrindo-se um leque de possibilidades, são muito bem-vindas, contudo insuficientes se nossas práticas continuarem sendo as mesmas. Assim como Lázaro, quem sabe ressuscitemos até mesmo os aparentemente já “mortos”? Para tanto, mister é que façamos uso do poder do amor e da cumplicidade com a sorte alheia, e não dos “cosméticos” preconizados por alguns.  

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terça-feira, 1 de julho de 2014

AS PEDRAS DE DAVI


AS PEDRAS DE DAVI
Gilvan Teixeira
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                Certa feita, tive o privilégio de ouvir numa reunião de escola alguém falar das pedras de Davi. Quais são as “pedras” que temos escolhido para lançarmos em direção ao “Golias” que, a todo instante, atravessa nossa vida? Têm sido as pedras certas? Têm sido as pedras apropriadas? Temos assistido levas e levas de homens e mulheres, de todas as idades, condições socioeconômicas das mais diversas, instruídos ou não, religiosos ou agnósticos, enfim, miríades e miríades a usarem de pedras que mais parecem bumerangues, onde a grande vítima acaba por ser aquele que as lançou. Enquanto isso, o algoz se fortalece. Ao invés de um, passam a ser dois, três, quatro incontáveis e intermináveis problemas... A seiva que, talvez, já não fosse intensa, esvai-se ainda mais. O inimigo se fortalece. Por que há tantos que lapidam a si mesmos? Apedrejam-se? Voltam-se contra as próprias entranhas? Alimentam tumores do corpo e da alma? Espantam o sono e afugentam os sonhos? Homens e mulheres tristes e entristecedores. Contam nos dedos os momentos de felicidade e fazem vistas grossas à vida que brota a cada instante, em cada canto, em cada sorriso, em cada abraço. Pais que sofrem e fazem sofrer a prole, negando a esta o norte ou fazendo da paternidade uma espécie de roleta russa, onde – salvo os poucos lampejos de sorte – a droga, a indolência, a indisciplina e a morte espreitam e comprometem o futuro. Homens e mulheres que fazem da depressão uma espécie de moda, garganteando a dependência terapêutica e farmacológica. Entregam-se a um mundo de “faz-de-conta”, marcado pelo consumismo doentio e árido de valores perenes. Homens e mulheres que esperam do Estado, dos “outros” (amigos ou não) e dos filhos aquilo que jamais cultivaram. É crível que o lavrador colha o que jamais semeou? Qual é o Golias que desejamos enfrentar? Qual sua real força e tamanho? Quem o alimenta e de que forma? Não será ele, no fundo, a sombra ampliada por nós produzida? Onde reside a maior ameaça, no tamanho do inimigo à nossa frente ou na imagem que dele fazemos? Pedras, há muitas. Tamanhos, formas e cores das mais variadas. Talvez estejamos escolhendo as erradas, as mais (ou menos) acessíveis, as mais (ou menos) pesadas, as pouco resistentes... Urge certa dose de sabedoria para escolhê-las. Por que não ouvir a voz do coração? Por que não dar espaço ao silêncio que instrui? Por que não apostar no amor? Por que não confiar? Por que não dobrar-se sobre os joelhos e chorar? Por que não entregar-se à humildade? O verdadeiro gigante, quem é? Pertence a quem o nosso destino? Qual é o tamanho e o foco de nossos sonhos e desejos? Façamos das pedras poderosas armas, matérias-primas para edificação de estradas que apontem para um ser humano melhor. Pedras a adornarem mosaicos formados de solidariedade, ética, respeito, alteridade... Cumpram elas outro papel que não o de nossa lápide, sob o olhar zombeteiro e triunfal de Golias.  

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segunda-feira, 23 de junho de 2014

MARCAS DA COPA


MARCAS DA COPA
Gilvan Teixeira
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                Esta Copa trará, como provavelmente as anteriores, inúmeras marcas na minha (nossa?) vida. Qual é o real legado da competição? A Copa pouco ou nada acrescenta na qualidade de vida de nosso povo. Mostra-se incapaz de melhorar a saúde, o ensino, a segurança, o saneamento. Exceto, é claro, um “puxadinho” aqui ou acolá, quase sempre voltado ao atendimento dos forasteiros. Coisa para “inglês” (às vezes, literalmente...) ver. O tão falado “padrão FIFA”, infelizmente, soa como fogo de palha. Fugaz e caro. Muito caro. Economicamente, quem ganhou, ganha e – de fato – ganhará com a Copa? Poucos, sem dúvida. O discurso estatal, reforçado por alguns veículos de comunicação – sob o controle de uma elite historicamente distanciada dos interesses da maioria –, apontando os benesses da “invasão” estrangeira não convence. A relação custo-benefício parece desastrosa para nossa gente que, na prática, é quem paga a conta de tamanha farra. Inegavelmente, a Copa anestesia, entorpece os sentidos, em especial aqueles voltados à construção de uma visão crítica. Não de todos, obviamente. Existe uma elite que, sem dúvida, se mostra insensível aos gols e dribles nos gramados das arenas Brasil a fora. Uma elite sorrateira que, estratégica e perfidamente, decide pelo reajuste de tarifas, assinatura de contratos escusos nascidos de licitações suspeitas, alianças político-partidárias espúrias e aprovação de leis questionáveis, por exemplo. A Copa, de per si, não é um problema. Afinal, é mais uma – entre tantas – competição. Envolve poderosos interesses econômicos e políticos de empresários, clubes e confederações. Move uma incontável quantidade de dinheiro, por vezes não contabilizado, lícito ou não, moeda sem pátria e sem bandeira, afinal o capital conhece muito bem o verdadeiro sentido da globalização. Culpar a Copa, seus organizadores e apoiadores pelos atávicos descalabros do “lado debaixo do Equador” soa como ingênuo, senão injusto. É como lançar sobre o vizinho a responsabilidade da enorme e histórica sujeira de nossa própria casa. O torneio aqui no Brasil é, isto sim, inoportuno. Mais parece um escárnio frente à enorme fragilidade e precariedade dos (des)serviços públicos. O sentimento que fica é o mesmo que aflige o filho que nada tem e vê seu pai tratar o estranho a pão de ló. Os pomposos estádios – alguns deles construídos no meio do nada, fadados a virarem caríssimos elefantes brancos sem nenhuma serventia – destoam das ruínas em que se transformaram nossos hospitais, escolas, rodovias e presídios. Assim, qual é o real “legado” da Copa para nosso país? Nenhum que justifique o seu custo. O que representará para esta e as futuras gerações? Nada que pareça razoável e, de fato, significativo. Emoções à parte, a Copa enriqueceu e enriquecerá alguns poucos. Os dividendos tangíveis pertencerão, sobretudo, às empreiteiras, financiamento “paralelo” de campanhas políticas e obtenção de vantagens individuais. O interesse coletivo fica, na melhor das hipóteses, em segundo plano. Contudo, existe um outro legado, intangível. Este é individual, personalíssimo e não necessita de qualquer investimento público ou privado de monta. A Copa tem representado uma ótima oportunidade para reunir as pessoas que amamos e queremos bem. Momento para torcer juntos, partilhar o pão, a pipoca, o pinhão... É grito para todo lado, “linchamento” verbal do juiz, explosão de alegria e indignação. O quarto, a sala, a cozinha, cada peça da casa serve de “arena” privilegiada para nossa algazarra, com a vantagem de dispensar o agiota do ingresso ou do estacionamento. Assim, Copa não precisa ser, necessariamente, sinônimo de alienação, omissão ou condescendência diante das mazelas verde-amarelas. Sirva ela de “ponto de encontro”, de “força centrípeta”, de “fio condutor” para estreitarmos os laços de afeto e (por que não?) aguçar a reflexão acerca do país que temos e aquele que desejamos. O país das “chuteiras”, mas também da saúde, da educação, da arte, da segurança, da igualdade de oportunidades, da seriedade, do trabalho bem remunerado, da justiça social, da ética, do respeito à diversidade. Sobretudo, o país não de uma esperança quimérica, mas de uma esperança alicerçada na ação coletiva e na cumplicidade com a sorte alheia.  
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domingo, 6 de abril de 2014

PRÍNCIPES E PRINCESAS


PRÍNCIPES E PRINCESAS
Gilvan Teixeira
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                Comum tem sido encontrarmos verdadeiros castelos encravados no meio da cidade, do bairro, da rua, de nossa (nossa?) própria casa. Castelos cercados por extensas e largas muralhas, aparentemente intransponíveis, formadas por enormes blocos que, ano após ano, foram sendo ali colocados, mesmo que de forma não intencional. Blocos pesados, infames e mal cheirosos. Blocos marcados por uma espécie de inscrição. Omissão, negligência, indiferença, falta de tempo, permissividade, mentira, medo, tirania, vergonha... Muitos nomes. Incontáveis. Feito os corais, tais blocos foram sedimentando. Diferentemente daqueles que ocupam os oceanos, as pétreas muralhas dos castelos abrigam a morte e a falta de esperança. Afundam sonhos e fazem naufragar o amor, o respeito, a ética e a saudável autoridade. Por detrás de todo castelo tem um príncipe ou uma princesa. Quem sabe, ambos. Os castelos urbanos, ditos modernos, convivem com a síndrome – que, quando não tratada a tempo, se transforma em “maldição” – da coroa. Herdeiros e herdeiras do trono que, desde muito cedo, intentam contra o Rei e sua companheira. Trazem uma teimosa inclinação ao despotismo. Nas masmorras por vezes encobertas pelo véu da aparente modernidade, torturam a memória e a tradição dos anciãos. Príncipes e princesas que não pedem, exigem! Não se desculpam, criam subterfúgios para esconder o erro e, se duvidar, ainda viram a mesa, passando de algozes a vítimas. Príncipes e princesas que dizem o que querem, na hora que querem e para quem querem. O olhar omisso, condescendente e, por vezes, envergonhado do rei e da rainha, feito lenha seca em meio às chamas, só faz inflamar o ego dos pequenos. Príncipes e princesas que vestem e falam como se reis e rainhas fossem. O cetro, desde muito cedo, tomaram para si. O que parecia simples brincadeira “engraçadinha”, toma proporções alarmantes. A insígnia real, nas mãos dos rebentos, torna-se víbora peçonhenta, destilando veneno para todos os lados. A língua “hiperativa” e sem controle desses príncipes e princesas ofende, fere, entristece, envergonha não apenas a própria estirpe, mas as famílias para além-muros do castelo. Tão cruel quanto às palavras, mais parecendo açoites à moral e à ética, são as ações desregradas e desmedidas dos príncipes e princesas que desconhecem os limites da razão e do bom senso. A tal ponto chegam seus disparates que nem as questionáveis amarras “ritalínicas” prescritas pelos doutos do reino são capazes de dar-lhes um basta. Não há fórmulas e nem tampouco farmacologia capazes de preencherem o espaço reservado à autoridade que deveria acompanhar todo rei e rainha. Ascendência real, justa e legítima se conquista e se constrói, não se compra e nem se terceiriza. Príncipes e princesas necessitam ser amados. Amor pressupõe, também, diálogo, respeito e limites. Príncipes e princesas merecem brincar, dar asas à imaginação, sonhar... Príncipes e princesas devem reinar, mas tão-somente nos castelos que brotam da fantasia lúdica. Príncipes e princesas devem aprender que a verdadeira realeza nasce do respeito ao outro, da alteridade e da solidariedade. É o amor quem, de fato, nos investe de brilho e distinção, não a do tipo midiático e superficial, mas duradoura, daquele tipo que acompanha os verdadeiros príncipes e princesas, futuros reis e rainhas a governarem seus castelos, onde as muralhas dão lugar a campos e jardins a perderem de vista.   

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terça-feira, 1 de abril de 2014

UVAS VERDES

UVAS VERDES
Gilvan Teixeira
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E veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Que pensais, vós, os que usais esta parábola sobre a terra de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram? [...]
Ezequiel 18:1-2



                A passagem acima permite uma série de interpretações. Para lá de uma análise bíblica, a parábola me faz pensar acerca dos incontáveis casos de crianças e adolescentes que violam as mais elementares regras de convívio social. As causas que levam à violação dos limites e princípios de convivência (estes últimos mais amplos do que as primeiras) são várias e complexas. Contudo, inegável é o papel da família no que tange à (de)formação de caráter do sujeito. Famílias omissas, frouxas, desorganizadas (sem papéis definidos) e permissivas tendem a parir indivíduos com sérios problemas de conduta ética. O problema perpassa por todas as classes socioeconômicas. Os segmentos com melhor poder aquisitivo, por exemplo, há muito esbarram com uma espécie de triste ironia, ou não seria hipocrisia? As mesmas classes média, dita ascendente, e alta, que mais esperneiam frente ao avanço da violência e da insegurança, (des)educam seus filhos e filhas, fazendo-lhes crer que o mundo gira em torno de seus umbigos. Quem já não assistiu a um pai ou a uma mãe arrotar, estúpida e arrogantemente, que “paga a escola” (como se isso não fosse mais do que obrigação!) e, por isso, deixem a “pobre” criança – às vezes, quase um homem de barba na cara – fazer o que bem entende. Infeliz e vergonhosamente não são poucas as instituições de ensino que se dobram frente ao temor de ou perder o aluno ou, quem sabe, se ver envolvida numa demanda judicial. São famílias paradoxais, onde muito comumente discurso e prática guardam uma distância estratosférica. Condenam a corrupção, mas sonegam impostos. Olham de soslaio para a improbidade, mas fazem da mentira companheira inseparável. Gritam por mais segurança, mas permitem que seus adolescentes tomem o volante do carro ou se embriaguem em festas regadas pelo álcool e pela droga. Desejam ordem no país, no estado, no município, mas a própria casa parece mais uma Babel, onde autoridade e respeito passam de largo. Não sabem elas que colhem o que semeiam? O tráfico vê nelas importantes aliadas. Tais famílias, em grande parte, é que sustentam o crime que, mais cedo ou mais tarde, baterá à porta, ceifará a vida, a saúde e a esperança da prole. Ontem era uma mentirinha aqui, outra ali. Hoje, um baseadinho aqui, outro acolá. Amanhã, o que virá? Ontem a cria se voltava contra o professor. Hoje, contra o criador. Amanhã, contra quem? A omissão e permissividade da família alimentam o caos social hoje conhecido. Está mais do que na hora da família dizer “não” aos caprichos desarrazoados dos mais novos. Dizer “não” à indisciplina, à desídia, à desonestidade, à mentira dos rebentos. Deixando de fazê-lo, alguém o fará. Quem sabe, o professor, o policial, o juiz, a morte... Amar é educar, envolver-se, comprometer-se, dar limites. Amar é ouvir, mas se fazer ouvir. É vigiar (o inimigo vem como ladrão...), é auscultar o mais discreto sussurro da alma. Amar é dizer “sim”, mas também dizer “não”. Amar é fazer brotar, crescer e frutificar os valores em nossos filhos e filhas. Parreirais, temo-los muitos, de todos os tipos. Uvas de qualidade, só a engenharia do amor e do cuidado as pode produzir.

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