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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

UH, É TERCEIRÃO


UH, É TERCEIRÃO
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                É, mais um ano que chega ao ocaso. Duas turmas de formandos que veem o coroamento do esforço de uma labuta que perdurou onze, doze anos ou mais. Levantar cedo, abrir mão quem sabe do lazer, torcer para que o ônibus não tardasse ou que o larápio e flibusteiro passasse de largo. Chegar uniformizado no horário, não esquecer a agenda, retornar do recreio antes do segundo sinal, cuidar para não dormir nas aulas do Gilvan... Os pais a perguntarem sobre a nota daquela prova que melhor seria não ter existido, o mantra sobre o ENEM, a pressão pela escolha “certa” do curso acadêmico e a expectativa da carreira profissional. Para compensar, nada melhor do que a companhia dos amigos. Amizades que singraram as ondas do tempo e, ainda assim, resistiram incólumes às vicissitudes da vida. Aquele inconfundível sorriso, o afetuoso abraço e, sobretudo, a certeza de poder contar com toda aquela cumplicidade. O final de semana difícil, o conflito familiar, a pindaíba aparentemente sem fim, o término de um relacionamento... Tudo parecia sumir quando na companhia dos verdadeiros amigos. Parece mentira, ainda ontem não passavam de pequerruchos a carregarem suas mochilinhas coloridas e merendeiras. Corriam pelo pátio, feito loucos, para desespero de quem os cuidava. Trocavam figurinhas e cartinhas cheias de uma pueril ingenuidade, nem por isso, destituídas de sinceridade. O primeiro caderno, a primeira “prô”, o primeiro “amor”, ainda que em formato de um pequeno ser com pouco mais de um metro de comprimento. Quantas histórias juntos? Passeios inesquecíveis, festas memoráveis e segredos inconfessáveis. Só o tempo para transformar as peraltices e travessuras de outrora em boas lembranças. Como bálsamo, só ele para cicatrizar as feridas, mesmo as mais profundas. O tempo traz a cura, mas também alguns efeitos colaterais, como a saudade. A mesma que nasce desde já, saudade dos tempos de “São Chico”. A vontade de chorar só não é maior do que a certeza de que, assim como a debutante, aproxima-se o instante em dar o braço ao futuro, que aguarda para a tão esperada valsa da vida. Dentre os convidados, este singelo professor. Sentirei falta de cada um e de cada uma de vocês. Foi um ano excepcional de convívio, onde muito mais aprendi do que ensinei. Os conteúdos, muitos deles, se perderão nos becos e ruelas da memória, mas a amizade e admiração construídas permanecerão para sempre. A saudade baterá à porta quando lembrar das brincadeiras em aula, dos puxões de orelha em quem ousasse sequer pensar em mexer no celular, das perguntas atrapalhadas ou protelatórias de alguns colegas. Lembrarei de vocês a cada Festa Junina ou Gincana. Os recreios, por certo, já não serão os mesmos. Toda vez que olhar para o fundo da Cantina virá à lembrança aquele casalzinho comportado. Como esquecer a galera que, todo santo dia – salvo finais de semana e feriados, é claro... –, se posicionava próximo à imagem do Padroeiro? Fizeram história na Escola e marcaram, de maneira indelével, o coração deste velho professor. Resta, neste momento, primeiro agradecê-los e desejar a vocês muita paz, sabedoria, saúde, felicidade e sucesso. Jamais esqueçam que nada tem maior valor do que a relação com o “outro”, portanto pautem a conduta na ética, na verdade e no respeito, virtudes estas que nascem do amor. Não pude abraçar a todos, mas o faço agora através deste singelo texto. Parabéns e que Deus os abençoe! Dá-lhe Terceirão.

Veja também:
http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=c1b94008939f6af789f0ca68771bbb7a

segunda-feira, 28 de abril de 2014

ÉRAMOS SEIS


ÉRAMOS SEIS[1]
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Tamanho não é documento, diz um conhecido ditado. Ao que tudo indica, a máxima tem uma grande dose de verdade. Conheci um grupo de alunos que, apesar da insignificância numérica (apenas SEIS!!!), mais faziam lembrar a Batalha das Termópilas. Ao invés de espartanos, singelos trabalhadores, estudantes de um Curso Técnico da capital gaúcha: Bruna, Célia, Fabiano, Jefferson, Victor e João. Nomes simples, sobrenomes pouco conhecidos, estirpes sem grandes pompas. No lugar do temido exército persa, os inúmeros e complexos desafios do cotidiano. A fadiga do corpo, o cansaço da mente, o ônibus lotado, a fome a embrulhar o estômago após horas e horas de jejum, o tempo longe da família, as intermináveis contas a vencerem no final do mês, a insegurança noturna, as explanações teóricas do professor de Direito do Trabalho... Nada, absolutamente nada parecia demovê-los de seus sonhos. Nadando contra a maré, teimavam em avançar em meio ao território inóspito de inimigos corpóreos e invisíveis. Pessimismo, derrotismo e medo eram sentimentos que passavam de largo. Era vir alguém tentar fazê-los desistirem, compactamente formavam uma barreira intransponível, sedimentada pela coesão não do ferro ou do aço, mas da união do grupo. Mexer com um era mexer com todos eles. Demonstravam saber, na prática, o que muitos teóricos e filósofos tentavam explicar por meio de palavras. A vitória não é uma conquista individual, mas produto de uma vontade que é coletiva. Esperanças que se entrelaçam, que se misturam, que se tangenciam. As personagens da história que se passa em Porto Alegre em nada deixam a desejar para aquelas da Antiguidade. Como esquecer a história de Menelau e Helena, ou seria de Fabiano e Bruna? Casais que, em comum, têm suas vidas marcadas pelo amor incondicional. As barreiras, mesmo que maiores do que o Olimpo, têm o efeito contrário ao da separação. Torna-os, isto sim, mais unidos, solidários, cúmplices quanto à sorte um do outro. Sabem que os dissabores e intempéries fortalecem a relação e atestam a confiança recíproca. Como esquecer do sonho empreendedor do Victor ou do jeito um tanto que despojado do Jefferson? Impossível olvidar o esforço da Célia que, fosse outra, estaria metida em suas chinelas a desfrutar do calor junto à lareira, sorvendo um bom cálice de vinho. Ah, ainda tem o João e toda sua preocupação com os aspectos formais de um Curriculum Vitae. Soubesse ele que, por si só, é uma pessoa especial, única, singular. Tudo o “resto”, por certo, agrega à vida, portanto deve ser levado em conta. Certificados, diplomas, cursos de formação... Entretanto, vale lembrar – como diz a letra de uma música de outrora –, tudo passa, mas o que permanece é o AMOR.




[1] Texto em agradecimento aos alunos do CETERG pela paciência e confiança depositada neste humilde professor. Motivado por questões pessoais, estou me despedindo do Curso. Fico à disposição de todos vocês para auxiliar no que for preciso. Muito obrigado! 

sábado, 21 de dezembro de 2013

O BOM VELHINHO


O BOM VELHINHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Mais um Natal. É sempre a mesma história. Bom velhinho p’rá cá, bom velhinho p’rá lá... Apesar de compreensível a tradição de tamanha deferência, dito costume merece algumas considerações. Quem é, afinal, o tal do velhinho senão aquele ou aquela que, ainda ontem, ralhávamos, criticávamos, quando não desprezávamos? Terrível mania que temos em engrandecer quem está distante e diminuir quem se queda ao nosso lado. Quem é o bom velhinho senão nosso pai, mãe, irmão, irmã, companheiro ou esposa? O polo norte está bem mais perto do que imaginamos, logo ali. As renas, a puxarem o trenó, surgem na mesma medida que nos permitimos sonhar. Presentes, temo-los para todos. Basta disposição para partilha. Quanto mais distribuímos amor, mais o temos. Abraços, beijos, palavras doces então... Uma mesa farta de delícias, daquelas que jamais enfaram ou terminam no fundo de uma latrina. Pode haver melhor sorriso do que aquele que nos quer bem e de quem se deixa amar? Natal é momento de “reunir”, o que dá ideia de “unir de novo” e, para fazê-lo, pressupõe-se laços anteriores. Laços, quem sabe, fragilizados pela infidelidade, pela mentira, pelo excesso de trabalho e dita falta de tempo, pelo não dito, pela desconfiança, pelo materialismo exacerbado... Nada que o perdão não seja capaz de dar um jeitinho. Afinal, ele traz consigo o bálsamo que cura a alma, tanto de quem perdoa como de quem se sente, verdadeiramente, perdoado.  O saco do bom velhinho pode ser a reinvenção da caixa de Pandora. Nele, em abundância, se encontra toda sorte de dádivas e valores, prontas para serem liberalmente distribuídas, sem qualquer espécie de avareza. Como pagamento, nada que o dinheiro, a fama ou os holofotes desta Babel de pés de barro possam pagar. Não há, na verdade, contraprestação. A bondade, a longanimidade, o amor, a paz e tantos outros frutos do espírito dispensam – não que os desprezem – retorno ou reciprocidade. Daí ser eterno e incondicional o sorriso do bom velhinho. Sorrir lhe faz bem. Amar lhe faz bem. Perdoar lhe faz bem. Bom Natal e não deixe de dar um abraço em quem você ama! 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A CABANA


A CABANA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br





                Encomendara ao pintor desconhecido, daqueles que batem de porta em porta oferecendo seus trabalhos, uma tela tendo como temática uma cabana. Só se dera por conta do equívoco quando da entrega da encomenda. Decepção total. Não que a pintura, por si, deixasse a desejar quanto à estética, cuidado com os traços ou jogo de cores. Até que era bonita. Porém, em nada correspondia à expectativa. Cada um tem sua própria cabana. Esta é personalíssima, única, construída – sob medida – conforme a alma de cada um. A cabana dela era simples, a tal modo a se confundir com o entorno. Uma espécie de mimetismo natural, onde a morada aparecia como uma espécie de prolongamento da mata, dos galhos da figueira, do braço de rio. Uma cabana acolhedora, com as poucas paredes tomadas de cestos, arcos, pássaros perfeitamente esculpidos na madeira. No centro, a fogueira permanentemente acesa a exalar o inconfundível cheiro da lenha. Enquanto esta ia sendo consumida lentamente pelo filete de chama multicolorido a dançar de um lado para outro, sobre a chapa do fogão de barro ficava a cozer algumas batatas postas de véspera. A cabana dela desconhecia o frio. Acolhedora feito o ventre, ali dentro todo forasteiro era bem-vindo. Como pagamento, só o espírito desarmado e o sorriso largo. Afinal, pode haver maior riqueza do que uma boa companhia? Lá fora, o coral de sapos-martelo, grilos, lobos-guará e uma infinidade de seres da floresta. A iluminá-los, o pisca-pisca dos vagalumes e a romântica claridade da lua. No interior da cabana, a bebida cuidadosamente preparada e, por vezes, dividida. Bom mesmo era sorvê-la no grupo de amigos, com a taça passando de mão em mão, fazendo lembrar o verdadeiro sentido da ceia: a partilha. Contudo, mesmo quando sozinha na cabana, jamais se sentira solitária. O minuano a soprar no inverno ou o ar quente a prenunciar a chuva traziam consigo uma indescritível sensação de paz. As forças da natureza, ali eram bem quistas. Não as temia. Ao contrário, parecia confabular com elas. A cabana era seu porto seguro. Estava presa a ela. Ainda pequena, já a imaginava. Comum era vê-la rabiscar no caderninho os traços do lugar que a acompanharia por toda vida. Um espaço de descanso, meditação, tomada de decisões. Ela e a cabana se confundiam numa relação umbilical. Ninguém melhor do que a cabana para conhecê-la. Segredos, medos, projetos... Cumplicidade total, irrestrita, fiel. Tamanho significado, de fato, só poderia caber no coração, jamais num pedaço de papel. Quanto ao pintor desconhecido, seguisse talvez a vender por aí suas telas. Clientes, quem sabe, destituídos de uma cabana que pudessem chamar de sua. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

ESQUECI


ESQUECI
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Perdão! Uma, entre tantas outras virtudes de um homem santo. Quatro de agosto foi o Dia do Padre. Como poderia ter esquecido? Imperdoável, não fosse a misericórdia divina e a condescendência de meu querido Diretor, Padre José Luiz, estaria condenado a ferver no lago de fogo e enxofre. Espero mitigar tamanha falha com este singelo, porém sincero, texto. Coincidência ou não, o Dia do Padre é comemorado apenas alguns dias após a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Estadia esta emblemática. O Sumo Pontífice pautou sua fala, principalmente, nas questões sociais, descortinando importantes verdades bíblicas que, ao que parece, ficaram à beira da estrada do mundo cada vez mais globalizado. Lembrou, por exemplo, que o capital não deve ser um fim em si mesmo, nem tampouco deve estar a serviço de uma ínfima minoria, mas deve, isto sim, promover a justiça social e a diminuição das desigualdades. O exercício do sacerdócio, neste mundo cada vez mais laico e avesso à fé, se reveste de indelével importância. Verdadeiro farol em meio ao encapelado mar. Espécie de norte frente ao relativismo exacerbado que a muitos confunde. Vão-se não apenas as certezas de outrora, mas os caros valores cultivados ao longo do tempo. Num contexto que espezinha o amor, a vida, a honra, a família e a ética, ser sacerdote é como que nadar contra a maré. É, por vezes, opor-se ao “politicamente correto” e assumir posicionamentos pouco simpáticos ao modismo midiático. O sacerdócio, não raras vezes, pressupõe abrir mão da família, do lazer, da privacidade e do conforto. Os parcos recursos para a grande Obra, comumente, contrastam com uma demanda cada vez mais crescente. Falta não apenas pão, mas espiritualidade. Viceja a apostasia. Mais do que nunca, urge um sacerdócio capaz de fazer a diferença, comprometido com a sorte alheia, solidário aos que têm dor no corpo e na alma. O pastor é o sal numa terra cada vez mais insossa. Portanto, justa é a homenagem aos homens que fazem da batina sua armadura de fé. Parabéns, de forma muito especial, aos Padres da Rede de Escolas São Francisco.  Ao homenageá-los, o faço a todos os sacerdotes.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013



O MAR E A PISCINA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Estive na praia de Ingleses, em Florianópolis, há alguns dias. Fiquei – juntamente com minha família e alguns amigos – oito dias. Tempo suficiente para perceber a diferença entre dois mundos: o do mar e o da piscina. Enquanto o primeiro como que socializa os abismos sociais e econômicos, o último os escancara. À beira do mar, pouco ou nada se sabe acerca da origem – salvo alguns claros sinais da presença castelhana na orla –, profissão, classe social, renda, preferência sexual, conta bancária, etc., dos que se escondem sob os guarda-sóis ou sob os chapéus de largas abas. O vai e vem das ondas é feito o movimento do apagador do mestre. Quando muito restam alguns pequenos e quase sempre indecifráveis vestígios do que antes existia. O mar mostra toda sua imensa sabedoria ao aproximar homens e mulheres, pequenos e grandes, ricos e pobres, negros e brancos, crentes e agnósticos, letrados e analfabetos, nativos e estrangeiros... A piscina, ao contrário, privatiza o lazer, tornando-o por um lado asceta, por outro, sem graça. Aproxima apenas alguns poucos, os da própria tribo, porém recrudesce o fosso entre uma minoria e o “resto”, a maioria. O mar tem cheiro de povo. A piscina, de cloro. O sal do mar é terapêutico, cicatrizante, na quantidade exata da necessidade de cada um. A piscina tem, quando muito, ao seu redor, o sal que tempera a carne do churrasco e aumenta a pressão arterial. Sem ciúme ou disputa de beleza, o mar convive com a presença das montanhas, do verde, das dunas, dos braços de rios... Jurerê, Costão do Santinho, Armação, Praia Brava, Daniela, Joaquina... Tantos nomes para uma só maravilha! Sem qualquer espécie de maquilagem. Sem os penduricalhos nascidos de laboratórios e indústrias de cosméticos. Simples, natural e belo. Assim é o mar. Este, apesar de sua imensidão, acolhe a todos e a cada um. Nada pede em troca. Nem tostão, nem troca de favores, nem mesmo um elogio. Sua grandeza é tamanha que ao nele adentrar, os corpos se desnudam, como que a reverenciá-lo. O mar a todos nivela. Aos mais desavisados e descuidados, por vezes, traga. A piscina carece de vida. É estéril. O mar, ao contrário, confunde-se com a própria gênese de todos os seres. Perfeita simbiose. Daí seu encanto. Daniela e suas águas tranquilas ou a Praia Brava com todas aquelas ondas a chicotearem, com força, as rochas. Inúmeras e belas faces de uma mesma moeda. A piscina, apesar de toda languidez, peca pela falta de desafio. O mar, ao contrário – talvez embalado pelo canto de suas sereias –, é instigante. Mexe com os brios do exímio nadador e atrai o olhar dos que ainda se apaixonam. Saudade do mar e dos amigos...