Translate

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O PIOR CEGO


O PIOR CEGO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Ainda guri, já ouvia o velho ditado: “o pior cego é aquele que não quer enxergar”. Lá se vão mais de quarenta anos, porém reforço a convicção de que o dito popular segue valendo. Talvez, mais do que nunca. Por vezes, fica a sensação de que vivemos numa terra de “cegos”. Tem sido muito comum nos depararmos com pais tomados de uma cegueira senão total, quase que completa. Apesar do discurso recheado de uma aparente autoridade e ascendência sobre o filho, este último reina absoluto dentro de casa. É ele quem, de fato, dita as regras. Sua palavra soa como verdade, em que pese todos os indícios a denunciarem exatamente o contrário. As vontades e manias do guri – por vezes, quase um homem – prevalecem, sob o risco de a família entrar em “conflito”. Triste e perigoso engodo. A demora de tais pais em detectarem e enfrentarem a falta de limites do rebento, muito provavelmente redundará, isto sim, numa tragédia familiar. Prato cheio para a delinquência, uso e/ou tráfico de drogas, mentiras reiteradas, irresponsabilidade, falta de compromisso, preguiça doentia, entre tantos outros dissabores. A escola, por certo, paga caro pela omissão e condescendência dos pais “cegos”. Contudo, o maior preço a ser pago é pela própria família. Caberá a esta, afinal, conviver por muitos anos, décadas e mais décadas, com os “pesadelos” por ela mesma criados e alimentados. Pesadelos que fazem chorar e sofrer. Pesadelos que levam à morte física, mental e espiritual. Pesadelos que, quase sempre, extrapolam os limites da própria casa, respingando em muitas outras famílias, com ou sem grau de parentesco. Pesadelos que aniquilam com a ideia de “lar”, pois que a tranquilidade, o diálogo, o carinho, a estabilidade, a paz, a felicidade duradoura e, acreditem, até mesmo a esperança, cedem lugar à desconfiança, à mentira, ao pranto, à enfermidade do corpo e da alma, ao medo, à violência... Pesadelos que comprometem e, não raras vezes, põem a perder as relações, mesmo aquelas mais profundas. É triste e preocupante observar, por exemplo, pais desautorizando decisões das instituições de ensino, mesmo que flagrantemente justas e juridicamente perfeitas. É vergonhosa a postura irresponsável de pais que se tornam reféns dos caprichos e baldas de crianças e adolescentes. Não sabem, ao que parece, os pais “cegos”, que ao serem omissos e coniventes frente à falta de respeito do filho pela hierarquia personificada na pessoa do professor, nada mais fazem do que abrirem mão da própria autoridade. Pais que pensam, agem e, não raras vezes, vestem como crianças e adolescentes. Tamanha aberração tem gerado imensuráveis prejuízos à teia social. Filhos e filhas paridos sem a existência dos modelos e referências indispensáveis. Naus sem bússola. A inexistência de um “norte” claro, firme e convincente tem engendrado seres vazios do ponto de vista ético e moral. Pais “cegos” temem em dizer não, mesmo quando necessário. Pais “cegos” criam uma redoma em torno do filho, onde, parecem acreditar, não há lugar para a dor e frustração. Formam o guri para o “mundo”, não o que desejamos, mas um mundo “paralelo”, onde o hedonismo, o materialismo exacerbado, o individualismo e a torpeza prosperam. Ironicamente, o mesmo mundo que eles, os pais “cegos”, paradoxalmente condenam em seus discursos bem elaborados. Cabe à escola, também, tensionar para que o olhar míope ou até mesmo tomado pela catarata retome a acuidade visual. Para isso, mister que haja coragem, disposição e convicção por parte das instituições de ensino. Tamanha e complexa “operação cirúrgica” requer paciência, resiliência, ética, competência, estudo, planejamento, coerência, capacidade para ouvir e auscultar inclusive o “não-dito”. Requer, sobretudo, amor.  

Veja também:

http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=3d26f41ba4930f6ebacfe65998bc2d0f

terça-feira, 29 de outubro de 2013

SALADA DE FRUTAS


SALADA DE FRUTAS
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Apesar de estranho, o título acima vem ao encontro da tentativa de reunir neste texto todos os temas apresentados pelos grupos do Terceiro Ano do Ensino Médio do Instituto de Educação São Francisco, durante o mês de outubro de 2013. Desafio complexo, contudo factível. O primeiro tema diz respeito à cidadania. Os educandos foram unânimes ao reconhecerem que ser cidadão pressupõe efetiva participação social, onde direitos e deveres caminham juntos. Chamaram atenção para a visão que se tinha sobre o termo na Grécia Antiga, onde o que se via era o exercício da cidadania limitado a um grupo muito reduzido de pessoas. No que tange ao Brasil, os alunos fizeram memória do período da Ditadura Militar (1964-1985), onde o Estado cerceou muitos dos direitos básicos, adotando práticas autoritárias. Foi abordado, ainda, acerca da atual Constituição brasileira, chamada de “Cidadã”, enfatizando-se a distância entre a previsão legal e a realidade vivenciada por enormes parcelas da população. Outro tema trabalhado pelos grupos diz respeito à cidade. Foi dito que ao longo da história as cidades foram crescendo e se tornando cada vez mais complexas, especialmente a partir da Revolução Industrial. Lembraram a importância do planejamento frente à expansão dos centros urbanos, observando a enorme distância entre o que se vê nos países desenvolvidos e nos subdesenvolvidos. Ao contrário dos primeiros, no Sul – salvo exceções – faltam investimentos no transporte, saúde, educação, saneamento básico, entre outros. Trataram, também, acerca das chamadas “cidades globais”, além de diferenciarem as grandes metrópoles, subdividindo-as em alfa, beta e gama. Reforçaram o conceito de Rede Urbana, ou seja, a complexa “teia” de relação entre as áreas mais urbanizadas. Quanto ao Brasil, destacaram a cidade de São Paulo, onde questões históricas, políticas e econômicas contribuíram para fazer daquela metrópole uma referência não apenas nacional, mas mundial. Os grupos trouxeram à tona, ainda, o sério problema da moradia no Brasil, problema este agravado pelo baixo poder aquisitivo e pela especulação imobiliária, intensificando o clima de tensão e contribuindo para a eclosão de movimentos que, mesmo à margem da lei, buscam redimensionar áreas urbanas e rurais, quase sempre sem as mínimas condições de assentamento. Finalmente, os grupos deram destaque para a capital gaúcha, onde fizeram menção aos chamados “gargalos” que têm assolado Porto Alegre, problemas como saneamento, saúde, transporte, educação e segurança. Deixaram claro que o Poder Público tem deixado a desejar em relação aos serviços prestados à coletividade, acirrando o sentimento de insatisfação e desconfiança da população. Para coroar as falas dos alunos, alguns grupos ficaram responsáveis por ilustrarem algumas das questões trabalhadas em aula através de gráficos. Estes surgiram a partir de enquetes feitas junto aos eleitores, reforçando a impressão já retratada ao longo das apresentações.  


                Fica o agradecimento a todos os grupos pelo esforço e dedicação. Sugiro que estudem bastante e deem atenção especial aos termos em negrito. Havendo dúvidas, contatar, preferencialmente, por e-mail. 

sábado, 26 de outubro de 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

AMOR E SEXO


AMOR E SEXO
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Diz a lenda que Amor e Sexo nasceram juntos. Gêmeos, portanto. Univitelinos, segundo reza a história. Daí tamanhas semelhanças, a ponto de, por muitos, serem confundidos. Persiste a dúvida: quem nasceu primeiro? Os românticos preferem acreditar ter sido o Amor. A maioria, entretanto, diz ter sido o Sexo. Até porque, é inegável, este último é mais “ligeiro” do que o Amor. Os irmãos apenas riem da celeuma criada pelos homens. Para eles, ao que parece, o que menos importa é a cronologia humana. Entre os irmãos, tamanhas vaidades passam de largo. Admitem, isto sim, serem diferentes. Deliberadamente, inventam, por vezes, confundirem os mortais. Hora vestem-se da mesma forma, hora trocam de roupas entre si, para desespero total dos que tentam identificá-los. “É o Amor!”. Não, era o outro. “É o Sexo”. Errado, se tratava do Amor. Bem-feito para os homens, quem mandou tivessem a mania de compará-los. Salvo os poetas, todos os demais teimavam em atribuir aos irmãos características e atributos distintos. Dizem: “o Amor é assim e o Sexo é assado...”. Por que a insistência em separá-los em “caixinhas” estanques? Umbilicalmente ligados, os irmãos gostavam, isto sim, é de andarem juntos. Um quebrava o galho do outro. Não foram poucos os momentos em que o Sexo precisava fazer-se presente e na hora “h” falhara... Quando tudo parecia perdido, lá estava o Amor para substituir o irmão. Perfeito. Todos saíam satisfeitos. Às vezes, era o inverso. É verdade que, um que outro desconfiava da artimanha dos manos. Esperava o Amor, vinha o Sexo. Esperava este último e quem dava as caras era o primeiro. Experienciaram alguns apuros. A título de safar-se, existiram momentos em que o Amor teve que vestir a camisinha do irmão, sob o risco de perder a companhia. Todavia, os instantes mais tensos foram aqueles em que o Sexo precisou se passar pelo Amor. Este tinha lá seus trejeitos, difíceis de serem imitados pelo irmão. Bastava, às vezes, um olhar mais acurado para desmascarar o Sexo. Este era mais debochado, inoportuno, expansivo, direto. O Amor, por sua vez, era – exceto quando tomava umas que outras – mais introspectivo, discreto, paciente, meticuloso, ponderado do que o irmão. Apesar das diferenças apontadas, no fundo, Amor e Sexo nutriam uma salutar inveja recíproca. O Amor bem que queria ter a espontaneidade e a “ginga” do irmão. Este, por sua vez, muitas foram as vezes que sentiu falta da prudência do Amor. Devido à pressa, entrara em becos e buracos errados, sujos e perigosos. A própria existência já vira ameaçada! O mais curioso é que, acredite, o Sexo parecia não aprender. O tempo passara e ele continuava um cabeça-dura. O Amor não. Este dava mostras de que aprendia com os erros. Verdade que se diga, sofria dias a fio. Depois passava. O Sexo era mais sanguíneo. Explodia, praguejava, mas logo-logo se acalmava. Era como se nada tivesse acontecido. Raramente guardava mágoa. Virava a página e pronto! O Amor, ao contrário, levava algum tempo para digerir os problemas. A serenidade se mostrava incapaz de disfarçar a tristeza e a decepção. Amor e Sexo. Dois irmãos que aprenderam a viver e a conviver. Não conseguiam vislumbrar outro mundo senão aquele onde, feito siameses, se completavam. Enquanto isso, inócua e tolamente, os homens seguiam discutindo: quem nascera antes, Amor ou Sexo?  



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

EAD na EJA


EAD na EJA
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Mais do que um amontoado de letrinhas, a EAD na EJA suscita uma série de reflexões. A Educação a Distância tem se proliferado pelos quatro cantos do país. Como quase tudo, tem lá seus “prós” e “contras”. Por um lado, a EAD na Educação de Jovens e Adultos representa a oportunidade para muitos de concluírem uma ou mais etapas do ensino sem os contratempos do modo “presencial”. Bom, talvez, para aqueles trabalhadores expostos a cargas extenuantes de exercício laboral ou mães envolvidas com seus recém-nascidos, por exemplo. Bom talvez, para aqueles poucos autodidatas, capazes de – em que pese inexistir acompanhamento sistemático do educador – darem conta das ciências e conhecimentos construídos ao longo da história. Por outro lado, a EAD na EJA pode representar, mesmo que tácita e não reconhecidamente, uma espécie de pérfida e inaceitável “higienização” do ambiente escolar, onde se varre para baixo do tapete ou do Mouse Pad alunos considerados indesejados. Uma estratégia aparentemente interessante de mitigar problemas como indisciplina, violência, infrequência e evasão, tão comuns nos ambientes escolares. O asseio dos laboratórios de informática permite ao professor que evite sujar as mãos com o pó de giz, além de, quem sabe, aliviar a “tensão” decorrente do contato direto e diário com o educando. Este, muito comumente, é visto como um “problema” e não como um “desafio”. Melhor, portanto, lança-lo para além dos muros da escola. Questões legais, burocráticas e formais como percentual mínimo de frequência são facilmente resolvidas mediante o recolhimento de alguns “trabalhinhos” devidamente arquivados na pasta do aluno. A presença física deste último, portanto, é dispensável. Cria-se, talvez, com a EAD na EJA um ambiente tido como ideal. Para quem? No fundo, inexiste escola ideal, assim como também não existem alunos, professores, pais e gestores ideais. Assim, mister é que se pense numa instituição de ensino para pessoas não tão perfeitas. Baixinhas, altinhas, gordinhas, magrinhas, ingênuas, maliciosas, honestas, pouco confiáveis, ascetas, viciadas, politizadas, alienadas, atletas, sedentárias, polidas, pouco amáveis... Enfim, pessoas. Estas, nem sempre ou quase nunca se encaixam nos nossos “esquemas”. Ainda assim, insubstituíveis, pois são elas que dão sentido ao “eu” e a tudo o que, direta ou indiretamente, orbita em torno do “nós”, inclusive a escola. Educação de verdade e de qualidade não deve prescindir da presença do educando. A “distância” põe em risco o vínculo, matéria-prima fundamental no processo ensino-aprendizagem. Cabe à escola, portanto, servir de força centrípeta para o convívio, mesmo que às vezes conflituoso. Sejam as diferenças bem-vindas, assim como os pontos de vista e as idiossincrasias de todas as espécies. Escola sem alunos soa como palco de artistas sem plateia, gestante sem feto, oceano sem sal. Os educandos estão para a escola, assim como o orvalho para flor. Complementam-se. A EAD na EJA deve ser vista com cuidado, não simplista e radicalmente enjeitada ou descartada. Pode ser útil, desde que aplicada e voltada para públicos específicos. Deve ser a exceção, não a regra. Critérios claros e sensatos devem ser construídos, sem perder de vista a qualidade do ensino ofertado. Deve prevalecer o interesse da coletividade, pois é por causa dela que a escola deve pulsar. A EAD na EJA deve ampliar e não cercear o sagrado direito de acesso e permanência do educando nos assentos da escola.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PEDRAS TAMBÉM CHORAM


PEDRAS TAMBÉM CHORAM
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Acostumado à aspereza da vida, não pensava que choraria. Ao menos, daquela forma. Copiosamente. Teria o barulho do chuveiro elétrico disfarçado os suspiros e grunhidos vindos da alma? Temia que não. Afinal, tantos anos de farda e serviços prestados aos aparelhos repressores do Estado contribuíram para forjar uma espécie de máscara. Rude, mas pelo visto superficial. Não era tão forte assim. O box do banheiro servira talvez de escudo, não contra arruaceiros, baderneiros, torcedores tomados pelo fanatismo doentio. A única turba naquele instante era das mais profundas emoções e sentimentos que brotavam do peito. Este doía a ponto de temer pelo pior. Não se surpreenderia caso quedasse fulminado por um ataque cardíaco. Beirava os cinquenta, dormia e alimentava-se mal. Terreno propício às enfermidades do corpo. A proximidade da aposentadoria não fora suficiente para dar-lhe tranquilidade nem tampouco confiança no porvir. Dia após dia, noite após noite, pensava na família, em especial no filho mais novo. O mesmo que agora se tornara a fonte de todo aquela dor. As lágrimas corriam torrencialmente, confundindo-se com a água que caía por sobre a cabeça. Vez por outra, a imagem da esposa afogada no interminável choro só fazia aumentar o mal-estar. Onde errara? A fatídica pergunta o atormentava. Não conseguia, por maior que fosse o esforço, enxergar a luz no final do túnel. Tudo parecia perdido. Feito corvos, pensamentos nada otimistas, rasantes, sobrevoavam a cabeça do militar. Teriam sido cinco, dez, quinze minutos? Prolongara o banho mais do que de costume. Tentara mentalizar o trajeto entre o banheiro e o quarto de casal. O que diria se encontrasse alguém pelo caminho? Estava confuso. Optara pelo silêncio. Antes este do que palavras pela metade, quase sem nexo. Torcia para não cruzar com a mulher ou com os filhos, especialmente o mais novo. Sentia-se traído. O tiro saíra pela culatra. Tudo às avessas. Prendera larápios, abordara prostitutas, enfrentara homicidas, tiroteara com quadrilheiros... Afeito ao mundo do crime e da contravenção, sem com eles deleitar-se. O convívio com o submundo não fora suficiente para que se deixasse levar pelo canto da sereia. O dinheiro aparentemente fácil jamais o atraíra. O pouco que tinha era fruto dos longos anos de trabalho. A lisura de caráter sempre fora seu maior patrimônio, sua maior herança. Agora vinha o guri para jogar por terra tudo o que ensinara. Maldita hora que comprara aquele computador. O filho varava a noite dedilhando o teclado, metido nas redes sociais. Nelas, se transformava. Tentava parecer o que, no fundo, jamais fora. Afinal, de onde tirava aquele vocabulário chulo? Aquelas abreviaturas um tanto que sem sentido? Não serviu, por certo, a casa de escola para tamanho desmando. Triste ironia. Pai militar e o filho lhe apronta. O corredor parecia não ter fim. Nunca o quarto lhe parecera tão distante. A mulher já estava sobre a cama, virada para o lado contrário ao da porta. Talvez dormisse. Mais provável que não. O edredom floreado denunciava o soluçar da companheira. Não sabia como acalentá-la. Não se dá o que não se tem. Não tinha paz, como oferecê-la? Aceitaria a esposa mais sofrimento e dor? Não suportaria. O policial optara por apenas deitar, sorrateiramente. Ele fingia pensar que ela dormia. A mulher, por sua vez, fingia acreditar que ele pensava estar ela dormindo. Confusão de ideias. Entrara para baixo das cobertas. Entre eles, o silêncio. Não demorou, o choro voltou. Fazia lembrar o Vesúvio a inundar Pompeia. Impossível controlar. Ambos se entreolharam em meio às sombras do quarto. As silhuetas iam ganhando vida à medida que as lagrimas dos dois se encontravam. Nenhuma palavra. Pudera! O abraço mútuo se mostrara suficiente para aplacar a dor de ambos. Reacenderam eles não apenas o amor, mas também a esperança.  


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ÍNDIO VELHO (2)


INDIO VELHO (2)
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                O índio, remanescente da tribo guarani, parecia indiferente ao avanço da idade. Aliás, para ele o tempo escoava de maneira distinta do juruá. Jamais usara, por exemplo, relógio. Exceto a sucessão das estações e as mudanças de lua, o índio velho não atentava para o calendário. Janeiro, julho, dezembro... Pouco lhe diziam os meses do ano ou os dias da semana. Todo dia era de trabalho e de descanso. Todo dia era sagrado, portanto, dia de gratidão. Ao longo da vida, muito mais agradecera do que pedira. Por que seria diferente? Afinal, tinha tudo: o que comer, o que vestir, onde inclinar a cabeça. O índio velho, sentado sobre a cadeira de vime, sorvia o mate quente enquanto o olhar parecia distante, talvez acompanhando as lembranças de tempos idos. Não tinha do que se arrepender. Jamais prejudicara, intencionalmente, alguém. Não matara, não furtara, não roubara, não cobiçara o que é de outrem, não se apropriara de bem alheio (nem privado e nem, tampouco, público)... Acreditava o índio não fazer nada mais além do que era de sua obrigação. Aprendera com os antepassados assim. Vez por outra, fixava o olhar num que outro ponto, como que a observar meticulosamente um determinado objeto. Não muito adiante, uma criança parecia exigir do adulto, talvez seu pai, um brinquedo. Frustrado em sua intenção, o pirralho mais parecia um cavalo xucro, pinoteando daqui e dali. Diante da cena, o índio velho só abanou a cabeça, talvez em sinal de desaprovação ou, quem sabe, de desesperança quanto às futuras gerações. Tomou-lhe conta certo rubor, envergonhado que estava por ver a carroça posta frente aos bois. Ao ver o adulto refém dos caprichos da criança, sentiu uma espécie de ânsia, um mal estar a invadir o estômago. Não entendia e menos ainda aceitava a ditadura do piá. Outro dia ainda, um sobrinho vindo das bandas da capital, noticiara que não se podia mais dar uma palmada sequer no guri ou guria levados. O índio pensou, pensou... Não disse nada. Engoliu em seco a incredulidade. Fora criado em meio às leis advindas dos costumes, de pai para filho. Cabia ao último obedecer e respeitar o primeiro. Simples assim. A obediência e a hierarquia jamais foram fonte de rancor entre seu povo. Ao contrário. Era um tempo em que a tribo paria crianças sadias e felizes, emocionalmente equilibradas, respeitosas, disciplinadas, atentas, ágeis, comprometidas com o grupo, solidárias. Crianças que corriam, brincavam, “morriam” aqui para reaparecerem logo ali adiante. Apesar de uma que outra rusga, típica da idade, desconheciam a violência e ardilosa traição. Bastava um olhar do adulto e pronto! Os pequenos se aquietavam. O índio velho tinha dificuldade de compreender o que chamavam de “modernidade”. Como entender o profundo vazio das crianças de hoje? Têm, muitas vezes, tudo o que o dinheiro possa comprar, porém mais parecem um vale de ossos secos. Têm dificuldade para sentarem, escutarem, se concentrarem. A obesidade é não apenas do corpo, mas da alma. O índio velho nascera num tempo em que prática e palavra caminhavam juntas. Hoje, ficava espantado ao ver muitos juízes, pastores, advogados, psicólogos, médicos, psicopedagogos, professores gerando filhos desgarrados, desalinhados, desatentos, hipocondríacos, viciados, mentirosos, arrogantes, violentos, maldosos, desleixados, preguiçosos... Uma espécie de infanticídio espiritual. Centenas, milhares, milhões de crianças “natimortas”. Pele, osso e Coca-Cola. Pouco mais do que isso. O índio velho, com o olhar ainda absorto diante da cena da criança raivosa, não dizia nada. Limitava-se a lamentar. Sobre ele, uma revoada de caturritas a desaparecerem no horizonte. 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O SETOR TERCIÁRIO


O SETOR TERCIÁRIO
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Ao longo da história da humanidade, os setores da economia ganharam maior ou menor destaque, conforme a época e o lugar. Assim, por exemplo, na Pré-História, a caça e a pesca (atividades extrativistas do Setor Primário) mereceram destaque. Já na Antiguidade, a agropecuária (também pertencente ao Primário) ganhou relevância, da mesma forma que na Idade Média. Com a Modernidade (entre os séculos XV e XVIII), o comércio (Setor Terciário) passou a ter enorme importância, daí falar-se em Revolução Comercial. A Idade Contemporânea trouxe consigo a chamada Revolução Industrial, inicialmente na Inglaterra e, mais tarde, em outras regiões do planeta. Com a contemporaneidade, o Setor Secundário, portanto, passou a ocupar lugar de destaque na economia. Hoje, em especial nos países desenvolvidos (Norte), o Setor Terciário, representado principalmente pelos “serviços”, tem ganhado espaço. Exemplo disso é o turismo, seja ele “natural” (quando a própria natureza garante, por assim dizer, os atrativos turísticos) ou “produzido” (quando a ação humana é a principal responsável pelos referidos atrativos). No Brasil, assim como na maioria dos países “emergentes” – como os do BRICS – o setor de serviços também vem sendo um dos mais importantes na composição do PIB (Produto Interno Bruto). O turismo em nosso país tem inegável importância econômica e social, por exemplo. Contudo, em que pese tamanha relevância, inúmeros são os problemas e gargalos que prejudicam tal atividade econômica. Um deles é a infraestrutura. Rodovias, portos, aeroportos, saneamento básico, segurança pública são alguns entre tantos pontos muito aquém do razoável, pontos estes que, sem dúvida, servem de limitadores e inibidores para a vinda e trânsito de turistas em nossas terras. Somado a isso, existem problemas conjunturais ligados ao câmbio (valorização ou desvalorização do real frente ao dólar), às crises internacionais, entre outros, que contribuem negativamente para o turismo no Brasil. Ainda assim, o Setor Terciário – como o turismo, por exemplo – tem sido responsável pela geração de empregos, trabalho e renda.
                Vimos em nossas aulas que inúmeros e inegáveis são os avanços no campo das relações trabalhistas. Muitos dos direitos hoje existentes são frutos de um longo e penoso processo, oriundos, portanto, das lutas das classes trabalhadoras. Apesar disso, verifica-se no Brasil, ainda, o trabalho escravo. Segundo dados oficiais, são mais de quarenta mil trabalhadores nessa situação. Apesar das diferenças entre o trabalho escravo hodierno e o de épocas pretéritas, algo existe de comum entre eles: o desrespeito a um princípio hoje indiscutível, o da dignidade da pessoa humana. As leis abolicionistas do século XIX não se mostraram capazes de romper com a discriminação, de qualquer espécie, nem tampouco de promover a igualdade social. Não por acaso, a exploração ignóbil e abjeta da mão de obra humana segue sendo uma triste realidade neste país.



sábado, 5 de outubro de 2013

TERCEIRÃO


TERCEIRÃO
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Mais uma Gincana que termina. Por um lado, alívio, pois só quem está envolvido com a organização da mesma sabe a carga de responsabilidade que ela representa. Por outro lado, alegria. Há muitos anos não via uma Gincana onde todas as turmas de formandos tenham se mostrado tão solidárias e cúmplices da felicidade alheia. Rusgas? Nenhuma que tenha chegado ao meu conhecimento. Ofensas, provocações, maus agouros? Nada, absolutamente nada. As turmas 31, 32 e 33 deram uma elogiável demonstração de civilidade. Belo exemplo a ser seguido por nós, adultos, acostumados que estamos a confundir “adversário” com “inimigo”. Ora, o primeiro nos faz crescer, amadurecer, melhorar. Não fosse nosso “oposto”, estaríamos condenados à modorrenta mesmice. O tensionamento é vital para que aprendamos a lidar com o “diferente”. Nossos formandos tiraram proveito de tal máxima. Defenderam suas respectivas bandeiras sem, contudo, rasgar as de outrem. Destacaram suas cores, sem espezinhar os demais matizes. Como esquecer os discursos das representantes de turma? Verdadeira lição de humildade. Perceberam os formandos fazerem parte de um mesmo “barco”, não o de Caronte, barqueiro do Hades. Os olhos tomados de lágrimas dos educandos revelavam um misto de contentamento e saudade. Felicidade pelo momento – mesmo que, para alguns, os números trazidos através do microfone não fossem aqueles desejados –, mas saudade, antecipada e profunda, pela proximidade do término do ano. Não um ano qualquer, mas do tipo especial, daqueles que calam na alma e na memória. Sabem eles que nunca mais desfrutarão de momentos com aquele. Última Gincana. Última turma. Último ano de São Francisco. Até das aulas de Geografia sentirão falta (é verdade!). Olharão para trás e lembrarão de cada canto do São Chico, dos professores, porteiros, auxiliares, padres... Não por acaso, as funcionárias da limpeza são chamadas de “tias”, tratamento quase sanguíneo, tamanha a afinidade forjada ao longo de quantos anos? Para muitos dos formandos, dez, onze, doze anos... Uma vida! Por muito tempo, para eles, o Instituto de Educação São Francisco, ou simplesmente São Chico, foi a segunda casa, quando não a primeira. Como todo lar onde transborda amor, muitas festas, mas também muitas cobranças. Quem ama exige. Saberão, no momento oportuno, reconhecer isso. O certo, ao ver o “Terceirão” fazendo a festa, é que estamos no caminho certo, em que pese todas as adversidades e intempéries. Formamos pessoas de bem, rapazes e moças que, ali adiante, serão trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães, homens e mulheres. Até então, nós os mais velhos, os tivemos “nas mãos”. Amanhã serão eles a nos governarem e protegerem. Daí o compromisso que temos em formarmos sujeitos capazes de construírem um município, estado, país e mundo assentados nos valores do Evangelho, onde prospere a paz, a solidariedade, a honestidade, o desenvolvimento sustentável e a justiça social. Parabéns aos alunos e alunas que fizeram da Gincana 2013 um momento especial. Parabéns aos pais que, direta ou indiretamente, contribuíram para o evento. Parabéns à Direção, professores e funcionários que, incansavelmente, não mediram esforços para o sucesso da Gincana. Parabéns ao “Terceirão”.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

INCOERÊNCIA


INCOERÊNCIA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Somos bons em algumas coisas. Uma delas é a de produzirmos profundas e interessantes incoerências. O mesmo Estado letárgico, omisso e incompetente responsável pelo flagrante sentimento de insegurança e impunidade, de forma pouco comum e intrigante foi célere em apontar suspeitos por alguns atos de vandalismo, enquadrando-os como práticas criminosas levadas a cabo por quadrilheiros e outros “tipos” penais trazidos pelo ultrapassado e ineficaz Código Penal. Prontamente, os ditos “órgãos de segurança” (para quem?) – mesmo que respaldados por mandados judiciais – invadiram casas e apartamentos, tomaram posse de documentos, computadores e, pasmem, até livros que pudessem facilitar as investigações, fazendo lembrar – por vezes – a Inquisição. Foram queimadas talvez não obras literárias, mas reputações de jovens e suas famílias. Honra, lisura ética, respeito e reconhecimento junto à comunidade, nessas horas, são lançadas no lixo, ante a falta de cuidado dos aparelhos repressores do Estado. A imprensa, acostumada a jogar para a torcida, quase sempre promove um verdadeiro linchamento público, mesmo que – do seu jeito, é claro – garanta o famigerado “contraditório”. A ação estatal promovida em desfavor de jovens como Matheus Gomes e Lucas Maróstica deve servir de reflexão. O que se defende aqui, por certo, não é a violência, a depredação do patrimônio público ou quaisquer outros atos atentatórios ao interesse (?) público. Devo lembrar, é claro, que interesses público e estatal não são sinônimos. Ainda mais neste país, onde o Estado historicamente se distanciou da vontade da maioria. Não por acaso, saúde, segurança e educação de qualidade, por exemplo, seguem sendo privilégio de uma ínfima minoria. Os jovens citados cometeram algum delito? Não sei e nem tampouco cabe a este humilde professor averiguar. Todo e qualquer crime deve ser investigado, respeitado o direito de defesa, e punido. Ora, o que se questiona, isto sim, é a incoerência do Estado. A pressa, “extraordinária”, do Poder Público em achar um “culpado” para o problema é que preocupa e desperta enorme desconfiança. Não por acaso, cheira à perseguição política, o que, diga-se de passagem, seria vil e inaceitável dentro de um contexto dito democrático. O mesmo Estado que se mostra incapaz de promover a paz, reprimir o crime, sufocar a corrupção nas próprias entranhas, inibir a “promiscuidade” político-partidária, garantir celeridade aos intermináveis processos, de repente, não mais que de repente, age de forma rápida e firme (será que justa?) contra algumas lideranças de movimentos sociais. Por quê? Tivesse o Estado igual “agilidade” e rigor frente aos desvios de recursos públicos, superfaturamentos, improbidades administrativas, “super-salários”, privilégios corporativos, enriquecimento ilícito... O Brasil seria outro. É violenta a ação que danifica o patrimônio público e também privado? Sim. É violenta a ação que imobiliza a cidade, o estado e o país, impedindo o livre trânsito de pessoas, por exemplo? Sim. É violenta a ação que agride símbolos reconhecidamente nacionais? Sim. Contudo, inexiste maior violência do que aquela que joga às traças a maioria de nossa gente. A maior entre as violências é a do fosso, em parte criado e reforçado pelo Estado, que alija incontáveis parcelas da população daquilo que lhes é de direito. Há mais grave violência do que aquela que ataca a esperança de um povo? Nossos jovens, como o Matheus e o Lucas, deveriam ser o retrato mais fiel da esperança. Querem, porventura, acabar com o que eles representam: a seiva da mudança, o poder de indignação e o grito dos excluídos?  

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

SALDÃO


SALDÃO
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Dia desses, uma amiga – através do face – usou a expressão “saldão” ao se referir a um encontro ocorrido numa conhecida Universidade do interior do Rio Grande do Sul. Nele, dizia ela, muitas pessoas ligadas ao ensino. Principalmente professores. O que mais se viu, prosseguiu minha amiga, foi discurso. Para todos os gostos e de todos os calibres. Indiscutível e invejável a capacidade que temos em teorizar. Sobram chavões e teorias pedagógicas, da mesma forma que sobejam mirabolantes planos de estudo, PPPs, Regimentos, etecetera e tal. Contudo a prática... Fosse a escola pública uma empresa, por certo estaria fadada ao fracasso. Falida. Não sobreviveria ao mercado, pois que seu produto careceria de qualidade e suas metas raramente seriam alcançadas. As raríssimas exceções só serviriam para confirmar a regra. Qual empreendimento resistiria à falta de rigor e clareza de seus objetivos? Uma empresa destituída de comando, hierarquia, respeito às regras e rotinas indispensáveis ao bom funcionamento. Assim, em geral, tem sido a escola pública. Pontualidade, competência, coerência, humildade, humanismo... Alguns entre tantos atributos que têm passado de largo da escola pública. Democracia tem sido sinônimo de desleixo frente aos princípios mais elementares da Administração Pública. Interesses pessoais, muitos deles escusos, têm se sobreposto às necessidades coletivas. Repete-se no ambiente escolar muitas das pérfidas relações de apadrinhamento, troca de favores, bem como a confusão entre público e privado. Pais e educandos, em regra, servem apenas como “bucha de canhão”. São lembrados na hora de “pagar a conta”, comer jiló ou, então, em momentos onde urge a participação da famigerada “comunidade escolar”. Na eleição de diretores, por exemplo. Como que, por passe de mágica, a comunidade que ainda ontem era privada da real participação junto às decisões administrativas, pedagógicas e financeiras da escola, é “convocada” a fazer parte do processo. Enchem-se os pulmões com expressões do tipo: gestão democrática, participação coletiva, cidadania, etecetera e tal. Contudo, na hora do “vamos ver”, é a minoria quem decide. Há muito, a escola pública tem sido uma verdadeira Babel. Confusão de discursos, interesses e propósitos. Comum é vermos Direções sem direção, completa e flagrantemente perdidas em meio à desorganização, indisciplina, baixo rendimento, escassez de recursos, falta de professores. A (ir)responsabilidade, por certo, não deve recair apenas sobre o colo da instituição de ensino. Cabe, também, ao Poder Público, aos pais, aos educandos. É um problema coletivo, cabendo a todos, portanto, resolvê-lo. Como? Inexistem receitas. O certo, porém, é que as respostas serão achadas não em discursos, mas em práticas efetivas. Discursos, palavras de ordem e chavões têm servido, sobretudo, para alavancar pretensões pessoais e/ou de determinados grupos na ocupação, às vezes vitalícia e hereditária, de postos junto a sindicatos, conselhos e similares. Históricos cabides de emprego, trampolins político-partidários e moedas de troca. Neles, feito traças e cupins, alguns se arraigam, se escondem. O estrago, como se sabe, é grande. A saída para a grave crise no ensino passa pela real valorização dos principais atores: professores e alunos. Aos primeiros, melhores salários, apoio pedagógico, infraestrutura adequada, planos de carreira que privilegiem o “retorno” junto ao contribuinte (é quem paga a conta...). Aos alunos, acolhimento, respeito às diferenças, compromisso com a aprendizagem.


QUATROCENTOS


QUATROCENTOS
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Quatrocentos anos! Quatrocentos! A idade da figueira impressiona, apesar de saber que existem outras árvores, da mesma espécie ou não, com mais primaveras ainda. No meio da mata, ou do que dela restou, encravada em Cachoeirinha, a figueira chama atenção não apenas pela quantidade de anéis, mas também pelo tamanho e espessura do tronco. No meio deste, uma enorme passagem, por onde passa, tranquilamente, o corpanzil de um homem médio. Quanta coisa não viu e ouviu a figueira? Quantos abraços, tratos e destratos? Quantas carícias, juras de amor, promessas cumpridas ou não? Quantos criadores e criaturas? Maus e bons? Gente de todo gênero, etnia e credo? Letrados ou analfabetos? Empresários, operários, desempregados e mendigos? Religiosos, agnósticos, carcereiros e bandidos? Sãos, doentes e sarados? Sorridentes, carrancudos, simpáticos, expansivos e tímidos? Toda espécie de gente. Quatrocentos anos! A cidade sequer sonhava em existir. Mato para todo lado e, com ele, uma incontável variedade de espécies. Imensurável complexidade encerrada numa única palavra: Mato. Neste, a figueira fixou lugar, enraizou. Apesar do tamanho, socializou o espaço com cipós, bromélias e samambaias. Sobre e sob seus galhos fortes e densos, animais de toda ordem passaram e seguem passando. Mais escassos do que outrora, é verdade, afinal muitos não resistiram à barbárie civilizatória. Diante do olhar silencioso, nem por isso omisso ou indiferente, da figueira, os mais diversos seres se cruzaram, procriaram, se serviram ou foram servidos como alimento, sem espaço para culpa frente à grande “Mãe”. Não pode haver pecado onde inexiste a maldade. Não pode existir pecado onde inexiste o homem. A figueira, antes da chegada do juruá, sentia-se segura, como elefante em meio à savana. Hoje é diferente. A placa metálica próxima a ela, nem de perto lhe transmite confiança e nem tampouco otimismo frente aos dias vindouros. Feito certidão de nascimento, não é garantia de quase nada. Ora, se o homem mata os de sua própria espécie, o que esperar em relação às demais? A figueira teme por ela e pela mata. Receia pelo preá, capivara, serpente, formiga, sapo, beija-flor... Pouco lhe adianta a pomposidade do nome: fícus guaranítica. Prefere o apelido, ainda que tosco: “mata-pau”. Assim como o simpático cacique guarani a ciceronear o grupo de curiosos, a figueira por vezes se sentia peça de museu. Admirada, mas daquela espécie de admiração incapaz de mover o juruá a transformar, profunda e verdadeiramente, suas ações. Admiração burguesa, inócua, infértil, portanto, contrária à natureza da própria figueira. Esta nasceu para frutificar e ao fazê-lo garante a sobrevivência, dela e das demais moraceaes.  Enquanto o juruá retém os frutos, a figueira os partilha. Ironicamente, ele se “vai” – quase sempre cedo –, ela permanece. A figueira fica a observar quem a observa. São formas distintas de se ver o mundo. O juruá costuma querer conhecê-la a partir da copa, por isso olha para cima e, quase inevitavelmente, deixa escapar um “ohhhh”. Não sabe ele que a grandeza da figueira reside no chão, na terra. Feito o iceberg, grandioso é o que não se vê, exceto pelos olhos da alma. O juruá, talvez, tenha perdido a sua. A figueira olha o mundo de outra forma. Melhor, de outras formas, sem que uma aniquile ou dispense as outras. Vê o mundo por todos (?) os ângulos: de cima, de baixo, do nascente, do poente, do sul, do norte... É um olhar “feminino” na essência. Ao contrário do juruá que olha para o céu e o reverencia através de palavras vazias, deixando de lado os mais elementares valores “terrenos”, a figueira lança um olhar que envolve e se envolve. Seu olhar jamais passa em branco. É, como diriam muitos juruás, um olhar verdadeiramente cristão. A figueira olha e acolhe. Para maioria, olhar de Monalisa, indecifrável. Para o velho cacique, olhar familiar. Deixou-se abraçar pela figueira numa invejável – e, para o juruá –, incompreensível e inalcançável simbiose. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

NENA, DODA E ROSA


NENA, DODA E ROSA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Eram três. Inseparáveis. Não eram poucos a afirmarem serem elas uma só. Nasceram juntas, lá para as bandas do limite entre os dois estados mais meridionais do país, contudo pertenciam a épocas distintas. Siamesas só na formalidade cartorial, pois que na vida eram terra e mar, noite e dia. Nena parecia jamais ter crescido, pois que eterna e teimosamente guria. Conservava, ainda, os cachos daqueles tempos. Doda, por sua vez, transpirava uma espécie de adolescência duradoura, mal escondendo a sexualidade à flor da pele. Rosa, por fim, pousava de madura, em que pese os incontáveis “escorregões” a aproximá-la das outras duas. Univitelinas, mas – por vezes – diametralmente opostas. Nuances da feminilidade num único corpo. Incompreensível para alguns, para elas não. Compreensível, natural e necessário. Um só invólucro para tempos e experiências tão distantes. Amálgama de sentimentos, memórias e desejos. Alguns deles pueris, outros nem tanto. Alguns deles ingênuos, outros carregados de malícia. Pecaminosos ou não, aos olhos de outrem, porém todos sinceros. Cinco, quinze ou cinquenta. Pouco importava a cronologia humana. Sentiam-se senhoras do tempo, por ele não se deixando subjugar. Enquanto Nena ainda brincava com a boneca de pano e, diante da chuva, lançava nacos de sabão sobre o telhado da casa, Doda se deleitava com a leitura dos livros desbotados e de capa dura, recheados de príncipes e princesas, fadas e duendes, mocinhos e bandidos. Rosa, por sua vez, muito comumente ficava a se perguntar o porquê de todas aquelas atas, ofícios, pareceres e resoluções. Às vezes, admitia, sentia uma ponta de ciúmes e inveja da Nena e da Doda. A maioridade tinha lá suas vantagens, é verdade. Quais? Não sabia ao certo. Por sinal, as certezas há algum tempo deixaram de ser amigas. Veja só, mais uma vez se via a lamentar. Nena e Doda, se por um lado gozavam da seiva jovial, por outro, desconheciam muitos dos amores vividos, do enlace dos corpos e das carícias trocadas. Afinal, a vida é assim mesmo, cheia de idas e vindas. Feito as ondas do mar. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

MENDICÂNCIA PEDAGÓGICA


MENDICÂNCIA PEDAGÓGICA
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

               

                Ser professor é tarefa árdua. Ser professor de escola pública, mais ainda. Ser professor de escola pública estadual do Rio Grande do Sul é quase uma tragédia, quando não caso de polícia. O que estão fazendo com os educadores? A situação é para lá de desesperadora. Salários aviltantes (abaixo dos já parcos valores garantidos em lei), condições de trabalho aquém do razoável, jornadas de trabalho extenuantes, estruturas físicas das escolas deterioradas, alunos desestimulados, pais cada vez mais omissos... As exceções só comprovam a regra. Frente ao dantesco quadro, o que se vê é um governo absoluta e perigosamente perdido. Discursos e promessas não faltam. A práxis, contudo, é escassa. Incompetência, inoperância e ineficácia se misturam nesse triste caldeirão da desesperança. O professorado acaba por ser penalizado várias vezes. O é quando se depara com os valores pífios trazidos no contracheque, quando tem sua imagem maculada frente à dita “opinião pública”, sendo taxado de “chorão” e avesso ao trabalho. É penalizado, ainda, quando precisa assumir a responsabilidade pelo cumprimento de um calendário repleto de horas e dias letivos, sem a mínima garantia de qualidade. Fica o professor entre a cruz e o punhal. A estratégia dos “donos do poder”, ao que parece, tem surtido efeito. Desmobilizou a classe. Paralisar ou ter que trabalhar nos meses costumeiramente tidos como de férias? Criou-se no educador a síndrome da vítima. Esta, ironicamente, ao mesmo tempo em que sofre nas mãos do algoz, sente-se culpada. O servidor, ao mesmo tempo em que é “violentado” pelo Estado, sente-se culpado em desejar gozar momentos de prazer e alegria nos meses de verão. Pérfida e diabólica ironia. Há muito, neste país – e de forma muito particular neste Rio Grande – tem se criado e recrudescido uma espécie de autocomiseração por parte dos professores. Hora nos menosprezamos, hora nos menosprezam. Ser mediocrizado – e os valores pagos atestam de maneira inequívoca o desprezo pela classe – soa como “natural”, aceitável e plausível. Grande engodo. Por que não dispensar tratamento pecuniário similar (e vergonhoso!) a juízes, desembargadores, procuradores, médicos... Funções e rubricas orçamentárias diferentes? Sim, é verdade. Ainda assim, injustificável a oceânica diferença salarial em desfavor do magistério. A recomposição salarial dos professores é urgente e necessária. Sem ela, resta comprometida e impossível a busca da qualidade no ensino. Ninguém dá o que não tem. Como trabalhar conceitos como o da dignidade sem vivenciá-los? A situação do educador gaúcho é vexatória, degradante e desumana. Atenta contra a dignidade da pessoa humana e, portanto, contra diversos diplomas legais, nacionais ou não. Representa um tapa no futuro e lança por terra muitos dos sonhos e utopias. A mendicância pedagógica marginaliza não apenas o professor, mas todos os que dele dependem. Marginaliza a família do educador (sim, senhores governantes, o professor tem família!), assim como põe à margem, também, a comunidade escolar como um todo. Não por acaso, o ensino público vai de mal a pior. Pouco e mal se aprende. A flagrante mediocridade intelectual dos educandos é, por certo, resultante – em grande parte – da mendicância que assola o professor. É passada a hora de uma verdadeira, profunda e emergencial transformação no ensino destes páreos, mudança esta que passa, necessária e obrigatoriamente, pela real valorização profissional do magistério.   

ÍNDIO VELHO


ÍNDIO VELHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Falam alguns de um índio velho lá para as bandas de Caçapava. Dizem que é um figuraço, daqueles que só se encontra uma vez na vida. Costuma acolher a visita com a cuia estendida, pronta para a mateada. Os que o conhecem, descrevem o homem como um grande par de orelhas. É só ouvidos. Deixa quem o procura bem à vontade. Apenas escuta, ao menos de início. Ainda esses dias – segundo dizem – um sobrinho vindo da capital, um piazote mal saído das fraldas, estudante de Direito, sentara ao lado do velho e começou a falar sobre um tal de “garantismo”. A conversa girava em torno do assassinato de uma senhora, mãe de não sei quantos filhos, aposentada. Depois de morta, noticiavam, teria sido esquartejada. O ex-companheiro, réu confesso, teria alegado ciúmes para tamanho disparate. Enquanto falava, o sobrinho parecia não fazer questão de esconder certa complacência em relação ao criminoso. O índio velho só escutava. Dizia o rapaz que ao acusado deveria ser oportunizado o contraditório, a ampla defesa e a possibilidade de responder ao processo em liberdade, afinal era primário e tinha residência fixa. O tio, desacostumado ao palavrório acadêmico, ia sorvendo o chimarrão. Vez em quando, levantava os olhos por debaixo da aba do chapéu. Para o índio velho, fazer justiça era fazer o certo. Errou, que pagasse pelo erro. Por que tanto rodeio? Para que tanto estudo, pensava (mas não dizia...), se não era para resolver a questão? Sentia pena era da falecida. Pudesse, depositaria sobre o túmulo uma flor. Quando soube, pelo próprio sobrinho, que o bandido estava solto sob o beneplácito da Justiça, não entendeu. Até a erva pareceu amargar de uma hora para outra. Como assim? Noutros tempos, ai dele se olhasse atravessado para o pai ou desobedecesse a mãe. A vara corria solta. Jamais passara por sua cabeça a ideia de tirar a vida de alguém, menos ainda de perdoar quem o fizesse. O sobrinho ia, a cada espaço de tempo, usando novos conceitos e jargões jurídicos. Atrevera-se até usar latim. O índio velho não sabia se ria ou se dava uma camaçada de pau no guri. Não conhecesse o sobrinho, diria que este o estava ofendendo ou caçoando. Aos poucos o tio ia compreendendo o porquê da “distância” dos tribunais. Jamais pisara num. Não fazia questão, pois toda aquela gente vestida naquelas togas negras mais cheirava a enterro. Parecia-lhe outro mundo. Talvez por isso, não conseguia entender a “lógica” de quem anunciava a Justiça. Como fazer-lhe crer, homem vivido que era, que o certo era errado e o errado era o certo? Matar era errado. Punir o erro era o certo. Pronto. Simples assim, pensava o tio. Fora isso, era conversa fora. Enquanto o índio velho pensava, com os braços sobre a bombacha, o bacharelando tomava um laço da bomba. Virava daqui, virava dali, nada de fazê-la chiar. Via-se que o rapaz não levava jeito. Respeitoso, o tio fazia de conta nada reparar. Aos poucos, o sol, que até então os esquentava, ia se retirando. O índio velho, agradecido por mais um dia, parecia resignado. Não fosse a demora do sobrinho em devolver-lhe a cuia, sentia-se feliz. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

RELATIVO


RELATIVO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Tudo é relativo? Comum é ouvirmos opiniões – quase sempre pouco fundamentadas – afirmando que sim. Será? Ainda esses dias, estávamos conversando, eu e algumas colegas de trabalho, sobre pessoas que buscam fazer o que é certo, em conformidade com a ética. Não são poucas é verdade, porém raramente viram notícia. Tem sido comum, isto sim, ocuparem as páginas de jornais, revistas, redes sociais e programas de televisão fatos pouco elogiáveis, quando não completamente condenáveis. Mais vale, ao que parece, um enorme traseiro a dançar vulgarmente sob a batida ensurdecedora dos alto-falantes do que boas ideias. Mais rápido do que a luz, as “curtidas” no face se propagam quando da postagem de fotos comprometedoras e fofocas bisonhas. Mais do que nunca, a pobreza de espírito tem encontrado campo fértil para frutificar. Por vezes, o pretenso anonimato fomenta a calúnia, a difamação e a injúria. A liberdade de expressão, errônea e irresponsavelmente, tem sido confundida com a falta de limites. Pipocam ações judiciais em busca do dano sofrido na mesma proporção que surgem novas ferramentas virtuais a favorecerem as práticas delituosas. Comungam do mesmo leito, os sentimentos de impunidade e liberalidade. Dia após dia, o agir ético soa forasteiro, deslocado, estrangeiro. Um misto de impotência, revolta e tristeza. O relativismo vazio e doentio tem lançado na sarjeta os valores éticos construídos pela humanidade ao longo da história. Valores que não se confundem com a moral. Esta é volátil e difere, com muita frequência, de região para região. A ética, contudo, é estrutural e estruturante. Os valores que aqui se defende deveriam estar no alicerce atemporal de todas as culturas. Honestidade, lealdade, responsabilidade, solidariedade, compromisso com a verdade, alteridade... Valores que transcendem os limites do tempo, do idioma, da crença, do matiz político ou ideológico. Sem eles, toda e qualquer civilização está fadada ao fracasso, à guerra fratricida, à submissão. Como e quem (de)forma nossas crianças e jovens? É triste e desesperador vê-las caminhando em direção ao precipício, onde grassam as drogas, o egocentrismo exacerbado, a indiferença em relação à sorte alheia, a carência de vínculos duradouros e o apego exagerado ao “ter”. Uma geração, por vezes, sem rumo. Quem dará a ela o norte? Os pais ou, então, “terceiros”? A mídia? O mercado? Ao contrário de quem ama, o “mundo” está a prometer só prazer e satisfação. Oferece diante dos olhos de nossos filhos um belo “contrato”, repleto de sonhos e fantasias. Esconde, contudo, por detrás das minúsculas letras e notas de rodapé, as amargas e fatais contraindicações. Amar é acolher, elogiar, apoiar, mas também exigir. É dizer “sim”, mas também “não”. É auscultar o coração e decifrar o olhar. Amar é orientar, proteger e defender, sem, contudo, aquiescer com o erro ou com este condescender. O amor exige posicionamento. É comprometer-se. Amar e relativizar, apesar da aparente semelhança sonora, pouco têm em comum. O amor não transige com a falta de ética e tampouco dialoga com a “cultura de morte”. O amor não é relativo!



terça-feira, 17 de setembro de 2013

CRITÉRIOS, PARA QUEM?


CRITÉRIOS, PARA QUEM?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Para que e para quem servem os critérios? A primeira indagação – em se tratando de vaga nas escolas de Educação Infantil mantidas pelo Poder Público –, apesar de complexa, remete para a necessidade do Estado em garantir, primeiramente, aos mais pobres o acesso ao ensino obrigatório na primeira etapa da Educação Básica. Frente à oferta de vagas aquém da demanda, o ente público acaba por criar mecanismos “seletivos”, priorizando e privilegiando as classes de menor poder aquisitivo. Tal iniciativa fere, talvez, um importante princípio constitucional, o da igualdade, ainda mais em se tratando de um direito básico subjetivo, qual seja o da educação. O ideal, portanto, seria que o Estado desse conta de toda demanda da Educação Infantil. Contudo, ainda assim, surgiriam alguns problemas: qual a real demanda? Quais os investimentos necessários a serem previstos e disponibilizados no orçamento? Como conciliar tais investimentos sem comprometer o “fechamento” das contas públicas e a consequente responsabilização do gestor? O fato é que não se vive o mundo “ideal”, mas “real”. A pomposidade dos gabinetes e o luxo dos banheiros de juízes e promotores pouco têm em comum com o dia-a-dia da maioria dos mortais. O descompasso entre a realidade que se tem e aquela que se espera, muitas vezes joga por terra os critérios estabelecidos pelo Executivo quando da distribuição das vagas nas instituições públicas que ofertam a Educação Infantil. É cada vez maior o número de crianças que entram pela “porta dos fundos”, sem atenderem aos critérios pré-estabelecidos e respeitados pela maioria. É nesse contexto que entra em cena a indústria das liminares. As decisões prolatadas pelos magistrados, se por um lado atendem a uma pretensão muitas vezes justa e razoável, por outro reforça a cultura do jus sperniandi, onde quem “pode mais, chora menos”. Assim, não tem sido incomum somente as pessoas mais esclarecidas e afortunadas conseguirem um lugar ao sol, sob o manto da Justiça. Frente à tamanha incoerência, o Judiciário tem respondido por meio de alguns chavões para lá de desgastados, como aquele que diz que a Justiça só acorre a quem dela se socorre.  Portanto, não é para todos. É tão ou mais seletiva do que os critérios por ela condenados. Ora, se a raiz do problema está – por exemplo – nas leis, Portarias e Editais, sejam tais documentos legais atacados em sua gênese. Proíba-se, então, a publicação de regramentos que, mesmo em tese, afrontem direitos coletivos ou individuais. O que soa como inadmissível é, no meio da “partida”, mudar ou olvidar as regras do jogo. Na prática, penaliza todos aqueles que seguiram à risca o previamente estipulado. As liminares, comumente, representam um “fura-fila”, o velho “jeitinho” de se fazer as coisas. Mais do que uma pretensa “solução” tupiniquim, cheira a malandragem e, via de regra, ofendem o bom senso e a inteligência. Assim, os critérios – se válidos na origem – devem prevalecer. Aplicá-los “apenas” à maioria (olha só que contradição!) e desprezá-los em relação a alguns poucos, significa criar e reforçar privilégios, situação esta inaceitável. Os critérios devem servir para democratizar, ao máximo e dentro do possível, as escolhas, não para penalizar os que a eles se submetem. A segunda indagação: para quem servem mesmo os critérios? Apenas para os mais pobres e desavisados? Para todos? O próprio Judiciário não usa de critérios quando de muitas de suas decisões? Até que não se alcance o mundo “ideal” (nele, vale lembrar, o Judiciário seria dispensável...), precisamos resolver as questões do mundo “real”. Eis o desafio! Ao que parece, portanto, o estabelecimento de critérios (idade, renda, endereço, etc.) para a garantia de vaga na Educação Infantil das escolas públicas é, por assim dizer, um “mal necessário” e tomara provisório.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

SEMANA FARROUPILHA


SEMANA FARROUPILHA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Semana Farroupilha. Mais um momento para reflexão acerca do passado, mas, sobretudo, do presente. Ao que parece, não fomos capazes de aprender com o tempo. Assim não fosse, os ideais farrapos – quase sempre não ultrapassando o limite do discurso – pertenceriam tão-somente à história. Contudo, a igualdade e a liberdade, por exemplo, seguem pertencendo ao campo das utopias. Nosso querido Rio Grande caminha à margem do verdadeiro desenvolvimento, aquele capaz de distribuir renda e promover a felicidade e o bem coletivo. Até a esperança gauderia parece combalida frente à incompetência atávica dos “estancieiros” encrustados no poder – detentores de feudos em forma de secretarias, gabinetes, autarquias, agências reguladoras, etc. – em construírem alternativas capazes de alavancarem os serviços públicos. Por estas bandas do Sul, se gasta muito tempo, recursos e energia com as intermináveis campanhas eleitorais. As estratégias e planejamentos voltados ao interesse público são preteridas em favor dos conchavos partidários. A sigla destes páreos tem dado lugar à confusa e intragável sopa de letrinhas. PT, PTB, PSB, PMDB, PDT, DEM, PSDB, PPS, PR, PFL, PPS, PP, PCB, PSD... Haja guaiaca para sustentar toda essa gente e aplacar a gana voluptuosa pelas patacas do contribuinte. A preocupação com o preço do charque cedeu lugar à labuta diuturna na busca das moedas para a ração básica do vivente. Não bastassem os abusos do mercado, nós gaúchos precisamos alimentar, ainda, o mastodôntico Estado, pesado e ineficaz. Os tributos, feito o corvo de Prometeu, nos comem por uma perna, passando pelo fígado e acabando na/com nossa paciência. Quanta semelhança com o passado. A corrupção corre solta, de mãos dadas com a impunidade. Enquanto o Judiciário brinca de cabra cega, o sentimento de justiça e segurança se esvai. A verborreia togada causa asco, quando não passa em branco para o “grosso” acostumado ao trabalho duro para sustentar a prole. A corja engravatada e de paletó alinhado que, vez por outra, comparece às sessões legislativas, soa como estrangeiro aos olhos do pobre “índio”. O luxo e ostentação de palácios, tribunais, câmaras e assembleias ofendem a gauchada, esta acostumada à rudeza da vida. Não por acaso, não os tem por seus tais espaços. Por que então defendê-los quando de eventual “ameaça” vinda das ruas, da turba enraivecida?  O asseio pretendido pelos “estancieiros” não encanta. Desencanta, ultraja e maltrata. Verdadeiro fermento capaz de levedar o sentimento, ainda que sob a forma de uma quase invisível fagulha, de levante em nome de uma dignidade perdida, ou quiçá jamais conquistada. Sirva a Semana Farroupilha de instante, mais um, de contemplação, não a do tipo meramente romântica ou quixotesca, mas contemplação crítica, propositiva e revolucionária. Transformemos nossa apatia em façanha e que esta, por sua vez, sirva de modelo a toda a terra.  

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A DITADURA E A ESQUERDA NO BRASIL


A DITADURA E A ESQUERDA NO BRASIL
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A Ditadura Militar no Brasil, que se estendeu entre 1964 e 1985 – na prática, contudo, só voltamos a eleger (errado!) o presidente em 1989 –, esteve marcada pelo significativo crescimento da economia, mas, também, pelo cerceamento de importantes direitos, como o da liberdade de expressão. Tempos difíceis? Para quem? Por certo, para alguns, sim. À época, a participação política restava prejudicada, por exemplo, pelo bipartidarismo. A verdadeira oposição se dava à margem do sistema partidário. A dita “esquerda” no Brasil vivenciou momentos delicados, onde não foram incomuns a perseguição, a tortura e o ostracismo. O discurso combativo ao regime militar vinha ao encontro de importantes segmentos da sociedade. Parte desta, contudo, é bom que se diga, se mostrava simpática ao sistema implantado em 1964. Inexistia unanimidade de parte a parte. O tempo escoou e muitos dos antigos militantes de esquerda – após a chamada “redemocratização” – assumiram postos importantes em todas as esferas de poder, postos estes conquistados ou pelo voto ou pela “proximidade” com os donos do poder. Multiplicaram-se os cargos de confiança e funções gratificadas na mesma proporção que se deterioraram os já precários serviços públicos. Ao que parece, a memória dos equívocos tão condenados pela esquerda durante os “anos de chumbo” ficou perdida em meio às páginas amareladas dos livros de história. O discurso revolucionário de transformação das estruturas socioeconômicas esfarelou-se. Os descaminhos e práticas condenáveis do passado ditatorial seguem de vento em popa. Não menos comuns são a política de apadrinhamento, a compra de votos, as negociatas e os lobbies dos grupos econômicos junto ao Estado como um todo. Independência do Judiciário? Autonomia do Legislativo? Eficácia do Executivo? Apenas balela. O Estado brasileiro do pós-Ditadura guarda mais semelhanças do que diferenças em relação ao passado. Apesar da multiplicidade de bandeiras partidárias, a prática é – salvo honrosas exceções – a mesma de outrora. Jogo de interesses, troca de benesses e muita, muita mesmo, encenação! Os “mocinhos” da Ditadura, muitos deles, se transformaram em vilões. Os vícios horrendos por eles condenados se transformaram em práticas corriqueiras em meio aos corredores de palácios, prefeituras, tribunais, câmaras e assembleias. Vale mais um antigo militante corrupto do que um torturador do DOPS? Imensurável é o dano causado por ambos ao “patrimônio”, principalmente, social e ético do país. Fazem acreditar que “direita”, “esquerda” e “centro” apontam para o mesmo lado, lado este diametralmente oposto ao interesse da maioria. Reforçam a desconfiança em relação ao pretenso Estado Democrático de Direito, exacerbam a apatia política, dilaceram e soterram sonhos e utopias. Crime por deveras hediondo, pois contra o mais precioso e caro bem de um povo: a esperança!


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

CONVERSA PARA BOI DORMIR


CONVERSA PARA BOI DORMIR
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Não fosse trágico, nosso país seria o paraíso da comédia e das cenas hilariantes. Quem não tem acompanhado, através de uma imprensa muitas vezes sensacionalista, a “indignação” do governo brasileiro face à pretensa espionagem do Tio Sam? Reação, ao que parece, teatral, cênica, conversa para boi dormir. Como se fosse novidade a espionagem, seja ela nas próprias entranhas do país, seja a do tipo alegada pelo nosso (?) governo. Internamente, grampo telefônico, venda de dados pessoais, espionagem industrial são como pé carregado de chuchu. Internacionalmente, não é diferente. Tão antiga quanto o homem. A espionagem antecede o advento do Estado Moderno. Está aí, por exemplo, a Literatura para nos dar algumas amostras das intrigas palacianas. Assim, a espionagem perpassa todas as Idades e tempos da história. Não poupa qualquer civilização, por mais estranha que nos soe a cultura. Por que seria diferente hoje? Ora bolas, o avanço tecnológico, cada vez mais, cria novas ferramentas de bisbilhotagem alheia. Talvez nem precisasse, afinal – feito peixes – morremos pela boca (virtual!), ou seria pelos dedos? Fornecemos, irresponsável mas voluntariamente, para o mundo nosso “perfil” completo. A bandidagem agradece! Nossa nudez, que antes ficava entre quatro paredes, tornou-se pública. Ainda assim, por vezes, seguimos num discurso pudico e hipócrita. Portanto, conversa para boi dormir. O governo brasileiro reclama do quê mesmo? Dá publicidade ao que é banal, apesar de não dito. Tão banal quanto a corrupção, malversação de recursos, violência, precariedade dos serviços públicos, marginalização de enormes parcelas da população, descontrole orçamentário... Haja boi para fazer dormir diante de tamanho barulho. Não por acaso, os marqueteiros do governo, com alguma frequência, mudam o tamanho, a cor ou o nome do boi: Carnaval, Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas, Mega Sena da Virada. Uma boiada! O boi da vez é a espionagem americana. No fundo, a tentativa de desviar os holofotes (ou parte deles) para outras questões que não a da incapacidade do Estado brasileiro em cumprir com suas obrigações constitucionais. Estratégia tão antiga quanto o próprio boi. É verdade que, às vezes, a artimanha governamental não funciona e o boi vai para o brejo. Salve-se quem puder. A merda, até então disfarçada pelo cheiro da perfumaria do Estado, fede como nunca. É quando, então, muitos tomam as ruas e praças a procura de ar fresco. Rolam cabeças (a corda costuma arrebentar do lado mais fraco), enquanto sobram discursos e promessas. Apressam-se os porta-vozes do ente público em acharem explicações para o injustificável. Ante o estrondo e o cheiro fétido (que faz lembrar o ar dos corredores de hospitais e presídios) busca-se uma boa história, mesmo que de além-mar ou da parte rica da América (santo de casa não faz milagre!): conversa para boi dormir. 

domingo, 1 de setembro de 2013

Discurso do Presidente do Uruguai, José Pepe Mujica na Rio+20 - Legendad...

CONAN (OU SERÁ CONAE?), O BÁRBARO


CONAN (OU SERÁ CONAE?), O BÁRBARO
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Saudade dos tempos de herói. Como esquecer daquelas batalhas homéricas, das lutas corpo a corpo tendo à mão a espada forjada pela tradição dos antepassados? Poucas não foram as histórias onde, por um triz, sobrevivera. Só em menor número do que os inimigos mortos. Sem dó e nem piedade. Parecia sentir, ainda, o cheiro do sangue em meio às intermináveis pradarias. Não lhe saía da memória os olhos esbugalhados do infeliz atravessado pela navalha. Era temido, de norte a sul, do ocidente ao lado que nasce o Sol. Conan, o Bárbaro. Tema de filmes, trilhas sonoras. Povoara a imaginação libidinosa de mulheres, servira de modelo aos homens. Músculos e mais músculos. Derrubava, naqueles tempos, dois touros de uma só vez. Certa feita, rasgara a boca de um leão. Coisa de causar inveja a Sansão e Golias. O que era Hércules comparado a ele? Quanta saudade daqueles tempos... Agora, quem diria, todos passavam de largo diante dele. Ser desprezível, anônimo, comum. Enfiado ali, no terceiro andar daquele prédio de Cachoeirinha City, era nada mais do que um singelo servidor público a esperar a minguada aposentadoria. O olhar agudo e assustador de outrora há muito cedera lugar às lentes a lhe corrigir a miopia. Sem autógrafos, sem reconhecimento. Sequer um aceno de cabeça. Quanto às mulheres, ou chamavam-lhe de “tio”, ou cediam a ele o lugar no elevador. Deprimente. Conan? Quem? Esquecido em meio à poeira do passado. Os poucos que o conheciam, o chamavam, isto sim, era de Conae. Por quê? Ninguém sabia ao certo. A origem do nome, nem ele próprio sabia. Nome não, alcunha! Alguns diziam que era produto de um surto psicótico que o infeliz tivera após um esgotamento nervoso. Ao que parece, teria sido em decorrência de uma conferência ocorrida há alguns anos, onde coubera a ele parte da sistematização dos ditos “eixos”. Não podia nem ouvir falar neles. Causavam-lhe arrepios. Segundo diziam, o coitado, por dias a fio, não parava de balbuciar “três, três, três...”, enquanto batia a cabeça contra a mesa. Era querer vê-lo nervoso, bastava convidá-lo a visitar Sapiranga, Santa Maria, Taquara... São Sebastião do Caí, então... Durante muito tempo, não dizia coisa com coisa. Chegara ao ponto de quase se lançar pela janela. Não fosse os conselhos da Índia – que, nas horas vagas, vendia pães –, teria passado desta para melhor. Algumas lendas foram se formando em torno do pobre homem. Os mais maldosos teriam, inclusive, espalhado a falsa notícia de que Conae assassinara suas colegas de trabalho e escondido os corpos sob o sanitário. Pura invencionice. Era incapaz de fazer mal a uma mosca. Vivia só. Ele e a saudade dos tempos de herói.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

OS VÁRIOS TONS DA MORTE


OS VÁRIOS TONS DA MORTE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira


                Trazia ainda na lembrança o cadáver a descansar no ataúde. Braços junto ao corpo, as mãos cruzadas sobre o peito, o terno impecável, o silêncio entrecortado por alguns sussurros misturados ao choro aqui e acolá. A boca a borbulhar, o algodão enfiado nas narinas. Tinha lá seus dez ou onze anos. Talvez mais, talvez menos. Ele, não o defunto. Este, ao contrário, era um homem passado dos quarenta. Motorista de ônibus. Segundo diziam, teria sido acometido de um infarto fulminante. Mal tivera tempo de parar o coletivo e pronto! Tudo acabado. Deixara um guri de tenra idade. A viúva parecia fora de si com aquele olhar perdido a mirar não sei o quê. O velório se dava no interior da pequena Assembleia de Deus. Naquela época era comum, assim como o acento agudo na denominação do templo. Era a primeira vez que tinha visto um morto assim, tão de perto. Misto de curiosidade, medo e nojo. Não conseguia compreender o porquê do algodão no nariz e nem tampouco do lenço a cobrir, vez por outra, o semblante pálido do sujeito. Diferentemente da maioria, sequer cogitava tocar naquele corpo. Deveria chorar? Até que tentara. Imaginava cenas trágicas envolvendo algum ente querido como forma de impulsionar as lágrimas a jorrarem. Nada. Nenhuma gota. Não queria ser tomado por insensível, mas fazer o quê? Mal conhecia o falecido. Não muito distante daquele tempo, antes ou depois – triste memória esta que me trai –, tinha acompanhado, meio que de longe, outro velório, o do velho Balbino, tio do Tonico, seu pai. Era um ancião, coração enorme, jamais largava o pito e a bombacha larga. A casa era simples, de madeira, com a patente disposta na parte dos fundos. Parecia ainda ouvir o zumbido das varejeiras cruzando de um lado para outro, ziguezagueando em volta das fezes misturadas à urina e uma infinidade de papel. Como se fosse hoje, lembrava do receio que tinha de ser espiado entre as frestas da “casinha”. Pior do que aquela sensação, só a aspereza do jornal ou do papel de enrolar pão que fazia o vivente, menos acostumado à rudeza do interior, pensar duas vezes antes de arriar as calças. Funeral em casa, na sala. Colocado sobre dois bancos, dispostos nas extremidades, o caixão parecia flutuar no meio da peça contígua à cozinha. Ele, gurizote ainda, preferia esta última. Distante do corpo petrificado e próximo ao simpático conjunto formado por uma mesa e algumas cadeiras com estrado de vime, onde repousava um pão de quilo e um pote de “Mu-Mu”. Não muito longe, um relógio em forma de galinha. Tia Mercedes, a viúva, apesar da dor pela perda do companheiro, achava forças para acolher a cada um que chegava. Enquanto isso, passava de mão em mão o prato de bolinhos de chuva regados a café misturado à cevada. Ruim ao paladar do guri, acostumado com a vida urbana bem diferente daquela gente de Santa Maria do final dos anos setenta. Depois foi a vez do Vô Juca, da Vó Ina, dos Tios Nenê, Neno, Darci... À medida que os anos foram passando, a morte parecia se aproximar. Chegara a vez do Tonico. A eterna inimiga tornara-se, por fim, íntima. Passara a integrar a família. A morte é assim. Não pede passagem, nem tampouco licença. Invade. O que outrora era conhecida, porém distante, sentara à mesa, sem cerimônias. Indesejada, mas fazer o quê? A morte, feito aquele primo “mala”, come e bebe conosco, sem nada a acrescentar ou retribuir. Só castra. A partir de um certo ponto, quando já se sente dona de nossa casa, passa a dar as cartas. É autoritária, intransigente, arrogante, insensível, fria... Tudo parece girar em torno de seu umbigo. Mesmo odiada e mal quista, não há um só instante em que deixe de ser lembrada. Não negocia, tamanha sua autossuficiência. Pudera, seu poder despótico prevalece desde os tempos mais remotos. Fica à espreita do berço, da cama, do leito de hospital, da curva na estrada, da orla do mar, das entradas de cinemas, boates e danceterias. Pacientemente, aguarda o momento de dar o bote fatal. Fica a contar cada gota de soro ou de sangue, batidas cardíacas e movimentos torácicos, até a expiração final. Apagam-se as luzes. Ao fechar das cortinas, o que vem depois?  Ironicamente, só ela, a morte, é capaz de dizer!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

PAI


PAI
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Domingo próximo, dia onze de agosto. Como tantas outras, uma ótima oportunidade de fazer um afago no teu pai. Dizer-lhe o quanto é importante, inflar seu ego com elogios, mesmo que exagerados. Professar e confessar teu amor, mesmo que óbvio, por ele. Envolvê-lo num forte e interminável abraço. Sentir seu cheiro, acariciar sua face e dividir com ele o tempo aparentemente eterno, tempo que ali adiante, quiçá, se transformará em saudade. Pedir que conte uma história ou mesmo uma daquelas piadas que só ele ri, pois a graça das mesmas reside é no contato dos corpos, na troca de olhares, no sorriso de quem narra e de quem ouve. Mais do que as palavras, o que resistirá ao tempo é a lembrança do encontro, o jeito inconfundível do pai dizer as coisas. Momento de gratidão por ser ele, teu pai, mais do que um provedor, mas também teu herói e guardião. Agradecer-lhe pela vida, alimento, segurança, lazer, abrigo... Pelas noites mal dormidas em face das tuas dores e pesadelos noturnos. Desculpar-te pelas lágrimas, por vezes sorrateiras, que provocaste. Submeter-te ao suave e amoroso jugo paterno, como sinal não de fraqueza, mas de reconhecimento e aceitação de um nobre mandamento bíblico. Expor-lhe e comungar com ele teus sonhos, mas também teus medos, anseios e, por que não, alguns de teus segredos. Fazer memória da infância, tua e dele, nascendo daí um oceano de boas gargalhadas. Ao fundo, o ritmo do coração a palpitar, bombeando sonhos e juras de amor eterno. Dia dos Pais. Data para presentear? Também, mesmo que uma “lembrancinha” em forma de cueca, lenço, gravata, loção... Grandes ou pequenos, caros ou baratos, úteis ou não, artesanais ou “sonhos de consumo”, no fundo o que conta é a oportunidade de estar junto, de calar na alma a singularidade do encontro, onde abraços e beijos, assim como as palavras de carinho, têm valor imensurável. Quanto aos pais que se foram, como o meu, fica a profunda e indescritível saudade. Quantas coisas poderia ter-lhe dito e não o fiz? Quantas oportunidades perdidas de traduzir meu amor e gratidão por ele através de gestos e atitudes? Poderia ter amado mais... Poderia... Sorte tua que podes conjugar o verbo noutro tempo. Aproveitas, portanto. Bem-aventurado és pela oportunidade de não deixares passar em branco o dia de hoje. Seja cada momento, filho(a), dedicado a teu PAI. 

ESQUECI


ESQUECI
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Perdão! Uma, entre tantas outras virtudes de um homem santo. Quatro de agosto foi o Dia do Padre. Como poderia ter esquecido? Imperdoável, não fosse a misericórdia divina e a condescendência de meu querido Diretor, Padre José Luiz, estaria condenado a ferver no lago de fogo e enxofre. Espero mitigar tamanha falha com este singelo, porém sincero, texto. Coincidência ou não, o Dia do Padre é comemorado apenas alguns dias após a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Estadia esta emblemática. O Sumo Pontífice pautou sua fala, principalmente, nas questões sociais, descortinando importantes verdades bíblicas que, ao que parece, ficaram à beira da estrada do mundo cada vez mais globalizado. Lembrou, por exemplo, que o capital não deve ser um fim em si mesmo, nem tampouco deve estar a serviço de uma ínfima minoria, mas deve, isto sim, promover a justiça social e a diminuição das desigualdades. O exercício do sacerdócio, neste mundo cada vez mais laico e avesso à fé, se reveste de indelével importância. Verdadeiro farol em meio ao encapelado mar. Espécie de norte frente ao relativismo exacerbado que a muitos confunde. Vão-se não apenas as certezas de outrora, mas os caros valores cultivados ao longo do tempo. Num contexto que espezinha o amor, a vida, a honra, a família e a ética, ser sacerdote é como que nadar contra a maré. É, por vezes, opor-se ao “politicamente correto” e assumir posicionamentos pouco simpáticos ao modismo midiático. O sacerdócio, não raras vezes, pressupõe abrir mão da família, do lazer, da privacidade e do conforto. Os parcos recursos para a grande Obra, comumente, contrastam com uma demanda cada vez mais crescente. Falta não apenas pão, mas espiritualidade. Viceja a apostasia. Mais do que nunca, urge um sacerdócio capaz de fazer a diferença, comprometido com a sorte alheia, solidário aos que têm dor no corpo e na alma. O pastor é o sal numa terra cada vez mais insossa. Portanto, justa é a homenagem aos homens que fazem da batina sua armadura de fé. Parabéns, de forma muito especial, aos Padres da Rede de Escolas São Francisco.  Ao homenageá-los, o faço a todos os sacerdotes.


O SUMIÇO DA PASTA


O SUMIÇO DA PASTA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Verdadeiro enigma. Não se sabe como, o fato é que a pasta que até então descansava sobre a “área de trabalho” do computador sumira. O pavor tomou conta do lugar, menos pelos documentos perdidos do que pelo temor quando da chegada da Bruxa. Já não bastava todo o estresse da mudança de casa, das noites mal dormidas por causa das intermináveis insônias, das horas perdidas em salas de pronto-atendimento por causa dos netinhos... Agora mais esta.  Nem as simpáticas propagandas veiculadas na RBS seriam capazes de aplacar a fúria da chefa. Foi um deus-nos-acuda na sala. A Mulher-Gato até esquecera a dor no joelho. Corria de um lado para outro, fazendo inveja ao mais rápido velocista. A Doidinha então, endoidecera de vez! Feito barata tonta, seguia daqui para lá e de lá para cá, transtornada. O Lanterna Vermelha, ao que parece, não apenas recuperara a visão do olho esquerdo – quase perdida depois de uma longa inflamação da conjuntiva ocular –, como ampliara a capacidade visual, metendo inveja no Clark Kent. Não tinha canto que não olhasse na máquina. Meticulosa e cirurgicamente mexia em cada um daqueles intermináveis arquivos e pastas. Tudo em vão. Nada de aparecer a maldita pasta. Praga de sogra, sabotagem, coisa do capeta... Explicações não faltavam para o sumiço. Enquanto isso, os ponteiros do relógio seguiam avançando na mais absoluta indiferença, como a zombar daqueles pobres mortais. A Doidinha, num de seus raros espasmos de lucidez, esboçara uma saída, apesar de meramente protelatória: atrasar, ao máximo, o retorno da Bruxa e, com isso, ganhar mais alguns minutos até que se achasse a pasta. Ligar para ela? Dizer o quê? Ora, de boba a Bruxa não tinha nada. Ao que tudo indica, tinha lá seus informantes. Noutros tempos eram o espelho, a bola de cristal e as cartas. Hoje, eram os incontáveis “amigos” do facebook. Verdadeira e poderosa rede de espionagem. Bastava meia dúzia de toques e pronto! Tudo e todos estavam lá. Nome (civil ou “social”), endereço, (des)ocupação, idade, sexo (ou falta dele...), preferências, fotos (muitas delas comprometedoras), rotina, etecetera e tal. Os arapongas eram coisa do passado, assim como a velha vassoura da Bruxa. Ambos caíram em desuso, o que não deixava de ser uma pena, especialmente para os românticos, ébrios e boêmios. O mundo já não era o mesmo. Devaneios à parte, o fato é que o grupo precisava resolver o problema da pasta ou, melhor, da falta dela. Como ia dizendo, a Doidinha tivera a ideia de atrasar o retorno da Bruxa. Forjar uma denúncia acerca de uma creche, inventar uma palestra em algum município (de preferência, bem distante) ou, ainda, propagar a falsa notícia de uma paralização do transporte coletivo. Qualquer coisa que garantisse mais tempo até que a pasta voltasse a aparecer. A teoria parecia simples. Assim como tudo o que sobe desce, o que some reaparece. Certo? Errado. Ao menos era o que se desprendia do relógio que não cessava de correr. A demora na solução do misterioso sumiço da pasta só fazia aumentar o pavor do trio. Ante o desespero, encheu-se a cuia com folha de laranjeira, melissa e erva doce, tudo misturado à erva-mate, como forma de mitigar as prováveis consequências do furor de quem estava por chegar. Ligou-se para o homem das cucas e para a índia que vendia pães, preparando-se um verdadeiro banquete de “boas vindas” à Bruxa. Só por precaução, a Mulher-Gato acionou, também, a SAMU e o Corpo de Bombeiros. Vá que a chefa não se deixasse seduzir pelos manjares... Coube ao Lanterna Vermelha escrever o testamento, dele e das colegas. Exceto o da Mulher-Gato, proprietária de um Cerato e de alguns imóveis no metro quadrado mais caro de Cachoeirinha City, bastou um pedaço de papel de pão para arrolar os parcos bens do grupo. Não demorou muito, a porta da sala se abriu e por ela adentrou a Bruxa. Como de praxe, parecia elétrica. Fazia tudo ao mesmo tempo. Comia, bebia, lia, falava, remexia nos papéis sobre a mesa. O que para outros era impensável, para ela era trivial. Não demorou, veio a temida pergunta: “quem salvou a pasta?”. O grupo se entreolhou. A Doidinha – não fosse o pedido de calma do Lanterna Vermelha – quase se jogou pela janela do prédio. A Mulher-Gato, por sua vez, sorveu a pimenta trazida do México, pensando ser a bomba do mate. Quando tudo parecia estar perdido, o alívio. “Achei, não precisa mais”, anunciou a Bruxa. Não é que a pasta estava lá, na área de trabalho do computador, como se nada tivesse acontecido. Ninguém entendeu nada. Inexplicável. Tudo parecia ter voltado ao normal, ao menos até o próximo mistério...