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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

COMEÇAR DE NOVO



COMEÇAR DE NOVO...
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido.
(Ivan Lins)



                Mais um ano letivo! Momento de rever colegas e professores. A vontade, mesmo que disfarçada, de mostrar a mochila nova, os cadernos de capa dura, o tênis da hora, o bronzeado nem sempre adquirido na praia, o corpo sarado... Não mais do que dois meses de férias. Tempo suficiente para escancarar o “tiro” na estatura de muitos. Ainda ontem, um piá, franzino e pequeno. Hoje, um baita guri. Duvidar, ultrapassou quem o gerou. Misto de empolgação e suspense, perpassado pelo “friozinho” na barriga. Como estou? Como estão os outros? Qual será minha turma e quem serão meus colegas? Necessidade, natural, de aceitação e pertencimento. Sentimento tão antigo quanto o de fixar as listas de chamada em alguns pontos estratégicos da escola. O agito do primeiro dia de aula contrasta com o olhar perdido do aluno novo. Para este, tudo é novidade: a palavra do Diretor, a bênção do Padre, os avisos da Disciplina... Alguns mal conseguem esperar o ingresso na sala. Quem será o Regente? Onde sentarei? Quem serão os professores? Vão-se os anos, os sentimentos teimam em serem os mesmos. Prova inconteste de que temos em comum com os outros – mesmo que separados por gerações – muito mais do que, às vezes, imaginamos. Afinal, somos humanos. Descendemos da mesma cepa. Precisamos, portanto, uns dos outros. É o “outro” que nos completa, nos constitui, nos dá forma. Sem “ele”, não existimos. Sequer somos ilha, pois que esta só existe se rodeada pelo oceano. Ah, que beleza é a escola! Quanta vida! O burburinho, o ti-ti-ti, a algazarra no pátio atestam o viço que corre em todas aquelas veias e artérias. O coração se enche não apenas de sangue, mas de alegria e de esperança. Querelas do passado e animosidades pretéritas se dissipam. É tempo de perdão, de amor... É tempo de apostar no irmão, pois assim o fazendo se aposta em si mesmo. No pátio da escola, o que conta é o currículo dito oculto, tangenciado pela amizade e pela cumplicidade sadia. Bem-vindo todos os convidados, pais, alunos e funcionários. São vocês, somos nós, que atribuímos sentido à escola. Bom ano letivo a todos!

Veja também: http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=artigos_interna&id=18948
Leia ainda: 
http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=0e42a0c5e07c2664c5997cc0668c42d1

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013



O MAR E A PISCINA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Estive na praia de Ingleses, em Florianópolis, há alguns dias. Fiquei – juntamente com minha família e alguns amigos – oito dias. Tempo suficiente para perceber a diferença entre dois mundos: o do mar e o da piscina. Enquanto o primeiro como que socializa os abismos sociais e econômicos, o último os escancara. À beira do mar, pouco ou nada se sabe acerca da origem – salvo alguns claros sinais da presença castelhana na orla –, profissão, classe social, renda, preferência sexual, conta bancária, etc., dos que se escondem sob os guarda-sóis ou sob os chapéus de largas abas. O vai e vem das ondas é feito o movimento do apagador do mestre. Quando muito restam alguns pequenos e quase sempre indecifráveis vestígios do que antes existia. O mar mostra toda sua imensa sabedoria ao aproximar homens e mulheres, pequenos e grandes, ricos e pobres, negros e brancos, crentes e agnósticos, letrados e analfabetos, nativos e estrangeiros... A piscina, ao contrário, privatiza o lazer, tornando-o por um lado asceta, por outro, sem graça. Aproxima apenas alguns poucos, os da própria tribo, porém recrudesce o fosso entre uma minoria e o “resto”, a maioria. O mar tem cheiro de povo. A piscina, de cloro. O sal do mar é terapêutico, cicatrizante, na quantidade exata da necessidade de cada um. A piscina tem, quando muito, ao seu redor, o sal que tempera a carne do churrasco e aumenta a pressão arterial. Sem ciúme ou disputa de beleza, o mar convive com a presença das montanhas, do verde, das dunas, dos braços de rios... Jurerê, Costão do Santinho, Armação, Praia Brava, Daniela, Joaquina... Tantos nomes para uma só maravilha! Sem qualquer espécie de maquilagem. Sem os penduricalhos nascidos de laboratórios e indústrias de cosméticos. Simples, natural e belo. Assim é o mar. Este, apesar de sua imensidão, acolhe a todos e a cada um. Nada pede em troca. Nem tostão, nem troca de favores, nem mesmo um elogio. Sua grandeza é tamanha que ao nele adentrar, os corpos se desnudam, como que a reverenciá-lo. O mar a todos nivela. Aos mais desavisados e descuidados, por vezes, traga. A piscina carece de vida. É estéril. O mar, ao contrário, confunde-se com a própria gênese de todos os seres. Perfeita simbiose. Daí seu encanto. Daniela e suas águas tranquilas ou a Praia Brava com todas aquelas ondas a chicotearem, com força, as rochas. Inúmeras e belas faces de uma mesma moeda. A piscina, apesar de toda languidez, peca pela falta de desafio. O mar, ao contrário – talvez embalado pelo canto de suas sereias –, é instigante. Mexe com os brios do exímio nadador e atrai o olhar dos que ainda se apaixonam. Saudade do mar e dos amigos... 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA



CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Não, o título não é novo, como não o é o fato. Quantos já foram os cursos de Educação de Jovens e Adultos - EJA, em Cachoeirinha, que tiveram suas atividades encerradas nos últimos anos? Três? Quatro? Poderia ser pior. Não se trata da Lei de Murphy, mas sim resultado elementar de algumas falhas de diversos “atores” envolvidos, direta ou indiretamente, com o problema. Ano após ano, tem sido dado o sinal de alerta para o pequeno número de alunos atendidos pelas escolas públicas municipais que ofertam a EJA. Uma demanda irrisória se comparada ao elevado custo que o atendimento representa para o erário público. Muito investimento para um resultado pífio. Salas vazias, servidores se pechando pelos corredores, consumo de energia, água, manutenção da limpeza e tantos outros “contras” para tão poucos “prós”. O que deveria ser “investimento”, há muito vem sendo só “gasto” sem que se vislumbre – nem de perto – os frutos pretendidos.  Gestores e professores mal preparados, alunos desmotivados. Evasão assustadora, repetência avassaladora. Tristes rimas que só fazem crescer a desesperança na escola, robustecendo o vergonhoso e melancólico cenário da educação, principalmente pública, por estas terras. Sobra indisciplina, baixo rendimento, parca aprendizagem, doenças laborais. Falta planejamento, organização, pesquisa, trabalho em equipe, gestão democrática. A EJA tem sido prova cabal e inconteste de que a qualidade de ensino não passa, necessariamente (somente!), pelo número de alunos por turma ou por educador. Apesar do Saara existente, viceja a já conhecida dificuldade de fazer com que o aluno aprenda. A mesma falta de vínculo tão característica no dito ensino “regular” prospera na EJA. Há escassez não apenas de público, mas de afeto, de compromisso e de cumplicidade com o sentimento alheio. O triste vazio das escolas de EJA dá lugar às moscas e à frieza nas relações. Por vezes, criam-se guetos e “corporações de ofício” hermeticamente fechadas, incapazes de receberem não apenas o “outro”, mas também o “ar” necessário para a própria sobrevivência do grupo. Este morre não por inanição, mas pela falta de “emoção”.  Culpa de quem? Poder Público, servidores, escola, família, aluno? Ora, não se trata de buscar “culpados” pelo fracasso da EJA em Cachoeirinha, mas sim de atribuir “responsabilidades”. Trata-se de uma responsabilidade, por assim dizer, “solidária”, onde todos perdem e ninguém ganha. Ao Poder Público cabe, por exemplo, ter bem claras suas diretrizes para a EJA, qualificar sua Assessoria Pedagógica, valorizar os servidores através de um Plano de Carreira atraente e de salários condizentes à importância do exercício do magistério. À Equipe Diretiva cabe, entre outros, fazer da gestão democrática uma prática cotidiana e permanente, pautando sua ação no profissionalismo e jamais no clientelismo e na “troca de favores”. Aos professores, por sua vez, cabe um “fazer pedagógico” voltado à acolhida, à valorização e respeito às chamadas múltiplas inteligências, desafios estes que pressupõem muito estudo, planejamento e trabalho coletivo. As funestas práticas corporativistas devem ceder lugar à ética, ao respeito, à necessária e permanente qualificação do grupo. Às famílias cabe participarem ativa e positivamente das decisões da escola, acompanhando rotineiramente o processo ensino-aprendizagem, pois que dele fazem parte. Assim, inexistem respostas “dadas” para os problemas enfrentados pela EJA em Cachoeirinha. As saídas (e elas existem!) devem ser “construídas” por cada um e por todos. 

TERRA NOVA



TERRA NOVA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A que ponto chegamos! Ainda ontem, usei parte de meu tempo para assistir, no “plim-plim”, a abertura do Terra Nova. Como todo início de série, fiquei um tanto que confuso, tentando entender a trama do filme. A série criada por Kelly Marcel e Craig Silverstein, ao menos em seu primeiro episódio, não chega a impressionar. Não fossem aqueles animais gigantes – produtos da tecnologia hollywoodiana –, inseridos num cenário Cretáceo, o filme passaria completamente despercebido. O que, talvez, tenha realmente chamado minha atenção foi, digamos..., a mensagem trazida na tela. Um planeta já deteriorado, de um lado, quedado pelas mazelas humanas. Por outro lado, um novo lugar, uma Terra Nova, representando a possibilidade do recomeço. Aparentemente salutar a intenção, não fosse um detalhe. O homem que habita os dois “mundos” (o de 2149 e o pré-histórico) é o mesmo! Apenas transpôs o “portal”. Percebe-se, portanto, como que um “ato-falho” intrínseco ao filme, típico do modus operandi ou american way of life, qual seja, a “cultura do descarte”. Descarta-se o antigo (o lapso temporal para definir o “velho” é cada vez menor) em prol do novo. Mexe-se na aparência, sem que se toque na essência. Olha-se para “fora”, para o “exterior”, em detrimento de um olhar introspectivo. É, como de costume, uma “solução” comprada, não construída. Incólume fica a reflexão ética acerca do indivíduo e das relações que este traça quanto a si e quanto ao “outro”. Trata-se de uma saída indolor. Onerosa (nada que um punhado, ou mesmo uma montanha, de dólares não possa pagar...), mas sem dor. É a solução sonhada pelos que têm crise de nervos só em pensar em temas como sustentabilidade, desarmamento, distribuição de renda, reformas agrária e urbana, igualdade, oxigenação do poder, entre outros.  O Terra Nova vem ao encontro do imaginário capitalista, consumista e egocêntrico. É um olhar incapaz de transpor os limites do próprio umbigo. Denota preguiça mental e indiferença social. É uma retomada de Alice no País das Maravilhas ou, mais contemporaneamente, de uma das tantas histórias da Barbie. Um mundo de sonhos, quase sempre muito caros, anos-luz de distância do poder de compra da esmagadora (e esmagada!) maioria dos mortais. Sonhos sem utopia. Sonhos vazios. Sonhos que são sonhados sozinhos. Uma Terra Nova, salvo no plano etéreo e espiritual, ou é produto cinematográfico ou, então, resultado de uma digestão mal feita. Há de se pensar, isto sim, é no sujeito que habita estes páreos. Urge, eu e você, refletirmos nossas ações (cada uma delas), nossas relações, nossas opções... Alimentar a ideia de uma Terra Nova é acreditar ser possível remendar roupa, já espuída e deteriorada, com pedaços de tecido novo. Vã tentativa.  


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O FIM DO MUNDO



O FIM DO MUNDO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Passado o prazo para o fim do mundo, em vinte e um de dezembro de dois mil e doze, sobra um misto de sentimento de alívio e de decepção. Alívio porque, mesmo para os mais céticos, sempre há margem para dúvida: vai que a profecia de um punhado de malucos visionários se confirmasse. Decepção porque não era incomum perceber um ar de vingança no ar: é a hora da natureza dar o troco, hora de pôr fim à corrupção, à fome, à mesquinhez humana, etecetera e tal... O fato é que o mundo não acabou. Ao menos para os que estão aqui, vivos, lendo esta porcaria de texto. Talvez sequer para os “do além” o mundo tenha acabado. Sabe-se lá o que se passa do outro lado do... “muro”, “portal” ou coisa parecida. Talvez, ainda, estejamos todos mortos e não saibamos... Eu, você, o Sarney... Este não! É imortal. Como negar que o legítimo dono daquele inconfundível bigode esteja vivo? Dizem que coisa ruim não morre. Ora, se o eterno político maranhense (ou será amapaense, conforme lhe convém?), segue a lambuzar o risível bigode, mamando nas tetas da República, é porque está vivo, não é mesmo? Ele e nós (eu e tu meu amigo ou minha amiga...). Uma questão de silogismo, como já ensinavam os gregos. Definitivamente, o mundo não acabou. Seguem os dias, a rotina de levantar cedo para trabalhar ou procurar trabalho (exceto os “amigos do alheio”, gigolôs, vagabundos, senadores, deputados, vereadores...), as contas (intermináveis...) para pagar, a violência e carnificina das ruas, o caos no trânsito, as quilométricas filas nos bancos, a falta de leitos nos hospitais, o saldo negativo na conta corrente. O nome não poderia ser mais apropriado. Feito corrente com uma esfera de ferro numa extremidade, presa ao tornozelo do pobre coitado na outra, é uma conta que mais faz lembrar Prometeu sendo diária e friamente torturado pelo corvo em meio à rocha. Tormento sem fim. O “limite” cedido pelo banco, feito vinagre oferecido na cruz, é triste engodo. O mundo não terminou. Assim como a “Mega da Virada”, um grande golpe publicitário. A mídia precisa disso. Necessita alimentar sonhos. Não fosse isso, a fúria dos homens – centenas, milhares, milhões deles – seria canalizada de outra forma. Um risco à (pseudo)democracia, à ordem “natural” das coisas e à (in)segurança jurídica. A velha “política do pão e circo” precisa ser mantida, mesmo que aparentemente reinventada. Ontem gladiadores sob o olhar de César e outros imperadores, hoje as caricaturas sob o olhar do Faustão, do Bial e da Regina Casé. Muita coisa em comum, em especial nós: os bobos! O mundo não acabou. Erro do calendário maia? Absolutamente! O erro é nosso. Não soubemos interpretá-lo. Pudera! Como fazer a “leitura” de algo tão distante e complexo se somos incapazes de resolver continhas de adição e subtração? O orgulho “canarinho” e verde-amarelo só é menor do que nossa estupidez. O olhar prepotente de quem se vangloria do tamanho da bunda das mulatas e da imponência dos carros alegóricos arrefece a criticidade e afugenta qualquer iniciativa de verdadeira, profunda e duradoura mudança. O fim do mundo não chegou. Poder haver fim sem começo? Somos um país sem início. Um país que, na tentativa de ser tudo, acaba por ser quase nada. Um país do “futuro”, jamais do presente. Futuro incerto e impreciso. Muito provavelmente, um futuro tomado de infortúnio. Apesar de singelo, um trocadilho carregado de atávica maldição. Não lusitana, como tentam alguns fazerem acreditar, mas uma sina construída no quotidiano, nas relações, nas opções, nas decisões... Uma maldição transferida de pai para filho. Fazemos, ao que parece, questão de comermos uva verde. Embotam os dentes e o cérebro. Esvai-se o senso crítico. Resta uma só impressão: é o fim do mundo!

BONS FRUTOS



BONS FRUTOS
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Filhos são uma bênção. Filhos bons são uma bênção maior ainda. Fui, portanto, duplamente abençoado. Ontem, dezenove de dezembro de dois mil e doze, foi um momento especial, pois vi minha filha finalizando o Ensino Fundamental. Mais do que isso. Formando-se na Escola onde também estudei e, há mais de vinte anos, trabalho. Novamente, duplamente abençoado! Filhos bons são como bons frutos. Saudáveis do ponto de vista moral e ético – infelizmente, nem sempre do ponto de vista físico... –; doces ou nem tanto, mas autênticos, sem os “agrotóxicos” e perfumarias do mercado. Filhos bons não são “bichados”. O conteúdo e interior deles combinam com o “invólucro”. São, portanto, confiáveis. Valem muito. Como preciosidades, são disputados e apreciados. Filhos bons, assim como bons frutos, não foram criados para serem lançados nas “lixeiras” da vida, onde proliferam as drogas, o descaminho, a promiscuidade e a escassez de limites. Filhos bons são motivos de orgulho. Por isso, estou assim... Orgulhoso. Faltam palavras, bem sei, mas sobra alegria. Como foi bom ver minha primogênita recebendo os louros da vitória. Dela, da família e da Escola. A formatura é, por paradoxal que possa parecer, feito o nascimento. Este é a coroação de uma relação de amor e afeto. Aquela é o ápice de uma relação, também, de amor e de afeto, ambos ingredientes indispensáveis no processo ensino-aprendizagem. Minha filha é fruto do amor. Amor dos pais, que educam, e dos professores que, feito os pais, zelam e cuidam durante horas, dias, semanas, anos... Mais do que um rito de passagem, a Formatura é uma consagração. É momento de reflexão, mas, sobretudo, de agradecimento. Por certo, representa também uma espécie de “fratura” (talvez nem tanto, sequer uma luxaçãozinha), um rompimento com o as coisas de criança...  Quem diria! Ainda ontem, minha guria não passava de uma criança. Hoje, uma moça. Linda, inteligente, maravilhosa... Que venha o Ensino Médio! Que venham novos colegas, amigos, experiências e responsabilidades. Estas crescem com o passar dos anos. Parece, só parece, uma equação simples: mais liberdade é (ao menos, deve ser) produto da responsabilidade multiplicada pela idade. O resultado não pode ser outro. Bons frutos. Olhem só, eles aqui novamente! Parabéns à minha filha pelo ótimo desempenho no Ensino Fundamental! Parabéns à família (aqui compreendida numa forma extensiva, onde pais e irmãos foram, juntamente com a avó Geci e a tia Fafá, fundamentais na árdua tarefa de cuidar e educar)! Parabéns ao Instituto de Educação São Francisco, em especial seus professores (meus colegas!), pela acolhida e formação intelectual de minha eterna guria. Formação não apenas intelectual, é verdade, mas também formação e reforço de valores cultivados no seio familiar. Parabéns aos colegas de minha filha, em especial àquelas amigas mais próximas dela. Amizade que, acredito, seguirá ainda por muito tempo... Apesar da distância. Apesar dos caminhos percorridos. Apesar das decisões tomadas. Afinal, amigos de verdade, são como filhos bons. Geram bons frutos!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

ESCOLA INCLUSIVA: PARA QUEM?



ESCOLA INCLUSIVA: PARA QUEM?
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

                Há algum tempo, a questão envolvendo a “inclusão” de pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e/ou altas habilidades (superdotação), junto aos bancos da chamada escola regular, tem gerado uma série de manifestações contrárias à iniciativa, em que pese seu amparo legal. Argumentos não faltam no sentido de embasarem a resistência à política governamental levada a cabo pelo Poder Público em todas suas esferas. Algumas das “justificativas” apresentadas, principalmente por educadores, para bem da verdade, são pertinentes, compreensíveis, porém insuficientemente sólidas ao ponto de afastarem a premente necessidade de cumprimento do texto constitucional, onde resta clara a isonomia entre todos, independentemente da condição física, motora ou cognitiva, por exemplo. O arcabouço jurídico brasileiro tende a proteger os grupos tidos como hipossuficientes, objetivando garantir-lhes oportunidades iguais. Optou-se por dar tratamento digamos “mais benéfico” às minorias, entre elas as que possuem deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e/ou altas habilidades (superdotação).

Não são poucos os profissionais da Educação que alegam o despreparo para lidarem com o referido “público”. Responsabilizam, principalmente, o ente público pela inépcia docente. As (des)culpas vão desde a falta de investimentos na formação de recursos humanos até a precariedade dos prédios, dificultando a acessibilidade, passando pela apatia das famílias, pelo preconceito da comunidade em geral e pelos limites “inatos” diretamente associados aos próprios educandos. Sobram motivos para o “não-fazer” pedagógico. Multiplicam-se as razões para “escantear” todos aqueles e aquelas que fogem aos padrões estabelecidos. Apela-se inclusive para a potencial “ameaça” que as pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e/ou altas habilidades (superdotação) representariam para a integridade física dos demais educandos, para a organização da sala de aula, para a explanação dos conteúdos previstos no famigerado Plano de Estudos. Triste e perverso engodo. Talvez não intencional, porém, como já dito, triste e perverso! Ora, se o aluno dito “de inclusão” representa um estorvo à aprendizagem do grande grupo ou à organização da escola como um todo, pergunta-se: por que o país, o estado e o município amargam vergonhosos e pífios resultados nas avaliações “externas” que, apesar de limitadas e questionáveis, apontam para o caos? Por que os educandos tidos como “normais” não aprendem? Por que os alunos que não se enquadram no grupo de “incluídos” (inclusos) apresentam sérios problemas de indisciplina escolar? Por que a escola não consegue superar os históricos problemas da evasão e repetência? Por que o corpo docente não consegue planejar e trabalhar de forma coletiva? Percebe-se, portanto, que atribuir à política de inclusão qualquer ou eventual fracasso soa como desonesto, irresponsável e pouco inteligente. O ato de ensinar, independentemente do público-alvo, requer competência, ética, responsabilidade. Talvez, no fundo, o grande problema trazido pela “inclusão” tenha sido o desmascaramento de algo que andava às escondidas, qual seja, o fato de que cada sujeito – independentemente de ter deficiência ou não – aprende de um jeito. O aluno de inclusão mostra, de forma nua e crua, a necessidade de um olhar e tratamento “personalizados” por parte de quem educa. O aluno de inclusão “escancara” com as deficiências. Nãos as dele, mas as da escola!

Urge a construção de uma escola verdadeiramente inclusiva, capaz de acolher a todos e a cada um. Uma escola que ensine, que dê asas à criatividade, que instigue a curiosidade, esta matéria-prima do conhecimento. Uma escola lúdica, alegre, humana, colorida, zelosa pela cultura historicamente construída, porém atenta à modernidade. Uma escola que prepare para as demandas e desafios da vida. Uma escola fundada no relacionamento ético, comprometida com o meio, desafiadora, promotora da paz!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

EPÍLOGO



EPÍLOGO
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com



                Acho que estou ficando velho. Com a idade, as manias. É chegar o final do ano, especialmente o Natal, bate uma espécie de tristeza, nostalgia... Talvez, o mesmo sentimento dos elefantes, quando pressentem que o fim se aproxima. Afastam-se da manada. Por vezes, também desejo afastar-me... Uma profunda e inexplicável vontade de ficar só, enfiado no mais profundo silêncio do meu ser. Sem aquela aparente necessidade de ter que oferecer respostas às perguntas ou ter que esboçar perguntas que engendrem respostas, mesmo que vazias. O Natal e quase tudo o que a ele (ao menos hoje!) está associado, me oprime. A “obrigação”, imposta por uma sociedade consumista, de presentear familiares, parentes, amigos e até mesmo o cachorrinho ou o gatinho de estimação, cria um triste “caldo” cultural, tomado pelos “temperos” do mercado e do capital, “condimentos” que têm como principal tarefa escamotear o fétido cheiro do “cadáver”. Pertencemos e somos frutos de uma cultura morta e, de per si, mal cheirosa. Não fosse o “incenso”, travestido em tantas datas comemorativas, se revelaria insuportável. A propaganda, com toda sua criatividade e apelação, há muito vem servindo para mascarar o defunto. Perdoem-me as crianças. Confesso que, noutros tempos, era bem menos insosso e não tão amargo. Natal, penso hoje, deveria ser momento de afagos e abraços. Muitos abraços... Momento de festa, reunião de parentes e amigos, mas sem presentes! Tá bom, no máximo, presentes confeccionados por quem os dá. Já imaginaram, poder passar horas, dias, quem sabe meses, preparando um presente para quem se quer bem?  Presente e presenteado se confundiriam. Seria um a cara do outro! Aí sim seriam presentes do coração. Não desses que se compra, por vezes de última hora, nas lojas e supermercados. O Natal teria outro sentido. Os olhinhos – mesmo dos adultos – nem piscariam, tamanha a curiosidade. O presente carregaria muito da personalidade de quem o fez. Passados muitos anos, jamais o presenteado esqueceria quem o presenteara. Os presentes se revelariam em elos de afeto, de compromisso, de amizade, de amor. Presentes que valeriam pelo investimento afetivo neles depositado, jamais pelo valor de mercado. Acho que estou ficando velho. Pareço pertencer a outro mundo. Por que os elefantes se afastam ao pressentirem que o fim se aproxima? Ah, antes que esqueça: bom Natal a todos!



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O PECADO DO LADO DE BAIXO DO EQUADOR



O PECADO DO LADO DE BAIXO DO EQUADOR
Gilvan
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Não existe pecado
Do lado de baixo do Equador
Vamos fazer um pecado
Rasgado, suado
A todo vapor...
(Ney Matogrosso)


                Existe sim, ao contrário do que dizia a letra de uma antiga música, pecado do lado de baixo do Equador, e não são poucos. O principal deles nasce do caldo cultural há muito forjado por estas bandas. O “jeitinho”, a malandragem, a confusão entre o público e o privado, a promiscuidade político-ideológica, são apenas alguns dos tantos exemplos do que se vê por aqui. Discursos não faltam e seguem se multiplicando na velocidade da luz. Apesar da boa oratória, do vernáculo por vezes – muito raramente, é verdade... – bem empregado, não passam de palavras vazias, expressões natimortas, estéreis, incapazes de produzir bons frutos. Não poderia ser diferente, diga-se de passagem, pois pode um cactos produzir tangerinas ou uma mula gerar cordeiros? Um coração mal intencionado não produzirá, de forma alguma, boas ações. Cedo ou tarde, a essência de uma alma eivada de cobiça, egoísmo, inveja e toda espécie de perfídia humana, tal essência – como dizia – vem à tona. É bem verdade que o “pecado” mora também na casa do vizinho. Outras culturas, por mais “nobres” (não necessariamente, “nórdicas”...) que sejam, também convivem com os ranços da natureza adâmica. Todavia, ao que parece, por aqui o “pecado” encontrou terreno excessivamente fértil. O chorume fétido que brota em nosso meio, há muito vem impregnando toda sorte de relações, desde as informais às mais formais. Impregnando e minando. Nasce daí a atávica desconfiança em relação ao outro, seja ele público ou privado. Não basta a palavra, é necessário o papel, devidamente assinado e com firma reconhecida. Por aqui o “não”, às vezes é “sim” e vice-versa. Tudo depende das circunstâncias e dos interesses em jogo. O relativismo exacerbado, e quase sempre boçal, põe por terra toda e qualquer segurança conceitual ou contratual, mesmo que tácito. Feito areia movediça, as relações carecem de firmeza e afundam no lamaçal da dúvida, do ceticismo e da desconfiança. O lado de baixo do Equador é o nosso lado. Meu e teu. Somos vítimas e autores do triste e vergonhoso status que possuímos, cabendo a nós, portanto, modificá-lo. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

O MERCADOR



O MERCADOR
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                Qual é a ideia que temos ou fazemos de Deus? É comum vermos cristãos (e também os que não o são) tentando como que “negociar” com o Senhor. Como se Deus agisse sobre a vida do homem mediante permuta, escambo ou qualquer outra forma de pagamento. Ora, Deus age sim, porém movido pela Sua misericórdia e amor. Não por aquilo que oferecemos a Ele. Age não pelo que fomos, somos ou seremos. Age por Seu infinito amor. Crer que Deus operará cura, libertação ou qualquer outra espécie de bênção em troca de promessas – por mais sinceras que estas sejam – é atribuir a Ele o papel ou função de “mercador”. É transferir para o plano espiritual os mesmos vícios tão comuns no plano material. É “capitalizar” a relação entre o homem e seu Criador. Deus não é fruto deste ou daquele modo de produção econômico (como dissera, certa feita, Marx). Portanto, “mercantilizar” a relação espiritual soa como algo por demais perigoso e nocivo ao crescimento interior do homem. É um pensar pequeno. Pensar mesquinho. É um pensar que reproduz no plano divino a mesma relação verificada no plano terreno. Relação de medo, de credor-devedor, de vergonha frente às promessas (dívidas) não cumpridas (não pagas). A quem interessa tal relação senão ao inimigo de nossas almas e também aqueles que avolumam riquezas pessoais em detrimento do sofrimento e ingenuidade alheios?

                O amor de Deus pela minha e pela tua vida é incondicional. A misericórdia d’Ele por cada um de nós é imensurável, sem limite, infinita. Daí o fato de ele operar verdadeiros milagres na vida de homens e mulheres que sob o nosso olhar jamais mereceriam sequer o perdão, menos ainda qualquer espécie de benesse por parte do Senhor. Como entender que um parricida, homicida, estuprador, matador em série, corrupto, sequestrador, traficante, violentador de menores, estelionatário e tantos outros praticantes de atos tipificados como crime, mesmo que hediondo, possa receber alguma graça nascida do coração de Deus? Parece injusto e incoerente. Todavia, o que Ele vê, vai muito além daquilo que vemos. O que Ele sonda, extrapola nossa capacidade de compreensão. A essência do perdão de Deus em relação ao mais execrável criminoso é a mesma do perdão d’Ele em relação a cada um de nós. Ele olha para sua criação, para o homem e não para o pecado deste último. Isso faz do Senhor um Ser que ama e, nem por isso, conivente ou omisso em relação às transgressões humanas.

                Precisamos aprender mais da pessoa de Deus. As intempéries de toda sorte (enfermidades, escassez de recursos, violência, depressão, animosidades, crises conjugais, drogadição, etc.) são fruto das ações/omissões humanas. Devem ser compreendidas e resolvidas no plano terreno. Depende, a solução ou mitigação dos problemas, da mudança de postura, de ações concretas, de iniciativas. Esperar que Deus aja no lugar do homem beira a insensatez. Com Ele não se brinca, pois o que o homem semear, também ceifará – diz a Bíblia. Crer em algo distinto é fazer de Deus um mercador, é diminuí-lo em Sua santidade, é limitá-lo em Seu poder, é perder a oportunidade de conhecê-lo e de usufruir do Seu inesgotável amor.  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ACOLHIDA: O DESAFIO DA POLÍTICA DE INCLUSÃO



ACOLHIDA: O DESAFIO DA POLÍTICA DE INCLUSÃO
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                A famigerada, para alguns malfadada, política de inclusão parece algo já dado. Aparentemente, não se discute. É lei e pronto! Não por acaso, muitas são as instituições de ensino (principalmente, privadas...) que buscam, de alguma, forma – e mediante inúmeras justificativas questionáveis –, burlar o ordenamento jurídico, como forma de resistir à matrícula de pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. A dita inclusão, sob a ótica de um grande número de educadores, é um pesado, quase insuportável, fardo. Bonita sob o ponto de vista teórico, mas impraticável no dia a dia. Inúmeros são os sindicatos de professores, país a fora, que vêm se mobilizando de forma contrária à referida política governamental. Argumentos não faltam para alimentar a crítica: despreparo dos professores, ausência da família, precariedade física das escolas, escassez de recursos, número excessivo de alunos por turma, descaso com a formação dos educadores, e por aí vai.
                No Brasil, infelizmente, a regra tem sido a tomada de decisões, por parte dos entes públicos, a partir desta ou daquela visão político-partidária. O que deveria ser “política de Estado”, no fundo não passa de “política de governo”, portanto eivada dos vícios típicos dos mais variados matizes ideológicos. Assim, o que deveria ser duradouro e sério, já nasce condenado à crítica de amplos setores da sociedade, quase sempre alijados do processo de discussão e de decisão. Ideias e iniciativas governamentais surgem e desaparecem de forma meteórica. Não fosse o, quase sempre, elevado custo e ignóbil desperdício de dinheiro público, passariam despercebidas. São, muitas vezes, iniciativas que atendem, sobretudo, ao ego e interesses particulares, em prejuízo da coletividade. Cria-se um indisfarçável clima de desconfiança frente a toda e qualquer iniciativa do Executivo ou Legislativo, mesmo que a intenção seja louvável.
                O grande desafio da “política de inclusão” é fazer desta uma “política do acolhimento”. Apesar de alguma similitude, a segunda se mostra mais humana do que a primeira. Esta soa como inserção à força, imposição, do tipo “enfiar goela abaixo”... A “política do acolhimento”, por sua vez, pressupõe convencimento, especialmente de quem acolhe. Ora, se quem acolhe (professor, colegas, a escola como um todo...) estiver convencido acerca da escolha feita, trilhar-se-á meio caminho. Afinal, acolher é desarmar-se. É mostrar-se solícito, pronto para o diálogo, aberto para eventuais mudanças exigidas pelas novas (e antigas!) demandas. Acolher é desacomodar-se, é “largar o queijo” em prol do “outro”. A “política do acolhimento” pressupõe humildade e sinceridade, pois que sem tais valores, toda e qualquer relação, por melhor que seja, está fadada ao fracasso. Acolhimento lembra alteridade, preocupação com o “outro”, comprometimento... Na “política do acolhimento”, o formalismo frio advindo da preocupação (às vezes, falsa) com a lei, dá lugar à brasa ardente da paixão. É fogo que alimenta a resiliência, aquece a alma e aproxima as pessoas, apesar (e principalmente por causa delas) das diferenças. Estas, sob a ótica da “política do acolhimento”, são, não um estorvo a ser afastado, mas matéria-prima para um conviver sadio e fraterno. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

LAMBENDO SABÃO



LAMBENDO SABÃO
Gilvan
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                Dia desses, flagrei uma amiga usando a expressão “lamber sabão”. Desacostumado a esta, inquiri o significado. Disse que a usara como sinônimo de liberdade de opinião: “cada um tem a sua!”. Intrigado, apelei para a internet e logo encontrei uma significativa quantidade de explicações para a referida expressão. Muito antiga, ela normalmente vem sendo usada como reprimenda a algum incauto de “boca-suja”, familiarizado ao uso de palavras de baixo calão.

                A alegada “pós-modernidade”, por estas bandas, tem engendrado uma interminável quantidade de mudanças na forma de vestir, de andar, de cultuar, de se portar, de falar... Mudanças quantitativas e qualitativas. Superficiais e profundas. Específicas e genéricas. Muitas mudanças. Não é incomum, jovens usarem de expressões verbais chulas e, segundo os mais “velhos”, ofensivas e desrespeitosas. O que noutros tempos era agressivo, hoje por vezes é sinônimo de amizade e cumplicidade. O mesmo “foda-se” que ofende é, noutro contexto, sinal de pertencimento à tribo. Vá entender! Tudo depende de quem fala, para quem fala e por que fala! Depende, também, vez por outra, de quando e onde fala. Noutras palavras, o problema, aparentemente, não está na palavra em si, mas na relação que se estabelece entre os sujeitos que falam. Será?

                O velho Juca já dizia – parafraseando as Santas Escrituras – que a boca diz aquilo que está cheio o coração. Assim, palavras duras denunciam um coração rancoroso, enquanto palavras dóceis refletem um coração cheio de amor. É o que dizia meu avô. Exageros à parte, é inegável que as gerações mais novas – em grande parte – parecem desconhecer mais do que uma ou duas dezenas de expressões. Além de excessivamente limitado, o vocabulário se mostra absurdamente tosco. Coisa de causar espanto até no mais distante neandertal. O “uga-uga” deu lugar ao “pô meu!”. Acrescenta-se ao vocabulário um “caralho”, um “merda”, um “porra” e um “saca só”, e pronto! Temos um glossário quase completo do linguajar ultramoderno. É de doer. Pior então, é quando a gurizada inventa de escrever. Aí as “expressões” acima ficam mais “simples” ainda. Viram um “kct”, um “mrda”, um “pqp” e por aí vai. Mal ou bem (quase sempre, muito bem...), os jovens se entendem. Nós, os mais velhos, é que não os entendemos.

                Falso moralismo de lado, preocupa a lastimável miséria do vocabulário hodierno de nossa juventude. Pobreza não apenas de letras, mas de sentimentos. A palavra é como o invólucro destes últimos. Grandes sentimentos não cabem em expressões de tamanha irrelevância. Joias preciosas (e os sentimentos o são) devem ser guardadas em locais apropriados, da mesma forma que vinhos bons devem ocupar odres novos. A carestia, hoje, é tanto dos bons vinhos e preciosas joias, quanto dos odres novos e porta-joias adequados. Carece-se também de sentimentos nobres e palavras boas. Mais do que nunca, urge que muitos lambam sabão. Haja sabão, é verdade! Mais difícil, contudo, é achar pessoas dispostas a mandar seus filhos, amigos e alunos lamberem sabão. Complexo e desafiador exercício de autoridade. É nadar contra a maré, pois que politicamente incorreto. Não é fácil dar a cara ao tapa, ainda mais quando tanto a cara quanto o tapa se propagam na velocidade da luz por meio das redes sociais. Apesar do risco, alguém precisa dizer aos jovens (e não jovens...): vão lamber sabão!   


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

PUNTA E A PONTE



PUNTA E A PONTE
Gilvan
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                Feriado à vista, hora de viajar... Para alguns, é claro. Uma minoria, como minha amiga que irá para Punta. Eu, ao contrário, não transporei a Ponte. Punta e Ponte. Apesar da proximidade gráfica e fonética, realidades díspares. A primeira, o paraíso dos turistas. A última, o inferno de Dante. Enquanto para aquelas bandas do Uruguai reina, ao lado do sol, o dólar, uma boa Norteña e um bocado de corpos esculturais, por aqui o que sobra é indignação, aumento das passagens e uma avenida permanentemente engarrafada a cortar a cidade. Lá por Punta, sorrisos e a gorjeta correndo solta por entre as mãos dos garçons. Por aqui, o endividamento do Município e a demonização dos servidores (a estes, nem as gorjetas...), como se fossem o vilão da história. Lá em Punta, cassinos por toda parte, enchendo os bolsos dos empresários e os cofres públicos. Por aqui, sobra moralismo, enquanto escasseiam recursos e prolifera a marginalidade. Por lá, comércio abarrotado de gente, saindo pelo “ladrão”. Por aqui, meia dúzia de lojas ameaçadas, também (vejam só!), pelo ladrão. Trocadilhos à parte, a realidade na terra da Ponte é de chorar. Lá em Punta é de rir. Por lá, praias paradisíacas. Por aqui, nem praia, nem paraíso, nem sequer sombra ou água fresca. Esta última, além de quente, é cara. Muito cara. Como o é a luz, o combustível, o transporte (de novo!), o pão, o leite... Por aqui, na Ponte, paga-se caro, come-se mal e vive-se pior ainda. Só não se mora, ainda, embaixo da Ponte porque não dá. Faltaria lugar. Quem vai à Punta tem o Puerto, Casapueblo, Playa Mansa, Museo del Mar... Quem fica tem... tem... tem o quê mesmo? Ah, tem o Parcão e o Shopping do Vale (caso não tenha fechado). Tá bom, cinco dias no ano tem, ainda, a Casa do Leite! Punta e a Ponte. O que é a distância física comparada à distância de qualidade de vida, infraestrutura, lazer, segurança, hotelaria, paisagística? O que são pouco mais de setecentos quilômetros comparado à estratosférica diferença entre o que se tem por lá e o que se tem por aqui? Por lá, o Rio da Prata, por aqui o Gravataí. Querem mais? É, o balneário no departamento de Maldonado parece coisa de outro planeta. Os “descendentes” de Don Francisco Aguilar, eles são os “ETs”. Os de cá, os da Ponte, somos – ao contrário – o centro do universo. Ironias à parte, ao que parece os “herdeiros” do Coronel João Baptista Soares da Silveira e Souza Sobrinho ficaram com a lentilha, enquanto os de lá, os de Punta ficaram com tudo o mais. Eles, Jacó. Nós, Esaú. Eles, Punta. Nós, bom... só nos resta a Ponte. Boa viagem minha amiga!



terça-feira, 13 de novembro de 2012

JUVENTUDE EM AÇÃO



JUVENTUDE EM AÇÃO
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                Esperança. Não está morto quem peleia, tchê! A Juventude em Ação está mais viva do que nunca, fazendo (re)nascer uma fagulha de esperança. Como professor, vejo com profunda preocupação a flagrante apatia dos jovens no que tange à efetiva participação nos desígnios de nosso Município. Além de parca, tem sido uma participação de tez partidária. As poucas lideranças que nascem nos movimentos acabam por lançar mão das mesmas práticas que há pouco condenavam. São facilmente cooptados, afastando-se das utopias em troca de um que outro aparente privilégio. Viram a “casaca”, e de ferrenhos opositores se tornam cabos eleitorais, não sem antes terem “mamado” nas já conhecidas tetas do poder. Sonhos são abandonados em troca de algumas moedas advindas do status de estagiário nesta ou naquela repartição pública. Agressor e vítima confraternizam, a ponto da última ver no primeiro não mais um inimigo a ser combatido, mas sim um modelo a ser seguido. A arapuca tem o seu preço. Arrefece-se a paixão pela causa e perpetuam-se as desigualdades. O sopro da necessária e salutar subversão, matéria-prima das grandes transformações, esvanece.

                Há de se elogiar, portanto, a Juventude em Ação. Talvez, um que outro “mas”. Vocabulário às vezes chulo, ofensas pessoais, algumas estratégias quiçá equivocadas... Nada, contudo, que apague o brilho e importância da iniciativa. Há muito que não se via por estas bandas um movimento tão genuíno e original. Jovens fazendo da rua o grande laboratório da práxis libertária e dando real sentido a termos até então engessados pelo discurso acadêmico e morno (para não dizer, “morto”) das instituições de ensino. Cidadania, democracia, inclusão, igualdade, ética... Expressões que ganham vida. Desejo que a Juventude em Ação não se deixe prostituir pelos holofotes e pelo canto enganoso das sereias. Não se venda e nem tampouco se renda ao individualismo egoísta. Seja o “coletivo” a sua bandeira. Use de sua energia para canalizar as demandas que nascem de uma distribuição ignóbil da renda. Represente como que uma poderosa força centrípeta das mais diversas forças vivas da sociedade. A Juventude em Ação pode, num futuro nem tão distante, ser um importante – talvez o principal – movimento de articulação dos “sem vez e sem voz”. Para tanto, necessário é que ela se debruce na reflexão, na discussão, no tensionamento, no poder da palavra e, sobretudo, na ação, pois que é esta última que tem emprestado não apenas o nome ao movimento, mas tem sido o seu próprio norte.

               












FALÊNCIA DO ESTADO E REAÇÃO SOCIAL



FALÊNCIA DO ESTADO E REAÇÃO SOCIAL
Gilvan Teixeira
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                Há muito venho apontando para os inegáveis sinais da falência do Estado brasileiro. Não que noutros tempos ele tenha sido “saudável”, confiável, seguro ante os olhos de seus “acionistas” (contribuintes). A diferença está, digamos... na aparência. Outrora, o Estado parecia forte, inspirava alguma confiança, nem que por parte dos mais ricos ou dos mais alienados. Hoje, contudo, o Estado sequer tem conseguido salvar as aparências. Lembro que há duas ou três décadas atrás algumas vozes se levantaram em favor da dita “pena de morte”. Por quê? Não por acaso, o título deste singelo texto traz primeiro a “falência do Estado” e, na sequência, portanto somente depois, a “reação social”. Ora, a defesa de medidas extremas só ganha força quando da existência de um contexto que as justifique, pois que do contrário, as teses mais radicais acabam por cair por terra.

                O Estado brasileiro, em todas suas formas (Executivo, Legislativo e Judiciário) e esferas (federal, estadual e municipal) se vê envolto em sérios problemas: falta de credibilidade, morosidade, ineficiência, corrupção, abuso de poder, ingerência indevida, alto custo, entre tantos outros. Criou-se um perigoso e pérfido “caldo cultural”, onde importantes valores – como a honestidade, o trabalho, a ética, a verdade, o sentimento de justiça, etc. – há muito vêm sendo preteridos em favor da malandragem, do “jeitinho”, do lucro fácil, do hedonismo exacerbado e do relativismo irresponsável, por exemplo. Um “caldo” que alimenta corruptos e corruptores, viciados e traficantes, aliciados e aliciadores. Um “caldo” que funciona como pá de cal às virtudes, fazendo destas últimas uma exceção, quando deveriam ser a regra. Ao criminoso os benesses de uma legislação ultrapassada, onde viceja a injustiça. Perdem quase todos, enquanto poucos ganham. Perde a sociedade como um todo, ganha o criminoso. Sai no prejuízo o contribuinte, enquanto a indústria do “recurso protelatório” enriquece alguns escritórios advocatícios. O medo impera nas ruas, muitas destas tomadas por viciados, bêbados irresponsáveis, gangues, pichadores, quadrilhas, assassinos, larápios de toda sorte. A polícia, quando prende, se vê desmoralizada pela prática corriqueira da malfadada liberdade provisória, do semiaberto, da fuga, das medidas “compensatórias”. O garantismo tem servido de eufemismo para impunidade. A mensagem que fica parece clara: no Brasil, parece valer a pena traficar, roubar, corromper e matar. Parece valer a pena apropriar-se de bem alheio, desviar recursos públicos, lançar mão de meios fraudulentos para obter sucesso em licitações e assim por diante. O risco é pequeno, e enorme é a probabilidade de se sair impune. Enquanto isso, vegeta a saúde, fracassa o ensino e preocupa a segurança. Serviço público, no Brasil, tem sido sinônimo de ineficiência e desconfiança.

                O cidadão tem o direito de se defender, defender sua família e seu patrimônio. Direito este não apenas legal, mas ético. É um direito básico, portanto anterior à própria lei. Esta, por sinal, é um fenômeno temporal, portanto histórico, ao contrário dos princípios éticos, que são atemporais. Assim, ao contrário do que apregoam alguns, a própria Constituição não pode ser colocada acima da ética. Ora, a “pena de morte”, em que pese ser questionável sua aplicação, revela como que o “basta” dado pelo grupo social aos que ofendem grave e irremediavelmente os princípios mais caros da ética. No Brasil, tal pena está fora de cogitação, pois que não encontra guarida no ordenamento jurídico. Ainda que tivesse previsão legal, sua aplicabilidade seria temerária, dada a incapacidade do Estado brasileiro em inspirar confiança em suas ações. O que fazer então? Ao que parece, são poucas as alternativas. Talvez a longuíssimo prazo, tipo... a perder de vista, aumente o número delas. Todavia, as questões postas em jogo não podem mais esperar, especialmente a segurança. Esta requer medidas imediatas, urgentes. Ou somos nós, ou é o criminoso. Ou é nossa família, ou é o bandido. Este, por certo, não guardará o tempo necessário para que as hipotéticas ações do Poder Público venham a dar resultado. O criminoso tirará a nossa vida e de nossos entes queridos sem dó e nem piedade. Sem pestanejar – muito provavelmente, embalado pelos efeitos das drogas –, ele roubará, matará, estuprará, sequestrará, abusará sem pensar duas vezes. A segurança e a vida de nossas crianças, jovens, esposas e companheiras, idosos, depende de nós. Aguardar pelo Estado é assinar o atestado de óbito de quem queremos bem. A sociedade precisa reagir com rigor, de forma extrema, até que o Estado se mostre capaz de dar conta daquilo que é de sua obrigação. Portanto, mais do que nunca é necessário que se denuncie. A sociedade precisa “atormentar” aqueles que hoje a atormentam. Associações de moradores devem se mobilizar, achar formas e disponibilizar recursos para garantir a segurança. A casa arrombada de um, deve ser encarado como problema de todos. O assassinato de um pai de família inocente e trabalhador ou a brutalidade contra o jovem de boa índole devem ser problema de todos. Cabe a estes, portanto, a tomada de providências. Fazer o que o Poder Público há muito tem deixado de fazer (se é que o fez algum dia...). Justiça com as próprias mãos? Talvez. Barbárie não maior do que a que hoje se tem. Alguma dúvida de que vivemos a lei da selva? Pior do que isso. Além de bárbara, muito cara. Paga-se incontáveis quantias para, estarrecidos, ver os corpos de quem amamos apertados em ataúdes. Corpos desfigurados pela violência. Paga-se caro pelos discursos politicamente corretos, porém estéreis, sem qualquer efeito prático. Paga-se caro pelo legalismo que alimenta um Judiciário corporativista, insensível, embasbacado em meio a oratórias recheadas de uma língua morta. Paga-se caro pela morosidade dos processos, pelas demandas não julgadas em tempo oportuno. Paga-se caro por uma burocracia insana que zomba do trabalhador pobre. Onde está o Direito? Onde está o Estado de Direito? Direito de quem e para quem? O Estado não é confiável. Tem sido um fim em si mesmo. Existe para garantir conchavos políticos e estabilidade para uma infinidade de gente. Um custo imensurável, com efeitos catastróficos para o presente e futuro do país. Aprendi que quem paga mal, paga duas vezes. Historicamente, tem-se pago mal neste país. Paga-se, portanto, duas vezes. A classe média (existe?), por exemplo, paga previdência pública e privada, segurança pública e privada, saúde pública e privada... A pública, em regra, esquece! A privada, em regra, a cada dia se torna mais precária. Resta, portanto, ao cidadão um último fio de esperança, a reação desesperada de quem luta pela coisa mais elementar do ser humano: a vida. Esta se encontra em perigo. Agoniza em leito de morte. Diante da falência do Estado, a reação social!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ENIGMA



ENIGMA
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Eis que a primavera corria solta em direção ao caloroso abraço do verão. Mal começara novembro e a sensação era de final de ano. Natal, Réveillon, férias, praia... Por mais que resistisse, bem sabia que antes do apagar das luzes de dois mil e doze, algumas pendências precisavam ser resolvidas. Passar de ano era uma delas.

Sentia-se pressionado. Química, Física, Matemática, Geografia... Provas e mais provas. Teria de enfrentar, ainda, ENEM, simulados, vestibular aqui e acolá. Família, tios, primos, amigos e até o cachorro, todos pareciam cobrá-lo. Tão cruel quanto à cobrança explícita, era aquela outra, a que se dava nas entrelinhas. Indiretas, olhares de canto, gestos suspeitos, sorrisos estreitos. Deboche ou exagero? A mais pura verdade ou peraltices de uma mente com mania de perseguição? O fato é que sofria. Sim, padecia por ele e pelos outros. Tinha clareza do quanto era sofrível para os pais pagarem a mensalidade. Quase um carro por ano! Mesmo que usado, era um valor e tanto. Pesava no orçamento e na consciência. Não pensassem fosse ele um insensível alienado. Doía-lhe lembrar que o carnê da escola descansava com tantos outros no fundo da gaveta, engrossando dívidas e endossando uma crise conjugal que parecia não ter fim.  

Tudo a sua volta parecia conspirar. O sono, há algum tempo não o visitava e quando o fazia, era inoportuno. As noites eram regadas a Coca-Cola e Trakinas. O latido dos cães ao longe misturava-se ao tec-tec do teclado. Verdadeiro zumbi. Uma multidão deles. Velhos, jovens, crianças... Homens, mulheres... Sarados, doentes... Comunicava-se com muitos, tudo ao mesmo tempo. Era um “comunicar” inteligível, apesar de imperfeito. Junto com a madrugada, avançavam também os ponteiros do velho relógio, herança da avó, pendurado ao fundo do corredor. Duas horas da manhã e nada de conseguir dormir. Logo viria o arrependimento, feito algoz, a cobrar cada minuto de sono perdido.

Um, dois períodos... Era o tempo que levava para, finalmente, se dar conta que a aula começara. Depois de recebida a falta por não ter respondido a chamada e após meia dúzia de reclamações do professor, aí sim o galo parecia cantar. Zoavam dele.  Sua distração era motivo de chacota. Engraçado para os colegas, irritante para os professores. Era tido por desleixado, preguiçoso, “largado”... O caderno por si já denunciava a quanto ia a vida do sujeito. Alguns rabiscos e nada mais. Temas incompletos, textos pela metade, provas não assinadas... Tinha de tudo naquela bagunça. Outro dia, uma professora jurara de pés juntos que vira uma traça a corroer, faceira, a capa do caderno do aluno. Ia de mal a pior.

Dias intermináveis os que, de um tempo para cá, vivia. Ganhara peso, assim como uma permanente tristeza. O olhar já há algum tempo não apresentava aquele brilho de outrora. A mãe já observara! Falara dos olhos caídos do guri (ora, já era quase um homem...). Drogas? Não. Paixão? Muito menos. A simples hipótese de uma depressão, mesmo que leve,  já mobilizara toda a família. Psicólogo, terapia familiar, até terreiro de umbanda. Nada dele recobrar o antigo sorriso e a tez do passado. Fora os gastos, nada mais. Sentia-se um verme, um nada!  

Enquanto isso, o tempo seguia sem dar trégua. As fatídicas datas das provas e entrega de trabalhos iam chegando, feito turbilhão. Com a proximidade do término do ano letivo, ia diminuindo a margem do jeitinho e da enganação. As manobras de antes já não encontravam eco. A hora da verdade chegava a passos largos. Com ela, o medo da reprovação. A reprimenda dos pais, as inevitáveis sanções, a crítica dos avós, a troca de escola, a distância dos amigos... O mundo parecia ter sido injusto e cruel com ele. A primavera, indiferente, seguia seu curso em direção à próxima estação!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

OS MODELOS DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL



OS MODELOS DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL
Prof. Gilvan
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                A indústria, ao longo da história, passou por três grandes fases. A primeira delas foi a do “Artesanato” (até o século XV). Esteve marcada, entre outras características, pela inexistência da divisão de trabalho, pois o trabalhador (artesão) era responsável por todas as etapas da produção. Outra característica importante de tal fase era a inexistência de máquinas, sendo que o artesão contava tão-somente com ferramentas. A produção era bastante limitada, exigindo uma pequena quantidade de matéria-prima, com pouco impacto ambiental. A segunda fase da indústria foi a da “Manufatura” (entre os séculos XV e XVIII), fase esta marcada pelo início da divisão do trabalho. Apesar de ainda não ser rígida, já se percebia uma certa distribuição de tarefas. É a fase onde surgem algumas máquinas rudimentares, servindo as mesmas de força “complementar” ao trabalho humano. Há o aumento da produção e uma maior exigência de matéria-prima, sem contudo representar um impacto significativo ao meio ambiente. A terceira e última fase é chamada de “Indústria Moderna” (a partir de meados do século XVIII). Tal fase pode ser subdividida, por sua vez, em três: Primeira (1750 – 1860), Segunda (1860 – 1970) e Terceira (1970 - ...) Revoluções Industriais. A última fase da indústria é marcada pela intensa divisão do trabalho, pelo extraordinário aumento da produção (com enorme impacto ambiental) e pela importância da máquina (passa a ser o “centro” do processo produtivo).

                Durante a fase da Indústria Moderna, merecem destaque alguns “modelos de produção industrial”. O taylorismo, por exemplo, marcou o início do século XX. Caracterizou-se por ser essencialmente teórico, influenciando outro modelo, qual seja, o chamado fordismo. O taylorismo-fordismo trazia entre suas características: a especialização, o monitoramento do tempo gasto na produção, a premiação (a ideia era produzir mais no menor tempo possível), e a supremacia dos métodos científicos (já comprovadamente funcional, viável e lucrativo) em relação aos empíricos. Henry Ford buscou colocar em prática a teoria de Taylor. Adotou a chamada “linha de montagem”, focando na produção em massa, produção esta pautada na padronização e simplificação. Outra característica do fordismo era a chamada “verticalização” da produção, onde a empresa buscava depender o mínimo possível de “terceiros” durante o processo produtivo. Assim, por exemplo, a indústria Ford (o auge do fordismo se deu entre 1945 e 1968), era responsável desde o plantio da seringueira (matéria-prima da borracha) até a produção do ferro necessário na linha de montagem do automóvel.

                Outro modelo de produção industrial é o chamado toyotismo. Tal modelo nasceu no Japão (década de 1970, portanto já na Terceira Revolução Industrial) e só pode ser compreendido dentro de um determinado contexto histórico. Ora, os nipônicos ainda se recuperavam das tristes consequências da Segunda Guerra (1939-1945), sendo o Japão um país com escassez de matérias-primas. Ora, o país não podia portanto se dar ao luxo de uma produção nos mesmos moldes apregoados pelo fordismo. Ao contrário, mister é que focasse numa produção que fosse “enxuta” e otimizada. Daí nasce a ideia do “just-in-time”, ou seja uma produção programada, organizada, voltada à racionalização dos estoques e matérias-primas. O toyotismo nasce numa época em que a informática e a robótica ganham força, sendo marcado ainda pela multifuncionalização do trabalhador. Ao contrário do fordismo – onde o operário se atinha a uma só função –, o toyotismo valoriza o profissional dinâmico, versátil, adaptável às necessidades do mercado. Outra característica deste modelo é a preocupação com a qualidade (já o fordismo partia da ideia de um “controle por amostragem”, portanto muito limitado), bem com a personalização do produto, prática esta em conformidade com o significativo aumento do grau de exigência do consumidor.

                Finalmente, outro modelo a ser destacado é o volvismo. Surgido no ocaso do século XX (na Suécia), tal modelo tem como principais características a busca de uma, por assim dizer, “conciliação” entre o passado e o que há de mais moderno. É um modelo assentado na preocupação com a qualidade não apenas do produto, mas de quem o produz. A criatividade e o trabalho coletivo ganham força.  

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ESPINHOS QUE FALAM



ESPINHOS QUE FALAM
Gilvan
e-mail: profpreto@gmail


                Gosto de falar sobre rosas. Elas espinham, mas principalmente encantam. São singulares e nobres. Acima de tudo belas. Tamanha beleza nasce, talvez, da altivez própria das rosas. Altivas, mas sem prepotência, sem arrogância. Espinham, porém não espezinham. Machucam a carne, mas envaidecem o espírito. São espinhos de um tipo único, especial. Espinhos que falam direto à alma, ao coração. Dispensam palavras, textos bem elaborados ou vocábulos pedantes. Falam por si só. Falam direta e abertamente. Envoltos em silêncio ou permeados por música, os espinhos das rosas são como notas musicais. Perfeitos, completos. Basta um pouco de poesia e de sensibilidade e as notas (digo, espinhos!), de per si, tratam de fazer o resto, como que por encanto. Na simplicidade dos espinhos descansa parte, talvez toda, beleza das rosas. Espinhos que ensinam, que admoestam, que nos fazem lembrar o quanto, ainda, somos humanos. Uma vez que nos espetam, desencadeiam reações das mais díspares e adversas. Reações visceralmente humanas. Vão da raiva ao amor e da dor ao êxtase. Reações contraditórias? Absolutamente. Apenas humanas. Os espinhos das rosas nos despertam para nossa inafastável carnalidade. Por isso somos especiais. É o que nos aproxima, nos familiariza. O sangue que brota da ação dos espinhos nos traz para realidade, nem que por ínfimo instante. Breve, mas rico momento. Lapso de tempo onde flui a humildade, mesmo que forçada. Faz lembrar nossa temporalidade e transitoriedade. Aniquila nossa espiritualidade? Nada disso, a reforça. Os espinhos das rosas são, portanto, proféticos. Falam de dias vindouros. São o limite entre o que somos e o que desejamos ser. Entre nossos vícios e nossos desejos. Nossas deficiências e nossas utopias. Os espinhos das rosas trazem o poder da subversão, da mudança, da reação. Trazem, também, o DNA da esperança. Os espinhos, na sua aparente rudeza, denotam a proteção das rosas. O que seria destas sem seus espinhos? O que seria de nós sem as rosas? 

MEQUETREFE



MEQUETREFE
Gilvan
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                Neste país, ninguém gosta de ser mequetrefe. Nossa “cultura” espezinha, joga às traças e lança no mais absoluto ostracismo o sujeito mequetrefe. Por aqui, o dinheiro empodera o indivíduo. Quem não o tem, precisa – ao menos – fazer de conta que o possui. Tal jogo de aparências tem se mostrado essencial no acúmulo do capital, onde poucos ganham muito, enquanto a maioria... Bom, a maioria tenta fugir à pecha de mequetrefe. Na terrinha onde o malandro é tido por herói, pouco importa a real condição do sujeito (sujeito de quê?). O que vale é acompanhar as novas tendências e tornar público as últimas aquisições. Vende-se a alma pelo celular, iPod, videogame, par de sapatos, bolsa, etecetera e tal. Tudo, de preferência, no plural. Não basta “um” para dar conta de tamanho ego. Produz-se, assim, não apenas lixo e mais lixo industrial, mas também humano. Figuras movidas pela incontrolável necessidade de ter, possuir, parecer... Mesmo que, para tanto, comprometam meses, anos, do já parco orçamento doméstico. O mais irônico é que o vazio existencial tem se mostrado diretamente proporcional ao número de prestações a serem pagas. O que era encanto, vira desespero e sentimento de culpa. Para expiá-la, entra-se num pérfido ciclo vicioso, onde novas aquisições são feitas e, com elas, dívidas e mais dívidas contraídas. Burro sim, mequetrefe jamais. O temor de parecer mequetrefe, mesmo o sendo, é tão grande que tudo parece valer a pena. Inclusive o crime, a perfídia, o engodo, a apropriação indébita, a traição. O que é a tênue e hipotética sanção penal frente à óbvia e certa invisibilidade social? Ninguém gosta de ser mequetrefe. Salvo, é claro, em momentos ímpares, como aquele amplamente divulgado pelos mais diversos órgãos de imprensa, onde o próprio advogado de defesa de uma das rés alegou ser sua cliente uma personagem mequetrefe na engrenagem por hora apresentada. A ré deve ter se revolvido na cadeira. Mequetrefe? Antes a condenação do que o vergonhoso adjetivo. O que vale uma vida sem as aparências? A expressão do defensor deve ter calado fundo, doído no rim. A acusada deve ter desejado, naquele momento, a morte. Sim, dela e do advogado, pago, muito provavelmente, a peso de ouro. Não deve ter dormido naquela noite e, nem tampouco, nas seguintes. O que pensaria sua família, amigos, colegas, subalternos... O que diriam os outros? Mequetrefe. O termo, feito corvo a comer o fígado de Prometeu, deveria soar como cravo nas mãos (não de Cristo, posto que tal comparação seria por demais indigna...) do crucificado. Pior ainda era ver o vocábulo sair, a posteriori, da boca do insigne ministro do mais elevado Tribunal do país. Inteligente o magistrado. Feito instrumento de tortura medieval, a palavra deve ter produzido na ré lancinante dor. Mequetrefe. Preferiria ela ter sido, quiçá recebido um “culpada!”, “condenada!”, mas não “mequetrefe!”. A estratégia da defesa surtira resultado? Só o tempo o dirá. O certo, contudo, é que o termo “mequetrefe” saiu do rol das expressões obscuras e desconhecidas, passando a ser um sinal de esperança em dias melhores, dias em que os reais e nobres valores se sobreponham à enganosa cultura fundada nas aparências, nos “jeitinhos”, dias onde a honradez e a ética jamais cedam lugar aos caprichos individuais, dias em que mequetrefes sejam tão somente aqueles que olvidam o interesse verdadeiramente público e coletivo.   

quinta-feira, 25 de outubro de 2012



ZÉ LOUCO
Gilvan
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                Era guri e o Zé Louco já perambulava pelas ruas e avenidas de Cachoeirinha. Figura folclórica, desafia o tempo, pois que este passa e o Zé parece não envelhecer. Segue tão maltrapilho quanto simpático. A Providência, sempre divina, não o abandona. Por ironia, vão-se os ricos, os doutores, os “coronéis”, as beatas da cidade, e o Zé Louco segue mais vivo do que nunca. Faça sol ou faça chuva, a figuraça transita pelas calçadas. Cata daqui, cata dali, vai driblando com maestria a dureza aparente que a vida lhe reservou. Apesar disso, é duvidar, lá está o Zé Louco a abrir o largo sorriso. Gargalhada solta, entremeada com os já conhecidos gritos e malcriações saídas daquela boca. Mesmo assim, a ninguém escandaliza e nem tampouco incomoda. Ao contrário. Mesmo os mais puritanos não ousam condená-lo. O que seria de Cachoeirinha sem o Zé Louco? Vão-se os vereadores, secretários, prefeitos... fique o Zé. Faz parte da história do Município. Ao lado da antiga ponte, do Mato do Julho, da Casa do Leite, da fazenda Ritter, ele faz lembrar um passado “romântico” da cidade. O Zé é, talvez a única, unanimidade. Era se candidatar, batata, estaria eleito! Por certo, as “forças ocultas” logo suscitariam a impugnação de seu nome. Não suportariam a enxurrada de votos e nem tampouco o tapa de luvas de pelica. Talvez o Zé Louco os incomode. Talvez represente, ainda, a mais genuína forma de personificação das profundas contradições e paradoxos criados e perpetuados em Cachoeirinha. Abandono, exclusão, indiferença... No fundo, o Zé é cada um de nós, os que trabalham, os que sentem frio, fome, os que se sentem abandonados e esquecidos, os sem vez e sem voz. É, quem sabe, uma figura subversiva. Subverte ao escancarar as mazelas que, feito cupim, corroem por dentro. As perfumarias, os penduricalhos, os históricos “ajeitamentos” levados a cabo por sucessivas administrações até que tentam esconder a fragilidade existente, mas não tem jeito. Ela aflora. Mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor intensidade, a maldita fragilidade aparece, sob a forma do tráfico, da violência, da prostituição infanto-juvenil, das enchentes, do colapso no trânsito, da precariedade das escolas, dos míseros tostões pagos aos servidores, da arbitrariedade do Estado, da carestia... Como cupim, as mazelas por vezes “agem” às escondidas, porém seguem corroendo. O Zé Louco, figura emblemática, ao rir, talvez o faça de nós. Quiçá, divirta-se com nossa insignificância, prepotência e arrogância. Ele, espero, nos perdoe pela flagrante incapacidade de enxergarmos pouco além do umbigo e muito aquém do necessário. O Zé é o espelho de Cachoeirinha, não daquela que cerra os próprios olhos frente às injustiças, mas da Cachoeirinha que trago nas lembranças de guri, simples, porém, romântica.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O PERFEITO IDIOTA



O PERFEITO IDIOTA
Gilvan Teixeira
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                Sentia-se o perfeito idiota. Talvez, caso único em Tupiniquim, país com duas centenas de milhões de pessoas. Idiota, só ele. Todo o Tupiniquim parara para assistir o último capítulo da novela das nove. Ele não. Todos no país curtiam futebol e pulavam carnaval. O idiota, ao contrário, preferia manter-se longe de tamanhos prazeres. Enquanto ou outros tinham os nomes de artistas e personagens na ponta da língua, ele por sua vez não conseguia esconder sua mais absoluta e profunda alienação. Nas rodas de amigo, enquanto o assunto fluía – “viste quem matou Fulano?”, “e aquela bola, heim? Não entrou...” –, o idiota ficava lá, como que embasbacado, jogado a um canto. A memória do coitado era de dar dó. As pistas e charadinhas de nada adiantavam. “Sabe aquela que fez o papel de Beltrana na novela das duas, a mesma que era casada com o saradão da novela das sete, que por sinal era o vilão na das nove e dirigiu a novela das onze...”. Vã tentativa. O idiota, com cara de mais idiota ainda, deixava às claras seu desconhecimento acerca dos babados da hora. Lembrava do passado, dos presidentes, senadores, deputados, governadores, prefeitos, vereadores, dos conchavos e negociatas, dos escândalos políticos, das trocas de moeda, dos altos índices inflacionários e elevadas taxas de juros, da censura, dos atentados, dos indicadores econômicos, de algumas siglas (PIB, IDH, IDEB, IPC...). Contudo, acerca das novelas que saltavam da telinha, nada, absolutamente nada! Verdadeiro idiota. Conhecia gêneros musicais, falava fluentemente cinco idiomas, interpretava os mais diversos textos – herméticos que fossem –, escrevia com desenvoltura, mas mostrava-se incapaz de responder o nome da telenovela que passara há mais de década atrás e fora “remixada” (requentada, segundo o idiota!), com novos traseiros, seios mais avantajados (siliconados, acusava o pobre coitado!), e diálogos cada vez mais curtos, afinal que voltada a um público cada vez mais acurado intelectualmente. O idiota não conseguia entender como o antigo pudor sucumbira frente às cenas de sexo explícito em pleno horário nobre. Menos ainda, entendia ele, como que – feitos zumbis –, homens, mulheres, crianças e idosos se prostravam diante da tela, como que a lhe reverenciar. Entronizada, lá estava ela: de plasma, LCD, LED... Grande, muito grande, enorme... Não entendia o idiota que os tempos eram outros. Acreditava, inocentemente (todo idiota é inocente!), que a leitura, o bom vocabulário, o fino trato ainda teriam lugar neste mundo, nem que fosse em Tupiniquim. Não queria crer que a imagem de dois corpos a se esfregarem libidinosa e impudicamente em público, ou uma verborreia ofensiva, recheada de palavrões, pudessem tomar o lugar da poesia, do amor, do respeito... Perfeito idiota. Sujeito fora de seu tempo, descontextualizado, ultrapassado, alienado. Tupiniquim, em que pese à existência (resistência!) do idiota, precisava seguir adiante, no rumo do progresso e da modernidade.

Leia mais:
http://www.tribunadecachoeirinha.com.br/
(edição de 16 a 31 de outubro de 2012). 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

FUNDAMENTALISMO LEGISLATIVO



FUNDAMENTALISMO LEGISLATIVO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Inacreditável! Talvez seja a expressão que melhor resuma meu sentimento. Quiçá, possa ser substituída por outras, como “indignação”, “revolta”, “asco”... Enfim, muitos são os vocábulos que poderiam achar guarida neste singelo texto. Multiplicá-los de pouco adiantaria, pois que nada compreensíveis para maioria dos que legislam neste município. Assisti, estupefato, alguns vereadores de Cachoeirinha fazendo da tribuna verdadeiro púlpito da pior espécie. Irresponsavelmente, usando do nome de Deus para esquivar-se de práticas político-partidárias vergonhosas e mesquinhas. Defendiam-se (é o que alegavam...) das acusações do Gaúcho Ateu. Até então desconhecido por este autor, o rapaz de codinome estranho tem usado os meios eletrônicos para explicitar seu descontentamento com o Legislativo municipal. Apesar, talvez, de alguns excessos do Gaúcho, é inconcebível a fala de determinados homens públicos. Pautar a importância de alguém sobre o credo, ou quiçá a falta dele, é demasiadamente estúpido. Vincular o “grau” de cidadania a determinada placa de igreja denota falta de bom senso e verdadeiro atentado aos princípios mais elementares do ordenamento jurídico. Não se deve medir o sujeito a partir de sua crença ou ceticismo. Vale lembrar que a crítica do Gaúcho Ateu tem como nascedouro a indignação que move qualquer sujeito de bem, independentemente de seu matiz religioso. É, por certo, uma reação natural e necessária frente a um Legislativo historicamente marcado pelo despreparo, apadrinhamento, defesa de interesses espúrios, negociatas político-partidárias, distanciamento das ditas “bases”, opacidade, entre tantas outras mazelas. A sublevação do rapaz vem ao encontro da impaciência cada vez maior do contribuinte, que vê seus parcos recursos diminuírem em face de uma política tributária insana que serve, sobretudo, para manutenção de um Estado mastodôntico, incompetente, ineficaz e inoperante. A aparente deselegância do Gaúcho reflete a descrença nos Poderes constituídos. A Casa que deveria ser do Povo nunca o foi. A Câmara foi e segue sendo a Casa “deles”. As aves que lá gorjeiam não são as nossas. O rico mármore dos banheiros destoa da miséria de quem o paga. As confortáveis poltronas, quase sempre desocupadas, contrastam com a dureza que marca a vida da maioria dos munícipes. A população de Cachoeirinha segue desassistida, à margem dos serviços públicos de qualidade. Sobram discursos na Câmara, contudo a práxis segue a rotina modorrenta de todos conhecida. Partidos se prostituem. Hoje andam de mãos dadas, amanhã se acusam mutuamente. Poder estéril, onde a pobreza de oratória só é maior do que a pequenez de espírito. A Câmara, definitivamente, não é espaço para proselitismo. Ignorar tal premissa é olvidar a história. Soa como verdadeiro desrespeito aos princípios que nortearam a própria gênese do Estado democrático de Direito. Urge um profundo repensar acerca do Legislativo municipal, sob o risco do mesmo ser, cada vez mais, visto como supérfluo e desnecessário. Seja o pronunciamento do Gaúcho Ateu fermento não de discórdia ou animosidade religiosa, mas, sobretudo, de transformação. Cachoeirinha merece!

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terça-feira, 16 de outubro de 2012

PRESENTE !



PRESENTE!
Gilvan
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                Sempre ouvi dizer que o melhor amigo do homem é o cão. Tenho lá minhas dúvidas. Sempre presente, nos acompanha desde que nascemos. É duvidar, já se manifestava quando ainda estávamos no ventre e éramos não muito mais do que um embrião. Presente desde o raiar até o ocaso do sol. Manifestando-se na calada da madrugada, faça frio ou não. Sob os lençóis da mais fina seda ou coberto por acolchoados feitos de remendos, lá está ele, sempre presente. No banheiro, na cozinha, na sala, na varanda, enfim, em qualquer lugar. Mostra-se inseparável. Às vezes, discreto, outras nem tanto. Vez por outra, dá o ar – literalmente... – da graça nos locais mais impróprios. Na hora e local erradas. Para nós, é claro! Ele, ao contrário, é todinho indiferença. Todo lugar é lugar e toda hora é hora. Pouco liga para o que pensamos ou pensam sobre nós. Quer, isto sim, é espraiar-se. Azedo, doce ou agridoce, o fato é que sempre vem ao encontro de todos os gostos. Revela, ao menos em parte, o que somos. É a nossa “cara”. Traduz um tanto de nossa personalidade. Talvez, por isso, alguns preferem escondê-lo. Tentativa nem sempre recheada de sucesso... Aí sim a emenda fica pior do que o soneto. É, por vezes, aí que mostra toda sua força, verdadeiro turbilhão de sons e cheiros. Não adianta, lutar contra ele é tarefa por demais ingrata. Melhor é não resistir. Na pior das hipóteses, tentar negociar. Tipo assim... “liberdade com responsabilidade”. Soltá-lo aos poucos, a conta-gotas, sob a condição de não se tornar público. Até porque, jamais fica famoso. No máximo, “conhecido”. Daí os apelidos e alcunhas que alguns lhe atribuem: silencioso, zangado, preguiçoso e tantos outros. Podem acusá-lo de tudo, todavia não se pode negar sua originalidade. Pesquisassem, certamente identificariam nele uma espécie de DNA. Único, revelador dos traços de quem lhe tem. Diga-se de passagem, um relacionamento um tanto que avassalador, por vezes. Senhor e servo são, nessa relação, papéis que se confundem. Feito casamento. Quando menos se espera, lá se vai o antigo companheiro. Sem carta, aceno ou sequer uma olhadela para trás. Ele sai da “vida” (corpo) para entrar na história. Não incomum é, quando da despedida, nos deixar em maus lençóis. Escancara para meio mundo o fim da relação. Ficamos com cara de coitados. Não bastasse, ele ainda deixa marcas. Não eternas, é verdade, mas profundas o suficiente para demandar duas ou três de mãos, além de muito sabão em pó. Por outro lado, há de se dizer que ele instiga a discórdia, mas também a cumplicidade conjugal. Passada meia-dúzia de anos, ele corre solto entre o casal. Todo pudor fica de lado. A vergonha de outrora dá lugar a verdadeira explosão de flatulências das mais diversas. Multicoloridas, com ou sem “cheirinho”, etecetera e tal. O que antes era feito às escondidas, com o passar do tempo, assume tamanha naturalidade que a simples falta dele passa a ser visto com desconfiança. “Não me quer mais!”. O que é o anel preso ao dedo perto da aliança gerada por entre os odores que só o amor, a partilha e a confiança são capazes de produzir? Ele passa a ser visto como sinal de intimidade doméstica. Feito segredo de cofre ou senha bancária, é algo a ser dividido apenas e tão-somente entre os cônjuges. No máximo, também entre os filhos. Fora de casa, nem pensar. Vira escândalo. “Quem foi?”. Como sempre, ninguém se acusa. Todos desconfiam do cunhado, aquele mais gordinho, espremido no canto da sala. Ah, aquela cara séria a ninguém engana. É, de certo, só uma coisa: todos têm uma história de PUM para contar.