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terça-feira, 16 de julho de 2013

O OUTRO LADO DA COSTELA


O OUTRO LADO DA COSTELA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br





                Quinze de julho. Dia do homem. Você sabia? Eu, sinceramente, não. O comércio, no afã desesperado de enfiar seus produtos goela abaixo, cria e reforça datas como a de hoje (ontem?). Ora, como se todos os dias não nos pertencessem. No princípio era o Verbo, lembra? Na Pré-história era o homem das cavernas. Durante a Antiguidade, quem eram os reis, faraós e profetas? Na Idade Média, eram os senhores feudais quem davam as cartas. A Modernidade foi marcada pelos mecenas, enquanto na Contemporaneidade somos nós, os homens, que seguimos à frente das grandes empresas, agremiações partidárias e clubes de futebol. Não fossemos nós, o que seria delas? Eva, sem Adão... Inimaginável. Corpo sem costela. Insustentável. Bambo, ao sabor do vento. São os homens o alicerce, o sustentáculo, o provedor. Daí não haver espaço para a dor, para o choro e para o sorriso fútil. Nossa insensibilidade foi tecida pelas agruras do tempo, pelas guerras travadas em campo aberto e junto às trincheiras. O ar sisudo, o forjamos ante a eterna ameaça do potencial concorrente. Traçamos um círculo imaginário em torno de nossa casa e de nossa família e, com unhas e dentes, afastamos tudo e todos que representem risco ao que julgamos ser nosso. Não admitimos fraqueza e condenamos a covardia. Quinze de julho, que nada. Somos senhores do tempo. Subjugamos o medo e afugentamos as forças etéreas ou terrenas, jamais demonstrando qualquer titubeio frente ao desconhecido. Somos faca na bota. Ainda mais para estas bandas do Sul, onde peão é peão e prenda é prenda, onde ximango e maragato não se misturam. Cabe a nós a última palavra, nem que seja para... aquiescer (minha mulher acabou de chegar neste momento!). O que nos torna especiais é a possibilidade de nos vermos em nossa “cara metade”. O que é nossa labuta perto das dores do parto? O tempo que aparentemente perdemos a espera da mulher amada, envolta em suas compreensíveis vaidades, em nada se compara com a longa espera gestacional. Mulheres guerreiras, valentes, multifuncionais. Não fossem vocês, estaríamos perdidos, incapazes que somos de cuidar para que o leite não se espraie pelo fogão, de enrolar as meias ou de achar as próprias cuecas. Somos tolos, isto sim. Morremos mais cedo, nos matamos mais fácil e nos corrompemos por quase nada. Ano após ano, geração após geração. Teimamos em não aprender com os erros do passado. Quebramos prefeituras e insistimos em discursos que pouco mais produzem do que cuspe e mau hálito. Pensando bem, ter um dia em alusão a nós já é muito. Quase um exagero. Quiçá, presente de uma mulher. Viva o nosso dia! Parabéns a todos os homens... 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A BRUXA


A BRUXA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O inverno mal iniciara e o frio já era intenso. O minuano diminuía ainda mais a sensação térmica naquela manhã. Cachoeirinha estava envolta pelas brumas. Apesar do adiantado da hora – passava das seis –, ainda era escuro. O rio, ou o que sobrara dele, exalava uma densa nuvem a esconder tudo a sua volta. A artéria principal da cidade metropolitana mais parecia aqueles fiozinhos tomados de pequenas lâmpadas, muito comuns em período natalino. Verdadeiro pisca-pisca das lanternas traseiras dos automóveis, enfileirados naquele lerdo movimento de arrancadas e freadas. No interior dos coletivos, vultos. Anônimos, espremidos feito gado. Prontos para o abatedouro, para a dureza da lida. Verdadeiras sardinhas em direção à enorme boca recheada de dentes dos tubarões. Lado a lado, carros particulares, luxuosos alguns, e ônibus lotados. Entre eles, em comum, os vidros embaçados pelo contato do ar quente saído daqueles corpos com o gélido ar que brotava do polo meridional. O barulho artificial saído dos motores afugentara, há muito, o canto do galo. Não fosse o Mato do Julho e o “Bosque”, teriam desaparecido todos os vestígios do tempo em que o lugar trazia os ares do interior. Lá, no Bosque, em meio à paisagem bucólica, diziam os mais antigos, vivia a Bruxa. Não eram poucos os que juravam, de pés juntos, tê-la visto. É bem verdade que as narrativas pouco tinham em comum, salvo um ou outro detalhe. Alguns afirmavam tê-la visto enfiada num longo vestido preto, coberto por uma capa escarlate. Outros, contudo, eram menos caricaturais. Descreviam a mulher como um ser belo, encantador, quase uma sereia a enfeitiçar os incautos. No lugar da vassoura, um ramalhete de flores multicoloridas e perfumadas. Muitas eram as versões envolvendo a origem, características e intenções da Bruxa do Bosque. A lenda mais aceita era a de que ela teria vindo das bandas do Passo de Torres. Nascida no interior, já teria muito cedo dado mostras de suas particularidades. Ainda pequena – naquela época o cabelo cacheado já a diferenciava –, diziam, teria demonstrado enorme interesse pelos segredos da floresta. Os sons, cheiros e movimentos que para a maioria dos mortais eram motivo de medo avassalador, para a menina soavam como inspiração. Era duvidar, lá estava ela a observar ervas aromáticas e pássaros exóticos. Ao que tudo indica, era inquisidora, curiosa e insistente. Enquanto a mãe não lhe explicasse a funcionalidade daqueles vegetais, não sossegava. Esta serve para quê? Aquela, e aquela outra? Absorta, prestava atenção a cada explicação. Os olhinhos brilhavam embalados pelas histórias que se seguiam. O poder curativo da natureza despertava na guria um misto de respeito e devoção. Passara a ver e se ver a partir do vento, da chuva e do fogo. Para ela, nada era por acaso. O que de início era desconfiança, com o tempo se tornou certeza. Segundo diziam muitos, a Bruxa nada tinha de má. Era como que uma extensão da “Grande Mãe”, uma parte da natureza ainda não coisificada pelos atropelos do mercado. Viam-na como manifestação positiva, fonte de boas vibrações e sinônimo de um bem-vindo animismo. A ideia de uma velha nariguda, verruguenta e sinistra passava de largo dos que viam a Bruxa com simpatia. Afugentavam, ainda, a imagem associada ao enorme caldeirão, cheio daquele líquido incandescente alimentado por insetos, anfíbios, répteis, morcegos, mexas de cabelo e pós de origem duvidosa. Para os defensores da Bruxa, ou de sua imagem, a pequena cidade perderia muito de seu romantismo, não fosse as histórias contadas. Verdadeiras ou não. O que é a verdade, senão aquilo em que se acredita? Valem pelo efeito que produzem. O cheiro do orvalho a embeber a pequena cidade parecia convidar os transeuntes a sonhar, mesmo que a contragosto acordados. Vez por outra, em meio ao clima leitoso do inverno, um vulto. Duvidasse, era ela, a Bruxa, a espreitar grandes e pequenos, homens e mulheres. Pura diversão, talvez. Serelepe e faceira. Como nos tempos de criança lá para as bandas do Passo de Torres. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

SISTEMA PARTIDÁRIO: ONDE ESTÁ MESMO O PROBLEMA?


SISTEMA PARTIDÁRIO: ONDE ESTÁ MESMO O PROBLEMA?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Simplista é tentar explicar a desconfiança em relação ao sistema partidário brasileiro a partir de apenas uma causa. Simplista e ingênuo. Simplista, ingênuo e irresponsável. Os motivos que têm levado uma incontável multidão à ojeriza em relação aos partidos políticos são inúmeros e complexos. A começar pela história deste país. Mais de trezentos anos de submissão à Coroa portuguesa, mais de meio século de modelo imperial, décadas de República Velha, mais de trinta anos de ditadura civil (Estado Novo) ou militar (1964-85)... O que sobra? Apenas um vintém de experiência democrática e quase nada de know-how político partidário. Ainda que democracia e sistema partidário não sejam sinônimos. No Império, mesmo no período mais sombrio, tínhamos partidos, ainda que sob denominações diversas. Na República Velha, onde vicejou o coronelismo e o cabresto, também as agremiações partidárias deram o ar da graça, em que pese a forte conotação regional das mesmas. Mesmo na Ditadura Militar, a partir de 1964, o famigerado bipartidarismo esteve presente. O segundo grande entrave para o fortalecimento e reconhecimento dos partidos políticos como canais de representatividade é a extensão territorial do Brasil. Há uma enorme distância não apenas física, mas sobretudo de interesses regionais. A pretensa unidade nacional, é sabido, não passa de mera construção teórica. Não fosse o idioma – e, mesmo assim, tomado de nuances – e alguns rompantes esporádicos em período de copa do mundo, juraríamos serem vários países, tamanho as idiossincrasias existentes. Alguém duvida ser o gaúcho mais admirador da própria bandeira do que a nacional? O hino rio-grandense, qualquer guri o tem na ponta da língua, ao contrário do “ouviram do Ipiranga...”. Tal complexidade, nascida do gigantismo físico do Brasil associada ao processo histórico que levou à formação cultural, política e econômica do país, por exemplo, obstaculiza a construção de uma plataforma político-partidária que seja válida para todos os estados e regiões. Os conchavos e alianças aqui aceitos não o são acolá. O que aparenta ser coerente lá não o é aqui. Assim, o descrédito dos partidos junto ao eleitor só aumenta. O que ainda ontem era pouco mais do que desconfiança, hoje é quase ódio. Tamanha aversão, apesar de compreensível, é perigosa. Ora, se por um lado é inegável a falência do histórico, atual e carcomido modelo político-partidário brasileiro, por outro não se pode negar a importância dos partidos políticos como instrumentos de representação dos mais diversos matizes sociais. O problema não está no partido em si, mas nas relações que, através dele, se estabelecem. As agremiações partidárias devem, primeiro, construir uma identidade clara que os caracterizem. Devem assumir posições inequívocas, sejam à “direita”, ao “centro” ou à “esquerda”. O mimetismo há muito adotado pelos partidos confunde o eleitor. O temor do insucesso quando dos pleitos tem feito deles uma “massa” disforme, opaca e insossa. Não se sabe quem é quem. A preocupação com o discurso “politicamente correto” tem ofuscado e aniquilado a essência do que venha a ser um partido político. Partidos lembram “partes”, onde uma difere da outra, pois do contrário não seriam partes, mas sim um “todo”. Este último, enquanto visão ideológica, inexiste numa verdadeira democracia. Acreditar e defender a “unidade” de pensamento cheira a ditadura, a fascismo, a totalitarismo. Portanto, nada mais natural e aceitável do que partidos que defendam o vermelho, o azul, o lilás ou o amarelo.  No Brasil, tal obviedade passa de largo. As bandeiras partidárias não passam de trapos coloridos. As siglas, por sua vez, pouco dizem. Mais parecem sopa de letrinhas. Letras que se prostituem, que se vendem, que negociam postos, secretarias e ministérios. Letras vazias. Frias. Escorregadias, tanto quanto contraditórias. Ontem discurso de “oposição”, hoje prática de “situação”. Qual é a saída? Não há receita que garanta sucesso na empreitada de reverter o preocupante contexto. Urge, entretanto uma profunda reflexão no que tange, por exemplo, à organização, fidelidade e ética partidárias, bem como ao financiamento de campanha. Outro desafio: como estabelecer um viés partidário capaz de levar em conta as, por vezes profundas, diferenças estaduais e regionais? Como conciliar o direito à livre associação e a coibição do surgimento de “partidos de aluguel”? Mister é que, também, se crie mecanismos voltados ao fortalecimento da identidade partidária, aproximando prática e estatuto da agremiação, restando clara sua opção ideológica, de modo a pôr fim no presente “estelionato eleitoral”, onde o eleitor acaba, quase sempre, comprando gato por lebre. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Nada original o título, não é mesmo? Contudo, precisava de uma “entrada” à altura do nobre ato levado a cabo por um aluno do São Francisco. Quem? Pouco importa aqui. O que deve ser destacado é seu gesto. O rapazote, no auge da adolescência, estava conversando com alguns amigos numa banca de cachorro-quente quando não mais do que alguns metros adiante uma senhora, aparentemente cega, vinha caminhando em sua direção. A mulher parecia arrastar os pés. Andava lentamente, como que temerosa em esbarrar em alguém ou alguma coisa. Não trazia bengala. Tateava. Apesar dos cuidados, o acidente parecia inevitável. A questão era o quando aconteceria e qual a gravidade. A velha senhora vinha, ao que tudo indicava, driblando postes e lixeiras, assim como driblara – muito provavelmente – a própria vida. Sorte ou não, destino ou não, o fato é que sobrevivera e estava ali para contar a história. Qual seria mesmo sua história? Vinha ela pela calçada quando, de repente, esta afunilou cerceada pela parede lateral da lanchonete. Mudança abrupta que pegara a coitada de surpresa. Estava flagrantemente confusa. Atônita, talvez. Parecia perdida, sem saber ao certo o que fazer. Simplesmente freara. O aluno, enfiado em seu uniforme, não titubeou. Largou tudo, abandonou os amigos e saiu em direção à velha senhora com intuito de ajudá-la. Ofereceu-lhe o braço, ao qual a mulher prontamente aceitou. Feito banhista em apuros, quando diante da boia salvadora do guarda-vidas, a senhora agarrou-se ao aluno. Porto seguro. Impossível deixar de sorrir. Gratidão. Lembrava um filho grato quando diante de sua genitora. A diferença era que ele, o rapazote, não tinha nenhum laço consanguíneo, nenhum compromisso jurídico, nada que o vinculasse formalmente àquela mulher. Apenas e tão somente o sentimento ético do que seja “certo” ou “errado”. Nada demonstrava esperar em troca, sequer um “muito obrigado!”. Sem falar, é claro, que correra o risco de ser motivo de chacota entre seus pares. Que nada! Parecia por demais despreocupado com o que os “outros” haveriam de pensar. Valia, isso sim, sua consciência. A convicção de que agira justa e corretamente. Ficara a certeza, para quem – como eu – por ali passava, de que existe esperança. Feito fagulha sob o carvão, basta um sopro para avivá-la. O que ainda há pouco era escuro, enche-se de ardente vida. Por certo, a limitação visual daquela velha senhora se esvaíra ante o apoio do braço amigo. A gentileza, o cavalheirismo, a solidariedade, o compromisso com a sorte do outro são apenas algumas das pérolas a serem buscadas em meio às ostras, mesmo que hermeticamente fechadas, mesmo que enfiadas no mais íntimo dos oceanos. A pior cegueira não é a do tipo que assola pessoas como a velha senhora, mas aquela que atrofia as relações, fere de morte a ética e põe em risco a esperança. O pior cego, já diziam os antigos, é o que não quer enxergar!  

quinta-feira, 27 de junho de 2013

EMBARCAÇÕES


EMBARCAÇÕES
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Feito embarcação, a escola por vezes se vê envolta em mar encapelado. Escolas fazem lembrar embarcações. Algumas parecem jangadas, pequenas, aparentemente frágeis, mas com imensurável capacidade de transportar sonhos. Outras escolas são maiores, lembrando ou cargueiros – brutas em sua arquitetura – ou verdadeiros transatlânticos, tamanho o luxo e conforto que ostentam. Todas as escolas, contudo, têm algo em comum: o mar por onde navegam. As águas são as mesmas e os desafios, em regra, guardam enorme semelhança. Mais do que o tamanho ou imponência da embarcação, o que garante ou não a sensação de segurança e serenidade é a disposição de quem navega. Disposição em chegar ao porto, disposição em curtir a viagem, disposição em contemplar o que de melhor oferece o mar. Este assusta e encanta. O mesmo mar dos corais, golfinhos, jubartes e tartarugas é o mar das ondas gigantes, icebergs e vendavais. Cada um fixa o olhar naquilo que o coração aponta. Alguns atentam somente para os riscos e eventuais perigos do mar. Mesmo com os pés secos, parecem e agem como se náufragos fossem. Embora vivos, jazem numa espécie de sarcófago interior. Até o cheiro os aproxima do mundo subterrâneo. A visão turva e cinzenta impede-lhes de vislumbrar além do próprio umbigo. Outros viajantes, porém, acompanham – numa bela dança corporal – o gingar das ondas do mar. Por meio da imaginação, lançam voo com as gaivotas e pastoreiam o rebanho de alvas nuvens. Juntam os pontinhos luminosos do céu, formando corações, flores e figuras abstratas. Verdadeiros artistas. Anônimos talvez, mas amantes das artes, das letras e, antes de tudo, dos homens. Tem escolas – quase sempre públicas – que mais parecem sobras de embarcação, tamanha precariedade. Não fosse a obstinação dos que, por vezes desesperadamente, agarram-se aos “destroços”, sumiriam, em meio à imensidão de água salgada. Homens e mulheres esfarrapados, enfiados no que sobrou dos guarda-pós, que, apesar da sede e da fome, teimam em não abandonar suas utopias. Otimistas, não desistem de sonhar, em que pese saberem que o que veem muitas vezes são nada mais do que miragens. Escolas fazem lembrar embarcações. Quem nelas trabalha, ali está para servir. À tripulação cabe acolher, oferecer o que há de melhor aos passageiros. Incluí-los. Encantá-los. Desejá-los. Escola vazia é embarcação à deriva. Navio fantasma, sem vida, frio, sepulcral. O que seria da prataria, dos lençóis de seda, da comida farta, sem os passageiros? O prazer do timoneiro está, sobretudo, em alcançar seu norte. Este, por sua vez, confunde-se com o destino do “outro”. O professor inexiste sem o aluno. Confundem-se. Relação, por certo, umbilical, daí ser necessária e irremediavelmente profunda. Feito as águas do mar. Escolas fazem lembrar embarcações. 

Ver:
http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=291e0142b29f69a48e79e5b75bd7c024

sábado, 22 de junho de 2013

FLATULÊNCIAS


FLATULÊNCIAS
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Esses dias, o Betão, grande amigo e ex-colega de empresa, foi categórico ao falar da experiência pessoal, aparentemente constrangedora, frente às medidas invasivas, apesar de necessárias, adotadas pela equipe médica: o que é um peido para quem já está todo cagado? Lembrei do Betão quando diante das inúmeras matérias jornalísticas acerca dos movimentos reivindicatórios que tomam as ruas e avenidas do país. A mídia, salvo raras exceções, tende a lançar seus holofotes nas “flatulências” e não na comida putrefata envolta pelas paredes do intestino. As primeiras, apesar de mal cheirosas, são como que tão somente a ponta do iceberg. É bem verdade que chamam atenção pelo desconforto que causam aos presentes. Apesar de “contaminarem” o ar, mínimas são as efetivas consequências das flatulências para os mortais. Por outro lado, o “bolo fecal” escondido nos porões do corpo é que, de fato, desencadeia quase todas as espécies de puns, do mais ao menos fétido, do mais ao menos espalhafatoso. Ainda assim, a corda arrebenta do lado mais fraco. Os movimentos de massa que pipocam do Oiapoque ao Chuí têm como força propulsora o bolo fecal composto pela corrupção, impunidade, lucros abusivos, apropriação do dinheiro público, aniquilamento ideológico dos partidos políticos, partidarização dos sindicatos, superfaturamento, falência dos serviços públicos e tantas outras mazelas. O cheiro não poderia ser pior. São anos, décadas, séculos de acúmulo de insensatez, falta de ética, escassez de verdadeiro espírito público. Formas e sistemas de governo passaram. Partidos ditos de direita, de centro e de esquerda passaram. Mudanças de moeda, planos econômicos, medidas provisórias... Inúmeras Constituições... Todavia, apesar de belos discursos e plataformas de governo, segue o profundo e inaceitável descaso com a saúde, educação e segurança públicas. A multidão de miseráveis segue envergonhando o país, em que pese algumas medidas paliativas, paternalistas e eleitoreiras levadas a cabo por este ou aquele governo. O tempo passa e o que não passam são as práticas coronelistas enraizadas nas relações de poder. Seguem governando muitas das figurinhas e famílias que governavam no século passado, que fazem de algumas cidades, estados e regiões do país verdadeiros currais eleitorais. Cargos, funções, secretarias e ministérios, pagos pelo contribuinte, são criados para acomodar interesses escusos, sob o manto da pretensa “governabilidade”. Tudo isso entalado na garganta de nosso povo. Melhor, nas vísceras. Diante da dor lancinante, o que é um pum? É, meu amigo Betão, o que é um peido para quem está todo cagado?  

TAL PAI, TAL FILHO


quinta-feira, 20 de junho de 2013

O JOIO E O TRIGO


O JOIO E O TRIGO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                O negócio é separar o joio do trigo, já dizia uma conhecida parábola bíblica. Apesar da distância de tempo, espaço e cultura, a ideia segue válida. Pipocam pelo país, inúmeras e bem-vindas manifestações, tendo como pano de fundo o já conhecido descontentamento em face aos vícios que há muito carcomem, feito câncer em fase terminal, as estruturas do Estado: descaso, omissão, incompetência, inoperância, corrupção, apadrinhamento, escassez ética, superfaturamento, impunidade... Incontáveis, tanto quanto vergonhosos e execráveis, são os exemplos do “jeito” de se fazer política neste país. Público e privado se confundem nesta grande latrina que se transformou o Brasil. O Estado tem cavado sua própria cova, tornando-se – na visão do homem médio – dispensável. Eis o terreno perfeito para eclosão dos movimentos de massa. Ainda que questionáveis quanto ao grau de politização e de organização, por vezes mais parecendo uma enorme colcha de retalhos (potencialmente inflamável...), tais mobilizações escancaram o profundo descontentamento de enormes parcelas da população no que tange à incapacidade do Poder Público em dar respostas aos mais elementares anseios de quem o sustenta. Condenáveis são os excessos cometidos ao longo das passeatas, alguns deles, delitos positivados na legislação pátria, passíveis de sanções nas esferas criminal e cível, por exemplo. Contudo, não menos condenáveis são os fatores desencadeadores dos protestos, servindo de levedo para sentimentos há muito represados. Por certo, os prejuízos causados aos patrimônios público e privado – injustificáveis, como já dito – ao longo das manifestações, são ínfimos, comparados aos danos trazidos pelos que, historicamente, se apropriam das esferas do Poder. Apesar de muito mais “dissimuladas”, as práticas associadas à malversação dos recursos públicos trazem prejuízos incontável e imensuravelmente maiores à sociedade. São práticas criminosas sorrateiras que, à guisa de não terem a aparência de “violentas”, soam como “toleráveis” aos olhos do Estado. Há de se questionar o verdadeiro sentido da “violência”. A retórica hipócrita utilizada pelos “donos do poder” deve ceder lugar a uma verdadeira ética, onde o interesse público seja o grande balizador do que venha a ser certo ou errado. Portanto, urge separarmos o joio do trigo. Saber reconhecer, entre os manifestantes, aqueles – esmagadora maioria – que fazem das ruas o palco do salutar exercício da cidadania, espaço de sonhos e utopias, escopo de insatisfações e desejos de um país melhor, mais justo e menos desigual. A rua mostra ser lugar privilegiado de aprendizagem, de práxis libertária, verdadeira seara onde deve vicejar o trigo. Quanto ao joio, este tende a fenecer à medida que a sombra que o alimenta e o encobre vai sucumbindo frente à luz que nasce com o raiar do dia. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

OVOS OU BACON?


OVOS OU BACON?
Gilvan Teixeira
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                O Brasil está discutindo educação. Municípios do país afora estão a discutir o documento “referência” da Conferência Nacional de Educação (CONAE 2014) que culminará, no próximo ano, num grande encontro na capital federal. Inúmeras são as proposições que embasam o movimento, muitas delas “remixadas” e requentadas, fazendo lembrar as proposições da CONAE anterior (2010). Não que tais propostas careçam de importância. Muito pelo contrário. Contudo, o que salta aos olhos é o quanto neste país tem sido difícil superar o limite do mero discurso. Os problemas apontados lá atrás, em sua grande maioria, não apenas permanecem, como (o que é mais preocupante!) se tornaram mais graves e mais dramáticos. O ensino, principalmente público, neste país é desesperador. Descaso, malversação de recursos, corrupção, incompetência, precariedade das escolas, salários aviltantes pagos aos profissionais da educação, corporativismo classista, indiferença e letargia da comunidade no que tange à efetiva participação junto à escola, fracasso escolar, evasão, pífio nível de aprendizagem, são apenas alguns dos tristes “sinais” de que o ensino vai de mal a pior. Além de parcos (luta-se por garantir dez por cento do Produto Interno Bruto, PIB, para investimentos no ensino público), os recursos não são otimizados. Os resultados obtidos são vexatórios. Não raras vezes, a preocupação com as estatísticas (de preferência “simpáticas” às políticas de governo adotadas...) supera a preocupação com a “essência”. Doura-se a pílula como se fosse possível esconder um cadáver em avançado estado de putrefação sob o belo tapete da sala de estar. Aparências... Há alguns dias, ouvi – durante a Conferência Intermunicipal da CONAE 2014, envolvendo Cachoeirinha e Glorinha (dois municípios do Rio Grande do Sul) – uma curiosa fala da palestrante. Afirmara que não basta “envolvimento” para mudar o ensino neste país. É necessário, segundo ela, “comprometimento”. Para ilustrar tal assertiva, a conferencista comparou a galinha e o porco. Enquanto a primeira, em regra, apenas “se envolve” na tarefa de pôr o ovo, sem o compromisso de chocá-lo, o porco, ao contrário, deve entregar-se por inteiro para que dali saia o bacon. Este jamais existiria não fosse o verdadeiro sacrifício do bicho. Inexiste espaço para escamoteio, “corpo mole”, indiferença, omissão, transferência de responsabilidade, “terceirização”. É vai ou racha! Bacon sem dor, sem “doação”, sem “paixão” (sei que o porco, coitado, deve estar discordando...) não existe. O ensino, assim como a educação como um todo (aqui entendida como algo mais amplo e complexo do que o processo que se dá no seio da escola), precisa de mais bacon e de menos ovos. Urge pessoas comprometidas com a árdua, mas urgente e necessária, tarefa de mudar os rumos da educação neste país. Mister é que o bacon esteja à “mesa” das famílias, gabinetes, escolas, conselhos de direitos, sindicatos, entre outros. Faz-se necessário que a “gordura” dele unte as relações e permeie as ações. É gordura da boa, ao contrário daquela historicamente produzida, em larga escala, pelo Estado brasileiro. Este último tem entupido as artérias e veias que alimentam a esperança do povo. Chega de gordura que entorpece, ludibria e aliena. Gordura que satura. Gordura que, não raras vezes, nos é enfiada goela abaixo sob a forma de ovos coloridos e aparentemente doces, tão comumente distribuída em estádios de futebol, passarelas do samba, novelas e inúmeros outros “espetáculos” circenses. A quem cabe mesmo o papel de palhaço? O produto da galinha não é de todo ruim, mas socialmente insuficiente e de baixíssimo potencial revolucionário. O porco, por sua vez, apesar da sorte que lhe aguarda, traz consigo, por debaixo da pele às vezes rude e plasticamente pouco invejável, a poderosa “gordura” capaz de subverter estruturas e grilhões que aprisionam nossa gente e perpetuam as infames desigualdades. Viva o bacon! 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

APARÊNCIAS


APARÊNCIAS
Gilvan Teixeira
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                “Nossa”(?) Casa Legislativa, ao que tudo indica, segue produzindo singulares pérolas. Ouvi dizer que um nobre vereador pretende propor alteração no nome de uma conhecida escola pública municipal, sob o argumento de que a atual denominação remete para os tempos da Ditadura Militar (1964-1985). Ora, tal iniciativa denuncia, primeiro, a forte inclinação de nossa Câmara para discussões fúteis, que nem de perto atendem às reais demandas deste Município. Segundo, suscita algumas dúvidas: o porquê da iniciativa? Quem demandou? A comunidade foi consultada? Terceiro, ainda que consultada, como se deu o processo de discussão junto à coletividade? Democrática, ou nos moldes por vezes aplicados por organizações que se intitulam representativas, mas que, no fundo, não passam de históricos cabides de emprego e apadrinhamento, além de verdadeiros trampolins político-partidários? Apesar de “legal”, a eventual mudança no nome da dita escola requer algumas reflexões. Foi denominada por Lei municipal, com fundamento no Art. 67, inciso IV, da Lei Orgânica. Assim, sob o ponto de vista pura e simplesmente formal, é possível sim a alteração através de uma nova Lei. Contudo, ao que tudo indica, a pretendida alteração atende, sobretudo, a caprichos pessoais ou, no máximo, de pequenos grupos “revisionistas”, como se tal manobra fosse capaz de mudar o passado e impedir suas consequências. Vã e imbecil filosofia! Surtisse algum resultado prático, seria o primeiro a defender tal espécie de medida. Aplicaria o “remédio”, por óbvio, a todas as outras escolas, ruas, praças, ginásios e avenidas que remetam a personagens que, no passado, estivessem associados a alguma espécie de atrocidade, arbítrio ou coisa que o valha. Assim, nomes como o de Flores da Cunha, Getúlio Vargas e Kennedy, por exemplo, seriam execrados deste Município, pois que é para lá de sabido que eles e mais uma penca de outros “vultos” da história tiveram seus nomes ligados à perseguição política, censura, assassinatos, guerras (civis e externas), entre outros. Por que então, apenas e tão-somente, banir o nome do General? Atire a primeira pedra aquele vereador que pertença a algum partido que não tenha o rabo preso! Atire a primeira pedra aquele vereador que pertença a algum partido que não tenha se “prostituído” e deitado no mesmo leito dos “adversários”, jogando por terra o discurso da ética e da bandeira partidária. Atire a primeira pedra o vereador que tenha ousado cortar na própria carne, abrindo mão de vantagens e privilégios que passam de longe da esmagadora maioria dos munícipes. Atire a primeira pedra o vereador que jamais mudou de partido ou que tenha pública e abertamente condenado seus pares pelos flagrantes e frequentes atrasos nas já breves sessões da Casa. Acredito que Jesus seguirá escrevendo na areia... Sugiro, portanto, aos nobres vereadores: divaguem menos e trabalhem mais! Problemas não faltam neste Município. Segurança, saúde, infraestrutura, mobilidade urbana, distribuição de renda, geração de emprego, lazer, EDUCAÇÃO. Tá bom, fiquemos apenas neste último e grave problema. Por que não discutir com a comunidade (pais, alunos, professores, Poder Público, sindicato, associações de bairro, Conselhos de Direitos, etc.) os porquês de nossas crianças e adolescentes não estarem aprendendo? Os porquês do baixo rendimento, repetência, evasão... Os porquês da falta de valorização dos profissionais da educação? Os porquês das disparidades entre a renda da maioria dos contribuintes e dos nobres vereadores. Os porquês da precariedade dos serviços públicos e suas consequências no processo ensino-aprendizagem. Quiçá, aproveitar, ainda, para explicar à comunidade os porquês de bom número de vereadores não retornarem aos bancos escolares para aprimorarem seus conhecimentos, aumentarem a escolaridade e aprenderem a se expressar sem tamanhas ofensas ao bom português. Feito varejeiras em torno da merda, muitos parlamentares sobrevoam a “área” – por vezes, com sobrevoos rasantes e piruetas cheias de plasticidade – sem, contudo, assentar os pés no problema. Não é tempo de discursos e projetos vazios. A sociedade, formada por pessoas de carne e osso, exige ações efetivas por parte do Estado (Executivo, Judiciário e LEGISLATIVO). Ações capazes de darem respostas concretas e eficazes às sérias e preocupantes demandas existentes. O fantasioso Estado democrático de Direito está ruindo. Pipocam, cada vez mais, manifestações nascidas dos mais diversos lugares. Movimentos – bem ou mal organizados, bem ou mal intencionados – que, em comum, colocam em dúvida a real necessidade do Estado. O LEGISLATIVO que aí está não serve. É caro, tomado de vícios éticos e dissociado dos grandes clamores sociais. Assim como os demais Poderes, precisa ser “refundado”. Precisa ser, não apenas de “direito”, mas de “fato”, a Casa do Povo. 

domingo, 26 de maio de 2013

Blog do Leandro Araújo: Entrevista: JOVENS E A RESPONSABILIDADE DIGITAL

Blog do Leandro Araújo: Entrevista: JOVENS E A RESPONSABILIDADE DIGITAL: Em 2011 dei esta entrevista para um programa na Band. Nela, declarei que o quarto do adolescente não é lugar para um computador ligado à in...
Meu amigo Leandro. Além de um grande "paizão", um grande educador! Vale a pena assistir...

quinta-feira, 23 de maio de 2013

TEKOHA


TEKOHA[1]
Gilvan Teixeira
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                Alma sem corpo. Errante, a andar a esmo de nenhum lugar para lugar algum. Assim somos nós. Povo sem terra. A verdadeira terra, tomada de simbolismos e significados. Não a terra vazia, amorfa, inerte, sem vida. A terra que nos falta é a do tipo sagrada, da mesma sonhada e perseguida por povos de outrora. Terra de leite, mel e erva-mate. Pródiga, farta, materna. Não a terra cercada por arames, muros e outras espécies de limites infames. Falta-nos a terra sem dono, mas ela própria senhora de nossos destinos. Terra de sonhos. Bons sonhos... do tipo sonhado por todos... Sonhos de igualdade entre os diferentes. Terra que traz as pegadas de nossos entes pretéritos e os sinais por eles gravados. Memórias que brotam, passeiam feito borboletas, cigarras, beija-flores e pardais... Dançam embaladas pelo vento. Mesmo o minuano parece não demonstrar a menor intenção de amainar o fogo nascido do afeto que permeia as relações. O calor que abrasa as almas. A chama a dançar feito o pensamento. Este, livre, solto, maroto... Mais parece criança envolvida em meio às peraltices e brincadeiras de roda. Nem de perto se parece com o “nosso” amontoado de concreto. É cimento para todo lado! Cubículos e poleiros. Não fossem as fachadas multicoloridas e, por vezes, envidraçadas, logo denunciariam sua verdadeira essência: arapucas. Aprisionam o físico e letargiam os sentidos. Enchem os bolsos de alguns poucos, enquanto esvaziam a caixa de Pandora. No lugar da mitologia, uma perniciosa e enganadora ideologia. Nesta última, não resta sequer a esperança. Escasseia-se o romantismo, sobejam muriçocas. Pudera! Usurpamos, defraudamos, extorquimos, abusamos... Não bastasse, imbecilizados pela arrogância e prepotência, ainda atribuímos a outrem a (ir)responsabilidade que nos pertence. Na linha de tempo, nosso egoísmo umbilical e doentio troca de nome: revolução, progresso, pós-modernidade... A essência permanece. Os frutos revelam a seiva que os alimenta. Por mais bem apresentados que pareçam, seguem perigosos, nefastos e prejudiciais. Pena que – ao contrário, por exemplo, dos insetos, jumentos e ratos – não nos damos conta do perigo. Quiçá, seja o preço de nossa decantada inteligência.

                Urge “ressignificarmos” o espaço em que estamos. Fazermos dele nosso tekoha.  Espaço sagrado, protegido, amado. Espaço onde possamos gerar e ver crescer nossas crianças, livres de estereótipos e preconceitos dissipadores de afetos. Espaço onde viceje o amor, respeito, solidariedade, perdão, responsabilidade... A casa, a escola, a empresa, a rua... Por que não fazer de todo e qualquer espaço um lugar “vital”, verdadeiro tekoha? Espaço de trocas, vivências, experiências, aprendizados...? Espaço de culto, louvor, reconhecimento ao Criador? Espaço de histórias, fictícias ou não, pois no fundo o que encanta é o “contar” e o “ouvir”, a intrínseca relação que daí nasce. Espaço de valorização da genealogia, fortalecimento da família, aproximação das pessoas. Espaço de amizade, saudável cumplicidade, alteridade... Espaço de boa e farta comida, que a todos alimenta, mesmo que estrangeiro. Espaço lúdico, alegre, pródigo em palavras e gestos que promovam a paz, o altruísmo, a autoestima e a confiança em si e no outro. Espaço onde o aprendizado nasça, sobretudo, do “fazer” e do “experienciar”. Espaço onde o livro ocupe o centro da sala, tomado pelas mãos de quem o explora. Espaço de palavras doces, nem por isso menos firmes. Espaço para sinceridade. Espaço para carícia e para o beijo, rápido ou não... Espaço para o afago, para o elogio e para crítica que faz crescer. Precisamos dar vida ao vale de ossos secos em que se transformou, quem sabe, “nossa” (nem tão nossa, pois transitória...) terra e nossa casa. Ressignifiquemos o espaço que hoje ocupamos. Façamos dele nosso verdadeiro tekoha.



[1] Para os guaranis, significa a terra enquanto “espaço vital”. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

QUARENTA SEMANAS




QUARENTA SEMANAS
Gilvan Teixeira
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                Parece cabala ou algo parecido. Quarenta traz consigo uma inquietante simbologia. Durante quarenta anos, um conhecido povo da Antiguidade perambulou pelo deserto. Quarenta é também o número de semanas da gestação de uma criança.  Coincidência? Acredito que não. O que é, senão um milagre o complexo processo que dá vida a um ser? Período de sonhos, dúvidas, medos, expectativas, ansiedades... Assim como a travessia no deserto. Acima de tudo, período de esperança, em que pese as intempéries, a aspereza do caminho ou a escassez de recursos. Teimosa esperança. Crença na vida. Fé. Difícil entender e, mais ainda, mensurar o amor de mãe. Como explicar tamanha abnegação? Abre ela, muitas vezes, mão de padrões de beleza, de vaidades, do lazer, tudo em nome de um “devir”. A mãe vê o que outros não veem. O que para maioria é deficiência, limitação e problema, para mãe é apenas “diferença”, potencial e missão. Ela ama até mesmo quem não se permite ser amado. Ama o que erra e o que engana, mesmo que o condene. Amor de mãe é incompreensível. Quem mais é capaz, sem titubear, de abrir mão da própria vida em prol de outrem? Deixar de comer em favor de quem tem fome? Rasgar o próprio ventre sem mostrar qualquer arrependimento? Semear durante anos, décadas, sem a certeza da colheita? Abdicar dos prazeres da carne e, ainda assim, sorrir? Pode haver sorriso mais lindo do que o dela? Para a mãe, sim: o do próprio fruto! Quem mais é capaz de chorar uma noite inteira a pensar no filho que se foi ou naquele que não chega e, apesar disso, trazer ao raiar do dia o semblante sem denunciar a tristeza da véspera? Somente a mãe é capaz de acolher a todos, encher a casa aos domingos, cozer, lavar, secar, dobrar, passar e, depois de tudo isso, sentir saudades dos seus tão logo estes se vão. Daí esta singela homenagem às mães, a começar pela minha: Geci, Rosana, Irena, Alma, Clarice, Liane, Cátia, Aline, Carmem, Nair, Élsia, Angelita ... Mães de todas as idades, etnias, ideologias, crenças, nacionalidades, condições socioeconômicas... Mães sadias e enfermas. Mães empresárias, empregadas, aposentadas. Mães extrovertidas ou não. Vegetarianas, alternativas, adeptas das massas, carnes e sopas de todos os tipos. Mães urbanas e rurais. Cultas e analfabetas. Mães que sofrem, que covardemente apanham, que denunciam... Delegadas, presidiárias, médicas, interditadas, odontólogas, desdentadas... Parabéns a todas as mães !!! 

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ATLAS



ATLAS
Gilvan Teixeira
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                Condenado por Zeus a sustentar o globo por toda eternidade, Atlas – personagem da mitologia grega – faz lembrar a classe média brasileira. Há algum tempo, vem sendo vergonhosamente extorquida pelo Estado. Este último, como forma de custear os famigerados “programas sociais”, muitos deles flagrantemente eleitoreiros, tem impingido à classe média verdadeiro martírio. Indubitavelmente, tem sido ela a faixa da população que mais perdeu espaço e importância, especialmente do ponto de vista econômico. Os tentáculos da Receita Federal a chicoteiam e a dilaceram. A classe média deste país tem arcado com a maior parte do elevado custo do mastodôntico Estado brasileiro. Um Estado excessivamente pesado, corrupto, ineficiente e incompetente. Um Estado que, historicamente, vem sendo acometido por uma letargia nascida, em grande parte, do jogo político que, por um lado, garante privilégios para alguns poucos, enquanto, por outro, lança a maioria da população às traças, sem a devida e necessária prestação dos serviços públicos. Educação, saúde, saneamento, transporte, segurança... Nenhum, absolutamente nenhum, serviço público vem sendo prestado a contento. Assim, a classe média acaba por ser penalizada duplamente. Paga, a duras penas, escola privada, previdência complementar, segurança terceirizada, plano de saúde, pedágio, etc., para que possa sobreviver nesta selva chamada Brasil. Paga por serviços que deveriam ser prestados pelo ente público. Verdadeiro estelionato institucionalizado, sob o olhar omisso daqueles Poderes que, em tese, deveriam contrabalancear e fiscalizar o Executivo. Farinha do mesmo saco. Diga-se de passagem, um saco tomado de gatunos, muitos deles beneficiados por privilegiados planos de carreira e benesses vitalícios. Enquanto isso, a classe média segue pagando a pesada e, cada vez mais, insuportável conta. Aumenta-se, ano após ano, a arrecadação, na mesma medida que aumenta o caos das escolas, estradas, hospitais e presídios, por exemplo. Criminosa e tirana equação. Sobram comerciais – pagos a preço de ouro –, faltam ações capazes de transformarem os discursos de campanha em práticas efetivas. O Brasil mais parece um eterno e cômico – não fosse trágico – arremedo. Copiamos dos países desenvolvidos apenas o invólucro, jamais o conteúdo. Importamos apenas imagens, olvidamos o mais importante. Ganham apenas alguns poucos: bancos e grandes empresas, que, por meio de vultosos lobbies corrompem pessoas e comprometem estruturas. As “agências reguladoras” – surgidas sob a égide da decantada eficiência – não passam de cabides de emprego e de moeda de troca em benefício de interesses escusos. O cheiro fétido que brota dos corredores do Planalto (síntese do asqueroso Estado brasileiro), vez por outra, é escamoteado por iniciativas que só aparentemente agraciam os mais pobres. Doam-se migalhas como forma de não dividir o bolo. A tática, apesar de angariar os votos dos maiores bolsões de miséria, é incapaz de ocultar as homéricas contradições sociais. Tática que não arrefece o sentimento de injustiça e de quase ódio. Sentimento que encontra eco e terreno fértil no vexatório estado em que se encontra a classe média brasileira.  

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

BOA-FÉ



BOA-FÉ
Gilvan Teixeira
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                Há muito venho sendo desprezada. Noutros tempos, era eu chegar e pronto! Sem cartão de visita, sem procuração, sem escritura pública ou coisa que o valha. Quase todos me conheciam, exceto os recém-saídos das entranhas de mulher. Minha palavra era tida por sacra, sem qualquer margem para dúvida ou desconfiança. Sentava-me à mesa com generais e praças, senhores e servos, ricos e miseráveis, ximangos e maragatos, monarquistas e republicanos, doutores e iletrados. Sobre a varanda, no interior da sala-de-estar ou no mais íntimo da alcova, eu era respeitada. No Parlamento, no gabinete, no escritório, na sala de aula era tratada como dama, querida e sempre bem-vinda. No Fórum, aos papéis era reservado lugar secundário, pois que a mim cabia ocupar o pedestal. No recôndito do lar, nada era decidido sem minha presença. Era onipresente, ao contrário de hoje... Ah, hoje... Agora sou uma “quase-nada”. Preterida pela formalidade do papel ou pela assinatura digital, tenho sido relegada. Zombam de mim, hora tida por ingênua, hora por tola. Feito alienígena, pareço de outro planeta. Sinto-me abandonada. Afastaram-me das audiências e passo de largo até mesmo das mais pueris reuniões de família. Juízes, delegados, prefeitos, professores, padres, pastores, empresários, operários, mendigos, presidiários... Todos me traem e espezinham. Virei letra morta de livros antigos, de folhas amareladas e carcomidas pela traça. Crianças, nem elas me respeitam. Pudera, como poderiam? Sequer me conhecem! Os pais, meus antigos guardiões, ocultam minha identidade e escondem meu passado. É como se jamais tivesse existido, menos ainda reinado. Salvo um  ou  outro  – por vezes, ironicamente, taxado de louco –, todos  dão de ombros quando passo. Ignoram-me. Nada valho. Lançaram-me na vala comum das expressões vazias: amor, fidelidade, honestidade, ética... Fui superada, dilacerada pelo relativismo exacerbado e perverso dos mortais. Lembram de mim, como de uma concubina qualquer. Sem compromisso! Só me possuem quando convém. Na academia, mesmo entre os bacharéis e futuros operadores do Direito, sou não mais do que um verbete, às vezes em latim, às vezes no vernáculo. Num e noutro, apenas mais uma entre muitas palavras desconhecidas de fato. O trono outrora por mim ocupado, hoje é tomado pela desfaçatez, engodo e perfídia. Foi-se o tempo em que nas ruelas e praças sacavam o chapéu para as senhoritas e mulheres casadas, tempo em que os cavalheiros curvavam-se em sinal de respeito e deferência, tempo em que eu frequentava desde os palacetes aos mais humildes mocambos. Hoje, os tempos são outros. Multiplicaram-se as avenidas e arranha-céus na mesma velocidade dos punguistas. As silhuetas esguias deram lugar aos corpos obesos e lerdos, enquanto o vocabulário rebuscado cedeu lugar a um punhado de monossílabos. As longas caminhadas entre os quarteirões não passam de lembranças. As cadeiras giratórias da pós-modernidade embalam traseiros enormes e embotam os mais elementares valores da vida. Enquanto isso, sigo lançada a um canto sob a forma de mídia, quando não trancafiada num arquivo-morto. Sobra farelo de bolacha e manchas de Coca-Cola em torno da mesa, falta conhecimento a meu respeito. Poucos me desposam. Chamo-me boa-fé. 

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domingo, 28 de abril de 2013

ASCENSORISTA



ASCENSORISTA[1]
Gilvan
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                Terceiro, quinto, oitavo... Último, primeiro, próximo... Desce, sobe... Não fosse a simpatia da mulher, o mantra soaria insuportável. O corpo esguio sobre a banqueta de madeira tornava a viagem rápida, pois que prazerosa. O “bom-dia”, “boa-tarde”, “bom trabalho”, mais do que mero formalismo, tinha o poder de dar vida àquela gente. Grandes e pequenos, magros e gordinhos, chefias e estagiários, todos se sentiam acolhidos. Sempre cabia mais um. O tempo escoava de maneira especial, quase mágica. Poucos segundos, mas suficientes para um bate-papo bem humorado, um comentário sobre o sol ou sobre a chuva, uma queixa envolvendo aposentadoria, contas a pagar ou dor na coluna. O elevador, mesmo que talvez a contragosto de um ou que outro, aproximava as pessoas. Por um instante, mesmo que breve, as tornava iguais. Ricos e pobres, doutores e analfabetos, munícipes e estrangeiros. Cada um a entrar, uma história diferente. Uma origem, uma trajetória, um destino... Quantos sonhos por ali passavam e haveriam de passar? Causos e casos. Mulheres prenhes, anciãos doentes, jovens “sarados”, hipocondríacos, anorexos, casados, separados, mudos, poliglotas. Quantas gerações por ali passaram? Gente importante e anônimos, travestis e enrustidos, expansivos e tímidos. Manias? Muitas. Gostos? Incontáveis. Desejos? Irreveláveis, a maioria. O elevador era a própria síntese da vida. À frente desta ou, ao menos do elevador, a simpática e solícita ascensorista ia para cima e para baixo. Quanta coisa já não vira e ouvira? Queixas, lamúrias, relatos de traidores e de traídos... Casamentos prometidos e matrimônios desfeitos. Faces da mesma moeda. O elevador, feito um desses processadores da cozinha moderna, juntava e misturava sentimentos, experiências e emoções. A mulher que o conduzia, com os pequenos óculos sobre o nariz, por vezes fazia lembrar a garotinha que tenta montar um interminável e complexo quebra-cabeça. Afinal, o que tinha à disposição eram tão-somente pedaços de diálogos outrora iniciados e, quase sempre, ali não finalizados. Retalhos da vida. Cabia à ascensorista, talvez, remontá-los, sem a certeza de, ao fazê-lo, reproduzi-los de maneira fiel. Dúvida cruel. Não fossem os sonhos a canalizá-los, enlouqueceria. Por vezes, mesmo sem dizer, se solidarizava com este ou aquele. Tomava partido, discreta e sorrateiramente. Intencional ou não, o fato é que um que outro “desafeto” acabava por descer no andar errado. Um ou dois andares abaixo. O jeito era pagar os pecados subindo alguns lances de escada. Não por acaso, sobre o corpo da moça do elevador caía um guarda-pó que mais fazia lembrar a batina do pároco. Este ligando o homem ao céu, enquanto ela – a ascensorista – ligando o térreo ao topo do prédio. Acerca do destino dos fiéis, o sacerdote pouco ou nada podia fazer. Já a moça do elevador, que inveja, tinha ao alcance dos dedos o destino de todos.


[1] Uma homenagem às ascensoristas de Cachoeirinha que, pacientemente, transportam nossos corpos e sonhos para lá e para cá. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

PIOR !



PIOR!
Gilvan Teixeira
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                Estou ficando velho. Sou de um tempo em que “pior” significava exatamente isto: “pior”. Era pura e simplesmente o antônimo de “melhor”. Simples assim. Apesar de um tanto que maniqueísta, trazia uma enorme dose de tranquilidade à minha geração. Era o tempo em que gozávamos, ao menos aparentemente, de uma boa dose de estabilidade nas relações. A decantada “segurança jurídica” vinha, por vezes, mais da palavra dita ou do fio do bigode do que propriamente da letra – hoje morta – dos dispositivos legais. Deliciávamo-nos em nossas “zonas de conforto”, mesmo que para isso recebêssemos a pecha de tradicionais, reacionários ou corolas. Ao menos era preto no branco. Pouca ou nenhuma margem para dúvidas. A desconfiança, quase sempre, passava de largo. Tempo em que era o pai falar e pronto! As cãs se confundiam à autoridade. Tempo de ximango ou maragato. Homem ou mulher. Governo ou oposição. Trabalhador ou vagabundo.

                Hoje os tempos, ao que parece, são outros. As pretensas certezas deram lugar a um relativismo vazio. A palavra perdeu seu encantamento, enquanto as relações mais fazem lembrar um vale de ossos secos. O tempo, hoje, é o da entronização não da criança, mas de seus caprichos e vontades. Tempo em que os adultos se veem subjugados por seus pupilos. Tempo em que as ideologias – sob o efeito de um progressivo mimetismo – sucumbiram em nome de uma falsa governabilidade. Tempo em que o “fala sério!” nada mais é do que uma expressão desafiadora, irônica e debochada. Pessoas e relações são negociáveis, enquanto os contatos, feito a temperatura gélida dos cadáveres, são frios e inconstantes. Mudam na mesma velocidade dos dedos sobre as teclas dos tablets, notebooks e Ifones. Todos, hoje, dizem “amar”: o larápio, o assassino, o déspota, o adúltero, o pedófilo. Banalizou-se de tal forma a expressão, que hoje nada diz. Quando muito é capaz de render alguns mimos ou algumas carícias fugazes. Sem compromisso, sem envolvimento, sem expectativas... Vive-se tão-somente o presente.

                Estou ficando velho. Sinto saudade da vida simples. Faz-me falta o arroz e o feijão. O cheiro da lenha queimada, as palmas do carteiro com a missiva esperada, as histórias contadas ao cair da noite, o pulo do gafanhoto, o pisca-pisca dos vagalumes. Saudade de quem partiu. Não sei se é a idade ou, quem sabe, a morte que se avizinha. Talvez, ainda, os efeitos do enrijecimento das articulações ou da flacidez das emoções. Coisas da velhice. A tolerância, quiçá, se fora com o tempo. Com ela, a facilidade do convívio com as diferenças. Caduquice! Não pertenço, talvez, a este mundo. Sou de outro tempo, o da poesia e da boemia. Pareço conjugar o verbo no pretérito. Para alguns, sandice. Para outros tantos, pieguice. No fundo, só saudade, profunda e agridoce saudade. Estou ficando velho!

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segunda-feira, 8 de abril de 2013

SEQUESTRO



SEQUESTRO
Gilvan Teixeira
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                A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), oficializada em 20 de dezembro de 1996, trouxe importantes e positivas mudanças no que tange ao ensino neste país. Tensionou o Poder Público e a sociedade civil na busca de uma educação, de fato, universal e comprometida com a qualidade.  Alavancou novos paradigmas. Ao menos em tese, pois, infelizmente, na prática, a educação neste país – principalmente pública – segue muito aquém do aceitável. Recursos em quantidade insuficiente e mal aplicados, prédios sucateados, professores mal pagos, metodologias equivocadas, são apenas alguns dos fatores que acabam por produzir os pífios resultados por nós conhecidos. Não bastasse o flagrante descumprimento por parte do Poder Público (em todas as esferas: federal, estadual e municipal) no que tange ao texto constitucional, texto este que exige uma educação de qualidade, agora vem o Estado a nos obrigar a matricular nossas crianças na Educação Infantil a partir dos quatro anos de idade. Quatro anos!!! Não bastasse tamanha insanidade, impõe aos pequenos (quatro anos!!!) uma carga horária estúpida de não menos do que duzentos dias letivos e oitocentas horas. Obriga, ainda, a uma frequência não inferior a sessenta por cento da carga estipulada. Irresponsável tal exigência. Primeiro porque arranca das famílias, de forma compulsória e violenta, nossos filhos e filhas e os enfia nos estabelecimentos sucateados, onde o que menos viceja é segurança e qualidade no atendimento. Ora, o mesmo Estado que criou tamanha anomalia é o Estado que sequer dá conta dos demais níveis: Ensinos Fundamental e Médio. Apesar de “universalizados” – em especial o Fundamental – os referidos níveis, sabidamente, não se mostram capazes de formarem os educandos nem sob o ponto de vista cognitivo, nem tampouco sob os pontos de vista afetivo ou laboral, por exemplo. O Brasil como um todo tem formado levas e mais levas de sujeitos despreparados para a vida. As avaliações – mesmo aquelas levadas a cabo por instituições governamentais – revelam dados preocupantes e assustadores. Não por acaso, vem crescendo o número de famílias que defendem o direito de, elas próprias, arcarem com o papel reservado, inicialmente, à escola. Mesmo que a guisa da lei, a opção acima revela a total descrença em relação ao modelo – equivocado e fracassado – de ensino neste país. Entra ano e sai ano, entra governo e sai governo, a educação vai de mal a pior. Portanto, a alteração da LDB, passando a antecipar a obrigatoriedade da matrícula da criança a partir dos quatro anos, e não mais aos seis, causa estranheza. Corre-se o risco da perda da infância. Esta passa a ser “institucionalizada” por um ente historicamente incompetente, omisso, falho, quando não corrupto e destituído de qualquer sinal de ética. Sequestra-se a criança. Verdadeiro atentado a um direito natural das famílias. Ora, a Educação Infantil (de zero a seis anos incompletos) deve ter, isto sim, um caráter de “oferta” do Poder Público às famílias que, por algum motivo, não possam ou não queiram estar com a criança. Assim, a prole de quem precisa trabalhar ou então aquelas crianças em estado de vulnerabilidade, por exemplo, têm um local onde permanecer. Contudo, soa como tirano olvidar aquelas famílias que não precisam e não desejam colocar seus mancebos em instituições voltadas ao atendimento da Educação Infantil. Urge uma reflexão profunda acerca do assunto, sob o risco de perdas e sequelas irreversíveis para a infância e para as relações familiares como um todo.

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quinta-feira, 4 de abril de 2013

VAI UMA CERVEJA AÍ?



VAI UMA CERVEJA AÍ?
Gilvan
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                Não me tomem por um apologista do álcool e nem tampouco por um ferrenho defensor dos hábitos etílicos. É apenas uma reflexão. No máximo, um desabafo (indetectável pelo bafômetro). Talvez um protesto! Mais uma vez nosso Legislativo – repleto de mentes brilhantes e discursos impecáveis – se puxou. Querem acabar com o álcool na cidade! É isso mesmo. Perguntam se eu bebi? Não. Soubessem eles, os nobres vereadores, que estão cavando a própria cova, jamais cogitariam em tamanha afronta. Afinal é o álcool (assim como o futebol, as novelas, o carnaval e o facebook) que sustenta os seus mandatos. Não fosse assim, quem estaria disposto a bancar – ano após ano, mandato após mandato – levas e levas de homens e mulheres improdutivos, por vezes despreparados ética e intelectualmente? Quem toleraria a indecifrável “sopa de letrinhas” das siglas partidárias, envoltas na já conhecida promiscuidade política? Quem aceitaria canalizar os (alegados) parcos recursos públicos para perpetuar os benesses de inúmeros CCs e FGs que pouco mais fazem do que tremularem as bandeirolas ao longo da Avenida em período de campanha eleitoral? Não fosse o efeito do álcool no cérebro do contribuinte, muitas licitações duvidosas seriam tiradas a limpo. Graças ao álcool, a precariedade dos serviços públicos e o vergonhoso descaso do Estado pela vida das pessoas são relevados. A cerveja, o vinho, o licor, a cachaça, a caipirinha são todos eles poderosos agentes contrarrevolucionários. A eventual fúria que provocam é fogo de palha. Incapazes de moverem a história. No máximo, embalam as poesias e cantigas dos boêmios. Mais fácil um cavalo (nesta cidade não tem camelos) passar pelo fundo de uma agulha do que ver um bêbado revolucionário. Por que mesmo acabar ou diminuir com o consumo do álcool? É ele quem mata? É ele quem rouba? É ele quem atropela? É ele quem sonega? É ele quem tripudia? Não. A escassez ética, o relativismo doentio, a improbidade administrativa, o peculato, a malversação de recursos públicos, bem como um rol interminável de crimes e delitos praticados não apenas por agentes públicos, mas pelo mais simples mortal, nascem não do álcool, mas das relações cada vez mais carcomidas pela sede de poder, mesmo que disfarçada, onde o Parlamento mais do que um símbolo, é um triste e asqueroso exemplo. Relações que prosperam, feito moscas no esterco, alimentadas pela impunidade, falta de celeridade, incompetência e absoluta indiferença quanto à sorte da população, especialmente a mais pobre. Impérios e ditaduras devem ao álcool sua longevidade. Ele embriaga o corpo e arrefece a dor. Ópio do povo, dizia Marx. Lembram? Provavelmente não, pois neste Município educação – assim como segurança, saúde, saneamento, transporte, etecetera e tal – é tão rara e precária quanto o são as ações positivas e práticas nascidas de nosso Legislativo. Verdadeiro Saara. Para aguentar, só bebendo! Vai uma cerveja (sem álcool) aí? 

quinta-feira, 28 de março de 2013

BRINCAR: UM DIREITO FUNDAMENTAL



BRINCAR: UM DIREITO FUNDAMENTAL
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

“1 – Os Estados Partes reconhecem o direito da criança ao descanso e ao lazer, ao divertimento e às atividades recreativas próprias da idade, bem como à livre participação na vida cultural e artística.
2 – Os Estados Partes promoverão oportunidades adequadas para que a criança, em condições de igualdade, participe plenamente da vida cultural, artística, recreativa e de lazer”.
(Art. 31 da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança)[1]

                Para criança, brincar é tudo. Brincar socializa, aproxima, solidariza, vincula, valoriza. Na brincadeira, a criança desenvolve aptidões, habilidades, virtudes, valores de toda sorte. Brincando, a criança aprende, ensina, compartilha, assimila. O brincar afugenta a tristeza e mitiga as dores da alma. Brincando, a criança se reconhece e reconhece o outro. No ato de brincar, por mais singelo que seja, o mundo se transforma sob os olhos de quem brinca. A dor, o descaso e ausência dos pais, a indiferença, a omissão do ente público, como que desaparecem. Dão lugar à imaginação, à esperança, à alegria, ao sorriso. Vilões viram heróis. Ganha asa não apenas o bonequinho sem pernas e sem braços, mas a imaginação. Na roda das brincadeiras, todos são bem-vindos. Nela, a inclusão deixa de ser letra-morta e ganha vida. O cego vai à frente, o mudo rege a algazarra e o autista, feito o vento, corre e se diverte com os amigos, às vezes, imaginários. Na brincadeira tudo parece real. A areia da pracinha vira mar e folhinha quedada da árvore serve de alimento às bonequinhas de todos os tipos e tamanhos. Guris e gurias dividem por vezes os mesmos espaços e com alguma frequência disputam os mesmos brinquedos. Dialética saudável e necessária. Embate construtivo. Matéria-prima da própria construção da identidade. Brincando, a criança ao sujar as mãos e as roupas cria “anticorpos” frente às vergonhosas máculas tão comuns no mundo dos “adultos”. Engodo, corrupção, ódio passam de largo nas brincadeiras. Nestas, a aparente mentira não passa de fantasia, enquanto o rostinho cabisbaixo denota não mais do que uma dor de barriga. A brincadeira colore o mundo. Dá vida ao lugar e preenche os vazios. Até os objetos, por mais inanimados que sejam, parecem latejar, feito o pulsar do coração. Na brincadeira não há lugar para tristeza. É o guri “morrer” diante do ataque inimigo, logo levanta como que por milagre, e retoma – mais intensa do que antes – a correria. O que para os adultos, infelizes em sua maioria, não passam de gritos estridentes, são na verdade atestados de vida naquele lugar. A brincadeira revigora, cura e fortalece a autoestima. Nem mesmo as enfermidades, por mais graves que sejam, resistem à brincadeira. A dor foge quando diante do sorriso. Imaginem frente à gargalhada! Na brincadeira, a aprendizagem se perpetua e torna o processo prazeroso, doce feito pirulito e balas de goma. Uma delícia. Verdade que tem adulto que não gosta e prefere comer jiló. Brincar é tudo!



[1] A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança – Carta Magna para as crianças de todo o mundo – em 20 de novembro de 1989, e, no ano seguinte, o documento foi oficializado como lei internacional. A Convenção sobre os Direitos da Criança é o instrumento de direitos humanos mais aceito na história universal. Foi ratificado por 193 países, entre eles o Brasil (fonte: http://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10120.htm)

quarta-feira, 27 de março de 2013

PORTA-TRECOS



PORTA-TRECOS
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                Cachoeirinha parece ter descoberto o “ovo de Colombo”. Ouvi dizer que já se discute entre os excelentíssimos vereadores a implantação de porta-trecos nas agências bancárias da cidade. A ideia parece genial. Nem poderia ser diferente, vindo de pessoas “feitas para brilharem”... Sensacional a iniciativa. Imaginem poder livrar-se dos “trecos” de todos os tipos e tamanhos já na entrada do banco. Guarda-chuva, relógio, correntes, marca-passo... Sim, porque tudo é motivo para disparar o maldito alarme sonoro. É duvidar, passamos a desconfiar de nossas próprias intenções. Por que mesmo queremos passar pela quase intransponível porta? Feito malfeitores, ficamos à mercê da boa vontade dos seguranças. É antipatizar com nosso jeito, nossas vestes, nossos “trecos”, nossa estatura, nossa cor, nosso cabelo... Batata! Logo o sinal dispara. Do lado de cá os “suspeitos”, enquanto do outro lado os que conseguiram transpor as portas, cada vez mais herméticas, do céu. Não sabem os últimos o que os aguarda. Soubessem eles que é do lado de dentro que mora o perigo. Ali serão assaltados e extorquidos pelas taxas bancárias, juros estratosféricos e sórdidas multas. Sem falar na interminável fila que os espera. Tudo sob o olhar omisso e complacente do Poder Público. Enquanto os caixas forram o interior com as notas de todos os calibres, lá fora Cachoeirinha segue agonizante. Saúde, educação, saneamento, transporte público, mobilidade urbana, segurança... Verdadeiro caos. Salvo algumas “ilhas”, onde o tempo e a vida parecem escoar diferentemente. A Câmara parece ser uma delas. Por lá, ao que parece, o mal não dá as caras. Não tem porta giratória. Só gente de bem. Homens e mulheres bem trajados e de passos elegantes. Olhares altivos que nos fazem parecer um... um... um ninguém. Todo aquele séquito de assessores, estagiários, CCs, permutados, protegidos só aguçam a sensação do quanto somos vil. É bem verdade, contudo, que lá não se faz necessário um porta-trecos. Nos bancos, ao contrário, tudo indica que a iniciativa florescerá. Uma “saída” para a dificuldade de “entrada”. Tão contraditório quanto real. Estamos nos especializando em criar formas de escapolir dos problemas. O Legislativo – assim como os demais Poderes – tem sido pródigo em produzir risíveis “pérolas”, inflacionando o já obeso e mastodôntico ordenamento jurídico. Por que tensionar e exigir que o Estado e os bancos cumpram com suas obrigações junto aos munícipes se no interior das agências é possível instalar porta-trecos? Ao que parece, as portas giratórias – que mais fazem lembrar uma roleta russa a espreitar a próxima vítima – seguirão apitando, anunciando o provável ladrão (nós!) e ensejando belas iniciativas do Parlamento deste Município. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

IMIGRANTE



IMIGRANTE
Gilvan Teixeira
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                Certa feita, ouvi de um Padre – durante a homilia – uma expressão, no mínimo, interessante. Para lá do eventual romantismo ou do aspecto histórico, o termo encerra outros sentidos. Início de mais um ano letivo e, com ele, aquela conhecida cena: o aluno novo que chega na escola. É como se caísse de paraquedas em local desconhecido e, por vezes, aparentemente hostil. Tudo parece, num primeiro momento, conspirar contra ele. É como se todos nele reparassem ou, talvez o que seja pior, o ignorassem por completo. Desconhece os caminhos, a disposição das salas e até mesmo o rumo do banheiro. Verdadeiro estranho no ninho. Estrangeiro! Imigrante! Feito gado no corredor, sente-se oprimido. Teme em perguntar, pois não quer chamar atenção, vai que o tomem por exibido. Por outro lado, urge falar, pois que náufrago em meio a um oceano de dúvidas e questionamentos. Triste sina aquela. Sente-se abandonado, lançado aos leões. Mais do que nunca, ressente-se da ausência dos amigos, dos colegas de outrora. Na outra escola era rei. Agora, um desconhecido. O anonimato só é menor do que a angústia a lhe oprimir o peito. O despontar de um novo ano letivo traz consigo, entre outras, a necessidade de exercitar a solidariedade, o coleguismo, a acolhida. O início das aulas gera levas e mais levas de imigrantes, fazendo surgir, mais do que nunca, a premente carência de corações dispostos a estenderem a mão. Pessoas com a firme intenção de ciceronearem os estrangeiros, de apadrinharem os que vêm de outros páreos. Caminhar pela escola, indicar os prédios e banheiros, dar as boas-vindas... Iniciativas simples que fazem a diferença e criam vínculos. Singelas ações que, ao contrário de parecerem piegas, calam na memória e na alma. A “xenofobia” cede lugar à empatia. A indiferença dá lugar à amizade, mesmo que ainda tênue. É assim que nascem as melhores relações. É assim que se revelam os que, de fato, são capazes de transformarem positivamente o mundo. Sejam bem-vindos todos, imigrantes ou não! Bom 2013. 

Veja também:
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

COMEÇAR DE NOVO



COMEÇAR DE NOVO...
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido.
(Ivan Lins)



                Mais um ano letivo! Momento de rever colegas e professores. A vontade, mesmo que disfarçada, de mostrar a mochila nova, os cadernos de capa dura, o tênis da hora, o bronzeado nem sempre adquirido na praia, o corpo sarado... Não mais do que dois meses de férias. Tempo suficiente para escancarar o “tiro” na estatura de muitos. Ainda ontem, um piá, franzino e pequeno. Hoje, um baita guri. Duvidar, ultrapassou quem o gerou. Misto de empolgação e suspense, perpassado pelo “friozinho” na barriga. Como estou? Como estão os outros? Qual será minha turma e quem serão meus colegas? Necessidade, natural, de aceitação e pertencimento. Sentimento tão antigo quanto o de fixar as listas de chamada em alguns pontos estratégicos da escola. O agito do primeiro dia de aula contrasta com o olhar perdido do aluno novo. Para este, tudo é novidade: a palavra do Diretor, a bênção do Padre, os avisos da Disciplina... Alguns mal conseguem esperar o ingresso na sala. Quem será o Regente? Onde sentarei? Quem serão os professores? Vão-se os anos, os sentimentos teimam em serem os mesmos. Prova inconteste de que temos em comum com os outros – mesmo que separados por gerações – muito mais do que, às vezes, imaginamos. Afinal, somos humanos. Descendemos da mesma cepa. Precisamos, portanto, uns dos outros. É o “outro” que nos completa, nos constitui, nos dá forma. Sem “ele”, não existimos. Sequer somos ilha, pois que esta só existe se rodeada pelo oceano. Ah, que beleza é a escola! Quanta vida! O burburinho, o ti-ti-ti, a algazarra no pátio atestam o viço que corre em todas aquelas veias e artérias. O coração se enche não apenas de sangue, mas de alegria e de esperança. Querelas do passado e animosidades pretéritas se dissipam. É tempo de perdão, de amor... É tempo de apostar no irmão, pois assim o fazendo se aposta em si mesmo. No pátio da escola, o que conta é o currículo dito oculto, tangenciado pela amizade e pela cumplicidade sadia. Bem-vindo todos os convidados, pais, alunos e funcionários. São vocês, somos nós, que atribuímos sentido à escola. Bom ano letivo a todos!

Veja também: http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=artigos_interna&id=18948
Leia ainda: 
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013



O MAR E A PISCINA
Gilvan
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                Estive na praia de Ingleses, em Florianópolis, há alguns dias. Fiquei – juntamente com minha família e alguns amigos – oito dias. Tempo suficiente para perceber a diferença entre dois mundos: o do mar e o da piscina. Enquanto o primeiro como que socializa os abismos sociais e econômicos, o último os escancara. À beira do mar, pouco ou nada se sabe acerca da origem – salvo alguns claros sinais da presença castelhana na orla –, profissão, classe social, renda, preferência sexual, conta bancária, etc., dos que se escondem sob os guarda-sóis ou sob os chapéus de largas abas. O vai e vem das ondas é feito o movimento do apagador do mestre. Quando muito restam alguns pequenos e quase sempre indecifráveis vestígios do que antes existia. O mar mostra toda sua imensa sabedoria ao aproximar homens e mulheres, pequenos e grandes, ricos e pobres, negros e brancos, crentes e agnósticos, letrados e analfabetos, nativos e estrangeiros... A piscina, ao contrário, privatiza o lazer, tornando-o por um lado asceta, por outro, sem graça. Aproxima apenas alguns poucos, os da própria tribo, porém recrudesce o fosso entre uma minoria e o “resto”, a maioria. O mar tem cheiro de povo. A piscina, de cloro. O sal do mar é terapêutico, cicatrizante, na quantidade exata da necessidade de cada um. A piscina tem, quando muito, ao seu redor, o sal que tempera a carne do churrasco e aumenta a pressão arterial. Sem ciúme ou disputa de beleza, o mar convive com a presença das montanhas, do verde, das dunas, dos braços de rios... Jurerê, Costão do Santinho, Armação, Praia Brava, Daniela, Joaquina... Tantos nomes para uma só maravilha! Sem qualquer espécie de maquilagem. Sem os penduricalhos nascidos de laboratórios e indústrias de cosméticos. Simples, natural e belo. Assim é o mar. Este, apesar de sua imensidão, acolhe a todos e a cada um. Nada pede em troca. Nem tostão, nem troca de favores, nem mesmo um elogio. Sua grandeza é tamanha que ao nele adentrar, os corpos se desnudam, como que a reverenciá-lo. O mar a todos nivela. Aos mais desavisados e descuidados, por vezes, traga. A piscina carece de vida. É estéril. O mar, ao contrário, confunde-se com a própria gênese de todos os seres. Perfeita simbiose. Daí seu encanto. Daniela e suas águas tranquilas ou a Praia Brava com todas aquelas ondas a chicotearem, com força, as rochas. Inúmeras e belas faces de uma mesma moeda. A piscina, apesar de toda languidez, peca pela falta de desafio. O mar, ao contrário – talvez embalado pelo canto de suas sereias –, é instigante. Mexe com os brios do exímio nadador e atrai o olhar dos que ainda se apaixonam. Saudade do mar e dos amigos...