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terça-feira, 13 de novembro de 2012

FALÊNCIA DO ESTADO E REAÇÃO SOCIAL



FALÊNCIA DO ESTADO E REAÇÃO SOCIAL
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Há muito venho apontando para os inegáveis sinais da falência do Estado brasileiro. Não que noutros tempos ele tenha sido “saudável”, confiável, seguro ante os olhos de seus “acionistas” (contribuintes). A diferença está, digamos... na aparência. Outrora, o Estado parecia forte, inspirava alguma confiança, nem que por parte dos mais ricos ou dos mais alienados. Hoje, contudo, o Estado sequer tem conseguido salvar as aparências. Lembro que há duas ou três décadas atrás algumas vozes se levantaram em favor da dita “pena de morte”. Por quê? Não por acaso, o título deste singelo texto traz primeiro a “falência do Estado” e, na sequência, portanto somente depois, a “reação social”. Ora, a defesa de medidas extremas só ganha força quando da existência de um contexto que as justifique, pois que do contrário, as teses mais radicais acabam por cair por terra.

                O Estado brasileiro, em todas suas formas (Executivo, Legislativo e Judiciário) e esferas (federal, estadual e municipal) se vê envolto em sérios problemas: falta de credibilidade, morosidade, ineficiência, corrupção, abuso de poder, ingerência indevida, alto custo, entre tantos outros. Criou-se um perigoso e pérfido “caldo cultural”, onde importantes valores – como a honestidade, o trabalho, a ética, a verdade, o sentimento de justiça, etc. – há muito vêm sendo preteridos em favor da malandragem, do “jeitinho”, do lucro fácil, do hedonismo exacerbado e do relativismo irresponsável, por exemplo. Um “caldo” que alimenta corruptos e corruptores, viciados e traficantes, aliciados e aliciadores. Um “caldo” que funciona como pá de cal às virtudes, fazendo destas últimas uma exceção, quando deveriam ser a regra. Ao criminoso os benesses de uma legislação ultrapassada, onde viceja a injustiça. Perdem quase todos, enquanto poucos ganham. Perde a sociedade como um todo, ganha o criminoso. Sai no prejuízo o contribuinte, enquanto a indústria do “recurso protelatório” enriquece alguns escritórios advocatícios. O medo impera nas ruas, muitas destas tomadas por viciados, bêbados irresponsáveis, gangues, pichadores, quadrilhas, assassinos, larápios de toda sorte. A polícia, quando prende, se vê desmoralizada pela prática corriqueira da malfadada liberdade provisória, do semiaberto, da fuga, das medidas “compensatórias”. O garantismo tem servido de eufemismo para impunidade. A mensagem que fica parece clara: no Brasil, parece valer a pena traficar, roubar, corromper e matar. Parece valer a pena apropriar-se de bem alheio, desviar recursos públicos, lançar mão de meios fraudulentos para obter sucesso em licitações e assim por diante. O risco é pequeno, e enorme é a probabilidade de se sair impune. Enquanto isso, vegeta a saúde, fracassa o ensino e preocupa a segurança. Serviço público, no Brasil, tem sido sinônimo de ineficiência e desconfiança.

                O cidadão tem o direito de se defender, defender sua família e seu patrimônio. Direito este não apenas legal, mas ético. É um direito básico, portanto anterior à própria lei. Esta, por sinal, é um fenômeno temporal, portanto histórico, ao contrário dos princípios éticos, que são atemporais. Assim, ao contrário do que apregoam alguns, a própria Constituição não pode ser colocada acima da ética. Ora, a “pena de morte”, em que pese ser questionável sua aplicação, revela como que o “basta” dado pelo grupo social aos que ofendem grave e irremediavelmente os princípios mais caros da ética. No Brasil, tal pena está fora de cogitação, pois que não encontra guarida no ordenamento jurídico. Ainda que tivesse previsão legal, sua aplicabilidade seria temerária, dada a incapacidade do Estado brasileiro em inspirar confiança em suas ações. O que fazer então? Ao que parece, são poucas as alternativas. Talvez a longuíssimo prazo, tipo... a perder de vista, aumente o número delas. Todavia, as questões postas em jogo não podem mais esperar, especialmente a segurança. Esta requer medidas imediatas, urgentes. Ou somos nós, ou é o criminoso. Ou é nossa família, ou é o bandido. Este, por certo, não guardará o tempo necessário para que as hipotéticas ações do Poder Público venham a dar resultado. O criminoso tirará a nossa vida e de nossos entes queridos sem dó e nem piedade. Sem pestanejar – muito provavelmente, embalado pelos efeitos das drogas –, ele roubará, matará, estuprará, sequestrará, abusará sem pensar duas vezes. A segurança e a vida de nossas crianças, jovens, esposas e companheiras, idosos, depende de nós. Aguardar pelo Estado é assinar o atestado de óbito de quem queremos bem. A sociedade precisa reagir com rigor, de forma extrema, até que o Estado se mostre capaz de dar conta daquilo que é de sua obrigação. Portanto, mais do que nunca é necessário que se denuncie. A sociedade precisa “atormentar” aqueles que hoje a atormentam. Associações de moradores devem se mobilizar, achar formas e disponibilizar recursos para garantir a segurança. A casa arrombada de um, deve ser encarado como problema de todos. O assassinato de um pai de família inocente e trabalhador ou a brutalidade contra o jovem de boa índole devem ser problema de todos. Cabe a estes, portanto, a tomada de providências. Fazer o que o Poder Público há muito tem deixado de fazer (se é que o fez algum dia...). Justiça com as próprias mãos? Talvez. Barbárie não maior do que a que hoje se tem. Alguma dúvida de que vivemos a lei da selva? Pior do que isso. Além de bárbara, muito cara. Paga-se incontáveis quantias para, estarrecidos, ver os corpos de quem amamos apertados em ataúdes. Corpos desfigurados pela violência. Paga-se caro pelos discursos politicamente corretos, porém estéreis, sem qualquer efeito prático. Paga-se caro pelo legalismo que alimenta um Judiciário corporativista, insensível, embasbacado em meio a oratórias recheadas de uma língua morta. Paga-se caro pela morosidade dos processos, pelas demandas não julgadas em tempo oportuno. Paga-se caro por uma burocracia insana que zomba do trabalhador pobre. Onde está o Direito? Onde está o Estado de Direito? Direito de quem e para quem? O Estado não é confiável. Tem sido um fim em si mesmo. Existe para garantir conchavos políticos e estabilidade para uma infinidade de gente. Um custo imensurável, com efeitos catastróficos para o presente e futuro do país. Aprendi que quem paga mal, paga duas vezes. Historicamente, tem-se pago mal neste país. Paga-se, portanto, duas vezes. A classe média (existe?), por exemplo, paga previdência pública e privada, segurança pública e privada, saúde pública e privada... A pública, em regra, esquece! A privada, em regra, a cada dia se torna mais precária. Resta, portanto, ao cidadão um último fio de esperança, a reação desesperada de quem luta pela coisa mais elementar do ser humano: a vida. Esta se encontra em perigo. Agoniza em leito de morte. Diante da falência do Estado, a reação social!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ENIGMA



ENIGMA
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


Eis que a primavera corria solta em direção ao caloroso abraço do verão. Mal começara novembro e a sensação era de final de ano. Natal, Réveillon, férias, praia... Por mais que resistisse, bem sabia que antes do apagar das luzes de dois mil e doze, algumas pendências precisavam ser resolvidas. Passar de ano era uma delas.

Sentia-se pressionado. Química, Física, Matemática, Geografia... Provas e mais provas. Teria de enfrentar, ainda, ENEM, simulados, vestibular aqui e acolá. Família, tios, primos, amigos e até o cachorro, todos pareciam cobrá-lo. Tão cruel quanto à cobrança explícita, era aquela outra, a que se dava nas entrelinhas. Indiretas, olhares de canto, gestos suspeitos, sorrisos estreitos. Deboche ou exagero? A mais pura verdade ou peraltices de uma mente com mania de perseguição? O fato é que sofria. Sim, padecia por ele e pelos outros. Tinha clareza do quanto era sofrível para os pais pagarem a mensalidade. Quase um carro por ano! Mesmo que usado, era um valor e tanto. Pesava no orçamento e na consciência. Não pensassem fosse ele um insensível alienado. Doía-lhe lembrar que o carnê da escola descansava com tantos outros no fundo da gaveta, engrossando dívidas e endossando uma crise conjugal que parecia não ter fim.  

Tudo a sua volta parecia conspirar. O sono, há algum tempo não o visitava e quando o fazia, era inoportuno. As noites eram regadas a Coca-Cola e Trakinas. O latido dos cães ao longe misturava-se ao tec-tec do teclado. Verdadeiro zumbi. Uma multidão deles. Velhos, jovens, crianças... Homens, mulheres... Sarados, doentes... Comunicava-se com muitos, tudo ao mesmo tempo. Era um “comunicar” inteligível, apesar de imperfeito. Junto com a madrugada, avançavam também os ponteiros do velho relógio, herança da avó, pendurado ao fundo do corredor. Duas horas da manhã e nada de conseguir dormir. Logo viria o arrependimento, feito algoz, a cobrar cada minuto de sono perdido.

Um, dois períodos... Era o tempo que levava para, finalmente, se dar conta que a aula começara. Depois de recebida a falta por não ter respondido a chamada e após meia dúzia de reclamações do professor, aí sim o galo parecia cantar. Zoavam dele.  Sua distração era motivo de chacota. Engraçado para os colegas, irritante para os professores. Era tido por desleixado, preguiçoso, “largado”... O caderno por si já denunciava a quanto ia a vida do sujeito. Alguns rabiscos e nada mais. Temas incompletos, textos pela metade, provas não assinadas... Tinha de tudo naquela bagunça. Outro dia, uma professora jurara de pés juntos que vira uma traça a corroer, faceira, a capa do caderno do aluno. Ia de mal a pior.

Dias intermináveis os que, de um tempo para cá, vivia. Ganhara peso, assim como uma permanente tristeza. O olhar já há algum tempo não apresentava aquele brilho de outrora. A mãe já observara! Falara dos olhos caídos do guri (ora, já era quase um homem...). Drogas? Não. Paixão? Muito menos. A simples hipótese de uma depressão, mesmo que leve,  já mobilizara toda a família. Psicólogo, terapia familiar, até terreiro de umbanda. Nada dele recobrar o antigo sorriso e a tez do passado. Fora os gastos, nada mais. Sentia-se um verme, um nada!  

Enquanto isso, o tempo seguia sem dar trégua. As fatídicas datas das provas e entrega de trabalhos iam chegando, feito turbilhão. Com a proximidade do término do ano letivo, ia diminuindo a margem do jeitinho e da enganação. As manobras de antes já não encontravam eco. A hora da verdade chegava a passos largos. Com ela, o medo da reprovação. A reprimenda dos pais, as inevitáveis sanções, a crítica dos avós, a troca de escola, a distância dos amigos... O mundo parecia ter sido injusto e cruel com ele. A primavera, indiferente, seguia seu curso em direção à próxima estação!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

OS MODELOS DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL



OS MODELOS DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A indústria, ao longo da história, passou por três grandes fases. A primeira delas foi a do “Artesanato” (até o século XV). Esteve marcada, entre outras características, pela inexistência da divisão de trabalho, pois o trabalhador (artesão) era responsável por todas as etapas da produção. Outra característica importante de tal fase era a inexistência de máquinas, sendo que o artesão contava tão-somente com ferramentas. A produção era bastante limitada, exigindo uma pequena quantidade de matéria-prima, com pouco impacto ambiental. A segunda fase da indústria foi a da “Manufatura” (entre os séculos XV e XVIII), fase esta marcada pelo início da divisão do trabalho. Apesar de ainda não ser rígida, já se percebia uma certa distribuição de tarefas. É a fase onde surgem algumas máquinas rudimentares, servindo as mesmas de força “complementar” ao trabalho humano. Há o aumento da produção e uma maior exigência de matéria-prima, sem contudo representar um impacto significativo ao meio ambiente. A terceira e última fase é chamada de “Indústria Moderna” (a partir de meados do século XVIII). Tal fase pode ser subdividida, por sua vez, em três: Primeira (1750 – 1860), Segunda (1860 – 1970) e Terceira (1970 - ...) Revoluções Industriais. A última fase da indústria é marcada pela intensa divisão do trabalho, pelo extraordinário aumento da produção (com enorme impacto ambiental) e pela importância da máquina (passa a ser o “centro” do processo produtivo).

                Durante a fase da Indústria Moderna, merecem destaque alguns “modelos de produção industrial”. O taylorismo, por exemplo, marcou o início do século XX. Caracterizou-se por ser essencialmente teórico, influenciando outro modelo, qual seja, o chamado fordismo. O taylorismo-fordismo trazia entre suas características: a especialização, o monitoramento do tempo gasto na produção, a premiação (a ideia era produzir mais no menor tempo possível), e a supremacia dos métodos científicos (já comprovadamente funcional, viável e lucrativo) em relação aos empíricos. Henry Ford buscou colocar em prática a teoria de Taylor. Adotou a chamada “linha de montagem”, focando na produção em massa, produção esta pautada na padronização e simplificação. Outra característica do fordismo era a chamada “verticalização” da produção, onde a empresa buscava depender o mínimo possível de “terceiros” durante o processo produtivo. Assim, por exemplo, a indústria Ford (o auge do fordismo se deu entre 1945 e 1968), era responsável desde o plantio da seringueira (matéria-prima da borracha) até a produção do ferro necessário na linha de montagem do automóvel.

                Outro modelo de produção industrial é o chamado toyotismo. Tal modelo nasceu no Japão (década de 1970, portanto já na Terceira Revolução Industrial) e só pode ser compreendido dentro de um determinado contexto histórico. Ora, os nipônicos ainda se recuperavam das tristes consequências da Segunda Guerra (1939-1945), sendo o Japão um país com escassez de matérias-primas. Ora, o país não podia portanto se dar ao luxo de uma produção nos mesmos moldes apregoados pelo fordismo. Ao contrário, mister é que focasse numa produção que fosse “enxuta” e otimizada. Daí nasce a ideia do “just-in-time”, ou seja uma produção programada, organizada, voltada à racionalização dos estoques e matérias-primas. O toyotismo nasce numa época em que a informática e a robótica ganham força, sendo marcado ainda pela multifuncionalização do trabalhador. Ao contrário do fordismo – onde o operário se atinha a uma só função –, o toyotismo valoriza o profissional dinâmico, versátil, adaptável às necessidades do mercado. Outra característica deste modelo é a preocupação com a qualidade (já o fordismo partia da ideia de um “controle por amostragem”, portanto muito limitado), bem com a personalização do produto, prática esta em conformidade com o significativo aumento do grau de exigência do consumidor.

                Finalmente, outro modelo a ser destacado é o volvismo. Surgido no ocaso do século XX (na Suécia), tal modelo tem como principais características a busca de uma, por assim dizer, “conciliação” entre o passado e o que há de mais moderno. É um modelo assentado na preocupação com a qualidade não apenas do produto, mas de quem o produz. A criatividade e o trabalho coletivo ganham força.  

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ESPINHOS QUE FALAM



ESPINHOS QUE FALAM
Gilvan
e-mail: profpreto@gmail


                Gosto de falar sobre rosas. Elas espinham, mas principalmente encantam. São singulares e nobres. Acima de tudo belas. Tamanha beleza nasce, talvez, da altivez própria das rosas. Altivas, mas sem prepotência, sem arrogância. Espinham, porém não espezinham. Machucam a carne, mas envaidecem o espírito. São espinhos de um tipo único, especial. Espinhos que falam direto à alma, ao coração. Dispensam palavras, textos bem elaborados ou vocábulos pedantes. Falam por si só. Falam direta e abertamente. Envoltos em silêncio ou permeados por música, os espinhos das rosas são como notas musicais. Perfeitos, completos. Basta um pouco de poesia e de sensibilidade e as notas (digo, espinhos!), de per si, tratam de fazer o resto, como que por encanto. Na simplicidade dos espinhos descansa parte, talvez toda, beleza das rosas. Espinhos que ensinam, que admoestam, que nos fazem lembrar o quanto, ainda, somos humanos. Uma vez que nos espetam, desencadeiam reações das mais díspares e adversas. Reações visceralmente humanas. Vão da raiva ao amor e da dor ao êxtase. Reações contraditórias? Absolutamente. Apenas humanas. Os espinhos das rosas nos despertam para nossa inafastável carnalidade. Por isso somos especiais. É o que nos aproxima, nos familiariza. O sangue que brota da ação dos espinhos nos traz para realidade, nem que por ínfimo instante. Breve, mas rico momento. Lapso de tempo onde flui a humildade, mesmo que forçada. Faz lembrar nossa temporalidade e transitoriedade. Aniquila nossa espiritualidade? Nada disso, a reforça. Os espinhos das rosas são, portanto, proféticos. Falam de dias vindouros. São o limite entre o que somos e o que desejamos ser. Entre nossos vícios e nossos desejos. Nossas deficiências e nossas utopias. Os espinhos das rosas trazem o poder da subversão, da mudança, da reação. Trazem, também, o DNA da esperança. Os espinhos, na sua aparente rudeza, denotam a proteção das rosas. O que seria destas sem seus espinhos? O que seria de nós sem as rosas? 

MEQUETREFE



MEQUETREFE
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Neste país, ninguém gosta de ser mequetrefe. Nossa “cultura” espezinha, joga às traças e lança no mais absoluto ostracismo o sujeito mequetrefe. Por aqui, o dinheiro empodera o indivíduo. Quem não o tem, precisa – ao menos – fazer de conta que o possui. Tal jogo de aparências tem se mostrado essencial no acúmulo do capital, onde poucos ganham muito, enquanto a maioria... Bom, a maioria tenta fugir à pecha de mequetrefe. Na terrinha onde o malandro é tido por herói, pouco importa a real condição do sujeito (sujeito de quê?). O que vale é acompanhar as novas tendências e tornar público as últimas aquisições. Vende-se a alma pelo celular, iPod, videogame, par de sapatos, bolsa, etecetera e tal. Tudo, de preferência, no plural. Não basta “um” para dar conta de tamanho ego. Produz-se, assim, não apenas lixo e mais lixo industrial, mas também humano. Figuras movidas pela incontrolável necessidade de ter, possuir, parecer... Mesmo que, para tanto, comprometam meses, anos, do já parco orçamento doméstico. O mais irônico é que o vazio existencial tem se mostrado diretamente proporcional ao número de prestações a serem pagas. O que era encanto, vira desespero e sentimento de culpa. Para expiá-la, entra-se num pérfido ciclo vicioso, onde novas aquisições são feitas e, com elas, dívidas e mais dívidas contraídas. Burro sim, mequetrefe jamais. O temor de parecer mequetrefe, mesmo o sendo, é tão grande que tudo parece valer a pena. Inclusive o crime, a perfídia, o engodo, a apropriação indébita, a traição. O que é a tênue e hipotética sanção penal frente à óbvia e certa invisibilidade social? Ninguém gosta de ser mequetrefe. Salvo, é claro, em momentos ímpares, como aquele amplamente divulgado pelos mais diversos órgãos de imprensa, onde o próprio advogado de defesa de uma das rés alegou ser sua cliente uma personagem mequetrefe na engrenagem por hora apresentada. A ré deve ter se revolvido na cadeira. Mequetrefe? Antes a condenação do que o vergonhoso adjetivo. O que vale uma vida sem as aparências? A expressão do defensor deve ter calado fundo, doído no rim. A acusada deve ter desejado, naquele momento, a morte. Sim, dela e do advogado, pago, muito provavelmente, a peso de ouro. Não deve ter dormido naquela noite e, nem tampouco, nas seguintes. O que pensaria sua família, amigos, colegas, subalternos... O que diriam os outros? Mequetrefe. O termo, feito corvo a comer o fígado de Prometeu, deveria soar como cravo nas mãos (não de Cristo, posto que tal comparação seria por demais indigna...) do crucificado. Pior ainda era ver o vocábulo sair, a posteriori, da boca do insigne ministro do mais elevado Tribunal do país. Inteligente o magistrado. Feito instrumento de tortura medieval, a palavra deve ter produzido na ré lancinante dor. Mequetrefe. Preferiria ela ter sido, quiçá recebido um “culpada!”, “condenada!”, mas não “mequetrefe!”. A estratégia da defesa surtira resultado? Só o tempo o dirá. O certo, contudo, é que o termo “mequetrefe” saiu do rol das expressões obscuras e desconhecidas, passando a ser um sinal de esperança em dias melhores, dias em que os reais e nobres valores se sobreponham à enganosa cultura fundada nas aparências, nos “jeitinhos”, dias onde a honradez e a ética jamais cedam lugar aos caprichos individuais, dias em que mequetrefes sejam tão somente aqueles que olvidam o interesse verdadeiramente público e coletivo.   

quinta-feira, 25 de outubro de 2012



ZÉ LOUCO
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Era guri e o Zé Louco já perambulava pelas ruas e avenidas de Cachoeirinha. Figura folclórica, desafia o tempo, pois que este passa e o Zé parece não envelhecer. Segue tão maltrapilho quanto simpático. A Providência, sempre divina, não o abandona. Por ironia, vão-se os ricos, os doutores, os “coronéis”, as beatas da cidade, e o Zé Louco segue mais vivo do que nunca. Faça sol ou faça chuva, a figuraça transita pelas calçadas. Cata daqui, cata dali, vai driblando com maestria a dureza aparente que a vida lhe reservou. Apesar disso, é duvidar, lá está o Zé Louco a abrir o largo sorriso. Gargalhada solta, entremeada com os já conhecidos gritos e malcriações saídas daquela boca. Mesmo assim, a ninguém escandaliza e nem tampouco incomoda. Ao contrário. Mesmo os mais puritanos não ousam condená-lo. O que seria de Cachoeirinha sem o Zé Louco? Vão-se os vereadores, secretários, prefeitos... fique o Zé. Faz parte da história do Município. Ao lado da antiga ponte, do Mato do Julho, da Casa do Leite, da fazenda Ritter, ele faz lembrar um passado “romântico” da cidade. O Zé é, talvez a única, unanimidade. Era se candidatar, batata, estaria eleito! Por certo, as “forças ocultas” logo suscitariam a impugnação de seu nome. Não suportariam a enxurrada de votos e nem tampouco o tapa de luvas de pelica. Talvez o Zé Louco os incomode. Talvez represente, ainda, a mais genuína forma de personificação das profundas contradições e paradoxos criados e perpetuados em Cachoeirinha. Abandono, exclusão, indiferença... No fundo, o Zé é cada um de nós, os que trabalham, os que sentem frio, fome, os que se sentem abandonados e esquecidos, os sem vez e sem voz. É, quem sabe, uma figura subversiva. Subverte ao escancarar as mazelas que, feito cupim, corroem por dentro. As perfumarias, os penduricalhos, os históricos “ajeitamentos” levados a cabo por sucessivas administrações até que tentam esconder a fragilidade existente, mas não tem jeito. Ela aflora. Mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor intensidade, a maldita fragilidade aparece, sob a forma do tráfico, da violência, da prostituição infanto-juvenil, das enchentes, do colapso no trânsito, da precariedade das escolas, dos míseros tostões pagos aos servidores, da arbitrariedade do Estado, da carestia... Como cupim, as mazelas por vezes “agem” às escondidas, porém seguem corroendo. O Zé Louco, figura emblemática, ao rir, talvez o faça de nós. Quiçá, divirta-se com nossa insignificância, prepotência e arrogância. Ele, espero, nos perdoe pela flagrante incapacidade de enxergarmos pouco além do umbigo e muito aquém do necessário. O Zé é o espelho de Cachoeirinha, não daquela que cerra os próprios olhos frente às injustiças, mas da Cachoeirinha que trago nas lembranças de guri, simples, porém, romântica.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O PERFEITO IDIOTA



O PERFEITO IDIOTA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

                Sentia-se o perfeito idiota. Talvez, caso único em Tupiniquim, país com duas centenas de milhões de pessoas. Idiota, só ele. Todo o Tupiniquim parara para assistir o último capítulo da novela das nove. Ele não. Todos no país curtiam futebol e pulavam carnaval. O idiota, ao contrário, preferia manter-se longe de tamanhos prazeres. Enquanto ou outros tinham os nomes de artistas e personagens na ponta da língua, ele por sua vez não conseguia esconder sua mais absoluta e profunda alienação. Nas rodas de amigo, enquanto o assunto fluía – “viste quem matou Fulano?”, “e aquela bola, heim? Não entrou...” –, o idiota ficava lá, como que embasbacado, jogado a um canto. A memória do coitado era de dar dó. As pistas e charadinhas de nada adiantavam. “Sabe aquela que fez o papel de Beltrana na novela das duas, a mesma que era casada com o saradão da novela das sete, que por sinal era o vilão na das nove e dirigiu a novela das onze...”. Vã tentativa. O idiota, com cara de mais idiota ainda, deixava às claras seu desconhecimento acerca dos babados da hora. Lembrava do passado, dos presidentes, senadores, deputados, governadores, prefeitos, vereadores, dos conchavos e negociatas, dos escândalos políticos, das trocas de moeda, dos altos índices inflacionários e elevadas taxas de juros, da censura, dos atentados, dos indicadores econômicos, de algumas siglas (PIB, IDH, IDEB, IPC...). Contudo, acerca das novelas que saltavam da telinha, nada, absolutamente nada! Verdadeiro idiota. Conhecia gêneros musicais, falava fluentemente cinco idiomas, interpretava os mais diversos textos – herméticos que fossem –, escrevia com desenvoltura, mas mostrava-se incapaz de responder o nome da telenovela que passara há mais de década atrás e fora “remixada” (requentada, segundo o idiota!), com novos traseiros, seios mais avantajados (siliconados, acusava o pobre coitado!), e diálogos cada vez mais curtos, afinal que voltada a um público cada vez mais acurado intelectualmente. O idiota não conseguia entender como o antigo pudor sucumbira frente às cenas de sexo explícito em pleno horário nobre. Menos ainda, entendia ele, como que – feitos zumbis –, homens, mulheres, crianças e idosos se prostravam diante da tela, como que a lhe reverenciar. Entronizada, lá estava ela: de plasma, LCD, LED... Grande, muito grande, enorme... Não entendia o idiota que os tempos eram outros. Acreditava, inocentemente (todo idiota é inocente!), que a leitura, o bom vocabulário, o fino trato ainda teriam lugar neste mundo, nem que fosse em Tupiniquim. Não queria crer que a imagem de dois corpos a se esfregarem libidinosa e impudicamente em público, ou uma verborreia ofensiva, recheada de palavrões, pudessem tomar o lugar da poesia, do amor, do respeito... Perfeito idiota. Sujeito fora de seu tempo, descontextualizado, ultrapassado, alienado. Tupiniquim, em que pese à existência (resistência!) do idiota, precisava seguir adiante, no rumo do progresso e da modernidade.

Leia mais:
http://www.tribunadecachoeirinha.com.br/
(edição de 16 a 31 de outubro de 2012). 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

FUNDAMENTALISMO LEGISLATIVO



FUNDAMENTALISMO LEGISLATIVO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Inacreditável! Talvez seja a expressão que melhor resuma meu sentimento. Quiçá, possa ser substituída por outras, como “indignação”, “revolta”, “asco”... Enfim, muitos são os vocábulos que poderiam achar guarida neste singelo texto. Multiplicá-los de pouco adiantaria, pois que nada compreensíveis para maioria dos que legislam neste município. Assisti, estupefato, alguns vereadores de Cachoeirinha fazendo da tribuna verdadeiro púlpito da pior espécie. Irresponsavelmente, usando do nome de Deus para esquivar-se de práticas político-partidárias vergonhosas e mesquinhas. Defendiam-se (é o que alegavam...) das acusações do Gaúcho Ateu. Até então desconhecido por este autor, o rapaz de codinome estranho tem usado os meios eletrônicos para explicitar seu descontentamento com o Legislativo municipal. Apesar, talvez, de alguns excessos do Gaúcho, é inconcebível a fala de determinados homens públicos. Pautar a importância de alguém sobre o credo, ou quiçá a falta dele, é demasiadamente estúpido. Vincular o “grau” de cidadania a determinada placa de igreja denota falta de bom senso e verdadeiro atentado aos princípios mais elementares do ordenamento jurídico. Não se deve medir o sujeito a partir de sua crença ou ceticismo. Vale lembrar que a crítica do Gaúcho Ateu tem como nascedouro a indignação que move qualquer sujeito de bem, independentemente de seu matiz religioso. É, por certo, uma reação natural e necessária frente a um Legislativo historicamente marcado pelo despreparo, apadrinhamento, defesa de interesses espúrios, negociatas político-partidárias, distanciamento das ditas “bases”, opacidade, entre tantas outras mazelas. A sublevação do rapaz vem ao encontro da impaciência cada vez maior do contribuinte, que vê seus parcos recursos diminuírem em face de uma política tributária insana que serve, sobretudo, para manutenção de um Estado mastodôntico, incompetente, ineficaz e inoperante. A aparente deselegância do Gaúcho reflete a descrença nos Poderes constituídos. A Casa que deveria ser do Povo nunca o foi. A Câmara foi e segue sendo a Casa “deles”. As aves que lá gorjeiam não são as nossas. O rico mármore dos banheiros destoa da miséria de quem o paga. As confortáveis poltronas, quase sempre desocupadas, contrastam com a dureza que marca a vida da maioria dos munícipes. A população de Cachoeirinha segue desassistida, à margem dos serviços públicos de qualidade. Sobram discursos na Câmara, contudo a práxis segue a rotina modorrenta de todos conhecida. Partidos se prostituem. Hoje andam de mãos dadas, amanhã se acusam mutuamente. Poder estéril, onde a pobreza de oratória só é maior do que a pequenez de espírito. A Câmara, definitivamente, não é espaço para proselitismo. Ignorar tal premissa é olvidar a história. Soa como verdadeiro desrespeito aos princípios que nortearam a própria gênese do Estado democrático de Direito. Urge um profundo repensar acerca do Legislativo municipal, sob o risco do mesmo ser, cada vez mais, visto como supérfluo e desnecessário. Seja o pronunciamento do Gaúcho Ateu fermento não de discórdia ou animosidade religiosa, mas, sobretudo, de transformação. Cachoeirinha merece!

Leia mais:
https://www.facebook.com/JuventudEmAcao

terça-feira, 16 de outubro de 2012

PRESENTE !



PRESENTE!
Gilvan
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                Sempre ouvi dizer que o melhor amigo do homem é o cão. Tenho lá minhas dúvidas. Sempre presente, nos acompanha desde que nascemos. É duvidar, já se manifestava quando ainda estávamos no ventre e éramos não muito mais do que um embrião. Presente desde o raiar até o ocaso do sol. Manifestando-se na calada da madrugada, faça frio ou não. Sob os lençóis da mais fina seda ou coberto por acolchoados feitos de remendos, lá está ele, sempre presente. No banheiro, na cozinha, na sala, na varanda, enfim, em qualquer lugar. Mostra-se inseparável. Às vezes, discreto, outras nem tanto. Vez por outra, dá o ar – literalmente... – da graça nos locais mais impróprios. Na hora e local erradas. Para nós, é claro! Ele, ao contrário, é todinho indiferença. Todo lugar é lugar e toda hora é hora. Pouco liga para o que pensamos ou pensam sobre nós. Quer, isto sim, é espraiar-se. Azedo, doce ou agridoce, o fato é que sempre vem ao encontro de todos os gostos. Revela, ao menos em parte, o que somos. É a nossa “cara”. Traduz um tanto de nossa personalidade. Talvez, por isso, alguns preferem escondê-lo. Tentativa nem sempre recheada de sucesso... Aí sim a emenda fica pior do que o soneto. É, por vezes, aí que mostra toda sua força, verdadeiro turbilhão de sons e cheiros. Não adianta, lutar contra ele é tarefa por demais ingrata. Melhor é não resistir. Na pior das hipóteses, tentar negociar. Tipo assim... “liberdade com responsabilidade”. Soltá-lo aos poucos, a conta-gotas, sob a condição de não se tornar público. Até porque, jamais fica famoso. No máximo, “conhecido”. Daí os apelidos e alcunhas que alguns lhe atribuem: silencioso, zangado, preguiçoso e tantos outros. Podem acusá-lo de tudo, todavia não se pode negar sua originalidade. Pesquisassem, certamente identificariam nele uma espécie de DNA. Único, revelador dos traços de quem lhe tem. Diga-se de passagem, um relacionamento um tanto que avassalador, por vezes. Senhor e servo são, nessa relação, papéis que se confundem. Feito casamento. Quando menos se espera, lá se vai o antigo companheiro. Sem carta, aceno ou sequer uma olhadela para trás. Ele sai da “vida” (corpo) para entrar na história. Não incomum é, quando da despedida, nos deixar em maus lençóis. Escancara para meio mundo o fim da relação. Ficamos com cara de coitados. Não bastasse, ele ainda deixa marcas. Não eternas, é verdade, mas profundas o suficiente para demandar duas ou três de mãos, além de muito sabão em pó. Por outro lado, há de se dizer que ele instiga a discórdia, mas também a cumplicidade conjugal. Passada meia-dúzia de anos, ele corre solto entre o casal. Todo pudor fica de lado. A vergonha de outrora dá lugar a verdadeira explosão de flatulências das mais diversas. Multicoloridas, com ou sem “cheirinho”, etecetera e tal. O que antes era feito às escondidas, com o passar do tempo, assume tamanha naturalidade que a simples falta dele passa a ser visto com desconfiança. “Não me quer mais!”. O que é o anel preso ao dedo perto da aliança gerada por entre os odores que só o amor, a partilha e a confiança são capazes de produzir? Ele passa a ser visto como sinal de intimidade doméstica. Feito segredo de cofre ou senha bancária, é algo a ser dividido apenas e tão-somente entre os cônjuges. No máximo, também entre os filhos. Fora de casa, nem pensar. Vira escândalo. “Quem foi?”. Como sempre, ninguém se acusa. Todos desconfiam do cunhado, aquele mais gordinho, espremido no canto da sala. Ah, aquela cara séria a ninguém engana. É, de certo, só uma coisa: todos têm uma história de PUM para contar. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

ESPAÇO URBANO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO



ESPAÇO URBANO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Prof. Gilvan
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                O processo de urbanização como que hibernara por muito tempo. Para que se tenha ideia, no final do século XVIII, apenas 3% da população mundial vivia nos “centros urbanos”. Já no início do século XX, o percentual chegava a 14%. Para tamanho avanço, foi imprescindível a chamada Revolução Industrial, esta ocorrida principalmente entre meados dos séculos XVIII e XIX. Na década de 1950, aproximadamente 29% da população da Terra vivia nas cidades, enquanto hoje este número ultrapassa 50%. Estudiosos afirmam que em 2050, cerca de 70% das pessoas viverão nos centros urbanos. Apesar do flagrante crescimento da população urbana, vale lembrar que o processo tem se mostrado desigual e heterogêneo. Assim, por exemplo, enquanto na Europa cerca de 73% da população vive nas cidades, já na África o percentual é de pouco mais de 40%. Na América Latina e Caribe, quase 80% das pessoas vivem nos centros urbanos, enquanto na Ásia tão-somente 41% da população vive fora do campo. Resta clara, portanto a relação existente entre o processo de urbanização e crescimento econômico, crescimento este nem sempre seguido – na mesma proporção – de melhoria na qualidade de vida da população.

                Como poderíamos definir “processo de urbanização”? Este pode ser conceituado como a transformação dos espaços naturais e rurais em espaços urbanos, concomitantemente à transferência da população do campo em direção à cidade. Contudo, ao contrário do que possa parecer, na prática a definição do que seja “espaço urbano” nem sempre é tão simples. Alguns municípios brasileiros, por exemplo, superdimensionam o chamado perímetro urbano como forma de aumentarem a arrecadação.

                Sob o ponto de vista histórico, o processo de urbanização é uma fenômeno bastante recente. Na Idade Antiga, por exemplo, apesar da existência de algumas grandes civilizações (Mesopotâmia, Egito, Roma, etc.), mesmo elas possuíam características preponderantemente rurais. Na Idade Média, o poder do senhor feudal contrastava com a força relativamente inexpressiva do Rei, sendo aquele período marcado pela descentralização e agrarismo. Na Idade Moderna, finalmente começaram a surgir alguns centros urbanos mais expressivos, em especial na Europa. Contudo, foi na Idade Contemporânea (principalmente a partir da Revolução Industrial, como já dito) que o processo de urbanização se acentuou.

                Segundo alguns autores, o processo de urbanização deriva, principalmente, dos chamados fatores “atrativos” e “repulsivos”. Enquanto os primeiros diriam respeito especialmente aos países ditos desenvolvidos, os últimos estariam vinculados aos países subdesenvolvidos. Para tais autores, os fatores atrativos estariam relacionados à força centrípeta exercida pelas cidades em relação ao campo, como a oferta de empregos. Já os fatores repulsivos diriam respeito, por exemplo, aos inúmeros problemas que acabariam por “expulsar” o homem do campo em direção às cidades, como a concentração fundiária.

                Uma das características marcantes do processo de urbanização é o surgimento das chamadas “aglomerações urbanas”, também conhecidas como regiões metropolitanas. Estas são formadas pelo conjunto de cidades conurbadas. Merecem destaque, ainda, as megalópoles, ou seja, duas ou mais metrópoles ligadas por verdadeiros “corredores” de serviços, a tal ponto de passarem a impressão de serem uma coisa só. Apesar dos inegáveis avanços associados à expansão urbana, esta também traz seus, por assim dizer, “efeitos colaterais” como, por exemplo, a favelização de enormes parcelas da população, a precariedade dos serviços públicos, a agressão ao meio ambiente, entre outros.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

PARECE QUE FOI ONTEM



PARECE QUE FOI ONTEM
Gilvan
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                Ainda ontem era uma criança. Seis ou sete anos, talvez. Nascia o Parque Madepinho e, com ele, a concretização do sonho de muitas famílias como a minha, o sonho da casa própria! Morava na Rua “D”, número quarenta e cinco. Por vizinhos, gurizada como o Lísio (acho que o verdadeiro nome era Aloísio...) e o Ângelo. Tinha, ainda, a “casa da esquina”, uma das mais bonitas, onde íamos tomar banho de piscina nos dias quentes de verão. Tempos bons aqueles. Quem sabe, por serem tempos que ficaram para trás. A saudade é assim mesmo. Colore, por vezes, tempos idos que, no fundo, eram um tanto que opacos. A memória dos tempos de criança é como que graça divina. Mesmo as dores, privações e sofrimentos assumem com alguma frequência um ar de doce melancolia. Aquelas noites de São João, onde pulávamos a fogueira. O Bar do Ventura, com suas promoções de Páscoa. As brincadeiras de bexiguinha. Os passeios na Praça. Bons tempos... Ainda trago viva na memória a lembrança da época em estudei no São Francisco. Cinco anos. Meia década como aluno da Escola onde hoje trabalho. Lembro de alguns professores, das orações no início da manhã, do aperto de mãos estampado no uniforme, das Gincanas e caminhadas que movimentavam a região. Ainda ouço o minuano soprando no inverno, encarangando até os ossos, quando eu e meus irmãos andávamos o que parecia um eito para chegarmos até o São Chico. Por vezes, nas noites mais frias, dormíamos já uniformizados, sem que o Tonico, meu já falecido pai, e Dona Geci, soubessem, é claro. Foi assim que começou minha história de amor pela Escola. No decorrer dos cinco anos em que estudei no São Francisco, mudei do Madepinho para próximo ao Parque dos Maias. Coube a meu avô construir a casa. Era de madeira. Enquanto construía, por vezes, eu e alguns amigos brincávamos de carrinho de lomba. As rodinhas de rolimã iam na mesma velocidade de nossos sonhos. Não demorou, mudamos novamente. Agora para Cachoeirinha. Fui transferido de escola. O tempo passou, pois que não para e nem tampouco dá trégua. Cada um seguiu o próprio caminho. Eu e o São Chico. Crescemos ambos. A separação – feito dois eternos amantes compromissados por juras de amor – só fez aguçar, ainda mais, o respeito e admiração. Após formado, fui convidado por uma ex-colega de universidade a lecionar na Escola de minha infância. Iniciava-se uma nova década (1992). Com ela, um misto de tristeza e esperança. Meu pai sofrera um “derrame”, debilitando-o para o resto da vida. A dor aos poucos foi sendo superada com trabalho e o apoio de amigos e familiares. Entraram e saíram presidentes – alguns pela “porta” dos fundos –, governadores e prefeitos. Muitos foram os alunos que me deram a oportunidade de, com eles, aprender. Compartilhamos, juntos, muitas alegrias e algumas tristezas. Estas, por vezes, personificadas na perda de professores e alunos. Quantas Gincanas e campeonatos? Quantas caminhadas e festivais? Quantas missas e ações sociais? Quantos Conselhos de Classe e formações de professores? Quantos Retiros e encontros com a comunidade? Quantas entregas de boletins e confraternizações? Quantas Páscoas e Natais? Aulas? Inúmeras. Atendimento aos alunos e pais? Incontáveis. Vinte anos de São Francisco. Quase metade da linha de tempo da própria Escola. Nessas duas décadas, casei, nasceram meus três amados filhos, perdi meu pai, troquei de casa poucas vezes e de carro algumas... O que não mudou foi a convicção de que é através da educação que se constrói uma sociedade mais justa e fraterna. A certeza de que o processo ensino-aprendizagem requer, acima de tudo, amor. Sim, um amor fundado na paciência, mas na exigência. Um amor pautado no diálogo, mas no respeito à autoridade. Um amor alicerçado na liberdade, mas de mão dadas com os limites claros e necessários. Um amor voltado à paz, mas avesso à injustiça. Assim, o Jubileu da Rede de Escolas São Francisco é, para este humilde servo, um momento ímpar, pois que a história do velho São Chico está íntima e umbilicalmente ligada à minha própria história. Parabéns a todos nós!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

FAÇAMOS NÓS?



FAÇAMOS NÓS?
Gilvan
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                Onde está o Estado? Este foi concebido e aceito, ao menos pela maioria, como sendo a personificação de um pretenso “interesse coletivo”. Hobbes, no século XVII, já defendia a necessidade de um Estado capaz de frear a forte tendência do homem em buscar seus próprios interesses, mesmo que em detrimento do interesse da maioria. A partir da premissa de que o homem seria “lobo” do próprio homem, é que surgiu a mais famosa teoria do Estado, a do chamado “contrato social”, teoria esta – direta ou indiretamente, aberta ou sorrateiramente – ainda presente. No Brasil, é sabido, tivemos o surgimento de um Estado (aqui entendido como o ente público em todas suas esferas e manifestações) inicialmente associado a interesses de fora. Durante o período de colonização, em regra, as decisões tomadas nestas bandas vinham, num primeiro momento, ao encontro dos interesses da Coroa. A maioria da população brasileira – formada por negros, índios e mestiços, tendo em comum o fato de serem pobres – estava à margem de qualquer benesse oriundo do Estado português. A chamada “independência” (1822) pouco acrescentou à qualidade de vida da maioria. Esta seguiu alijada das condições mínimas de saúde, moradia, alimentação, renda ou educação, por exemplo. Poucos foram os reais beneficiados com a instalação do Império. Enquanto os grandes latifundiários e poderosos comerciantes aumentavam seu poderio econômico e político, a distribuição de renda seguia injusta e concentrada nas mãos de uma pequena oligarquia. O tempo passou e com ele veio a República (1889). Apesar das ideias aparentemente revolucionárias – oriundas, quase sempre, de uma burguesia europeia –, o Brasil permaneceu sendo a terra dos coronéis, cujas decisões políticas apenas corroboravam o já sedimentado poder econômico. A dita República Velha com seu maniqueísmo forjado na política do “café-com-leite”, a Era Vargas com seu populismo assentado num discurso flagrantemente paradoxal, a Ditadura Militar com seus excessos – injustificáveis, mesmo que diante de uma “esquerda” por vezes equivocada –, a Nova República com a subida ao poder das mesmas “figurinhas” do passado, o Brasil de hoje com sua letargia e paralisia a fazer prosperar o sentimento de indignação frente à omissão, impunidade, injustiça e exclusão. O que todas as fases de nossa história têm em comum? A incapacidade do Estado brasileiro em atender as reais demandas da maioria. Reforça-se o sentimento de que o Estado brasileiro é dispensável. Por que um Executivo mastodôntico? Um Executivo tomado de assalto por CCs, imprestáveis sob o ponto de vista do interesse público, só vistos quando a tremularem bandeirolas nos períodos de campanha eleitoral? Um Executivo que recomeça do zero a cada “nova” gestão, feito cachorro em torno de seu próprio rabo? Um Executivo partidarizado, pertencente a uma legenda? Um Executivo estrábico, sem olhar “certo”, confuso? Um Executivo sem noção do que seja política de Estado? Um Executivo que só trabalha movido pela proximidade do pleito ou quando pressionado pela mídia?

                Por que um Legislativo que legisla em causa própria? Um Legislativo apadrinhado a interesses espúrios? Um Legislativo formado, não raras vezes, por figuras que construíram suas candidaturas sobre frases de efeito, poder econômico ou caricaturas de palhaços? Um Legislativo que, na contramão da realidade de quem o paga, trabalha pouco e folga um eito? Um Legislativo inchado e recheado de privilégios? Um Legislativo que discursa para si e para as moscas? Um Legislativo que pouco ou nada produz, sequer textos legais que venham ao encontro dos interesses da coletividade? Um Legislativo que olha narcisicamente para si mesmo? Um Legislativo que se prostitui em meio à distribuição de parcos ou volumosos recursos públicos? Um Legislativo que se afunda em meio a uma sopa de letrinhas e legendas, numa verdadeira dança das cadeiras, incompreensível aos pobres mortais (nós contribuintes!)? Um Legislativo incapaz de ouvir os reclames da maioria, salvo quando potencializados pelos holofotes da TV os gritos dos mais humildes? Um Legislativo corporativista, verdadeiro campinho de históricos coronéis e caudilhos?

                Por que um Judiciário lerdo e moroso? Um Judiciário caro, de difícil acesso e quase impossível atendimento à demanda justa, especialmente se nascida em meio a mocambos e palafitas? Por que um Judiciário mais preocupado com frases em latim do que com a voz que nasce em meio aos mais pobres e necessitados? Por que um Judiciário movido por onerosos recursos e agravos, bancados em regra por quem pode pagá-los? Por que um Judiciário excessivamente formal e pedante, distante dos que sequer tiveram acesso às primeiras letras? Por que um Judiciário que solta o bandido e prende o trabalhador? Por que um Judiciário que corrobora a impressão de que o mundo é dos “espertos”? Por que um Judiciário que concede liberdade a homicidas, estupradores, sequestradores, assaltantes, tudo em nome ou de um bem pago habeas-corpus ou de um “garantismo” doentio e irresponsável? Por que um Judiciário que ao postergar suas decisões causa imensuráveis danos à sociedade? Por que um Judiciário atolado em processos que nascem da profunda insegurança jurídica que grassa por este país afora? Por que um Judiciário que não denota respeito e temor?

                Resta, portanto, a pergunta: por que Estado? Para quê? Para quem? Historicamente, no Brasil, o Estado tem sido um Saara de inépcia, lentidão, frouxidão, corrupção e incompetência. Fracassado e caro, muito caro! Um Estado que expropria o trabalhador através de uma política fiscal e tributária insana, irresponsável, injusta e desumana. Tudo, sob o olhar complacente e condescendente dos chamados “Poderes” constituídos. Nada mais natural e aceitável, portanto, do que perguntar: façamos nós o que o Estado não tem feito?

                Façamos nós? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os criminosos, delinquentes e meliantes prosperando em seus intentos? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os sequestradores, estupradores e violentadores levando nossos filhos e mulheres? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os ébrios e adeptos de rachas ceifando a vida de nossos entes queridos no trânsito? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os narcotraficantes transformando em zumbis imprestáveis nossos jovens? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam alguns se apropriando indevidamente dos recursos públicos? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam alguns fraudando licitações? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam algumas empresas fraudando o consumidor, lesando-o em seu bolso e sua saúde? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam alguns destruindo o meio ambiente em nome do lucro desmedido? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam as intermináveis filas nos hospitais e postos de saúde? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os desvios e malversação do dinheiro público, o mesmo que dizem faltar para a cultura e educação? Façamos justiça com as próprias mãos ou siga o deboche por parte da maioria dos partidos políticos em relação ao eleitor? Façamos justiça com as próprias mãos ou siga o descaso com a infraestrutura, estradas e saneamento básico? Façamos nós justiça com as próprias mãos?

                Apesar de aparentemente oportuna, fazer justiça com as próprias mãos parece não ser a melhor saída! Esta reside, isto sim, na refundação do Estado. Um Estado distinto daquele que era e continua sendo. O que se deseja é um Estado que seja, de fato, de Direito e democrático. Um Estado pautado, sobretudo, na justiça social, na equidade e no respeito à soberania popular. Um Estado que respeite e privilegie a sociedade civil organizada, um Estado que valorize a educação, a cultura, o lazer, a saúde e o esporte. Um Estado capaz de distribuir renda de forma efetiva, através da geração de trabalho, e não através de programas político-eleitoreiros. Um Estado que se mostre completa e absolutamente avesso à corrupção e ao crime de qualquer espécie. Um Estado que seja admirado, respeitado e temido por sua eficácia. Um Estado comprometido com os anseios dos mais humildes. Um Estado preocupado com as minorias, com as crianças e idosos. Um Estado fundado na democracia, na participação popular e na valorização e proteção da vida em toda sua complexidade. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

BOTECO



BOTECO
Gilvan
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                Casa cheia. Melhor, tomada de amigos! Estes enchiam os espaços com sua presença, alegria e descontração. Mais do que sorrisos, as risadas corriam soltas, livres como as palavras e os pensamentos. O Boteco da Rosinha fervilhava. O lusco-fusco dava charme ao lugar. Garrafas de todos os tipos e cores. Cerveja, cachaça, licor, batida, vinho... Verdadeiro manjar em homenagem a Baco. Mal dava tempo de respirar, logo vinham as “garçonetes” enfiadas em seus aventais escuros que, apesar de longos, denunciavam as perigosas curvas daqueles corpos. Corpos e copos. Copos e corpos. Mistura delicada, mas deliciosa. Feito a maçã do Éden. As frutas, por sinal, afogadas na aguardente de algumas daquelas garrafas, pareciam chamar pelo nome os “clientes” do Boteco. Feito sereias. A voz doce vinda do alambique enfeitiçava aquelas almas, masculinas ou não. Alma tem gênero? O velho telefone, posto ao canto da mesa, parecia querer falar. Há quanto tempo silenciara? Preterido pela concorrência desleal das novas tecnologias, o antigo aparelho mal cabia em seu insuperável charme, feito quarentão de cabelos grisalhos a encantar as mulheres. No prato, salgadinhos e tira-gosto de todo tipo. Quentinhos. Polenta, fritas, pasteis, cubinhos de queijo e de presunto... Novinhos, tenrinhos. A música corria solta. Ritmos dos mais diversos, para todos os gostos. Anos sessenta, setenta, oitenta... Sons contemporâneos convivendo pacificamente com os embalos de sábados passados. Aos poucos, o som mecânico ia sendo substituído pela voz dos mais corajosos. Afinados ou não, os adeptos do karaokê soltavam a garganta na mesma medida que sorviam a largos goles da farta bebida. Colados à parede, por todos os lados, frases de botequim. Curtas ou longas, rimadas ou não, os dizeres despertavam a atenção dos convivas. Inicialmente claros, à medida que as garrafas secavam, os cartazes ficavam turvos e as frases desconexas. As palavras pareciam saltitar, serelepes como que a dançarem em meio ao jogo de luz. Enquanto isso, a dona do Boteco, feito cigana, agitava o corpo de um lado para outro. A cintura parecia acompanhar a melodia, fazendo lembrar as ondas do mar, hora mansas, hora nervosas... O Boteco era só algazarra, doce agitação. Algumas crianças se divertiam próximo à mesa de sinuca, enquanto outras catavam as bolinhas de plástico coloridas que descansavam ao chão. Todos se divertiam. Até os ponteiros do relógio pareciam fazer festa ou, talvez, estivessem sob o efeito etílico que impregnava o ambiente. Como presentes, os corações iam se abrindo, um a um. Os mais resistentes até que tentavam se esquivar por entre as folhas de papel. Vã tentativa. O Velho Barreiro, em toda sua boêmia sabedoria, não poupava ninguém, por mais duro que fosse. A dona do Boteco era toda sorriso. Momento impar aquele em que completava mais uma primavera. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ALGUÉM VIU A LEITURA?



ALGUÉM VIU A LEITURA?
Gilvan
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                Há muito que sumida, alguém viu a leitura? Quiçá perdida por aí, sem eira e nem beira. Jogada sobre algum banco de praça, coberta por jornais dormidos. Esquecida e faminta, a perambular pelas ruas e vielas úmidas e escuras. Maltrapilha, mal cheirosa e descalça. Dela, a maioria quer distância. Por ela se passa de largo, sequer merecendo um breve olhar piedoso ou um singelo aceno. Nada. Total e absoluta indiferença. Logo ela que, noutros tempos, era companheira inseparável dos doutores e letrados. Antes, sinônimo de deferência e respeito. Agora, associada a um passado longínquo, empoeirado e insosso. Noutros tempos, amada e desejada. Hoje, jogada às traças e tripudiada. A antiga altivez deu lugar ao olhar cabisbaixo, enquanto os holofotes foram substituídos pela penumbra das prateleiras há muito não visitadas. Antes, o brilho. Agora, sequer motivo de um elogio ou de um afago. Bons tempos aqueles em que era levada para cama, a dormir junto a príncipes, princesas e até mesmo plebeus. Os lençóis de seda deram lugar à aspereza das caixas de papelão, quando não às chamas de uma fogueira improvisada. Foi-se o tempo em que era o centro das atenções. Hoje, violentada, desrespeitada e agredida. Já não lhe chamam pelo nome, quando muito pelo apelido. Comum mesmo é lhe podarem letras, sílabas, palavras e até frases inteiras. O zelo pela boa escrita, matéria-prima de uma prazerosa leitura, há muito foi abandonada. Hoje pouco se escreve, quando muito se balbucia. Encurta-se não apenas vocábulos, mas sonhos. Por onde anda a leitura? Saudades do tempo em que dava asas à imaginação. Tempo em que excitava os sentidos, só abandonada quando vencida pelo sono. Tempo em que afazeres outros eram preteridos em seu favor. Saudades do tempo em que unia gerações, aproximava pessoas. Ah, bons tempos aqueles em que o pequerrucho se aninhava junto ao corpo do pai ou da mãe para ouvir histórias. Contos que pareciam brotar daquelas páginas coloridas realçadas pela voz doce de quem os narrava. Alguém viu a leitura? É duvidar, está por aí brincando de pega-pega ou jogando bolita com o peão, a peteca e o bambolê. Saudades do papel, de seu cheiro e densidade. Insuperável é o prazer que nasce ao virar cada página. A expectativa do porvir, a curiosidade acerca do destino de cada personagem. Uma trama envolvente é como sexo da melhor qualidade, indescritível... Só lendo para saber. Por onde anda a leitura? Antes, arauto de novidades, descobertas e invenções. Verdadeira depositária de tradições milenares reveladas através de mitos, contos, parábolas, romances, poesias, notas musicais... Às vezes mais, às vezes menos complexas. Simples ou herméticas, era capaz de encantar, fazer sorrir ou chorar. Leitura, onde estás? Não imaginas a falta que fazes. Por mais que se tente achar quem te substitua, te mostras imprescindível. Saudade arrebatadora, dor desesperadora. Procura-se a leitura. Há muito que sumida, alguém a viu? 

Leia mais:
http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=artigos_interna&id=18285

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO: O PODER DO VÍNCULO



EDUCAÇÃO: O PODER DO VÍNCULO
Prof. Gilvan
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                A escola de hoje é um deserto. Nela, salvo uma ou outra exceção, prospera a aridez nas relações. O afeto é arredio e o carinho apenas vez por outra se faz presente. Reluta-se em dar um abraço e vende-se caro um elogio, mesmo que singelo. O afeto há muito virou título empoeirado nas estantes das parcas bibliotecas. O semblante amarrado do professor, feito carranca às avessas, espanta não apenas os bons espíritos (pois que os maus permanecem e se multiplicam...), mas também as crianças. A crise é de tal monta que a até a “sala dos professores” mais parece uma trincheira de guerra. Do lado de cá os professores, enquanto do outro, legiões inimigas formadas por hordas de crianças e adolescentes sedentos pelo sangue docente. O recreio, ao invés de momento de integração e de encontro entre os mestres e seus pupilos, há muito é tido como efêmero refúgio de corpos aniquilados pelo cansaço do corpo e da alma. É, ainda, espaço de escambo, comércio e fofoca, muita fofoca. Fala-se e vende-se de tudo. Lingeries de todas as cores, formas e tamanhos. Compotas, perfumes e até mesmo pacotes de viagem. A criatividade só é menor do que a necessidade de compensar os aviltantes números a preencherem os contracheques. Aproveita-se, ainda – e quando o tempo o permite – para traçar algumas estratégias para a próxima batalha, pois que toda aula mais parece um campo de luta. Conselhos não faltam: “manda para Direção”; “suspende”; “chama os pais”; “faz ata”; “manda embora”; “chama a patrulha escolar ou o Conselho Tutelar”, etecetera e tal. No canto, não é incomum, uma professora a soluçar e reclamar da sorte. Onde fora se meter! Maldita a hora que resolvera ser professora. É duvidar, sai direto dali para o RH. A mesma ameaça de ontem, de anteontem, do ano passado... Amanhã, por certo, estará ali, naquela mesma sala, afagando ou sendo afagada. Em nome de uma missão que não acredita, segue ela em sua vida modorrenta. Não vê a hora das férias ou do próximo feriado. Ah, de preferência prolongado. Por entre pacotes de biscoito Maria e copos sujos de café, folhas e mais folhas. Ditado, Redação, “Pesquisa”, contas intermináveis de toda espécie. Um monte de letras e símbolos vazios. Cópias destituídas de qualquer significado. Certeza, uma só: mais trabalho para o fim de semana! Triste sina. Espera-se a aposentadoria e, de preferência bem depois, a morte. É como se as cortinas do teatro da vida baixassem antes do grand finale, deixando o espectador confuso, quando não decepcionado ou irritado por sentir-se lesado. A escola, hoje, é o verdadeiro quadro da dor. Inferno dantesco, tomado de lamúrias e queixas. Solução? Existe sim. Ela passa, necessária e obrigatoriamente, pela construção de vínculos. Vínculos entre docentes e comunidade, entre professores e seus pares, entre mestres e seus alunos. Principalmente estes últimos! O exercício do magistério não exige vocação. Requer, isto sim, profissionalismo e amor. O educador deve ter amor por ele mesmo, pelos colegas, pelos alunos e pela comunidade onde atua. Tentar educar sem amor é tarefa fadada ao fracasso. O professor deve apaixonar-se por seu papel. Encantar-se pelo outro. Acreditar no ser humano. Esperar que o educando seja capaz de aprender. Apostar no sucesso do aluno. A formação de vínculos fundados no amor é pressuposto para uma boa aprendizagem, além de um poderoso antídoto no combate à indisciplina escolar. A construção do vínculo requer respeito, alteridade, honestidade, verdade, coerência, convicção, limite, cobrança, sanção. O verdadeiro vínculo confunde-se com o amor exigente. Andam juntos, imbricam-se, fundem-se. A formação do vínculo exige um olhar viajante do educador. Este precisa ser um decifrador de almas. O professor que adentra no coração do educando dá imensurável passo no processo ensino-aprendizagem. Entra, mas não invade. Quem educa acaba por se tornar cúmplice de quem aprende. Condescendência profícua, necessária e bem-vinda. Ambos, educador e educando, crescem e se fortalecem. Constituem-se como sujeitos, diferentes mas interdependentes. Indispensáveis um para o outro. A necessária e salutar hierarquia supera a tirania, seja do aluno, seja do professor. A verticalização passa a não mais denotar repressão, mas libertação. As idiossincrasias e distinção de papéis deixam de ser empecilho e passam a ser matéria-prima para o crescimento de todos. A escola precisa ser um espaço privilegiado para formação, resgate e aprofundamento dos vínculos. O educador deve ser, acima de tudo, um pescador de almas, pois que só a partir do amor e de seus frutos é que se dá uma aprendizagem prazerosa, significativa e duradoura.  

FOI NO VINTE DE SETEMBRO?



FOI NO VINTE DE SETEMBRO?
Prof. Gilvan
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                Gaúcho que sou, não há como negar que, vez por outra, me deixo levar por aquele sentimento bairrista, vislumbrando um Rio Grande independente. Acompanhando tal sentimento, certa dose de prepotência frente aos demais estados federados. É como se não compartilhasse com eles dos mesmos ideais, sonhos e dissabores. Tamanha indiferença diante do infortúnio alheio, se por um lado, marca certa autonomia destas terras, por outro dificulta qualquer tentativa de se buscar, em conjunto com as demais “estrelas” desta constelação chamada Brasil, saídas efetivas para os históricos e crassos problemas que afligem a esmagadora (esmagada!) maioria dos brasileiros.

                O sentimento nativista deve ser cultivado por cada gaúcho e cada gaúcha. O resgate da história e o respeito às tradições são como chamas a serem mantidas acesas, pois que servem de farol em meio a um mar cada vez mais tenebroso, um mundo que – em nome do deus mercado – homogeniza gostos e costumes. Os tempos ditos pós-modernos (?) contribuem para o descarte de todos e de tudo, inclusive das culturas outrora consideradas sólidas, forjadas ao longo de muitas gerações.

                A chamada Revolução Farroupilha (1835-1845) pode ser vista a partir de vários ângulos. Foi um movimento elitista ao trazer para o centro das discussões, principalmente, os interesses dos estancieiros gaúchos prejudicados pela política econômica do governo central em relação, por exemplo, ao charque. Por outro lado, o movimento farrapo contribuiu para escancarar algumas contradições do Império, entre elas a escravidão. Muitos negros passaram a ver a Revolução como meio de romper com a organização social até então reinante. Como todo o movimento de grandes proporções, a Revolução Farroupilha por certo fugiu de seus objetivos inicialmente traçados.

                O Vinte de Setembro – presente no hino de nosso estado – deve ser reverenciado pelo simbolismo que representa. Deseja-se que os ideais da fugaz República Rio-Grandense – em tempo idos, largamente defendidos (ao menos na oratória) pelos revoltosos – superem os parcos limites do mero discurso. Ora, que a igualdade de oportunidades possa ser geradora de melhor distribuição de renda. O paternalismo e assistencialismo doentios, de fundo politiqueiro, devem ser enterrados. Os males por eles provocados são inúmeros. São frutos de uma política equivocada assentada em práticas coronelistas que transformam zonas eleitorais em verdadeiros currais de votos direcionados. Deseja-se que a fraternidade nasça das relações interpessoais sadias, fundadas na ética e no compromisso com o coletivo. Sonha-se com uma verdadeira liberdade, alicerçada numa “paz social” e alinhada à justiça. Sim, uma liberdade que não deite à cama com o poder econômico, a impunidade, a omissão, o descaso ou a indiferença.

                Assim, no fundo, a verdadeira Revolução – enquanto transformação das perversas estruturas sociais, políticas e econômicas – não “foi”, jamais aconteceu. Contudo, ela pode “ser”. Depende de cada gaúcho e de cada gaúcha. Depende de cada brasileiro, gaudério ou não, apreciador da erva-mate ou do tereré, torcedor da dupla grenal ou do Bragantino, adepto da bombacha ou da roupa típica do Sertão, comedor de churrasco ou simpático ao peixe extraído do Solimões. Sirva o Vinte de Setembro para reflexão crítica e, acima de tudo, para tomada de posição. Estes páreos, mais do que ximangos ou maragatos, precisam sobretudo de verdadeiros cidadãos! Boa Semana Farroupilha a todos!

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

DIRETRIZES: FOCO NA APRENDIZAGEM



DIRETRIZES: FOCO NA APRENDIZAGEM
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                As chamadas Diretrizes para o Ensino Fundamental de Nove Anos[1] construída ao longo de anos e consolidada na Resolução CME No 015/2012, representa um importante avanço no que tange ao olhar que se lança sobre a aprendizagem. Esta – e não a mera aprovação ou reprovação – passa a ser o centro das atenções. Parte-se da ideia de que todos aprendem, embora de formas e em tempos diferentes. O que deve merecer destaque não é a terminologia atribuída à nova organização curricular: módulos de aprendizagem. O que deve pautar a discussão e reflexão são os paradigmas existentes por detrás da iniciativa. A coletividade, representada pelo Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha, buscou acima de tudo garantir maior tempo tanto ao educando, para que o mesmo aprenda, quanto ao educador, para que este ensine. A Organização Modular busca, ainda, fomentar maior planejamento por parte dos professores, pois que passam a ser “solidários” uns para com os outros em relação ao processo ensino-aprendizagem. Na prática, isso significa que os educadores dos anos seguintes (finais, por exemplo) terão de sentar com os colegas dos anos anteriores, pois responderão solidariamente pela aprendizagem, ou não, do educando. Sepulta-se o trabalho pautado no individualismo, onde cada qual ficava no seu “quadrado”. Enquanto os educadores se digladiavam, jogando uns sobre os outros a culpa da não-aprendizagem da criança/adolescente, o educando ficava à mercê de sua sorte ou, o que era pior, acabava por se transformar no “vilão” de seu próprio infortúnio.

                A primeira grande mudança trazida pela Organização Modular de Aprendizagem diz respeito ao “tempo”. Este foi redimensionado. Antes, o educando tinha tão somente um ano letivo (na prática, cerca de nove meses...) para dar conta de aprender os conteúdos mínimos previstos no famigerado Plano de Estudos. O que para alguns alunos era tranquilo, para outros era fator de desespero e, por consequência, de fracasso escolar (reprovação). A nova Organização aumenta o tempo para 03 (três) anos, para que o aluno seja melhor trabalhado, para que seja utilizado o maior número possível de estratégias de aprendizagem voltadas ao sucesso de fato do educando. Mais do que uma questão de “Direito” (respaldado na Constituição Federal e em diversos outros diplomas legais), é uma questão de ética e de dignidade da pessoa humana. A escola só faz sentido se for capaz de ensinar. Assim como é inadmissível que o paciente seja dispensado pelo hospital antes de resolvido seu problema de saúde, da mesma forma é inadmissível que o educando seja “dispensado” (a reprovação por certo exclui...) da escola sem que aprenda. A reprovação escolar deve ser vista e comparada com a morte, portanto uma exceção, possível de acontecer, mas tratada como luto, eivada de tristeza e sentimento de perda. Infelizmente, contudo, não é o que se vê. Os índices de reprovação, especialmente nas escolas públicas (por quê?), só são menores do que a modorra que se mistura à omissão, passividade e indiferença. Reprova-se com naturalidade e quase desenvoltura. Levas e mais levas de educandos veem o futuro ser enterrado envolto às folhas de provas não raras vezes mal elaboradas e que nada atestam senão a incapacidade do professor e da escola de encontrarem saídas que promovam a aprendizagem.

                Outra importante mudança diz respeito à reprovação em si. Esta “só” poderá ocorrer ao final de cada módulo (três anos). Assim, por exemplo, o aluno que ingressa no 1o ano do Ensino Fundamental não poderá ser reprovado antes que alcance o 3o ano. Somente ao final deste último ano do módulo é que – caso se faça comprovadamente necessário – o educando poderá ser retido. Resta clara, portanto, a intenção do Conselho Municipal de Educação em lançar uma verdadeira e profunda mudança de paradigma e não simplesmente criar estratégias voltadas à redução dos índices de reprovação. Busca-se deslocar o foco da mera questão da “aprovação/reprovação” para uma outra, a da “aprendizagem”.

                As Diretrizes Municipais para o Ensino Fundamental de Nove Anos instigam as mudanças que há muito se fazem necessárias. Urge maior planejamento e estreitamento da comunicação entre todos os que respondem pelo processo ensino-aprendizagem, de forma especial, o corpo docente. O que se vê é uma enorme distância entre o espírito trazido na legislação hodierna e o cotidiano das instituições de ensino. Apesar dos avanços legais atinentes à tão decantada “gestão democrática” (seguida da descentralização financeira, do surgimento e fortalecimento dos Conselhos Escolares, etc.), a escola segue – salvo raras e louváveis exceções – com a mesma prática do mais longínquo passado. A comunidade só é lembrada e chamada à participação em situações excepcionalíssimas. Via de regra, os membros dos ditos “Conselhos” não passam de meros espectadores ou, o que não deixa de ser pior, espécie de “extensão” da Direção, incapazes de fazerem o contraponto indispensável à reflexão crítica, esta última matéria-prima das mudanças tão necessárias no âmbito da escola. Leva-se para dentro das instituições de ensino as mesmas práticas e vícios de seu entorno. Tem sido por demais comum a “partidarização” das relações intramuros. Negociatas, troca de favores, privilégios, confusão entre público e privado e toda espécie de mesquinhez tão criticadas em relação à política partidária neste município, estado e país, acabam por se fazer presentes também na esfera da escola. Portanto, não causa estranheza o preocupante afastamento da comunidade em relação às instituições de ensino. O “esvaziamento” e constante “rodízio” entre os componentes dos Conselhos Escolares são meros sintomas das práticas equivocadas levadas a cabo pelas escolas.

                A Resolução que trata das Diretrizes reforça a necessidade, portanto, do planejamento. A escola deve garantir o tempo e espaço necessários para que, por exemplo, o corpo docente estude, debata, avalie, construa de forma coletiva. Reuniões entre professores do mesmo módulo e de módulos distintos têm que ser uma constante. As questões pedagógicas devem se sobrepor às administrativas e o tempo disponibilizado ao planejamento do grupo deve se sobrepor ao individual. Portanto, há de se repensar sim questões como a da “hora atividade”. Esta não deve ser vista ou confundida com “folga”. O planejamento deve se dar é na escola, não em casa. Esta é local de descanso, enquanto a instituição de ensino é espaço para o trabalho e exercício responsável da função para a qual o servidor é remunerado. Mister é que as reuniões envolvendo o corpo docente sejam orientadas e acompanhadas pela Supervisão Escolar. Para tanto, indispensável é que os supervisores se qualifiquem e se instrumentalizem. O estudo e a pesquisa devem ser uma constante. O grupo docente deve ser instigado a falar, se posicionar e se comprometer. Exige-se resultados. Trabalho sem resultado é estéril, de nada vale. Os resultados devem, portanto, aparecer sob diversas formas: diminuição da infrequência e da evasão; diminuição da indisciplina; melhoria na aprendizagem; maior participação da comunidade; melhoria na saúde do profissional da educação com a consequente diminuição das faltas laborais; etc.

                As Diretrizes Municipais para o Ensino de Nove Anos – como já dito – busca realocar os holofotes, posicionando-os sobre a questão da aprendizagem. Por óbvio, não se quer olvidar a importância da questão aprovação/reprovação. Esta precisa sim ser discutida, contudo à luz de outros paradigmas que não aqueles que até então vêm ocupando a atenção. A reprovação precisa ser vista, primeiro, como uma exceção. Tratada como uma “anomalia”, portanto algo passível de despertar inúmeros cuidados para que não se repita. Infelizmente, não são poucos os professores que a usam como “instrumento” de pressão e de “pseudo-controle” contra a indisciplina escolar. Acreditam alguns que a ameaça de eventual reprovação sirva de estímulo para a melhoria do comportamento dos educandos e maior comprometimento da família. Triste engano. A experiência tem mostrado que seja a reprovação, seja sua “simples” ameaça, não traz os resultados pretendidos. Como toda punição ou como toda ameaça, ao ser banalizada (e hoje a reprovação é algo “banal”!), por certo não produz os efeitos desejados. Ao contrário, só faz desgastar e fragilizar as relações de afeto. Ora, a indisciplina escolar, por exemplo, precisa ser atacada, mas não através da reprovação. A indisciplina precisa ser entendida, compreendida em suas causas. Quando, onde, com quem ocorre? A quebra dos chamados princípios de convivência deve ser encarada como um problema a ser resolvido. Reprovar o educando significa atacar a pessoa do “agressor” e não sua conduta. Ora, é esta última que precisa ser combatida e banida! O aluno indisciplinado precisa ser cobrado e responsabilizado, mas acima de tudo ensinado (por isso está na escola...) e amado, respeitado como sujeito de direitos. O combate efetivo à indisciplina escolar passa por uma série de iniciativas. Deve haver clareza e publicização dos princípios de convivência. As regras estabelecidas (é bom que algumas delas sejam construídas) precisam ser pertinentes, coerentes e justas. É fundamental que se diminua significativamente a distância entre o discurso e a prática docentes (o professor deve cobrar pontualidade, mas ser pontual; deve exigir organização dos alunos, mas estar com seus cadernos de chamada em dia; pedir concentração dos educandos, mas mostrar-se mais atento e menos “tagarela” nas reuniões e encontros de formação...). A família precisa ser comunicada e, se necessário, chamada quando diante de atos de indisciplina. Não se fazendo presente, mister é que seja responsabilizada. As instituições de ensino precisam otimizar seus recursos, usar de suporte tecnológico no combate à indisciplina. Indispensável, ainda, é que haja o cuidado com os registros envolvendo alunos indisciplinados. Enfim, como se vê, muitas são as alternativas e caminhos para que a escola supere ou, ao menos, mitigue o problema da indisciplina, sem que lance mão da reprovação.

                A Resolução exarada pelo Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha, ao trazer a necessidade da aprendizagem para o centro das atenções, reafirma algumas certezas. Uma delas é a que diz respeito ao papel do ente público (representado pela Secretaria Municipal de Educação - SMEd) no processo de melhoria da qualidade do ensino, pressuposto indispensável a real e verdadeira aprendizagem. Primeiro, cabe à mantenedora criar mecanismos que contribuam para a assimilação do conteúdo trazido pela norma. As Equipes Diretivas (articuladas e auxiliadas pela Assessoria Pedagógica da SMEd) devem servir de “multiplicadores”, instigando os docentes em suas respectivas unidades de ensino a também se apropriarem das Diretrizes, em que pese o adiantado da hora. O momento, agora, já não é o da construção da norma, mas de sua operacionalização. O que fazer? Como fazer? Eis aí as perguntas e questionamentos a serem feitos. Apesar das eventuais críticas que venham a surgir – naturais, por sinal –, por parte da comunidade escolar (especialmente de alguns professores), cabe à Equipe Diretiva criar as condições necessárias para que as Diretrizes saiam do papel. As Propostas Político-Pedagógicas precisam ser construídas tendo por pano de fundo o regramento trazido pela Resolução.

                Ao Poder Público cabe, ainda, criar e garantir as condições físicas, estruturais e de recursos humanos necessárias à consecução da norma. O sucesso da empreitada passa necessária e obrigatoriamente pela qualificação profissional, pela melhoria e ampliação de alguns espaços junto às escolas, pela parceria da SMEd com outras Secretarias, pelo suporte financeiro e técnico às instituições de ensino, pela formação continuada, pela valorização salarial, pela presença constante da Assessoria junto às escolas, pelo diálogo permanente com as entidades de classe (SIMCA), pela oitiva da comunidade, entre outros. O momento requer soma de esforços e convicção em relação às decisões trazidas pela Resolução. Não se pode, agora, titubear. Exige-se compromisso, responsabilidade, profissionalismo e o trabalho de todos. O aluno merece!


[1] O texto é de inteira responsabilidade do autor, portanto não refletindo necessariamente a posição do Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha. 

domingo, 2 de setembro de 2012

O VERDADEIRO GRITO DO IPIRANGA



O VERDADEIRO GRITO DO IPIRANGA
Prof. Gilvan
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                A cada semana da pátria é a mesma coisa. Vai-se de um extremo a outro. Discursos ufanistas de um lado, de outro, posições que menosprezam o passado em nome de um “esquerdismo” doentio e irresponsável. Nem oito, nem oitenta. Resgatar o passado, mesmo que inglório, é necessário, pois que dele podemos e devemos tirar lições. O pretérito ajuda na compreensão do presente. Este, por sua vez, é o passado do amanhã. O que somos hoje, em parte é produto do que fizeram nossos pais. Nossos filhos, da mesma forma, colherão muitos dos frutos – bons ou ruins – que hoje plantamos.

                A verdadeira independência de um país não é a que se ganha ou se compra nas prateleiras da história. A verdadeira independência não é a que nasce de um gesto, de um grito ou de um tratado de cor amarelada corroído pelas traças e pelo tempo. A verdadeira independência não é a que é “dada” pelos ditos heróis e mártires. Não é, menos ainda, a que se resume a frases de efeito em meio às cores de uma bandeira. A verdadeira independência é aquela que se constrói nas ações individuais e coletivas. É aquela que vai se constituindo no dia a dia. A verdadeira independência nasce e se consolida nas relações que entre nós se estabelecem. Num movimento dialético, germina e retorna sob distintas formas: honestidade, solidariedade, lealdade, ética, senso de justiça, alteridade, respeito, responsabilidade, compromisso com o coletivo. Sim, “independência” pensada e vivida sozinha não é verdadeira, não é altruísmo. É, isto sim, egoísmo.

                A verdadeira independência é aquela capaz de gerar paz social, segurança, trabalho e renda, educação, moradia, saúde, enfim... qualidade de vida. A independência que, de fato, precisamos não é a do tipo veiculado em livros e revistas, mas aquela que propicia dignidade à criança, ao jovem, ao homem, à mulher, ao idoso, a todos, independentemente do credo, etnia, opção política ou ideológica. A independência que se deseja é aquela capaz de transformar as estruturas da educação, da saúde, da segurança pública, do transporte coletivo. É aquela com o poder de separar o joio do trigo. A verdadeira independência é a que não se prostitui em meio à lama da corrupção, não é objeto de comércio e de negociatas. É a que gera cidadãos de fato, não meros personagens fictícios descritos nos diplomas legais. A independência sonhada é a que promove distribuição de renda e igualdade de oportunidades.

                A semana da pátria é um – apenas mais um – bom momento para reflexão acerca do Brasil que se tem e o país que se quer. A superação dos inúmeros e graves problemas políticos, econômicos e sociais passa necessariamente, também, pela escola e pela família. A esta cabe, por exemplo, criar e sedimentar valores, pautando-se num amor exigente. À escola, por sua vez, cabe ser um espaço privilegiado de construção do conhecimento e da cidadania, onde não apenas as ditas “ciências” sejam assimiladas, mas também os princípios que norteiam uma sociedade verdadeiramente independente.


Setembro de 2012.