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terça-feira, 9 de outubro de 2012

ESPAÇO URBANO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO



ESPAÇO URBANO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O processo de urbanização como que hibernara por muito tempo. Para que se tenha ideia, no final do século XVIII, apenas 3% da população mundial vivia nos “centros urbanos”. Já no início do século XX, o percentual chegava a 14%. Para tamanho avanço, foi imprescindível a chamada Revolução Industrial, esta ocorrida principalmente entre meados dos séculos XVIII e XIX. Na década de 1950, aproximadamente 29% da população da Terra vivia nas cidades, enquanto hoje este número ultrapassa 50%. Estudiosos afirmam que em 2050, cerca de 70% das pessoas viverão nos centros urbanos. Apesar do flagrante crescimento da população urbana, vale lembrar que o processo tem se mostrado desigual e heterogêneo. Assim, por exemplo, enquanto na Europa cerca de 73% da população vive nas cidades, já na África o percentual é de pouco mais de 40%. Na América Latina e Caribe, quase 80% das pessoas vivem nos centros urbanos, enquanto na Ásia tão-somente 41% da população vive fora do campo. Resta clara, portanto a relação existente entre o processo de urbanização e crescimento econômico, crescimento este nem sempre seguido – na mesma proporção – de melhoria na qualidade de vida da população.

                Como poderíamos definir “processo de urbanização”? Este pode ser conceituado como a transformação dos espaços naturais e rurais em espaços urbanos, concomitantemente à transferência da população do campo em direção à cidade. Contudo, ao contrário do que possa parecer, na prática a definição do que seja “espaço urbano” nem sempre é tão simples. Alguns municípios brasileiros, por exemplo, superdimensionam o chamado perímetro urbano como forma de aumentarem a arrecadação.

                Sob o ponto de vista histórico, o processo de urbanização é uma fenômeno bastante recente. Na Idade Antiga, por exemplo, apesar da existência de algumas grandes civilizações (Mesopotâmia, Egito, Roma, etc.), mesmo elas possuíam características preponderantemente rurais. Na Idade Média, o poder do senhor feudal contrastava com a força relativamente inexpressiva do Rei, sendo aquele período marcado pela descentralização e agrarismo. Na Idade Moderna, finalmente começaram a surgir alguns centros urbanos mais expressivos, em especial na Europa. Contudo, foi na Idade Contemporânea (principalmente a partir da Revolução Industrial, como já dito) que o processo de urbanização se acentuou.

                Segundo alguns autores, o processo de urbanização deriva, principalmente, dos chamados fatores “atrativos” e “repulsivos”. Enquanto os primeiros diriam respeito especialmente aos países ditos desenvolvidos, os últimos estariam vinculados aos países subdesenvolvidos. Para tais autores, os fatores atrativos estariam relacionados à força centrípeta exercida pelas cidades em relação ao campo, como a oferta de empregos. Já os fatores repulsivos diriam respeito, por exemplo, aos inúmeros problemas que acabariam por “expulsar” o homem do campo em direção às cidades, como a concentração fundiária.

                Uma das características marcantes do processo de urbanização é o surgimento das chamadas “aglomerações urbanas”, também conhecidas como regiões metropolitanas. Estas são formadas pelo conjunto de cidades conurbadas. Merecem destaque, ainda, as megalópoles, ou seja, duas ou mais metrópoles ligadas por verdadeiros “corredores” de serviços, a tal ponto de passarem a impressão de serem uma coisa só. Apesar dos inegáveis avanços associados à expansão urbana, esta também traz seus, por assim dizer, “efeitos colaterais” como, por exemplo, a favelização de enormes parcelas da população, a precariedade dos serviços públicos, a agressão ao meio ambiente, entre outros.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

PARECE QUE FOI ONTEM



PARECE QUE FOI ONTEM
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com

                Ainda ontem era uma criança. Seis ou sete anos, talvez. Nascia o Parque Madepinho e, com ele, a concretização do sonho de muitas famílias como a minha, o sonho da casa própria! Morava na Rua “D”, número quarenta e cinco. Por vizinhos, gurizada como o Lísio (acho que o verdadeiro nome era Aloísio...) e o Ângelo. Tinha, ainda, a “casa da esquina”, uma das mais bonitas, onde íamos tomar banho de piscina nos dias quentes de verão. Tempos bons aqueles. Quem sabe, por serem tempos que ficaram para trás. A saudade é assim mesmo. Colore, por vezes, tempos idos que, no fundo, eram um tanto que opacos. A memória dos tempos de criança é como que graça divina. Mesmo as dores, privações e sofrimentos assumem com alguma frequência um ar de doce melancolia. Aquelas noites de São João, onde pulávamos a fogueira. O Bar do Ventura, com suas promoções de Páscoa. As brincadeiras de bexiguinha. Os passeios na Praça. Bons tempos... Ainda trago viva na memória a lembrança da época em estudei no São Francisco. Cinco anos. Meia década como aluno da Escola onde hoje trabalho. Lembro de alguns professores, das orações no início da manhã, do aperto de mãos estampado no uniforme, das Gincanas e caminhadas que movimentavam a região. Ainda ouço o minuano soprando no inverno, encarangando até os ossos, quando eu e meus irmãos andávamos o que parecia um eito para chegarmos até o São Chico. Por vezes, nas noites mais frias, dormíamos já uniformizados, sem que o Tonico, meu já falecido pai, e Dona Geci, soubessem, é claro. Foi assim que começou minha história de amor pela Escola. No decorrer dos cinco anos em que estudei no São Francisco, mudei do Madepinho para próximo ao Parque dos Maias. Coube a meu avô construir a casa. Era de madeira. Enquanto construía, por vezes, eu e alguns amigos brincávamos de carrinho de lomba. As rodinhas de rolimã iam na mesma velocidade de nossos sonhos. Não demorou, mudamos novamente. Agora para Cachoeirinha. Fui transferido de escola. O tempo passou, pois que não para e nem tampouco dá trégua. Cada um seguiu o próprio caminho. Eu e o São Chico. Crescemos ambos. A separação – feito dois eternos amantes compromissados por juras de amor – só fez aguçar, ainda mais, o respeito e admiração. Após formado, fui convidado por uma ex-colega de universidade a lecionar na Escola de minha infância. Iniciava-se uma nova década (1992). Com ela, um misto de tristeza e esperança. Meu pai sofrera um “derrame”, debilitando-o para o resto da vida. A dor aos poucos foi sendo superada com trabalho e o apoio de amigos e familiares. Entraram e saíram presidentes – alguns pela “porta” dos fundos –, governadores e prefeitos. Muitos foram os alunos que me deram a oportunidade de, com eles, aprender. Compartilhamos, juntos, muitas alegrias e algumas tristezas. Estas, por vezes, personificadas na perda de professores e alunos. Quantas Gincanas e campeonatos? Quantas caminhadas e festivais? Quantas missas e ações sociais? Quantos Conselhos de Classe e formações de professores? Quantos Retiros e encontros com a comunidade? Quantas entregas de boletins e confraternizações? Quantas Páscoas e Natais? Aulas? Inúmeras. Atendimento aos alunos e pais? Incontáveis. Vinte anos de São Francisco. Quase metade da linha de tempo da própria Escola. Nessas duas décadas, casei, nasceram meus três amados filhos, perdi meu pai, troquei de casa poucas vezes e de carro algumas... O que não mudou foi a convicção de que é através da educação que se constrói uma sociedade mais justa e fraterna. A certeza de que o processo ensino-aprendizagem requer, acima de tudo, amor. Sim, um amor fundado na paciência, mas na exigência. Um amor pautado no diálogo, mas no respeito à autoridade. Um amor alicerçado na liberdade, mas de mão dadas com os limites claros e necessários. Um amor voltado à paz, mas avesso à injustiça. Assim, o Jubileu da Rede de Escolas São Francisco é, para este humilde servo, um momento ímpar, pois que a história do velho São Chico está íntima e umbilicalmente ligada à minha própria história. Parabéns a todos nós!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

FAÇAMOS NÓS?



FAÇAMOS NÓS?
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Onde está o Estado? Este foi concebido e aceito, ao menos pela maioria, como sendo a personificação de um pretenso “interesse coletivo”. Hobbes, no século XVII, já defendia a necessidade de um Estado capaz de frear a forte tendência do homem em buscar seus próprios interesses, mesmo que em detrimento do interesse da maioria. A partir da premissa de que o homem seria “lobo” do próprio homem, é que surgiu a mais famosa teoria do Estado, a do chamado “contrato social”, teoria esta – direta ou indiretamente, aberta ou sorrateiramente – ainda presente. No Brasil, é sabido, tivemos o surgimento de um Estado (aqui entendido como o ente público em todas suas esferas e manifestações) inicialmente associado a interesses de fora. Durante o período de colonização, em regra, as decisões tomadas nestas bandas vinham, num primeiro momento, ao encontro dos interesses da Coroa. A maioria da população brasileira – formada por negros, índios e mestiços, tendo em comum o fato de serem pobres – estava à margem de qualquer benesse oriundo do Estado português. A chamada “independência” (1822) pouco acrescentou à qualidade de vida da maioria. Esta seguiu alijada das condições mínimas de saúde, moradia, alimentação, renda ou educação, por exemplo. Poucos foram os reais beneficiados com a instalação do Império. Enquanto os grandes latifundiários e poderosos comerciantes aumentavam seu poderio econômico e político, a distribuição de renda seguia injusta e concentrada nas mãos de uma pequena oligarquia. O tempo passou e com ele veio a República (1889). Apesar das ideias aparentemente revolucionárias – oriundas, quase sempre, de uma burguesia europeia –, o Brasil permaneceu sendo a terra dos coronéis, cujas decisões políticas apenas corroboravam o já sedimentado poder econômico. A dita República Velha com seu maniqueísmo forjado na política do “café-com-leite”, a Era Vargas com seu populismo assentado num discurso flagrantemente paradoxal, a Ditadura Militar com seus excessos – injustificáveis, mesmo que diante de uma “esquerda” por vezes equivocada –, a Nova República com a subida ao poder das mesmas “figurinhas” do passado, o Brasil de hoje com sua letargia e paralisia a fazer prosperar o sentimento de indignação frente à omissão, impunidade, injustiça e exclusão. O que todas as fases de nossa história têm em comum? A incapacidade do Estado brasileiro em atender as reais demandas da maioria. Reforça-se o sentimento de que o Estado brasileiro é dispensável. Por que um Executivo mastodôntico? Um Executivo tomado de assalto por CCs, imprestáveis sob o ponto de vista do interesse público, só vistos quando a tremularem bandeirolas nos períodos de campanha eleitoral? Um Executivo que recomeça do zero a cada “nova” gestão, feito cachorro em torno de seu próprio rabo? Um Executivo partidarizado, pertencente a uma legenda? Um Executivo estrábico, sem olhar “certo”, confuso? Um Executivo sem noção do que seja política de Estado? Um Executivo que só trabalha movido pela proximidade do pleito ou quando pressionado pela mídia?

                Por que um Legislativo que legisla em causa própria? Um Legislativo apadrinhado a interesses espúrios? Um Legislativo formado, não raras vezes, por figuras que construíram suas candidaturas sobre frases de efeito, poder econômico ou caricaturas de palhaços? Um Legislativo que, na contramão da realidade de quem o paga, trabalha pouco e folga um eito? Um Legislativo inchado e recheado de privilégios? Um Legislativo que discursa para si e para as moscas? Um Legislativo que pouco ou nada produz, sequer textos legais que venham ao encontro dos interesses da coletividade? Um Legislativo que olha narcisicamente para si mesmo? Um Legislativo que se prostitui em meio à distribuição de parcos ou volumosos recursos públicos? Um Legislativo que se afunda em meio a uma sopa de letrinhas e legendas, numa verdadeira dança das cadeiras, incompreensível aos pobres mortais (nós contribuintes!)? Um Legislativo incapaz de ouvir os reclames da maioria, salvo quando potencializados pelos holofotes da TV os gritos dos mais humildes? Um Legislativo corporativista, verdadeiro campinho de históricos coronéis e caudilhos?

                Por que um Judiciário lerdo e moroso? Um Judiciário caro, de difícil acesso e quase impossível atendimento à demanda justa, especialmente se nascida em meio a mocambos e palafitas? Por que um Judiciário mais preocupado com frases em latim do que com a voz que nasce em meio aos mais pobres e necessitados? Por que um Judiciário movido por onerosos recursos e agravos, bancados em regra por quem pode pagá-los? Por que um Judiciário excessivamente formal e pedante, distante dos que sequer tiveram acesso às primeiras letras? Por que um Judiciário que solta o bandido e prende o trabalhador? Por que um Judiciário que corrobora a impressão de que o mundo é dos “espertos”? Por que um Judiciário que concede liberdade a homicidas, estupradores, sequestradores, assaltantes, tudo em nome ou de um bem pago habeas-corpus ou de um “garantismo” doentio e irresponsável? Por que um Judiciário que ao postergar suas decisões causa imensuráveis danos à sociedade? Por que um Judiciário atolado em processos que nascem da profunda insegurança jurídica que grassa por este país afora? Por que um Judiciário que não denota respeito e temor?

                Resta, portanto, a pergunta: por que Estado? Para quê? Para quem? Historicamente, no Brasil, o Estado tem sido um Saara de inépcia, lentidão, frouxidão, corrupção e incompetência. Fracassado e caro, muito caro! Um Estado que expropria o trabalhador através de uma política fiscal e tributária insana, irresponsável, injusta e desumana. Tudo, sob o olhar complacente e condescendente dos chamados “Poderes” constituídos. Nada mais natural e aceitável, portanto, do que perguntar: façamos nós o que o Estado não tem feito?

                Façamos nós? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os criminosos, delinquentes e meliantes prosperando em seus intentos? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os sequestradores, estupradores e violentadores levando nossos filhos e mulheres? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os ébrios e adeptos de rachas ceifando a vida de nossos entes queridos no trânsito? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os narcotraficantes transformando em zumbis imprestáveis nossos jovens? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam alguns se apropriando indevidamente dos recursos públicos? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam alguns fraudando licitações? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam algumas empresas fraudando o consumidor, lesando-o em seu bolso e sua saúde? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam alguns destruindo o meio ambiente em nome do lucro desmedido? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam as intermináveis filas nos hospitais e postos de saúde? Façamos justiça com as próprias mãos ou sigam os desvios e malversação do dinheiro público, o mesmo que dizem faltar para a cultura e educação? Façamos justiça com as próprias mãos ou siga o deboche por parte da maioria dos partidos políticos em relação ao eleitor? Façamos justiça com as próprias mãos ou siga o descaso com a infraestrutura, estradas e saneamento básico? Façamos nós justiça com as próprias mãos?

                Apesar de aparentemente oportuna, fazer justiça com as próprias mãos parece não ser a melhor saída! Esta reside, isto sim, na refundação do Estado. Um Estado distinto daquele que era e continua sendo. O que se deseja é um Estado que seja, de fato, de Direito e democrático. Um Estado pautado, sobretudo, na justiça social, na equidade e no respeito à soberania popular. Um Estado que respeite e privilegie a sociedade civil organizada, um Estado que valorize a educação, a cultura, o lazer, a saúde e o esporte. Um Estado capaz de distribuir renda de forma efetiva, através da geração de trabalho, e não através de programas político-eleitoreiros. Um Estado que se mostre completa e absolutamente avesso à corrupção e ao crime de qualquer espécie. Um Estado que seja admirado, respeitado e temido por sua eficácia. Um Estado comprometido com os anseios dos mais humildes. Um Estado preocupado com as minorias, com as crianças e idosos. Um Estado fundado na democracia, na participação popular e na valorização e proteção da vida em toda sua complexidade. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

BOTECO



BOTECO
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Casa cheia. Melhor, tomada de amigos! Estes enchiam os espaços com sua presença, alegria e descontração. Mais do que sorrisos, as risadas corriam soltas, livres como as palavras e os pensamentos. O Boteco da Rosinha fervilhava. O lusco-fusco dava charme ao lugar. Garrafas de todos os tipos e cores. Cerveja, cachaça, licor, batida, vinho... Verdadeiro manjar em homenagem a Baco. Mal dava tempo de respirar, logo vinham as “garçonetes” enfiadas em seus aventais escuros que, apesar de longos, denunciavam as perigosas curvas daqueles corpos. Corpos e copos. Copos e corpos. Mistura delicada, mas deliciosa. Feito a maçã do Éden. As frutas, por sinal, afogadas na aguardente de algumas daquelas garrafas, pareciam chamar pelo nome os “clientes” do Boteco. Feito sereias. A voz doce vinda do alambique enfeitiçava aquelas almas, masculinas ou não. Alma tem gênero? O velho telefone, posto ao canto da mesa, parecia querer falar. Há quanto tempo silenciara? Preterido pela concorrência desleal das novas tecnologias, o antigo aparelho mal cabia em seu insuperável charme, feito quarentão de cabelos grisalhos a encantar as mulheres. No prato, salgadinhos e tira-gosto de todo tipo. Quentinhos. Polenta, fritas, pasteis, cubinhos de queijo e de presunto... Novinhos, tenrinhos. A música corria solta. Ritmos dos mais diversos, para todos os gostos. Anos sessenta, setenta, oitenta... Sons contemporâneos convivendo pacificamente com os embalos de sábados passados. Aos poucos, o som mecânico ia sendo substituído pela voz dos mais corajosos. Afinados ou não, os adeptos do karaokê soltavam a garganta na mesma medida que sorviam a largos goles da farta bebida. Colados à parede, por todos os lados, frases de botequim. Curtas ou longas, rimadas ou não, os dizeres despertavam a atenção dos convivas. Inicialmente claros, à medida que as garrafas secavam, os cartazes ficavam turvos e as frases desconexas. As palavras pareciam saltitar, serelepes como que a dançarem em meio ao jogo de luz. Enquanto isso, a dona do Boteco, feito cigana, agitava o corpo de um lado para outro. A cintura parecia acompanhar a melodia, fazendo lembrar as ondas do mar, hora mansas, hora nervosas... O Boteco era só algazarra, doce agitação. Algumas crianças se divertiam próximo à mesa de sinuca, enquanto outras catavam as bolinhas de plástico coloridas que descansavam ao chão. Todos se divertiam. Até os ponteiros do relógio pareciam fazer festa ou, talvez, estivessem sob o efeito etílico que impregnava o ambiente. Como presentes, os corações iam se abrindo, um a um. Os mais resistentes até que tentavam se esquivar por entre as folhas de papel. Vã tentativa. O Velho Barreiro, em toda sua boêmia sabedoria, não poupava ninguém, por mais duro que fosse. A dona do Boteco era toda sorriso. Momento impar aquele em que completava mais uma primavera. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ALGUÉM VIU A LEITURA?



ALGUÉM VIU A LEITURA?
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                Há muito que sumida, alguém viu a leitura? Quiçá perdida por aí, sem eira e nem beira. Jogada sobre algum banco de praça, coberta por jornais dormidos. Esquecida e faminta, a perambular pelas ruas e vielas úmidas e escuras. Maltrapilha, mal cheirosa e descalça. Dela, a maioria quer distância. Por ela se passa de largo, sequer merecendo um breve olhar piedoso ou um singelo aceno. Nada. Total e absoluta indiferença. Logo ela que, noutros tempos, era companheira inseparável dos doutores e letrados. Antes, sinônimo de deferência e respeito. Agora, associada a um passado longínquo, empoeirado e insosso. Noutros tempos, amada e desejada. Hoje, jogada às traças e tripudiada. A antiga altivez deu lugar ao olhar cabisbaixo, enquanto os holofotes foram substituídos pela penumbra das prateleiras há muito não visitadas. Antes, o brilho. Agora, sequer motivo de um elogio ou de um afago. Bons tempos aqueles em que era levada para cama, a dormir junto a príncipes, princesas e até mesmo plebeus. Os lençóis de seda deram lugar à aspereza das caixas de papelão, quando não às chamas de uma fogueira improvisada. Foi-se o tempo em que era o centro das atenções. Hoje, violentada, desrespeitada e agredida. Já não lhe chamam pelo nome, quando muito pelo apelido. Comum mesmo é lhe podarem letras, sílabas, palavras e até frases inteiras. O zelo pela boa escrita, matéria-prima de uma prazerosa leitura, há muito foi abandonada. Hoje pouco se escreve, quando muito se balbucia. Encurta-se não apenas vocábulos, mas sonhos. Por onde anda a leitura? Saudades do tempo em que dava asas à imaginação. Tempo em que excitava os sentidos, só abandonada quando vencida pelo sono. Tempo em que afazeres outros eram preteridos em seu favor. Saudades do tempo em que unia gerações, aproximava pessoas. Ah, bons tempos aqueles em que o pequerrucho se aninhava junto ao corpo do pai ou da mãe para ouvir histórias. Contos que pareciam brotar daquelas páginas coloridas realçadas pela voz doce de quem os narrava. Alguém viu a leitura? É duvidar, está por aí brincando de pega-pega ou jogando bolita com o peão, a peteca e o bambolê. Saudades do papel, de seu cheiro e densidade. Insuperável é o prazer que nasce ao virar cada página. A expectativa do porvir, a curiosidade acerca do destino de cada personagem. Uma trama envolvente é como sexo da melhor qualidade, indescritível... Só lendo para saber. Por onde anda a leitura? Antes, arauto de novidades, descobertas e invenções. Verdadeira depositária de tradições milenares reveladas através de mitos, contos, parábolas, romances, poesias, notas musicais... Às vezes mais, às vezes menos complexas. Simples ou herméticas, era capaz de encantar, fazer sorrir ou chorar. Leitura, onde estás? Não imaginas a falta que fazes. Por mais que se tente achar quem te substitua, te mostras imprescindível. Saudade arrebatadora, dor desesperadora. Procura-se a leitura. Há muito que sumida, alguém a viu? 

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO: O PODER DO VÍNCULO



EDUCAÇÃO: O PODER DO VÍNCULO
Prof. Gilvan
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                A escola de hoje é um deserto. Nela, salvo uma ou outra exceção, prospera a aridez nas relações. O afeto é arredio e o carinho apenas vez por outra se faz presente. Reluta-se em dar um abraço e vende-se caro um elogio, mesmo que singelo. O afeto há muito virou título empoeirado nas estantes das parcas bibliotecas. O semblante amarrado do professor, feito carranca às avessas, espanta não apenas os bons espíritos (pois que os maus permanecem e se multiplicam...), mas também as crianças. A crise é de tal monta que a até a “sala dos professores” mais parece uma trincheira de guerra. Do lado de cá os professores, enquanto do outro, legiões inimigas formadas por hordas de crianças e adolescentes sedentos pelo sangue docente. O recreio, ao invés de momento de integração e de encontro entre os mestres e seus pupilos, há muito é tido como efêmero refúgio de corpos aniquilados pelo cansaço do corpo e da alma. É, ainda, espaço de escambo, comércio e fofoca, muita fofoca. Fala-se e vende-se de tudo. Lingeries de todas as cores, formas e tamanhos. Compotas, perfumes e até mesmo pacotes de viagem. A criatividade só é menor do que a necessidade de compensar os aviltantes números a preencherem os contracheques. Aproveita-se, ainda – e quando o tempo o permite – para traçar algumas estratégias para a próxima batalha, pois que toda aula mais parece um campo de luta. Conselhos não faltam: “manda para Direção”; “suspende”; “chama os pais”; “faz ata”; “manda embora”; “chama a patrulha escolar ou o Conselho Tutelar”, etecetera e tal. No canto, não é incomum, uma professora a soluçar e reclamar da sorte. Onde fora se meter! Maldita a hora que resolvera ser professora. É duvidar, sai direto dali para o RH. A mesma ameaça de ontem, de anteontem, do ano passado... Amanhã, por certo, estará ali, naquela mesma sala, afagando ou sendo afagada. Em nome de uma missão que não acredita, segue ela em sua vida modorrenta. Não vê a hora das férias ou do próximo feriado. Ah, de preferência prolongado. Por entre pacotes de biscoito Maria e copos sujos de café, folhas e mais folhas. Ditado, Redação, “Pesquisa”, contas intermináveis de toda espécie. Um monte de letras e símbolos vazios. Cópias destituídas de qualquer significado. Certeza, uma só: mais trabalho para o fim de semana! Triste sina. Espera-se a aposentadoria e, de preferência bem depois, a morte. É como se as cortinas do teatro da vida baixassem antes do grand finale, deixando o espectador confuso, quando não decepcionado ou irritado por sentir-se lesado. A escola, hoje, é o verdadeiro quadro da dor. Inferno dantesco, tomado de lamúrias e queixas. Solução? Existe sim. Ela passa, necessária e obrigatoriamente, pela construção de vínculos. Vínculos entre docentes e comunidade, entre professores e seus pares, entre mestres e seus alunos. Principalmente estes últimos! O exercício do magistério não exige vocação. Requer, isto sim, profissionalismo e amor. O educador deve ter amor por ele mesmo, pelos colegas, pelos alunos e pela comunidade onde atua. Tentar educar sem amor é tarefa fadada ao fracasso. O professor deve apaixonar-se por seu papel. Encantar-se pelo outro. Acreditar no ser humano. Esperar que o educando seja capaz de aprender. Apostar no sucesso do aluno. A formação de vínculos fundados no amor é pressuposto para uma boa aprendizagem, além de um poderoso antídoto no combate à indisciplina escolar. A construção do vínculo requer respeito, alteridade, honestidade, verdade, coerência, convicção, limite, cobrança, sanção. O verdadeiro vínculo confunde-se com o amor exigente. Andam juntos, imbricam-se, fundem-se. A formação do vínculo exige um olhar viajante do educador. Este precisa ser um decifrador de almas. O professor que adentra no coração do educando dá imensurável passo no processo ensino-aprendizagem. Entra, mas não invade. Quem educa acaba por se tornar cúmplice de quem aprende. Condescendência profícua, necessária e bem-vinda. Ambos, educador e educando, crescem e se fortalecem. Constituem-se como sujeitos, diferentes mas interdependentes. Indispensáveis um para o outro. A necessária e salutar hierarquia supera a tirania, seja do aluno, seja do professor. A verticalização passa a não mais denotar repressão, mas libertação. As idiossincrasias e distinção de papéis deixam de ser empecilho e passam a ser matéria-prima para o crescimento de todos. A escola precisa ser um espaço privilegiado para formação, resgate e aprofundamento dos vínculos. O educador deve ser, acima de tudo, um pescador de almas, pois que só a partir do amor e de seus frutos é que se dá uma aprendizagem prazerosa, significativa e duradoura.  

FOI NO VINTE DE SETEMBRO?



FOI NO VINTE DE SETEMBRO?
Prof. Gilvan
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                Gaúcho que sou, não há como negar que, vez por outra, me deixo levar por aquele sentimento bairrista, vislumbrando um Rio Grande independente. Acompanhando tal sentimento, certa dose de prepotência frente aos demais estados federados. É como se não compartilhasse com eles dos mesmos ideais, sonhos e dissabores. Tamanha indiferença diante do infortúnio alheio, se por um lado, marca certa autonomia destas terras, por outro dificulta qualquer tentativa de se buscar, em conjunto com as demais “estrelas” desta constelação chamada Brasil, saídas efetivas para os históricos e crassos problemas que afligem a esmagadora (esmagada!) maioria dos brasileiros.

                O sentimento nativista deve ser cultivado por cada gaúcho e cada gaúcha. O resgate da história e o respeito às tradições são como chamas a serem mantidas acesas, pois que servem de farol em meio a um mar cada vez mais tenebroso, um mundo que – em nome do deus mercado – homogeniza gostos e costumes. Os tempos ditos pós-modernos (?) contribuem para o descarte de todos e de tudo, inclusive das culturas outrora consideradas sólidas, forjadas ao longo de muitas gerações.

                A chamada Revolução Farroupilha (1835-1845) pode ser vista a partir de vários ângulos. Foi um movimento elitista ao trazer para o centro das discussões, principalmente, os interesses dos estancieiros gaúchos prejudicados pela política econômica do governo central em relação, por exemplo, ao charque. Por outro lado, o movimento farrapo contribuiu para escancarar algumas contradições do Império, entre elas a escravidão. Muitos negros passaram a ver a Revolução como meio de romper com a organização social até então reinante. Como todo o movimento de grandes proporções, a Revolução Farroupilha por certo fugiu de seus objetivos inicialmente traçados.

                O Vinte de Setembro – presente no hino de nosso estado – deve ser reverenciado pelo simbolismo que representa. Deseja-se que os ideais da fugaz República Rio-Grandense – em tempo idos, largamente defendidos (ao menos na oratória) pelos revoltosos – superem os parcos limites do mero discurso. Ora, que a igualdade de oportunidades possa ser geradora de melhor distribuição de renda. O paternalismo e assistencialismo doentios, de fundo politiqueiro, devem ser enterrados. Os males por eles provocados são inúmeros. São frutos de uma política equivocada assentada em práticas coronelistas que transformam zonas eleitorais em verdadeiros currais de votos direcionados. Deseja-se que a fraternidade nasça das relações interpessoais sadias, fundadas na ética e no compromisso com o coletivo. Sonha-se com uma verdadeira liberdade, alicerçada numa “paz social” e alinhada à justiça. Sim, uma liberdade que não deite à cama com o poder econômico, a impunidade, a omissão, o descaso ou a indiferença.

                Assim, no fundo, a verdadeira Revolução – enquanto transformação das perversas estruturas sociais, políticas e econômicas – não “foi”, jamais aconteceu. Contudo, ela pode “ser”. Depende de cada gaúcho e de cada gaúcha. Depende de cada brasileiro, gaudério ou não, apreciador da erva-mate ou do tereré, torcedor da dupla grenal ou do Bragantino, adepto da bombacha ou da roupa típica do Sertão, comedor de churrasco ou simpático ao peixe extraído do Solimões. Sirva o Vinte de Setembro para reflexão crítica e, acima de tudo, para tomada de posição. Estes páreos, mais do que ximangos ou maragatos, precisam sobretudo de verdadeiros cidadãos! Boa Semana Farroupilha a todos!

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

DIRETRIZES: FOCO NA APRENDIZAGEM



DIRETRIZES: FOCO NA APRENDIZAGEM
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                As chamadas Diretrizes para o Ensino Fundamental de Nove Anos[1] construída ao longo de anos e consolidada na Resolução CME No 015/2012, representa um importante avanço no que tange ao olhar que se lança sobre a aprendizagem. Esta – e não a mera aprovação ou reprovação – passa a ser o centro das atenções. Parte-se da ideia de que todos aprendem, embora de formas e em tempos diferentes. O que deve merecer destaque não é a terminologia atribuída à nova organização curricular: módulos de aprendizagem. O que deve pautar a discussão e reflexão são os paradigmas existentes por detrás da iniciativa. A coletividade, representada pelo Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha, buscou acima de tudo garantir maior tempo tanto ao educando, para que o mesmo aprenda, quanto ao educador, para que este ensine. A Organização Modular busca, ainda, fomentar maior planejamento por parte dos professores, pois que passam a ser “solidários” uns para com os outros em relação ao processo ensino-aprendizagem. Na prática, isso significa que os educadores dos anos seguintes (finais, por exemplo) terão de sentar com os colegas dos anos anteriores, pois responderão solidariamente pela aprendizagem, ou não, do educando. Sepulta-se o trabalho pautado no individualismo, onde cada qual ficava no seu “quadrado”. Enquanto os educadores se digladiavam, jogando uns sobre os outros a culpa da não-aprendizagem da criança/adolescente, o educando ficava à mercê de sua sorte ou, o que era pior, acabava por se transformar no “vilão” de seu próprio infortúnio.

                A primeira grande mudança trazida pela Organização Modular de Aprendizagem diz respeito ao “tempo”. Este foi redimensionado. Antes, o educando tinha tão somente um ano letivo (na prática, cerca de nove meses...) para dar conta de aprender os conteúdos mínimos previstos no famigerado Plano de Estudos. O que para alguns alunos era tranquilo, para outros era fator de desespero e, por consequência, de fracasso escolar (reprovação). A nova Organização aumenta o tempo para 03 (três) anos, para que o aluno seja melhor trabalhado, para que seja utilizado o maior número possível de estratégias de aprendizagem voltadas ao sucesso de fato do educando. Mais do que uma questão de “Direito” (respaldado na Constituição Federal e em diversos outros diplomas legais), é uma questão de ética e de dignidade da pessoa humana. A escola só faz sentido se for capaz de ensinar. Assim como é inadmissível que o paciente seja dispensado pelo hospital antes de resolvido seu problema de saúde, da mesma forma é inadmissível que o educando seja “dispensado” (a reprovação por certo exclui...) da escola sem que aprenda. A reprovação escolar deve ser vista e comparada com a morte, portanto uma exceção, possível de acontecer, mas tratada como luto, eivada de tristeza e sentimento de perda. Infelizmente, contudo, não é o que se vê. Os índices de reprovação, especialmente nas escolas públicas (por quê?), só são menores do que a modorra que se mistura à omissão, passividade e indiferença. Reprova-se com naturalidade e quase desenvoltura. Levas e mais levas de educandos veem o futuro ser enterrado envolto às folhas de provas não raras vezes mal elaboradas e que nada atestam senão a incapacidade do professor e da escola de encontrarem saídas que promovam a aprendizagem.

                Outra importante mudança diz respeito à reprovação em si. Esta “só” poderá ocorrer ao final de cada módulo (três anos). Assim, por exemplo, o aluno que ingressa no 1o ano do Ensino Fundamental não poderá ser reprovado antes que alcance o 3o ano. Somente ao final deste último ano do módulo é que – caso se faça comprovadamente necessário – o educando poderá ser retido. Resta clara, portanto, a intenção do Conselho Municipal de Educação em lançar uma verdadeira e profunda mudança de paradigma e não simplesmente criar estratégias voltadas à redução dos índices de reprovação. Busca-se deslocar o foco da mera questão da “aprovação/reprovação” para uma outra, a da “aprendizagem”.

                As Diretrizes Municipais para o Ensino Fundamental de Nove Anos instigam as mudanças que há muito se fazem necessárias. Urge maior planejamento e estreitamento da comunicação entre todos os que respondem pelo processo ensino-aprendizagem, de forma especial, o corpo docente. O que se vê é uma enorme distância entre o espírito trazido na legislação hodierna e o cotidiano das instituições de ensino. Apesar dos avanços legais atinentes à tão decantada “gestão democrática” (seguida da descentralização financeira, do surgimento e fortalecimento dos Conselhos Escolares, etc.), a escola segue – salvo raras e louváveis exceções – com a mesma prática do mais longínquo passado. A comunidade só é lembrada e chamada à participação em situações excepcionalíssimas. Via de regra, os membros dos ditos “Conselhos” não passam de meros espectadores ou, o que não deixa de ser pior, espécie de “extensão” da Direção, incapazes de fazerem o contraponto indispensável à reflexão crítica, esta última matéria-prima das mudanças tão necessárias no âmbito da escola. Leva-se para dentro das instituições de ensino as mesmas práticas e vícios de seu entorno. Tem sido por demais comum a “partidarização” das relações intramuros. Negociatas, troca de favores, privilégios, confusão entre público e privado e toda espécie de mesquinhez tão criticadas em relação à política partidária neste município, estado e país, acabam por se fazer presentes também na esfera da escola. Portanto, não causa estranheza o preocupante afastamento da comunidade em relação às instituições de ensino. O “esvaziamento” e constante “rodízio” entre os componentes dos Conselhos Escolares são meros sintomas das práticas equivocadas levadas a cabo pelas escolas.

                A Resolução que trata das Diretrizes reforça a necessidade, portanto, do planejamento. A escola deve garantir o tempo e espaço necessários para que, por exemplo, o corpo docente estude, debata, avalie, construa de forma coletiva. Reuniões entre professores do mesmo módulo e de módulos distintos têm que ser uma constante. As questões pedagógicas devem se sobrepor às administrativas e o tempo disponibilizado ao planejamento do grupo deve se sobrepor ao individual. Portanto, há de se repensar sim questões como a da “hora atividade”. Esta não deve ser vista ou confundida com “folga”. O planejamento deve se dar é na escola, não em casa. Esta é local de descanso, enquanto a instituição de ensino é espaço para o trabalho e exercício responsável da função para a qual o servidor é remunerado. Mister é que as reuniões envolvendo o corpo docente sejam orientadas e acompanhadas pela Supervisão Escolar. Para tanto, indispensável é que os supervisores se qualifiquem e se instrumentalizem. O estudo e a pesquisa devem ser uma constante. O grupo docente deve ser instigado a falar, se posicionar e se comprometer. Exige-se resultados. Trabalho sem resultado é estéril, de nada vale. Os resultados devem, portanto, aparecer sob diversas formas: diminuição da infrequência e da evasão; diminuição da indisciplina; melhoria na aprendizagem; maior participação da comunidade; melhoria na saúde do profissional da educação com a consequente diminuição das faltas laborais; etc.

                As Diretrizes Municipais para o Ensino de Nove Anos – como já dito – busca realocar os holofotes, posicionando-os sobre a questão da aprendizagem. Por óbvio, não se quer olvidar a importância da questão aprovação/reprovação. Esta precisa sim ser discutida, contudo à luz de outros paradigmas que não aqueles que até então vêm ocupando a atenção. A reprovação precisa ser vista, primeiro, como uma exceção. Tratada como uma “anomalia”, portanto algo passível de despertar inúmeros cuidados para que não se repita. Infelizmente, não são poucos os professores que a usam como “instrumento” de pressão e de “pseudo-controle” contra a indisciplina escolar. Acreditam alguns que a ameaça de eventual reprovação sirva de estímulo para a melhoria do comportamento dos educandos e maior comprometimento da família. Triste engano. A experiência tem mostrado que seja a reprovação, seja sua “simples” ameaça, não traz os resultados pretendidos. Como toda punição ou como toda ameaça, ao ser banalizada (e hoje a reprovação é algo “banal”!), por certo não produz os efeitos desejados. Ao contrário, só faz desgastar e fragilizar as relações de afeto. Ora, a indisciplina escolar, por exemplo, precisa ser atacada, mas não através da reprovação. A indisciplina precisa ser entendida, compreendida em suas causas. Quando, onde, com quem ocorre? A quebra dos chamados princípios de convivência deve ser encarada como um problema a ser resolvido. Reprovar o educando significa atacar a pessoa do “agressor” e não sua conduta. Ora, é esta última que precisa ser combatida e banida! O aluno indisciplinado precisa ser cobrado e responsabilizado, mas acima de tudo ensinado (por isso está na escola...) e amado, respeitado como sujeito de direitos. O combate efetivo à indisciplina escolar passa por uma série de iniciativas. Deve haver clareza e publicização dos princípios de convivência. As regras estabelecidas (é bom que algumas delas sejam construídas) precisam ser pertinentes, coerentes e justas. É fundamental que se diminua significativamente a distância entre o discurso e a prática docentes (o professor deve cobrar pontualidade, mas ser pontual; deve exigir organização dos alunos, mas estar com seus cadernos de chamada em dia; pedir concentração dos educandos, mas mostrar-se mais atento e menos “tagarela” nas reuniões e encontros de formação...). A família precisa ser comunicada e, se necessário, chamada quando diante de atos de indisciplina. Não se fazendo presente, mister é que seja responsabilizada. As instituições de ensino precisam otimizar seus recursos, usar de suporte tecnológico no combate à indisciplina. Indispensável, ainda, é que haja o cuidado com os registros envolvendo alunos indisciplinados. Enfim, como se vê, muitas são as alternativas e caminhos para que a escola supere ou, ao menos, mitigue o problema da indisciplina, sem que lance mão da reprovação.

                A Resolução exarada pelo Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha, ao trazer a necessidade da aprendizagem para o centro das atenções, reafirma algumas certezas. Uma delas é a que diz respeito ao papel do ente público (representado pela Secretaria Municipal de Educação - SMEd) no processo de melhoria da qualidade do ensino, pressuposto indispensável a real e verdadeira aprendizagem. Primeiro, cabe à mantenedora criar mecanismos que contribuam para a assimilação do conteúdo trazido pela norma. As Equipes Diretivas (articuladas e auxiliadas pela Assessoria Pedagógica da SMEd) devem servir de “multiplicadores”, instigando os docentes em suas respectivas unidades de ensino a também se apropriarem das Diretrizes, em que pese o adiantado da hora. O momento, agora, já não é o da construção da norma, mas de sua operacionalização. O que fazer? Como fazer? Eis aí as perguntas e questionamentos a serem feitos. Apesar das eventuais críticas que venham a surgir – naturais, por sinal –, por parte da comunidade escolar (especialmente de alguns professores), cabe à Equipe Diretiva criar as condições necessárias para que as Diretrizes saiam do papel. As Propostas Político-Pedagógicas precisam ser construídas tendo por pano de fundo o regramento trazido pela Resolução.

                Ao Poder Público cabe, ainda, criar e garantir as condições físicas, estruturais e de recursos humanos necessárias à consecução da norma. O sucesso da empreitada passa necessária e obrigatoriamente pela qualificação profissional, pela melhoria e ampliação de alguns espaços junto às escolas, pela parceria da SMEd com outras Secretarias, pelo suporte financeiro e técnico às instituições de ensino, pela formação continuada, pela valorização salarial, pela presença constante da Assessoria junto às escolas, pelo diálogo permanente com as entidades de classe (SIMCA), pela oitiva da comunidade, entre outros. O momento requer soma de esforços e convicção em relação às decisões trazidas pela Resolução. Não se pode, agora, titubear. Exige-se compromisso, responsabilidade, profissionalismo e o trabalho de todos. O aluno merece!


[1] O texto é de inteira responsabilidade do autor, portanto não refletindo necessariamente a posição do Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha. 

domingo, 2 de setembro de 2012

O VERDADEIRO GRITO DO IPIRANGA



O VERDADEIRO GRITO DO IPIRANGA
Prof. Gilvan
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                A cada semana da pátria é a mesma coisa. Vai-se de um extremo a outro. Discursos ufanistas de um lado, de outro, posições que menosprezam o passado em nome de um “esquerdismo” doentio e irresponsável. Nem oito, nem oitenta. Resgatar o passado, mesmo que inglório, é necessário, pois que dele podemos e devemos tirar lições. O pretérito ajuda na compreensão do presente. Este, por sua vez, é o passado do amanhã. O que somos hoje, em parte é produto do que fizeram nossos pais. Nossos filhos, da mesma forma, colherão muitos dos frutos – bons ou ruins – que hoje plantamos.

                A verdadeira independência de um país não é a que se ganha ou se compra nas prateleiras da história. A verdadeira independência não é a que nasce de um gesto, de um grito ou de um tratado de cor amarelada corroído pelas traças e pelo tempo. A verdadeira independência não é a que é “dada” pelos ditos heróis e mártires. Não é, menos ainda, a que se resume a frases de efeito em meio às cores de uma bandeira. A verdadeira independência é aquela que se constrói nas ações individuais e coletivas. É aquela que vai se constituindo no dia a dia. A verdadeira independência nasce e se consolida nas relações que entre nós se estabelecem. Num movimento dialético, germina e retorna sob distintas formas: honestidade, solidariedade, lealdade, ética, senso de justiça, alteridade, respeito, responsabilidade, compromisso com o coletivo. Sim, “independência” pensada e vivida sozinha não é verdadeira, não é altruísmo. É, isto sim, egoísmo.

                A verdadeira independência é aquela capaz de gerar paz social, segurança, trabalho e renda, educação, moradia, saúde, enfim... qualidade de vida. A independência que, de fato, precisamos não é a do tipo veiculado em livros e revistas, mas aquela que propicia dignidade à criança, ao jovem, ao homem, à mulher, ao idoso, a todos, independentemente do credo, etnia, opção política ou ideológica. A independência que se deseja é aquela capaz de transformar as estruturas da educação, da saúde, da segurança pública, do transporte coletivo. É aquela com o poder de separar o joio do trigo. A verdadeira independência é a que não se prostitui em meio à lama da corrupção, não é objeto de comércio e de negociatas. É a que gera cidadãos de fato, não meros personagens fictícios descritos nos diplomas legais. A independência sonhada é a que promove distribuição de renda e igualdade de oportunidades.

                A semana da pátria é um – apenas mais um – bom momento para reflexão acerca do Brasil que se tem e o país que se quer. A superação dos inúmeros e graves problemas políticos, econômicos e sociais passa necessariamente, também, pela escola e pela família. A esta cabe, por exemplo, criar e sedimentar valores, pautando-se num amor exigente. À escola, por sua vez, cabe ser um espaço privilegiado de construção do conhecimento e da cidadania, onde não apenas as ditas “ciências” sejam assimiladas, mas também os princípios que norteiam uma sociedade verdadeiramente independente.


Setembro de 2012.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

DROGAS, QUE DROGA DE MUNDO É ESTE?



DROGAS, QUE DROGA DE MUNDO É ESTE?
Gilvan
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                Às vezes, me pego a invejar o velho Juca, meu avô há muito falecido. Não sabe ele do quanto a ida para a eternidade o livrou. Deixou este mundo numa época em que a palavra ainda valia alguma coisa. Numa época em que ainda se podia sair à rua depois do cair do sol. Numa época em que o homicídio, o roubo, o sequestro e a explosão de caixas eletrônicos (nem existiam...) não eram banalizados e, portanto, despertavam a atenção. Partiu para melhor (acredito!) numa época em que os partidos políticos – mesmo que sob o ranço da ditadura – diziam alguma coisa. Numa época em que o prazer vinha do contato dos corpos, do “dedinho” de canha, da vitória do time no grenal... Deixou este mundo numa época em que maconha era “porcaria” e quem a fumava, o fazia às escondidas.

                É... os tempos são outros. A vergonha parece já não dar as caras por aqui há muito tempo. Os limites, se é que existem, são demasiada e perigosamente largos e tênues. Pais e filhos, muito comumente, se confundem na aparência, nas funções, no vocabulário, na postura... Os primeiros são excessivamente imaturos, enquanto os últimos desafiadoramente prepotentes. O relativismo doentio se perde em meio a devaneios que não levam a nada. Discursos mal articulados e profundamente vazios. Na tentativa de se enquadrar no “politicamente correto”, esvaem-se convicções, princípios e valores. Se a moda é o lilás, todos de lilás. Se a onda é o arco-íris, ai de quem se posiciona de forma contrária. Teme-se parecer “ultrapassado”. Vive-se num tempo em que a horizontalização das relações põe em xeque a hierarquia. Com esta, tende à extinção o respeito e o próprio sentido da família, por exemplo. Mentiras são postas como verdades nos mais diversos meios de comunicação. Ontem, inaceitáveis, hoje vistas com bons olhos.

                Como cidadão, pai e educador que sou, me vejo na obrigação moral e ética de anunciar de maneira inconteste minha posição contrária a qualquer tentativa de legalização ou – para os que se acovardam em deixar clara sua posição – regulamentação no uso da maconha. Sou contrário, ainda, a qualquer iniciativa que vise atenuar as sanções aplicáveis ao tráfico de drogas, independentemente de quem nele esteja envolvido, menor ou não. Triste e pérfida tendência é a que se vê prosperar por aqui. O Estado (todos os poderes e esferas) tem, historicamente, buscado esconder sua inoperância, ineficiência e incompetência por detrás de iniciativas aparentemente alinhadas aos “ventos” pretensamente modernos oriundos do Velho Mundo. O Judiciário, por exemplo, sob o olhar complacente dos outros poderes, “resolve” o problema da superlotação dos presídios impedindo novas prisões e/ou “relaxando” a prisão dos até então trancafiados. O Executivo, por sua vez, leva o problema com a barriga, fazendo puxadinho aqui, outro acolá, sem mexer na questão estrutural do sistema prisional. Este segue “pós-graduando” criminosos, os bestializando e os segregando cada vez mais. Além de caro, é um modelo (que modelo?) comprovadamente equivocado. O Legislativo, como é sabido, não enxerga além do próprio umbigo, afundado que está em escândalos e embebido em meio a discursos que tem as moscas por única plateia.

                Convive-se, no Brasil de hoje, com um “garantismo” penal que, não raras vezes, mostra-se permissivo frente às práticas delituosas. No afã de sair em defesa dos famigerados “direitos humanos”, se comete exageros. Há como que uma inversão de valores, onde o criminoso se torna vítima. O resultado não podia ser diferente: aumento da insegurança e do sentimento de impunidade. O Estado faz lembrar um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Seria cômico, não fosse o elevado custo social, político e econômico que tamanha insanidade representa. A liberação/regulamentação no uso da maconha, assim como a atenuação em relação às sanções contra os que traficam, especialmente os “menores”, em nada contribui seja para a diminuição, seja para a solução do problema da criminalidade como um todo ou da drogadição de maneira particular. Ao contrário, o afrouxamento no que tange a tais ilícitos tende a aguçá-los ainda mais. É sabido o que significam o tráfico e o consumo de entorpecentes – o primeiro não vive sem o segundo – para a sociedade que está a cheirar mal, dado a violência e o desregramento existentes.

                A droga faz mal. Não apenas entorpece e faz delirar, mas embrutece. Desumaniza e corrói o tecido social. Destrói famílias e relações. Compromete a produção e põe a perder qualquer tentativa de superação. Afugenta a esperança e anuvia o futuro. Alimenta o crime e subnutre a alma. Cria falsas sensações e rouba o sentido do real. Ludibria o cérebro e faz perder a confiança no ser humano. Faz chorar o pai, e entristece o coração da mãe. Extorque a infância e faz brotar, precocemente, o cheiro da morte. Assim, o uso de entorpecentes e o tráfico de drogas devem ser combatidos. Quem trafica deve ser severa e exemplarmente punido. Quem usa, deve ser urgente e prontamente socorrido e tratado. Soa como irresponsável, doentia e profundamente diabólica qualquer intenção de tornar o consumo da maconha algo “natural” e aceitável. Não se pode, em nome de um prazer fugaz, colocar sob risco a vida e a saúde física e mental de pessoas. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

RETENÇÃO E APROVAÇÃO AUTOMÁTICA, AS DUAS FACES DO FRACASSO ESCOLAR



RETENÇÃO E APROVAÇÃO AUTOMÁTICA, AS DUAS FACES DO FRACASSO ESCOLAR
Gilvan Teixeira
e-mail: profpreto@gmail.com
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                Cachoeirinha, assim como outros tantos municípios, vem discutindo saídas para o sério problema do ensino, seja ele público ou privado. Quais são as razões para a não-aprendizagem? Por certo, são inúmeras e complexas. Vive-se hoje numa sociedade excessivamente hedonista, avessa à frustração, onde a busca do prazer – preferencialmente fácil e com o menor custo possível – entorpece os sentidos e a percepção do mundo real. A superficialidade tão comum nas relações guarda profunda relação com a cultura do descarte. Os fast-food invadem não apenas as mesas, mas acabam por impregnar muitos outros hábitos. Troca-se de companheiro como quem troca de roupa. Coleciona-se “amigos” como quem junta figurinhas, quase sempre sem nenhum vínculo afetivo. A lista deles cresce na mesma medida da solidão. Nossas crianças e jovens, cada vez mais, se entopem de coca-cola e se dopam com ritalina. Os casos de hiperatividade e de déficit de atenção crescem na mesma velocidade dos “novos” lançamentos da indústria da informática. O que têm de rápidas no movimento das teclas e joystiks, as novas gerações têm de lerdas na capacidade de concentração e memorização. São levas e levas de crianças e adolescentes mórbidos, comprometidas em sua desenvoltura motora e inaptas frente às intempéries da vida. Demonstram dificuldade frente ao “não” e, quando diante dos mais simples obstáculos, dão de ré ou – o que não deixa de ser pior – acham alguns caminhos mais curtos para a falsa e aparente solução dos problemas, mesmo que tais “atalhos” violem a ética, a moral e os princípios mais elementares do convívio social.
                O fracasso do ensino passa, também, pela omissão das famílias. Pela omissão e pela ação muitas vezes equivocada frente à escola. A participação da família na vida escolar do educando tem sido pífia. As alegações são inúmeras: falta de tempo, horários desencontrados, resistência dos filhos, descontentamento com a direção da escola, entre tantos outros. O resultado tem sido trágico. Apesar dos flagrantes avanços normativos associados à democratização da gestão da escola pública (Conselhos Escolares, descentralização financeira, grêmios estudantis, etc.), cada vez mais a instituição de ensino se afasta da família e vice-versa. Via de regra, a comunidade só adentra pelos muros da escola esporadicamente, nos eventos previstos no calendário. O que deveria ser uma prática cotidiana é exceção. A comunidade só se faz representar quando da coleta de algumas parcas moedas que ajudam a engrossar o apertado orçamento das instituições escolares. Onde está a comunidade quando da construção da Proposta Político-Pedagógica? O que dizer da participação dos pais quando da discussão de temas como avaliação, metodologias de ensino, expectativas de aprendizagem, flexibilização curricular, frequência, estratégias de recuperação, disciplina, gestão democrática e tantas outras? As famílias precisam ser convencidas da importância e responsabilidade que têm no processo ensino-aprendizagem. Cabe aos pais acompanhar a vida escolar de seus filhos. A escola precisa posicionar-se frente à inércia de algumas famílias, responsabilizando-as, caso necessário.
                A contestável qualidade do ensino ofertado é resultante também da prática docente, esta não raras vezes ultrapassada e completamente dissociada do contexto do educando. Conteúdos vazios, mal trabalhados e completamente destituídos de sentido para a vida. Contudo, o que mais preocupa é a falta de “vínculo” entre educador e educando. Tem sido comum no ambiente da escola a formação de fronts. Professores de um lado, alunos de outro. Os primeiros acusam os educandos de serem irresponsáveis, indisciplinados, não dados ao estudo, e por aí vai. Os alunos, por sua vez, dizem que os professores são rabugentos, injustos, ultrapassados, etecetera e tal. A quem compete buscar saídas para o impasse que se estabelece, senão ao adulto (professor)? Os discursos acima precisam ser superados. A questão é: como o aluno aprende? Como fazer para que aprenda? Apesar de aparentemente fácil, tais questionamentos têm mostrado o quanto a escola necessita avançar, tanto do ponto de vista do discurso, quanto – e principalmente – da prática. Exemplo disso são os temas envolvendo “retenção” (reprovação) e, no outro extremo, “aprovação automática”.
                Reter o educando é garantia de sucesso no ano vindouro? Aprenderá o aluno com a própria reprovação? A experiência tem mostrado que, em regra, a resposta é uma só: não! Ao contrário, o aluno que reprova a primeira vez tende a seguir reprovando, seja de forma sequencial ou intermitente. Acaba por se tornar um aluno dito “multirrepetente”.  O que mais chama atenção é que, ironicamente, é esse aluno que irá compor o público da Educação de Jovens e Adultos (EJA), às vezes, da própria escola que o reprovou. Trocando em miúdos, a instituição de ensino acaba “transferindo” o problema de turno, sem resolvê-lo. Alguns professores veem – sem, obviamente, admitir –, ainda, a reprovação, ou sua ameaça, como uma importante “arma” para conter a indisciplina e o descomprometimento. Buscam controlar o aluno e a turma a partir de uma estratégia que, comprovadamente, se mostra equivocada. Questões disciplinares precisam ser resolvidas com o exercício da autoridade e a formação de vínculos. Recorrer à retenção, ou mesmo que sua ameaça, em nada contribui no processo ensino-aprendizagem e muito menos na melhoria das relações no ambiente escolar. Ao contrário, só as tencionam negativamente. O uso da reprovação como instrumento de “vingança” – mais parecendo a Lei do Talião – só faz recrudescer o descrédito em relação à figura do educador, trazendo indelével prejuízo ao ensino. A reprovação significa o fracasso não apenas do aluno, mas de sua família, do educador, da escola, do Estado... Todos perdem com ela. Ninguém, ninguém mesmo, ganha com ela. O Rio Grande do Sul, mesmo sendo o estado da federação que mais reprova, ainda assim amarga uma triste e vexatória posição no ranking relacionado à qualidade de ensino no país. A retenção compromete e põe a perder não apenas volumosos recursos financeiros, mas o futuro de muitas crianças e jovens. Representa uma marca indelével para toda vida.
                Por outro lado, tão danosa quanto a reprovação é a “aprovação automática”. Ambas beiram a irresponsabilidade e trazem inúmeros prejuízos não apenas aos sujeitos envolvidos (professor, aluno, família, escola), mas à sociedade como um todo. O educando precisa aprender, eis a questão. Para tanto, é fundamental uma ação que seja, de fato, coletiva. Simplesmente aprovar o aluno e ascende-lo aos anos posteriores, como forma de dar conta de um texto legal e/ou de melhorar os índices oficiais é, no mínimo, pouco inteligente, para não dizer inaceitável. Até porque, por certo, a vida cobrará logo ali adiante o devido preparo dos egressos dos bancos escolares. O mercado, por exemplo, – ao contrário do jogo de aparências tão comum no ambiente escolar – é cruel e taxativo, dispensando aqueles que não respondem às exigências, mesmo que rodeados de certificados. Portanto, eventual aprovação sem respaldo num verdadeiro aprendizado soa, também, como fracasso. Optar por modelos que deem conta apenas das “aparências” é, portanto, temerário.
                O fracasso escolar deve ser séria e urgentemente atacado, pois feito câncer corrói o próprio sentido da escola. Esta existe para aprender e ensinar. Só faz sentido se for capaz de humanizar as relações, de instigar os sentidos, de produzir conhecimento. Cabe à escola o papel de salvaguardar sonhos e utopias. Cabe a ela contribuir na formação de verdadeiros cidadãos, homens e mulheres de bem, comprometidos com o meio. A superação do fracasso escolar passa pelo papel da família, do educando, do educador, do ente púbico. Este precisa não apenas alocar mais recursos para a educação, mas otimizá-los. Precisa promover avaliações criteriosas em relação ao trabalho desenvolvido pelas instituições de ensino, coletando dados, mas principalmente usando-os com o objetivo de sanar dificuldades e melhorar a qualidade do serviço. A melhoria na qualidade do ensino passa, ainda, pela formação continuada do corpo docente e pela valorização salarial. O educador precisa ser cobrado, mas devida e dignamente remunerado. Espaço para pesquisa e planejamento deve ser garantido aos que se dedicam à árdua tarefa de ensinar. O corporativismo que hoje, por vezes, esconde a incompetência e o mau exercício da profissão, deve ceder lugar ao trabalho em equipe.
                Conclui-se, portanto, que o processo ensino-aprendizagem requer um olhar cuidadoso, fundado no amor, no profissionalismo, na competência e, sobretudo, na convicção de que todos aprendem, mesmo que em tempo e forma diferentes.

Leia mais: http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=artigos_interna&id=17721

COTAS RACIAIS: INFERIORIZAÇÃO OU INFERIORIDADE?



Cotas Raciais: Inferiorização ou Inferioridade?

                A exploração indígena e, posteriormente, negra africana fazem parte do processo de colonização do Brasil. Ambas foram abolidas, a segunda um século após a primeira. Apesar da liberdade, não foram providenciadas medidas de integração social para negros e indígenas. Mais de 120 anos depois da lei Áurea, a discriminação racial ainda é refletida no comportamento brasileiro.
                A maior parte da população negra e indígena do país ocupa posições subalternas. O racismo, ainda com forte influência em certos grupos, reflete uma maior dificuldade na inserção no mercado de trabalho. Esses indivíduos de baixa renda geram filhos com escolaridade precária, mão de obra desqualificada e oportunidades de emprego escassas, criando um ciclo da pobreza. Segundo dados do IBGE do ano de 2010, os rendimentos médios mensais de brancos (R$: 1538,00) se aproximam do dobro do valor relativo aos grupos de negros (R$: 834,00), pardos (R$: 845,00) ou indígenas (R$: 735,00).
                Segundo o filósofo Aristóteles em “Ética a Nicômaco”, “A equidade, ao contrário, por sua própria natureza, visa corrigir a lei quando esta se demonstra incompleta, para abarcar o caso especial e concreto, que foge à aplicação genérica.” Para ele, a minoria deve ser tratada de modo especial e diferenciada da maioria, com direitos e oportunidades asseguradas.
                Fica evidente a dívida que o país tem historicamente com ambas as etnias. É dever do governo auxiliar a todos, de modo simultâneo a superação de problemas e a ruptura de paradigmas sociais como o de que negros são inferiores. As desigualdades socioeconômicas brasileiras demonstram a emergência por um sistema como o de cotas. É impossível tratar de maneira igualitária realidades tão desiguais.

Nome: Maiara Preissler
Turma: 32
Obs: Esse texto garantiu a seleção para a primeira fase do Concurso Cultural Redação ZH – Unificado e uma bolsa de 50% para o Unificado Pré-Vestibular. 

             O texto acima é da responsabilidade do(a) autor(a). 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012



VIDA, TAMBÉM NA POLÍTICA
Gilvan Teixeira
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                Trânsito e política, eis aí duas questões que guardam entre si inúmeras semelhanças, até porque faces de uma mesma moeda. Enquanto o primeiro ceifa vidas, a segunda sepulta sonhos. No fundo, o problema não está nem no trânsito e nem tampouco na política. Está, isto sim, na forma como as relações se travam tanto num quanto na outra. Ambos têm como pano de fundo – do mesmo tecido que envolve os corpos gélidos depositados ao fundo dos esquifes – a insensatez, o desrespeito, a superficialidade e o descaso em relação a outrem. Lançar sobre o trânsito ou sobre a política a culpa em relação aos disparates e excessos hoje tão comuns – nem por isso, normais ou dignos de aquiescência – é, no mínimo, pecar pela ingenuidade. É dar respostas simplistas para questões complexas. Trânsito e política são produtos de uma história. São construções e realizações humanas. Representam a nossa “cara”. Cada comunidade tem o trânsito e a política que, de alguma forma, fez e faz por merecer. O caos que atormenta condutores e pedestres é da mesma estirpe que alimenta a indiferença em relação ao interesse público. Os “jeitinhos” e “malandragens” tão conhecidos no trânsito, que para alguns é sinônimo de orgulho junto a amigos e familiares, têm a mesma raiz das práticas abomináveis a confundirem o público e o privado. O corpo estendido na estrada não difere muito daquele outro, jogado às traças nos hospitais ou presídios. A foice da morte que atinge famílias inteiras nas estradas é a mesma que alcança crianças, jovens, adultos e idosos, todos esquecidos por um Estado caro, incompetente, inoperante e corrupto. Tanto num caso como no outro paga-se caro, muito caro, sem qualquer espécie de retorno. Seja no trânsito ou na política, sobram teorias e discursos, faltam iniciativas e resultados efetivos.
                A capital dos gaúchos precisa, urgentemente, de vida. Sim, vida no trânsito e na política. Espero que o espírito que move algumas louváveis iniciativas da sociedade civil organizada, seja o mesmo a mover a candidatura daqueles que pleiteiam um assento junto à chamada Casa do Povo. O Legislativo Municipal precisa ser sacudido por mudanças capazes de fermentarem ações que criem novos paradigmas e modelos na forma de pensar e agir de todos os munícipes. Mudanças que ultrapassem a fina casca das aparências. Transformações que redundem e se traduzam em respeito, sobretudo, às pessoas. Ao respeitá-las, como doce consequência, vem a reboque o respeito a tudo o mais: à natureza, aos prédios e monumentos públicos, às tradições, à propriedade alheia, etc. Torço para que as ideias de homens como o Serginho Neglia vinguem e deem frutos, muitos frutos. Como ele, acredito no poder da educação como meio de transformação. Só através dela se vislumbra melhores dias para o trânsito e a política.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

TAXAS DE FECUNDIDADE E TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL



TAXAS DE FECUNDIDADE E TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O Brasil, apesar de ainda ser um país subdesenvolvido – as desigualdades sociais são perturbadoras – traz algumas características típicas do Norte (países desenvolvidos). Uma delas é o flagrante decréscimo nas chamadas taxas de fecundidade (média do número de filhos durante a idade fértil da mulher). Na década de 1940, por exemplo, a referida taxa era superior a 6 (seis), baixando para 1,7 em 2010 e sendo esperado uma diminuição para 1,5 até o final da presente década. Daí podermos afirmar que o país está passando por uma “transição” demográfica, deixando de lado as altas taxas de fecundidade do passado em direção às baixas e, talvez, preocupantes taxas do presente. As causas para o “fenômeno” são inúmeras.

                Um dos fatores que ajuda a compreender a queda nas taxas de fecundidade no Brasil diz respeito ao processo de urbanização. O crescimento das cidades, suplantando as características rurais pretéritas, permitiu e ampliou – por exemplo – o acesso à informação e aos métodos anticonceptivos. Outro fator a ser levado em conta (no fundo, as causas aqui elencadas guardam relação entre si) está associado ao ingresso da mulher no mercado de trabalho (formal). Até a década de 1970, o número de mulheres trabalhadoras era ínfimo. O chamado “milagre brasileiro”, nome dado ao boom do parque industrial verde-amarelo, abriu um leque de oportunidades à mão-de-obra feminina. A mulher brasileira, seguindo uma tendência há algum tempo observada na Europa e Estados Unidos, cada vez mais foi abandonando o mero papel de “dona do lar”, passando a competir no mercado de trabalho, sob as lantejoulas do movimento feminista. Este, por sinal, foi outra causa que alavancou as profundas mudanças nas taxas de fecundidade. Novos paradigmas são adotados pela mulher brasileira em relação ao próprio corpo. A mulher deixa, aos poucos, de ser mera “procriadora” e passa a levantar a bandeira de que seu corpo lhe pertence – não ao marido e nem ao eventual bebê –, podendo dele dispor quando e da forma que achar melhor. Os “novos tempos”, na prática, acabam por trazer em seu bojo algumas consequências do ponto de vista demográfico. O estratosférico crescimento no número de abortos e uso de anticonceptivos passa a ser inversamente proporcional ao crescimento da população. Ora, parece ficar claro que, cada vez mais, a mulher passa a se dedicar à composição do orçamento doméstico, sendo a gravidez – para muitas das trabalhadoras – como que um “estorvo”, portanto indesejada. Apesar das críticas e posicionamentos de alguns setores da sociedade, como o da Igreja (católica, por exemplo), o certo é que os “valores culturais” trazidos pela dita (pós)modernidade têm se sobreposto aos “modelos” tradicionais de família.

                A flagrante e significativa queda nas taxas de fecundidade no Brasil traz algumas preocupações. Uma delas diz respeito àquilo que a ONU chama nível de “reposição”. Segundo a entidade, a taxa de fecundidade considerada ideal para “repor” a população é de 2,1. Portanto, o Brasil estaria fadado a ver sua população diminuir, relativamente, a médio e longo prazos. O que para alguns (adeptos do neomalthusianismo, por exemplo) pode parecer interessante, para outros deixa transparecer um problema. Não restaria comprometido, num futuro próximo, o fornecimento de mão-de-obra, por exemplo? Contudo, ao que parece, tão ou mais importante do que a reposição e garantia de braços trabalhadores, é a garantia de boa qualidade de vida para maioria de nossa gente. 

FROUXIDÃO PATERNA




FROUXIDÃO PATERNA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Pode haver algo pior do que uma criança mimada e mal-educada? Algo mais passível de crítica do que um adolescente estúpido, desobediente e avesso às regras, por mais importantes, necessárias e bem explicadas que sejam as mesmas? Pior é se deparar com pais que não exercem o papel que a vida e o ordenamento jurídico lhes reservaram. Pais frouxos. Pais que se deixam levar e amedrontar pelas caretas e ameaças dos menores. É o filho falar e “tá falado!”. Pais que não exercem a autoridade herdada e repassada ao longo de gerações. Pais que envergonham não apenas a estirpe, mas a própria história. Verdadeiros reféns de suas próprias criaturas. Pais que se dobram frente às manias dos pequenos ditadores, que se vergam diante das vontades e caprichos de quem – às vezes – mal sabe limpar o traseiro. Pais que buscam compensar com a omissão ou a condescendência, eventual ou permanente ausência. Pais que em troca de um minuto de atenção, entopem os mais novos com presentes e regalos de todo tipo. Pais que “negociam” a obediência de seus mancebos. Hoje “extorquem”, amanhã serão “extorquidos”. Hoje dão conta das aparências, amanhã o preço a ser pago pode ser alto por demais. Pais que, ao sonharem em criar filhos, criam monstros. Estes últimos, seres destituídos de afeto, respeito, honestidade, alteridade, solidariedade, responsabilidade... A frouxidão paterna tem sido algo comum. Nascida na família, dá os ares da graça na escola, no clube, nas rodas de amigos, nos estádios, nas festas. Como praga, corrói as estruturas da sociedade e apodrece as relações. Filhos mal criados (literalmente falando) põem em risco as próprias relações e as de outrem. Destroem vínculos, sepultam sonhos, enuvecem casamentos e afugentam a confiança. Muitas das peraltices que hoje para o incauto pai são graciosidades, amanhã serão tristes pesadelos. A frouxidão paterna tende a confundir adolescência e delinquência. Pais frouxos veem os abusos e excessos de seus tutelados como “vícios” da idade, acreditando ser deveras sem limite o espaço para a teimosia e o questionamento. Este, comedido, é aceitável, pois que necessário – às vezes – à formação do sujeito. Contudo, quando os caprichos da idade se sobrepõem a tudo e a todos, algo está errado. Entretanto, a frouxidão paterna entorpece os sentidos e feito catarata obscurece a visão. Torna o inaceitável em algo “natural”, o fétido em perfume e o absurdo em algo bom. A frouxidão paterna come à mesa com a apropriação indébita, a drogadição, a mentira, a preguiça, o desrespeito e toda sorte de malefícios. Exige-se postura firme de todos os que exercem a função paterna, sob o risco de engendrarmos seres mutilados do ponto de vista ético e condenáveis do ponto de vista social. 

Leia mais:
http://www.brasilsemgrades.org.br/ws/index.php?option=com_content&view=article&id=639:frouxidao-paterna-por-gilvan-andrade-teixeira&catid=46:artigos&Itemid=179

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

PALAVRA DO PROFESSOR (ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL EXTRACLASSE)



PALAVRA DE PROFESSOR

A indisciplina escolar no campo do Direito

Por Gilvan Teixeira*

A indisciplina escolar diz respeito à quebra dos princípios de convivência estabelecidos na escola, tendo causas intrínsecas e/ou extrínsecas. Além de questões clínicas, a indisciplina tem sua origem no contexto sociocultural em que o educando se insere. A família, a escola e a sociedade como um todo são, portanto, também responsáveis pelas posturas inadequadas hoje tão comuns no meio escolar. Pais omissos, ausentes, incapazes de servirem de modelo aos filhos; escolas fundadas em metodologias equivocadas, comprometendo não apenas o processo ensino-aprendizagem, mas sepultando sonhos e utopias e uma sociedade pautada num consumismo doentio e irresponsável que privilegia o “ter” e o “parecer” em detrimento da “essência” e do “ser”. O resultado disso tudo tem sido o preocupante crescimento da indisciplina, com profundas consequências sobre a aprendizagem e, sobretudo, sobre as relações no seio das instituições de ensino.

A indisciplina escolar tem contribuído para a “inflação legal”, ou seja, o aumento significativo do arcabouço jurídico nascido de iniciativas, às vezes, questionáveis do legislador, mas, também, oriundo de uma demanda crescente que tem colocado nos polos ativo e passivo pais, alunos e escolas. A “judicialização” de problemas já existentes ou levados para dentro das instituições de ensino, por vezes, é necessária, especialmente naqueles casos previstos em lei. Porém, o que se vê é a busca do Judiciário frente a demandas que poderiam ser resolvidas em outras instâncias, preferencialmente no âmbito da própria escola.

Assim, a capacidade de resolução de conflitos a partir do diálogo e, quem sabe, de uma justiça “restaurativa”, sucumbe frente à aparente – e quase sempre enganosa – “segurança jurídica” propiciada pelos tribunais. Todos perdem. Perde o próprio Judiciário, pois que já assoberbado pelas intermináveis pilhas de processos. Perdem a escola e as famílias, pois veem a oportunidade de tornar o conflito um momento pedagógico, de aprendizagem e crescimento, esvair-se em meio à desconfiança e acusações mútuas. Perde, sobretudo, o educando – seja ele o agressor ou o ofendido (ou ambos, como é muito comum...) – e, com ele, a esperança de se ter uma escola verdadeiramente preparada e voltada à formação de sujeitos mais solidários, felizes, sadios e comprometidos com o meio.

Portanto, a indisciplina escolar, enquanto problema a ser resolvido, é da responsabilidade de todos os atores da comunidade escolar. Exige-se dos pais uma paternidade/maternidade responsável, pautada num “amor exigente”. Exige-se do educador um “olhar viajante”. Exige-se da escola um espaço de acolhida e valorização da pessoa humana. Exige-se do educando respeito aos princípios de convivência construídos pelo e para o coletivo.

*Bacharel em Direito e professor de História e Geografia no Instituto de Educação São Francisco (Porto Alegre), Conselho Municipal de Educação (Cachoeirinha) e Escola Municipal de Ensino Fundamental Getúlio Vargas (EJA-Cachoeirinha).


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http://www.sinprors.org.br/extraclasse/ago12/palavra.asp
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