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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

DIRETRIZES: FOCO NA APRENDIZAGEM



DIRETRIZES: FOCO NA APRENDIZAGEM
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                As chamadas Diretrizes para o Ensino Fundamental de Nove Anos[1] construída ao longo de anos e consolidada na Resolução CME No 015/2012, representa um importante avanço no que tange ao olhar que se lança sobre a aprendizagem. Esta – e não a mera aprovação ou reprovação – passa a ser o centro das atenções. Parte-se da ideia de que todos aprendem, embora de formas e em tempos diferentes. O que deve merecer destaque não é a terminologia atribuída à nova organização curricular: módulos de aprendizagem. O que deve pautar a discussão e reflexão são os paradigmas existentes por detrás da iniciativa. A coletividade, representada pelo Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha, buscou acima de tudo garantir maior tempo tanto ao educando, para que o mesmo aprenda, quanto ao educador, para que este ensine. A Organização Modular busca, ainda, fomentar maior planejamento por parte dos professores, pois que passam a ser “solidários” uns para com os outros em relação ao processo ensino-aprendizagem. Na prática, isso significa que os educadores dos anos seguintes (finais, por exemplo) terão de sentar com os colegas dos anos anteriores, pois responderão solidariamente pela aprendizagem, ou não, do educando. Sepulta-se o trabalho pautado no individualismo, onde cada qual ficava no seu “quadrado”. Enquanto os educadores se digladiavam, jogando uns sobre os outros a culpa da não-aprendizagem da criança/adolescente, o educando ficava à mercê de sua sorte ou, o que era pior, acabava por se transformar no “vilão” de seu próprio infortúnio.

                A primeira grande mudança trazida pela Organização Modular de Aprendizagem diz respeito ao “tempo”. Este foi redimensionado. Antes, o educando tinha tão somente um ano letivo (na prática, cerca de nove meses...) para dar conta de aprender os conteúdos mínimos previstos no famigerado Plano de Estudos. O que para alguns alunos era tranquilo, para outros era fator de desespero e, por consequência, de fracasso escolar (reprovação). A nova Organização aumenta o tempo para 03 (três) anos, para que o aluno seja melhor trabalhado, para que seja utilizado o maior número possível de estratégias de aprendizagem voltadas ao sucesso de fato do educando. Mais do que uma questão de “Direito” (respaldado na Constituição Federal e em diversos outros diplomas legais), é uma questão de ética e de dignidade da pessoa humana. A escola só faz sentido se for capaz de ensinar. Assim como é inadmissível que o paciente seja dispensado pelo hospital antes de resolvido seu problema de saúde, da mesma forma é inadmissível que o educando seja “dispensado” (a reprovação por certo exclui...) da escola sem que aprenda. A reprovação escolar deve ser vista e comparada com a morte, portanto uma exceção, possível de acontecer, mas tratada como luto, eivada de tristeza e sentimento de perda. Infelizmente, contudo, não é o que se vê. Os índices de reprovação, especialmente nas escolas públicas (por quê?), só são menores do que a modorra que se mistura à omissão, passividade e indiferença. Reprova-se com naturalidade e quase desenvoltura. Levas e mais levas de educandos veem o futuro ser enterrado envolto às folhas de provas não raras vezes mal elaboradas e que nada atestam senão a incapacidade do professor e da escola de encontrarem saídas que promovam a aprendizagem.

                Outra importante mudança diz respeito à reprovação em si. Esta “só” poderá ocorrer ao final de cada módulo (três anos). Assim, por exemplo, o aluno que ingressa no 1o ano do Ensino Fundamental não poderá ser reprovado antes que alcance o 3o ano. Somente ao final deste último ano do módulo é que – caso se faça comprovadamente necessário – o educando poderá ser retido. Resta clara, portanto, a intenção do Conselho Municipal de Educação em lançar uma verdadeira e profunda mudança de paradigma e não simplesmente criar estratégias voltadas à redução dos índices de reprovação. Busca-se deslocar o foco da mera questão da “aprovação/reprovação” para uma outra, a da “aprendizagem”.

                As Diretrizes Municipais para o Ensino Fundamental de Nove Anos instigam as mudanças que há muito se fazem necessárias. Urge maior planejamento e estreitamento da comunicação entre todos os que respondem pelo processo ensino-aprendizagem, de forma especial, o corpo docente. O que se vê é uma enorme distância entre o espírito trazido na legislação hodierna e o cotidiano das instituições de ensino. Apesar dos avanços legais atinentes à tão decantada “gestão democrática” (seguida da descentralização financeira, do surgimento e fortalecimento dos Conselhos Escolares, etc.), a escola segue – salvo raras e louváveis exceções – com a mesma prática do mais longínquo passado. A comunidade só é lembrada e chamada à participação em situações excepcionalíssimas. Via de regra, os membros dos ditos “Conselhos” não passam de meros espectadores ou, o que não deixa de ser pior, espécie de “extensão” da Direção, incapazes de fazerem o contraponto indispensável à reflexão crítica, esta última matéria-prima das mudanças tão necessárias no âmbito da escola. Leva-se para dentro das instituições de ensino as mesmas práticas e vícios de seu entorno. Tem sido por demais comum a “partidarização” das relações intramuros. Negociatas, troca de favores, privilégios, confusão entre público e privado e toda espécie de mesquinhez tão criticadas em relação à política partidária neste município, estado e país, acabam por se fazer presentes também na esfera da escola. Portanto, não causa estranheza o preocupante afastamento da comunidade em relação às instituições de ensino. O “esvaziamento” e constante “rodízio” entre os componentes dos Conselhos Escolares são meros sintomas das práticas equivocadas levadas a cabo pelas escolas.

                A Resolução que trata das Diretrizes reforça a necessidade, portanto, do planejamento. A escola deve garantir o tempo e espaço necessários para que, por exemplo, o corpo docente estude, debata, avalie, construa de forma coletiva. Reuniões entre professores do mesmo módulo e de módulos distintos têm que ser uma constante. As questões pedagógicas devem se sobrepor às administrativas e o tempo disponibilizado ao planejamento do grupo deve se sobrepor ao individual. Portanto, há de se repensar sim questões como a da “hora atividade”. Esta não deve ser vista ou confundida com “folga”. O planejamento deve se dar é na escola, não em casa. Esta é local de descanso, enquanto a instituição de ensino é espaço para o trabalho e exercício responsável da função para a qual o servidor é remunerado. Mister é que as reuniões envolvendo o corpo docente sejam orientadas e acompanhadas pela Supervisão Escolar. Para tanto, indispensável é que os supervisores se qualifiquem e se instrumentalizem. O estudo e a pesquisa devem ser uma constante. O grupo docente deve ser instigado a falar, se posicionar e se comprometer. Exige-se resultados. Trabalho sem resultado é estéril, de nada vale. Os resultados devem, portanto, aparecer sob diversas formas: diminuição da infrequência e da evasão; diminuição da indisciplina; melhoria na aprendizagem; maior participação da comunidade; melhoria na saúde do profissional da educação com a consequente diminuição das faltas laborais; etc.

                As Diretrizes Municipais para o Ensino de Nove Anos – como já dito – busca realocar os holofotes, posicionando-os sobre a questão da aprendizagem. Por óbvio, não se quer olvidar a importância da questão aprovação/reprovação. Esta precisa sim ser discutida, contudo à luz de outros paradigmas que não aqueles que até então vêm ocupando a atenção. A reprovação precisa ser vista, primeiro, como uma exceção. Tratada como uma “anomalia”, portanto algo passível de despertar inúmeros cuidados para que não se repita. Infelizmente, não são poucos os professores que a usam como “instrumento” de pressão e de “pseudo-controle” contra a indisciplina escolar. Acreditam alguns que a ameaça de eventual reprovação sirva de estímulo para a melhoria do comportamento dos educandos e maior comprometimento da família. Triste engano. A experiência tem mostrado que seja a reprovação, seja sua “simples” ameaça, não traz os resultados pretendidos. Como toda punição ou como toda ameaça, ao ser banalizada (e hoje a reprovação é algo “banal”!), por certo não produz os efeitos desejados. Ao contrário, só faz desgastar e fragilizar as relações de afeto. Ora, a indisciplina escolar, por exemplo, precisa ser atacada, mas não através da reprovação. A indisciplina precisa ser entendida, compreendida em suas causas. Quando, onde, com quem ocorre? A quebra dos chamados princípios de convivência deve ser encarada como um problema a ser resolvido. Reprovar o educando significa atacar a pessoa do “agressor” e não sua conduta. Ora, é esta última que precisa ser combatida e banida! O aluno indisciplinado precisa ser cobrado e responsabilizado, mas acima de tudo ensinado (por isso está na escola...) e amado, respeitado como sujeito de direitos. O combate efetivo à indisciplina escolar passa por uma série de iniciativas. Deve haver clareza e publicização dos princípios de convivência. As regras estabelecidas (é bom que algumas delas sejam construídas) precisam ser pertinentes, coerentes e justas. É fundamental que se diminua significativamente a distância entre o discurso e a prática docentes (o professor deve cobrar pontualidade, mas ser pontual; deve exigir organização dos alunos, mas estar com seus cadernos de chamada em dia; pedir concentração dos educandos, mas mostrar-se mais atento e menos “tagarela” nas reuniões e encontros de formação...). A família precisa ser comunicada e, se necessário, chamada quando diante de atos de indisciplina. Não se fazendo presente, mister é que seja responsabilizada. As instituições de ensino precisam otimizar seus recursos, usar de suporte tecnológico no combate à indisciplina. Indispensável, ainda, é que haja o cuidado com os registros envolvendo alunos indisciplinados. Enfim, como se vê, muitas são as alternativas e caminhos para que a escola supere ou, ao menos, mitigue o problema da indisciplina, sem que lance mão da reprovação.

                A Resolução exarada pelo Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha, ao trazer a necessidade da aprendizagem para o centro das atenções, reafirma algumas certezas. Uma delas é a que diz respeito ao papel do ente público (representado pela Secretaria Municipal de Educação - SMEd) no processo de melhoria da qualidade do ensino, pressuposto indispensável a real e verdadeira aprendizagem. Primeiro, cabe à mantenedora criar mecanismos que contribuam para a assimilação do conteúdo trazido pela norma. As Equipes Diretivas (articuladas e auxiliadas pela Assessoria Pedagógica da SMEd) devem servir de “multiplicadores”, instigando os docentes em suas respectivas unidades de ensino a também se apropriarem das Diretrizes, em que pese o adiantado da hora. O momento, agora, já não é o da construção da norma, mas de sua operacionalização. O que fazer? Como fazer? Eis aí as perguntas e questionamentos a serem feitos. Apesar das eventuais críticas que venham a surgir – naturais, por sinal –, por parte da comunidade escolar (especialmente de alguns professores), cabe à Equipe Diretiva criar as condições necessárias para que as Diretrizes saiam do papel. As Propostas Político-Pedagógicas precisam ser construídas tendo por pano de fundo o regramento trazido pela Resolução.

                Ao Poder Público cabe, ainda, criar e garantir as condições físicas, estruturais e de recursos humanos necessárias à consecução da norma. O sucesso da empreitada passa necessária e obrigatoriamente pela qualificação profissional, pela melhoria e ampliação de alguns espaços junto às escolas, pela parceria da SMEd com outras Secretarias, pelo suporte financeiro e técnico às instituições de ensino, pela formação continuada, pela valorização salarial, pela presença constante da Assessoria junto às escolas, pelo diálogo permanente com as entidades de classe (SIMCA), pela oitiva da comunidade, entre outros. O momento requer soma de esforços e convicção em relação às decisões trazidas pela Resolução. Não se pode, agora, titubear. Exige-se compromisso, responsabilidade, profissionalismo e o trabalho de todos. O aluno merece!


[1] O texto é de inteira responsabilidade do autor, portanto não refletindo necessariamente a posição do Conselho Municipal de Educação de Cachoeirinha. 

domingo, 2 de setembro de 2012

O VERDADEIRO GRITO DO IPIRANGA



O VERDADEIRO GRITO DO IPIRANGA
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A cada semana da pátria é a mesma coisa. Vai-se de um extremo a outro. Discursos ufanistas de um lado, de outro, posições que menosprezam o passado em nome de um “esquerdismo” doentio e irresponsável. Nem oito, nem oitenta. Resgatar o passado, mesmo que inglório, é necessário, pois que dele podemos e devemos tirar lições. O pretérito ajuda na compreensão do presente. Este, por sua vez, é o passado do amanhã. O que somos hoje, em parte é produto do que fizeram nossos pais. Nossos filhos, da mesma forma, colherão muitos dos frutos – bons ou ruins – que hoje plantamos.

                A verdadeira independência de um país não é a que se ganha ou se compra nas prateleiras da história. A verdadeira independência não é a que nasce de um gesto, de um grito ou de um tratado de cor amarelada corroído pelas traças e pelo tempo. A verdadeira independência não é a que é “dada” pelos ditos heróis e mártires. Não é, menos ainda, a que se resume a frases de efeito em meio às cores de uma bandeira. A verdadeira independência é aquela que se constrói nas ações individuais e coletivas. É aquela que vai se constituindo no dia a dia. A verdadeira independência nasce e se consolida nas relações que entre nós se estabelecem. Num movimento dialético, germina e retorna sob distintas formas: honestidade, solidariedade, lealdade, ética, senso de justiça, alteridade, respeito, responsabilidade, compromisso com o coletivo. Sim, “independência” pensada e vivida sozinha não é verdadeira, não é altruísmo. É, isto sim, egoísmo.

                A verdadeira independência é aquela capaz de gerar paz social, segurança, trabalho e renda, educação, moradia, saúde, enfim... qualidade de vida. A independência que, de fato, precisamos não é a do tipo veiculado em livros e revistas, mas aquela que propicia dignidade à criança, ao jovem, ao homem, à mulher, ao idoso, a todos, independentemente do credo, etnia, opção política ou ideológica. A independência que se deseja é aquela capaz de transformar as estruturas da educação, da saúde, da segurança pública, do transporte coletivo. É aquela com o poder de separar o joio do trigo. A verdadeira independência é a que não se prostitui em meio à lama da corrupção, não é objeto de comércio e de negociatas. É a que gera cidadãos de fato, não meros personagens fictícios descritos nos diplomas legais. A independência sonhada é a que promove distribuição de renda e igualdade de oportunidades.

                A semana da pátria é um – apenas mais um – bom momento para reflexão acerca do Brasil que se tem e o país que se quer. A superação dos inúmeros e graves problemas políticos, econômicos e sociais passa necessariamente, também, pela escola e pela família. A esta cabe, por exemplo, criar e sedimentar valores, pautando-se num amor exigente. À escola, por sua vez, cabe ser um espaço privilegiado de construção do conhecimento e da cidadania, onde não apenas as ditas “ciências” sejam assimiladas, mas também os princípios que norteiam uma sociedade verdadeiramente independente.


Setembro de 2012.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

DROGAS, QUE DROGA DE MUNDO É ESTE?



DROGAS, QUE DROGA DE MUNDO É ESTE?
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Às vezes, me pego a invejar o velho Juca, meu avô há muito falecido. Não sabe ele do quanto a ida para a eternidade o livrou. Deixou este mundo numa época em que a palavra ainda valia alguma coisa. Numa época em que ainda se podia sair à rua depois do cair do sol. Numa época em que o homicídio, o roubo, o sequestro e a explosão de caixas eletrônicos (nem existiam...) não eram banalizados e, portanto, despertavam a atenção. Partiu para melhor (acredito!) numa época em que os partidos políticos – mesmo que sob o ranço da ditadura – diziam alguma coisa. Numa época em que o prazer vinha do contato dos corpos, do “dedinho” de canha, da vitória do time no grenal... Deixou este mundo numa época em que maconha era “porcaria” e quem a fumava, o fazia às escondidas.

                É... os tempos são outros. A vergonha parece já não dar as caras por aqui há muito tempo. Os limites, se é que existem, são demasiada e perigosamente largos e tênues. Pais e filhos, muito comumente, se confundem na aparência, nas funções, no vocabulário, na postura... Os primeiros são excessivamente imaturos, enquanto os últimos desafiadoramente prepotentes. O relativismo doentio se perde em meio a devaneios que não levam a nada. Discursos mal articulados e profundamente vazios. Na tentativa de se enquadrar no “politicamente correto”, esvaem-se convicções, princípios e valores. Se a moda é o lilás, todos de lilás. Se a onda é o arco-íris, ai de quem se posiciona de forma contrária. Teme-se parecer “ultrapassado”. Vive-se num tempo em que a horizontalização das relações põe em xeque a hierarquia. Com esta, tende à extinção o respeito e o próprio sentido da família, por exemplo. Mentiras são postas como verdades nos mais diversos meios de comunicação. Ontem, inaceitáveis, hoje vistas com bons olhos.

                Como cidadão, pai e educador que sou, me vejo na obrigação moral e ética de anunciar de maneira inconteste minha posição contrária a qualquer tentativa de legalização ou – para os que se acovardam em deixar clara sua posição – regulamentação no uso da maconha. Sou contrário, ainda, a qualquer iniciativa que vise atenuar as sanções aplicáveis ao tráfico de drogas, independentemente de quem nele esteja envolvido, menor ou não. Triste e pérfida tendência é a que se vê prosperar por aqui. O Estado (todos os poderes e esferas) tem, historicamente, buscado esconder sua inoperância, ineficiência e incompetência por detrás de iniciativas aparentemente alinhadas aos “ventos” pretensamente modernos oriundos do Velho Mundo. O Judiciário, por exemplo, sob o olhar complacente dos outros poderes, “resolve” o problema da superlotação dos presídios impedindo novas prisões e/ou “relaxando” a prisão dos até então trancafiados. O Executivo, por sua vez, leva o problema com a barriga, fazendo puxadinho aqui, outro acolá, sem mexer na questão estrutural do sistema prisional. Este segue “pós-graduando” criminosos, os bestializando e os segregando cada vez mais. Além de caro, é um modelo (que modelo?) comprovadamente equivocado. O Legislativo, como é sabido, não enxerga além do próprio umbigo, afundado que está em escândalos e embebido em meio a discursos que tem as moscas por única plateia.

                Convive-se, no Brasil de hoje, com um “garantismo” penal que, não raras vezes, mostra-se permissivo frente às práticas delituosas. No afã de sair em defesa dos famigerados “direitos humanos”, se comete exageros. Há como que uma inversão de valores, onde o criminoso se torna vítima. O resultado não podia ser diferente: aumento da insegurança e do sentimento de impunidade. O Estado faz lembrar um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Seria cômico, não fosse o elevado custo social, político e econômico que tamanha insanidade representa. A liberação/regulamentação no uso da maconha, assim como a atenuação em relação às sanções contra os que traficam, especialmente os “menores”, em nada contribui seja para a diminuição, seja para a solução do problema da criminalidade como um todo ou da drogadição de maneira particular. Ao contrário, o afrouxamento no que tange a tais ilícitos tende a aguçá-los ainda mais. É sabido o que significam o tráfico e o consumo de entorpecentes – o primeiro não vive sem o segundo – para a sociedade que está a cheirar mal, dado a violência e o desregramento existentes.

                A droga faz mal. Não apenas entorpece e faz delirar, mas embrutece. Desumaniza e corrói o tecido social. Destrói famílias e relações. Compromete a produção e põe a perder qualquer tentativa de superação. Afugenta a esperança e anuvia o futuro. Alimenta o crime e subnutre a alma. Cria falsas sensações e rouba o sentido do real. Ludibria o cérebro e faz perder a confiança no ser humano. Faz chorar o pai, e entristece o coração da mãe. Extorque a infância e faz brotar, precocemente, o cheiro da morte. Assim, o uso de entorpecentes e o tráfico de drogas devem ser combatidos. Quem trafica deve ser severa e exemplarmente punido. Quem usa, deve ser urgente e prontamente socorrido e tratado. Soa como irresponsável, doentia e profundamente diabólica qualquer intenção de tornar o consumo da maconha algo “natural” e aceitável. Não se pode, em nome de um prazer fugaz, colocar sob risco a vida e a saúde física e mental de pessoas. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

RETENÇÃO E APROVAÇÃO AUTOMÁTICA, AS DUAS FACES DO FRACASSO ESCOLAR



RETENÇÃO E APROVAÇÃO AUTOMÁTICA, AS DUAS FACES DO FRACASSO ESCOLAR
Gilvan Teixeira
e-mail: profpreto@gmail.com
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Cachoeirinha, assim como outros tantos municípios, vem discutindo saídas para o sério problema do ensino, seja ele público ou privado. Quais são as razões para a não-aprendizagem? Por certo, são inúmeras e complexas. Vive-se hoje numa sociedade excessivamente hedonista, avessa à frustração, onde a busca do prazer – preferencialmente fácil e com o menor custo possível – entorpece os sentidos e a percepção do mundo real. A superficialidade tão comum nas relações guarda profunda relação com a cultura do descarte. Os fast-food invadem não apenas as mesas, mas acabam por impregnar muitos outros hábitos. Troca-se de companheiro como quem troca de roupa. Coleciona-se “amigos” como quem junta figurinhas, quase sempre sem nenhum vínculo afetivo. A lista deles cresce na mesma medida da solidão. Nossas crianças e jovens, cada vez mais, se entopem de coca-cola e se dopam com ritalina. Os casos de hiperatividade e de déficit de atenção crescem na mesma velocidade dos “novos” lançamentos da indústria da informática. O que têm de rápidas no movimento das teclas e joystiks, as novas gerações têm de lerdas na capacidade de concentração e memorização. São levas e levas de crianças e adolescentes mórbidos, comprometidas em sua desenvoltura motora e inaptas frente às intempéries da vida. Demonstram dificuldade frente ao “não” e, quando diante dos mais simples obstáculos, dão de ré ou – o que não deixa de ser pior – acham alguns caminhos mais curtos para a falsa e aparente solução dos problemas, mesmo que tais “atalhos” violem a ética, a moral e os princípios mais elementares do convívio social.
                O fracasso do ensino passa, também, pela omissão das famílias. Pela omissão e pela ação muitas vezes equivocada frente à escola. A participação da família na vida escolar do educando tem sido pífia. As alegações são inúmeras: falta de tempo, horários desencontrados, resistência dos filhos, descontentamento com a direção da escola, entre tantos outros. O resultado tem sido trágico. Apesar dos flagrantes avanços normativos associados à democratização da gestão da escola pública (Conselhos Escolares, descentralização financeira, grêmios estudantis, etc.), cada vez mais a instituição de ensino se afasta da família e vice-versa. Via de regra, a comunidade só adentra pelos muros da escola esporadicamente, nos eventos previstos no calendário. O que deveria ser uma prática cotidiana é exceção. A comunidade só se faz representar quando da coleta de algumas parcas moedas que ajudam a engrossar o apertado orçamento das instituições escolares. Onde está a comunidade quando da construção da Proposta Político-Pedagógica? O que dizer da participação dos pais quando da discussão de temas como avaliação, metodologias de ensino, expectativas de aprendizagem, flexibilização curricular, frequência, estratégias de recuperação, disciplina, gestão democrática e tantas outras? As famílias precisam ser convencidas da importância e responsabilidade que têm no processo ensino-aprendizagem. Cabe aos pais acompanhar a vida escolar de seus filhos. A escola precisa posicionar-se frente à inércia de algumas famílias, responsabilizando-as, caso necessário.
                A contestável qualidade do ensino ofertado é resultante também da prática docente, esta não raras vezes ultrapassada e completamente dissociada do contexto do educando. Conteúdos vazios, mal trabalhados e completamente destituídos de sentido para a vida. Contudo, o que mais preocupa é a falta de “vínculo” entre educador e educando. Tem sido comum no ambiente da escola a formação de fronts. Professores de um lado, alunos de outro. Os primeiros acusam os educandos de serem irresponsáveis, indisciplinados, não dados ao estudo, e por aí vai. Os alunos, por sua vez, dizem que os professores são rabugentos, injustos, ultrapassados, etecetera e tal. A quem compete buscar saídas para o impasse que se estabelece, senão ao adulto (professor)? Os discursos acima precisam ser superados. A questão é: como o aluno aprende? Como fazer para que aprenda? Apesar de aparentemente fácil, tais questionamentos têm mostrado o quanto a escola necessita avançar, tanto do ponto de vista do discurso, quanto – e principalmente – da prática. Exemplo disso são os temas envolvendo “retenção” (reprovação) e, no outro extremo, “aprovação automática”.
                Reter o educando é garantia de sucesso no ano vindouro? Aprenderá o aluno com a própria reprovação? A experiência tem mostrado que, em regra, a resposta é uma só: não! Ao contrário, o aluno que reprova a primeira vez tende a seguir reprovando, seja de forma sequencial ou intermitente. Acaba por se tornar um aluno dito “multirrepetente”.  O que mais chama atenção é que, ironicamente, é esse aluno que irá compor o público da Educação de Jovens e Adultos (EJA), às vezes, da própria escola que o reprovou. Trocando em miúdos, a instituição de ensino acaba “transferindo” o problema de turno, sem resolvê-lo. Alguns professores veem – sem, obviamente, admitir –, ainda, a reprovação, ou sua ameaça, como uma importante “arma” para conter a indisciplina e o descomprometimento. Buscam controlar o aluno e a turma a partir de uma estratégia que, comprovadamente, se mostra equivocada. Questões disciplinares precisam ser resolvidas com o exercício da autoridade e a formação de vínculos. Recorrer à retenção, ou mesmo que sua ameaça, em nada contribui no processo ensino-aprendizagem e muito menos na melhoria das relações no ambiente escolar. Ao contrário, só as tencionam negativamente. O uso da reprovação como instrumento de “vingança” – mais parecendo a Lei do Talião – só faz recrudescer o descrédito em relação à figura do educador, trazendo indelével prejuízo ao ensino. A reprovação significa o fracasso não apenas do aluno, mas de sua família, do educador, da escola, do Estado... Todos perdem com ela. Ninguém, ninguém mesmo, ganha com ela. O Rio Grande do Sul, mesmo sendo o estado da federação que mais reprova, ainda assim amarga uma triste e vexatória posição no ranking relacionado à qualidade de ensino no país. A retenção compromete e põe a perder não apenas volumosos recursos financeiros, mas o futuro de muitas crianças e jovens. Representa uma marca indelével para toda vida.
                Por outro lado, tão danosa quanto a reprovação é a “aprovação automática”. Ambas beiram a irresponsabilidade e trazem inúmeros prejuízos não apenas aos sujeitos envolvidos (professor, aluno, família, escola), mas à sociedade como um todo. O educando precisa aprender, eis a questão. Para tanto, é fundamental uma ação que seja, de fato, coletiva. Simplesmente aprovar o aluno e ascende-lo aos anos posteriores, como forma de dar conta de um texto legal e/ou de melhorar os índices oficiais é, no mínimo, pouco inteligente, para não dizer inaceitável. Até porque, por certo, a vida cobrará logo ali adiante o devido preparo dos egressos dos bancos escolares. O mercado, por exemplo, – ao contrário do jogo de aparências tão comum no ambiente escolar – é cruel e taxativo, dispensando aqueles que não respondem às exigências, mesmo que rodeados de certificados. Portanto, eventual aprovação sem respaldo num verdadeiro aprendizado soa, também, como fracasso. Optar por modelos que deem conta apenas das “aparências” é, portanto, temerário.
                O fracasso escolar deve ser séria e urgentemente atacado, pois feito câncer corrói o próprio sentido da escola. Esta existe para aprender e ensinar. Só faz sentido se for capaz de humanizar as relações, de instigar os sentidos, de produzir conhecimento. Cabe à escola o papel de salvaguardar sonhos e utopias. Cabe a ela contribuir na formação de verdadeiros cidadãos, homens e mulheres de bem, comprometidos com o meio. A superação do fracasso escolar passa pelo papel da família, do educando, do educador, do ente púbico. Este precisa não apenas alocar mais recursos para a educação, mas otimizá-los. Precisa promover avaliações criteriosas em relação ao trabalho desenvolvido pelas instituições de ensino, coletando dados, mas principalmente usando-os com o objetivo de sanar dificuldades e melhorar a qualidade do serviço. A melhoria na qualidade do ensino passa, ainda, pela formação continuada do corpo docente e pela valorização salarial. O educador precisa ser cobrado, mas devida e dignamente remunerado. Espaço para pesquisa e planejamento deve ser garantido aos que se dedicam à árdua tarefa de ensinar. O corporativismo que hoje, por vezes, esconde a incompetência e o mau exercício da profissão, deve ceder lugar ao trabalho em equipe.
                Conclui-se, portanto, que o processo ensino-aprendizagem requer um olhar cuidadoso, fundado no amor, no profissionalismo, na competência e, sobretudo, na convicção de que todos aprendem, mesmo que em tempo e forma diferentes.

Leia mais: http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=artigos_interna&id=17721

COTAS RACIAIS: INFERIORIZAÇÃO OU INFERIORIDADE?



Cotas Raciais: Inferiorização ou Inferioridade?

                A exploração indígena e, posteriormente, negra africana fazem parte do processo de colonização do Brasil. Ambas foram abolidas, a segunda um século após a primeira. Apesar da liberdade, não foram providenciadas medidas de integração social para negros e indígenas. Mais de 120 anos depois da lei Áurea, a discriminação racial ainda é refletida no comportamento brasileiro.
                A maior parte da população negra e indígena do país ocupa posições subalternas. O racismo, ainda com forte influência em certos grupos, reflete uma maior dificuldade na inserção no mercado de trabalho. Esses indivíduos de baixa renda geram filhos com escolaridade precária, mão de obra desqualificada e oportunidades de emprego escassas, criando um ciclo da pobreza. Segundo dados do IBGE do ano de 2010, os rendimentos médios mensais de brancos (R$: 1538,00) se aproximam do dobro do valor relativo aos grupos de negros (R$: 834,00), pardos (R$: 845,00) ou indígenas (R$: 735,00).
                Segundo o filósofo Aristóteles em “Ética a Nicômaco”, “A equidade, ao contrário, por sua própria natureza, visa corrigir a lei quando esta se demonstra incompleta, para abarcar o caso especial e concreto, que foge à aplicação genérica.” Para ele, a minoria deve ser tratada de modo especial e diferenciada da maioria, com direitos e oportunidades asseguradas.
                Fica evidente a dívida que o país tem historicamente com ambas as etnias. É dever do governo auxiliar a todos, de modo simultâneo a superação de problemas e a ruptura de paradigmas sociais como o de que negros são inferiores. As desigualdades socioeconômicas brasileiras demonstram a emergência por um sistema como o de cotas. É impossível tratar de maneira igualitária realidades tão desiguais.

Nome: Maiara Preissler
Turma: 32
Obs: Esse texto garantiu a seleção para a primeira fase do Concurso Cultural Redação ZH – Unificado e uma bolsa de 50% para o Unificado Pré-Vestibular. 

             O texto acima é da responsabilidade do(a) autor(a). 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012



VIDA, TAMBÉM NA POLÍTICA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Trânsito e política, eis aí duas questões que guardam entre si inúmeras semelhanças, até porque faces de uma mesma moeda. Enquanto o primeiro ceifa vidas, a segunda sepulta sonhos. No fundo, o problema não está nem no trânsito e nem tampouco na política. Está, isto sim, na forma como as relações se travam tanto num quanto na outra. Ambos têm como pano de fundo – do mesmo tecido que envolve os corpos gélidos depositados ao fundo dos esquifes – a insensatez, o desrespeito, a superficialidade e o descaso em relação a outrem. Lançar sobre o trânsito ou sobre a política a culpa em relação aos disparates e excessos hoje tão comuns – nem por isso, normais ou dignos de aquiescência – é, no mínimo, pecar pela ingenuidade. É dar respostas simplistas para questões complexas. Trânsito e política são produtos de uma história. São construções e realizações humanas. Representam a nossa “cara”. Cada comunidade tem o trânsito e a política que, de alguma forma, fez e faz por merecer. O caos que atormenta condutores e pedestres é da mesma estirpe que alimenta a indiferença em relação ao interesse público. Os “jeitinhos” e “malandragens” tão conhecidos no trânsito, que para alguns é sinônimo de orgulho junto a amigos e familiares, têm a mesma raiz das práticas abomináveis a confundirem o público e o privado. O corpo estendido na estrada não difere muito daquele outro, jogado às traças nos hospitais ou presídios. A foice da morte que atinge famílias inteiras nas estradas é a mesma que alcança crianças, jovens, adultos e idosos, todos esquecidos por um Estado caro, incompetente, inoperante e corrupto. Tanto num caso como no outro paga-se caro, muito caro, sem qualquer espécie de retorno. Seja no trânsito ou na política, sobram teorias e discursos, faltam iniciativas e resultados efetivos.
                A capital dos gaúchos precisa, urgentemente, de vida. Sim, vida no trânsito e na política. Espero que o espírito que move algumas louváveis iniciativas da sociedade civil organizada, seja o mesmo a mover a candidatura daqueles que pleiteiam um assento junto à chamada Casa do Povo. O Legislativo Municipal precisa ser sacudido por mudanças capazes de fermentarem ações que criem novos paradigmas e modelos na forma de pensar e agir de todos os munícipes. Mudanças que ultrapassem a fina casca das aparências. Transformações que redundem e se traduzam em respeito, sobretudo, às pessoas. Ao respeitá-las, como doce consequência, vem a reboque o respeito a tudo o mais: à natureza, aos prédios e monumentos públicos, às tradições, à propriedade alheia, etc. Torço para que as ideias de homens como o Serginho Neglia vinguem e deem frutos, muitos frutos. Como ele, acredito no poder da educação como meio de transformação. Só através dela se vislumbra melhores dias para o trânsito e a política.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

TAXAS DE FECUNDIDADE E TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL



TAXAS DE FECUNDIDADE E TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O Brasil, apesar de ainda ser um país subdesenvolvido – as desigualdades sociais são perturbadoras – traz algumas características típicas do Norte (países desenvolvidos). Uma delas é o flagrante decréscimo nas chamadas taxas de fecundidade (média do número de filhos durante a idade fértil da mulher). Na década de 1940, por exemplo, a referida taxa era superior a 6 (seis), baixando para 1,7 em 2010 e sendo esperado uma diminuição para 1,5 até o final da presente década. Daí podermos afirmar que o país está passando por uma “transição” demográfica, deixando de lado as altas taxas de fecundidade do passado em direção às baixas e, talvez, preocupantes taxas do presente. As causas para o “fenômeno” são inúmeras.

                Um dos fatores que ajuda a compreender a queda nas taxas de fecundidade no Brasil diz respeito ao processo de urbanização. O crescimento das cidades, suplantando as características rurais pretéritas, permitiu e ampliou – por exemplo – o acesso à informação e aos métodos anticonceptivos. Outro fator a ser levado em conta (no fundo, as causas aqui elencadas guardam relação entre si) está associado ao ingresso da mulher no mercado de trabalho (formal). Até a década de 1970, o número de mulheres trabalhadoras era ínfimo. O chamado “milagre brasileiro”, nome dado ao boom do parque industrial verde-amarelo, abriu um leque de oportunidades à mão-de-obra feminina. A mulher brasileira, seguindo uma tendência há algum tempo observada na Europa e Estados Unidos, cada vez mais foi abandonando o mero papel de “dona do lar”, passando a competir no mercado de trabalho, sob as lantejoulas do movimento feminista. Este, por sinal, foi outra causa que alavancou as profundas mudanças nas taxas de fecundidade. Novos paradigmas são adotados pela mulher brasileira em relação ao próprio corpo. A mulher deixa, aos poucos, de ser mera “procriadora” e passa a levantar a bandeira de que seu corpo lhe pertence – não ao marido e nem ao eventual bebê –, podendo dele dispor quando e da forma que achar melhor. Os “novos tempos”, na prática, acabam por trazer em seu bojo algumas consequências do ponto de vista demográfico. O estratosférico crescimento no número de abortos e uso de anticonceptivos passa a ser inversamente proporcional ao crescimento da população. Ora, parece ficar claro que, cada vez mais, a mulher passa a se dedicar à composição do orçamento doméstico, sendo a gravidez – para muitas das trabalhadoras – como que um “estorvo”, portanto indesejada. Apesar das críticas e posicionamentos de alguns setores da sociedade, como o da Igreja (católica, por exemplo), o certo é que os “valores culturais” trazidos pela dita (pós)modernidade têm se sobreposto aos “modelos” tradicionais de família.

                A flagrante e significativa queda nas taxas de fecundidade no Brasil traz algumas preocupações. Uma delas diz respeito àquilo que a ONU chama nível de “reposição”. Segundo a entidade, a taxa de fecundidade considerada ideal para “repor” a população é de 2,1. Portanto, o Brasil estaria fadado a ver sua população diminuir, relativamente, a médio e longo prazos. O que para alguns (adeptos do neomalthusianismo, por exemplo) pode parecer interessante, para outros deixa transparecer um problema. Não restaria comprometido, num futuro próximo, o fornecimento de mão-de-obra, por exemplo? Contudo, ao que parece, tão ou mais importante do que a reposição e garantia de braços trabalhadores, é a garantia de boa qualidade de vida para maioria de nossa gente. 

FROUXIDÃO PATERNA




FROUXIDÃO PATERNA
Gilvan
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                Pode haver algo pior do que uma criança mimada e mal-educada? Algo mais passível de crítica do que um adolescente estúpido, desobediente e avesso às regras, por mais importantes, necessárias e bem explicadas que sejam as mesmas? Pior é se deparar com pais que não exercem o papel que a vida e o ordenamento jurídico lhes reservaram. Pais frouxos. Pais que se deixam levar e amedrontar pelas caretas e ameaças dos menores. É o filho falar e “tá falado!”. Pais que não exercem a autoridade herdada e repassada ao longo de gerações. Pais que envergonham não apenas a estirpe, mas a própria história. Verdadeiros reféns de suas próprias criaturas. Pais que se dobram frente às manias dos pequenos ditadores, que se vergam diante das vontades e caprichos de quem – às vezes – mal sabe limpar o traseiro. Pais que buscam compensar com a omissão ou a condescendência, eventual ou permanente ausência. Pais que em troca de um minuto de atenção, entopem os mais novos com presentes e regalos de todo tipo. Pais que “negociam” a obediência de seus mancebos. Hoje “extorquem”, amanhã serão “extorquidos”. Hoje dão conta das aparências, amanhã o preço a ser pago pode ser alto por demais. Pais que, ao sonharem em criar filhos, criam monstros. Estes últimos, seres destituídos de afeto, respeito, honestidade, alteridade, solidariedade, responsabilidade... A frouxidão paterna tem sido algo comum. Nascida na família, dá os ares da graça na escola, no clube, nas rodas de amigos, nos estádios, nas festas. Como praga, corrói as estruturas da sociedade e apodrece as relações. Filhos mal criados (literalmente falando) põem em risco as próprias relações e as de outrem. Destroem vínculos, sepultam sonhos, enuvecem casamentos e afugentam a confiança. Muitas das peraltices que hoje para o incauto pai são graciosidades, amanhã serão tristes pesadelos. A frouxidão paterna tende a confundir adolescência e delinquência. Pais frouxos veem os abusos e excessos de seus tutelados como “vícios” da idade, acreditando ser deveras sem limite o espaço para a teimosia e o questionamento. Este, comedido, é aceitável, pois que necessário – às vezes – à formação do sujeito. Contudo, quando os caprichos da idade se sobrepõem a tudo e a todos, algo está errado. Entretanto, a frouxidão paterna entorpece os sentidos e feito catarata obscurece a visão. Torna o inaceitável em algo “natural”, o fétido em perfume e o absurdo em algo bom. A frouxidão paterna come à mesa com a apropriação indébita, a drogadição, a mentira, a preguiça, o desrespeito e toda sorte de malefícios. Exige-se postura firme de todos os que exercem a função paterna, sob o risco de engendrarmos seres mutilados do ponto de vista ético e condenáveis do ponto de vista social. 

Leia mais:
http://www.brasilsemgrades.org.br/ws/index.php?option=com_content&view=article&id=639:frouxidao-paterna-por-gilvan-andrade-teixeira&catid=46:artigos&Itemid=179

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

PALAVRA DO PROFESSOR (ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL EXTRACLASSE)



PALAVRA DE PROFESSOR

A indisciplina escolar no campo do Direito

Por Gilvan Teixeira*

A indisciplina escolar diz respeito à quebra dos princípios de convivência estabelecidos na escola, tendo causas intrínsecas e/ou extrínsecas. Além de questões clínicas, a indisciplina tem sua origem no contexto sociocultural em que o educando se insere. A família, a escola e a sociedade como um todo são, portanto, também responsáveis pelas posturas inadequadas hoje tão comuns no meio escolar. Pais omissos, ausentes, incapazes de servirem de modelo aos filhos; escolas fundadas em metodologias equivocadas, comprometendo não apenas o processo ensino-aprendizagem, mas sepultando sonhos e utopias e uma sociedade pautada num consumismo doentio e irresponsável que privilegia o “ter” e o “parecer” em detrimento da “essência” e do “ser”. O resultado disso tudo tem sido o preocupante crescimento da indisciplina, com profundas consequências sobre a aprendizagem e, sobretudo, sobre as relações no seio das instituições de ensino.

A indisciplina escolar tem contribuído para a “inflação legal”, ou seja, o aumento significativo do arcabouço jurídico nascido de iniciativas, às vezes, questionáveis do legislador, mas, também, oriundo de uma demanda crescente que tem colocado nos polos ativo e passivo pais, alunos e escolas. A “judicialização” de problemas já existentes ou levados para dentro das instituições de ensino, por vezes, é necessária, especialmente naqueles casos previstos em lei. Porém, o que se vê é a busca do Judiciário frente a demandas que poderiam ser resolvidas em outras instâncias, preferencialmente no âmbito da própria escola.

Assim, a capacidade de resolução de conflitos a partir do diálogo e, quem sabe, de uma justiça “restaurativa”, sucumbe frente à aparente – e quase sempre enganosa – “segurança jurídica” propiciada pelos tribunais. Todos perdem. Perde o próprio Judiciário, pois que já assoberbado pelas intermináveis pilhas de processos. Perdem a escola e as famílias, pois veem a oportunidade de tornar o conflito um momento pedagógico, de aprendizagem e crescimento, esvair-se em meio à desconfiança e acusações mútuas. Perde, sobretudo, o educando – seja ele o agressor ou o ofendido (ou ambos, como é muito comum...) – e, com ele, a esperança de se ter uma escola verdadeiramente preparada e voltada à formação de sujeitos mais solidários, felizes, sadios e comprometidos com o meio.

Portanto, a indisciplina escolar, enquanto problema a ser resolvido, é da responsabilidade de todos os atores da comunidade escolar. Exige-se dos pais uma paternidade/maternidade responsável, pautada num “amor exigente”. Exige-se do educador um “olhar viajante”. Exige-se da escola um espaço de acolhida e valorização da pessoa humana. Exige-se do educando respeito aos princípios de convivência construídos pelo e para o coletivo.

*Bacharel em Direito e professor de História e Geografia no Instituto de Educação São Francisco (Porto Alegre), Conselho Municipal de Educação (Cachoeirinha) e Escola Municipal de Ensino Fundamental Getúlio Vargas (EJA-Cachoeirinha).


Leia mais:
http://www.sinprors.org.br/extraclasse/ago12/palavra.asp
http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=b993123f0a26c839222ac40c81af0a6c

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

MAU USO DOS MEIOS ELETRÔNICOS: APONTANDO RESPONSABILIDADES



MAU USO DOS MEIOS ELETRÔNICOS: APONTANDO RESPONSABILIDADES
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                A modernidade tem trazido inegáveis avanços no bojo da chamada Globalização. Os meios de comunicação representam hoje um extraordinário mundo de oportunidades e informações. As fronteiras físicas há algum tempo vêm sendo suplantadas e as distâncias vencidas, por maiores que sejam. A internet, por exemplo, vem se transformando no principal canal de comunicação entre os mais distintos matizes culturais, étnicos, sociais, econômicos... As chamadas “comunidades” crescem numa velocidade vertiginosa. Facebook, twitter, orkut e tantas outras criações associadas aos chamado mundo virtual vêm se constituindo em fantásticas “janelas” para o mundo. Contudo, por paradoxal que possa parecer, tais avanços ao mesmo tempo em que facilitam a comunicação, a precarizam. Além de superficiais, em regra, os diálogos que povoam as “redes sociais” estão marcados pelo mais profundo vazio existencial, acometidos de uma doentia superficialidade e estéreis do ponto de vista do conteúdo e dos princípios mais elementares. Escreve-se mal. Peca-se não apenas nas letras, pontos e acentos, mas sobretudo nos tratamentos dispensados aos pares. Alega-se que a linguagem da internet deve ser respeitada e aceita como um “idioma” paralelo, próprio desta conjuntura. O problema é quando tal “linguagem” vem não para somar, mas para substituir aquela outra, a culta.

                O advento das “redes sociais” tem trazido, também, inúmeras dificuldades no que tange às relações pessoais que tangenciam a Escola. Esta última tem sido palco, não raras vezes, de discussões e brigas nascidas de “postagens” equivocadas, irresponsáveis e, por que não dizer, às vezes, infratoras. Ofensas, ameaças, práticas de bullying têm sido comuns. Jovens mal resolvidos fazem das redes sociais terreno fértil para expressões preconceituosas. Adolescentes sem limites se escondem por detrás do aparente anonimato dos meios eletrônicos. Crianças mimadas lançam na internet tristes sementes que, ali adiante, produzirão os frutos podres do desrespeito, da desobediência, da depredação, do vandalismo e da indiferença frente ao sofrimento alheio. Adolescência não pode ser jamais confundida com delinquência. Por certo, há limite para eventuais rompantes dos jovens. Ignorá-lo é alimentar o triste, vergonhoso e condenável quadro dos delitos, estes cada vez mais precoces e não menos incomuns.

                Urge maior cuidado em relação ao uso dos meios eletrônicos, em especial as redes sociais. Maior cuidado por parte não apenas das crianças e adolescentes, usuários de fato, mas também e, talvez, sobretudo, dos pais ou responsáveis. A estes cabe zelar por aquilo que diz respeito aos rebentos. Têm os pais responsabilidade moral e jurídica em relação à prole. Portanto, deve restar claro que os pais têm não apenas o direito, mas a obrigação de regrar e fiscalizar o uso da internet por parte dos filhos menores, sob o risco de serem surpreendidos por demandas judiciais, por exemplo. Têm sido frequentes ações envolvendo menores, ações estas que não raras vezes desembocam na aplicação de medidas socioeducativas e/ou pagamento de indenizações. Somadas ao prejuízo financeiro, se tem outras espécies de consequências, muito mais graves, como a quebra da confiança e harmonia familiares, abalo das relações sociais, entre outras.

                No que tange às crianças e, principalmente adolescentes (doze aos dezoito anos), ressalta-se a necessidade de que se desmistifique a ideia da escassez ou inexistência de sanções para atos praticados por menores. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tem cunho “protetivo”, não “permissivo”. Busca tutelar direito do menor, jamais sua conduta repreensível. Prova disso são as chamadas medidas socioeducativas, estas aplicáveis para aqueles casos que, no mundo dos adultos, se constitui em crime. Portanto, atos infracionais praticados por adolescentes não passam incólume. Os juizados e tribunais têm, cada vez mais, sido intolerantes com atos praticados por menores. Não diferente tem sido o sentimento de outros segmentos e instituições da sociedade como, por exemplo, a escola.  Mister é que a sensação de impunidade seja substituída pelo sentimento de justiça, de respeito à coletividade e de obediência ao ordenamento, desde que justo e democrático. 

Leia mais: 
http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=newsletter&idNews=17579&idPai=554&id=17580
http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=49c838dff706849fd4963dea78200049

quarta-feira, 18 de julho de 2012

ELLES


ELLES
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


            É por ELES que o corpo cansado teima em labutar sessenta horas. Por ELES, abre-se mão do aconchego da família, do lazer, da gostosa boemia tendo as estrelas por pano de fundo. Por ELES, insiste-se nesta profissão espezinhada pela história recente e ridicularizada pelos ignóbeis e vexatórios salários. Por ELES, toma-se o coletivo abarrotado de gado-humano, como que para o abate. Por ELES, enfrenta-se o mau humor e incompreensão de alguns pais, bem como o pessimismo às vezes doentio que invade a sala dos professores. Por ELES, embate-se contra políticas públicas equivocadas que buscam salvar as aparências, através de números e índices “positivos”, em detrimento de uma qualidade eficaz e duradoura. Por ELES, luta-se contra os pruridos do corpo e as dores da alma. Por ELES, se posterga sonhos, mesmo sob o alto risco de serem enterrados, por vezes, antes de nosso corpo. Por ELES, afina-se o discurso, mesmo que diante de uma realidade hostil e com cara de poucos amigos. Por ELES, acredita-se num futuro que teima em não chegar. Por ELES, deixa-se o passado e todas as agruras dos anos letivos pretéritos, abrindo espaço para a esperança, talvez ingênua, de dias melhores. Por ELES, faz-se vistas grossas à indisciplina que, de maneira não tão incomum, ganha terreno por entre os muros da escola. Por ELES, paciente e estoicamente passa-se o tempo, que não se tem, em meio a uma plateia quando dos encontros e seminários. Por ELES, se ouve blasfêmias e impropérios e sela-se a voz do coração. Por ELES, é-se eterno pescador de almas. Parabéns ELLES por ser um deles.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

O GRÃO DE MOSTARDA


O GRÃO DE MOSTARDA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

               

                Quem não conhece a parábola bíblica do grão de mostarda? Entre as sementes talvez a menor, mas a simbologia... Foi dada a largada oficial para campanha eleitoral, sim porque a campanha “informal” – escancarada e tecnicamente “proibida” – há muito que está nas ruas, sob todas as formas: meios eletrônicos, adesivos de carros, camisetas, “corpo a corpo”, entre tantas outras. Sem falar naqueles que fazem campanha há anos e, pasmem, diariamente, com práticas típicas da pior espécie de se fazer política, qual seja, a da troca de favores. Neste município se troca votos por remédios, lâmpadas, leitos hospitalares, “cargos em comissão”, “funções gratificadas”, estágios remunerados. Bom, deixemos isso de lado. Como ia dizendo, foi aberta a temporada de caça... aos votos. Estes, feito patos, viram alvo. Para conquistá-los, muitos dos candidatos atiram para tudo que é lado. “Conquistar” talvez não seja o termo mais adequado, pois que a conquista – ao menos no plano do amor – pressupõe respeito, espera, paciência, abnegação, altruísmo e mais uma centena de virtudes. O que se vê é uma espécie de “estupro”, tomada à força, onde os valores acima são substituídos por práticas invasivas que atentam contra o bom senso e a paciência dos pobres eleitores. Candidatos mal alfabetizados pousam de doutores, enquanto doutores trocam suas fatiotas por vestes do povo, mais fazendo lembrar lobos em meio às ovelhas. Apela-se para religiosidade, sensualidade, títulos honoríficos. Para Deus e para o Diabo. Para Bíblia e para a numerologia. Tem de tudo. Há os que adotam nomes de super-heróis, mesmo que de comédia “pastelão”. Candidatos e candidatas que investem nas roupas e nas plásticas para ficarem mais apresentáveis, só fazendo aguçar a desconfiança de que, para eles, a aparência precede a essência, a embalagem o conteúdo.

                Para alguns, como eu, a campanha mal iniciou, já terminou. Findou com a desistência da Rosa Maria Lippert, ou simplesmente Rosinha, em concorrer à vereança. Obra do destino ou, talvez, do descuido. Contudo, em que pese a desistência, nossa querida amiga semeou ideias, posicionamentos, reflexões. Fez ressuscitar a crença de que Cachoeirinha pode e deve ser uma cidade mais limpa, justa, fraterna, sustentável, segura, inclusiva, lúdica e, principalmente, feliz. É uma figura rara, daquelas que ao falar, o faz com paixão. Mostra-se convencida e faz convencer de que somente uma educação de qualidade tem o poder de revolucionar esta cidade. Foi-se a campanha, mas as ideias, assim como o grão de mostarda, seguirão firmes, potencialmente transformadoras.

                Cachoeirinha precisa de representantes à altura dos homens e mulheres de bem, munícipes que labutam, pagam seus impostos e tributos, em que pese a contraprestação de serviços públicos essenciais muito aquém do desejável. Representantes que não se alinhem a interesses privados e corporativos espúrios, mas que sejam – de fato – espelhos dos interesses e demandas da coletividade, mesmo que em toda sua complexidade. Nosso Município precisa voltar a crer, a ter fé. Esta, mesmo que no tamanho de um grão de mostarda, é capaz de mover montanhas, de subverter estruturas tão velhas quanto perversas, contribuindo na construção da cidade sonhada por pessoas como ela: Rosinha! 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

VAKINHA


VAKINHA
Gilvan
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                É vakinha com “k” mesmo. Também fiquei surpreso, assim como o leitor. Contudo, o que mais chamou atenção não foi a grafia da palavra, mas o que a ela estava associado. Há algum tempo venho pesquisando na internet os preços não de “um”, mas “do” projetor “Multimídia Powerlite Presenter L”, da Epson. Os anúncios acerca do produto são estonteantes. Fazem lembrar um programa (antigo?) de humor que trazia entre os seus quadros as “Organizações Tabajara: seus problemas acabaram!”. O fabricante promete verdadeiro milagre tecnológico. Um produto revolucionário, capaz de despertar a atenção dos disléxicos, hiperativos e, acreditem, até da gurizada da sétima. Matemática, História, Física, Química... No meu caso, Geografia. Tal é o apelo publicitário que um que outro incauto professor até poderia imaginar a turma inteira literalmente babando de prazer, quase que orgástico, diante da explosão de imagens e cores a brotarem da lâmpada. Esta de led com quatro, sim, quatro mil horas de vida útil. Vai-se o professor, fica a lâmpada. Que inveja! Sem falar em todos aqueles botões e entradas de todo tipo: USB, HDMI, etecetera e tal. Mas, como ia dizendo, o que realmente chamou atenção no site pesquisado foi um link que trazia como nome o título deste singelo texto: VAKINHA. O termo, por si só, já chamaria atenção. O nome com “k”, mais ainda. Não tive dúvidas, entrei. Ao fazê-lo descobri algo que até então me parecia inimaginável num mundo tão egoísta. A possibilidade de ajudar ou ser ajudado. No meu caso, professor, sabe como é... Ser ajudado pelos “amigos” (leia-se “contatos”, a maioria tão distantes e impessoais como o Evereste) na compra de tudo o que se possa imaginar, desde livros até aviões, passando por vibradores e até urinóis. Exageros à parte, o fato é que a ideia (sem o acento perdeu o charme) me pareceu genial. Finalmente poderia comprar o tão sonhado projetor. Contudo, passado o ímpeto – é como se tivesse descoberto a América –, aos poucos foi caindo a ficha. Quem iria se dispor a ajudar este pobre sujeito? Eu mesmo titubearia frente a pedido semelhante. Cheirava a falcatrua. Ora, vakinha definitivamente soava como estelionato. Pior, um estelionato “emocional”. Como os “amigos” encarariam o pedido? Quanto aos desconhecidos, tudo bem... Mas e os conhecidos? Alunos, professores, parentes, o público que me conhece? Chacota na certa. Parecia ouvir os comentários: “coitado!”; “pilantra”; “safado”; “chantagista”; “cara-de-pau”. Não parecia bom negócio. Arriscado demais para minha reputação. Por que não inventaram outro nome para a iniciativa? Tipo, assim... APAE, Legião da Boa Vontade, Professor Esperança. Sei lá, criar um zero oitocentos: “disque um para doar vinte reais, dois para doar quarenta reais, três para...”. Mas, vakinha??? Por outro lado, talvez, o termo bem que combine com nós, professores. Vakinha, aulinha, vidinha, casinha... Tudo parece tão pequeno e no diminutivo para nós docentes. Bom, o que fazer? Topar ou não o desafio da vakinha? Decidi pelo não, ao menos por hora. Mas que a ideia não é de todo ruim, não é mesmo... Caso queiram ajudar...

CARTA TESTAMENTO (NÃO A DE VARGAS...)



CARTA TESTAMENTO (NÃO A DE VARGAS...)
Gilvan
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                Quem já não ouviu falar na Carta Testamento de Vargas, gaudério que presidiu este país durante quase duas décadas? Ainda lembro do tempo do Primeiro Grau (hoje Ensino Fundamental), das páginas ilustradas do livro de História (hoje substituído pela wikipedia), donde brotava em forma de pergaminho a famosa Carta. Passados tantos anos, mais de trinta, percebo que muita coisa mudou, porém não tudo... Homens como Vargas, há muito que não se vê. Autoritário às vezes, mas autêntico. Ditador vez por outra, mas leal a seus princípios. Covarde em alguns momentos, mas corajoso quando diante da morte a lhe espreitar. Foi-se os caudilhos, mas restou cristalizado muitos dos vícios daquela sórdida política. Integralistas, comunistas, getulistas, populistas... PTB, PSD, PCB, AIB... Por mais condenáveis que fossem suas propostas e autoritárias suas ações, no fundo existia à época um misto de romantismo quixotesco e pragmatismo maquiavélico. Marcava-se de maneira clara e inequívoca posições ideológicas e político-partidárias. Não havia, salvo raras exceções, dúvidas de quem era quem. Os matizes e preferências eram às claras. Hoje, ao contrário, há de se lamentar o profundo e, ao que parece, interminável vazio no que tange às lideranças. Estas, se existem, estão às escondidas, quiçá indiferentes ao papel que um pretenso destino lhes reservou. Quanto aos partidos políticos, são como pocilga onde se misturam em meio à lama interesses tão díspares quanto contraditórios, incompreensíveis a qualquer cidadão de bem. Algumas casas legislativas mais lembram um cabaré da pior espécie, onde se vende de tudo, inclusive a consciência. Perdoem-me as meretrizes pela, talvez infeliz, comparação. Siglas surgem, siglas somem, siglas se fundem, conforme conveniências pessoais ou de pequenos grupos. Certo é que poucos ganham e, adivinhem, muitos perdem. Cada vez mais os jovens se afastam da política, tomados de asco e avessos a qualquer discussão que venha a exigir-lhes esforço intelectual ou posicionamento verdadeiramente crítico. Os “donos do poder”, ao que tudo indica, têm conseguido êxito em seu intento, qual seja o de afastar qualquer tentativa de transformação social advinda do efetivo exercício da cidadania. Paira no ar uma preocupante tendência à imbecilidade de nossa gente. Homens, mulheres, jovens e crianças, como gado, aguardam passivamente a hora do abate, embriagados pelo poder midiático do “plim-plim” e similares. O Estado há muito vem sendo balcão de negócios e negociatas, onde os que deveriam “servir”, acabam por se servirem às custas de quem os paga. Enquanto Têmis se perde em meio às vaidades e discursos intermináveis, verdadeiras oratórias estéreis tão ininteligíveis quanto o olhar estrábico da deusa, o sentimento de justiça se esvai no tempo e é enterrado nas filas dos hospitais e postos de saúde, no avanço da violência sob suas mais diversas formas, no desvio dos sagrados recursos púbicos, na pífia qualidade do ensino, no “custo Brasil”, na extorsão fiscal praticada sobre o rendimento dos trabalhadores, entre tantos outros males que, dia após dia, assolam nossa gente.

                Apesar do contexto sombrio eivado de uma imensurável crise moral e ética, a dádiva presa à caixa de Pandora parece resistir. Há esperança. Por certo – apesar da modorra profunda e atávica apatia –, muitos são ainda merecedores de confiança. Pessoas que jamais se apropriariam do bem alheio, honestas, trabalhadoras (ou aposentadas...), comprometidas com suas obrigações legais e sociais, respeitosas e respeitáveis. Pessoas que ainda pedem licença e não titubeiam em pedir perdão. Pessoas que levantam para ceder o lugar a quem precisa, que abrem mão de seu tempo em prol de outrem, nem que seja apenas para escutar... Pessoas que guardam o brilho no olhar e que se solidarizam de fato com as agruras alheias. Homens com o coração de mãe e mulheres com a força e coragem de leão. São essas pessoas que precisam tomar posse e serem empossadas no Legislativo, Executivo e Judiciário. Covardes, corruptos, omissos, incompetentes, desonestos e toda sorte de larápios, togados ou não, diplomados ou destituídos de titulação precisam ser execrados. Quem sabe a saída esteja nas próprias contradições que o “sistema” (este é feito de pessoas...) produz. A República brasileira nasceu a partir e para os já então privilegiados. Trouxe consigo a carcaça da modernidade e os “miúdos” do passado. O voto, por exemplo, veio acompanhado do cabresto. O sistema partidário veio permeado das mesmas práticas tão conhecidas no Império. A nobreza aristocrática foi substituída pelo coronelismo republicano. Este, de vento em popa, ainda hoje segue elegendo a sua laia, eternizando-a no cerrado de Brasília. Teimamos em querer “parecer” e “aparecer”. Somos causa e consequência de um triste caldo cultural que privilegia o “parecer ter” em detrimento do “ser”. Adquirem-se os penduricalhos do Capitalismo, alimentado pela irresponsável ciranda do crédito aparentemente fácil, mesmo que para tanto se comprometa a renda desta e das futuras gerações. Somos o país das grandes contradições e das “aparências”. Nos vangloriamos de termos matriculadas quase todas as crianças, em que pese a flagrante degradação da qualidade de ensino. Pouco e mal aprendem nossos alunos. Pouco e mal ensinam nossos educadores. Estes, talvez, por pouco saberem. Não poderia ser diferente, pois que a “certificação” para muitos de nossos mestres precede a qualificação. É a velha mania herdada de tempos idos de se querer ver pendurado um título, mesmo que adquirido “à distância” ou em sites da web. Construímos estádios, estradas e aeroportos para recepcionarmos os “gringos” e causar-lhes uma boa impressão, mas nos mostramos incapazes de darmos jeito em nossos presídios, escolas e hospitais. Tal lógica precisa ser urgente e imediatamente transformada. Urge lançarmos mão de ferramentas como a do mandato parlamentar e, antes dela, a do voto para subvertermos este triste contexto. Por certo, tamanha utopia requer não uma, mas duas, três ou mais gerações. Tenhamos a certeza de, quando diante da morte, sairmos da vida para entrarmos para a história.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

SUPERPOPULAÇÃO: MITO OU VERDADE?


SUPERPOPULAÇÃO: MITO OU VERDADE?
Prof. Gilvan
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                Não tem sido incomum os meios de comunicação, em especial o televisivo, trazerem à luz a questão relativa ao tema aqui proposto. Iniciativa esta positiva, não fosse a forma muitas vezes equivocada com que o assunto tem sido abordado. A Terra, hoje, possui de fato uma superpopulação a ponto de ser associada a uma “estação lotada”? Apesar da forte tendência de muitos responderem afirmativamente, defende-se aqui, no mínimo, o espaço ao contraponto. Ora, primeiro deve restar claro que a preocupação com uma eventual “explosão” demográfica não é nova. No final do século XVIII e início do XIX, por exemplo, teóricos como Malthus – fundados em princípios deterministas, o que era comum à época – já anunciavam em tom profético que a humanidade estaria fadada à fome, não fossem algumas catástrofes e guerras que faziam às vezes de uma espécie de “seleção natural”. A teoria malthusiana estava baseada na ideia de que há um descompasso entre o crescimento da população e a produção de alimentos. Segundo ele, enquanto o primeiro cresceria de forma geométrica (2,4,8,16,32...), o segundo cresceria de maneira aritmética (2,4,6,8,10...). Ora, ao que tudo indica, Malthus desprezou um fator significativo, qual seja, a capacidade do homem em criar e produzir novas tecnologias. Prova cabal da falibilidade teórica malthusiana é que hoje, mesmo diante de uma população que ultrapassa a casa dos sete bilhões, a capacidade produtiva, segundo indicam muitos estudos, daria conta de alimentar mais de nove bilhões de pessoas. Assim, o que falta não é comida mas, isto sim, condições econômicas por parte de grande parcela da população mundial, alijando-a do acesso a uma dieta alimentar satisfatória do ponto de vista quantitativo e qualitativo. Logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), surgiu uma nova (não tão nova...) teoria, a “neomalthusiana”. Esta, por sua vez, alegava que a prevalência da população jovem nos países subdesenvolvidos seria a principal causa para as agruras socioeconômicas desses povos. Segundo o neomalthusianismo, tal perfil ensejaria gastos estrondosos em saúde e educação, por exemplo, acarretando na falta de recursos para investimentos na produção. Na mesma época, meados da década de 1940, surgiu também a teoria demográfica-reformista. Segundo ela, o subdesenvolvimento e a fome são resultantes, principalmente, da má distribuição da renda e da consequente desigualdade social.

                Se por um lado, há de se ter cuidado com as teorias que demonizam a natalidade nos países subdesenvolvidos, por outro há de se reconhecer que o contingente populacional hoje existente põe em risco os recursos naturais do planeta, muito mais em função da escassez de uma “cultura” voltada à sustentabilidade (inclusive nos países mais desenvolvidos) do que propriamente em decorrência do número de pessoas sobre a face terrestre. Preocupante é, também, o fato de que cerca de 40% da população mundial segue atrelada às formas ultrapassadas de produção, especialmente associadas a algumas atividades do setor primário, como a silvicultura e a pesca. Somado a isso, é vergonhoso o número de seres humanos que vegetam na fome, no analfabetismo, na falta de trabalho e de renda. Parcelas imensas da população mundial seguem à margem das novas tecnologias e das melhorias há muito vivenciadas pelos países desenvolvidos.

                Conclui-se, portanto, que a famigerada “superpopulação” deve ser vista com ressalvas. Certo é que soa como irresponsável a tentativa de atribuir ao contingente populacional dessa ou daquela família, desse ou daquele país, a principal causa da fome ou do subdesenvolvimento. Elevadas taxas de natalidade, por exemplo, antes de serem causa são sobretudo resultado da distribuição desigual das riquezas, seja em nível nacional ou internacional. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A PRIMEIRA VEZ


A PRIMEIRA VEZ
Gilvan
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                Não conseguia esconder o nervosismo. As pernas tremiam. O coração, palpitante, parecia não caber no peito, ansioso por sair pela boca. A respiração sôfrega a exigir esforço hercúleo. A pressão arterial, a medisse, certamente estaria nas nuvens. Apesar do ar condicionado, já de véspera ligado, o coitado suava. Suor frio. Os sentimentos misturavam-se, verdadeiro amálgama de pavor e sedução. Feito a fruta do Éden. Proibida, talvez por isso desejada. Ao olhar aquelas curvas, a maciez aveludada que envolvia a silhueta onde logo depositaria seu corpo, estremecia de prazer. Há quanto tempo aguardava aquele momento. Não faz muito, em meio à roda de amigos, zombavam dele. Talvez fosse o único a não ter experimentado daquele “fruto”. Quem sabe, ainda, fosse puro despeito. O fato é que, no fundo, sentia-se pequeno, menosprezado diante de tantas narrativas alheias a falarem da singular experiência de sentir-se nas nuvens. Narravam a ele cada detalhe, dos banais aos mais picantes, talvez com o intuito de vê-lo sofrer. Ao perceberem que se interessava pelas minúcias, por certo logo deduziam que o pobre era um profundo desconhecedor daqueles “assuntos”. Aí é que o espezinhavam. Falavam das mais variadas e possíveis “posições”. Tinham os que diziam preferir sentados. Outros, ao contrário, defendiam a tese de que de pé era melhor, não fossem as dificuldades de aguentar os solavancos, especialmente quando a “coisa” estava já lá em cima. Alguns preferiam que fosse a dois, outros alegavam que quanto maior o grupo melhor: “é mais divertido!”. Obviamente, não podia deixar de ter sempre o que preferia fazer aquilo sozinho. Gosto não se discute. Alguns admitiam que com um companheiro do mesmo sexo até que poderia ser interessante. Poderiam aproveitar o ensejo para falar de coisas em comum. A maioria, contudo, preferia que fosse com mulheres, de preferência bonitas e de peitos avantajados. Tá bom, até poderiam ser feias, mas os peitos... Afinal, era coisa rápida. Uma ou duas horas. A não ser quando se quisesse ir mais longe... Toda aquela conversa só atiçava nele a necessidade de também deliciar-se. Por que não sentir prazer? Mesmo que pago. Conversa ia e conversa vinha, não tardava, logo soltavam a fatídica pergunta: “e aí, vai ou não vai?”. Sentia, por detrás daquele desafio, uma ponta de maldade. Não tinha dúvida. Mais cedo ou mais tarde iria à desforra. Apesar da idade um tanto que avançada, ia para lá dos quarenta, nunca era tarde para começar. O que perdia, por um lado, em relação ao viço da juventude, por outro ganhava quanto à experiência. O tempo, para alguns, tido por inimigo, para ele era aliado. Propiciara-lhe um olhar agudo, perspicaz, refinado. Os cabelos descoloridos atestavam o equilíbrio e a estabilidade que só os anos são capazes de trazer. Enquanto todos esses sentimentos, pensamentos e emoções o rodeavam, a luminosidade do ambiente diminuía, prenunciando o grande momento. Só em pensar que na hora agá poderia falhar, sentia náusea. Apesar de, ao longo de tantos anos, preparar sua mente para quando o momento chegasse, ainda assim não conseguia disfarçar o medo. Não sabia ao certo se segurava a mão, se puxava conversa, se abria ou fechava os olhos... Temia que fosse mal interpretado ou que fosse tido por fraco e pouco viril. Buscava mentalizar coisas boas. Tudo daria certo. Na hora de levantar, não decepcionaria. Por que com ele seria diferente? Ora, se os amigos conseguiam, por que não conseguiria? A tensão que o atormentava certamente os afligira também. Mesmo que relutassem em admitir. Tinha certeza de que na segunda ou terceira vez, tudo seria mais fácil. Inclusive as preliminares. Como a eterna celeuma entre o dia e a noite, assim eram seus pensamentos naquele instante. Revezavam-se entre bons e ruins. Ele, coitado, feito vítima, mais parecia um ser inanimado. Mal piscava. Queria parecer forte, imponente, senhor de si. Que nada. Cada músculo de seu corpo parecia denunciar o verdadeiro pavor que, vez por outra, o assombrava. Só em pensar que o êxtase poderia se transformar em tragédia, o fazia arrepiar. O delicioso perfume de mulher a pairar no ar, que para alguns despertava sentimentos um tanto que profanos, para ele passava despercebido, tamanho a insegurança que o afligia. Por sinal, quem seria ela? Nome, por que perguntar? Não faria diferença. Não estavam ali para isso. Sem sentimentalismo ou compromisso. Talvez fosse casada, ou não... Era uma mulher de “presença”, apesar da natureza não ter sido muito generosa com sua beleza. Quanto aos peitos... Era loira, talvez um e sessenta ou setenta. Idade? Perto dos trinta talvez. Não tinha idade para ser sua filha, o que era motivo de certo alívio. Já pensou se o chamasse de “tio”? Até podia imaginar... O troço subindo, subindo e, quando já lá em cima, ser chamado de “tio”? O desconforto seria notório. Já não bastasse ter que manter a calma, o sangue a encher-lhe os vasos, ainda ter que ouvir tal disparate? Até por isso, estava decidido em manter-se, tanto que possível, calado. Lado a lado, aqueles corpos sedentos de vida. O dele suado, dado o esforço que fazia para enfrentar tamanho desafio. Ela, ao contrário, aparentava muita calma, quase frieza. Fruto, talvez, de sua provável experiência. Antes dele, quantos mais estiveram junto àquele corpo felino? Quantas e quantas vezes, ela não vira a “coisa” subir? Não queria decepcioná-la. Tremia só em pensar ser motivo de chacota nas futuras rodas de amiga daquela mulher. Pernas para cá, braços para lá. Esperava que fosse mais espaçoso o lugar, mas não. Era um “buraquinho” tanto que apertado. Foi com alguma dificuldade que conseguiu enfiar-se ali dentro, com algum desconforto. Ela, contudo, parecia indiferente aos esforços do coitado. Sequer esboçava um olhar. Nenhum ai, nenhuma reclamação, nenhum elogio. Nada, nada... O ar de superioridade da mulher só fazia aumentar a aflição do pobre homem. Torce daqui, contorce de lá, o que era para ser prazer, aos poucos ia se transformando em indelével e insuportável pavor. Precisava ir ao banheiro. Temia pelo que ela pudesse pensar. Pior, o que dizer aos amigos? Mentir? Dizer que foi inesquecível, ou abrir o jogo e reconhecer seu fracasso. Já podia ouvir as piadinhas e deboches. Preferia, talvez, não mentir, mas omitir alguns “pontos” da aventura vivida. Ressaltar, quem sabe, a beleza da mulher, o tamanho de seus peitos... Jamais, contudo, tocar ou permitir tocar no assunto atinente ao ápice do negócio, que é quando o “troço” sobe. Era desconversar e pronto! O banheiro era pequeno, mas asseado. Sabonetinho de motel, toalhinha macia, um mimo. Enfiado ali dentro, buscava mentalizar, mais uma vez, que tudo iria dar certo: vai dar certo, vai dar certo, vai dar certo... Não deu! Um profundo mal estar o tomou por completo. Jogou uma água na nuca, respirou fundo e contou até dez. Depois até vinte. Procurou acalmar-se. Retornou para o lugar. Ela continuava lá, do mesmo jeito que a deixara. Sequer lançou um olhar, muito menos comentário ou algo que o valha. Apesar de tão próximos, pareciam tão distantes, cada um no seu próprio mundo. Sentia-se cansado. Só ficou mais tranquilo quando, finalmente, o avião em que estava aterrissou. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

OUTONO


OUTONO
Gilvan Teixeira
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                Muito tem a natureza para nos ensinar. O que para nós é sinal de luto, para ela representa vida e esperança. Outono traz consigo a queda das folhas. É quando as árvores ficam completamente desnudas. Para o olhar limitado dos pobres mortais, outono traz consigo como que uma espécie de morte, esta em seu sentido mais triste, qual seja, o “fim” absoluto de algo ou alguém. Flagrante equívoco! Outono é vida. Não fosse o cair das folhas, restaria comprometido o belo ciclo da vida. As folhas que hoje caem alimentam e adubam a terra, fertilizando-a. Servem de alimento à própria raiz da árvore que, pela engenharia de Gaia, garante ao vegetal sua permanência durante muitos e muitos outonos, anos e anos. Outono permite, ainda, a sobrevivência de todo um ecossistema, além de ensinar algo cada vez mais esquecido: a solidariedade e o desapego. As folhas que hoje não servem à árvore, por sua vez são indispensáveis e vitais a tantos outros seres. O que seria da miríade de insetos que sobrevivem e se multiplicam a partir das folhas que, aparentemente, não mais são úteis à árvore? O que para esta talvez pareça sobra, para outras criaturas é sobrevivência. Somos como árvores. Em comum, a beleza, a singularidade, a dependência dialética e recíproca. Modificamos e somos modificados. Como elas, porém, somos mortais. Assim como árvores, nos deparamos com toda sorte de intempérie: ventos fortes, chuva torrencial, estiagem e granizo. Não bastasse isso, há que se lembrar da atávica agressão nascida da escassez de valores. Árvores e pessoas sofrem com o egoísmo, a cobiça e a ambição exacerbada. Nós e elas só fazemos sentido a partir do olhar alheio. Não fosse o “outro”, o que seria de ambos? Os relacionamentos é que alimentam a seiva estruturante da vida. Esta é tão rica quanto o são as relações e os afetos. Apesar das semelhanças, nossa teimosia – como venda – impede que aprendamos com as árvores. A lidar, como elas, com a aparente perda. Miramos a dor e o sofrimento que o luto proporciona e deixamos de lado os instantes memoráveis que passamos juntos. O sorriso aberto, os causos contados, o cheiro inconfundível, o calor da presença... Parece que apagamos da memória, preferindo conservar nela a imagem do corpo inerte e gélido. Tendemos a substituir as festas juntas vividas pelos prantos seguidos de pêsames. O coração, ao invés de fortalecido pelas boas e eternas lembranças, serve de trono à tristeza e à dor que alimenta a depressão e enriquece as farmácias. Sejamos como as árvores em outono. Façamos da morte um momento de vida, para nós e para outrem. Aprendamos com a natureza, pois dela fazemos parte e a ela estamos, inexoravelmente, ligados. O ciclo dela é também o nosso. Desejo que a morte suscite, sobretudo, a saudade. Como outono, seja nosso aparente fim. Sirva ele para fertilizar o coração e a alma, ou de pretexto para uma alegre conversa entre amigos e entes queridos. Talvez, ainda, de inspiração para boêmios e poetas. Viva as folhas caídas de outono!

Outono de 2012.