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domingo, 29 de abril de 2012

MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS


MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com

                O deslocamento de grupos de pessoas acompanha a própria trajetória da humanidade. Na Pré-História, por exemplo, ao que tudo indica, eram bastante comuns os movimentos migratórios, até porque os homens à época eram, na sua maioria, nômades. A busca de comida e abrigo era importante fator instigador do deslocamento do homem, tanto do Paleolítico, quanto do Neolítico ou, ainda, do período posterior, conhecido como Idade dos Metais. Na Antiguidade, inúmeros são os relatos de movimentos migratórios. Alguns deles, vale lembrar, trazidos na Bíblia como, por exemplo, o do Êxodo, onde os hebreus deixaram o Egito dos faraós em direção à chamada Terra Prometida. Na Idade Média, por sua vez, tivemos – por exemplo – as Cruzadas, onde milhares de pessoas aventuraram-se por terras desconhecidas em nome da Guerra santa, envolvendo cristãos e mouros (adeptos do Islamismo). Na Modernidade, entre os séculos XV e XVIII, como esquecer do “Desencravamento Planetário”, já trabalhado em aula, onde os mundos europeu e americano passaram a dar ensejo ao Pacto Colonial, sendo por demais comuns os movimentos migratórios de portugueses, espanhóis, ingleses, entre outros, em direção ao chamado Novo Mundo. Teve, ainda, levas e levas de africanos sendo comercializados como mão-de-obra escrava, sendo obrigados a abandonarem seu continente de origem. Na Idade Contemporânea, finalmente, não tem sido incomum as migrações[1] de todos os tipos, sejam elas externas (imigrações e emigrações) ou internas (Êxodo Rural, Movimento Pendular, etc.).

                As causas dos movimentos migratórios são inúmeras e, não raras vezes, complexas. Merecem destaque questões bélicas (guerras civis e entre países), econômicas (crises econômicas que impulsionam a emigração), religiosas (peregrinações), naturais (cataclismos como, por exemplo, terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas), entre outras. No que tange às consequências, as migrações alteram, por exemplo, o quadro populacional dos países (população absoluta e população relativa) e da distribuição das pessoas no interior dos mesmos. Mais do que isso. Os movimentos migratórios tendem a tensionar positiva ou negativamente a qualidade de vida de um país. Podem, por um lado, aumentar as desigualdades sociais, como podem – por outro – representar um ganho para as indústrias e para a economia do país como um todo.

                Os movimentos migratórios podem ser “externos” ou “internos”. Quanto aos primeiros, pode-se falar em imigrações e emigrações, conforme o fluxo de entrada ou saída de pessoas, respectivamente, de um país. Já os “internos” são as migrações ocorridas no interior do próprio país, podendo ser citados a título de exemplificação, o Êxodo Rural (saída do campo em direção à cidade), a Transumância (também conhecida como Movimento Sazonal, pois ocorre em determinadas épocas do ano, sendo relativamente comum no Nordeste do Brasil, envolvendo o Sertão e a Zona da Mata) e o Movimento Pendular (é o vai-e-vem diário ocorrido, por exemplo, nas regiões metropolitanas, onde contingentes de pessoas saem de suas cidades para trabalharem em outra, retornando ao final do dia).

                Os movimentos migratórios (internos e externos) tiveram e seguem tendo uma enorme influência no quadro populacional do Brasil, com indisfarçáveis reflexos nos campos econômicos, social, político, etc. Daí a necessidade de debruçar-se sobre o tema, sob um olhar crítico, objetivando não apenas a compreensão do fenômeno em questão, mas a busca de saídas que viabilizem a construção de uma sociedade menos desigual.




[1] Aqui entendidas como movimentos migratórios. Alguns autores preferem usar o termo “migrações” apenas para os movimentos migratórios que ocorrem no interior do próprio país. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

CONSTELAÇÃO


CONSTELAÇÃO
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                Muitos veem apenas a escuridão profunda e não as estrelas que, feito pisca-piscas de árvore natalina, povoam o céu. São muitas, incontáveis. Lá estão, eternas, apesar da indiferença dos homens. Ah, como estes poderiam aprender com a singela e interminável beleza das estrelas. Tão pequenas aos nossos olhos que chegam a caber por entre os dedos indicador e polegar. A distância serve, talvez, para mascarar as dimensões imensas desses corpos celestes. Quem sabe, ainda, para não contaminá-los com a mesquinhez humana. Sábia natureza. As estrelas, pacientemente, nos espreitam. Quantos amores, beijos e afetos não presenciaram? Quantos corpos nus diante delas não se entrelaçaram? Quantas pragas rogadas, açoites e cadáveres elas não viram? Crimes hediondos e bárbaros ainda hoje não desvendados, há muito são por elas conhecidos seus algozes e vítimas. Tudo veem, tudo sabem. Apesar disso, de toda onipresença e onisciência, seguem condescendentes. Como são belas. Feito bailarinas, cada qual guarda o seu lugar, marca o seu espaço. Noite após noite. Mesmo quando nuvens escuras e carregadas interpõem-se entre elas e os homens, lá estão. Prescindem da crença dos mortais. Independem dos caprichos daqueles que, passados alguns poucos anos – um nada, diante da idade das estrelas – perecem. Vão-se os anéis, ficam as estrelas. Esvai-se a beleza da mais bela entre as mulheres, enquanto o invejável brilho das estrelas segue como que a zombar do tempo e do espaço.

                Os alunos, meus alunos, todos..., são como estrelas. Verdade! Um dia desses, lá estava eu a observá-los. Deixei o escuro da noite, as brumas do cansaço, o tédio da rotina e, bem ali, diante dos meus olhos, vi as estrelas. Algumas, apenas. Poucas, talvez. As Três Marias, um conjunto de estrelas que, apesar de tão distintas – uma mais escurinha, outra mais “madura”, enquanto a terceira, ainda a transparecer a seiva da juventude –, seguem juntas, inseparáveis. Um casamento que tem rendido não apenas admiração, geração após geração, mas também a atenção de poetas, boêmios e artistas de todas as idades e quilates. Um pouco mais à esquerda, a Panela, um conjunto menos alinhado do que o anterior. Estrelas grandes e pequenas, não tão ordeiras quanto as Marias, mas não menos importantes. Não fossem elas, por certo o panteão celestial daqueles olhinhos brilhantes não seria o mesmo. Onde aparentemente reina o caos, talvez, no fundo, exista uma ordem. Ininteligível quem sabe, mas necessária. As estrelas seguem um curso que lhes é própria, diferente do nosso. Uma estrela, uma história. Duas iguais, jamais. Contudo, nossos olhos – por serem mortais, demasiada e irremediavelmente limitados –, teimam em ver homogeneidade onde reina a diversidade. Triste sina. Destino não dado, mas construído por anos a fio de preconceitos, metodologias estéreis que, apesar da boa intencionalidade, acabam por embrutecer e enrijecer a inteligência e a criatividade. Não raro, acaba-se com o brilho das estrelas. Estrela sem brilho, assim como escola sem aluno, perde o sentido. Têm ainda as cadentes, estrelas indisciplinadas que fogem à órbita inicialmente estabelecida. Serelepes, rápidas, avessas às margens traçadas pelos homens. Inigualáveis, contudo, na poderosa energia que possuem. Até as estrelas mais velhas as invejam. Quanta força, quanta vida... Falta-lhes, talvez, apenas um norte. Não necessariamente o nosso, mas até outro, desde que lhes seja preservada a essência. A estrela é bela não por ser grande ou pequena, raquítica ou robusta, centrada ou cadente, mas sim por ser, simplesmente, estrela.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

ESCOLA WALDORF


ESCOLA WALDORF
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


            Quando se fala em educação de qualidade, é comum pairar uma nuvem de desconfiança. Um misto de descrédito, deboche e indiferença. Como ser diferente, quando o que se vê, em regra, é um discurso descolado, por completo, da prática? O Poder Público, por exemplo, ano após ano vive de um discurso vazio e eleitoreiro, mas que no frigir dos ovos nem de perto tem resolvido o histórico descaso com o ensino. Prédios sucateados, professores mal remunerados, metodologias permissivas e obsoletas, altos índices de evasão e repetência. Crianças que não aprendem e escolas que não ensinam. Verdadeiro ciclo vicioso, onde todos perdem. Recursos que se esvaem por entre os incontáveis buracos da corrupção e da incompetência. Neste oceano de histórias mal contadas e não resolvidas, surge uma que outra esperança. A Escola Waldorf Querência, na Zona Sul da capital gaúcha parece vir na contramão do quadro acima descrito. Mais do que uma pedagogia diferente, a Escola deixa transparecer um novo paradigma de homem e de mundo. O espaço é convidativo e as salas por si só são ambientes de aprendizagem. O que dizer das lousas cobertas de arte? A cantina com aquele jeitinho aconchegante? Os brinquedos de madeira espalhados pelo pátio amplo e arborizado? Os educadores que mais parecem contadores de história a se confundirem com suas personagens? As mesas (carteiras) de madeira que, na inigualável simplicidade, carregam como que uma espécie de magia? O som do piano, ao fundo, embalando sonhos? Os olhinhos dos alunos embebidos com a beleza do saber, uns a caminhar por entre os pés de árvores nativas, outros a cantarolar sem os medos e preconceitos dos adultos. Uma Escola sustentada pelos recursos, às vezes parcos, de pais trabalhadores, mas que, assim como o corpo docente, acreditam na possibilidade de um mundo melhor, mais sustentável, fundado na solidariedade, na alteridade, na responsabilidade coletiva, no amor e na fraternidade. Deseja-se à Escola prosperidade, que seu trabalho e proposta frutifiquem, ensejando profundas transformações no encantador processo ensino-aprendizagem. Parabéns à comunidade da Escola Waldorf Querência. Quanto a nós, fica a saudade... 

terça-feira, 17 de abril de 2012

CONFLITOS ARMADOS

CONFLITOS ARMADOS
Prof. Gilvan
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                Os conflitos armados, assim como as desigualdades sociais, acompanham a história da humanidade. Mesmo na Pré-história os homens já disputavam entre si espaços que pudessem lhes garantir a sobrevivência. Na Antiguidade, os litígios seguiram marcando a trajetória dos povos, não sendo incomuns conflitos como aqueles que envolveram, por exemplo, hebreus, assírios, babilônios, gregos (atenienses, espartanos, etc.) e romanos. O que dizer da Idade Média? Como esquecer das Cruzadas ou dos inúmeros conflitos envolvendo os senhores feudais? Sem falar, é claro, da famosa Guerra dos Cem Anos, tendo como principais protagonistas franceses e ingleses. Na Idade Moderna, por sua vez, o mundo assistiu ao encontro das civilizações europeia e pré-colombiana (ameríndios), com as incontáveis e trágicas consequências que acabaram por dizimar culturas inteiras, onde as armas estiveram associadas às doenças e à imposição do modo de vida “branco” em contraposição à fragilidade daqueles que viviam aquém-mar. Finalmente, a contemporaneidade trouxe consigo não apenas as ditas “luzes” da Revolução Francesa e do Iluminismo, mas, também, o recrudescimento de conflitos armados cada vez mais sangrentos e de maiores proporções como as duas Grandes Guerras. Vale lembrar, por exemplo, que desde o final da Guerra Fria (por volta de meados da década de 1980), foram contabilizados mais de 120 conflitos armados, principalmente nos continentes africano (África subsaariana) e asiático.

                As causas desencadeadoras dos conflitos armados são inúmeras, especialmente as de ordem ideológica, étnica, religiosa e política. Certamente, tais causas – em geral – não aparecem isoladas, mas interligadas, imbricadas. É temerário, por certo, tentar reduzir a maioria dos conflitos a tão somente uma ou outra causa. A maioria dos autores tem diferenciado, sem muita precisão, as seguintes formas de conflitos armados: guerrilha e terrorismo. Enquanto a primeira tem estado associada a uma espécie de conflito marcada pela oposição de um exército informal em relação a um exército regular (pago pelo Estado), onde em geral os alvos são “pontuais”, com preservação da população civil, o terrorismo – por sua vez – está marcado pela prática política de quem recorre à violência contra pessoas e/ou coisas como forma de chamar atenção para determinada causa, mesmo que para tanto sejam vitimadas pessoas sem qualquer espécie de envolvimento político ou ideológico.

                No Brasil, alguns grupos guerrilheiros marcaram a história do país. Exemplo disso foi a famosa “guerrilha do Araguaia”, onde algumas dezenas de pessoas ligadas ao PCdoB (Partido Comunista do Brasil) lutaram contra a ditadura que assolava o Brasil, ditadura esta responsável por inúmeros atos de censura, tortura e demais mazelas típicas de governos autoritários. Poucos sobreviveram à ação dos militares. Ainda hoje, familiares dos combatentes assassinados buscam pelas ossadas de seus entes queridos. Mais recentemente, alguns grupos guerrilheiros seguem lutando contra o que julgam injusto e inaceitável, com destaque para as FARCs (Colômbia) e o Hamas (Palestina).

GEOPOLÍTICA DO PÓS-GUERRA

GEOPOLÍTICA DO PÓS-GUERRA
Prof. Gilvan
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                Geopolítica pode ser definida como sendo a forma, o jeito, a maneira dos países se relacionarem, em especial no campo da chamada política internacional. Portanto, um conceito próximo aquele já estudado quando da análise da Ordem Mundial. Esta, vale lembrar, mudou ao longo do tempo. Antes da Segunda Guerra, por exemplo, a Ordem era multipolar, onde alguns poucos países exerciam a hegemonia através, principalmente, do poder militar. Entre 1945 e meados da década de 1980, por sua vez, a Ordem Mundial era bipolar, afinal o palco estava polarizado entre os blocos socialista e capitalista, correspondendo ao período da chamada Guerra Fria. Finalmente, a partir de 1985, o mundo passou a vivenciar uma nova Ordem, agora fundada – segundo muitos autores – numa multipolaridade distinta daquela que antecedeu a Segunda Guerra. Hoje, a Ordem está pautada sobretudo no poder econômico.

                A Segunda Grande Guerra (1939-1945) representou, como visto acima, uma espécie de divisor de águas entre duas Ordens. Não por acaso. O conflito – motivado por inúmeras causas, especialmente econômicas – passou por várias etapas, merecendo destaque a entrada dos Estados Unidos e da União Soviética na guerra, situação que mudou por completo o desfecho da mesma. A partir de 1945, foi tomando corpo a chamada Guerra Fria, onde restou clara a polarização principalmente político-ideológica entre os blocos socialista e capitalista, sob a liderança da ex-União Soviética (1922-1992) e Estados Unidos, respectivamente. Tal radicalização pode ser caracterizada na célebre frase: “paz impossível, guerra improvável”, ou seja, um conflito marcado por um permanente tensionamento entre os blocos, com a existência de alguns conflitos armados entre países tidos como “satélites” (Cuba, Vietnã, Camboja, etc.), porém sem o enfrentamento militar direto entre as duas maiores potências do planeta. A Guerra Fria esteve marcada, ainda, pelo surgimento da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em 1949, bem como do Pacto de Varsóvia (1955), sendo ambos os “braços” bélicos de seus respectivos blocos.

                A Geopolítica do mundo pós-Guerra está intimamente ligada ao surgimento da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1945. Ela veio, de certa forma, substituir a malfadada Liga das Nações, já que esta deixara de cumprir com o seu principal papel, qual seja, o de evitar que o mundo do entre-Guerras (1918-1939) se envolvesse num novo conflito de proporções mundiais. Assim, a ONU, vinha com a intenção de, ao menos em tese, pacificar o mundo pós-Guerra, garantindo uma paz que fosse sólida e duradoura. Todavia, desde seu nascimento, tal Organização tem despertado a desconfiança e, não raras vezes, o mais profundo descontentamento junto a muitos países que a compõem. Motivos não faltam para tanto. Um deles é a composição do Conselho de Segurança, principal órgão da ONU. Tal Conselho – formado apenas por Estados Unidos, França, Reino Unido, China e Rússia – tem se revelado autoritário e pouco representativo, pois que o poder de veto de seus membros coloca, muitas vezes, por terra o interesse de quase duas centenas de países. Pressões não faltam no sentido de que se busque mudanças significativas na forma como a ONU vem sendo conduzida. Contudo, ao que parece, o mundo está distante do dia em que povos e nações do mundo inteiro tenham, de fato, tratamento isonômico quando da tomada de decisões que, por vezes, lhes afetam.

                Hodiernamente, vive-se num mundo onde algumas “verdades” são construídas com enorme velocidade, mesmo que em prejuízo de culturas milenares. Alguns autores alegam que a Geopolítica atual é “unipolar” (monopolar, unopolar), onde os Estados Unidos despontariam como única e verdadeira potência, ao mesmo tempo, econômica, política, militar, cultural, etc., da Terra. Exageros à parte, o fato é que, na última década – especialmente após o fatídico 11 de setembro (2001) – temos assistido os EUA (principalmente nos governos que antecederam o de Obama) arvorarem-se como os grandes (únicos!!!) guardiões da democracia contra a eterna “ameaça” do temido Eixo do Mal, este quase sempre representado, de forma preconceituosa, pelos países de cultura islâmica.

GLOBALIZAÇÃO

GLOBALIZAÇÃO
Prof. Gilvan
Blog: profgilvanteixeira.blogspot.com

                Globalização pode ser definida de inúmeras formas. Aqui se adota como conceito, sendo um processo incontrolável, dinâmico e mundial de interdependência, por exemplo, política, econômica e cultural entre os países. Trocando em miúdos: o que ocorre fora de nossa cidade, estado ou país guarda relação, às vezes mais e às vezes menos, com nosso dia-a-dia. Por outro lado, o que fazemos ou deixamos de fazer enquanto indivíduos ou coletividade (país, por exemplo) também se reflete sobre a economia, a sociedade, a cultura e a política de outros povos, por mais longínquos que possam parecer.

                É inegável que o Capitalismo, como modo de produção, fomentou (e foi fomentado, numa relação dita dialética) o processo de globalização. Muitos autores têm assinalado que a origem da mesma encontra-se no período correspondente à passagem da Idade Média para a Moderna, mais precisamente nas Grandes Navegações. À época, vale lembrar, o mundo (em especial a Europa) viveu uma espécie de “desencravamento planetário”, ou seja, restou clara a expansão das fronteiras até então conhecidas. A busca de fontes de matérias-primas e mercado consumidor não apenas reforçou a concentração de riquezas por parte de alguns países, mas instigou o contato – quase sempre nefasto – entre culturas por demais distintas como, por exemplo, a portuguesa e a dos povos que ocupavam o Brasil antes do famigerado “descobrimento”. Mais tarde, já na segunda metade do século XVIII e primeira do XIX, a Revolução Industrial aguçou o processo globalizante. As novas técnicas produtivas e o advento das fábricas, sob o manto do Liberalismo Econômico, permitiram um gigantesco aumento na circulação de mercadorias. O lucro exacerbou-se, fazendo da mais-valia importante argumento em desfavor do Capitalismo. Apesar das lutas operárias, impulsionadas por teorias como aquela defendida nas obras de Marx e Engels, o modelo econômico fundado no mercado não arrefeceu, pelo contrário, expandiu-se pelo mundo afora. A partir de então, não apenas a Inglaterra, mas também outros países da Europa, assim como Estados Unidos e Japão – por exemplo – tomaram a dianteira entre as grandes potências econômicas do mundo. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) inaugurou uma nova Ordem Mundial, onde o Capitalismo e o Socialismo passaram a disputar a hegemonia sobre a Terra. A Guerra Fria, em que pese o conflito ideológico existente, não foi capaz de frear o processo da Globalização. Esta se fortaleceu, mais ainda, a partir da década de 1970, onde o mundo passou a assistir uma Revolução Tecnológica, onde à medida que se avança em direção aos dias de hoje, cresce a interdependência entre os povos da Terra.

                A Globalização traz consigo inúmeras consequências. Não são incomuns paradoxos. Por um lado, os meios de comunicação têm permitido (para quem pode pagar!) o contato instantâneo entre as pessoas, por mais distantes que estejam. Por outro, nunca foi tão flagrante a frieza e superficialidade das relações. Nunca a ciência e tecnologia estiveram tão avançadas, contudo a fome segue sendo uma terrível e vergonhosa “praga” a assolar enormes parcelas da população mundial. Enfim, os avanços trazidos pela Globalização são inegáveis, assim como o são alguns problemas a ela associados. Globalizam-se, por exemplo, culturas e “visões de mundo” de alguns países em detrimento de culturas locais. Exemplo disso é o conceito de “democracia” imposto ao mundo, democracia esta que casa com os ideais capitalistas, mas não, necessariamente, com os ideais de justiça, solidariedade, fraternidade e igualdade. A “fluidez” e os tempos “líquidos” trazidos pela Globalização se, por um lado, dinamizam as relações e as “horizontalizam”, tornando-as em princípio mais democráticas, por outro lado, o excesso de relativismo põe em risco valores e cria uma perigosa insegurança ética.                 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

JOANA D’ARC

JOANA D’ARC
Gilvan
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            Joanas por todos os lados. Gordinhas ou magrinhas, altas ou baixas, letradas ou não, comerciantes ou comerciárias, empregadas ou patroas, tímidas ou extrovertidas, enfim, verdadeira miríade de adjetivos. Em comum, nossas Joanas são, quase todas, donas de casa. Melhor, donas “da” casa! Conquistaram, a ferro e fogo, seu espaço. Arvoram-se, com toda razão, como verdadeiras “rainhas do lar”. Não naquele sentido pejorativo, como que associado a uma espécie de fatalismo adâmico, onde restaria a elas os limites da cozinha ou da área de serviço. São, as joanas, maioria em nosso município: mais de sessenta mil. Invejável contingente! Joanas que, no incomum de suas histórias guardam entre si muitas semelhanças. Guerreiras, sábias, incansáveis, justas, amorosas, sensuais... Joanas que se mostram prontas para o embate da vida, capazes de transformarem a armadura – áspera e pesada – em algo belo e admirável. Joanas que, mesmo diante dos infortúnios que decorrem do simples e (paradoxalmente) complexo ato de viver, geram vida. Joanas que encantam. Cachoeirinha possui muitas Joanas. Nobres ou plebeias, jovens ou anciãs, endinheiradas ou despossuídas. Todas, contudo, heroínas. Não tarda o dia, espera-se, em que nossas Joanas tomarão as rédeas desta cidade. Talvez não de assalto, mas pelo voto. Sonha-se com o dia em que as urnas parirão muitas Joanas. Mulheres fortes, porém sensíveis. Joanas capazes de se sublevarem contra as estruturas que escravizam, que alienam e que oprimem. Mulheres dispostas a sacarem suas lanças e espadas, sem que percam o brilho e, de preferência, sua feminilidade. Joanas que não incorram na perfídia de confundirem o público e o privado. Mulheres que seduzam, mas jamais se deixem seduzir pelo dinheiro fácil e alheio. Joanas que amem e se deixem amar, mesmo que loucamente, mas que jamais dividam o leito com a falta de ética e a desonestidade. Mulheres capazes de embriagarem pela beleza e inteligência, mas avessas à bebida compartilhada com aqueles que enganam e ludibriam o povo. Cachoeirinha precisa de Joanas. A cidade carece de mulheres dispostas à luta e que não prescindam do brilho e da beleza das rosas.  

JUVENTUDE: SUBVERSÃO OU ALIENAÇÃO?

JUVENTUDE: SUBVERSÃO OU ALIENAÇÃO?
Gilvan
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            “Geração perdida”, “analfabetos políticos”, “desregrados”... Além deles, muitos são os termos e expressões usados na caracterização de nossa juventude. Cachoeirinha conta hoje com uma população superior a 110 mil habitantes, sendo que destes, quase 18 mil são jovens entre dezesseis e vinte e quatro anos. Aplicar-lhes os “adjetivos” acima em nada ajuda na construção de uma cidade mais cidadã e humana. Ao contrário, acaba por reforçar alguns estereótipos e preconceitos que sedimentam a não-participação, o ostracismo e a alienação. Quem ganha com isso? Deliciam-se aqueles que tendem à manutenção de um status quo que, historicamente, privilegia alguns poucos em detrimento da maioria. Assim, o clientelismo político pautado em práticas políticas espúrias segue mantendo e fortalecendo relações de cabresto, em flagrante prejuízo do verdadeiro exercício da cidadania. Cachoeirinha precisa, isto sim, constituir-se em município promotor da inclusão social, onde nossos jovens sejam, de fato, ouvidos e, mais do que isso, contribuam de forma ativa e propositiva na construção de um espaço menos injusto, mais seguro e acolhedor. Deseja-se uma cidade que tenha como norte um ensino de qualidade, onde as potencialidades de nossa juventude deixem de ser apenas um eterno “devir” – que jamais chega –, passando à categoria de verdadeira práxis transformadora, capaz de subverter as pérfidas estruturas que alijam a esmagadora maioria de nossa gente. Cachoeirinha necessita gerar trabalho e renda, também, para os de tenra idade. Nosso município precisa criar espaços lúdicos, onde o lazer seja uma prática constante, não um luxo para alguns poucos. Urge multiplicar oportunidades como forma de superação da marginalidade e da violência juvenil. Os espaços públicos devem ser campo fértil para o fazer criativo e desenvolvimento de uma cultura voltada à paz. Sejam bem-vindos jovens de todos os matizes, origens, crenças, etnias, posições ideológicas. Construamos uma cidade onde, ao invés da desesperança, frutifique a utopia, onde as rosas encham não apenas o imaginário, mas cada jardim e cada praça, fazendo crer que o belo ainda é possível. 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ROSAS: ESPINHOS QUE ENSINAM

ROSAS: ESPINHOS QUE ENSINAM
Gilvan
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Quem já não cravou um espinho no dedo? Dói, não há como negar. Espinho de uma rosa, então...  A dor nasce não apenas da carne ferida, mas talvez da inegável decepção de ver tão bela e romanceada flor ferir a mão de quem a plantou, cuidou e regou. Passado o susto, logo se vê que aparente traição nada mais é do que ensinamento para a vida. Nem poderia ser diferente. A natureza da rosa é eterna. Apesar dos espinhos, não é ela quem fere. Somos nós, pobres mortais, que nos deixamos ferir, mesmo que inconscientemente. Alguns chamam de destino tal sina. Os espinhos da rosa têm enorme e especial jeito de ensinar. Ensinam que o amor é sempre belo, apesar de – às vezes – amargo e sofrido. Amor nem sempre se confunde com prazer. O desconforto é, por vezes, necessário. O amor exige, não muito raro, abnegação, renúncia, arrependimento. Requer um “voltar atrás” de vez em quando. Amar é falar a verdade, mesmo que para tanto se corra o risco de arrefecer a relação. Esta, quando sólida, como rocha, aguenta até mesmo as mais duras intempéries. Eventuais abalos, muito antes de revelarem fraqueza, denotam força, revelam confiança e só reforçam a certeza de que se está em porto seguro. A rosa, com seus espinhos, revela nossa natureza, humana. Revela, ainda, nossos paradoxos, fraquezas, ambiguidades e incertezas. A dor que nasce dos espinhos, por mais lancinante que para alguns possa parecer, é como que “dor de crescimento”. Não fosse ela, os dias, os aprendizados... tudo, absolutamente tudo, passaria despercebido. Seríamos eternamente ingênuos, nanicos do ponto de vista ético e espiritual. Precisamos dos espinhos da rosa. Cachoeirinha necessita semear flores que motivem crianças, jovens, adultos e idosos a construírem sonhos. Hoje, de areia quem sabe. Amanhã, talvez, sonhos que se transformem em novas verdades. Não certezas do tipo totalitário, mas relativas. Não verdades que, como ervas daninhas, sufocam as demais. Mas convicções que fomentem o embate de ideias e instiguem a tomada de decisões que sejam, de fato, coletivas. Deseja-se que os espinhos despertem para a vida, desacomodem, subvertam. Espera-se que, ao final, seja a rosa lembrada pelo aroma que exala e, sobretudo, pelos espinhos que ensinam.
                 

segunda-feira, 26 de março de 2012

A SAÚDE NO(DO) BRASIL

A SAÚDE NO(DO) BRASIL
Gilvan
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Historicamente, o Brasil está em dívida com a saúde da população. Esta última segue esquecida, aguardando meses a fio por um exame ou cirurgia. As filas só são menores do que a paciência de nosso povo que, como anestesiado, aguarda sua vez de ser atendido. Além de poucos comparado à demanda, muitos profissionais da saúde deixam a desejar quanto à qualidade do serviço prestado. Seja pela parca remuneração, seja pela jornada de trabalho extenuante, seja ainda pela incompetência, o fato é que não são poucas as reclamações de pacientes em relação ao atendimento que lhes é dispensado. Os recursos públicos, garantidos pela legislação, ao que parece, não chegam onde deveriam chegar. O que sobra em desvios, malversação, negligência e corrupção, falta em investimentos. Daí, em parte, a falta de leitos, os prédios hospitalares úmidos, sujos e mal equipados. Pela sarjeta escorrem verbas, assim como a dignidade dos brasileiros, em especial os mais humildes. Enquanto isso, o Poder Público segue omisso, como paspalho, enquanto um punhado de gatunos enriquece sob a sombra de um Judiciário afundado em meio a longos e infindáveis processos a denunciarem elevado grau de incompetência, ineficiência e ineficácia. O tempo, em tais casos, joga a favor dos corruptos e em desfavor da ética. Enquanto isso, corpos se acumulam nos necrotérios. Famílias perdem seus entes queridos. Mais parece uma guerra. É uma guerra. Vitima a sociedade por inteiro. Cria uma triste ciranda, onde a morte é dada como certa. Uma roleta russa sustentada por um Estado sem crédito.

                A Campanha da Fraternidade de 2012 traz como temática a questão da saúde. Impele à reflexão e à discussão. Tomara que, também, à ação concreta por parte da sociedade civil organizada e do Poder Público, por exemplo. A saúde precisa deixar de ser apenas um discurso eleitoreiro. Em jogo, a vida de crianças, idosos, doentes de todas as idades. Milhões de brasileiros aguardam o dia em que neste país, a vida seja de fato respeitada, valorizada e protegida.

quinta-feira, 22 de março de 2012

INCLUSÃO: UM MUNDO PERFEITO

INCLUSÃO: UM MUNDO PERFEITO
Gilvan
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                Mal o sol firmara no horizonte, as crianças iam chegando. Aos pingados, sem pressa, pois que esta é coisa de gente grande. Os adultos é que correm contra os ponteiros do relógio. O frenesi, definitivamente, passa de largo do mundo infantil. Mochilas de todos os tamanhos e cores. Feito balões, algumas delas como que flutuavam apoiadas às costas dos pequerruchos. Uma que outra criança parecia ainda não ter despertado, ao menos é o que denunciavam os olhinhos pequenos e o andar cambaleante.  A maioria delas acompanhada por um adulto. Talvez pai ou mãe. Mais provável que avós, pois que corujas. A mão calejada a segurar aquela mãozinha frágil. Como farol, o mais velho indicava o caminho. Este conduzia sempre à sala de                    aula. A professora, de braços abertos, recepcionava a todos com um largo sorriso. Largo e sincero. Os pupilos eram-lhe caros, feito joias. Verdadeiros diamantes a serem lapidados. Feito oleiro, caberia à professora a nobre e sagrada tarefa de “moldar” aqueles pequenos nacos de barro. Ajeita daqui, arruma dali, aumenta acolá. Já antevia a educadora que por mais simples que fosse, a obra era “prima”. Não dera cinco minutos e lá estavam todos eles. Sentados em forma de círculo, pacientemente aguardavam as orientações da “prô”. Os pequenos mais pareciam capricho da natureza. Pareciam em sintonia com o próprio ambiente da sala. Esta era um espaço amplo, asseado, bem arejado. Do lado de fora ainda se ouvia o cantar matinal dos canários, sabiás e bem-te-vis. Ah, tinha ainda o canto estridente e imperioso do Zé, o velho galo tão conhecido da piazada. Nas molduras de madeira, que atravessavam cada parede de lado a lado, caíam pendurados por prendedores lindamente enfeitados, trabalhinhos e mais trabalhinhos. Como troféus, eram expostos devidamente identificados. Dos doze pimpolhos, dois eram “especiais”. Fosse há alguns anos, estariam confinados numa escola dita “especial”, tais como o eram os manicômios e leprosários. Lugares de gente “desajeitada”. Lá ficariam anos a fio, talvez a vida toda, sob o olhar indiferente dos “de fora”. Quando muito um presentinho aqui ou um mimo acolá a coincidir com datas comemorativas. Espécie de esparadrapo na consciência. Um álibi para empanturrar o estômago com os comes da ceia de Natal. Agora não. Os tempos eram outros. Graças à Lei, honrosa e poderosa. Depois d’Ela nunca mais a escola foi a mesma. Bem-aventurados aqueles que a fizeram. Probos e éticos. Sábios e humanos. Legisladores de verdade. Quase santos. Não fosse o paletó e a gravata perfeitamente alinhados, diriam tratar-se de anjos. Como livro sagrado, a Lei já há algum tempo ocupava gabinetes e salas de professores. As crianças, principalmente elas, recitavam a Lei feito um mantra. Duvidassem, sabiam de cor e salteado. Verdadeiro verbo capaz de dar vida às coisas. Capaz de fazer nascer do nada, sonhos outrora sequer imaginados. O poder da palavra. Dizia a Lei? Pronto! Mandava, não pedia. Determinava que todos os alunos seriam inclusos: coxos, cegos, surdos, mudos. Fosse baixo, médio ou grande o comprometimento motor ou cerebral. Não importava. A Lei trazia a solução. Mágica, instantânea, automática. Feito Deus no Éden, a Lei dizia: “haja luz” e logo a escuridão, a falta de recursos, a desmotivação, os parcos e humilhantes salários dos professores, o número excessivo de alunos nas salas, a incompetência do gestor público, a apatia e omissão da família, enfim, tudo se resolvia. Não por acaso, a Lei passara a ser venerada. Ai de quem dela duvidasse. Não restaria outro lugar que não o Tribunal ou, o que para alguns parecia pior, o “convite” compulsório para migrar, feito desgarrado, para outra Secretaria. Nem poderia ser diferente. Afinal, por que alguém em sã consciência se rebelaria contra Aquela que trouxe nova vida e esperança às crianças? Ao longe, o Zé cantava, como se fosse seu último e derradeiro canto. 

sábado, 17 de março de 2012

ROSAS E DANINHAS

ROSAS E DANINHAS
Gilvan




Flores existem de todas as espécies. Grandes e pequenas, cheirosas e “neutras”, com ou sem espinhos, resistentes ou avessas à água, coloridas ou não. Enfim, uma infinidade de espécies. Contudo, no reino delas, algumas têm história, são ou merecedoras de honrarias ou, ao contrário, preteridas pelo mal que causam. Assim são as rosas e as daninhas. Enquanto as primeiras viram letra de músicas e cantigas, as últimas sequer são mencionadas ou lembradas nas rodas infantis. Rosas são poéticas, daninhas são danosas. Os espinhos das rosas, para o desespero dos que dela sentem ciúmes, mais do que ferirem, dão-lhe verdadeiro charme. As daninhas, apesar de espinhos não possuírem, matam e sufocam. As rosas sequer precisam de invólucro, pois a beleza lhe é inata. As daninhas, por sua vez, por mais que tentem se parecer com rosas, jamais terão seu perfume e sua beleza. As rosas desabrocham e murcham no tempo certo, naturalmente. As daninhas sequer o tempo conhecem, pois como sanguessugas e vampiros extraem a vitalidade alheia. Assim, o tempo que vivem não lhes pertence. Mais cedo ou mais tarde, vem o ceifeiro e limpa o terreno. Só ficam as rosas...

Este ano, sabe-se, é ano de eleição. Com ela, muitos desafios. O primeiro é convencer os eleitores de que a participação política – que não deveria se resumir ao simples depósito do voto na urna – é vital para que venhamos corrigir as distorções, erros e injustiças que nascem, também, do pérfido e mal cheiroso “sistema” político-partidário brasileiro. Um sistema corrompido, não confiável e confuso. Um sistema que perpetua as nefastas práticas de apadrinhamento, de compra de votos, de promessas voltadas ao benefício de poucos que, logo adiante, só fazem inchar de Cargos em Comissão (CCs) e Funções Gratificadas (FGs) os gabinetes e secretarias. Poucos ganham, quase todos perdem. Perde a coletividade. 2012 é um ano para, novamente, optarmos. Qual é o tipo de cidade que desejamos? Qual é o perfil de parlamentar que queremos? Legisladores boçais, ignorantes, brucutus? Vereadores jurássicos que se perpetuam na Câmara pautados em práticas coronelistas típicas da República Velha? Cachoeirinha precisa respirar novos ares. O Município necessita de representantes capazes de auscultarem os verdadeiros anseios e carências nascidas junto à comunidade. Precisa de homens e mulheres verdadeiramente comprometidos com a ética, com a justiça, com a seriedade em relação à coisa pública.

Neste ano, elejamos rosas e não daninhas. Destas últimas, os homens e mulheres de boa-vontade estão saturados e cansados. Já não mais acreditam em seus propósitos e sua lábia. Por mais que se maquiem, se transformem ou se vistam, serão sempre daninhas. Jamais terão o perfume, a beleza e o esplendor das rosas...

segunda-feira, 12 de março de 2012

FILHOS MIMADOS

FILHOS MIMADOS
Gilvan Teixeira


            Como pequenos (às vezes, não tão pequenos assim...) reis, eles dão as cartas do jogo. Dizem, melhor, determinam o que os pais devem ou não fazer. Quero isso, quero aquilo. É pedir e pronto! Lá estão os pais fazendo-lhes a vontade. Portam-se não como filhos, mas como ditadores. Usam o choro, a ameaça e até mesmo o famoso “beicinho” para alcançarem o que desejam. Aprisionam os genitores fazendo destes não apenas servos, mas escravos de seus desejos. Usurpam o direito natural, divino e jurídico da autoridade paterna. Fazem de seus caprichos uma máxima. Invertem a lógica da verticalidade e da hierarquia, ambas indispensáveis à organização social. É bem verdade que não são todos, quiçá até uma minoria. Ainda assim, um grupo que traz sérios e imensuráveis prejuízos à sociedade. Fazem mal a eles, às famílias, à escola, à sociedade como um todo. São os “sem-limite” de amanhã. O preço é, por certo, altíssimo. Precisam do freio. Os pais o dão ou alguém o fará. A escola, a polícia, o juiz... Parecem acreditar que o mundo gira ao redor do umbigo. Ideia não apenas medieval, mas perniciosa. Chantageiam com o único intuito de conseguirem para si aquilo que desejam, mesmo que algo fútil e superficial. Como débeis, olvidam e transgridem as mais elementares regras de convívio social. Tudo sob a complacência, conivência dos ditos (ir)responsáveis legais. Nefasta e terrível condescendência. Para justificá-la, inúmeros e conhecidos são os jargões e argumentos: hiperatividade, bipolaridade, ansiedade, imaturidade (mesmo que cronologicamente, alguns desses filhos já tenham idade para procriar...). Outra estratégia, não menos incomum, é transferir para outrem a responsabilidade. A culpa é dos colegas, professores, amigos, vizinhos... Quando a explicação não é mais elaborada: coisas da pós-modernidade, dos tempos líquidos... Explicações que nada mais fazem do que tentar mascarar o cerne do problema. São falsas “saídas” que, apesar de toda perfumaria utilizada, não disfarçam o fétido cheiro da incapacidade e incompetência paternas (leia-se, também, maternas). Apesar de ululantes, são problemas e fracassos familiares mal resolvidos. Ajuda externa é, às vezes, bem-vinda e necessária. Porém insuficiente. Urge, primeiro, admitir e reconhecer o problema. Segundo, estar disposto a revertê-lo, mesmo que para tanto se tenha que lutar contra o reinado dos filhos mimados.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A COSTELA

A COSTELA
Gilvan



            Um amigo meu, certa feita, disse que a cada oito de março doía-lhe a “costela”. Posto de lado a crença na história bíblica, o fato é que o referido dia é um momento, mais um, de reflexão acerca do que as mulheres representam na nossa vida. Mais do que boas donas-de-casa, excelentes amantes e mães corujas, elas têm sido insuperáveis no exercício laboral, na defesa da ética e, acreditam alguns, no uso do cartão de crédito. Maldade, por certo. Afinal, mesmo que às vezes, só às vezes, eventualmente, excepcionalmente, elas abusem e se deixem seduzir pelos holofotes do mercado, o fato é que são de todo merecedoras. Lá em casa elas são em número de três. Uma tríade de causar inveja. A primeira, mulher já feita, madura. Outra, adolescente, com seus picos de humor. A mais nova, criança ainda, a irradiar energia. Tem ainda a Dona Geci, a primeira mulher da minha vida. Além delas, têm a “mana”, as tias, cunhadas, primas, sobrinhas... Ah, tem a sogra (como esquecer dela?). As colegas de trabalho (há muito, esmagadora maioria), as alunas e suas mães. Mulheres por todo o lado, de todos os tipos. Gordinhas e magrinhas; loiras, morenas e negras; altas e baixas; falantes e introspectivas; estudiosas ou não; engajadas politicamente ou avessas às discussões conjunturais; esportistas ou sedentárias... Enfim, uma miríade de mulheres. Um plural de singularidades. Cada qual um ser único, inigualável. Elas são inconfundíveis, porém mestras em nos confundir, pobres homens. Quem entende as mulheres? O universo feminino parece indecifrável, perturbador. Elas assombram. Com ou sem sombra nos olhos, como sombra assombram, seja pela aparente onipresença, seja pela perspicácia entranhada nas veias. Deixam-nos tontos. Ao contrário de nós, elas dão conta de tudo e, o que é mais incrível, ao mesmo tempo. Multiplicam braços, pernas e olhos. Elas encantam, cantam e plantam. Duvidar, fazem até plantão. Zelam pelos seus e pelos meus. Como leoas, brigam pelos filhos. É bem-verdade que, para nosso desespero, não raras vezes brigam com os pais dos filhos. Brigam, mas brilham. Apesar das rusgas e dos verbetes espinhosos, as mulheres – no fundo – são doces. Deliciam e se deixam deliciar. A vocês, especialmente as mulheres da minha vida, resta humildemente dizer: PARABÉNS!


08 de março de 2012

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

DISCURSO DE FORMATURA

DISCURSO DE FORMATURA EMEF GETÚLIO VARGAS
Gilvan


            Boa noite a todos! É com alegria que saúdo aos aqui presentes: autoridades, professores, funcionários, familiares, amigos e, principalmente, formandos da EJA da EMEF Getúlio Vargas. Ao contrário do que possa parecer, esta não é apenas mais uma noite. Ela é especial. Sim, é uma noite para ser inscrita na memória de muitos. A começar pela do que vos fala. Apesar do pouco tempo de “casa”, esta Escola já me é cara por tudo o que representa. Mais do que um local de trabalho, é o espaço onde tenho criado vínculos de respeito e de afeto. Um espaço privilegiado de “trocas”, onde mais do que ensinar, aprendo com cada aluno e com cada aluna. Aprendo com as diferenças. Aprendo com os mais jovens e o mais velhos. Com os que já são pais e com os que apenas filhos são. Aprendo com o sorriso franco e aberto, mas também com o semblante flagrantemente triste e preocupado. Aprendo com o que, aparentemente, aprende, mas também com o que parece não aprender. Aprendo com os quietos e com os inquietos. Aprendo com meus “iguais”, professores como eu, tanto os que aqui estão, como os que deixaram saudade: Lurdinha, Verinha, Luci, Cirineu... Quantos estímulos, quanta riqueza! Afinal, são as pessoas que fazem uma escola. Esta é feita de relações.

            Uma Formatura é mais do que um mero cerimonial. Especialmente uma Formatura como esta. É a prova de que somos positivamente teimosos. Teimamos em resistir aos incessantes apelos da vida para que desistamos. Teimamos em nadar contra a maré, contra o descaso de alguns entes públicos, contra a desigualdade de renda e de oportunidades, contra a exclusão e o preconceito. Teimamos em lutar contra as intempéries, contra o desânimo, contra o cansaço físico e da alma. Teimamos em aprender, apesar dos equívocos metodológicos e da falta de recursos mínimos para uma aula de qualidade. Teimamos em provar que na “periferia” também se aprende.

            Olhem para cada formando nesta noite. Não são “ilhas”. O sucesso deles é, também, o sucesso da Escola e da família, por exemplo. Parabéns a todos os que apoiaram, mesmo que indiretamente, o projeto de vida destes alunos. Aos que viam com desconfiança o esforço dos formandos, fica a lição: é necessário acreditar!

            Finalmente, lembro que a Formatura não é o “fim da linha”, mas tão-somente o início de novos desafios. O mundo está a exigir, cada vez mais, homens e mulheres que sejam competitivos, prontos para o trabalho, dispostos a aprender. Exige-se não apenas competências e habilidades mas, acima de tudo, ética, respeito, compromisso com a verdade, honestidade e responsabilidade. Espero, assim como todos os demais profissionais desta Escola, ter contribuído na formação não apenas intelectual destes formandos mas, principalmente, no preparo de verdadeiros cidadãos, comprometidos com o tempo e espaço coletivos, voltados para construção de uma sociedade menos injusta e mais fraterna. Feliz Natal a todos e um excelente 2012. Muito obrigado!

OBS: Agradeço aos alunos que escolheram este Professor como "paraninfo". Sucesso aos formandos!

sábado, 17 de dezembro de 2011

O PROFESSOR

O Professor
Igor Franco


            Hoje, enquanto olhava as crianças brincando na praça, lembrei-me de minha infância. Tive uma infância normal, sem nada de estranho: eu brinquei, chorei, fiz birra e todas as coisas que são comuns para uma criança. Porém, o meu tempo na escola mudou tudo: no começo era tranquilo, fazia o que tinha que ser feito e pronto.

Tudo começou realmente no 2º grau. Eu tinha um professor que realmente encheu e muito minha paciência, seu nome era Joaquim Peixoto, era meu professor de geografia, lembro-me bem que em todas as aulas dele, com raras exceções, discutíamos sobre comportamento, ele falava o quanto eu era desleixado e preguiçoso, e eu retrucava dizendo que era um velho sem graça e sozinho. Passaram-se os dois primeiros trimestres e a única matéria que me impedia de passar para o segundo ano era a matéria deste professor com o qual tanto me desentendia. Joaquim era um professor de uns 40 anos, um homem inteligente, casado e tinha um bordão próprio, que sinceramente cansei de escutar, “O sucesso só se alcança lutando!”, ele vivia falando isto, quase em todas as aulas. Como dá para adivinhar, peguei recuperação com ele, e o pior, só eu peguei recuperação com ele.

Como uma forma de implicância, ele fez com que eu tivesse aula todos os dias da semana e dizia que se faltasse um único dia, seria reprovado. Numa quinta-feira, se me lembro bem, estava eu e ele, sentados um de frente para o outro, ele me encarava enquanto eu fazia uma lista de múltiplas escolhas. Quando acabei, ele me perguntou: “Por que você me odeia?”, eu respondi dizendo que não o odiava, mas ele insatisfeito, quis saber o motivo de tanto bate boca durante todo o ano. Com isso, ficamos conversando até mais tarde, descobri que ele é professor de geografia, história e português, queria ter feito Direito também, mas nunca teve tempo. Na semana seguinte, fiz a prova, entreguei a ele, tivemos um momento de silêncio na sala até que ele levantou a cabeça e olhou para mim e com um sorriso disse: “Você passou!”

As férias passaram como um foguete, e no ano seguinte, lá estava ele, o meu professor de geografia que tanto me insultava estava em trégua comigo, logo no primeiro dia de aula ele me chamou para uma conversa na sua sala, esperava ganhar uma bronca, embora não tenha feito nada. Chegando lá, ele perguntou como foram minhas férias, me falou sobre as suas, comentou sobre uma viagem que fez a Itália, me falou também sobre os ofícios da geografia, a importância que se tem em conhecer coisas sobre economia, política e sociedade, percebi então, que não era mais o menino desinteressado e relaxado do ano passado. Eu estava vendo a necessidade de se aprender cada vez mais e, com isso, ganhei um novo amigo.

Muitos na escola me chamavam de queridinho do professor, de puxa saco. Mas nunca dei bola, o professor Joaquim se tornou meu amigo. Em um certo dia, mais ou menos em Julho, convidei ele para tomarmos um café após a escola, fomos a uma lanchonete a duas quadras da escola, conversamos sobre a Ordem Mundial, Globalização, o possível crescimento da economia do Brasil. Eu queria ter todos os conhecimentos que ele tinha.

O fim do ano aproximava-se e com ele as férias. Diferente do ano anterior, já estava passado por média, as férias estavam garantidas. No último dia de aula, convidei meu professor para participar de nossa ceia de natal, junto a minha família, ele aceitou. No dia 24 de Dezembro lá estávamos nós: eu, meu pai, minha mãe e nosso convidado, o professor Joaquim. Tivemos muitas conversas, meu pai se interessava em saber sobre meu rendimento na escola, minha mãe perguntava a ele sobre suas viagens, e eu fiquei apenas parado, observando a felicidade de todos que estavam à mesa. Foi um dia inesquecível.

Começou o último ano do 2º grau. Foi um ano cansativo, fiquei dividido entre as provas escolares e as do vestibular que estavam por vir. Eu não tinha nem ideia do que iria cursar na faculdade, mas tinha certeza que precisaria estudar muito. Joaquim me ajudava em seu tempo livre, quando não tinha provas para corrigir ou aulas para preparar, ele me preparava para o vestibular, arrumava livros universitários e fazia listas de exercícios, eram muito difíceis. Quando finalmente chegou o fim do ano, estava pronto para as provas e decidido, queria cursar Direito.

No dia da formatura, resolvi o presentear com um mapa terrestre, aqueles em forma de globo, contei a ele sobre minha escolha da faculdade e pude ver que estava surpreso e orgulhoso, provavelmente não imaginava que aquele aluno preguiçoso chegaria tão longe. Ele foi meu professor preferido, claro que tive muitos outros professores, mas dele, nunca esqueci.

Um ano depois, soube que seu filho nasceu. Fui convidado a ir ao batismo e ser o padrinho da criança, aceitei o convite.  Seu filho foi batizado com o nome de Henrique Peixoto, um menino saudável e bem esperto. Infelizmente a faculdade me impedia de passar mais tempo com meu afilhado. À medida que meu afilhado crescia eu ficava mais distante dele e de meu grande amigo. Quando terminei minha faculdade, estava trabalhando em uma agência de advocacia. Depois de um ano trabalhando duro, recebi uma proposta, aceitei e viajei para a Europa.

Anos se passaram, eu já estava casado, tive meu primeiro filho e criei um negócio próprio, minha própria agência de advocacia, onde coloquei o lema: “O sucesso só se alcança lutando!”. Depois de 30 anos longe do Brasil, retorno para minha terra natal, encontrei meus pais, revi amigos. Mandei uma carta ao endereço do professor Joaquim, avisando para me encontrar na lanchonete próxima a escola. Chegando lá, me deparo com Henrique, conversamos um pouco, até que perguntei onde o seu pai estava, ele me falou, com uma voz triste, que o professor que eu tanto admirava, tinha morrido há dois meses. Ele me levou ao cemitério onde seu pai tinha sido enterrado. Lá ficamos por um bom tempo, olhando para a lápide, onde tinha escrito: Aqui jaz Joaquim Peixoto! “O sucesso só se alcança lutando!”.

Até hoje, me arrependo de nunca ter dado notícias minhas. Arrependo-me de nunca ter dito a ele que a sua frase estava certo. Mas o pior de tudo, me arrependo de nunca ter agradecido a ele, por tudo que fez por mim, pela ajuda que me ofereceu. Ele teve sucesso em sua vida, lutou para fazer o futuro de muitos ficarem melhor, e eu, sou um desses muitos. Sua missão como professor foi o sucesso de sua vida e ajudou a construir o meu sucesso.

Enfim, escrevi esta história, para vocês, jovens estudantes, nunca esquecerem que não importa o quanto uma matéria seja difícil ou o quanto o mundo fique contra vocês, respeite seu professor, pois ele será o melhor aliado que se pode ter. O professor é a ignição para o começo do nosso futuro. Ah! Jamais esqueça! Agradeça a quem luta por você todos os dias para ver seu sucesso, antes que seja tarde demais!


OBS: O texto acima é uma homenagem de um excelente aluno a este humilde professor!
  





  


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O PAR DE TÊNIS

O PAR DE TÊNIS
Gilvan



            Morrera como vivera. Ainda piá, mal podia esperar o amanhecer do dia para ir à escola. Não que intencionasse estudar. Prestar atenção na explanação da coitada da professora que estrebuchava lá na frente, quase fazendo piruetas para chamar atenção da classe? Nem pensar. Não tinha tempo para isso. Queria era zoar, brincar, colocar as conversas em dia, como se um enorme tempo houvesse passado entre o último intervalo entre os períodos, quando os alunos então podiam não apenas levantar da cadeira como, ainda, conversar à vontade. Queria era mesmo mostrar o par de tênis ganho na véspera. Um Nike multicolorido, impossível de passar despercebido. Fazia questão de mostrar o presente dado pela mãe. Esta, até que tentara demovê-lo da idéia, sem sucesso. Afinal, além do preço nada módico, o filho há muito não fazia por merecer qualquer agrado. Indolente, preguiçoso, desleixado com os afazeres domésticos, irresponsável com os estudos. O guri só dava trabalho. As reclamações eram quase que diárias. Os bilhetes tomavam conta da agenda escolar. A mãe buscava justificar os pecados e deslizes do filho com alguns chavões da pós-modernidade: “é hiperativo!”, “tem déficit de atenção!”, etecétera e tal.  Sempre que chamada à escola, a reação ia da indiferença à revolta. Contra a escola, acreditem. Apesar de tudo, era o guri pedir e pronto! Lá estava o pedido em forma de presente. Mais parecia uma história mal contada do gênio da lâmpada. No lugar do gênio, uma mãe não menos pobre de espírito do que o filho. No lugar da lâmpada, o cartão de crédito a acorrentar a mulher, dia após dia, mês após mês. O guri engordava feito porco para o matadouro. O cérebro parecia diminuir à medida que aumentava a pança. Amigos, tão raros quanto os livros. Salvo, é claro, os “imaginários”. O tempo que dispensava para o chats e games faltava-lhe para os encontros reais. O pai se fora no último verão. Assim como muitos outros. Parecia não fazer falta, tal a nulidade da figura paterna em sua vida. A mãe, apesar de certa relutância, finalmente dera-lhe o tênis tão desejado. Nenhum sinal de gratidão. Nem “muito obrigado”, nem tampouco um sorriso, mesmo que tímido. O tênis era o fim em si mesmo. Para sua decepção, ninguém reparara nos pés do adolescente. Ao menos, nenhum comentário, nem de agrado e nem de desagrado. Os colegas pareciam absortos em seus próprios “brinquedinhos”: celulares, MP4, tablets e tantos outros penduricalhos nascidos da globalização. O que para o guri era novo, para os demais passara às escuras. O prazer de duas horas atrás passara a ser frustração. Assim como o crack, a merla ou o êxtase, o barato durara pouco. Muito pouco. O vazio tomara conta daquele campo fértil à tristeza camuflada pelo odor artificial, tão comum nas prateleiras dos hipermercados e shoppings da cidade. Voltava para casa quando, de repente, um desconhecido não menos jovem do que ele, arma em punho, declarou: “perdeu mano”. Perdera não apenas a vida, mas o par de tênis!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

EJA: PARA ONDE VAMOS?

EJA: PARA ONDE VAMOS?
Gilvan



Na última sexta-feira de novembro do presente ano, professores e responsáveis por alguns setores (SSE e SOE, por exemplo) reuniram-se para discutirem acerca da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O objetivo era traçar como que um “perfil” do aluno que hoje freqüenta tal modalidade de ensino na Escola Municipal de Ensino Fundamental Getúlio Vargas. Tarefa difícil, afinal corre-se o sério risco de enveredarmos para uma espécie de “reducionismo”, simplificando demasiadamente algo que é deveras complexo. Bom seria, quiçá, falarmos em “perfis” da EJA, tamanha é a diversidade encontrada junto aos bancos escolares do ensino noturno de nossa Escola. Sim, diversidade étnica, sexual, etária, religiosa, política, econômica, entre tantas outras. Portanto, o que se busca aqui é tão somente esboçar uma espécie de “aluno médio”, talvez facilitando a elaboração de estratégias comuns voltadas à melhoria da qualidade do ensino que é ofertada na EJA.

A maior parte dos educandos da EJA da EMEF Getúlio Vargas é formada por adolescentes, realidade esta presente – ao que parece – em quase todas as instituições públicas municipais que ofertam o ensino noturno, independentemente da modalidade. Percebe-se aqui uma significativa mudança de perfil comparado há alguns anos. A EJA, antes “supletivo”, atendia principalmente a adultos trabalhadores que não haviam tido acesso à educação básica em idade própria. Hoje, não apenas os adultos são minoria, como os adolescentes estão afastados do mercado de trabalho, seja ele formal ou informal. Se por um lado, a EJA “renovou-se” do ponto de vista etário, por outro, descaracterizou-se, afastando-se em grande parte de seu propósito original. A esmagadora maioria do alunado da EJA de nossa Escola é oriunda das classes diurnas. São adolescentes maiores de quinze anos que foram, consciente ou inconscientemente, deportados do dia para a noite. Quanto aos motivos para tal prática, são inúmeros: alto índice de reprovação, causando uma enorme defasagem idade-série, o que dificulta a convivência entre o adolescente e o restante do grupo; inabilidade do corpo docente em lidar com os adolescentes; indisciplina escolar, fazendo com que a Escola opte pelo caminho aparentemente mais “curto”, qual seja, o do simples deslocamento do “aluno-problema” do dia para a noite; situações de vulnerabilidade social; necessidade do adolescente em buscar uma fonte de renda durante o período do dia; descontrole e falta de compromisso de algumas famílias com os adolescentes, criando-se uma falsa cultura de que a mera transferência destes últimos para o noturno significa o término da responsabilidade moral e jurídica em relação à prole; etc.

O contexto acima tem engendrado inúmeras situações de conflito entre a EJA que se tem e a que se quer. Há, indiscutivelmente, um oceano de distância entre o real e o ideal. Tal situação tem levado, por exemplo, alguns professores da EJA à exaustão física e psicológica, corroborando um sentimento de pessimismo quanto ao futuro dessa modalidade de ensino. Alguns alegam que há, entre outras conseqüências, um permanente conflito de gerações, onde os alunos mais velhos acabam por desistir da EJA frente à pretensa natureza “indolente” e “indisciplinada” dos mais jovens. O “vazio” (aparente ausência de quaisquer compromissos) característico (às vezes “estereotipada”) da adolescência afronta a visão de mundo dos mais velhos. A infrequência e evasão escolares, tão comuns na EJA, constituem outro sério problema a ser enfrentado. Chama atenção o caso dos mais jovens, pois que estão como que num limbo, nem céu, nem inferno. Nem evadem, nem freqüentam! Levas e mais levas de alunos (hoje, talvez, a maioria...) optam por uma espécie de vai-e-vem. Afastam-se da Escola por muitos dias seguidos e, após a ameaça de “prestação de contas” junto ao Conselho Tutelar ou a um que outro magistrado, retornam para sala de aula por alguns  dias. Dali pouco tempo, o ciclo se refaz. As conseqüências disso são trágicas, tanto do ponto de vista pedagógico quanto social. Pedagogicamente, o tempo perdido mostra-se irrecuperável, levando quase sempre à reprovação por faltas ou por insuficiência de rendimento. Elevam-se os índices de repetência, passando uma imagem de incompetência do corpo docente, da Escola, da mantenedora e do Poder Público como um todo. Quanto aos desdobramentos sociais, intensifica-se o grau de vulnerabilidade desses jovens, ficando à mercê do consumo de drogas, da delinqüência juvenil e da prostituição, por exemplo. Ante o exposto, surge e alimenta-se um jogo de “empurra-empurra”. Os atores envolvidos acusam-se mutuamente. “Bodes expiatórios” nascem, conforme o ponto-de-vista de quem faz a “leitura”. Hora a culpa recai sobre o aluno, hora sobre o educador, outras vezes sobre a família. Hora sobre a mantenedora e o Poder Público como um todo. Vez por outra sobre toda a sociedade. A busca de culpados, quase sempre, acaba por cegar e entorpecer os sentidos, prejudicando e anuviando a busca de saídas. Estas últimas passam, necessariamente, pela aceitação de que o problema é de todos, trata-se de uma responsabilidade compartilhada. Não se quer achar “culpados”, mas alternativas que mitiguem o problema.

A “falência” da EJA é algo já dado por muitos. Salas de aula vazias, altíssimos índices de reprovação, aprendizado pífio. O custo social das escolas de EJA é elevadíssimo. O contribuinte tem pago (caro!) por uma estrutura física e humana que não tem dado conta da aprendizagem dos alunos. Não ficaríamos espantados se mais escolas de EJA fechassem. Por certo cabe ao Poder Público o dever constitucional de garantir o acesso e permanência do aluno em escola pública de qualidade. Cabe à mantenedora fornecer os meios indispensáveis à manutenção de uma escola que dê conta das demandas existentes: espaços pedagógicos adequados, recursos tecnológicos modernos e eficazes, profissionais qualificados e em constante aprimoramento, formação e manutenção de uma “rede” de atendimento aos alunos com dificuldade de aprendizagem, “inclusos” e/ou em situação de vulnerabilidade sócio-econômica. Cabe ao educador, por exemplo, transformar teoria em prática; casar o discurso com a própria conduta; debruçar-se sobre a pesquisa; apropriar-se das novas tecnologias; dar vida (através de projetos) aos certificados obtidos, não raras vezes, com o dinheiro público; fazer dos cursos de formação não apenas um meio de obtenção da promoção por merecimento ou mudança de nível mas, sobretudo, um meio de qualificação de seu trabalho, com resultados práticos sobre a aprendizagem. Cabe à família exercer seu papel moral e legal de primeira instância de formação do adolescente, ensinando acima de tudo valores como honestidade, respeito, ética, solidariedade e alteridade; deve ela participar ativa e permanentemente da vida escolar do aluno, comprometendo-se com a aprendizagem do mesmo; precisa solidarizar-se e tornar-se cúmplice do processo pedagógico; deve buscar, sempre que preciso, os meios “além-escola” objetivando o atendimento integral do adolescente. A este, por sua vez, cabe assumir responsabilidades, comprometer-se com os estudos, respeitar os princípios de convivência existentes na Escola, buscar superar eventuais dificuldades de aprendizagem com esforço e dedicação, ser pontual e responsável na entrega das atividades solicitadas, entre outros.

O embrutecimento e “imbecilização” do aluno da EJA precisam ser rompidos. Mister é se aprofunde a articulação entre todos os que participam, direta ou indiretamente, do processo de formação do educando: profissionais da educação, família, aluno, Poder Público, sociedade civil organizada. No que tange ao ambiente escolar, mostra-se indispensável o planejamento permanente. Os encontros devem ter objetivos, principalmente, pedagógicos, instigando as “trocas” entre os diversos componentes curriculares, fomentando os múltiplos “olhares” em relação ao aluno, buscando saídas cooperativas, interdisciplinares, transdisciplinares, etc. A responsabilidade sobre o “não-aprender”, como já dito, é de todos. O sucesso ou fracasso do aluno é, indubitavelmente, o sucesso ou fracasso de todos. Ganham ou perdem todos. A Proposta Político-Pedagógica (PPP) deve deixar de ser um mero calhamaço de papel desconhecido pela comunidade escolar, passando a ser energia viva voltada às transformações necessárias. Para tanto, é necessário que haja, de fato, a participação do coletivo. Este precisa ser não apenas ouvido, mas auscultado. A comunidade precisa apropriar-se do espaço escolar. As “competências” de cada segmento precisam ser respeitadas. A EJA, ao contrário do que ocorre hoje, precisa preparar o educando para a vida, para o trabalho, para o exercício pleno da cidadania.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O GRENAL QUE NÃO TERMINOU

O GRENAL QUE NÃO TERMINOU
Gilvan



            Ainda esses dias, meu guri – no auge dos seus oito anos – havia dito algo que, inicialmente, parecia sem nexo algum. Porém, pensando bem, achei que a “gafe” poderia dar ensejo a uma história. Dizia ele que o primeiro grenal teria sido em 1544. Coitado, virou motivo de chacota da irmã mais velha, esta alucinada por livros. Meio sem jeito, buscando desviar o assunto, deu-se conta o pobre Matheus da aparente asneira. Ora, 1544 era uma data remota em demasia – por maior que fosse o exagero – para ocorrência da mais conhecida rixa do mundo futebolístico. Será?

***

            À época, o que é hoje o Rio Grande do Sul não passava de uma terra a ser desbravada. Ocupavam esta área algumas tribos indígenas, grupos estes que rivalizavam entre si. Durante gerações, charruas e minuanos se digladiavam feito ximangos e maragatos. Tudo era motivo para disputa: mulheres, espaço, comida. A situação tornara-se de tal forma insustentável que o simples ato de banhar-se no Grande Lago, hoje Guaíba, era por demais arriscado. Certa feita a filha do cacique minuano mergulhava nas lânguidas águas, nua em pêlo, quando sentira um par de olhos posto sobre ela. Assustada, buscou refúgio junto a alguns igarapés, na infrutífera tentativa de esquivar-se do suposto indolente. Mal sabia ela que o dono do olhar era o jovem herdeiro da tribo inimiga. Mais parecia armação do destino. Ironia dos deuses. Não fora por falta de aviso dos anciãos de ambas as tribos, pois que há gerações advertiam os mais jovens de jamais se aproximarem do lugar. Era arriscado. Perigoso. Muitos eram os causos que buscavam associar o Grande Lago a seres mitológicos e assustadores. Contudo, ao que parece, os jovens haviam se deixado levar pelo espírito aventureiro que move os corações dos mais moços. Uma falha que, talvez, pusesse em risco não uma, mas duas nações inteiras. Apesar dos esforços de ambos – dela, tentando esconder sua nudez e dele, buscando não se deixar ver por aquela bela jovem –, o que parecia impensável aconteceu. Amor à primeira vista. Apesar das atávicas barreiras culturais e lingüísticas, em que pese a histórica rivalidade entre os povos, os corações entrelaçaram-se. O simples olhar era mais do que suficiente para comunicar o que pensavam, o que sentiam... Ruborizada, a jovem ficou inerte. Só sorria. Ele, por sua vez, não conseguia disfarçar o tum-tum acelerado a batucar-lhe o peito. A escassez de roupa não os inibia, pois que a natureza os tornava puros, alheios aos pecados que, mais tarde, os europeus introduziriam nestas terras. Não se tocavam. Guardavam alguma distância, insuficiente para cada qual perceber as alterações no corpo do outro. Ainda sorrindo, despediram-se num breve aceno de cabeça. Não demorou muito para os anciãos desvelarem o segredo. A paixão dos jovens era notória. Não diziam coisa com coisa. A cabeça parecia descolar do corpo. Os olhos miravam o nada. A pergunta que todos faziam, em ambas as tribos: quem era ele(a)? Por óbvio, não imaginavam o que o destino lhes reservava. A pajelança até que tentou buscar a resposta nas forças da natureza. Sem sucesso. A mãe terra e os irmãos pássaros mantinham-se mudos, parece que decididos pela cumplicidade naquele amor proibido. Quem sabe, ali a chance de pôr fim às antigas rixas e batalhas a mancharem de sangue os verdes campos enfiados entre os morros do que é hoje a capital gaúcha. O coração do índio, contudo, parecia decidido a não comungar da mesma idéia. Ao contrário. Ao saberem da intenção dos jovens, as tribos puseram-se em pé de guerra. Todos os guerreiros pintados, andando em círculos, num frenesi interminável. A música era cadenciada pelo som dos tambores improvisados. Um, dois, três dias... Preparação e invocação das divindades para a proteção contra o pérfido inimigo. Finalmente, o grande dia. O “juízo final” dos pampas. O Grande Lago seria tomado pela cor púrpura do sangue adversário. Os jovens – motivo de tão grande desavença –, por sua vez, permaneceram nas tribos, sob os cuidados das mulheres. Aflitos, lembravam do último e único encontro, às margens do Lago. Enquanto isso, o tabuleiro estava preparado para o embate. Apesar da distância, restou claro que ambas as tribos traziam no corpo as mesmas cores, apesar das insígnias típicas de cada um. Temia-se pela confusão que isso poderia gerar. Vai que um desgraçado, mais descuidado, desferisse seus golpes contra sua própria gente. Como resolver o impasse? Um guerreiro, por demais franzino, de canelas finas, não titubeou: por que não um jogo? “Jogo”? Como assim? Sim, um jogo entre duas equipes em campo neutro: ao vencedor, toda a terra fértil, do nascente ao poente, passando pelo que é hoje a Azenha. Quanto ao perdedor, restaria habitar as profundezas do Grande Lago. Feito o acordo, só faltava decidir as cores de cada equipe. Os charruas optaram pelo escarlate. Já os minuanos, mais sóbrios, tomaram para si a cor do céu, azul feito anil. Este último, acompanhado do preto que riscava o corpo dos guerreiros e do branco que estampava aqueles olhos atentos, formava uma espécie de arco-íris tricolor. A pelota surgiu não se sabe de onde. Era uma pequena esfera envolvida por couro e recheada de folhas de bananeira. As goleiras não passavam de armações de taquara. Tudo pronto para a partida. Mal soara o assobio vindo sabe-se lá de onde, a partida começou. Uma tragédia. Acertavam tudo, menos a bola. Vez que outra, era um uivo de dor aqui, um grito ali ou acolá. As pernas da indiarada mais pareciam um porongo, tal o inchaço. Gol que era bom, nada. A tal ponto do goleiro de um dos times se dar ao luxo de sentar sobre os próprios calcanhares e puxar o charuto que trazia consigo. Era mais fácil sair um enfartado dali do que a bola cruzar por entre as varas. Apesar do entusiasmo das duas torcidas e dos rituais xamânicos, o placar seguia inalterado. Zero a zero. O jogo seguia insosso. Aos poucos o sono ia tomando conta daqueles olhares antes atentos. Diante da ausência de um juiz que arbitrasse a partida, esta seguia feito pluma ao vento, sem direção, ao sabor dos alísios. Já exaustos, os desafiantes mal se agüentavam em pé. Não corriam, sequer andavam. Titubeavam, ziguezagueando feito ébrio saído de bar. Finalmente, alguém teve a feliz idéia de estipular um tempo para a partida. Tempo? As tribos pareciam desconhecer tal conceito. Ainda assim, com a anuência dos anciãos tanto de minuanos como de charruas, foi acordado que a peleia se estenderia até que o Grande Disco deitasse sua cabeça por detrás do vale. Contudo, apesar do esforço hercúleo daquela gente, o destino das tribos seguia indefinido. Decidiram deixar que os deuses lançassem a sorte de cada um. Como? No palito! Aquele que tirasse o maior pedaço, sua tribo se consagraria vencedora. À outra, restaria o ostracismo. Por fim, os minuanos levaram a melhor, cabendo-lhes os verdes campos junto à Azenha. Quanto aos charruas, sobrou-lhes as profundezas do Grande Lago. Naquele lugar brejeiro e pantanoso é que passariam a viver os infelizes, abandonados à própria sorte. Condoídos pelos dissabores da tribo inimiga, os minuanos decidiram por auxiliá-los na empreitada de aterrarem área tão imprópria. Foram dias, meses, anos de trabalho incansável. Como forma de gratidão, os charruas propuseram um acordo de paz permanente, selado pelo enlace matrimonial entre os jovens que, noutros tempos, haviam sido o motivo da discórdia. Assim, finalmente, parecia nascer um novo tempo para aquelas tribos, reais fundadoras da dupla grenal.

A ELEIÇÃO

A ELEIÇÃO
Prof. Gilvan

            A cada três anos era a mesma coisa. O discurso politicamente correto cedia lugar às palavras pouco amistosas. Professores viravam gladiadores da pior espécie. A mão que antes afagava, agora deixava às claras o dedo em riste. O braço amigo de outrora, duvidasse, agora riscava o vazio à procura do queixo desafeto. Ontem, amigos. Hoje, ferozes adversários. Não fosse a placa indicando tratar-se de uma escola, diriam ser uma arena. O palco da discórdia a opor, de um lado, chimangos e, de outro, maragatos. Oponentes pobres de ideologia e vazios de princípios. Em volta, assistindo a tudo, alguns olhinhos inocentes, outros nem tanto. Em comum, o sentimento de que algo estava errado. A cordialidade professoral – normalmente entre os próprios pares (haja visto o corporativismo, às vezes, doentio e retrógrado) –, antes reinante, era preterida em nome de uma opacidade relacional, um clima por demais pesado. Os alunos, impotentes, pareciam assistir a tudo, como sem acreditar. Embora tenros, desde muito cedo sabiam a diferença entre discurso e prática. Só esta última os convencia. No mais, eram só palavras vazias, destituídas de alma, ocas feito bambu. Alguns pequerruchos, mal tinham largado as fraldas, já se viam cercados de aliciadores, sequiosos por votos. Alunos que há pouco recebiam os safanões da Direção e de seus mestres, agora eram tratados a pão-de-ló. Antes, excluídos, mal-criados, delinqüentes, indisciplinados. Agora, miraculosamente, quase anjos. Não faz muito, eram apenas números. Repentinamente, passaram a ser chamados pelo nome e, inacreditavelmente, pelo sobrenome. O “terrível” da setenta e três virou Pedro Henrique. O “tinhoso” da cinqüenta e um passou a ser o Matias. Até linhagem receberam. O “impossível” da vinte e dois, de repente, virou o Lucas Alberto de Oliveira Prado, filho do Seu Carlos, o pedreiro do Beco Dezesseis. Os tempos, em período de eleição, de fato eram outros. Os semblantes, antes hermeticamente fechados, abriam-se. Sorrisos, abraços e apertos de mão eram largamente distribuídos, exceto para os adversários. A Sala dos Professores, antes uma babel de assuntos em meio ao comércio intenso de langery e compotas de pêssego, agora mais parecia velório. Um desconfiando do outro. A salvo, só o morto. A balbúrdia que antes ofendia aos ouvidos fora trocada pelo silêncio sepulcral. Olhares desconfiados varriam o lugar. Poucos se aventuravam a se manifestar. Vai que fossem mal compreendidos. Preferiam o silêncio, ao risco de serem acusados de traição. As poucas palavras que surgiam, mais pareciam sussurros. Até o bater das asas de uma varejeira se fazia ouvir por todos. Os poucos corajosos que compunham a Comissão mais pareciam pisar sobre ovos. Controlavam até a própria respiração. Qualquer deslize e pronto! Anos de trabalhos prestados eram esquecidos. De herói a vilão, num piscar de olhos. O que era para ser um momento sublime de discussão, estreitamento do diálogo, acolhida, reflexão, passava a ser motivo de afastamento, degeneração das relações e frouxidão da ética. O precioso tempo que deveria ser usado para impregnar o ambiente escolar de novas idéias e busca de soluções passava a ser um tempo subtraído da gurizada em desfavor da comunidade escolar. O que era para ser aprendizado e exercício da democracia passava a ser motivo de repúdio, asco e vergonha. Para quê democracia? Para quê liberdade? O recado que teimava em ficar para os pequenos era o de que a “gestão democrática” não passava de falácia. Respeito, alteridade, cumplicidade com a verdade, pareciam ser conceitos meramente livrescos. Perdia-se a oportunidade de fazer da escola um espaço de aprendizagem e de construção da cidadania. Os olhinhos, antes reluzentes feito estrelas, iam aos poucos perdendo o brilho. A esperança parecia querer escapar da caixa de Pandora, esvair-se em meio àquela que deveria ser o lúdico espaço da criação, da dúvida, da curiosidade e da construção da cidadania.