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sábado, 26 de abril de 2014

(IN)FELIZ ANIVERSÁRIO!


(IN)FELIZ ANIVERSÁRIO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O último dia vinte e dois de abril, quando da passagem pelos quinhentos e quatorze anos do chamado “descobrimento” do Brasil, fez-me lembrar de uma mulher[1] avassaladora, mas fútil. Exuberante, porém vulgar. Corpanzuda, entretanto moral e eticamente mesquinha. Maria-chuteira embalada pela preguiça regada a sonhos de um casamento bem sucedido. Daquele tipo que posa no face com “biquinho” e tudo – não suporta estar à margem do que entende ser moda –, metida em roupas tidas por sensuais, enquanto o quarto, propositadamente às escondidas do foco da webcam, mais parece um entulho de lixo. A aparência, segundo ela, é o que importa. O fétido cheiro advindo do chorume que impregna a casa inteira, desde que não flagrado pelo vizinho, é apenas um detalhe. Uma mulher que apesar dos anos, segue imatura, entregue a devaneios e desejos muito além de suas posses. Doentiamente, segue acreditando num futuro que não chega. Tola e imbecilmente, teima em dar ouvidos às promessas de mal-intencionados que, após se deleitarem com o corpo dela, dão-lhe as costas e se voltam para seus próprios umbigos. Uma mulher que serve caviar às visitas, especialmente aquelas de além-mar, mas que aos filhos nada mais dá do que migalhas. Uma mulher que para preservar as “amizades” – feito cisternas rotas –, relativiza todos os seus valores, perdendo por completo sua individualidade. Promíscua, não perde tempo em lançar-se nos braços de quem acene com algum instante de prazer, mesmo que tênue e meteórico, já que a dor e a frustração causam-lhe pânico. Talvez por isso, a espera, a paciência, o planejamento a médio e longo prazos, o esforço, o trabalho árduo, a pesquisa e qualquer outra espécie de esforço físico ou mental soam-lhe tormentosas. À mulher, servem de modelo as “amigas” do Velho Mundo e a eterna “senhoria” do Norte, na maneira de vestir, comer e nos trejeitos de caça-homem, desde que o aprendizado não requeira renúncia à indolência e ao ócio infértil. Uma mulher pidona e sovina. Por um lado, extorque todos a quem pode, mediante promessas e, quando estas não convencem, apela para ameaças e intimidações. Por outro lado, é uma mulher que resiste em dividir o que tem com aqueles que, por direito, são os verdadeiros herdeiros de um Eldorado mal conhecido. Uma mulher que vive de apostas, que se acostumou aos “puxadinhos” e gambiarras só para inglês ver. Uma mulher dada ao vício e ao torpor nauseante que resseca as narinas e embrutece o cérebro. Vidrada nas teledramaturgias e reality shows, mostra-se incapaz de separar alhos e bugalhos. Para ela, virtual, real e ideal são sinônimos. Recusa-se a discutir política e faz desta última a grande algoz de seus dissabores. Faz da urna sua latrina, assim como do livro seu mouse pad, viajando pela “rede” e, ironicamente, nela se emaranhando. Mulher a escamotear, por meio de maquilagens pagas a preço de ouro, uma depressão que parece não ter fim, amedrontada pela violência que alimenta a insônia. O batom avermelhado ou em verde-amarelo lambuzando a boca só agrava a triste figura da mulher. Para ela, as mais de quinhentas velinhas apontam, ao mesmo tempo, para um passado inglório e para um futuro incerto.
Veja também:
http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=1423c72e086083cccf565767ec7e0d20





[1] Não me entendam mal as mulheres, não se trata aqui de “gênero”, mas tão-somente de uma “adaptação” textual. 

sábado, 19 de abril de 2014

CONJUNTIVITE


 CONJUNTIVITE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Dez dias. Não aguentava mais. Olhar o mundo como que pela metade era algo, por demais, sofrível. Perdera a conta de quantos curativos descartáveis, embebidos em chá de camomila, depositara sobre o dito cujo. Sem falar, é claro, no oceano de gotas a pingar do colírio. Cada uma delas causava-lhe certo mal estar, menos pelo contato com a córnea do que pelo risco de desembolsar mais um punhado de reais na compra de um novo frasco. Melhor, “frasquinho”, não mais do que 05 (CINCO!!!!) mililitros de um composto que, pelo preço, devem ter sido extraídos direto do trono divino. Devia ser benta aquela água, tamanho o valor cobrado pelas farmácias. Apesar disso, o colírio parecia ser feito leite, adulterado. Passado tantos dias, o olho direito seguia encarnado e, quase que totalmente, fechado. Fora aquela dor que surgia cada vez que deslocava o olhar para esta ou aquela direção... Dirigir soava como um flagelo, ainda mais quando havia claridade, natural ou artificial. Resumindo, sempre! A sensação de estar sendo observado pelos outros era ainda pior. A impressão é que a velhinha do supermercado, já à beira da morte, parecia mais preocupada em encará-lo (ao OLHO!) do que com o degrau a sua frente. Até os pequenos não deixavam passar em branco. Lançavam o olhar em direção à vista inchada e começavam a chorar. Eles e o cara do olho. A maldita conjuntivite parecia ter hora certa para lacrimejar. Bastava ter alguém por perto e lá estava ela a se manifestar. Gostava de chamar atenção. Mais fazia lembrar aquelas mulheres de cabaré barato, enfiadas em seus vestidos avermelhados, ancas enormes e coxas carnudas. Tudo, menos passarem despercebidas. A conjuntivite, da mesma forma. Feito marafona, insiste em dormir com a gente. Por mais que tentemos escondê-la, sempre dá as caras. Tipo aquele primo chato! A gente conversa daqui e desconversa dali, rezando para o sujeito ir embora, e nada. Consulta o relógio, boceja de forma grosseira e o primo segue inerte, nada de tomar suas coisas e se despedir. Até que bate o desespero: apela-se para os arrotos e flatulências. O sujeito nem de perto esboça um adeus. A conjuntivite, com ela, é a mesma coisa. Talvez, a única vantagem desta sobre aquele é que a conjuntivite, normalmente, é menos frequente e mais espaçada em suas “visitas”. É verdadeira estraga-prazer. Pior do que uma conjuntivite é tê-la em véspera de feriadão. Sabe, daqueles feriados que a humanidade espera décadas, séculos, milênios para ter? Feriados mais incomuns do que o encontro, na mesma órbita, da Terra, da Lua, do Sol e de todos os planetas e corpos celestes de nosso sistema? Pois é... Cinco dias de feriado (o mesmo número de mililitros do maldito frasco: merda de coincidência!). Todo esse tempo em casa, sob uma espécie de lusco-fusco para não agredir o olho machucado. Todos lançam sobre o infeliz um olhar de desaprovação: a mulher, os filhos, até mesmo o cachorro... Praia? Serra? Shopping? Não, nada disso. Casa! Dispensável é dizer que são dias de absoluta carestia sexual. Fazer o quê? Sexta-feira santa, diriam as carolas de plantão. Nenhum prazer. Pior, acumulando sobre a mesa da sala de jantar um incontável número de provas, trabalhos e planos de aula para serem corrigidos, revisados e retomados. Pareciam zombar do estado vil do sujeito com olho avermelhado. Pareciam desafiá-lo, certos da impotência do coitado. Atormentá-lo, ao que se via, também parecia ser intento de todo aquele material infame, perverso e desumano. Não fosse a conjuntivite forte aliada da inércia laboral, veriam eles o que é bom p’ra tosse. Quanto ao olho... Próxima semana, a gente conversa. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

EUROPA: QUADRO NATURAL


EUROPA: QUADRO NATURAL
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Quando se fala em “quadro natural” estamos nos referindo aos aspectos físicos de um lugar. Portanto, diz respeito a aspectos como clima, vegetação, relevo e hidrografia. A Europa tem como clima predominante o temperado. Sabes o que é um clima temperado? É aquele que aparece nas áreas entre os Trópicos (Câncer e Capricórnio) e os Círculos Polares (Ártico e Antártico). O clima temperado caracteriza-se por apresentar as quatro estações do ano bem definidas. É um clima de invernos, normalmente, bastante rigorosos e verões com temperaturas agradáveis. Entretanto, é bom lembrarmos, que as temperaturas de uma determinada região sofrem influência não apenas da latitude (diferença em graus entre um determinado ponto da Terra e a linha do Equador), mas de inúmeros outros fatores como, por exemplo, altitude, continentalidade, maritimidade e massas de ar. A vegetação predominante no clima temperado oceânico, mais próximo ao litoral, são as florestas temperadas, onde despontam na paisagem os tão conhecidos pinheiros (em forma de “cone”, não as araucárias típicas do Rio Grande do Sul). Já no clima temperado continental (mais para o interior do continente), há o predomínio das estepes (muito semelhantes aos nossos campos aqui no Rio Grande do Sul). Outro clima importante no continente europeu é o polar. Este aparece, sobretudo, no extremo norte da Europa. É um clima marcado por temperaturas muito baixas, além de possuir apenas duas estações: inverno (noites mais longas, que às vezes – dependendo da latitude – podem durar meses) e verão (dias mais longos, que às vezes – também dependendo da latitude, podem durar meses). Apesar das dificuldades, importantes povos vivem nas áreas sob o domínio do clima polar. A vegetação dominante na região é a tundra, caracterizada por ser pobre e rasteira, boa parte do tempo coberta por gelo. Finalmente, um outro clima que gostaríamos de destacar aqui é o mediterrâneo, clima este com características muito parecidas com o nosso clima subtropical. Nas áreas cobertas pelo clima mediterrâneo, há o predomínio de um tipo de vegetação que leva o mesmo nome.

                Quanto ao relevo, a Europa é pouco acidentada, com destaque para as planícies (terras baixas). Planaltos (áreas, até certo ponto, também planas, porém mais altas do que as planícies) e cadeias montanhosas são comuns no continente, especialmente mais ao sul. O relevo europeu pode ser considerado “jovem”, daí não ser incomum abalos sísmicos, por exemplo, na parte mais meridional da Europa. No que tange à hidrografia (conjunto de águas naturais), o continente possui uma grande quantidade de rios (de planície e de planalto), contudo de pequena extensão.


EUROPA: LOCALIZAÇÃO


EUROPA: LOCALIZAÇÃO
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A Europa é o penúltimo continente em extensão (só à frente da Oceania) e o quarto em população (ultrapassado pela Ásia, África e América, respectivamente). Por outro lado, o continente europeu é o que, de longe, abriga o maior número de países desenvolvidos. Cerca de cinquenta países a compõem, muitos deles com elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

            A Europa está localizada totalmente no hemisfério norte (na parte setentrional da linha do Equador) e quase que na sua totalidade no hemisfério oriental (a leste do meridiano de Greenwich). É cortada pelo meridiano inicial e pelo Círculo Polar Ártico, estando localizada, portanto, nas zonas climáticas temperada norte e polar norte. No que tange aos limites, o continente europeu tem ao norte o Oceano Glacial Ártico, ao sul o Mar Mediterrâneo, a oeste o Oceano Atlântico e a leste os Montes Urais e os Mares Cáspio e Negro.

            Muitos autores preferem falar em Eurásia, ou seja, um único continente formado pela Europa e Ásia. Tal iniciativa nada tem de equivocada, desde que olhada sob os aspectos físicos (clima, relevo, vegetação, hidrografia), isto porque do ponto de vista socioeconômico, cultural e histórico, Europa e Ásia guardam profundas e, muitas vezes, irreconciliáveis diferenças. 


A FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO


A FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO
Prof.Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                O Brasil, hoje, é o quinto maior país da Terra, o terceiro da América e o primeiro do continente latino-americano. Contudo, a grandeza do território brasileiro é fruto de séculos de história. Quando da chegada dos portugueses ao Brasil, por exemplo, na virada do século XV para o XVI, o país tinha proporções muito menores do que as de hoje, limites estes trazidos pelo famoso Tratado de Tordesilhas. Este fora assinado em 1494. Os países signatários eram Portugal e Espanha, duas das maiores potências econômicas e políticas da época. Tamanha era a influência desses países, que se deram ao direito – sob o olhar conivente da Igreja – de repartirem as terras a serem descobertas entre eles. O acordo estabelecia que as terras a oeste da linha imaginária traçada estariam sob o domínio espanhol, enquanto as que estivessem a leste pertenceriam, por direito, a Portugal. Assim, mesmo antes de ter sido “oficialmente” descoberto (1500), parte do que hoje é o Brasil já pertencia à Coroa portuguesa. Ao longo dos anos, inúmeros tratados (como o de Madri em 1750 e o de Santo Ildefonso, em 1777) foram dando ao Brasil os atuais contornos. A expansão do território brasileiro, vale lembrar, esteve marcado, também, por inúmeros conflitos – inclusive bélicos – com outros países. Só recentemente (1903), por exemplo, foi anexado de maneira definitiva o estado do Acre. Ainda hoje, a busca pelo alargamento territorial é algo presente. Prova disso é a intenção do país em rediscutir sua fronteira marítima, afinal o Atlântico guarda um “oceano” de riquezas e recursos naturais, como gás e petróleo.

                A ocupação humana e a distribuição populacional acompanharam o processo de formação do território brasileiro. Desde muito cedo, os principais aglomerados se fixaram junto ao litoral. Logo após a chegada dos portugueses, por exemplo, a economia estava fundada no extrativismo vegetal (pau-brasil), servindo a costa como porto de embarque da mercadoria. Não muito diferente foi o chamado Ciclo da Cana (séculos XVI e XVII), onde cabia às áreas litorâneas a maior parte do cultivo da cana-de-açúcar. Já o Ciclo do Ouro (século XVIII), contribuiu significativamente para a interiorização da população, ávida pelas jazidas localizadas, principalmente, na região do atual estado de Minas Gerais. Ainda assim, era (e, de certa forma, continua sendo) enorme a diferença quantitativa entre a população litorânea e aquela assentada no “interior” (centro e oeste do país) do território. O deslocamento da capital federal para Brasília (1961), por exemplo, tinha entre seus objetivos uma maior ocupação humana das áreas mais centrais do país.


                Conclui-se, portanto, ser de fundamental importância remontarmos ao passado para compreendermos o presente. Não é produto do acaso a irregular distribuição populacional pelo território nacional. Ao contrário, é resultado de interesses econômicos e políticas governamentais, muitas delas equivocadas. 

BRASIL: PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS


BRASIL: PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                O Brasil, por certo, é um país complexo. Contudo, pretende-se aqui traçar algumas de suas características mais marcantes, muito mais para fins didáticos do que com o objetivo de aprofundar – ou, menos ainda, esgotar – o assunto. O Brasil é, grosso modo, um país americano, tropical e subdesenvolvido. É “americano” por estar localizado na América. Ocupa no continente o terceiro lugar em tamanho (perdendo para o Canadá e os Estados Unidos, respectivamente), sendo, entretanto, o maior país da América Latina. O Brasil é, ainda, o quinto maior país da Terra.  

     Por que “tropical”? Porque está localizado em quase sua totalidade na chamada Zona Intertropical (entre os trópicos de Câncer e Capricórnio), localização esta com profundas consequências, por exemplo, no clima (predominantemente, tropical) e na vegetação. Nosso país é cortado pela linha do Equador (mais ao norte) e pelo trópico de Capricórnio (mais ao sul), estando, portanto, localizado quase que totalmente no hemisfério sul e totalmente no hemisfério ocidental.

                Finalmente, o Brasil pode ser considerado um país “subdesenvolvido”. Você sabe o que isso significa? Apesar de estar entre as maiores economias do mundo, de possuir invejáveis recursos naturais (minérios, hidrografia privilegiada, vegetação exuberante, etc.), infelizmente a maioria da população segue à margem de uma boa qualidade de vida. Saúde, segurança, ensino, moradia, transporte, saneamento, etc., de qualidade são privilégio de uma pequena parcela de nossa gente. Impera no Brasil o desrespeito aos mais elementares direitos assegurados na Constituição, situação esta perpetuada por um Estado (governo) comprometido com os interesses de uma poderosa elite que, historicamente, busca – a todo custo – manter seus privilégios.

                

domingo, 13 de abril de 2014

OS PRINCÍPIOS DO DIREITO DO TRABALHO


OS PRINCÍPIOS DO DIREITO DO TRABALHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Podemos definir “princípios” como sendo as proposições básicas que fundamentam o Direito. Assim, os Princípios do Direito do Trabalho devem permear não apenas os textos legislativos e os contratos de trabalho, mas as próprias decisões nascidas junto aos tribunais, por exemplo. Servem eles como “norte” para o posicionamento jurisdicional, bem como para as relações trabalhistas cotidianas. Vários são os chamados “Princípios do Direito do Trabalho” e não menos variadas as formas de abordá-los e classificá-los pelos autores que tratam sobre o assunto. Um dos mais conhecidos é o Princípio de Proteção, fundado na ideia da hipossuficiência do empregado (ver Art. 8o da CLT). Pode ser subdividido em outros Princípios, como o do in dubio pro operário, o da “condição mais benéfica” e o da “aplicação da norma mais favorável” (ver Art. 620 da CLT). Resta claro a intenção do legislador em proteger o “lado mais frágil” da relação trabalhista, a saber, o empregado.

                Outro Princípio muito conhecido no Direito do Trabalho é o da “irrenunciabilidade dos direitos trabalhistas” (Ver Arts. 444 e 468 da CLT). Assim, não pode o empregado abrir mão de direitos historicamente construídos, hipótese esta que agravaria – ainda mais – o desequilíbrio da relação empregador-empregado. Já o chamado Princípio da “continuidade da relação trabalhista” traz como premissa a ideia de que, salvo estipulado em contrário, o contrato de trabalho é contínuo no tempo (ver inciso I do Art. 7o da CLT, bem como a Súmula 212 do TST). O Princípio da “primazia da realidade”, por sua vez, prioriza o fato concreto em relação às cláusulas contratuais. Assim, a mera assinatura de um contrato de trabalho não afasta a realidade concreta, preponderando esta sobre aquela. O referido Princípio pode ser subdividido em outros: pacta sunt servanda, “razoabilidade”, “boa-fé”, “não-discriminação”, “integralidade e intangibilidade do salário”, “irredutibilidade salarial” e “autonomia da vontade”.


                Conclui-se, portanto, que o Direito do Trabalho é “protetivo”. Não são poucos os que criticam o tratamento desigual dispensado pelo legislador aos sujeitos do Contrato de Trabalho: empregador e empregado. Alegam alguns que tamanha proteção ao primeiro acaba por provocar situações de flagrante injustiça em desfavor do empregador. Contudo, vale lembrar, as conquistas no campo do Direito do Trabalho são resultado de árduas lutas dos menos favorecidos (trabalhadores), conquistas estas que, diga-se de passagem, vêm sofrendo uma série de ataques em nome de uma dita "flexibilização”. Ressaltamos ainda que, em regra, no Brasil o que onera a produção não é o valor pago à mão-de-obra, mas a insana carga tributária praticada pelo Estado, carga esta que não reverte em melhoria da qualidade de vida da população e nem, tampouco, em investimentos indispensáveis a quem produz (empresas). 

terça-feira, 8 de abril de 2014

EAD: DESUMANIZAÇÃO OU NOVAS POSSIBILIDADES?


EAD: DESUMANIZAÇÃO OU NOVAS POSSIBILIDADES?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Alguns têm condenado o chamado Ensino à Distância (EAD) sob o argumento de que o mesmo leva, necessária e obrigatoriamente, à desumanização das relações entre, por exemplo, professor e educando. Colocam-se contra o que consideram uma espécie de educação in vitro, onde os conflitos humanos típicos e compreensíveis são postos de lado. Soaria como um processo de “eugenia” social, colocando para fora dos muros da escola boa parte dos alunos e alunas indesejados ou, no mínimo, restringindo-lhes significativamente o tempo de permanência na instituição. Confesso que tenho como que um “pé atrás” no que tange ao Ensino à Distância, pois sou um ferrenho defensor da necessidade do vínculo no processo ensino-aprendizagem. Preciso sentir o cheiro de gente, olhar no fundo dos olhos, captar cada gesto ou até mesmo compreender a falta dele. A simples troca do ensino presencial pela modalidade EAD parece-me um equívoco, como já dito em outras oportunidades[1]. Acredito, isto sim, que a substituição só é aceitável diante de situações e públicos específicas. Por outro lado, os argumentos de que se valem alguns críticos – tomados de uma flagrante cegueira analítica – do EAD merecem uma boa dose de reflexão.

                No final da década de 1990, as telas exibiram o “Homem Bicentenário[2]”, onde um robô doméstico (representado por Robin Williams) chamado de Andrew começou a desenvolver, digamos..., “sensibilidade humana” para assuntos como perdão e compaixão, ultrapassando, de longe, suas “funções” originais, como as tarefas tipicamente domésticas. Genial o filme. Quantas lições dele se pode extrair! Pincelo uma delas, a saber, o tapa com luvas de pelica que nos é dado. Uma máquina com grau de “humanidade” muito maior do que o de nossa espécie. Não muito diferente é o que tenho visto em relação à escola. Professores, não são poucos, que mantêm uma distância estratosférica, fria, impessoal e indiferente em relação ao educando. Resistem a elogiar, insistem em diminuir, ainda mais, a autoestima de quem a vida já privou de tantas coisas. Presentes, só os corpos de tais “educadores”, pois a cumplicidade com os desejos, sonhos e dificuldades dos alunos e alunas passa de largo. Homens e mulheres tidos por “profissionais”, que fazem do giz não um pincel pronto a dar vida e sentido aos textos, fórmulas e rabiscos que zingam o quadro-verde. Parece, isto sim, é fazerem uso de um bisturi às portas de uma lobotomia da alma. O olhar viajante há muito se fora, se é que algum dia se fizera presente. Usam velhos chavões para realidades e contextos completamente novas. Amarelados não são apenas os “planos de aula”, mas o próprio senso crítico parece tomado pelo zinabre da mesmice pedagógica. Os incontáveis títulos e certificados, exceto trazerem algumas moedas a mais na algibeira dos parcos salários, servem tão-somente como adorno à sala ou aos sorrateiros “cafofos” do ego.

                O que desumaniza não é a máquina. O que distancia o educando da escola e de tudo o que ela representa não é a ferramenta. O que lança para fora o aluno são as relações que se estabelecem no ambiente escolar. Seja qual for a proposta metodológica ou a modalidade adotadas pela instituição de ensino, inexistindo atenção e fortalecimento dos vínculos, o fracasso é certo, mesmo que tardio. Máquinas são apenas máquinas! Não passam de um amontoado de parafusos a nosso serviço. As relações, ao contrário, pressupõem uma engenharia infinitamente mais complexa. São estas últimas que dão (re)significado à própria vida. É na relação com o “outro” que eu cresço e aprendo. É na relação com o “outro” que me torno, de fato, sujeito da minha e da nossa história. É na relação com o “outro” que dou sentido ao que outrora não passava de mera teoria. É na relação com o “outro” que sedimento e frutifico os nobres valores éticos, imprescindíveis à teia social. Quem é o “outro”? Por que não nós os educadores? Assumamos um papel de protagonistas na vida e no processo ensino-aprendizagem dos educandos. Somos, por natureza, insubstituíveis. Urge, entretanto, que tomemos posse do lugar para nós reservado, sob o risco de vê-lo ocupado pela sombra dos penduricalhos por nós mesmos criados.

Veja também:
http://educacao.cachoeirinha.rs.gov.br/index.php/39-noticias/educacao-a-distancia/183-ead-desumanizacao-ou-novas-possibilidades.html

http://projetosdadiversidade.blogspot.com.br/2014/04/ead-desumanizacao-ou-novas.html



























[1] Ver texto “EAD na EJA” no blog profgilvanteixeira.blogspot.com.br. Existe em Cachoeirinha (RS), na Escola Municipal de Ensino Fundamental Fidel Zanchetta, uma modalidade EAD Semipresencial na Educação de Jovens e Adultos. A iniciativa soa como interessante, pois ao mesmo tempo que mantém o contato direto (presencial) com o educando, abre um leque de possibilidades através da chamada Plataforma Moodle, mitigando quiçá o sério problema da evasão escolar.
[2] Bicentennial Man. Produção de 1999. 

domingo, 6 de abril de 2014

PRÍNCIPES E PRINCESAS


PRÍNCIPES E PRINCESAS
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Comum tem sido encontrarmos verdadeiros castelos encravados no meio da cidade, do bairro, da rua, de nossa (nossa?) própria casa. Castelos cercados por extensas e largas muralhas, aparentemente intransponíveis, formadas por enormes blocos que, ano após ano, foram sendo ali colocados, mesmo que de forma não intencional. Blocos pesados, infames e mal cheirosos. Blocos marcados por uma espécie de inscrição. Omissão, negligência, indiferença, falta de tempo, permissividade, mentira, medo, tirania, vergonha... Muitos nomes. Incontáveis. Feito os corais, tais blocos foram sedimentando. Diferentemente daqueles que ocupam os oceanos, as pétreas muralhas dos castelos abrigam a morte e a falta de esperança. Afundam sonhos e fazem naufragar o amor, o respeito, a ética e a saudável autoridade. Por detrás de todo castelo tem um príncipe ou uma princesa. Quem sabe, ambos. Os castelos urbanos, ditos modernos, convivem com a síndrome – que, quando não tratada a tempo, se transforma em “maldição” – da coroa. Herdeiros e herdeiras do trono que, desde muito cedo, intentam contra o Rei e sua companheira. Trazem uma teimosa inclinação ao despotismo. Nas masmorras por vezes encobertas pelo véu da aparente modernidade, torturam a memória e a tradição dos anciãos. Príncipes e princesas que não pedem, exigem! Não se desculpam, criam subterfúgios para esconder o erro e, se duvidar, ainda viram a mesa, passando de algozes a vítimas. Príncipes e princesas que dizem o que querem, na hora que querem e para quem querem. O olhar omisso, condescendente e, por vezes, envergonhado do rei e da rainha, feito lenha seca em meio às chamas, só faz inflamar o ego dos pequenos. Príncipes e princesas que vestem e falam como se reis e rainhas fossem. O cetro, desde muito cedo, tomaram para si. O que parecia simples brincadeira “engraçadinha”, toma proporções alarmantes. A insígnia real, nas mãos dos rebentos, torna-se víbora peçonhenta, destilando veneno para todos os lados. A língua “hiperativa” e sem controle desses príncipes e princesas ofende, fere, entristece, envergonha não apenas a própria estirpe, mas as famílias para além-muros do castelo. Tão cruel quanto às palavras, mais parecendo açoites à moral e à ética, são as ações desregradas e desmedidas dos príncipes e princesas que desconhecem os limites da razão e do bom senso. A tal ponto chegam seus disparates que nem as questionáveis amarras “ritalínicas” prescritas pelos doutos do reino são capazes de dar-lhes um basta. Não há fórmulas e nem tampouco farmacologia capazes de preencherem o espaço reservado à autoridade que deveria acompanhar todo rei e rainha. Ascendência real, justa e legítima se conquista e se constrói, não se compra e nem se terceiriza. Príncipes e princesas necessitam ser amados. Amor pressupõe, também, diálogo, respeito e limites. Príncipes e princesas merecem brincar, dar asas à imaginação, sonhar... Príncipes e princesas devem reinar, mas tão-somente nos castelos que brotam da fantasia lúdica. Príncipes e princesas devem aprender que a verdadeira realeza nasce do respeito ao outro, da alteridade e da solidariedade. É o amor quem, de fato, nos investe de brilho e distinção, não a do tipo midiático e superficial, mas duradoura, daquele tipo que acompanha os verdadeiros príncipes e princesas, futuros reis e rainhas a governarem seus castelos, onde as muralhas dão lugar a campos e jardins a perderem de vista.   

Veja também:
http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=5226a55cbb5abe36b3c5405572836a0e




terça-feira, 1 de abril de 2014

UVAS VERDES

UVAS VERDES
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

E veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Que pensais, vós, os que usais esta parábola sobre a terra de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram? [...]
Ezequiel 18:1-2



                A passagem acima permite uma série de interpretações. Para lá de uma análise bíblica, a parábola me faz pensar acerca dos incontáveis casos de crianças e adolescentes que violam as mais elementares regras de convívio social. As causas que levam à violação dos limites e princípios de convivência (estes últimos mais amplos do que as primeiras) são várias e complexas. Contudo, inegável é o papel da família no que tange à (de)formação de caráter do sujeito. Famílias omissas, frouxas, desorganizadas (sem papéis definidos) e permissivas tendem a parir indivíduos com sérios problemas de conduta ética. O problema perpassa por todas as classes socioeconômicas. Os segmentos com melhor poder aquisitivo, por exemplo, há muito esbarram com uma espécie de triste ironia, ou não seria hipocrisia? As mesmas classes média, dita ascendente, e alta, que mais esperneiam frente ao avanço da violência e da insegurança, (des)educam seus filhos e filhas, fazendo-lhes crer que o mundo gira em torno de seus umbigos. Quem já não assistiu a um pai ou a uma mãe arrotar, estúpida e arrogantemente, que “paga a escola” (como se isso não fosse mais do que obrigação!) e, por isso, deixem a “pobre” criança – às vezes, quase um homem de barba na cara – fazer o que bem entende. Infeliz e vergonhosamente não são poucas as instituições de ensino que se dobram frente ao temor de ou perder o aluno ou, quem sabe, se ver envolvida numa demanda judicial. São famílias paradoxais, onde muito comumente discurso e prática guardam uma distância estratosférica. Condenam a corrupção, mas sonegam impostos. Olham de soslaio para a improbidade, mas fazem da mentira companheira inseparável. Gritam por mais segurança, mas permitem que seus adolescentes tomem o volante do carro ou se embriaguem em festas regadas pelo álcool e pela droga. Desejam ordem no país, no estado, no município, mas a própria casa parece mais uma Babel, onde autoridade e respeito passam de largo. Não sabem elas que colhem o que semeiam? O tráfico vê nelas importantes aliadas. Tais famílias, em grande parte, é que sustentam o crime que, mais cedo ou mais tarde, baterá à porta, ceifará a vida, a saúde e a esperança da prole. Ontem era uma mentirinha aqui, outra ali. Hoje, um baseadinho aqui, outro acolá. Amanhã, o que virá? Ontem a cria se voltava contra o professor. Hoje, contra o criador. Amanhã, contra quem? A omissão e permissividade da família alimentam o caos social hoje conhecido. Está mais do que na hora da família dizer “não” aos caprichos desarrazoados dos mais novos. Dizer “não” à indisciplina, à desídia, à desonestidade, à mentira dos rebentos. Deixando de fazê-lo, alguém o fará. Quem sabe, o professor, o policial, o juiz, a morte... Amar é educar, envolver-se, comprometer-se, dar limites. Amar é ouvir, mas se fazer ouvir. É vigiar (o inimigo vem como ladrão...), é auscultar o mais discreto sussurro da alma. Amar é dizer “sim”, mas também dizer “não”. Amar é fazer brotar, crescer e frutificar os valores em nossos filhos e filhas. Parreirais, temo-los muitos, de todos os tipos. Uvas de qualidade, só a engenharia do amor e do cuidado as pode produzir.

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segunda-feira, 24 de março de 2014

DIREITO DO TRABALHO: UM POUCO DE HISTÓRIA...


DIREITO DO TRABALHO: UM POUCO DE HISTÓRIA...
Gilvan Teixeira
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                Certa feita, um autor já dizia que a história do trabalho pode ser associada a uma trajetória de horror. Não para menos, afinal ao longo da maior parte da história o exercício laboral fez por merecer a própria origem do termo: tripalium[1]. Durante a Idade Antiga (3.500 a.C- 476), por exemplo, predominou no mundo ocidental o trabalho escravo, situação esta reservada a uma grande parcela da população que, em regra, estava alijada de quaisquer direitos. À época, em muitos lugares (como as cidades-estados gregas e a própria Roma), a classe dominante costumava entregar-se ao ócio como sinal de nobreza e prestígio. Na Idade Média (476 – 1453), tivemos como uma de suas principais características o trabalho servil, onde a esmagadora maioria da população estava submetida às relações feudais de produção. Na Idade Moderna (1453 – 1789), as Corporações de Ofício só faziam aumentar a distância entre os que tinham (com destaque para uma burguesia nascente) e os que nada possuíam. Finalmente, no período Contemporâneo (1789 - ...), as relações de trabalho – à época da Revolução Industrial – estiveram marcadas pela profunda exploração da mão-de-obra, onde a insalubridade, os parcos salários e a inexistência de quaisquer direitos trabalhistas eram a tônica. Somente a partir do século XX, de forma muito especial na Europa, as condições de trabalho melhoraram significativamente, em decorrência de uma série de fatores, entre eles as constantes lutas dos trabalhadores através, por exemplo, de seus sindicatos. Contribuiu para tais avanços, ainda, o profundo temor dos governos capitalistas frente ao avanço do Socialismo a partir da chamada Revolução Russa (1917) e, principalmente, durante a Guerra Fria (1945 – 1985). Não por acaso, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) surgiu em 1919, com o claro objetivo de regrar as relações de trabalho e aumentar a proteção em relação ao empregado.  Infelizmente, com o fim da ameaça “socialista” (simbolicamente marcada, por exemplo, pela queda do muro de Berlim e pela desintegração da União Soviética), é perceptível o avanço das ideias neoliberais que trazem, entre outros, a dita “flexibilização” dos direitos trabalhistas, com sérios prejuízos a muitos dos direitos duramente conquistados ao longo da história.

                No Brasil, a história do trabalho não difere muito daquela descrita acima. Apesar de mais tardia do que aquela, por estas bandas o Direito do Trabalho foi forjado com sangue, suor e lágrimas. Ao longo do Período Colonial (1530 – 1822)[2], por exemplo, tinha destaque o trabalho escravo. A dita “Independência” do país (1822) pouco ou nada modificou no que tange à inexistência de quaisquer direitos protetivos para tal segmento da população[3]. Somente no apagar das luzes da Monarquia, é que tivemos a Abolição formal da escravidão (1888). A República (1889 - ...) demorou para acolher os avanços já há algum tempo obtidos no Velho Continente. Assim, somente em 1943 é que o Brasil passou a contar com a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), diploma legal este que referendava e aprofundava as conquistas trazidas pela Constituição de 1934 (depois substituída pela de 1937!). O avanço no tempo foi, aos poucos, fortalecendo e ampliando os direitos do trabalhador, direitos estes, contudo, que necessitam da vigilância permanente da sociedade, de modo que a famigerada “flexibilização” não ponha por terra os necessários e imprescindíveis direitos conquistados.




[1] A origem da palavra “trabalho” vem da forma latina “tripalium”, ou seja, um instrumento de tortura usado na Roma Antiga.
[2] O período que vai de 1500 a 1530 considero como Pré-Colonial.          
[3] O escravo é tido por “objeto”, portanto não reconhecido como sujeito de direitos. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

RIOS E RITOS


RIOS E RITOS
Gilvan Teixeira
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                Ritos se parecem com rios. Assim como estes trazem consigo as águas que nascem em meio às montanhas, os ritos carregam uma incontável gama de sentimentos, emoções e crenças. Rios e ritos não apenas dão sentido à vida, como a sustentam. Ritos, assim como rios, os temos dos mais diversos tipos. Alguns, mais longos, outros, nem tanto. Alguns mais pedregosos, profundos e densos do que outros. Todos, contudo, indispensáveis à “hidrografia” da vida. A fé está para o rito, assim como as águas para o rio. Indissociáveis. O rito sem “coração” soa como margens sem água. Sem esta, não há que se falar em rio. Não passa de terra seca, sem vida aparente. O rito, da mesma forma, não pode prescindir das motivações que o embalam. Assim como o rio serpenteia o vale, acrescentando-lhe beleza e vida, o rito traduz histórias pretéritas, sentimentos presentes e crenças no porvir. Sobre o rio curva-se o corpo na busca da água pura que sacia a sede, enquanto sob o manto do rito busca-se o acalento da alma. Rios e ritos trazem consigo o poder da cura, depende, muitas vezes, do quanto se crê. Assim como a água alimenta o corpo, o rito alimenta o espírito. Rios existem que deles só se ouve o rolar constante da seiva. Outros, contudo, parecem festa de aniversário, tamanha é a variedade de sons a se confundirem. Ritos da mesma forma. Há entre estes, os que exigem silêncio quase que profundo, enquanto outros convidam à troca de palavras e até mesmo abraços. Sisudos ou não, os ritos têm em comum o sagrado, assim como o Ganges no imaginário daqueles que nele se banham. Rios e ritos requerem respeito. Reconhecê-los e preservá-los significa reconhecer e preservar a própria vida. Desmerecê-los, ao contrário, é um triste convite à morte física e espiritual. Rios e ritos gritam por socorro. Lutam teimosa e desesperadamente para não sucumbirem frente à indiferença e apostasia humanas. Apesar de toda grandeza construída ao longo de gerações, rios e ritos mantêm aquele olhar sereno dos humildes. Não desperdiçam uma só oportunidade, sendo-lhes caro cada ser, cada gesto, cada sentimento, por mais singelo que seja. O importante é que seja verdadeiro. Rios e ritos, ao que parece, sabem reconhecer a importância do “outro”, pois é neste que eles ganham sentido. Dispensam o embuste e a altivez. Acolhem, isto sim, o coração quebrantado e todo aquele que estiver disposto a ouvir a voz do coração. Rios e ritos pressupõe fluidez, daí serem avessos ao muquirana de espírito. Rios e ritos voltam-se, isto sim, é à semeadura e à partilha. Os rios se aprazam em comungar suas águas com a flora e a fauna ali existentes. Nem mesmo as pedras, por mais duras e pesadas que sejam, representam motivo para tristeza ou desculpa para não seguirem adiante. Pelo contrário, cada obstáculo só faz aumentar a beleza de seu curso. Os ritos, da mesma forma, quando assentados no amor, desconhecem a exclusão deste ou daquele, por maiores que sejam as diferenças. Rios e ritos têm o poder de aproximarem todos os que orbitam em torno deles, ensejando verdadeiras obras de arte, onde o Autor – seja lá qual o nome que se dê a Ele – se vê encantado frente à criação. 
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sábado, 15 de fevereiro de 2014

LIMITES


LIMITES
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                Erroneamente, a ideia de “limites” tem sido associada ao autoritarismo, como se sinônimos fossem. A geração que aí está, ao que se vê, encara – muito comumente – a imposição de limites com maus olhos. Apregoa, quase sempre de maneira pouco clara e nada convincente, uma pretensa liberdade, absoluta, destituída de quaisquer formas de regramentos, mesmo que tênues, que soem proibitivos ou moralistas. Uma geração que busca fazer valer aquela máxima dos anos sessenta: “é proibido proibir”. Ululante equívoco, contudo. Contextos diferentes, o de hoje e o da Tropicália. O atropelo à inteligência e ao bom senso tem produzido efeitos nefastos. O Estado - aqui entendido enquanto ente público – tem falhado no que tange à imposição de limites, da mesma forma que a família. Até porque ambos, vale lembrar, pertencem ao mesmo lado da moeda. Quem são os gestores, legisladores, juízes, agentes públicos de toda ordem, senão frutos da família? Quem são os larápios, assassinos, parricidas, estupradores, senão também frutos dela? O Estado somos nós. Sua falência é a própria falência da família. Esta é a principal responsável pelo forjamento de homens e mulheres, de boa ou de má índole. Das entranhas dela saem seres equilibrados ou não, honestos ou não, responsáveis ou não, dados ao trabalho ou não. Fala-se em “novas” organizações familiares, como se elas justificassem a inexistência de limites claros, justos e firmes em relação à prole. A escassez de virtudes e o deserto ético, por certo, não são apanágios desta ou daquela “classe” ou condição socioeconômica. São problemas de ordem cultural, espécie de erga omnes negativo, corroendo relações pessoais e sociais seja na favela, seja nos condomínios de luxo. A frouxidão estatal diante dos inúmeros e sérios desvios de conduta reflete a própria fragilidade da autoridade familiar. A desobediência civil e o desrespeito às leis nascem, sobretudo, dentro de casa, sendo irmãs gêmeas do não reconhecimento da autoridade familiar. Curiosamente, as estratégias – todas elas fadadas ao fracasso – para a resolução dos “conflitos” também seguem o mesmo passo, qual seja o do afrouxamento da regra, quando não o puro e simples “esquecimento” da mesma. Tudo em nome de um pretenso e falso diálogo. Ora, respeito, ética e honestidade, por exemplo, são inegociáveis. Abrir mão de valores pétreos representa cavar a própria cova, obstaculizando qualquer esperança de se construir uma “teia” social consistente. Soa como irresponsável a relativização de tais valores, mesmo que em nome de uma aparente paz. Urge o respeito aos limites na família, na escola, na rua, em todos e quaisquer lugares, ainda que não cobertos pelos “olhos” da vigilância eletrônica, esta própria resultante da desconfiança reinante e do “apagão” ético existente. Por óbvio, os limites devem se pautar no respeito à dignidade da pessoa humana, capazes de promoverem a edificação de uma sociedade mais justa e menos desigual. Diálogo não pode e não deve ser confundido com aniquilamento da verdade e da justiça.  

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O RETRATO DE DONADON


O RETRATO DE DONADON
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                Quem leu O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, talvez se impressione diante da parecença com o cenário nacional. A obra do final do século XIX nos faz crer que o autor estivesse, quiçá, sob o lampejo de uma visão futurista acerca de um país continental localizado no Novo Mundo. A preocupação com a aparência, ao que tudo indica, deste lado do Atlântico, foi se consolidando ao longo do tempo. A República tupiniquim, irônica e coincidentemente fundada à mesma época da publicação do livro acima, recrudesceu a busca pelo “corpo” perfeito, mesmo que sua “alma” definhasse sob o manto da aparência. O caso Donadon é emblemático. A mesma Câmara que o absolveu em meados do ano passado, agora o cassou. Por quê? O que mudou de lá para cá? Nada, exceto os holofotes do voto aberto. Definitivamente, ratos convivem bem mesmo é com a escuridão. Nela se escondem, se confundem e, é duvidar, fazem se passar por anjos. Mais uma vez, o Parlamento se portou à brasileira, se é que me entendem... Bastou um pouco de “luz” sobre o Parlamento e pronto! A “consciência” dos excelentíssimos deputados mudou da água para o vinho, ou seria da lama para a glória? Qual é, afinal, o verdadeiro rosto de “nosso” (?) Parlamento? O da penumbra e da sombra ou aquele que, vez por outra, se ergue diante das luzes da mídia? O Legislativo, assim como os demais Poderes, há muito vem se rendendo ao jogo de cena. O discurso, apesar de agradável e politicamente correto, em pouco ou nada se aproxima da práxis. Esta segue arraigada aos mesmos interesses escusos de outrora. O tempo, por estas bandas, não foi capaz de transformar, de fato, as relações de poder. Togadas ou engravatadas, as elites têm feito do Estado brasileiro um fim em si mesmo, completa e flagrantemente distanciado dos reais interesses da maioria. A verborreia jurídica e os jargões típicos da oratória junto à tribuna, salvo aguçarem o sentimento de baixa autoestima da plebe, se mostram estéreis, em nada contribuindo para as necessárias transformações sociais. Ao que se vê, a intenção de quem dá as cartas do jogo, é que não haja torcida. Esta existindo, que outro jeito senão jogar para ela? Será coincidência a preocupação, por exemplo, com a violência justamente no ano em que o país sediará a Copa? Por que a corrida em busca de medidas coercitivas capazes de, supostamente, inibirem os movimentos e protestos de rua? Não é a violência uma companheira indesejada que há muito come à mesa da população mais pobre? Pode haver maior violência do que a omissão e inércia do Estado frente aos serviços públicos mais elementares, como saúde, educação, transporte e segurança? O mesmo Estado que apregoa respeito às normas, não as cumpre. O mesmo ente que defende o respeito aos patrimônios público e privado, fere a ética e extorque o contribuinte por meio de uma política tributária escorchante e insana. Afinal, no Brasil, o que é o Estado democrático de Direito senão mera ficção? Nem a democracia e nem, tampouco, o Direito neste país correspondem à realidade. Mascarados e simpatizantes do black bloc são um problema? Talvez, mas – por certo – não maior do que aquele associado aos que infestam, feito ratos, os corredores e gabinetes de inúmeras repartições públicas. Ao menos, os primeiros – ao contrário destes últimos – são mais autênticos. O estrago por eles provocado se dá às claras. Choca, pois que a olhos vistos. Já o estrago feito pelos “donos do poder” é infinitamente mais sutil, porém não menos cruel, afinal compromete o presente e põe em risco o futuro. Feito o Retrato de Dorian Gray, engambela pela aparência, mas a essência... 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

TIM TONES


TIM TONES
Gilvan Teixeira
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                Alguém lembra do personagem do saudoso Chico Anysio? Todo aquele discurso acalorado antes de passar a sacolinha. A música entoada pelo coral de inocentes crianças: “Tim Tones, glória Tim Tones...”. Por que a lembrança? Os diversos meios de comunicação de todo país, ao longo da semana, têm noticiado a obrigatoriedade de pagamento, por parte dos “mensaleiros” – José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoíno, etc. –, das multas arbitradas pela Justiça. Não demorou muito para que os “fiéis” seguidores das lideranças condenadas criassem uma corrente para angariar fundos para saudar o débito. O fato, por si só, já daria pano para manga, mas vai lá, cada louco com sua mania... Afinal, cada um faz o que julgar melhor com o seu dinheiro. O que mais chama atenção, contudo, é a declaração de bens dos condenados. Não sei se é de rir ou chorar. Acredite, os nobres senhores mal têm onde caírem mortos... Um puxadinho aqui, um terreninho acolá. Nada, absolutamente nada, que possa chegar aos pés da dívida a ser paga. Não é estranho? Para qualquer imbecil e idiota soaria como engodo tal situação. Para a Receita Federal – que nos extorque ano após ano retirando de nosso salário fatia vital, como se aumento de patrimônio fosse –, ao que parece, nada há que chame atenção. Absolutamente normal. Ainda ontem – será que ainda não? – frequentavam restaurantes caros, vestiam ternos finos, viajavam mundo afora, patrocinavam festas para a grã-finagem, esbanjavam dinheiro (público, muito provavelmente...). O que aconteceu? Onde foi parar todo o dinheiro que dava suporte a tudo aquilo? Ora, minha casa vale mais do que a do José Dirceu e a do Genoíno juntas... Inacreditável! Logo eu, professor, servidor público de um município que, é duvidar, mal aparece no mapa. Como a maioria dos meus colegas, mal consigo honrar minhas contas: água, luz, telefone, mensalidades escolares, IPTU, IPVA, um que outro carnê de loja... Isso sem falar em alimentação, combustível, etc. O Imposto de Renda referente a 2012, por exemplo, tive que pagá-lo ao longo de todo ano passado. A mesma Receita que me abocanha na “fonte”, me obriga a pagar – com base numa vergonhosa tabela que, não sei por que cargas d’água, entidades como o Ministério Público e OAB não conseguem reverter – o que não tenho. Por outro lado, os serviços públicos, sem quase nenhuma exceção, são um verdadeiro escárnio ao contribuinte, obrigando-nos a pagar por saúde, segurança, ensino privadas. Viajar de avião com toda família, só em sonho... Confesso que já pensei, também, em passar a “sacolinha”. Quem sabe, né? Vai que algum maluco se condoa com minha via crúcis... Apesar de tudo, não invejo os “mensaleiros”. Tá bom, no máximo, gostaria de ter o número do telefone do contador deles. Deve ser mágico, uma espécie de Midas às avessas, capaz de transformar, quando necessário, ouro em poeira. Quem sabe, ainda, um grande plantador de “laranjas”? Afinal, neste país, ao que parece, tudo é possível. 

domingo, 12 de janeiro de 2014

SONHOS E DEVANEIOS


SONHOS E DEVANEIOS
Gilvan Teixeira
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                Enquanto o sonho insere-se no limite do possível, o devaneio é pura e inalcançável fantasia. Imaginar-se envolvido num romance hollywoodiano com a Gisele Bündchen regado a Armand de Brignac às margens do Sena, por exemplo, é escancarado devaneio. Não muito diferentes são os quadros que nascem dos discursos oficiais. A pautarmo-nos pelo que dizem as propagandas governamentais, vivemos no paraíso. Onde ficam mesmo as escolas, estradas e hospitais públicos veiculados nos meios de comunicação? Não os conheço. Não são daqui. Sou muito azarado, quem sabe. Passam de longe os corredores largos, asseados e quase vazios mostrados na telinha em horário nobre. As escolas daqui são sucateadas, pouco convidativas e nada instigadoras. Sobram problemas e faltam investimentos, na mesma medida que – feito ratos – corruptos e corruptores infestam os corredores e gabinetes de órgãos públicos. Onde vivo, a violência cresce e se banaliza, sob o olhar impotente, quando não omisso, do Estado. Os presídios por aqui despertam saudade dos calabouços medievais. Neles, o poder público não manda e, se duvidar, sequer entra. Neles, a vida não tem nenhum valor, fadadas que estão ao pérfido círculo vicioso do crime. Sob a égide do medo e da insegurança, tentamos criar nossos rebentos, nadando contra a maré e, muitas vezes, submersos pela política tributária extorsiva e insana do governo. Alimentamos um Estado perdulário e mastodôntico, que nem de perto cumpre com suas funções. Um Estado, portanto, cada vez mais desnecessário. Executivo, Legislativo e Judiciário têm sido um fim em si mesmos. Parecem existir tão somente para garantirem privilégios e interesses individuais e/ou de pequenos grupos. Não falam a linguagem do povo e com este não estão sintonizados. Não por acaso, muitos dos “figurões” de hoje são os mesmos de uma, duas, três ou mais décadas atrás. Reproduzem-se em nível federal, as mesmas relações coronelísticas tão comuns em alguns estados brasileiros, onde público e privado se confundem. Famílias que ontem governavam, seguem dando as cartas. Mudam o discurso aqui e ali, fazem plástica, lipoaspiração, implantam cabelos, mas as práticas seguem as mesmas. Enquanto isso, feito paspalhos, pagamos a alta conta. Somos, talvez sem sabermos, os principais responsáveis pela manutenção e perpetuação das relações de poder que permitem a existência de um país tão injusto, desumano e desigual. Um país bem distinto daquele produzido pelas perfumarias das grandes agências de publicidade, pagas a preço de ouro. O grande desafio é passarmos do Brasil do devaneio ao Brasil do sonho. Este último só será possível a partir de profundas transformações, capazes de subverterem o status quo. Comecemos pelo voto. Façamos dele uma poderosa ferramenta de mudança, feito a lança do principal personagem de Cervantes. Expurguemos, por meio das urnas, toda sorte de larápio, bem como aqueles que se associam a interesses espúrios. Firamos de morte o poder sombrio do coronelismo travestido de democracia que domina significativa parcela do território nacional. Meu voto, teu voto, nossos votos. O Brasil do sonho só nasce de uma construção que seja coletiva. Discuta política com sua família, amigos, colegas... Permita-se sonhar!


sábado, 21 de dezembro de 2013

O BOM VELHINHO


O BOM VELHINHO
Gilvan Teixeira
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                Mais um Natal. É sempre a mesma história. Bom velhinho p’rá cá, bom velhinho p’rá lá... Apesar de compreensível a tradição de tamanha deferência, dito costume merece algumas considerações. Quem é, afinal, o tal do velhinho senão aquele ou aquela que, ainda ontem, ralhávamos, criticávamos, quando não desprezávamos? Terrível mania que temos em engrandecer quem está distante e diminuir quem se queda ao nosso lado. Quem é o bom velhinho senão nosso pai, mãe, irmão, irmã, companheiro ou esposa? O polo norte está bem mais perto do que imaginamos, logo ali. As renas, a puxarem o trenó, surgem na mesma medida que nos permitimos sonhar. Presentes, temo-los para todos. Basta disposição para partilha. Quanto mais distribuímos amor, mais o temos. Abraços, beijos, palavras doces então... Uma mesa farta de delícias, daquelas que jamais enfaram ou terminam no fundo de uma latrina. Pode haver melhor sorriso do que aquele que nos quer bem e de quem se deixa amar? Natal é momento de “reunir”, o que dá ideia de “unir de novo” e, para fazê-lo, pressupõe-se laços anteriores. Laços, quem sabe, fragilizados pela infidelidade, pela mentira, pelo excesso de trabalho e dita falta de tempo, pelo não dito, pela desconfiança, pelo materialismo exacerbado... Nada que o perdão não seja capaz de dar um jeitinho. Afinal, ele traz consigo o bálsamo que cura a alma, tanto de quem perdoa como de quem se sente, verdadeiramente, perdoado.  O saco do bom velhinho pode ser a reinvenção da caixa de Pandora. Nele, em abundância, se encontra toda sorte de dádivas e valores, prontas para serem liberalmente distribuídas, sem qualquer espécie de avareza. Como pagamento, nada que o dinheiro, a fama ou os holofotes desta Babel de pés de barro possam pagar. Não há, na verdade, contraprestação. A bondade, a longanimidade, o amor, a paz e tantos outros frutos do espírito dispensam – não que os desprezem – retorno ou reciprocidade. Daí ser eterno e incondicional o sorriso do bom velhinho. Sorrir lhe faz bem. Amar lhe faz bem. Perdoar lhe faz bem. Bom Natal e não deixe de dar um abraço em quem você ama! 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A CABANA


A CABANA
Gilvan Teixeira
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                Encomendara ao pintor desconhecido, daqueles que batem de porta em porta oferecendo seus trabalhos, uma tela tendo como temática uma cabana. Só se dera por conta do equívoco quando da entrega da encomenda. Decepção total. Não que a pintura, por si, deixasse a desejar quanto à estética, cuidado com os traços ou jogo de cores. Até que era bonita. Porém, em nada correspondia à expectativa. Cada um tem sua própria cabana. Esta é personalíssima, única, construída – sob medida – conforme a alma de cada um. A cabana dela era simples, a tal modo a se confundir com o entorno. Uma espécie de mimetismo natural, onde a morada aparecia como uma espécie de prolongamento da mata, dos galhos da figueira, do braço de rio. Uma cabana acolhedora, com as poucas paredes tomadas de cestos, arcos, pássaros perfeitamente esculpidos na madeira. No centro, a fogueira permanentemente acesa a exalar o inconfundível cheiro da lenha. Enquanto esta ia sendo consumida lentamente pelo filete de chama multicolorido a dançar de um lado para outro, sobre a chapa do fogão de barro ficava a cozer algumas batatas postas de véspera. A cabana dela desconhecia o frio. Acolhedora feito o ventre, ali dentro todo forasteiro era bem-vindo. Como pagamento, só o espírito desarmado e o sorriso largo. Afinal, pode haver maior riqueza do que uma boa companhia? Lá fora, o coral de sapos-martelo, grilos, lobos-guará e uma infinidade de seres da floresta. A iluminá-los, o pisca-pisca dos vagalumes e a romântica claridade da lua. No interior da cabana, a bebida cuidadosamente preparada e, por vezes, dividida. Bom mesmo era sorvê-la no grupo de amigos, com a taça passando de mão em mão, fazendo lembrar o verdadeiro sentido da ceia: a partilha. Contudo, mesmo quando sozinha na cabana, jamais se sentira solitária. O minuano a soprar no inverno ou o ar quente a prenunciar a chuva traziam consigo uma indescritível sensação de paz. As forças da natureza, ali eram bem quistas. Não as temia. Ao contrário, parecia confabular com elas. A cabana era seu porto seguro. Estava presa a ela. Ainda pequena, já a imaginava. Comum era vê-la rabiscar no caderninho os traços do lugar que a acompanharia por toda vida. Um espaço de descanso, meditação, tomada de decisões. Ela e a cabana se confundiam numa relação umbilical. Ninguém melhor do que a cabana para conhecê-la. Segredos, medos, projetos... Cumplicidade total, irrestrita, fiel. Tamanho significado, de fato, só poderia caber no coração, jamais num pedaço de papel. Quanto ao pintor desconhecido, seguisse talvez a vender por aí suas telas. Clientes, quem sabe, destituídos de uma cabana que pudessem chamar de sua. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O EXAME


O EXAME
Gilvan Teixeira
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                Seria a primeira vez, e tomara que última, que passaria por aquela situação, todo aquele constrangimento. Histórias não faltavam, de tal forma que o sofrimento só aumentava. Sem falar, é claro, nas piadinhas e indiretas fazendo alargar, ainda mais, a ferida. Nos últimos quinze dias, só pensava naquilo. Algo lhe dizia que o exame era como que o divisor de águas da própria vida. Antes e depois. Só em pensar no tal do dedo, arrepiava. Não fosse macho, desandaria a chorar. Procurara na lista de urologistas um nome que pudesse, quem sabe, indicar algumas características do sujeito. A primeira estratégia era fácil, eliminar as doutoras. Só de imaginar de ficar de quatro para uma mulher... Ora bolas, alguma dignidade ainda lhe restava. Excluídas as do sexo oposto, a tarefa de escolher o médico “certo”, do seu “tamanho”, ia se tornando mais complicada e arriscada. Qualquer vacilo, estaria em maus lençóis. Passava e repassava nome a nome na lista dos médicos conveniados. Cuidado parecido com o que tinha na escolha dos números da mega-sena. Torcia para que na escolha do dito cujo tivesse mais sorte, do contrário estaria frito. Eram muitos nomes. Quais os critérios a serem usados? Pela antiguidade do CRM? Arriscado, vai que pegasse um médico com técnicas ultrapassadas, querendo fazer o troço pegar no tranco, sem nada de diálogo ou preliminares? Quem sabe, ainda, um velho míope ou com mal de Parkinson... Já pensou, aquela tremedeira toda depois de iniciado o procedimento? Por outro lado, os recém-formados também eram perigosos. Inexperiência, falta de prática ou coisa que o valha. Pior, um gurizote com aquele sorriso no canto da boca a desdenhar da diferença de idade em relação ao paciente. Definitivamente não! Nem oito, nem oitenta. A hora pedia equilíbrio, ponderação. Meia idade, portanto. Qual? Merda, o que poderia ser considerado meia idade? Nunca pensara o quanto era difícil escolher um médico. Chutou: quarenta e cinco! Alguma vez na vida teria de acertar um número que fosse. Saudades do Padre Nácio, antigo pároco, astrólogo e numerólogo, que conhecera nos tempos de colégio. Escolhida a idade, o próximo passo era o nome. Todos os que terminassem ou pudessem receber uma flexão em “ão”, por exemplo, eram automaticamente eliminados. Paulo, Roberto, Marcos, Pedro... Nem pensar. Não lhe enganavam. Até podia ouvir a voz da consciência – ou do órgão prestes a ser invadido – dizendo: “Paulão, Robertão, Marcão, Pedrão...”. Eram nomes fortes demais para seu gosto. Preferia nomes mais suaves, tipo assim... Leopoldo, Décio, Juvenal. Nomes que não admitissem aumentativos. O que era uma lista enorme, foi se reduzindo. Agora, não passava duns trezentos ou quatrocentos nomes. A próxima peneira era a do sobrenome. Os de origem alemã, italiana, russa, polonesa foram ficando pelo caminho. Muito rudes. Além de serem dados ao vinho, chope, vodka, salame e polenta. Não! Precisava, isto sim, era de alguém mais “zen”, alternativo, leve. Quem sabe alguém capaz de fazer o tão temido toque por meio do espaço, sem o auxílio das mãos, impulsionado pela energia do cosmos. De repente, um insight. Rapidamente procurou por Allan Kardec, Chico Xavier, Nostradamus... Sem sucesso. O negócio era seguir a busca entre nomes comuns. Concentração total. Sequer piscava. Foi afunilando, afunilando, afunilando, até que chegou ao nome de um urologista de nome oriental: Fuji Miinho. Tudo parecia conspirar a seu favor. Finalmente! Homem, meia idade – ao menos é o que parecia indicar o CRM –, oriental e, para coroar, aquele nome tão delicado. Até parecia já ver o sujeito. Um japonesinho de um metro e sessenta, mãos pequenas, cabelinho preto escorrido sobre o rostinho delicado. O médico de seus sonhos. Batata. Não tinha erro, era ligar e marcar. Dito e feito, na mesma hora pegou o telefone e agendara a consulta para o dia seguinte. Incrível. Tirara a sorte grande! Soubera de gente que levara quinze, trinta, sessenta dias para conseguir uma consulta. Dia seguinte! Mal podia acreditar. À noite, optara pela castidade, tomara um banho demorado, usara o sabonete não sei quantas vezes na região a ser examinada. Afinal, tinha que fazer sua parte, dar sua cota de sacrifício. Dormira como uma criança naquela noite. Levantara cedo, tomara mais um banho para garantir e até fizera uso de talco infantil para, digamos assim, facilitar as coisas para o senhor, como era mesmo o nome?,  Fuji Miinho... O local em nada parecia indicar a existência de uma clínica. Tocara a campainha. Um sujeito enorme, quase dois metros de altura, com a cara tomada de sardas e um par de olhos levemente puxados – resquício de uma longínqua herança oriental, quando da separação entre os continentes –, com os braços que mais faziam lembrar duas toras de madeira, com os dedos... Ao reparar nos dedos do desgraçado, um frio percorreu-lhe toda espinha, de alto a baixo. Eram descomunais. Pareciam destroncados, tamanho eram as juntas. Não podia ser... Já não atinava no que aquele brutamontes perguntava. Suava frio. O corpo inteiro tremia. O jaleco, um tanto que amarelado, não deixava dúvidas. Ali, feito a inscrição na lápide do defunto, restava estampado, apenas o sobrenome do sujeito: Miinho. Melhor, Dr. Miinho.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A BALA


A BALA
Gilvan Teixeira
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                O Natal se aproxima. Mais um. Existem motivos para comemorar? Para muitos sim, por vezes embasbacados pelas lantejoulas do mercado. Contudo, para um significativo número de famílias, a data só faz aumentar a dor, a tristeza, a saudade, a decepção e a profunda sensação de impunidade. Quisera existissem balas “perdidas”. Para quem? Não para o pai, para a mãe, para o filho ou para o irmão... Bala certeira isto sim, capaz de ceifar a vida e a esperança. Poderoso e funesto calibre a rasgar a alma dos entes que ficam. Dor incurável, indescritível, irrecuperável. Sofrimento que a incapacidade, omissão e letargia do Estado só faz aumentar. Ironicamente, a data traz consigo o indulto natalino. Perdão para quem? A quem caberia mesmo “perdoar”? Indulto que revolta e faz sangrar a ferida de quem é vítima. O mesmo Estado que contribui – com sua fragilidade institucional e permissividade jurídica – para a violência, é o Estado que “perdoa”. Baseado em quê? Alega critérios que, é sabido, são desencontrados e nada convincentes. Bandidos e criminosos de toda sorte, de roldão, ganham as ruas. Voltam, quase sempre, a delinquir. Ao Estado, resta o escárnio e a merecida imagem de fraco. O gigantismo e a obesidade – alimentados pela extorsão tributária institucionalizada sobre o contribuinte – não se travestem em força. Ao contrário. Feito espantalho, o ente público se põe imóvel, ao sabor do vento. Não por acaso, feito corvos, magistrados enfiados em suas vestes escuras, não apenas comem o milho, como o estocam em quantidade, enquanto os pobres mortais, hipnotizados pela ideia de um Eldorado inexistente, se contorcem famintos em meio ao estrume da saúde, (in)segurança e ensino precárias. Aos corvos, juntam-se os abutres – classe política acostumada à carniça resultante das partilhas e jogos de interesse –, e outras aves de rapina. Espreitam o ambiente, quase sempre favorável, à espera do melhor momento para encherem as cuecas, as meias e algibeiras. Ao que parece, a bala que mata o inocente não os assusta. Vivem noutro mundo, o dos carros blindados e jatos particulares. Têm o corpo são, apesar de toda nojeira que representam. Desconhecem filas. Quanto às fichas, só conhecem as da jogatina nos paraísos fiscais, pagas com dinheiro público. A bala, ao que parece, é seletiva. Mata trabalhadores, pobres, desabrigados, velhos, jovens, mulheres... Pudesse, democratizaria a bala. Estenderia seu poder de fogo, também, aos bem “apessoados”, togados e engravatados. Já que se auto intitulam “do povo”, nada mais coerente que sofrerem das mesmas chagas. Talvez, aí sim, o país mude. Quem sabe, então, tenhamos um bom motivo para comemorarmos o Natal.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

DEPOIS DOS QUARENTA


DEPOIS DOS QUARENTA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Mais uma primavera. Passada a barreira dos quarenta, a gente meio que se perde na idade. Acho que são quarenta e cinco. Sou de sessenta e oito. Tirem suas próprias conclusões. Sabem como é, a idade avança de maneira inversamente proporcional à capacidade da memória em gravar datas, nomes, trajetos... Há exceções, claro. Não sou uma delas. Dizem que me encontro na “idade do lobo”. Tolice. Dele, não tenho a astúcia, a destreza, a capacidade de caça... Por que então a analogia? Talvez, na melhor das hipóteses, possa me equiparar a um lobo solitário, faminto, capenga e sem dentes. Para piorar, com o paladar e olfato comprometidos pela idade. Um lobo a causar mais dó do que medo. Mais asco do que admiração. Lobo, só de nome. É assim, neste estado, que cheguei aos quarenta e cinco (?). Mais para lá do que para cá. A luz a chamar-me no final do túnel, só não a vejo por conta da miopia. Para meu consolo, inúmeras têm sido as manifestações de carinho pela passagem de meu aniversário. Parentes, amigos, colegas, ex-alunos... Preferível hoje que depois. Amanhã, quem sabe, serei pouco mais do que uma lembrança, ainda que boa, entre tantas outras. Somos, no fundo, “substituíveis”, pois efêmeros e transitórios. Daí ser vã toda arrogância e prepotência. Corre-se o risco de garantirmos sequer a boa lembrança a nosso respeito. Nossa casa é um bom termômetro, talvez o melhor. Como minha esposa e meus filhos de mim lembrarão ali adiante, depois de passar o fosso que nos separa do além? Espero ter semeado e seguir semeando – até quando? – coisas boas. Por vezes, não tenho dúvidas, vacilo enquanto pai e companheiro. Equivoco-me, ainda, enquanto professor, amigo, colega de trabalho. Ainda assim, ao que parece, toleram-me. Tamanha paciência e condescendência frente às minhas fraquezas, só faz crescer minha admiração pelo ser humano. Como cobrar deste mais do que eu mesmo sou capaz de dar?  Como projetar nele o que jamais fui, sem deixar de ser coerente ou verdadeiro? Por isso, ao chegar aos quarenta e tantos anos, pouco tenho a reclamar. Devo, isto sim, é agradecer pelas imensuráveis dádivas recebidas, a começar pelos meus pais, irmãos, esposa, filhos, amigos, ex-alunos, colegas... Miríades e miríades de crianças, jovens, homens e mulheres de todas as etnias, crenças e idades que, ao passarem pela minha vida, mesmo que de maneira rápida e aparentemente discreta, deixaram marcas. Sou, em parte, reflexo de cada um e de cada uma. Verdadeiro amálgama, inegável dialética forjadora deste lobo capenga e sem dentes, porém feliz! Muito obrigado pelas mensagens de carinho pela passagem do meu aniversário.