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quarta-feira, 16 de maio de 2012

ENTREVISTA COM BAUMAN


ENTREVISTA COM BAUMAN
Revista IstoÉ, setembro de 2010


Zygmunt Bauman
"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar"
Sociólogo polonês cria tese para justificar atual paranoia contra a violência e a instabilidade dos relacionamentos amorosos
Adriana Prado
 O sociólogo polonês radicado na Inglaterra Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados e produtivos da atualidade. Aos 84 anos, escreveu mais de 50 livros. Dois dos mais recentes, “Vida a crédito” e “Capitalismo Parasitário” chegam ao Brasil pela Zahar. As quase duas dezenas de títulos já publicados no País pela editora venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico. Pode-se explicar o apelo de sua obra pela relativa simplicidade com que esmiúça aspectos diversos da “modernidade líquida”, seu conceito fundamental. É assim que ele se refere ao momento da História em que vivemos. Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranóia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas. E cada um por si. “Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de ‘progresso’, se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: ‘progresso’, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração”, afirma. Em entrevista à ISTOÉ, por e-mail, o professor emérito das universidades de Leeds, no Reino Unido, e de Varsóvia, na Polônia, falou também sobre temas que começou a estudar recentemente, mas são muito caros aos brasileiros: tráfico de drogas, favelas e violência policial.

ISTOÉ -
 O que caracteriza a “modernidade líquida”?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida.
ISTOÉ -
 As pessoas estão conscientes dessa situação?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Acredito que todos estamos cientes disso, num grau ou outro. Pelo menos às vezes, quando uma catástrofe, natural ou provocada pelo homem, torna impossível ignorar as falhas. Portanto, não é uma questão de “abrir os olhos”. O verdadeiro problema é: quem é capaz de fazer o que deve ser feito para evitar o desastre que já podemos prever? O problema não é a nossa falta de conhecimento, mas a falta de um agente capaz de fazer o que o conhecimento nos diz ser necessário fazer, e urgentemente. Por exemplo: estamos todos conscientes das consequências apocalípticas do aquecimento do planeta. E todos estamos conscientes de que os recursos planetários serão incapazes de sustentar a nossa filosofia e prática de “crescimento econômico infinito” e de crescimento infinito do consumo. Sabemos que esses recursos estão rapidamente se aproximando de seu esgotamento. Estamos conscientes — mas e daí? Há poucos (ou nenhum) sinais de que, de própria vontade, estamos caminhando para mudar as formas de vida que estão na origem de todos esses problemas.
ISTOÉ -
 A atual crise financeira tem potencial para mudar a forma como vivemos?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Pode ter ou não. Primeiramente, a crise está longe de terminar. Ainda veremos suas consequências de longo prazo (um grande desemprego, entre outras). Em segundo lugar, as reações à crise não foram até agora animadoras. A resposta quase unânime dos governos foi de recapitalizar os bancos, para voltar ao “normal”. Mas foi precisamente esse “normal” o responsável pela atual crise. Essa reação significa armazenar problemas para o futuro. Mas a crise pode nos obrigar a mudar a maneira como vivemos. A recapitalização dos bancos e instituições de crédito resultou em dívidas públicas altíssimas, que precisão ser pagas pelos nossos filhos e netos — e isso pode empobrecer as próximas gerações. As dívidas exorbitantes podem levar a uma considerável redistribuição da riqueza. São os países ricos agora os mais endividados. De qualquer forma, não são as crises que mudam o mundo, e sim nossa reação a elas.
ISTOÉ -
 Ao se conectarem ao mundo pela internet, as pessoas estariam se desconectando da sua própria realidade?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Os contatos online têm uma vantagem sobre os offline: são mais fáceis e menos arriscados — o que muita gente acha atraente. Eles tornam mais fácil se conectar e se desconectar. Casos as coisas fiquem “quentes” demais para o conforto, você pode simplesmente desligar, sem necessidade de explicações complexas, sem inventar desculpas, sem censuras ou culpa. Atrás do seu laptop ou iPhone, com fones no ouvido, você pode se cortar fora dos desconfortos do mundo offline. Mas não há almoços grátis, como diz um provérbio inglês: se você ganha algo, perde alguma coisa. Entre as coisas perdidas estão as habilidades necessárias para estabelecer relações de confiança, as para o que der vier, na saúde ou na tristeza, com outras pessoas. Relações cujos encantos você nunca conhecerá a menos que pratique. O problema é que, quanto mais você busca fugir dos inconvenientes da vida offline, maior será a tendência a se desconectar.
ISTOÉ -
 E o que o senhor chama de “amor líquido”?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Amor líquido é um amor “até segundo aviso”, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação. O amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele. Na sua forma “líquida”, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade — mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo. É bom lembrar que o amor não é um “objeto encontrado”, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade.
ISTOÉ -
 Nesse contexto, ainda faz sentido sonhar com um relacionamento estável e duradouro?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Ambos os tipos de relacionamento têm suas próprias vantagens e riscos. Em um mundo “líquido”, em rápida mutação, “compromissos para a vida” podem se revelar como sendo promessas que não podem ser cumpridas — deixando de serem algo valioso para virarem dificuldades. O legado do passado, afinal, é a restrição mais grave que a vida pode impor à liberdade de escolha. Mas, por outro lado, como se pode lutar contra as adversidades do destino sozinho, sem a ajuda de amigos fiéis e dedicados, sem um companheiro de vida, pronto para compartilhar os altos e baixos? Nenhuma das duas variedades de relação é infalível. Mas a vida também não o é. Além disso, o valor de um relacionamento é medido não só pelo que ele oferece a você, mas também pelo que oferece aos seus parceiros. O melhor relacionamento imaginável é aquele em que ambos os parceiros praticam essa verdade.
ISTOÉ -
 O que explicaria o crescimento do consumo de antidepressivos?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Você colocou o dedo em um dos muitos sintomas da nossa crescente intolerância ao sofrimento – na verdade, uma intolerância a cada desconforto ou mesmo ligeira inconveniência. Em uma vida regulada por mercados consumidores, as pessoas passaram a acreditar que, para cada problema, há uma solução. E que esta solução pode ser comprada na loja. Que a tarefa do doente não é tanto usar sua habilidade para superar a dificuldade, mas para encontrar a loja certa que venda o produto certo que irá superar a dificuldade em seu lugar. Não foi provado que essa nova atitude diminui nossas dores. Mas foi provado, além de qualquer dúvida razoável, que a nossa induzida intolerância à dor é uma fonte inesgotável de lucros comerciais. Por essa razão, podemos esperar que essa nossa intolerância se agrave ainda mais, em vez de ser atenuada.
ISTOÉ -
 E a obsessão pelo corpo perfeito?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Não é o ideal de perfeição que lubrifica as engrenagens da indústria de cosméticos, mas o desejo de melhorar. E isso significa seguir a moda atual. Todos os aspectos da aparência corporal são, atualmente, objetos da moda, não apenas o cabelo ou a cor dos lábios, mas os tamanhos dos quadris ou dos seios. A “perfeição” significaria um fim a outras “melhorias”. Na cirurgia plástica, são oferecidos aos clientes cartões de “fidelidade”, garantindo um desconto nas sucessivas cirurgias que eles certamente irão realizar. Assim como a indústria de celebridades, a indústria cosmética não tem limites e a demanda por seus serviços pode, a princípio, se expandir infinitamente.
ISTOÉ -
 O que está por trás desse culto às celebridades?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Não é só uma questão de candidatos a celebridades e seu desejo por notoriedade. O que também é uma questão é que o “grande público” precisa de celebridades, de pessoas que estejam no centro das atenções. Pessoas que, na ausência de autoridades confiáveis, líderes, guias, professores, se oferecem como exemplos. Diante do enfraquecimento das comunidades, essas pessoas fornecem “assuntos-chave” em torno dos quais as quase-comunidades, mesmo que apenas por um breve momento, se condensam —para desmoronar logo depois e se recondensar em torno de outras celebridades momentâneas. É por isso que a indústria de celebridades está garantida contra todas as depressões econômicas.
ISTOÉ -
 Como fica o futuro nesse contexto de constantes mudanças?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de "progresso", se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: “progresso”, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração. De não descer ou embarcar a tempo. De não estar atualizado com a nova moda. De não abandonar rapidamente o suficiente habilidades e hábitos ultrapassados e de falhar ao desenvolver as novas habilidades e hábitos que os substituem. Além disso, ocupamos um mundo pautado pelo “agora”, que promete satisfações imediatas e ridiculariza todos os atrasos e esforços a longo prazo. Em um mundo composto de “agoras”, de momentos e episódios breves, não há espaço para a preocupação com “futuro”. Como diz um outro provérbio inglês: “Vamos cruzar essa ponte quando chegarmos a ela”. Mas quem pode dizer quando (e se) chegar e em que ponte?
ISTOÉ -
 Há cinco anos, a polícia de Londres matou o brasileiro Jean Charles de Menezes, alegando tê-lo confundido com um terrorista. Por que o mundo está tão paranoico com segurança?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Essa obsessão e a nossa gestão dos assuntos globais, responsável por reforçá-la, constituem a ameaça mais terrível à nossa segurança. O fantástico crescimento das “indústrias de segurança”, juntamente com a crescente suspeita de perigo que ela evoca, são motivos para antever uma piora das coisas. Se não por qualquer outro motivo, então porque, na lógica das armas de fogo, uma vez carregadas, em algum elas deverão ser descarregadas.
ISTOÉ -
 No Brasil, a violência é uma questão especialmente preocupante. Como o sr. enxerga isso?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Para começar, as favelas servem como uma lixeira para um número enorme de pessoas tornadas desnecessárias em partes do País onde suas fontes tradicionais de sustento foram destruídas — para quem o Estado não tinha nada a oferecer nem um plano de futuro. Mesmo que não declararem isso abertamente, as agências estatais devem estar felizes pelo fato de o povo nas favelas tomar os problemas em suas próprias mãos. Por exemplo, ao construir seus barracos rapidamente e de qualquer forma, usando materiais instáveis, encontrados ou roubados, na ausência de habitações planejadas e construídas pelas autoridades estaduais ou municipais para acomodá-los.
ISTOÉ -
 Essa ausência do Estado abriu espaço para os traficantes. O combate às quadrilhas às vezes é usado com justificativa para excessos da polícia. Por que tanta violência?
ZYGMUNT BAUMAN -
 As relações entre a polícia e as empresas de tráfico de drogas são, na apropriada expressão de Bernardo Sorj (sociólogo brasileiro, professor da Universidade Federal do Rio), “nem de guerra nem de paz”. Esse amor e ódio entre as duas principais agências de terror aumenta o estigma da favela como o local da violência genocida. Ao mesmo tempo, porém, também contribui para a “funcionalidade” das favelas na manutenção do atual sistema de poder no Brasil. A polícia brasileira tem um longo histórico de tratamento brutal aos pobres, anterior à proliferação relativamente recente das favelas. A brutalidade da polícia é mesmo para ser espetacular. Como não é particularmente bem sucedida no combate à criminalidade e à corrupção, a polícia, para convencer a população de seu potencial coercitivo, deve assustá-la e coagi-la a ser passivamente obediente.
ISTOÉ -
 O sr. vê uma solução?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Algo está sendo feito, mesmo que, até agora, não seja suficiente para cortar um nó firmemente amarrado por décadas, senão séculos. Um exemplo é o Viva Rio (ONG que atua contra a violência). Pequenos passos, talvez, sopros não fortes o suficiente para romper a armadura do ressentimento mútuo e indiferença moral de anos entre “morro” e “asfalto” no Rio. Mas a escolha é, afinal, entre erguer paredes de pedra e aço ou o desmantelamento de cercas espirituais.
ISTOÉ -
 O que o sr. diria ao jovens?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Eu desejo que os jovens percebam razoavelmente cedo que há tanto significado na vida quando eles conseguem adicionar isso a ela através de esforço e dedicação. Que a árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos.

FAZENDO O KIKO LEVANTAR
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com



Apesar de aparentemente pornográfico, o título nada tem de imoral. Ao contrário. Serve, quem sabe, de incentivo às boas ações e ao exercício de cidadania. Não faz muito, um fato interessante – apesar de corriqueiro – suscitou minha atenção. Uma aluna da EJA (antigo Supletivo), de uma escola encravada na periferia, chamara atenção de um colega, mais novo, por este ter jogado papel ao chão. Irresignada com a ação, a aluna exigiu que o colega não apenas juntasse, mas que levasse o lixo até o local adequado para depositá-lo. Quantas lições se pode tirar de fato tão pitoresco: a primeira delas, é de que a origem social não é justificativa capaz de condenar ou absolver alguém de seus erros e acertos. Nascer, crescer, trabalhar, estudar, morar, enfim, viver na periferia não pressupõe aversão aos princípios universais de convivência. Nem tampouco significa abrir mão da higiene, do respeito ao meio e às pessoas que nele convivem. Escassez de recursos e falta de bom senso não precisam, necessariamente, estar casadas. A segunda lição é a de que a cidadania se dá a partir de pequenos gestos. Prescinde dos holofotes da mídia ou de matérias jornalísticas. Fazer o bem e agir corretamente deveria ser a regra, jamais a exceção. A honestidade, o respeito, a solidariedade e a ética deveriam ser tão natural e “automático” quanto piscar ou respirar. Uma outra lição, a terceira – se não me trai a memória –, é a de que, em princípio, sempre é tempo para começar. Não importa a idade, nem tampouco o tempo que se perdeu. Boas ações são sempre bem-vindas. O Kiko, como ia dizendo, foi chamado atenção pela colega. Gesto bonito. Firme, mas educado. Sem rodeios, mas amoroso. Típico de quem quer bem. Só “puxa a orelha” aquele que, de fato, está preocupado com o outro. Quem ama, educa. Educar, às vezes, significa repreender. Mais tarde, o tempo dirá o quanto este ou aquele safanão fora importante. A surpresa inicial do Kiko ao ser repreendido, logo deu lugar – no fundo – à admiração: alguém se importou com ele. O gesto da colega, talvez mal interpretado pelos mais desavisados, servira de lição, não apenas para o simpático Kiko, mas para o grupo como um todo. O mundo, o país, a cidade, a escola precisa de pessoas capazes de fazerem o “Kiko” levantar. Homens e mulheres que não se omitam, que não titubeiem frente às injustiças, barbáries e ofensas, especialmente aquelas que firam a ética e os mais elementares princípios de convivência. Precisa-se de homens e mulheres valorosos, mais preocupados com o “fazer” do que com o “dizer”. O velho e carcomido discurso do “politicamente correto” – que, como mantra, mais nos fazem cansar do que agir –, não raras vezes, descomprometido, deve ceder lugar à práxis instigadora de mudanças e de transformações positivas. Parabéns para aquela que fez o Kiko levantar.  

quarta-feira, 9 de maio de 2012

JUSTIÇA SOCIAL: O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO DESENVOLVIMENTO


JUSTIÇA SOCIAL: O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO DESENVOLVIMENTO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                País desenvolvido é aquele que garante à esmagadora maioria da população boa qualidade de vida. Mais do que números positivos na balança comercial, no PIB, nas taxas de crescimento do mercado interno, etecetera e tal, o que realmente caracteriza um país desenvolvido é a qualidade do ensino, do atendimento médico-hospitalar, da segurança, dos meios de transporte, do saneamento básico, do acesso à informação, do lazer, da infraestrutura, entre outros. O desenvolvimento de um país é medido, ainda, pelo nível de confiança das pessoas nos aparelhos e órgãos do Estado, na capacidade dos entes públicos em darem respostas rápidas e eficazes às demandas suscitadas pelos cidadãos. Um país desenvolvido é aquele que transforma os balancetes frios da economia em escolas, hospitais, praças, rodovias, teatros, etc. País desenvolvido é o que tem seus Poderes constituídos verdadeiramente livres e independentes, jamais amasiados com interesses privados. Desenvolvido é o país que tem ojeriza à corrupção e ao ganho que nasce nas entranhas do crime, organizado ou não. País desenvolvido é o que expurga, de forma exemplar, os que – togados ou não, graduados ou sem estudo, ricos ou sem grandes posses – ofendem os princípios da moralidade, da impessoalidade e da gestão séria e comprometida com o real interesse público. País desenvolvido é o que valoriza a produção, mas também aquele que produz. É o que acredita no ser humano e protege a vida. Desenvolvido é o país que se coaduna à sustentabilidade. É aquele que supera o discurso fácil e transforma em realidade a letra fria e morta da lei. Portanto, o Brasil, nem de perto, é um país desenvolvido.

                Nosso país precisa avançar muito no que tange à justiça social e distribuição de renda. Apesar das inegáveis melhorias no aumento do mercado interno e no poder de compra das classes mais baixas – alavancadas por uma perigosa e cara ciranda de crédito aparentemente fácil –, o Brasil ainda convive com enormes e vergonhosos bolsões de miséria. O campo segue marcado pela distribuição desigual das terras, incitando conflitos fundiários com consequências nefastas não apenas para os mais fracos, mas para sociedade como um todo. A relação entre capital e trabalho, apesar de mais estável do que tempos idos, segue a reboque de uma legislação que, por um lado, onera de forma irresponsável o empregador, enquanto, por outro lado, insiste em retirar dos trabalhadores direitos historicamente conquistados. Nunca o Estado arrecadou tanto, resultado de uma insana carga tributária a encarecer o chamado “custo Brasil”, contudo – ainda assim –, nunca esteve tão ameaçado o sistema previdenciário, trazendo profunda insegurança e injustiça no que tange à maioria dos atuais e futuros aposentados. Insegurança é, também, o sentimento que aumenta de forma geometricamente proporcional à permissividade, inoperância, ineficiência, ineficácia e incompetência dos aparelhos preventivo e repressivo do Estado. Estado e crime organizado, por vezes, se confundem. As penas aplicadas aos criminosos, apesar de nem sempre serem em tese brandas, na prática servem de zombaria e pilhéria, haja vista o não cumprimento – de fato – das mesmas. Os presídios, país adentro, são antros do tráfico, da prostituição, das doenças infectocontagiosas, em nada contribuindo para ressocialização dos presos. Servem, tão somente, a interesses espúrios de alguns narcotraficantes associados a alguns inescrupulosos protegidos, às vezes, por mandatos, diplomas ou cargos que, na prática, alimentam o ciclo da corrupção. Enquanto isso, a população segue refém do medo e do sentimento de impotência, para vergonha de toda uma nação.

                Assim, o desenvolvimento – pautado na justiça social – segue sendo, ainda, um sonho distante. Apesar disso, possível. Contudo, a melhoria na qualidade de vida da população passa, necessária e obrigatoriamente, pela “refundação” do Estado. Este precisa ser, urgente e profundamente, transformado, remodelado, assentado em outras bases que não a do clientelismo, personalismo, empreguismo e outros “ismos” infames que servem, tão-somente, para perpetuar privilégios de uma casta que, a cada dia, enriquece às custas da maioria. Esvaem-se não apenas recursos, mas confiança e credibilidade no Estado. Este, no Brasil hodierno, é dispensável, pois apesar de excessivamente caro, não presta, não funciona, não responde aos anseios de quem o sustenta. O Estado brasileiro, há muito vem sendo um enorme cabide de empregos, estáveis e, não raras vezes, muito bem remunerados. Um Estado que serve aos interesses, quase que exclusivamente, da própria “máquina”, não precisa existir. Não merece existir. O Estado só tem sentido enquanto, de fato e de direito, “serve” ao cidadão.  

                Ano eleitoral é um bom momento, infelizmente –  às vezes – o único, de reflexão. Que país desejamos? Que município sonhamos? Uma cidade para poucos ou para a maioria? Um município que fique à margem da capital ou forte e respeitado? Uma cidade excludente ou acolhedora? Cachoeirinha precisa sair das sombras de Porto Alegre. Necessita ganhar vida. Nossa cidade precisa superar a histórica e triste imagem de uma “avenida cercada de vilas”. Precisamos criar e investir em espaços culturais, escolas, saneamento básico, postos de saúde, hospitais, geração de emprego e renda, segurança pública e sistema viário, por exemplo. Para tanto, faz-se necessário um Poder Público sério e forte. Indispensável é que se tenha um Executivo “limpo” e transparente. Não menos urgente é um Legislativo afinado aos interesses da coletividade. A Câmara precisa ser depurada e renovada. Figuras “dinossáuricas” – algumas delas destituídas do preparo intelectual que se espera de um representante do povo – soam, hoje, como anacrônicas. Politiqueiros que pautam sua atuação na troca de favores e numa “rede” imoral (apesar de “legal”) sustentada por CCs e FGs, todos pagos com dinheiro público, não são merecedores do sagrado mandato parlamentar. Candidatos que usam de seu poder hierárquico como instrumento de pressão sobre os eleitores não merecem a investidura que nasce das bases. Assim, façamos do pleito de outubro um momento de verdadeira mudança. Deseja-se que a reflexão, o espírito crítico e propositivo, enfim, o exercício da cidadania, promovam profundas mudanças em Cahoeirinha. Seja nosso município motivo de orgulho, não do tipo ufanista, mas um orgulho pautado nos mais nobres valores da solidariedade, da honestidade, do espírito público, da ética. Somente assim, promoveremos justiça social e, com ela, o verdadeiro desenvolvimento. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

FILHOS E TEXTOS


FILHOS E TEXTOS
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com

                Filhos se parecem com textos. Por mais feios que, para os outros, possam parecer, para nós são as criaturas mais belas. Os concebemos, a ambos (filhos e textos), muito antes de nascerem de fato. Mesmo antes de existirem, já os imaginávamos assim ou assado. Filhos e textos vão se constituindo a cada momento. São um eterno devir. Podem ter uma vírgula a mais, um ponto a menos, muitas exclamações e um número sem fim de interrogações. Não interessa, são nossos. Os amamos. São produtos de nosso ser, oriundos das mais profundas entranhas. Revelam um tanto daquilo que somos e acreditamos. Como dizem os amigos: “a cara de um, o focinho de outro!”. Nem poderia ser diferente. Tal pai, tal filho. Tal criador, tal criatura. Tal escritor, tal texto. Teimamos em mostrá-los a terceiros. Sinuosos ou não, tortos ou ajeitadinhos, pequenos ou grandes, prolixos ou boçais, são o nosso orgulho. Olhos de pai (e de escritor) são cegos. Às vezes, é bem verdade. Outras vezes, nem tanto. Como textos, os filhos até podem parecer “acabados”, prontos. Para quem os cria, sempre falta algo. Teimamos em “largá-los” para o mundo. Quando saem, deixam como que um profundo vazio, um sentimento de abandono. É para o bem deles, sabemos. Deles e, é claro, do mundo. Porém coração de pai é assim mesmo... Espécie de egoísmo, não daquela espécie vil, mas um egoísmo virtuoso, aceitável e, por que não, admirável. Filhos e textos representam para nós, que os criamos, o que nem sempre representam para os outros. Para estes, talvez prosa. Para nós poesia. Para aqueles, afirmação, para nós dúvida. Para os outros, crítica, para nós condescendência. Talvez não percebamos – nós, pais e escritores – que uma vez lançados ao mundo, nossas criações e criaturas têm vida própria. Mesmo antes, talvez. É duvidar, até mesmo os textos têm vontade própria. O que não dizer, então, dos filhos? Traçamos, de antemão, o destino dos filhos e dos textos. Contudo, assim como o enredo, a vida nos prega peças. Insistir? Que jeito? Tentar, até que tentamos. Insistimos daqui, escrevemos dali... Sem sucesso, muitas vezes. Nossas obras-primas (em forma de linhas ou de gente), por vezes, criam asas. Autonomia que, muito antes de envergonhar aqueles que as concebem, enche de orgulho. Serão, quem sabe, porta-vozes e instrumentos dos valores que acreditamos. Livros e filhos devem semear virtudes. Assim o fazendo, terá sido válido cada minuto vivido, cada palavra escrita. Mais do que belas capas ou roupas de grife, o que se quer é conteúdo. Filhos se parecem com textos.  


Ver:  http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=newsletter&idNews=16428&idPai=554&id=16429

domingo, 29 de abril de 2012

MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS


MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com

                O deslocamento de grupos de pessoas acompanha a própria trajetória da humanidade. Na Pré-História, por exemplo, ao que tudo indica, eram bastante comuns os movimentos migratórios, até porque os homens à época eram, na sua maioria, nômades. A busca de comida e abrigo era importante fator instigador do deslocamento do homem, tanto do Paleolítico, quanto do Neolítico ou, ainda, do período posterior, conhecido como Idade dos Metais. Na Antiguidade, inúmeros são os relatos de movimentos migratórios. Alguns deles, vale lembrar, trazidos na Bíblia como, por exemplo, o do Êxodo, onde os hebreus deixaram o Egito dos faraós em direção à chamada Terra Prometida. Na Idade Média, por sua vez, tivemos – por exemplo – as Cruzadas, onde milhares de pessoas aventuraram-se por terras desconhecidas em nome da Guerra santa, envolvendo cristãos e mouros (adeptos do Islamismo). Na Modernidade, entre os séculos XV e XVIII, como esquecer do “Desencravamento Planetário”, já trabalhado em aula, onde os mundos europeu e americano passaram a dar ensejo ao Pacto Colonial, sendo por demais comuns os movimentos migratórios de portugueses, espanhóis, ingleses, entre outros, em direção ao chamado Novo Mundo. Teve, ainda, levas e levas de africanos sendo comercializados como mão-de-obra escrava, sendo obrigados a abandonarem seu continente de origem. Na Idade Contemporânea, finalmente, não tem sido incomum as migrações[1] de todos os tipos, sejam elas externas (imigrações e emigrações) ou internas (Êxodo Rural, Movimento Pendular, etc.).

                As causas dos movimentos migratórios são inúmeras e, não raras vezes, complexas. Merecem destaque questões bélicas (guerras civis e entre países), econômicas (crises econômicas que impulsionam a emigração), religiosas (peregrinações), naturais (cataclismos como, por exemplo, terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas), entre outras. No que tange às consequências, as migrações alteram, por exemplo, o quadro populacional dos países (população absoluta e população relativa) e da distribuição das pessoas no interior dos mesmos. Mais do que isso. Os movimentos migratórios tendem a tensionar positiva ou negativamente a qualidade de vida de um país. Podem, por um lado, aumentar as desigualdades sociais, como podem – por outro – representar um ganho para as indústrias e para a economia do país como um todo.

                Os movimentos migratórios podem ser “externos” ou “internos”. Quanto aos primeiros, pode-se falar em imigrações e emigrações, conforme o fluxo de entrada ou saída de pessoas, respectivamente, de um país. Já os “internos” são as migrações ocorridas no interior do próprio país, podendo ser citados a título de exemplificação, o Êxodo Rural (saída do campo em direção à cidade), a Transumância (também conhecida como Movimento Sazonal, pois ocorre em determinadas épocas do ano, sendo relativamente comum no Nordeste do Brasil, envolvendo o Sertão e a Zona da Mata) e o Movimento Pendular (é o vai-e-vem diário ocorrido, por exemplo, nas regiões metropolitanas, onde contingentes de pessoas saem de suas cidades para trabalharem em outra, retornando ao final do dia).

                Os movimentos migratórios (internos e externos) tiveram e seguem tendo uma enorme influência no quadro populacional do Brasil, com indisfarçáveis reflexos nos campos econômicos, social, político, etc. Daí a necessidade de debruçar-se sobre o tema, sob um olhar crítico, objetivando não apenas a compreensão do fenômeno em questão, mas a busca de saídas que viabilizem a construção de uma sociedade menos desigual.




[1] Aqui entendidas como movimentos migratórios. Alguns autores preferem usar o termo “migrações” apenas para os movimentos migratórios que ocorrem no interior do próprio país. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

CONSTELAÇÃO


CONSTELAÇÃO
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                Muitos veem apenas a escuridão profunda e não as estrelas que, feito pisca-piscas de árvore natalina, povoam o céu. São muitas, incontáveis. Lá estão, eternas, apesar da indiferença dos homens. Ah, como estes poderiam aprender com a singela e interminável beleza das estrelas. Tão pequenas aos nossos olhos que chegam a caber por entre os dedos indicador e polegar. A distância serve, talvez, para mascarar as dimensões imensas desses corpos celestes. Quem sabe, ainda, para não contaminá-los com a mesquinhez humana. Sábia natureza. As estrelas, pacientemente, nos espreitam. Quantos amores, beijos e afetos não presenciaram? Quantos corpos nus diante delas não se entrelaçaram? Quantas pragas rogadas, açoites e cadáveres elas não viram? Crimes hediondos e bárbaros ainda hoje não desvendados, há muito são por elas conhecidos seus algozes e vítimas. Tudo veem, tudo sabem. Apesar disso, de toda onipresença e onisciência, seguem condescendentes. Como são belas. Feito bailarinas, cada qual guarda o seu lugar, marca o seu espaço. Noite após noite. Mesmo quando nuvens escuras e carregadas interpõem-se entre elas e os homens, lá estão. Prescindem da crença dos mortais. Independem dos caprichos daqueles que, passados alguns poucos anos – um nada, diante da idade das estrelas – perecem. Vão-se os anéis, ficam as estrelas. Esvai-se a beleza da mais bela entre as mulheres, enquanto o invejável brilho das estrelas segue como que a zombar do tempo e do espaço.

                Os alunos, meus alunos, todos..., são como estrelas. Verdade! Um dia desses, lá estava eu a observá-los. Deixei o escuro da noite, as brumas do cansaço, o tédio da rotina e, bem ali, diante dos meus olhos, vi as estrelas. Algumas, apenas. Poucas, talvez. As Três Marias, um conjunto de estrelas que, apesar de tão distintas – uma mais escurinha, outra mais “madura”, enquanto a terceira, ainda a transparecer a seiva da juventude –, seguem juntas, inseparáveis. Um casamento que tem rendido não apenas admiração, geração após geração, mas também a atenção de poetas, boêmios e artistas de todas as idades e quilates. Um pouco mais à esquerda, a Panela, um conjunto menos alinhado do que o anterior. Estrelas grandes e pequenas, não tão ordeiras quanto as Marias, mas não menos importantes. Não fossem elas, por certo o panteão celestial daqueles olhinhos brilhantes não seria o mesmo. Onde aparentemente reina o caos, talvez, no fundo, exista uma ordem. Ininteligível quem sabe, mas necessária. As estrelas seguem um curso que lhes é própria, diferente do nosso. Uma estrela, uma história. Duas iguais, jamais. Contudo, nossos olhos – por serem mortais, demasiada e irremediavelmente limitados –, teimam em ver homogeneidade onde reina a diversidade. Triste sina. Destino não dado, mas construído por anos a fio de preconceitos, metodologias estéreis que, apesar da boa intencionalidade, acabam por embrutecer e enrijecer a inteligência e a criatividade. Não raro, acaba-se com o brilho das estrelas. Estrela sem brilho, assim como escola sem aluno, perde o sentido. Têm ainda as cadentes, estrelas indisciplinadas que fogem à órbita inicialmente estabelecida. Serelepes, rápidas, avessas às margens traçadas pelos homens. Inigualáveis, contudo, na poderosa energia que possuem. Até as estrelas mais velhas as invejam. Quanta força, quanta vida... Falta-lhes, talvez, apenas um norte. Não necessariamente o nosso, mas até outro, desde que lhes seja preservada a essência. A estrela é bela não por ser grande ou pequena, raquítica ou robusta, centrada ou cadente, mas sim por ser, simplesmente, estrela.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

ESCOLA WALDORF


ESCOLA WALDORF
Prof. Gilvan
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            Quando se fala em educação de qualidade, é comum pairar uma nuvem de desconfiança. Um misto de descrédito, deboche e indiferença. Como ser diferente, quando o que se vê, em regra, é um discurso descolado, por completo, da prática? O Poder Público, por exemplo, ano após ano vive de um discurso vazio e eleitoreiro, mas que no frigir dos ovos nem de perto tem resolvido o histórico descaso com o ensino. Prédios sucateados, professores mal remunerados, metodologias permissivas e obsoletas, altos índices de evasão e repetência. Crianças que não aprendem e escolas que não ensinam. Verdadeiro ciclo vicioso, onde todos perdem. Recursos que se esvaem por entre os incontáveis buracos da corrupção e da incompetência. Neste oceano de histórias mal contadas e não resolvidas, surge uma que outra esperança. A Escola Waldorf Querência, na Zona Sul da capital gaúcha parece vir na contramão do quadro acima descrito. Mais do que uma pedagogia diferente, a Escola deixa transparecer um novo paradigma de homem e de mundo. O espaço é convidativo e as salas por si só são ambientes de aprendizagem. O que dizer das lousas cobertas de arte? A cantina com aquele jeitinho aconchegante? Os brinquedos de madeira espalhados pelo pátio amplo e arborizado? Os educadores que mais parecem contadores de história a se confundirem com suas personagens? As mesas (carteiras) de madeira que, na inigualável simplicidade, carregam como que uma espécie de magia? O som do piano, ao fundo, embalando sonhos? Os olhinhos dos alunos embebidos com a beleza do saber, uns a caminhar por entre os pés de árvores nativas, outros a cantarolar sem os medos e preconceitos dos adultos. Uma Escola sustentada pelos recursos, às vezes parcos, de pais trabalhadores, mas que, assim como o corpo docente, acreditam na possibilidade de um mundo melhor, mais sustentável, fundado na solidariedade, na alteridade, na responsabilidade coletiva, no amor e na fraternidade. Deseja-se à Escola prosperidade, que seu trabalho e proposta frutifiquem, ensejando profundas transformações no encantador processo ensino-aprendizagem. Parabéns à comunidade da Escola Waldorf Querência. Quanto a nós, fica a saudade... 

terça-feira, 17 de abril de 2012

CONFLITOS ARMADOS

CONFLITOS ARMADOS
Prof. Gilvan
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                Os conflitos armados, assim como as desigualdades sociais, acompanham a história da humanidade. Mesmo na Pré-história os homens já disputavam entre si espaços que pudessem lhes garantir a sobrevivência. Na Antiguidade, os litígios seguiram marcando a trajetória dos povos, não sendo incomuns conflitos como aqueles que envolveram, por exemplo, hebreus, assírios, babilônios, gregos (atenienses, espartanos, etc.) e romanos. O que dizer da Idade Média? Como esquecer das Cruzadas ou dos inúmeros conflitos envolvendo os senhores feudais? Sem falar, é claro, da famosa Guerra dos Cem Anos, tendo como principais protagonistas franceses e ingleses. Na Idade Moderna, por sua vez, o mundo assistiu ao encontro das civilizações europeia e pré-colombiana (ameríndios), com as incontáveis e trágicas consequências que acabaram por dizimar culturas inteiras, onde as armas estiveram associadas às doenças e à imposição do modo de vida “branco” em contraposição à fragilidade daqueles que viviam aquém-mar. Finalmente, a contemporaneidade trouxe consigo não apenas as ditas “luzes” da Revolução Francesa e do Iluminismo, mas, também, o recrudescimento de conflitos armados cada vez mais sangrentos e de maiores proporções como as duas Grandes Guerras. Vale lembrar, por exemplo, que desde o final da Guerra Fria (por volta de meados da década de 1980), foram contabilizados mais de 120 conflitos armados, principalmente nos continentes africano (África subsaariana) e asiático.

                As causas desencadeadoras dos conflitos armados são inúmeras, especialmente as de ordem ideológica, étnica, religiosa e política. Certamente, tais causas – em geral – não aparecem isoladas, mas interligadas, imbricadas. É temerário, por certo, tentar reduzir a maioria dos conflitos a tão somente uma ou outra causa. A maioria dos autores tem diferenciado, sem muita precisão, as seguintes formas de conflitos armados: guerrilha e terrorismo. Enquanto a primeira tem estado associada a uma espécie de conflito marcada pela oposição de um exército informal em relação a um exército regular (pago pelo Estado), onde em geral os alvos são “pontuais”, com preservação da população civil, o terrorismo – por sua vez – está marcado pela prática política de quem recorre à violência contra pessoas e/ou coisas como forma de chamar atenção para determinada causa, mesmo que para tanto sejam vitimadas pessoas sem qualquer espécie de envolvimento político ou ideológico.

                No Brasil, alguns grupos guerrilheiros marcaram a história do país. Exemplo disso foi a famosa “guerrilha do Araguaia”, onde algumas dezenas de pessoas ligadas ao PCdoB (Partido Comunista do Brasil) lutaram contra a ditadura que assolava o Brasil, ditadura esta responsável por inúmeros atos de censura, tortura e demais mazelas típicas de governos autoritários. Poucos sobreviveram à ação dos militares. Ainda hoje, familiares dos combatentes assassinados buscam pelas ossadas de seus entes queridos. Mais recentemente, alguns grupos guerrilheiros seguem lutando contra o que julgam injusto e inaceitável, com destaque para as FARCs (Colômbia) e o Hamas (Palestina).

GEOPOLÍTICA DO PÓS-GUERRA

GEOPOLÍTICA DO PÓS-GUERRA
Prof. Gilvan
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                Geopolítica pode ser definida como sendo a forma, o jeito, a maneira dos países se relacionarem, em especial no campo da chamada política internacional. Portanto, um conceito próximo aquele já estudado quando da análise da Ordem Mundial. Esta, vale lembrar, mudou ao longo do tempo. Antes da Segunda Guerra, por exemplo, a Ordem era multipolar, onde alguns poucos países exerciam a hegemonia através, principalmente, do poder militar. Entre 1945 e meados da década de 1980, por sua vez, a Ordem Mundial era bipolar, afinal o palco estava polarizado entre os blocos socialista e capitalista, correspondendo ao período da chamada Guerra Fria. Finalmente, a partir de 1985, o mundo passou a vivenciar uma nova Ordem, agora fundada – segundo muitos autores – numa multipolaridade distinta daquela que antecedeu a Segunda Guerra. Hoje, a Ordem está pautada sobretudo no poder econômico.

                A Segunda Grande Guerra (1939-1945) representou, como visto acima, uma espécie de divisor de águas entre duas Ordens. Não por acaso. O conflito – motivado por inúmeras causas, especialmente econômicas – passou por várias etapas, merecendo destaque a entrada dos Estados Unidos e da União Soviética na guerra, situação que mudou por completo o desfecho da mesma. A partir de 1945, foi tomando corpo a chamada Guerra Fria, onde restou clara a polarização principalmente político-ideológica entre os blocos socialista e capitalista, sob a liderança da ex-União Soviética (1922-1992) e Estados Unidos, respectivamente. Tal radicalização pode ser caracterizada na célebre frase: “paz impossível, guerra improvável”, ou seja, um conflito marcado por um permanente tensionamento entre os blocos, com a existência de alguns conflitos armados entre países tidos como “satélites” (Cuba, Vietnã, Camboja, etc.), porém sem o enfrentamento militar direto entre as duas maiores potências do planeta. A Guerra Fria esteve marcada, ainda, pelo surgimento da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em 1949, bem como do Pacto de Varsóvia (1955), sendo ambos os “braços” bélicos de seus respectivos blocos.

                A Geopolítica do mundo pós-Guerra está intimamente ligada ao surgimento da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1945. Ela veio, de certa forma, substituir a malfadada Liga das Nações, já que esta deixara de cumprir com o seu principal papel, qual seja, o de evitar que o mundo do entre-Guerras (1918-1939) se envolvesse num novo conflito de proporções mundiais. Assim, a ONU, vinha com a intenção de, ao menos em tese, pacificar o mundo pós-Guerra, garantindo uma paz que fosse sólida e duradoura. Todavia, desde seu nascimento, tal Organização tem despertado a desconfiança e, não raras vezes, o mais profundo descontentamento junto a muitos países que a compõem. Motivos não faltam para tanto. Um deles é a composição do Conselho de Segurança, principal órgão da ONU. Tal Conselho – formado apenas por Estados Unidos, França, Reino Unido, China e Rússia – tem se revelado autoritário e pouco representativo, pois que o poder de veto de seus membros coloca, muitas vezes, por terra o interesse de quase duas centenas de países. Pressões não faltam no sentido de que se busque mudanças significativas na forma como a ONU vem sendo conduzida. Contudo, ao que parece, o mundo está distante do dia em que povos e nações do mundo inteiro tenham, de fato, tratamento isonômico quando da tomada de decisões que, por vezes, lhes afetam.

                Hodiernamente, vive-se num mundo onde algumas “verdades” são construídas com enorme velocidade, mesmo que em prejuízo de culturas milenares. Alguns autores alegam que a Geopolítica atual é “unipolar” (monopolar, unopolar), onde os Estados Unidos despontariam como única e verdadeira potência, ao mesmo tempo, econômica, política, militar, cultural, etc., da Terra. Exageros à parte, o fato é que, na última década – especialmente após o fatídico 11 de setembro (2001) – temos assistido os EUA (principalmente nos governos que antecederam o de Obama) arvorarem-se como os grandes (únicos!!!) guardiões da democracia contra a eterna “ameaça” do temido Eixo do Mal, este quase sempre representado, de forma preconceituosa, pelos países de cultura islâmica.

GLOBALIZAÇÃO

GLOBALIZAÇÃO
Prof. Gilvan
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                Globalização pode ser definida de inúmeras formas. Aqui se adota como conceito, sendo um processo incontrolável, dinâmico e mundial de interdependência, por exemplo, política, econômica e cultural entre os países. Trocando em miúdos: o que ocorre fora de nossa cidade, estado ou país guarda relação, às vezes mais e às vezes menos, com nosso dia-a-dia. Por outro lado, o que fazemos ou deixamos de fazer enquanto indivíduos ou coletividade (país, por exemplo) também se reflete sobre a economia, a sociedade, a cultura e a política de outros povos, por mais longínquos que possam parecer.

                É inegável que o Capitalismo, como modo de produção, fomentou (e foi fomentado, numa relação dita dialética) o processo de globalização. Muitos autores têm assinalado que a origem da mesma encontra-se no período correspondente à passagem da Idade Média para a Moderna, mais precisamente nas Grandes Navegações. À época, vale lembrar, o mundo (em especial a Europa) viveu uma espécie de “desencravamento planetário”, ou seja, restou clara a expansão das fronteiras até então conhecidas. A busca de fontes de matérias-primas e mercado consumidor não apenas reforçou a concentração de riquezas por parte de alguns países, mas instigou o contato – quase sempre nefasto – entre culturas por demais distintas como, por exemplo, a portuguesa e a dos povos que ocupavam o Brasil antes do famigerado “descobrimento”. Mais tarde, já na segunda metade do século XVIII e primeira do XIX, a Revolução Industrial aguçou o processo globalizante. As novas técnicas produtivas e o advento das fábricas, sob o manto do Liberalismo Econômico, permitiram um gigantesco aumento na circulação de mercadorias. O lucro exacerbou-se, fazendo da mais-valia importante argumento em desfavor do Capitalismo. Apesar das lutas operárias, impulsionadas por teorias como aquela defendida nas obras de Marx e Engels, o modelo econômico fundado no mercado não arrefeceu, pelo contrário, expandiu-se pelo mundo afora. A partir de então, não apenas a Inglaterra, mas também outros países da Europa, assim como Estados Unidos e Japão – por exemplo – tomaram a dianteira entre as grandes potências econômicas do mundo. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) inaugurou uma nova Ordem Mundial, onde o Capitalismo e o Socialismo passaram a disputar a hegemonia sobre a Terra. A Guerra Fria, em que pese o conflito ideológico existente, não foi capaz de frear o processo da Globalização. Esta se fortaleceu, mais ainda, a partir da década de 1970, onde o mundo passou a assistir uma Revolução Tecnológica, onde à medida que se avança em direção aos dias de hoje, cresce a interdependência entre os povos da Terra.

                A Globalização traz consigo inúmeras consequências. Não são incomuns paradoxos. Por um lado, os meios de comunicação têm permitido (para quem pode pagar!) o contato instantâneo entre as pessoas, por mais distantes que estejam. Por outro, nunca foi tão flagrante a frieza e superficialidade das relações. Nunca a ciência e tecnologia estiveram tão avançadas, contudo a fome segue sendo uma terrível e vergonhosa “praga” a assolar enormes parcelas da população mundial. Enfim, os avanços trazidos pela Globalização são inegáveis, assim como o são alguns problemas a ela associados. Globalizam-se, por exemplo, culturas e “visões de mundo” de alguns países em detrimento de culturas locais. Exemplo disso é o conceito de “democracia” imposto ao mundo, democracia esta que casa com os ideais capitalistas, mas não, necessariamente, com os ideais de justiça, solidariedade, fraternidade e igualdade. A “fluidez” e os tempos “líquidos” trazidos pela Globalização se, por um lado, dinamizam as relações e as “horizontalizam”, tornando-as em princípio mais democráticas, por outro lado, o excesso de relativismo põe em risco valores e cria uma perigosa insegurança ética.                 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

JOANA D’ARC

JOANA D’ARC
Gilvan
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            Joanas por todos os lados. Gordinhas ou magrinhas, altas ou baixas, letradas ou não, comerciantes ou comerciárias, empregadas ou patroas, tímidas ou extrovertidas, enfim, verdadeira miríade de adjetivos. Em comum, nossas Joanas são, quase todas, donas de casa. Melhor, donas “da” casa! Conquistaram, a ferro e fogo, seu espaço. Arvoram-se, com toda razão, como verdadeiras “rainhas do lar”. Não naquele sentido pejorativo, como que associado a uma espécie de fatalismo adâmico, onde restaria a elas os limites da cozinha ou da área de serviço. São, as joanas, maioria em nosso município: mais de sessenta mil. Invejável contingente! Joanas que, no incomum de suas histórias guardam entre si muitas semelhanças. Guerreiras, sábias, incansáveis, justas, amorosas, sensuais... Joanas que se mostram prontas para o embate da vida, capazes de transformarem a armadura – áspera e pesada – em algo belo e admirável. Joanas que, mesmo diante dos infortúnios que decorrem do simples e (paradoxalmente) complexo ato de viver, geram vida. Joanas que encantam. Cachoeirinha possui muitas Joanas. Nobres ou plebeias, jovens ou anciãs, endinheiradas ou despossuídas. Todas, contudo, heroínas. Não tarda o dia, espera-se, em que nossas Joanas tomarão as rédeas desta cidade. Talvez não de assalto, mas pelo voto. Sonha-se com o dia em que as urnas parirão muitas Joanas. Mulheres fortes, porém sensíveis. Joanas capazes de se sublevarem contra as estruturas que escravizam, que alienam e que oprimem. Mulheres dispostas a sacarem suas lanças e espadas, sem que percam o brilho e, de preferência, sua feminilidade. Joanas que não incorram na perfídia de confundirem o público e o privado. Mulheres que seduzam, mas jamais se deixem seduzir pelo dinheiro fácil e alheio. Joanas que amem e se deixem amar, mesmo que loucamente, mas que jamais dividam o leito com a falta de ética e a desonestidade. Mulheres capazes de embriagarem pela beleza e inteligência, mas avessas à bebida compartilhada com aqueles que enganam e ludibriam o povo. Cachoeirinha precisa de Joanas. A cidade carece de mulheres dispostas à luta e que não prescindam do brilho e da beleza das rosas.  

JUVENTUDE: SUBVERSÃO OU ALIENAÇÃO?

JUVENTUDE: SUBVERSÃO OU ALIENAÇÃO?
Gilvan
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            “Geração perdida”, “analfabetos políticos”, “desregrados”... Além deles, muitos são os termos e expressões usados na caracterização de nossa juventude. Cachoeirinha conta hoje com uma população superior a 110 mil habitantes, sendo que destes, quase 18 mil são jovens entre dezesseis e vinte e quatro anos. Aplicar-lhes os “adjetivos” acima em nada ajuda na construção de uma cidade mais cidadã e humana. Ao contrário, acaba por reforçar alguns estereótipos e preconceitos que sedimentam a não-participação, o ostracismo e a alienação. Quem ganha com isso? Deliciam-se aqueles que tendem à manutenção de um status quo que, historicamente, privilegia alguns poucos em detrimento da maioria. Assim, o clientelismo político pautado em práticas políticas espúrias segue mantendo e fortalecendo relações de cabresto, em flagrante prejuízo do verdadeiro exercício da cidadania. Cachoeirinha precisa, isto sim, constituir-se em município promotor da inclusão social, onde nossos jovens sejam, de fato, ouvidos e, mais do que isso, contribuam de forma ativa e propositiva na construção de um espaço menos injusto, mais seguro e acolhedor. Deseja-se uma cidade que tenha como norte um ensino de qualidade, onde as potencialidades de nossa juventude deixem de ser apenas um eterno “devir” – que jamais chega –, passando à categoria de verdadeira práxis transformadora, capaz de subverter as pérfidas estruturas que alijam a esmagadora maioria de nossa gente. Cachoeirinha necessita gerar trabalho e renda, também, para os de tenra idade. Nosso município precisa criar espaços lúdicos, onde o lazer seja uma prática constante, não um luxo para alguns poucos. Urge multiplicar oportunidades como forma de superação da marginalidade e da violência juvenil. Os espaços públicos devem ser campo fértil para o fazer criativo e desenvolvimento de uma cultura voltada à paz. Sejam bem-vindos jovens de todos os matizes, origens, crenças, etnias, posições ideológicas. Construamos uma cidade onde, ao invés da desesperança, frutifique a utopia, onde as rosas encham não apenas o imaginário, mas cada jardim e cada praça, fazendo crer que o belo ainda é possível. 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ROSAS: ESPINHOS QUE ENSINAM

ROSAS: ESPINHOS QUE ENSINAM
Gilvan
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Quem já não cravou um espinho no dedo? Dói, não há como negar. Espinho de uma rosa, então...  A dor nasce não apenas da carne ferida, mas talvez da inegável decepção de ver tão bela e romanceada flor ferir a mão de quem a plantou, cuidou e regou. Passado o susto, logo se vê que aparente traição nada mais é do que ensinamento para a vida. Nem poderia ser diferente. A natureza da rosa é eterna. Apesar dos espinhos, não é ela quem fere. Somos nós, pobres mortais, que nos deixamos ferir, mesmo que inconscientemente. Alguns chamam de destino tal sina. Os espinhos da rosa têm enorme e especial jeito de ensinar. Ensinam que o amor é sempre belo, apesar de – às vezes – amargo e sofrido. Amor nem sempre se confunde com prazer. O desconforto é, por vezes, necessário. O amor exige, não muito raro, abnegação, renúncia, arrependimento. Requer um “voltar atrás” de vez em quando. Amar é falar a verdade, mesmo que para tanto se corra o risco de arrefecer a relação. Esta, quando sólida, como rocha, aguenta até mesmo as mais duras intempéries. Eventuais abalos, muito antes de revelarem fraqueza, denotam força, revelam confiança e só reforçam a certeza de que se está em porto seguro. A rosa, com seus espinhos, revela nossa natureza, humana. Revela, ainda, nossos paradoxos, fraquezas, ambiguidades e incertezas. A dor que nasce dos espinhos, por mais lancinante que para alguns possa parecer, é como que “dor de crescimento”. Não fosse ela, os dias, os aprendizados... tudo, absolutamente tudo, passaria despercebido. Seríamos eternamente ingênuos, nanicos do ponto de vista ético e espiritual. Precisamos dos espinhos da rosa. Cachoeirinha necessita semear flores que motivem crianças, jovens, adultos e idosos a construírem sonhos. Hoje, de areia quem sabe. Amanhã, talvez, sonhos que se transformem em novas verdades. Não certezas do tipo totalitário, mas relativas. Não verdades que, como ervas daninhas, sufocam as demais. Mas convicções que fomentem o embate de ideias e instiguem a tomada de decisões que sejam, de fato, coletivas. Deseja-se que os espinhos despertem para a vida, desacomodem, subvertam. Espera-se que, ao final, seja a rosa lembrada pelo aroma que exala e, sobretudo, pelos espinhos que ensinam.
                 

segunda-feira, 26 de março de 2012

A SAÚDE NO(DO) BRASIL

A SAÚDE NO(DO) BRASIL
Gilvan
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Historicamente, o Brasil está em dívida com a saúde da população. Esta última segue esquecida, aguardando meses a fio por um exame ou cirurgia. As filas só são menores do que a paciência de nosso povo que, como anestesiado, aguarda sua vez de ser atendido. Além de poucos comparado à demanda, muitos profissionais da saúde deixam a desejar quanto à qualidade do serviço prestado. Seja pela parca remuneração, seja pela jornada de trabalho extenuante, seja ainda pela incompetência, o fato é que não são poucas as reclamações de pacientes em relação ao atendimento que lhes é dispensado. Os recursos públicos, garantidos pela legislação, ao que parece, não chegam onde deveriam chegar. O que sobra em desvios, malversação, negligência e corrupção, falta em investimentos. Daí, em parte, a falta de leitos, os prédios hospitalares úmidos, sujos e mal equipados. Pela sarjeta escorrem verbas, assim como a dignidade dos brasileiros, em especial os mais humildes. Enquanto isso, o Poder Público segue omisso, como paspalho, enquanto um punhado de gatunos enriquece sob a sombra de um Judiciário afundado em meio a longos e infindáveis processos a denunciarem elevado grau de incompetência, ineficiência e ineficácia. O tempo, em tais casos, joga a favor dos corruptos e em desfavor da ética. Enquanto isso, corpos se acumulam nos necrotérios. Famílias perdem seus entes queridos. Mais parece uma guerra. É uma guerra. Vitima a sociedade por inteiro. Cria uma triste ciranda, onde a morte é dada como certa. Uma roleta russa sustentada por um Estado sem crédito.

                A Campanha da Fraternidade de 2012 traz como temática a questão da saúde. Impele à reflexão e à discussão. Tomara que, também, à ação concreta por parte da sociedade civil organizada e do Poder Público, por exemplo. A saúde precisa deixar de ser apenas um discurso eleitoreiro. Em jogo, a vida de crianças, idosos, doentes de todas as idades. Milhões de brasileiros aguardam o dia em que neste país, a vida seja de fato respeitada, valorizada e protegida.

quinta-feira, 22 de março de 2012

INCLUSÃO: UM MUNDO PERFEITO

INCLUSÃO: UM MUNDO PERFEITO
Gilvan
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                Mal o sol firmara no horizonte, as crianças iam chegando. Aos pingados, sem pressa, pois que esta é coisa de gente grande. Os adultos é que correm contra os ponteiros do relógio. O frenesi, definitivamente, passa de largo do mundo infantil. Mochilas de todos os tamanhos e cores. Feito balões, algumas delas como que flutuavam apoiadas às costas dos pequerruchos. Uma que outra criança parecia ainda não ter despertado, ao menos é o que denunciavam os olhinhos pequenos e o andar cambaleante.  A maioria delas acompanhada por um adulto. Talvez pai ou mãe. Mais provável que avós, pois que corujas. A mão calejada a segurar aquela mãozinha frágil. Como farol, o mais velho indicava o caminho. Este conduzia sempre à sala de                    aula. A professora, de braços abertos, recepcionava a todos com um largo sorriso. Largo e sincero. Os pupilos eram-lhe caros, feito joias. Verdadeiros diamantes a serem lapidados. Feito oleiro, caberia à professora a nobre e sagrada tarefa de “moldar” aqueles pequenos nacos de barro. Ajeita daqui, arruma dali, aumenta acolá. Já antevia a educadora que por mais simples que fosse, a obra era “prima”. Não dera cinco minutos e lá estavam todos eles. Sentados em forma de círculo, pacientemente aguardavam as orientações da “prô”. Os pequenos mais pareciam capricho da natureza. Pareciam em sintonia com o próprio ambiente da sala. Esta era um espaço amplo, asseado, bem arejado. Do lado de fora ainda se ouvia o cantar matinal dos canários, sabiás e bem-te-vis. Ah, tinha ainda o canto estridente e imperioso do Zé, o velho galo tão conhecido da piazada. Nas molduras de madeira, que atravessavam cada parede de lado a lado, caíam pendurados por prendedores lindamente enfeitados, trabalhinhos e mais trabalhinhos. Como troféus, eram expostos devidamente identificados. Dos doze pimpolhos, dois eram “especiais”. Fosse há alguns anos, estariam confinados numa escola dita “especial”, tais como o eram os manicômios e leprosários. Lugares de gente “desajeitada”. Lá ficariam anos a fio, talvez a vida toda, sob o olhar indiferente dos “de fora”. Quando muito um presentinho aqui ou um mimo acolá a coincidir com datas comemorativas. Espécie de esparadrapo na consciência. Um álibi para empanturrar o estômago com os comes da ceia de Natal. Agora não. Os tempos eram outros. Graças à Lei, honrosa e poderosa. Depois d’Ela nunca mais a escola foi a mesma. Bem-aventurados aqueles que a fizeram. Probos e éticos. Sábios e humanos. Legisladores de verdade. Quase santos. Não fosse o paletó e a gravata perfeitamente alinhados, diriam tratar-se de anjos. Como livro sagrado, a Lei já há algum tempo ocupava gabinetes e salas de professores. As crianças, principalmente elas, recitavam a Lei feito um mantra. Duvidassem, sabiam de cor e salteado. Verdadeiro verbo capaz de dar vida às coisas. Capaz de fazer nascer do nada, sonhos outrora sequer imaginados. O poder da palavra. Dizia a Lei? Pronto! Mandava, não pedia. Determinava que todos os alunos seriam inclusos: coxos, cegos, surdos, mudos. Fosse baixo, médio ou grande o comprometimento motor ou cerebral. Não importava. A Lei trazia a solução. Mágica, instantânea, automática. Feito Deus no Éden, a Lei dizia: “haja luz” e logo a escuridão, a falta de recursos, a desmotivação, os parcos e humilhantes salários dos professores, o número excessivo de alunos nas salas, a incompetência do gestor público, a apatia e omissão da família, enfim, tudo se resolvia. Não por acaso, a Lei passara a ser venerada. Ai de quem dela duvidasse. Não restaria outro lugar que não o Tribunal ou, o que para alguns parecia pior, o “convite” compulsório para migrar, feito desgarrado, para outra Secretaria. Nem poderia ser diferente. Afinal, por que alguém em sã consciência se rebelaria contra Aquela que trouxe nova vida e esperança às crianças? Ao longe, o Zé cantava, como se fosse seu último e derradeiro canto. 

sábado, 17 de março de 2012

ROSAS E DANINHAS

ROSAS E DANINHAS
Gilvan




Flores existem de todas as espécies. Grandes e pequenas, cheirosas e “neutras”, com ou sem espinhos, resistentes ou avessas à água, coloridas ou não. Enfim, uma infinidade de espécies. Contudo, no reino delas, algumas têm história, são ou merecedoras de honrarias ou, ao contrário, preteridas pelo mal que causam. Assim são as rosas e as daninhas. Enquanto as primeiras viram letra de músicas e cantigas, as últimas sequer são mencionadas ou lembradas nas rodas infantis. Rosas são poéticas, daninhas são danosas. Os espinhos das rosas, para o desespero dos que dela sentem ciúmes, mais do que ferirem, dão-lhe verdadeiro charme. As daninhas, apesar de espinhos não possuírem, matam e sufocam. As rosas sequer precisam de invólucro, pois a beleza lhe é inata. As daninhas, por sua vez, por mais que tentem se parecer com rosas, jamais terão seu perfume e sua beleza. As rosas desabrocham e murcham no tempo certo, naturalmente. As daninhas sequer o tempo conhecem, pois como sanguessugas e vampiros extraem a vitalidade alheia. Assim, o tempo que vivem não lhes pertence. Mais cedo ou mais tarde, vem o ceifeiro e limpa o terreno. Só ficam as rosas...

Este ano, sabe-se, é ano de eleição. Com ela, muitos desafios. O primeiro é convencer os eleitores de que a participação política – que não deveria se resumir ao simples depósito do voto na urna – é vital para que venhamos corrigir as distorções, erros e injustiças que nascem, também, do pérfido e mal cheiroso “sistema” político-partidário brasileiro. Um sistema corrompido, não confiável e confuso. Um sistema que perpetua as nefastas práticas de apadrinhamento, de compra de votos, de promessas voltadas ao benefício de poucos que, logo adiante, só fazem inchar de Cargos em Comissão (CCs) e Funções Gratificadas (FGs) os gabinetes e secretarias. Poucos ganham, quase todos perdem. Perde a coletividade. 2012 é um ano para, novamente, optarmos. Qual é o tipo de cidade que desejamos? Qual é o perfil de parlamentar que queremos? Legisladores boçais, ignorantes, brucutus? Vereadores jurássicos que se perpetuam na Câmara pautados em práticas coronelistas típicas da República Velha? Cachoeirinha precisa respirar novos ares. O Município necessita de representantes capazes de auscultarem os verdadeiros anseios e carências nascidas junto à comunidade. Precisa de homens e mulheres verdadeiramente comprometidos com a ética, com a justiça, com a seriedade em relação à coisa pública.

Neste ano, elejamos rosas e não daninhas. Destas últimas, os homens e mulheres de boa-vontade estão saturados e cansados. Já não mais acreditam em seus propósitos e sua lábia. Por mais que se maquiem, se transformem ou se vistam, serão sempre daninhas. Jamais terão o perfume, a beleza e o esplendor das rosas...

segunda-feira, 12 de março de 2012

FILHOS MIMADOS

FILHOS MIMADOS
Gilvan Teixeira


            Como pequenos (às vezes, não tão pequenos assim...) reis, eles dão as cartas do jogo. Dizem, melhor, determinam o que os pais devem ou não fazer. Quero isso, quero aquilo. É pedir e pronto! Lá estão os pais fazendo-lhes a vontade. Portam-se não como filhos, mas como ditadores. Usam o choro, a ameaça e até mesmo o famoso “beicinho” para alcançarem o que desejam. Aprisionam os genitores fazendo destes não apenas servos, mas escravos de seus desejos. Usurpam o direito natural, divino e jurídico da autoridade paterna. Fazem de seus caprichos uma máxima. Invertem a lógica da verticalidade e da hierarquia, ambas indispensáveis à organização social. É bem verdade que não são todos, quiçá até uma minoria. Ainda assim, um grupo que traz sérios e imensuráveis prejuízos à sociedade. Fazem mal a eles, às famílias, à escola, à sociedade como um todo. São os “sem-limite” de amanhã. O preço é, por certo, altíssimo. Precisam do freio. Os pais o dão ou alguém o fará. A escola, a polícia, o juiz... Parecem acreditar que o mundo gira ao redor do umbigo. Ideia não apenas medieval, mas perniciosa. Chantageiam com o único intuito de conseguirem para si aquilo que desejam, mesmo que algo fútil e superficial. Como débeis, olvidam e transgridem as mais elementares regras de convívio social. Tudo sob a complacência, conivência dos ditos (ir)responsáveis legais. Nefasta e terrível condescendência. Para justificá-la, inúmeros e conhecidos são os jargões e argumentos: hiperatividade, bipolaridade, ansiedade, imaturidade (mesmo que cronologicamente, alguns desses filhos já tenham idade para procriar...). Outra estratégia, não menos incomum, é transferir para outrem a responsabilidade. A culpa é dos colegas, professores, amigos, vizinhos... Quando a explicação não é mais elaborada: coisas da pós-modernidade, dos tempos líquidos... Explicações que nada mais fazem do que tentar mascarar o cerne do problema. São falsas “saídas” que, apesar de toda perfumaria utilizada, não disfarçam o fétido cheiro da incapacidade e incompetência paternas (leia-se, também, maternas). Apesar de ululantes, são problemas e fracassos familiares mal resolvidos. Ajuda externa é, às vezes, bem-vinda e necessária. Porém insuficiente. Urge, primeiro, admitir e reconhecer o problema. Segundo, estar disposto a revertê-lo, mesmo que para tanto se tenha que lutar contra o reinado dos filhos mimados.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A COSTELA

A COSTELA
Gilvan



            Um amigo meu, certa feita, disse que a cada oito de março doía-lhe a “costela”. Posto de lado a crença na história bíblica, o fato é que o referido dia é um momento, mais um, de reflexão acerca do que as mulheres representam na nossa vida. Mais do que boas donas-de-casa, excelentes amantes e mães corujas, elas têm sido insuperáveis no exercício laboral, na defesa da ética e, acreditam alguns, no uso do cartão de crédito. Maldade, por certo. Afinal, mesmo que às vezes, só às vezes, eventualmente, excepcionalmente, elas abusem e se deixem seduzir pelos holofotes do mercado, o fato é que são de todo merecedoras. Lá em casa elas são em número de três. Uma tríade de causar inveja. A primeira, mulher já feita, madura. Outra, adolescente, com seus picos de humor. A mais nova, criança ainda, a irradiar energia. Tem ainda a Dona Geci, a primeira mulher da minha vida. Além delas, têm a “mana”, as tias, cunhadas, primas, sobrinhas... Ah, tem a sogra (como esquecer dela?). As colegas de trabalho (há muito, esmagadora maioria), as alunas e suas mães. Mulheres por todo o lado, de todos os tipos. Gordinhas e magrinhas; loiras, morenas e negras; altas e baixas; falantes e introspectivas; estudiosas ou não; engajadas politicamente ou avessas às discussões conjunturais; esportistas ou sedentárias... Enfim, uma miríade de mulheres. Um plural de singularidades. Cada qual um ser único, inigualável. Elas são inconfundíveis, porém mestras em nos confundir, pobres homens. Quem entende as mulheres? O universo feminino parece indecifrável, perturbador. Elas assombram. Com ou sem sombra nos olhos, como sombra assombram, seja pela aparente onipresença, seja pela perspicácia entranhada nas veias. Deixam-nos tontos. Ao contrário de nós, elas dão conta de tudo e, o que é mais incrível, ao mesmo tempo. Multiplicam braços, pernas e olhos. Elas encantam, cantam e plantam. Duvidar, fazem até plantão. Zelam pelos seus e pelos meus. Como leoas, brigam pelos filhos. É bem-verdade que, para nosso desespero, não raras vezes brigam com os pais dos filhos. Brigam, mas brilham. Apesar das rusgas e dos verbetes espinhosos, as mulheres – no fundo – são doces. Deliciam e se deixam deliciar. A vocês, especialmente as mulheres da minha vida, resta humildemente dizer: PARABÉNS!


08 de março de 2012