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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

SILENCIADA

 Silenciada

Thaíse Stecker Andrade

Não faz muito, a situação de uma jovem chamou atenção, tendo ficado conhecido como “caso Mariana Ferrer”. Com esse caso, percebemos que vivemos em uma sociedade que sofre com a falta de empatia, de respeito e de amor. Ela foi calada, censurada e desrespeitada por pessoas. Sim, pessoas como nós, mas que não sentem empatia pelos outros. Essas pessoas, mesmo que em pequena quantidade, conseguem destruir a vida de uma pessoa, como a de Mariana. Uma dessas pessoas tentou abafar a voz de Mariana,  mas não conseguiu e nunca conseguirá, pois, mesmo existindo pessoas vazias que tentam calar as outras, ainda existem as que não se deixarão calar, e essas irão ajudar os outros a levantarem a sua voz. Com o simples ato de se colocar no lugar de uma pessoa calada, podemos ajudá-la a ter voz na sociedade que silencia os que mais precisam ser escutados. Coloque-se no lugar dos outros, tente sentir o que eles sentem, e o mais importante, grite por eles.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

ALGODÃO ENTRE CRISTAIS

 

ALGODÃO ENTRE CRISTAIS

Prof. Gilvan Teixeira

e-mail: profpreto@gmail.com

blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A frase do Ministro Marco Aurélio Mello, do STF, quando da discussão acerca de sua decisão irresponsável, que levou à soltura de um grande traficante, é emblemática. Dirigindo-se ao Presidente da Corte, disse que o mesmo deveria ser como “algodão entre cristais”. Como devemos interpretar a fala do Ministro (com letra maiúscula, para não ofendê-lo...)? Corporativista, arrogante, presunçosa... O certo é que o “ato falho” deixa às claras como ele – assim como a maioria de seus pares – se vê. A postura do Excelentíssimo Ministro é da mesma linhagem do “você sabe com quem está falando?” (DaMatta), típica de um país ainda preso a um passado colonial e escravista, onde a vez e a voz pertenciam (passado?) aos coronéis. Curiosamente, foi o Digníssimo Ministro indicado pelo primo, sabidamente um descendente dos coronéis de Alagoas. Com a devida vênia, quiçá, pura “coincidência”.  A Suprema Corte, que deveria reunir o que há de melhor e mais competente na carreira da magistratura, é a cara de um Brasil ainda oligárquico, onde uma ínfima minoria goza de privilégios – ainda que sob a roupagem de legalidade (quem faz as leis?) – sustentados por uma maioria que há muito vegeta na penúria, na falta de oportunidades, na omissão criminosa de um Estado mastodôntico e ineficiente. Para que os “cristais” e “algodões” (farinha do mesmo saco, pois fosse no universo da periferia tal conluio seria tipificado como “organização criminosa”) existam, há que se ter, no mínimo, quem os reconheça como tais, que os valorize como tais. Que sociedade é esta onde os “cristais” valem mais do que aqueles que os pagam? Não terá passado da hora de colocarmos os “pingos nos is”, os “bois na frente da carreta” e os “cristais” em seu devido lugar? Dizem que uma omelete só faz quebrando os ovos. Não será o momento de quebrarmos os “cristais” para que entendam a quem, de fato, pertencem? O escárnio nascido no pomposo Plenário da Suprema Corte não surpreende, mas apenas revela o quanto estamos distantes do verdadeiro sentido do que seja um “servidor público”. Como bem lembra Cortella, “um poder que se serve, em vez de servir, é um poder que não serve”. A presente Corte não serve, pois que fruto de indicações políticas e descompassada com os novos tempos. Um STF incapaz de compreender o real sentido e utilidade do garantismo, cego pelo brilho dos “cristais” como se estes últimos fossem um fim em si mesmos. Uma Corte mais preocupada com as ignóbeis vaidades pessoais (e dos grupos aos quais representam) e perdida em verborreias jurídicas vazias (a palavra é poder) do que com a aplicação da justiça. Seja o Supremo o farol último do bom Direito e não o covil daqueles que buscam a impunidade. Torço pelo dia em que os verdadeiros “cristais” ocupem as confortáveis cadeiras da Corte, refletindo não o brilho de egos, mas de um povo sadio, próspero, feliz e confiante em suas instituições.

PROFESSOR

 

PROFESSOR

Prof. Gilvan Teixeira

e-mail: profpreto@gmail.com

blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

  

            Ser professor neste país é, por um lado, algo inglório. Uma profissão marcada por incontáveis e complexos problemas. Escolas precarizadas, péssimas condições de trabalho, indisciplina escolar, descompromisso das famílias, salários vexatórios, falta de reconhecimento social (discurso não é suficiente…), políticas públicas equivocadas ou inexistentes, sindicatos fragilizados pelos mesmos vícios que alegam combater… Enfim, um infindável rol de intempéries e dissabores. Como nada é tão ruim que não possa piorar, a pandemia agravou – ainda mais – o quadro. Por outro lado, ser professor é extraordinariamente maravilhoso… Há cerca de vinte e oito anos (com um pé na aposentadoria…) leciono, seja em escolas privadas (desde 1992), ou públicas (a partir de 1994), sempre com uma jornada de trabalho extenuante, como forma de garantir uma renda minimamente suficiente para garantir à família (sim, professor tem família!) algum conforto, ainda que singelo. Durante todo esse tempo, passaram por este velho professor milhares de alunos e alunas, incontáveis pais, muitos colegas de profissão… Sem dúvida, as boas lembranças superam, de longe, as más. Muito mais aprendi do que ensinei. Aprendi que não se faz boa educação sem formação de vínculos, estes imprescindíveis no processo ensino-aprendizagem. Quantas relações firmadas e assentadas no afeto, no respeito, na cobrança (quem ama, exige…), na partilha. Quantos homens e mulheres forjados no ambiente da escola. Feito estrelas, estão por aí, brilhando como acadêmicos, pais, profissionais de toda ordem. Espero que, acima de tudo, brilhando como cidadãos questionadores sobre si mesmos e sobre o mundo confuso e turbulento que os (nos) rodeia. Ser professor é teimar em acreditar na possibilidade de mudarmos o status quo perverso que alija a maior parte de nossa gente. É crer no poder da educação como ferramenta de transformação social e subversão de uma (des)“ordem” que aliena, cria e reforça a desigualdade entre as pessoas. É debater-se contra um Estado que, historicamente, anda de mãos dadas com uma elite boçal, atrasada e acostumada a fazer do bem público algo privado. É tensionar as famílias a assumirem seu compromisso como principais responsáveis pela formação ética do sujeito. Parafraseando um célebre escritor, o professor é, antes de tudo, um forte! Mais do que isso, é um “norte” em meio ao encapelado mar, onde as enormes ondas da desesperança, da indiferença, do preconceito, do autoritarismo – ainda que sob uma roupagem de democracia – se lançam contra a poesia que nasce do coração daqueles que creem e lutam por dias menos sombrios. Um abraço no coração de todos meus alunos e ex-alunos, e em especial no de meus colegas de profissão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

A LÁPIDE

 

A LÁPIDE

Prof. Gilvan Teixeira

e-mail: profpreto@gmail.com

blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


Não se faz mais lápide como antigamente… Os mais jovens sequer sabem do que se trata. A lápide moderna, se presente, quando muito traz os limites cartoriais da vida: nascimento e morte. Não mais do que isso. Tamanha pobreza quiçá revelando uma vida banal, morna, sem instantes capazes de merecerem um texto, uma frase ou mesmo uma singela palavra. Revela, talvez, a incapacidade de quem fica em reconhecer, por meio de palavras póstumas, os valores e atributos de quem partiu. Mesmo quando talhados, os adjetivos sobre a lápide soam frios como a própria pedra, frieza esta ou produto da simbiose entre as letras e a tábula mortuária, ou fruto da formalidade vazia de sentimento. Uma espécie de vale de ossos secos! Nada mais (in)apropriado para um cemitério… Sou daqueles que acreditam que a lápide deveria ser erigida em vida e para os vivos. São estes que sentem, veem, ouvem, cheiram, sorriem, choram… São estes que, por meio da palavra, do afeto, da acolhida e do reconhecimento podemos salvar das tristes garras da dolorosa depressão. São estes que, por meio da palavra (ela tem poder!), podemos abençoar, animar, fortalecer, elogiar… São estes, que por meio da palavra, podemos transformar (e nos transformar!), apontar novos caminhos, construir as pontes que ligam os sonhos à realidade. A palavra é tudo! Ela constrói e destrói, faz brotar e aniquila, eleva e sepulta… Portanto, precisa ser garimpada, cuidadosamente selecionada, dado o valor e importância que tem. Deve coroar vidas e abrilhantar relacionamentos, muito mais do que – feito vasos de flores mortas – dormir esquecida sobre a pedra fria de uma lápide.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

DIA DO VEREADOR

 

DIA DO VEREADOR

Prof. Gilvan Andrade Teixeira

e-mail: profpreto@gmail.com

blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

 

            Dia 01 de outubro! Alguém sabia tratar-se do Dia do Vereador?  Não, provavelmente! Afinal, que espécie é essa? Quase sempre um misto de sanguessuga, fantasma e porco. Sanguessuga porque exaure boa parte dos recursos públicos, sem – nem de perto – fazer a contraprestação daquilo que recebe. Geralmente ganha mais (muito mais…) do que professores, policiais e profissionais da saúde, por exemplo, em que pese – muito comumente – ser boçal e pouco dado ao trabalho. Apesar de bizarro, dá um braço (não o dele, mas o de outrem) para aparecer na foto. Costuma sair da toca de quatro em quatro anos, em busca do voto do eleitor, quase sempre um incauto analfabeto político, destituído de memória e alijado da verdadeira cidadania. Daí o Vereador parecer, também, fantasma. Vez por outra, abandona seu túmulo (opa, gabinete!) na busca desesperada do famigerado “apoio popular”, pois que é a seiva que o alimenta. Para isso, conta com um séquito de CCs a dividirem o tempo entre bajulações – indispensáveis para manutenção dos cargos – e a estúpida sacudidela das bandeiras em período de campanha. Este, por sinal, é um dos raros momentos em que, feito porco, a dita espécie abandona a pocilga e vai para a rua. Veste-se como povo, fala como povo, comporta-se como povo, mas cheira a porco. É titubear, lá está ele a emporcalhar-se com seus velhos hábitos do chiqueiro. Sobra discurso e falta ação. Sobram alianças espúrias e falta coerência. Ontem advogava para a raposa, hoje veste pele de cordeiro. Passou da hora de fazermos da Câmara a “casa do povo”, de todo o povo, não desta ou daquela família (algumas delas, feito baratas, a ocuparem postos estratégicos em todos os cantos e frestas do Poder Público). Passou da hora de termos na Câmara homens e mulheres comprometidos com as demandas sociais. Representantes que honrem o voto recebido e sejam porta-vozes dos segmentos que os elegeram. Passou da hora de repensarmos o número de vereadores, a quantidade de recursos públicos a eles destinados, os salários a eles pagos. Façamos do voto uma poderosa ferramenta de mudança. Expurguemos da vida pública as sanguessugas, os fantasmas e os porcos, ainda que mimetizadas em forma de “pessoas de bem”. Faça da urna a pira da mudança, onde sejam queimadas todas aquelas práticas condenáveis que têm, ao longo da história, trazido tanta dor e desesperança. Por meio de teu voto, qualifique o Legislativo. A escolha de um nome para vereança é tão livre quanto séria, repercutindo diretamente sobre tua vida, o bem-estar de quem amas e sobre o futuro de tua cidade. Passado o pleito, vem o mais difícil: acompanhar de perto o trabalho não apenas de quem escolheste para te representar, mas de todos os vereadores. A Câmara, meus amados, é a TUA casa. Portanto, cuide dela e a mantenha limpa das “infestações”. Exija de teu candidato e, quem sabe, futuro vereador, coerência, ética, competência, honestidade, compromisso com o bem público... Vale lembrar que a democracia não é algo dado, mas construído. O que semeares hoje, por certo, colherás amanhã. Deposite na urna boas sementes, donde nasçam ROSAS e não sanguessugas, fantasmas ou porcos...

 

 

 

domingo, 3 de maio de 2020

ALGUMAS AULAS DO PROFESSOR GILVAN (UNIVERSITÁRIO 2020)

Sociologia- Estratificação e desigualdade social

Filosofia - Tecnologia e sociedade

Sociologia - Tempo, capital e trabalho. 

Filosofia - O ser humano como ser racional

Filosofia - O ser humano como indivíduo e ser social 

Sociologia- Estratificação e desigualdade social (2)

Filosofia - A Filosofia e a morte

Filosofia - Ética e moral

Sociologia - Globalização

Filosofia - Os direitos humanos e sociais

Sociologia - Estratificação e desigualdade social (1)
https://www.facebook.com/groups/528911347980546/permalink/580496162822064/

segunda-feira, 30 de março de 2020

COVID-19, O MAIOR INIMIGO?


COVID-19, O MAIOR INIMIGO?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                A pandemia associada à Covid-19 é, por certo, algo muito sério. Até mesmo as previsões mais otimistas – trabalho aqui somente com aquelas fundamentadas em pesquisas científicas (quanto às demais, são desprezíveis...) – trazem muita preocupação, em especial em se tratando de países subdesenvolvidos como o nosso. O impacto sobre o sistema de saúde tende a ser desastroso, comprometendo ainda mais os já precarizados serviços prestados à maioria da população. Não menos terríveis são e serão as consequências econômicas advindas da quase total paralisação da indústria, comércio e serviços, por exemplo, levando à quebradeira das empresas (a maioria, pequenas e médias) e aumentando o número de desempregados, alargando, sobremaneira, o fosso da ignóbil desigualdade social. Caminha-se, perigosamente, em direção ao caos social, aguçado pela raivosa e insana polarização político-ideológica que busca simplória e irresponsavelmente dividir o país em “gremistas” e “colorados”, “ximangos” e “maragatos”. Na prática, acabam por prestar um grande desserviço à sociedade, ainda mais diante do triste quadro hoje existente. Não menos criminosa é a busca de alguns grupos em obter dividendos eleitorais frente à crise, demonstrando de forma clara e inequívoca o descompromisso com nossa gente. Parecem não perceber que o momento exige união de todas as forças políticas, partidárias, sindicais, organizacionais, estatais, etc. objetivando planejamento, execução e avaliação conjuntas, de forma a mitigar ao máximo os danos trazidos pela pandemia. Não surpreende, contudo, a postura de boa parte da dita classe política brasileira, postura esta marcada pela imbecilidade e clientelismo. Vive-se num arremedo de República, onde os Poderes batem cabeça, embriagados que estão por interesses espúrios, onde “público” e “privado” se misturam em prol de alguns poucos, enquanto a maioria segue à margem dos direitos consagrados na Constituição. Mudou-se a forma de governo, da Monarquia para a República, mas a perversa lógica permanece. Executivo, Legislativo e Judiciário seguem, salvo raras e honrosas exceções, dissociados do verdadeiro espírito público, mais parecendo feudos loteados pelos “amigos do rei”. Quantos brasileiros perderam a vida nos últimos doze meses em decorrência da subnutrição, falta de exames preventivos, escassez de medicamentos, violência urbana, precariedade no saneamento básico, etc.? Quantos brasileiros perderam a esperança devido à falta de oportunidades, falta de celeridade da Justiça, inexistência ou insuficiência de políticas públicas voltadas à geração de renda, etc.? Quantos brasileiros seguem à margem de serviços públicos de qualidade na saúde, educação, segurança, etc.? Não tenho dúvidas de que o mal trazido pela Covid-19 é grave, mas infinitamente menos impactante do que o profundo e vergonhoso descaso do Estado e de seus agentes, em especial daqueles que sob seus ternos e togas se locupletam com dinheiro público, em prejuízo do país como um todo. Espero que a pandemia passe, mas que também “passe” o lacaio promíscuo que trai a ética, a verdade, a honestidade e a hombridade. Lutemos e sepultemos o mal, seja ele em forma de vírus, seja em forma de homem...

sexta-feira, 20 de março de 2020

A EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA


A EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


            Momentos muito difíceis os que estamos vivendo. O mundo inteiro – inclusive aqueles países onde a pandemia do “novo coronavírus” (COVID-19) parece não ter atingido de forma mais intensa – vem sendo fortemente atingido, colapsando as estruturas, principalmente, sociais e econômicas. No Brasil, neste momento (10h30min. do dia 19/03/2020) – nunca pensei que cada minuto fosse tão importante… - tudo aponta em direção ao crescimento exponencial no número de casos diagnosticados, trazendo profundas preocupações acerca da real capacidade do país em prestar a assistência necessária aos infectados, em especial aos pacientes mais graves. Todos os entes federados vêm tecendo uma série de iniciativas legais (Leis, Decretos, Portarias, etc.) voltadas ao regramento das pessoas físicas e jurídicas, objetivando mitigar os prováveis e sérios problemas advindos da pandemia. Dentre as iniciativas, as instituições de ensino (públicas e privadas) ou suspenderam por completo suas atividades ou, então, as mantiveram por meio de plataformas digitais. Diante disso, inúmeras têm sido as dúvidas quanto à possibilidade das escolas, de Educação Básica, ofertarem o ensino à distância como forma de contar para a carga horária mínima (dias letivos e horas-aula) prevista na legislação, em especial na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB – Lei Federal nº 9.394/96), evitando não apenas a recuperação da mesma, mas também a inevitável desorganização do calendário escolar deste e dos próximos anos. Primeiramente, vale lembrar que a pandemia insere-se nos casos de “força maior” e “caso fortuito” previstos no ordenamento jurídico brasileiro, portanto exigem tratamento diferenciado. Inexiste direito ou bem maior do que a vida, devendo o Estado buscar todos os meios para preservá-la. A pandemia é, indubitavelmente, uma situação excepcional e de enorme gravidade a exigir medidas de contingenciamento e reclusão (isolamento) de todos. A exigência, portanto, de cumprimento da carga horária (dias letivos e horas-aula) presencial deve ser, obrigatoriamente, flexibilizada, de forma a propiciar aos educandos que a cumpram à distância, ao menos em parte, ainda que eventualmente inexistam orientações emanadas dos órgãos responsáveis pelo assunto, como os Conselhos de Educação (Federal, Estaduais e Municipais). Nenhum documento normativo (leis, resoluções, regimentos escolares, etc.) pode ferir cláusulas que são pétreas de nossa Constituição, sendo a vida balizadora de todos eles. Ora, como não se pode comprometer a saúde (vida) do educando e, nem tampouco, seu direito à educação, resta claro que todos os esforços devem ser empregados para garantir ambos os direitos.

            A LDB, em seu Art. 4ºA, traz:
Art. 4º-A. É assegurado atendimento educacional, durante o período de internação[1], ao aluno da educação básica internado para tratamento de saúde em regime hospitalar ou domiciliar por tempo prolongado, conforme dispuser o Poder Público em regulamento, na esfera de sua competência federativa.
            Qual foi a intenção do legislador senão a de assegurar ao educando o direito a ter acesso à educação em situações de extrema necessidade, quando da impossibilidade do mesmo em deslocar-se até o estabelecimento de ensino? Vale lembrar que os estudos domiciliares têm caráter compensatório, ou seja, substituem a presença física do aluno em sala de aula e preenchem o requisito da carga horária mínima (dias letivos e horas-aula) a que tem direito. O raciocínio acima, se válido para casos pontuais (aluno em internação, para tratamento de saúde em regime, inclusive, domiciliar), por que não o seria para casos coletivos? O isolamento social ao qual foram todos os educandos brasileiros submetidos faz com que as aulas à distância sejam não apenas bem-vindas, mas estimuladas, pois que contribuem inegavelmente para prevenção necessária frente ao risco trazido pela pandemia.
            A LDB busca, sob todas as formas, garantir uma educação de qualidade, onde o acesso e permanência na escola sejam a tônica. Exatamente por isso, ela é flexível.
Art. 23. A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar.
[...]
§ 2º O calendário escolar deverá adequar-se às peculiaridades locais, inclusive climáticas e econômicas, a critério do respectivo sistema de ensino, sem com isso reduzir o número de horas letivas previsto nesta Lei.

            A mesma flexibilidade aplicável à forma de organização e ao calendário deve ser, também, aplicada ao uso do ensino à distância neste contexto a exigir medidas excepcionais. Deve restar claro que será preservado o número mínimo de horas letivas previsto na legislação, mas parte dessas horas se dará à distância, como ÚNICA forma de assegurar o direito do aluno ao acesso e permanência na escola, ainda que de maneira virtual. Infelizmente, muitas instituições de ensino, especialmente as públicas, não dispõem de estrutura (plataformas, por exemplo) para oferecer o ensino à distância. Ainda que tivessem, boa parte do público atendido (pessoas com baixo poder aquisitivo) não possui as ferramentas necessárias (celular, computador, sinal de internet, etc.) para levar a cabo a iniciativa, problemas estes que – em princípio – inviabilizam a oferta do ensino à distância. Além disso, existem as dificuldades que nascem da faixa etária dos educandos. Como, por exemplo, viabilizar o ensino à distância às crianças da Pré-Escola e Anos Iniciais do Fundamental uma vez que as mesmas não têm a autonomia necessária? Todavia, o que se defende aqui é o direito daquelas instituições de ensino que demonstram condições de oferecer o ensino à distância de o fazê-lo. Vejamos o que diz a LDB, em seu Art. 32, § 4o :
Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante:  
§ 4º O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino à distância utilizado como complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais.
           
            Alguma dúvida quanto à pandemia ser uma “situação emergencial”? Sendo o ensino à distância aplicável ao Fundamental, não o seria, também, para o Médio? Obviamente que sim, até porque nesta etapa da Educação Básica o grau de autonomia do educando é muito maior, o que viabiliza, ainda mais, o uso de plataformas digitais. Conclui-se, portanto, que – respeitadas as limitações de cada escola e de cada rede de ensino – o ensino à distância soa como a melhor (única) alternativa plausível e segura dentro deste contexto. Cabe aos órgãos competentes, em especial aos Conselhos de Educação, disciplinar e legitimar a iniciativa, pois que importante direito a ser assegurado ao educando.



[1]Todos os grifos são meus.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

OS TRÊS PATETAS


OS TRÊS PATETAS
Gilvan Teixeira
Blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


A comédia pastelão das décadas de 1960 e 70, quando eu ainda não passava de um guri, parece mais viva do que nunca. Menos engraçada, é claro, a versão tupiniquim criada na republiqueta verde-amarela não deixa de guardar algumas semelhanças com aquela encenada por Moe, Larry e Curly. As patetices destes últimos são um nada frente àquelas promovidas pelo Executivo, Legislativo e Judiciário de nosso vergonhoso país. A comicidade da arte pretérita dá lugar ao patético papel desempenhado por aqueles que, sob seus ternos e togas, não conseguem disfarçar o azedume que brota da ética putrefata e da arrogância abjeta. Batem cabeça os Patetas da República, fazendo lembrar baratas que, em fuga, esquivam-se da luz, pois que acostumadas aos ambientes escuros e fétidos dos porões das Câmaras, Assembleias, Prefeituras, Palácios e Tribunais de toda ordem. É falar em transparência, enlouquecem. É pensar em controle social, endoidecem. É cogitar em equidade, desfalecem. Não por acaso, o Brasil mais parece um enorme móvel tomado de cupins. Por fora, aparenta – por vezes – certa normalidade, não fossem os “farelos” em forma de violência urbana, escolas e hospitais sucateados, desemprego, desigualdade social, carga tributária insana, falta de saneamento básico, corrupção generalizada, precarização dos direitos trabalhistas e previdenciários, disseminação do ódio em relação às minorias… Farelos que vão sendo varridos para baixo do tapete, escondidos sob as cuecas, justificados por meio de sentenças, legitimados através de dispositivos legais, tornados palatáveis pela irracionalidade da propaganda. Enquanto isso, as estruturas da famigerada República e do falacioso Estado de Direito definham sob o ataque voraz das pragas. Quanta patetice! O equilíbrio sugerido por Montesquieu jamais existiu por estas bandas. Enquanto o país mais parece um ébrio a enrolar as pernas, pois que frágeis os membros que deveriam sustentá-lo, os Poderes batem cabeça. Fazem lembrar a Hidra de Lerna depois de uma grande “cheirada”. Falta um norte, sobra palermice. Quem sofre é a “plateia” que – a preço de ouro – , sentada sobre o piso frio e úmido, sustenta o bizarro espetáculo. No picadeiro, o que se vê são os Três Patetas num ridículo improviso, indiferentes à qualidade do espetáculo, confiantes talvez no conforto modorrento de seus cargos. Frases prontas, chavões e citações em latim tentam engambelar o espectador, que, a mexer-se no assento duro, já demonstra certa impaciência. Vez por outra, a velha e carcomida, mas ainda eficiente, política do “pão e circo” sofre algumas turbulências. Apela-se então para a “mudança”, pois que trata-se da melhor forma de deixar tudo como está. Os Patetas mudam uma fala aqui outra acolá, trocam seis por meia dúzia, invertem uma ou outra peça do baralho e pronto! Segue o espetáculo. À plateia, pode haver momento mais jocoso do que aquele em que os Patetas batem um no outro? É quando, então, o que era “público” torna-se “turba”, saindo em defesa deste ou daquele Pateta, na vã esperança de deixar a insignificância do anonimato para ser protagonista. Quem ri, agora, são os Patetas. Sim, riem de nós, de nossa imbecilidade e tendência a ver no algoz um amigo, ainda que Pateta.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

“ALUNO É PARÂMETRO DELE MESMO”


“ALUNO É PARÂMETRO DELE MESMO”
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

            “O aluno é parâmetro dele mesmo!”. Quem já não ouviu o chavão? A afirmação, revestida de uma aparente aura acadêmica, ao que tudo indica, diz quase nada. Afinal, o que é “parâmetro”? Conceitos acerca do vocábulo temos de sobra. Usemos, a título de exemplo, uma das definições trazidas pelo Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Segundo ele, “parâmetro é aquilo que serve de base ou norma para que se proceda à avaliação de qualidade ou quantidade”. Parâmetro pressupõe, portanto, aquilo já existente. Qual é o “parâmetro” que o aluno possui? Qual é a distância ou diferença entre o que ele hoje demonstra saber (habilidades e competências desenvolvidas) comparado ao que apresentava ao iniciar o bimestre, trimestre, semestre, ano ou algo parecido? Ao que tudo indica nem ele e nem tampouco o professor ou a escola sabem. Buscando, consciente ou inconscientemente, responder a tão complexo questionamento apela-se, no meio pedagógico, a teorias que nada mais são do que evasivas a revelarem o profundo desconhecimento quanto ao processo ensino-aprendizagem. Não apenas “desconhecimento”, mas, por vezes, despreparo, acomodação e até mesmo certa arrogância professoral na difícil tarefa de avaliar o educando. Talvez, ainda, temor em levar a fundo a avaliação em relação ao “outro”, afinal isso é também “avaliar-se”, debruçar-se sobre o próprio trabalho, correndo o risco de – muito provavelmente – precisar mexer no planejamento já amarelado pelo tempo, repensar a metodologia há anos adotada ou quebrar a cabeça na (re)montagem das velhas questões de prova. Tem sido comum, ainda, educadores/escolas propugnarem pela máxima de que “os aspectos qualitativos devem prevalecer sobre os quantitativos”, fazendo uma interpretação equivocada, senão bizarra, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A Lei Federal no 9.394/96 traz:
Art. 24. A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras comuns:
[...]
V - a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:
a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais;
[...]
e) obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao período letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas instituições de ensino em seus regimentos;
[...]

            Muitas escolas/professores traduzem os “aspectos qualitativos” como estando relacionados à postura do educando frente aos componentes curriculares, dando ao aluno uma “nota” (ou equivalente) pelo comportamento, organização, pontualidade, respeito às regras da escola, entrega de trabalhos, etc.. Ledo engano daqueles que assim procedem, pois os referidos atributos não passam de mera obrigação (inclusive contratual) do discente, não guardando relação direta com o “rendimento escolar”, este sim objeto do Artigo supra. O que se vê, na prática, é um preocupante processo de “idiotização” do aluno, onde – ao contrário do que se deveria esperar (até pelo enorme custo que representa a escola, pública ou não) – é notória uma “involução”, retirando dele o pouco que lhe resta da infância, como a curiosidade e o prazer pela aprendizagem. Conseguimos tornar a escola algo pior e mais cruel do que a caixa de Pandora, deixando esvair a própria esperança e empurrando o mancebo, cada vez mais, para o fundo escuro e distorcido da caverna. Como forma de mascarar tamanho fracasso, não são poucas as instituições que criam e multiplicam “instrumentos avaliativos” (provinhas, trabalhinhos, recuperação, “recuperação da recuperação”...) que mal conseguem disfarçar o cheiro fétido que brota da ignorância. O resultado não poderia ser pior: alunos chegando ao término dos Ensinos Fundamental e Médio sem os requisitos mínimos necessários. O que se pretende, obviamente, não é retirar da escola seu caráter de socialização e troca de experiências, mas atribuir (restituir) a ela seu principal papel, o de ensinar, sob o risco – de não o fazendo – perder o próprio sentido de existir. A escola não deve ser confundida com a “esquina”, a casa ou o clube que, vale lembrar, também são espaços importantes para formação do sujeito. A “escola é escola”, assim como “professor é professor”, redundâncias importantes mas, ao que parece, esquecidas. Urge lutarmos por uma escola de qualidade, onde eventuais teorias (behaviorista, ausubeliana, vygotskyana, piagetiana,  freiriana, etc) não sejam um fim em si mesmas ou meras “armas” em favor ou desfavor de ideologias vazias (de “esquerda”, “direita”, “centro”...), mas referenciais teóricos capazes de contribuírem para o que mais se espera de uma escola: a aprendizagem!

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

ESCOLA DEMOCRÁTICA E PARTICIPATIVA


ESCOLA DEMOCRÁTICA E PARTICIPATIVA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


Teoria e prática. Entre elas, uma distância oceânica, tomada de profundas fossas onde são comuns as contradições, ranços, preconceitos, corporativismos, vícios, acomodações, arrogâncias e narcisismos egocêntricos, ainda que enrustidos. A legislação brasileira é pródiga na previsão e exigência de uma escola pública “democrática” e participativa”. O espírito “cidadão” trazido pela Carta promulgada em1988 foi e vem sendo ratificado por inúmeros outros diplomas legais, sejam federais, estaduais ou municipais. Cachoeirinha, por exemplo, conta com as Leis Municipais nºs 2263/2004 (versa sobre os Conselhos Escolares), 2265/2004 (eleição de Diretores) e 2384/2005 (Sistema Municipal de Ensino), todas elas apontando na mesma direção, a saber o da “descentralização”, da “participação” e da “democratização”. Portanto, a previsão legal é farta no que tange à possibilidade de fazer da escola pública municipal (EMEIs e EMEFs) um espaço verdadeiramente “democrático e participativo”. Contudo, em que pese a legislação favorável e as boas intenções consubstanciadas, por exemplo, no Plano Municipal de Educação, infelizmente, o que se vê é uma enorme distância entre o pretendido e o realmente alcançado. Os resultados obtidos, tanto do ponto de vista da efetiva participação da comunidade escolar, quanto – e principalmente – do ponto de vista da qualidade do ensino, são pífios, estando muito aquém do razoável e aceitável. A quem cabe a “culpa” por tamanho fracasso? Carência de recursos humanos e financeiros? Gestão equivocada? Despreparo por parte dos servidores? Desvalorização salarial e profissional? Apatia e ausência da família? Descomprometimento do corpo discente? Soa como inócuo terceirizar a “culpa”. O grande desafio está em, sim, buscar responsabilidades (gestor, professor, educando, família, sindicato, etc.), mas sobretudo buscar identificar os problemas, criar estratégias viáveis para superá-los e, principalmente, colocá-las em prática. Urge superarmos o plano do discurso e dos chavões. Uma escola “democrática e participativa” não é algo dado, mas construído. Pressupõe desacomodação, trabalho, doação, embate propositivo e abertura para o diálogo. Corporativismos doentios, intransigências pessoais e/ou de grupos, benesses e privilégios de alguns poucos precisam dar lugar à vontade coletiva (da maioria). A escola não é do Diretor, do professor, do pai ou do aluno. A escola é um espaço público, portanto pertencente a todos os segmentos da comunidade escolar, de forma equitativa. Os fóruns e Conselhos de participação, em especial o Conselho Escolar (“órgão máximo em nível de escola”, conforme o Art. 2º da Lei Municipal nº 2263/2004), precisam existir não apenas sob o ponto de vista formal, mas “de fato”. Tarefa árdua, por certo, pois requer superar uma longa e poderosa tradição patriarcal e clientelista presente nas estruturas e relações de poder, inclusive naqueles espaços, como a escola, que deveriam propugnar pela transformação social. Finalmente, vale lembrar, “democracia” e “participação” não são sinônimo de “confusão” de papéis. A “César o que é de César”… Cada ator a orbitar em torno da escola tem um papel a cumprir, com seus respectivos direitos e obrigações, muitos deles previstos na própria legislação. Uma escola “democrática e participativa” é aquela em que não apenas reconhece tais idiossincrasias, mas as respeita e exige as respostas esperadas de cada membro da comunidade escolar. Daí a importância de Propostas Político-Pedagógicas e Regimentos claras, conhecidas e factíveis, capazes de servirem de norte às ações pedagógicas e administrativas junto às instituições de ensino.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À CORRUPÇÃO


DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À CORRUPÇÃO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


O dia 09 de dezembro foi escolhido pela Organização das Nações Unidas como Dia Internacional de Combate à Corrupção. Iniciativa esta interessante e seguida por muitos países, estados e municípios. Cachoeirinha, por exemplo, por meio da Lei Municipal nº 4574, de 2019, decidiu por fazer desse Dia um momento de reflexão voltada à conscientização dos munícipes sobre a importância do controle social e da necessidade de ampliação dos instrumentos destinados ao combate à impunidade. O que é, afinal, “corrupção”? Inúmeras são as formas de defini-la, tamanha sua variedade e complexidade. Dentre os conceitos interessantes acerca do termo, destaco aqueles que associam a corrupção à “deterioração”, “putrefação”, “modificação ou adulteração das características originais de algo”. Não por acaso, a corrupção é fétida, exala o mau cheiro da miséria criada e aprofundada por ela. Mesmo a aparente limpeza dos corredores e gabinetes de palácios, prefeituras, assembleias, câmaras e tribunais é incapaz de neutralizar o azedume cadavérico que brota das práticas espúrias que, histórica e diuturnamente, maculam as relações de poder. A corrupção, sabemos, é um câncer em avançado processo de metástase, que corrói o tecido social e lança por terra qualquer esperança de dias melhores. Mostra-se presente e estruturada nas organizações governamentais, intergovernamentais (ONU, por exemplo), esportivas (FIFA, CBF, etc.), em governos dos mais distintos matizes ideológicos (liberais, neoliberais, socialistas, sociais-democratas, “direita”, “centro”, “esquerda”…), partidos políticos, sindicatos patronais e de trabalhadores, Poderes do Estado (Legislativo, Executivo, Judiciário), órgãos de controladoria (Tribunais de Contas, corregedorias), agências ditas “reguladoras”, conselhos de toda ordem, empresas públicas e privadas… A lista é interminável, como o são as formas em que a corrupção se manifesta. Feito camaleão, essa praga faz uso de um diabólico mimetismo para se reforçar e perpetuar em nosso meio. Coopta pessoas e as corrompe sem nenhum pudor e não o conseguindo, as aniquila. Simples assim! Faz uso dos aparelhos do Estado, impudica e descaradamente, sob o manto da flagrante omissão – quando não o conluio – daqueles que, por dever ético e/ou legal, deveriam zelar pelos princípios republicanos. A corrupção, por certo, é a mãe dos maiores e mais cruéis males da humanidade. Ela mata, oprime, humilha, aniquila sonhos, destrói famílias, apodrece relações. Ao beneficiar alguns poucos, prejudica a imensa maioria. O ouro que reveste a pocilga dos corruptos, muitos deles togados e engravatados, contrasta com a desesperança das verdadeiras joias (muitas delas iletradas, calejadas, desdentadas) a madrugarem nas filas de hospitais, a chorarem sobre o corpo do ente querido vítima da insegurança e incompetência públicas, a vegetarem em meio a um ensino pífio, a disputarem espaço num transporte sem o mínimo de conforto, a buscarem o pão necessário à subsistência da família. A corrupção se retroalimenta por meio, também, de práticas que por vezes soam pequenas. Manifesta-se nas relações familiares, de amigos, de trabalho, de consumo, na escola… Como identificá-la? Como combatê-la? Inexiste receita, contudo o caminho passa necessária e obrigatoriamente pelo “meu”, pelo “teu”, pelo “nosso” posicionamento ético. Este precisa ser categórico, não tergiversar, ser inegociável ainda que prejudicial aos interesses particulares. Somente assim construiremos um país melhor, um estado menos injusto e uma cidade verdadeiramente para todos!

domingo, 27 de outubro de 2019

O SACRIFÍCIO DE ISAQUE

O SACRIFÍCIO DE ISAQUE
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

Passado algum tempo, Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: "Abraão!" Ele respondeu: "Eis-me aqui". Então disse Deus: "Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei". Na manhã seguinte, Abraão levantou-se e preparou o seu jumento. Levou consigo dois de seus servos e Isaque seu filho. Depois de cortar lenha para o holocausto, partiu em direção ao lugar que Deus lhe havia indicado. No terceiro dia de viagem, Abraão olhou e viu o lugar ao longe. Disse ele a seus servos: "Fiquem aqui com o jumento enquanto eu e o rapaz vamos até lá. Depois de adorarmos, voltaremos". Abraão pegou a lenha para o holocausto e a colocou nos ombros de seu filho Isaque, e ele mesmo levou as brasas para o fogo, e a faca. E caminhando os dois juntos, Isaque disse a seu pai Abraão: "Meu pai!" "Sim, meu filho", respondeu Abraão. Isaque perguntou: "As brasas e a lenha estão aqui, mas onde está o cordeiro para o holocausto?". Respondeu Abraão: "Deus mesmo há de prover o cordeiro para o holocausto, meu filho". E os dois continuaram a caminhar juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus lhe havia indicado, Abraão construiu um altar e sobre ele arrumou a lenha. Amarrou seu filho Isaque e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Então estendeu a mão e pegou a faca para sacrificar seu filho. Mas o Anjo do Senhor o chamou do céu: "Abraão! Abraão!" "Eis-me aqui", respondeu ele. "Não toque no rapaz", disse o Anjo. "Não lhe faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, o seu único filho." Abraão ergueu os olhos e viu um carneiro preso pelos chifres num arbusto. Foi lá, pegou-o e sacrificou-o como holocausto em lugar de seu filho. Gênesis 22:1-13

               

                O que dizer acerca da narrativa acima? O sacrifício de Isaque, ao que tudo indica, era uma demonstração de inabalável fé. Apesar do amor por seu filho, Abraão não titubeou ao levar o rebento à Moriá. A atitude do Patriarca rendeu-lhe incontáveis frutos, fazendo dele – até os dias de hoje – referência de fé entre inúmeras denominações religiosas. Quanto a nós? Quais têm sido nossos sacrifícios? Para onde temos levado e oferecido nosso Isaque? São outros tempos, outras intenções, outras consequências. O que vemos é nosso Isaque abandonado à própria sorte, estendido sobre a pedra fria, enquanto a lâmina certeira do cutelo desce, violentamente, em direção à cabeça do holocausto. Sacrifício para quem? Para quê? Pelo visto, não sabemos. Quanto deve ter sido difícil para Abraão a interminável travessia até o local do sacrifício. Quanta coisa deve ter passado pela cabeça do Patriarca: lembranças, planos, dúvidas... Três dias de aflição. Contudo, a confiança do “pai de muitas nações” parecia superar tudo aquilo: "Deus mesmo há de prover o cordeiro para o holocausto, meu filho". Nosso Isaque, ao contrário, tem sido destinado ao sacrifício sem que percebamos. São anos caminhando a esmo, à espreita da morte. As cabeças curvadas, atentas à tela do celular, parecem anestesiadas, tornando-os, pai e filho, insensíveis aos inúmeros perigos da estrada. Movido pela “proteção” doentia, que aniquila a autonomia e priva o rebento das ferramentas necessárias à vida, carregamos nós mesmos a lenha, enquanto sobre os ombros de nosso Isaque depositamos, ainda que inconscientemente, nossa mais profunda desatenção. Vamos, feito ébrios, tutor e tutelado, serpenteando em meio ao caminho, sem perceber as feridas provocadas pelos espinhos contaminados pelo pernicioso relativismo a mascarar o desprezo à vida. Mesmo o sangue a verter pelo franzino corpo de nosso Isaque mostra-se insuficiente para romper a letargia de quem por ele deveria zelar. Enquanto brotam e se multiplicam os sinais de alguém que definha, prevalece a indiferença, ainda que não intencional. Qual será o fim dessa história? A mesma do Patriarca? Quem há de salvar nosso Isaque? Sob o comando de quem está o cutelo? Ajamos enquanto há tempo!

quarta-feira, 12 de junho de 2019

SUPORTABILIDADE: PARA QUEM?

SUPORTABILIDADE: PARA QUEM?
Prof. Gilvan Teixeira
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            Os tempos são outros. Não faz muito, pessoas com deficiência eram, muito comumente, “invisíveis” à sociedade. Alijadas da escola, por exemplo, pouco conheciam senão as paredes da própria casa, só não menores e mais descoloridamente frias do que o acolhimento neste mundão de Deus. Verdadeiros “bichinhos da goiaba”, a presença delas soava como inoportuna, incômoda numa sociedade autointitulada de “normal”. Pareciam encarnar a triste história do Corcunda de Notre Dame, porém muito mais cruel e sombria, dado que verdadeira. Enclausurados ficavam não apenas os seus corpos – não raras vezes atrofiados pela indiferença e ignorância alheias –, mas seus sonhos e potencialidades. Aos poucos, contudo, tensionada pela incansável luta e teimosia de algumas pessoas e entidades da sociedade civil organizada, a legislação passou a contemplar os direitos desse público e importantes políticas públicas foram se estabelecendo. A Constituição de 1988 não deixa dúvidas quanto ao tratamento a ser dado às pessoas com deficiência:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais[1] da República Federativa do Brasil:
[…]
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.


            O acolhimento às pessoas com deficiência é, portanto, basilar na própria existência da República brasileira. A Carta traz, ainda:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

           
            Às pessoas com deficiência foi garantida não apenas a igualdade – princípio fundamental da dignidade da pessoa humana –, mas proteção especial por parte do Poder Público, conforme se lê:

Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:
[…]
II - cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência;  

           
            No que tange à educação, a garantia não destoa:

Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:
[…]
III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
[…]
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
[...]


            A legislação pátria é farta em preceitos garantidores e assecuratórios de direitos educacionais atinentes às pessoas com deficiência. Exemplos disso são a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Federal nº 9.394/1996), bem como os Estatutos da Criança e do Adolescente (Lei Federal nº 8.069/1990) e da Pessoa com Deficiência (Lei Federal nº 13.146/2015). Este último, diga-se de passagem, já em seu primeiro Artigo, diz:

Art. 1º É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.


            Lê-se, ainda:

Art. 27. A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem.

            O Estatuto acima (Lei nº 13.146/2015) não deixa dúvidas, primeiro, quanto ao direito do educando com deficiência e, segundo, quanto à necessidade de um olhar diferenciado em relação a ele. Na esfera do Município, vê-se a mesma preocupação. O Plano Municipal de Educação, alterado pela Lei nº 4040/2015, dentre suas “metas”, traz:

Meta 4: Universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados.
Estratégias:
[…]
Garantir a oferta de educação inclusiva com qualidade, de acordo com a suportabilidade de tempo de permanência no espaço em sala de aula, respeitando a individualidade e necessidades de cada aluno.
[...]

            Resta claro, portanto, que a suportabilidade prevista acima é “do” e “para” o educando, não para o professor, escola e/ou para família. Assim, eventual redução no tempo de permanência do aluno com deficiência deve estar amparada na necessidade e bem-estar do educando e não de terceiros. Quaisquer outros argumentos (falta de recursos humanos, precariedade física das instituições escolares, carência técnica dos profissionais no ambiente escolar, etc.), provavelmente, restarão inconsistentes ante eventual ação judicial movida em nome dos alunos com deficiência para que permaneçam na escola durante todo o turno. O critério fundante para suportabilidade deve ser técnico, respaldado, portanto, em avaliações oriundas de profissionais devidamente habilitados. Não cabe à escola ser depósito de pessoas (quase sempre crianças) com deficiência, a servir de “família substituta”, enquanto os genitores dão conta de seus afazeres, por mais nobres que sejam. Tampouco, a escola deve ser espaço de exclusão e insensibilidade. Sua função é, sobretudo, pedagógica! Tem sim o condão de “cuidar”, este, contudo, subsidiário da função precípua da escola, a de “educar”.

            A decisão pela redução no tempo de permanência na escola do aluno com deficiência (suportabilidade) está para o profissional do SAEE (Serviço de Atendimento Educacional Especializado) assim como o receituário está para o médico. A competência para decidir por tal redução é do profissional especializado (salvo se, de forma fundamentada, for atacada por outra decisão de melhor ou maior valor), não da família, do conselheiro tutelar ou de pessoas “estranhas” à escola. As decisões e encaminhamentos desta última precisam ser respeitadas e socialmente reconhecidas, desde que pedagógica e legalmente justas.

            Vale lembrar que a própria legislação reconhece os limites do “possível” e do “razoável” no que tange ao atendimento à pessoa com deficiência. Um é o mundo “real” e outro o “ideal”. O Estatuto da Pessoa com Deficiência, por exemplo, em seu Art. 3º, VI, ao tratar das “adaptações razoáveis”, conceitua:

Art. 3º Para fins de aplicação desta Lei, consideram-se:
[...]
VI - adaptações razoáveis: adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional e indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar que a pessoa com deficiência possa gozar ou exercer, em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos e liberdades fundamentais.

            Infelizmente, em que pese as boas intenções, tem sido comum e crescente um processo de “desautorização” e enfraquecimento da autoridade (aqui entendida sob o aspecto técnico) da escola e de seus agentes. Não que suas decisões estejam a salvo de críticas e contestações, mas que se preserve a premissa de que ninguém melhor do que os profissionais da educação (professores, especialistas, etc.) para dela tratar e sobre ela opinar.



[1]     Todos os grifos são meus. 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O CIRCO

O CIRCO
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            Noutros tempos, era lugar de diversão, de indescritível alegria, especialmente por parte dos de tenra idade. Ali, malabaristas disputavam espaço com animais e seus adestradores, palhaços e equilibristas. Bailarinas, enfiadas em suas roupas justas, a levitar com suas sapatilhas aladas. Destoando dos risos, apenas a inconfundível voz dos vendedores das maçãs do amor, algodão doce, pipoca e refrigerante. Sob a luz do picadeiro, os saltimbancos com suas brincadeiras a transformarem aquele momento em algo impar e inesquecível. Tempos bons em que o circo era certeza de boas risadas. Querem hoje, e não são poucos, vê-lo pegar fogo. Imprudente e irresponsavelmente, esquecem que sob suas lonas jaz, sim, um que outro desafeto, mas, também, incontáveis amigos, filhos, irmãos e companheiros. Parecem esquecer que o fogo é “democrático”, a todos queima indistintamente, pretos e brancos, cristãos e ateus, letrados e analfabetos, liberais e socialistas. Alimentadas pelo ódio e desprezo, as chamas vão ceifando vidas, evaporando a esperança e transformando em cinzas as relações. Não demora, pouco restará senão um vale de ossos secos, onde a conversa franca, o diálogo humanizatório e a companhia prazerosa serão coisas do passado. Ainda ontem, quando todos se sentiam pertencentes ao circo, o simples monóculo era suficiente para vislumbrar o mundo. Hoje, os tempos são outros. As lentes, por mais numerosas e potentes que sejam, vão, a cada dia, ofuscando nossa visão. Já não vemos e nem tampouco reconhecemos o outro. Não vemos a nós mesmos e nem nos reconhecemos. Involuímos. Quiçá seja a fumaça do circo, asfixiante, espessa, nauseante. Tamanha toxidade contagia, produzindo cenas de horror, um inferno dantesco, sombrio, desanimador. Escasseiam-se os pontos de fuga e multiplicam-se os gritos de socorro. Por todo lado corpos que, como copos vazios, por mais coloridos que sejam, há muito perderam o próprio sentido. Pobres recipientes, secos e sequiosos, já nada oferecem e nem tampouco recebem. Não tarda, o calor do fogo deles arrancará a frágil e fugaz beleza. Pura vaidade.  Enquanto arde o circo, as estruturas, até então tidas por sólidas, vão se desmanchando, sepultando valores, moral, leis, tradições… Na hora do aperto, um que outro -  tomado, quem sabe, por uma esquizofrenia momentânea derivada do caos – esboça teses de “direita” e de “esquerda”, enquanto segue cambaleante, sem norte, tropeçando nos corpos sem vida. As cortinas, que antes se abriam a marcarem os atos da peça, já não existem. Consumidas pelo fogo, não passam de fiapos incandescentes a denunciarem o ocaso da vida. O que antes era um circo vai se transformando numa grande pira, alimentada pelas páginas de Smith e de Marx, de Freire e de Carvalho, instigada por corpos de todos os tamanhos e idades, de todos os gêneros, de todas as crenças e ideologias. A fumaça escura vai formando uma triste coluna a alcançar o céu, exalando o fétido odor da vaidade, da intolerância, do egocentrismo e da indiferença. Saudade do velho circo, não daquele da política dos Césares, alienante e sarcástico, nem tampouco do espetáculo piegas e descompromissado com a sorte alheia, mas do circo das boas utopias, da convivência, da alegria, da confiança, do diálogo, da cumplicidade frente ao sentimento daqueles que acostumamos a chamar de “terceiros”, como se “primeiros” fôssemos. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

EJA, NÃO É PARA QUALQUER UM


EJA, NÃO É PARA QUALQUER UM
Gilvan Teixeira
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A Educação de Jovens e Adultos (EJA), não raras vezes, é vista como uma espécie de “sobra” da escola. Comum é ver a EJA servir de “depósito” de alunos multirrepetentes e/ou indisciplinados, além de um “quebra-galho” para professores destituídos do perfil necessário e esperado. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em seu Art. 37, não deixa dúvidas quanto ao público a ser atendido pela modalidade:

Art. 37.  A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos nos ensinos fundamental e médio na idade própria1 e constituirá instrumento para a educação e a aprendizagem ao longo da vida. 
[…]
§ 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si.


A EJA existe, prioritariamente, para atender, portanto, alunos com gritante descompasso idade-série (Ano), desde que respeitado o limite mínimo etário previsto na legislação, a saber 15 anos no Fundamental e 18 no Ensino Médio. Assim, a indisciplina escolar não deve ser a razão da transferência do educando do Ensino Regular para a EJA, até porque inexiste qualquer garantia de sucesso no que tange à mudança de comportamento. Questões disciplinares – independentemente da etapa, nível ou modalidade de ensino – devem ser resolvidas no campo da prevenção, diálogo e, se necessário, aplicação de medidas e “sanções” previstas nos documentos norteadores da escola (PPP, Regimento, Estatuto Disciplinar, etc.). Da mesma forma a repetência. Esta, salvo em casos excepcionais, não deve servir de embasamento – ainda que velado – para direcionamento do aluno do Regular para EJA, sob o risco de agravarmos problemas como o da aprendizagem e da autoestima. Por outro lado, há de se ter cuidado para não fazermos da EJA uma espécie de peneira eugênica a afastar todos aqueles que não se enquadram nos moldes e padrões tidos como “normais” e “aceitáveis” pela Direção ou corpo docente que trabalha com essa modalidade. A busca de uma escola ideal, ascética, muito provavelmente redundará numa enorme frustração, estando fadada ao fracasso e distanciamento da comunidade que dela tanto depende e precisa. A EJA tem como seu principal (não exclusivo…) público-alvo, como já dito, jovens e adultos que, por algum motivo, não conseguiram acessar ou dar continuidade aos estudos na época “certa” (!?). Na prática, contudo, isso significa, muitas vezes, lidar com jovens e adultos que foram cuspidos para fora dos muros escolares por limitações de aprendizagem, problemas socioeconômicos, dificuldades emocionais, indisciplina, etc.. Trata-se de uma gente excluída, em maior ou menor grau. Contudo, jovens e adultos que, em que pese todas as agruras e dificuldades, mostram-se teimosos em acreditar na possibilidade da mudança por meio da educação. Gente sonhadora, esperançosa, sequiosa por uma vida menos dura. Um público marcado pelos mais diversos tipos e nuances de vulnerabilidade. Portanto, jovens e adultos merecedores de um olhar diferenciado, acolhedor, respeitoso e compreensivo.
O professor da EJA precisa mostrar-se atento e sensível frente à realidade acima. Somado à competência acadêmica, deve ser capaz de lançar seu “olhar viajante” sobre as idiossincrasias típicas da realidade que envolve a Educação de Jovens e Adultos. Não vale aqui o “puxadinho”, a “gambiarra”, o “jeitinho”. Exige-se profissionalismo, seriedade e comprometimento com o complexo processo ensino-aprendizagem dessa modalidade. Tão importante quanto a técnica, a metodologia e o domínio do conteúdo é a construção e fortalecimento dos vínculos afetivos. Estes representam condição sine qua non na arte do ensinar e do aprender, ainda mais quando diante de pessoas fragilizadas pelos incontáveis fracassos e “peças” criadas pela vida. Acuidades visual e auditiva são essenciais ao educador que trabalha com a EJA. Não necessariamente aquelas acuidades que passam pelos sentidos do corpo, mas sobretudo as que nascem da alma. O professor da EJA precisa ouvir o que diz o aluno, mostrar-se disposto a partilhar as inúmeras experiências de vida, medos e sonhos que tangenciam a história de cada educando.
1Todos os grifos são meus.