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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

MAU USO DOS MEIOS ELETRÔNICOS: APONTANDO RESPONSABILIDADES



MAU USO DOS MEIOS ELETRÔNICOS: APONTANDO RESPONSABILIDADES
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                A modernidade tem trazido inegáveis avanços no bojo da chamada Globalização. Os meios de comunicação representam hoje um extraordinário mundo de oportunidades e informações. As fronteiras físicas há algum tempo vêm sendo suplantadas e as distâncias vencidas, por maiores que sejam. A internet, por exemplo, vem se transformando no principal canal de comunicação entre os mais distintos matizes culturais, étnicos, sociais, econômicos... As chamadas “comunidades” crescem numa velocidade vertiginosa. Facebook, twitter, orkut e tantas outras criações associadas aos chamado mundo virtual vêm se constituindo em fantásticas “janelas” para o mundo. Contudo, por paradoxal que possa parecer, tais avanços ao mesmo tempo em que facilitam a comunicação, a precarizam. Além de superficiais, em regra, os diálogos que povoam as “redes sociais” estão marcados pelo mais profundo vazio existencial, acometidos de uma doentia superficialidade e estéreis do ponto de vista do conteúdo e dos princípios mais elementares. Escreve-se mal. Peca-se não apenas nas letras, pontos e acentos, mas sobretudo nos tratamentos dispensados aos pares. Alega-se que a linguagem da internet deve ser respeitada e aceita como um “idioma” paralelo, próprio desta conjuntura. O problema é quando tal “linguagem” vem não para somar, mas para substituir aquela outra, a culta.

                O advento das “redes sociais” tem trazido, também, inúmeras dificuldades no que tange às relações pessoais que tangenciam a Escola. Esta última tem sido palco, não raras vezes, de discussões e brigas nascidas de “postagens” equivocadas, irresponsáveis e, por que não dizer, às vezes, infratoras. Ofensas, ameaças, práticas de bullying têm sido comuns. Jovens mal resolvidos fazem das redes sociais terreno fértil para expressões preconceituosas. Adolescentes sem limites se escondem por detrás do aparente anonimato dos meios eletrônicos. Crianças mimadas lançam na internet tristes sementes que, ali adiante, produzirão os frutos podres do desrespeito, da desobediência, da depredação, do vandalismo e da indiferença frente ao sofrimento alheio. Adolescência não pode ser jamais confundida com delinquência. Por certo, há limite para eventuais rompantes dos jovens. Ignorá-lo é alimentar o triste, vergonhoso e condenável quadro dos delitos, estes cada vez mais precoces e não menos incomuns.

                Urge maior cuidado em relação ao uso dos meios eletrônicos, em especial as redes sociais. Maior cuidado por parte não apenas das crianças e adolescentes, usuários de fato, mas também e, talvez, sobretudo, dos pais ou responsáveis. A estes cabe zelar por aquilo que diz respeito aos rebentos. Têm os pais responsabilidade moral e jurídica em relação à prole. Portanto, deve restar claro que os pais têm não apenas o direito, mas a obrigação de regrar e fiscalizar o uso da internet por parte dos filhos menores, sob o risco de serem surpreendidos por demandas judiciais, por exemplo. Têm sido frequentes ações envolvendo menores, ações estas que não raras vezes desembocam na aplicação de medidas socioeducativas e/ou pagamento de indenizações. Somadas ao prejuízo financeiro, se tem outras espécies de consequências, muito mais graves, como a quebra da confiança e harmonia familiares, abalo das relações sociais, entre outras.

                No que tange às crianças e, principalmente adolescentes (doze aos dezoito anos), ressalta-se a necessidade de que se desmistifique a ideia da escassez ou inexistência de sanções para atos praticados por menores. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tem cunho “protetivo”, não “permissivo”. Busca tutelar direito do menor, jamais sua conduta repreensível. Prova disso são as chamadas medidas socioeducativas, estas aplicáveis para aqueles casos que, no mundo dos adultos, se constitui em crime. Portanto, atos infracionais praticados por adolescentes não passam incólume. Os juizados e tribunais têm, cada vez mais, sido intolerantes com atos praticados por menores. Não diferente tem sido o sentimento de outros segmentos e instituições da sociedade como, por exemplo, a escola.  Mister é que a sensação de impunidade seja substituída pelo sentimento de justiça, de respeito à coletividade e de obediência ao ordenamento, desde que justo e democrático. 

Leia mais: 
http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=newsletter&idNews=17579&idPai=554&id=17580
http://institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=49c838dff706849fd4963dea78200049

quarta-feira, 18 de julho de 2012

ELLES


ELLES
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


            É por ELES que o corpo cansado teima em labutar sessenta horas. Por ELES, abre-se mão do aconchego da família, do lazer, da gostosa boemia tendo as estrelas por pano de fundo. Por ELES, insiste-se nesta profissão espezinhada pela história recente e ridicularizada pelos ignóbeis e vexatórios salários. Por ELES, toma-se o coletivo abarrotado de gado-humano, como que para o abate. Por ELES, enfrenta-se o mau humor e incompreensão de alguns pais, bem como o pessimismo às vezes doentio que invade a sala dos professores. Por ELES, embate-se contra políticas públicas equivocadas que buscam salvar as aparências, através de números e índices “positivos”, em detrimento de uma qualidade eficaz e duradoura. Por ELES, luta-se contra os pruridos do corpo e as dores da alma. Por ELES, se posterga sonhos, mesmo sob o alto risco de serem enterrados, por vezes, antes de nosso corpo. Por ELES, afina-se o discurso, mesmo que diante de uma realidade hostil e com cara de poucos amigos. Por ELES, acredita-se num futuro que teima em não chegar. Por ELES, deixa-se o passado e todas as agruras dos anos letivos pretéritos, abrindo espaço para a esperança, talvez ingênua, de dias melhores. Por ELES, faz-se vistas grossas à indisciplina que, de maneira não tão incomum, ganha terreno por entre os muros da escola. Por ELES, paciente e estoicamente passa-se o tempo, que não se tem, em meio a uma plateia quando dos encontros e seminários. Por ELES, se ouve blasfêmias e impropérios e sela-se a voz do coração. Por ELES, é-se eterno pescador de almas. Parabéns ELLES por ser um deles.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

O GRÃO DE MOSTARDA


O GRÃO DE MOSTARDA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

               

                Quem não conhece a parábola bíblica do grão de mostarda? Entre as sementes talvez a menor, mas a simbologia... Foi dada a largada oficial para campanha eleitoral, sim porque a campanha “informal” – escancarada e tecnicamente “proibida” – há muito que está nas ruas, sob todas as formas: meios eletrônicos, adesivos de carros, camisetas, “corpo a corpo”, entre tantas outras. Sem falar naqueles que fazem campanha há anos e, pasmem, diariamente, com práticas típicas da pior espécie de se fazer política, qual seja, a da troca de favores. Neste município se troca votos por remédios, lâmpadas, leitos hospitalares, “cargos em comissão”, “funções gratificadas”, estágios remunerados. Bom, deixemos isso de lado. Como ia dizendo, foi aberta a temporada de caça... aos votos. Estes, feito patos, viram alvo. Para conquistá-los, muitos dos candidatos atiram para tudo que é lado. “Conquistar” talvez não seja o termo mais adequado, pois que a conquista – ao menos no plano do amor – pressupõe respeito, espera, paciência, abnegação, altruísmo e mais uma centena de virtudes. O que se vê é uma espécie de “estupro”, tomada à força, onde os valores acima são substituídos por práticas invasivas que atentam contra o bom senso e a paciência dos pobres eleitores. Candidatos mal alfabetizados pousam de doutores, enquanto doutores trocam suas fatiotas por vestes do povo, mais fazendo lembrar lobos em meio às ovelhas. Apela-se para religiosidade, sensualidade, títulos honoríficos. Para Deus e para o Diabo. Para Bíblia e para a numerologia. Tem de tudo. Há os que adotam nomes de super-heróis, mesmo que de comédia “pastelão”. Candidatos e candidatas que investem nas roupas e nas plásticas para ficarem mais apresentáveis, só fazendo aguçar a desconfiança de que, para eles, a aparência precede a essência, a embalagem o conteúdo.

                Para alguns, como eu, a campanha mal iniciou, já terminou. Findou com a desistência da Rosa Maria Lippert, ou simplesmente Rosinha, em concorrer à vereança. Obra do destino ou, talvez, do descuido. Contudo, em que pese a desistência, nossa querida amiga semeou ideias, posicionamentos, reflexões. Fez ressuscitar a crença de que Cachoeirinha pode e deve ser uma cidade mais limpa, justa, fraterna, sustentável, segura, inclusiva, lúdica e, principalmente, feliz. É uma figura rara, daquelas que ao falar, o faz com paixão. Mostra-se convencida e faz convencer de que somente uma educação de qualidade tem o poder de revolucionar esta cidade. Foi-se a campanha, mas as ideias, assim como o grão de mostarda, seguirão firmes, potencialmente transformadoras.

                Cachoeirinha precisa de representantes à altura dos homens e mulheres de bem, munícipes que labutam, pagam seus impostos e tributos, em que pese a contraprestação de serviços públicos essenciais muito aquém do desejável. Representantes que não se alinhem a interesses privados e corporativos espúrios, mas que sejam – de fato – espelhos dos interesses e demandas da coletividade, mesmo que em toda sua complexidade. Nosso Município precisa voltar a crer, a ter fé. Esta, mesmo que no tamanho de um grão de mostarda, é capaz de mover montanhas, de subverter estruturas tão velhas quanto perversas, contribuindo na construção da cidade sonhada por pessoas como ela: Rosinha! 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

VAKINHA


VAKINHA
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                É vakinha com “k” mesmo. Também fiquei surpreso, assim como o leitor. Contudo, o que mais chamou atenção não foi a grafia da palavra, mas o que a ela estava associado. Há algum tempo venho pesquisando na internet os preços não de “um”, mas “do” projetor “Multimídia Powerlite Presenter L”, da Epson. Os anúncios acerca do produto são estonteantes. Fazem lembrar um programa (antigo?) de humor que trazia entre os seus quadros as “Organizações Tabajara: seus problemas acabaram!”. O fabricante promete verdadeiro milagre tecnológico. Um produto revolucionário, capaz de despertar a atenção dos disléxicos, hiperativos e, acreditem, até da gurizada da sétima. Matemática, História, Física, Química... No meu caso, Geografia. Tal é o apelo publicitário que um que outro incauto professor até poderia imaginar a turma inteira literalmente babando de prazer, quase que orgástico, diante da explosão de imagens e cores a brotarem da lâmpada. Esta de led com quatro, sim, quatro mil horas de vida útil. Vai-se o professor, fica a lâmpada. Que inveja! Sem falar em todos aqueles botões e entradas de todo tipo: USB, HDMI, etecetera e tal. Mas, como ia dizendo, o que realmente chamou atenção no site pesquisado foi um link que trazia como nome o título deste singelo texto: VAKINHA. O termo, por si só, já chamaria atenção. O nome com “k”, mais ainda. Não tive dúvidas, entrei. Ao fazê-lo descobri algo que até então me parecia inimaginável num mundo tão egoísta. A possibilidade de ajudar ou ser ajudado. No meu caso, professor, sabe como é... Ser ajudado pelos “amigos” (leia-se “contatos”, a maioria tão distantes e impessoais como o Evereste) na compra de tudo o que se possa imaginar, desde livros até aviões, passando por vibradores e até urinóis. Exageros à parte, o fato é que a ideia (sem o acento perdeu o charme) me pareceu genial. Finalmente poderia comprar o tão sonhado projetor. Contudo, passado o ímpeto – é como se tivesse descoberto a América –, aos poucos foi caindo a ficha. Quem iria se dispor a ajudar este pobre sujeito? Eu mesmo titubearia frente a pedido semelhante. Cheirava a falcatrua. Ora, vakinha definitivamente soava como estelionato. Pior, um estelionato “emocional”. Como os “amigos” encarariam o pedido? Quanto aos desconhecidos, tudo bem... Mas e os conhecidos? Alunos, professores, parentes, o público que me conhece? Chacota na certa. Parecia ouvir os comentários: “coitado!”; “pilantra”; “safado”; “chantagista”; “cara-de-pau”. Não parecia bom negócio. Arriscado demais para minha reputação. Por que não inventaram outro nome para a iniciativa? Tipo, assim... APAE, Legião da Boa Vontade, Professor Esperança. Sei lá, criar um zero oitocentos: “disque um para doar vinte reais, dois para doar quarenta reais, três para...”. Mas, vakinha??? Por outro lado, talvez, o termo bem que combine com nós, professores. Vakinha, aulinha, vidinha, casinha... Tudo parece tão pequeno e no diminutivo para nós docentes. Bom, o que fazer? Topar ou não o desafio da vakinha? Decidi pelo não, ao menos por hora. Mas que a ideia não é de todo ruim, não é mesmo... Caso queiram ajudar...

CARTA TESTAMENTO (NÃO A DE VARGAS...)



CARTA TESTAMENTO (NÃO A DE VARGAS...)
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Quem já não ouviu falar na Carta Testamento de Vargas, gaudério que presidiu este país durante quase duas décadas? Ainda lembro do tempo do Primeiro Grau (hoje Ensino Fundamental), das páginas ilustradas do livro de História (hoje substituído pela wikipedia), donde brotava em forma de pergaminho a famosa Carta. Passados tantos anos, mais de trinta, percebo que muita coisa mudou, porém não tudo... Homens como Vargas, há muito que não se vê. Autoritário às vezes, mas autêntico. Ditador vez por outra, mas leal a seus princípios. Covarde em alguns momentos, mas corajoso quando diante da morte a lhe espreitar. Foi-se os caudilhos, mas restou cristalizado muitos dos vícios daquela sórdida política. Integralistas, comunistas, getulistas, populistas... PTB, PSD, PCB, AIB... Por mais condenáveis que fossem suas propostas e autoritárias suas ações, no fundo existia à época um misto de romantismo quixotesco e pragmatismo maquiavélico. Marcava-se de maneira clara e inequívoca posições ideológicas e político-partidárias. Não havia, salvo raras exceções, dúvidas de quem era quem. Os matizes e preferências eram às claras. Hoje, ao contrário, há de se lamentar o profundo e, ao que parece, interminável vazio no que tange às lideranças. Estas, se existem, estão às escondidas, quiçá indiferentes ao papel que um pretenso destino lhes reservou. Quanto aos partidos políticos, são como pocilga onde se misturam em meio à lama interesses tão díspares quanto contraditórios, incompreensíveis a qualquer cidadão de bem. Algumas casas legislativas mais lembram um cabaré da pior espécie, onde se vende de tudo, inclusive a consciência. Perdoem-me as meretrizes pela, talvez infeliz, comparação. Siglas surgem, siglas somem, siglas se fundem, conforme conveniências pessoais ou de pequenos grupos. Certo é que poucos ganham e, adivinhem, muitos perdem. Cada vez mais os jovens se afastam da política, tomados de asco e avessos a qualquer discussão que venha a exigir-lhes esforço intelectual ou posicionamento verdadeiramente crítico. Os “donos do poder”, ao que tudo indica, têm conseguido êxito em seu intento, qual seja o de afastar qualquer tentativa de transformação social advinda do efetivo exercício da cidadania. Paira no ar uma preocupante tendência à imbecilidade de nossa gente. Homens, mulheres, jovens e crianças, como gado, aguardam passivamente a hora do abate, embriagados pelo poder midiático do “plim-plim” e similares. O Estado há muito vem sendo balcão de negócios e negociatas, onde os que deveriam “servir”, acabam por se servirem às custas de quem os paga. Enquanto Têmis se perde em meio às vaidades e discursos intermináveis, verdadeiras oratórias estéreis tão ininteligíveis quanto o olhar estrábico da deusa, o sentimento de justiça se esvai no tempo e é enterrado nas filas dos hospitais e postos de saúde, no avanço da violência sob suas mais diversas formas, no desvio dos sagrados recursos púbicos, na pífia qualidade do ensino, no “custo Brasil”, na extorsão fiscal praticada sobre o rendimento dos trabalhadores, entre tantos outros males que, dia após dia, assolam nossa gente.

                Apesar do contexto sombrio eivado de uma imensurável crise moral e ética, a dádiva presa à caixa de Pandora parece resistir. Há esperança. Por certo – apesar da modorra profunda e atávica apatia –, muitos são ainda merecedores de confiança. Pessoas que jamais se apropriariam do bem alheio, honestas, trabalhadoras (ou aposentadas...), comprometidas com suas obrigações legais e sociais, respeitosas e respeitáveis. Pessoas que ainda pedem licença e não titubeiam em pedir perdão. Pessoas que levantam para ceder o lugar a quem precisa, que abrem mão de seu tempo em prol de outrem, nem que seja apenas para escutar... Pessoas que guardam o brilho no olhar e que se solidarizam de fato com as agruras alheias. Homens com o coração de mãe e mulheres com a força e coragem de leão. São essas pessoas que precisam tomar posse e serem empossadas no Legislativo, Executivo e Judiciário. Covardes, corruptos, omissos, incompetentes, desonestos e toda sorte de larápios, togados ou não, diplomados ou destituídos de titulação precisam ser execrados. Quem sabe a saída esteja nas próprias contradições que o “sistema” (este é feito de pessoas...) produz. A República brasileira nasceu a partir e para os já então privilegiados. Trouxe consigo a carcaça da modernidade e os “miúdos” do passado. O voto, por exemplo, veio acompanhado do cabresto. O sistema partidário veio permeado das mesmas práticas tão conhecidas no Império. A nobreza aristocrática foi substituída pelo coronelismo republicano. Este, de vento em popa, ainda hoje segue elegendo a sua laia, eternizando-a no cerrado de Brasília. Teimamos em querer “parecer” e “aparecer”. Somos causa e consequência de um triste caldo cultural que privilegia o “parecer ter” em detrimento do “ser”. Adquirem-se os penduricalhos do Capitalismo, alimentado pela irresponsável ciranda do crédito aparentemente fácil, mesmo que para tanto se comprometa a renda desta e das futuras gerações. Somos o país das grandes contradições e das “aparências”. Nos vangloriamos de termos matriculadas quase todas as crianças, em que pese a flagrante degradação da qualidade de ensino. Pouco e mal aprendem nossos alunos. Pouco e mal ensinam nossos educadores. Estes, talvez, por pouco saberem. Não poderia ser diferente, pois que a “certificação” para muitos de nossos mestres precede a qualificação. É a velha mania herdada de tempos idos de se querer ver pendurado um título, mesmo que adquirido “à distância” ou em sites da web. Construímos estádios, estradas e aeroportos para recepcionarmos os “gringos” e causar-lhes uma boa impressão, mas nos mostramos incapazes de darmos jeito em nossos presídios, escolas e hospitais. Tal lógica precisa ser urgente e imediatamente transformada. Urge lançarmos mão de ferramentas como a do mandato parlamentar e, antes dela, a do voto para subvertermos este triste contexto. Por certo, tamanha utopia requer não uma, mas duas, três ou mais gerações. Tenhamos a certeza de, quando diante da morte, sairmos da vida para entrarmos para a história.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

SUPERPOPULAÇÃO: MITO OU VERDADE?


SUPERPOPULAÇÃO: MITO OU VERDADE?
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com

                Não tem sido incomum os meios de comunicação, em especial o televisivo, trazerem à luz a questão relativa ao tema aqui proposto. Iniciativa esta positiva, não fosse a forma muitas vezes equivocada com que o assunto tem sido abordado. A Terra, hoje, possui de fato uma superpopulação a ponto de ser associada a uma “estação lotada”? Apesar da forte tendência de muitos responderem afirmativamente, defende-se aqui, no mínimo, o espaço ao contraponto. Ora, primeiro deve restar claro que a preocupação com uma eventual “explosão” demográfica não é nova. No final do século XVIII e início do XIX, por exemplo, teóricos como Malthus – fundados em princípios deterministas, o que era comum à época – já anunciavam em tom profético que a humanidade estaria fadada à fome, não fossem algumas catástrofes e guerras que faziam às vezes de uma espécie de “seleção natural”. A teoria malthusiana estava baseada na ideia de que há um descompasso entre o crescimento da população e a produção de alimentos. Segundo ele, enquanto o primeiro cresceria de forma geométrica (2,4,8,16,32...), o segundo cresceria de maneira aritmética (2,4,6,8,10...). Ora, ao que tudo indica, Malthus desprezou um fator significativo, qual seja, a capacidade do homem em criar e produzir novas tecnologias. Prova cabal da falibilidade teórica malthusiana é que hoje, mesmo diante de uma população que ultrapassa a casa dos sete bilhões, a capacidade produtiva, segundo indicam muitos estudos, daria conta de alimentar mais de nove bilhões de pessoas. Assim, o que falta não é comida mas, isto sim, condições econômicas por parte de grande parcela da população mundial, alijando-a do acesso a uma dieta alimentar satisfatória do ponto de vista quantitativo e qualitativo. Logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), surgiu uma nova (não tão nova...) teoria, a “neomalthusiana”. Esta, por sua vez, alegava que a prevalência da população jovem nos países subdesenvolvidos seria a principal causa para as agruras socioeconômicas desses povos. Segundo o neomalthusianismo, tal perfil ensejaria gastos estrondosos em saúde e educação, por exemplo, acarretando na falta de recursos para investimentos na produção. Na mesma época, meados da década de 1940, surgiu também a teoria demográfica-reformista. Segundo ela, o subdesenvolvimento e a fome são resultantes, principalmente, da má distribuição da renda e da consequente desigualdade social.

                Se por um lado, há de se ter cuidado com as teorias que demonizam a natalidade nos países subdesenvolvidos, por outro há de se reconhecer que o contingente populacional hoje existente põe em risco os recursos naturais do planeta, muito mais em função da escassez de uma “cultura” voltada à sustentabilidade (inclusive nos países mais desenvolvidos) do que propriamente em decorrência do número de pessoas sobre a face terrestre. Preocupante é, também, o fato de que cerca de 40% da população mundial segue atrelada às formas ultrapassadas de produção, especialmente associadas a algumas atividades do setor primário, como a silvicultura e a pesca. Somado a isso, é vergonhoso o número de seres humanos que vegetam na fome, no analfabetismo, na falta de trabalho e de renda. Parcelas imensas da população mundial seguem à margem das novas tecnologias e das melhorias há muito vivenciadas pelos países desenvolvidos.

                Conclui-se, portanto, que a famigerada “superpopulação” deve ser vista com ressalvas. Certo é que soa como irresponsável a tentativa de atribuir ao contingente populacional dessa ou daquela família, desse ou daquele país, a principal causa da fome ou do subdesenvolvimento. Elevadas taxas de natalidade, por exemplo, antes de serem causa são sobretudo resultado da distribuição desigual das riquezas, seja em nível nacional ou internacional. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A PRIMEIRA VEZ


A PRIMEIRA VEZ
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                Não conseguia esconder o nervosismo. As pernas tremiam. O coração, palpitante, parecia não caber no peito, ansioso por sair pela boca. A respiração sôfrega a exigir esforço hercúleo. A pressão arterial, a medisse, certamente estaria nas nuvens. Apesar do ar condicionado, já de véspera ligado, o coitado suava. Suor frio. Os sentimentos misturavam-se, verdadeiro amálgama de pavor e sedução. Feito a fruta do Éden. Proibida, talvez por isso desejada. Ao olhar aquelas curvas, a maciez aveludada que envolvia a silhueta onde logo depositaria seu corpo, estremecia de prazer. Há quanto tempo aguardava aquele momento. Não faz muito, em meio à roda de amigos, zombavam dele. Talvez fosse o único a não ter experimentado daquele “fruto”. Quem sabe, ainda, fosse puro despeito. O fato é que, no fundo, sentia-se pequeno, menosprezado diante de tantas narrativas alheias a falarem da singular experiência de sentir-se nas nuvens. Narravam a ele cada detalhe, dos banais aos mais picantes, talvez com o intuito de vê-lo sofrer. Ao perceberem que se interessava pelas minúcias, por certo logo deduziam que o pobre era um profundo desconhecedor daqueles “assuntos”. Aí é que o espezinhavam. Falavam das mais variadas e possíveis “posições”. Tinham os que diziam preferir sentados. Outros, ao contrário, defendiam a tese de que de pé era melhor, não fossem as dificuldades de aguentar os solavancos, especialmente quando a “coisa” estava já lá em cima. Alguns preferiam que fosse a dois, outros alegavam que quanto maior o grupo melhor: “é mais divertido!”. Obviamente, não podia deixar de ter sempre o que preferia fazer aquilo sozinho. Gosto não se discute. Alguns admitiam que com um companheiro do mesmo sexo até que poderia ser interessante. Poderiam aproveitar o ensejo para falar de coisas em comum. A maioria, contudo, preferia que fosse com mulheres, de preferência bonitas e de peitos avantajados. Tá bom, até poderiam ser feias, mas os peitos... Afinal, era coisa rápida. Uma ou duas horas. A não ser quando se quisesse ir mais longe... Toda aquela conversa só atiçava nele a necessidade de também deliciar-se. Por que não sentir prazer? Mesmo que pago. Conversa ia e conversa vinha, não tardava, logo soltavam a fatídica pergunta: “e aí, vai ou não vai?”. Sentia, por detrás daquele desafio, uma ponta de maldade. Não tinha dúvida. Mais cedo ou mais tarde iria à desforra. Apesar da idade um tanto que avançada, ia para lá dos quarenta, nunca era tarde para começar. O que perdia, por um lado, em relação ao viço da juventude, por outro ganhava quanto à experiência. O tempo, para alguns, tido por inimigo, para ele era aliado. Propiciara-lhe um olhar agudo, perspicaz, refinado. Os cabelos descoloridos atestavam o equilíbrio e a estabilidade que só os anos são capazes de trazer. Enquanto todos esses sentimentos, pensamentos e emoções o rodeavam, a luminosidade do ambiente diminuía, prenunciando o grande momento. Só em pensar que na hora agá poderia falhar, sentia náusea. Apesar de, ao longo de tantos anos, preparar sua mente para quando o momento chegasse, ainda assim não conseguia disfarçar o medo. Não sabia ao certo se segurava a mão, se puxava conversa, se abria ou fechava os olhos... Temia que fosse mal interpretado ou que fosse tido por fraco e pouco viril. Buscava mentalizar coisas boas. Tudo daria certo. Na hora de levantar, não decepcionaria. Por que com ele seria diferente? Ora, se os amigos conseguiam, por que não conseguiria? A tensão que o atormentava certamente os afligira também. Mesmo que relutassem em admitir. Tinha certeza de que na segunda ou terceira vez, tudo seria mais fácil. Inclusive as preliminares. Como a eterna celeuma entre o dia e a noite, assim eram seus pensamentos naquele instante. Revezavam-se entre bons e ruins. Ele, coitado, feito vítima, mais parecia um ser inanimado. Mal piscava. Queria parecer forte, imponente, senhor de si. Que nada. Cada músculo de seu corpo parecia denunciar o verdadeiro pavor que, vez por outra, o assombrava. Só em pensar que o êxtase poderia se transformar em tragédia, o fazia arrepiar. O delicioso perfume de mulher a pairar no ar, que para alguns despertava sentimentos um tanto que profanos, para ele passava despercebido, tamanho a insegurança que o afligia. Por sinal, quem seria ela? Nome, por que perguntar? Não faria diferença. Não estavam ali para isso. Sem sentimentalismo ou compromisso. Talvez fosse casada, ou não... Era uma mulher de “presença”, apesar da natureza não ter sido muito generosa com sua beleza. Quanto aos peitos... Era loira, talvez um e sessenta ou setenta. Idade? Perto dos trinta talvez. Não tinha idade para ser sua filha, o que era motivo de certo alívio. Já pensou se o chamasse de “tio”? Até podia imaginar... O troço subindo, subindo e, quando já lá em cima, ser chamado de “tio”? O desconforto seria notório. Já não bastasse ter que manter a calma, o sangue a encher-lhe os vasos, ainda ter que ouvir tal disparate? Até por isso, estava decidido em manter-se, tanto que possível, calado. Lado a lado, aqueles corpos sedentos de vida. O dele suado, dado o esforço que fazia para enfrentar tamanho desafio. Ela, ao contrário, aparentava muita calma, quase frieza. Fruto, talvez, de sua provável experiência. Antes dele, quantos mais estiveram junto àquele corpo felino? Quantas e quantas vezes, ela não vira a “coisa” subir? Não queria decepcioná-la. Tremia só em pensar ser motivo de chacota nas futuras rodas de amiga daquela mulher. Pernas para cá, braços para lá. Esperava que fosse mais espaçoso o lugar, mas não. Era um “buraquinho” tanto que apertado. Foi com alguma dificuldade que conseguiu enfiar-se ali dentro, com algum desconforto. Ela, contudo, parecia indiferente aos esforços do coitado. Sequer esboçava um olhar. Nenhum ai, nenhuma reclamação, nenhum elogio. Nada, nada... O ar de superioridade da mulher só fazia aumentar a aflição do pobre homem. Torce daqui, contorce de lá, o que era para ser prazer, aos poucos ia se transformando em indelével e insuportável pavor. Precisava ir ao banheiro. Temia pelo que ela pudesse pensar. Pior, o que dizer aos amigos? Mentir? Dizer que foi inesquecível, ou abrir o jogo e reconhecer seu fracasso. Já podia ouvir as piadinhas e deboches. Preferia, talvez, não mentir, mas omitir alguns “pontos” da aventura vivida. Ressaltar, quem sabe, a beleza da mulher, o tamanho de seus peitos... Jamais, contudo, tocar ou permitir tocar no assunto atinente ao ápice do negócio, que é quando o “troço” sobe. Era desconversar e pronto! O banheiro era pequeno, mas asseado. Sabonetinho de motel, toalhinha macia, um mimo. Enfiado ali dentro, buscava mentalizar, mais uma vez, que tudo iria dar certo: vai dar certo, vai dar certo, vai dar certo... Não deu! Um profundo mal estar o tomou por completo. Jogou uma água na nuca, respirou fundo e contou até dez. Depois até vinte. Procurou acalmar-se. Retornou para o lugar. Ela continuava lá, do mesmo jeito que a deixara. Sequer lançou um olhar, muito menos comentário ou algo que o valha. Apesar de tão próximos, pareciam tão distantes, cada um no seu próprio mundo. Sentia-se cansado. Só ficou mais tranquilo quando, finalmente, o avião em que estava aterrissou. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

OUTONO


OUTONO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com




                Muito tem a natureza para nos ensinar. O que para nós é sinal de luto, para ela representa vida e esperança. Outono traz consigo a queda das folhas. É quando as árvores ficam completamente desnudas. Para o olhar limitado dos pobres mortais, outono traz consigo como que uma espécie de morte, esta em seu sentido mais triste, qual seja, o “fim” absoluto de algo ou alguém. Flagrante equívoco! Outono é vida. Não fosse o cair das folhas, restaria comprometido o belo ciclo da vida. As folhas que hoje caem alimentam e adubam a terra, fertilizando-a. Servem de alimento à própria raiz da árvore que, pela engenharia de Gaia, garante ao vegetal sua permanência durante muitos e muitos outonos, anos e anos. Outono permite, ainda, a sobrevivência de todo um ecossistema, além de ensinar algo cada vez mais esquecido: a solidariedade e o desapego. As folhas que hoje não servem à árvore, por sua vez são indispensáveis e vitais a tantos outros seres. O que seria da miríade de insetos que sobrevivem e se multiplicam a partir das folhas que, aparentemente, não mais são úteis à árvore? O que para esta talvez pareça sobra, para outras criaturas é sobrevivência. Somos como árvores. Em comum, a beleza, a singularidade, a dependência dialética e recíproca. Modificamos e somos modificados. Como elas, porém, somos mortais. Assim como árvores, nos deparamos com toda sorte de intempérie: ventos fortes, chuva torrencial, estiagem e granizo. Não bastasse isso, há que se lembrar da atávica agressão nascida da escassez de valores. Árvores e pessoas sofrem com o egoísmo, a cobiça e a ambição exacerbada. Nós e elas só fazemos sentido a partir do olhar alheio. Não fosse o “outro”, o que seria de ambos? Os relacionamentos é que alimentam a seiva estruturante da vida. Esta é tão rica quanto o são as relações e os afetos. Apesar das semelhanças, nossa teimosia – como venda – impede que aprendamos com as árvores. A lidar, como elas, com a aparente perda. Miramos a dor e o sofrimento que o luto proporciona e deixamos de lado os instantes memoráveis que passamos juntos. O sorriso aberto, os causos contados, o cheiro inconfundível, o calor da presença... Parece que apagamos da memória, preferindo conservar nela a imagem do corpo inerte e gélido. Tendemos a substituir as festas juntas vividas pelos prantos seguidos de pêsames. O coração, ao invés de fortalecido pelas boas e eternas lembranças, serve de trono à tristeza e à dor que alimenta a depressão e enriquece as farmácias. Sejamos como as árvores em outono. Façamos da morte um momento de vida, para nós e para outrem. Aprendamos com a natureza, pois dela fazemos parte e a ela estamos, inexoravelmente, ligados. O ciclo dela é também o nosso. Desejo que a morte suscite, sobretudo, a saudade. Como outono, seja nosso aparente fim. Sirva ele para fertilizar o coração e a alma, ou de pretexto para uma alegre conversa entre amigos e entes queridos. Talvez, ainda, de inspiração para boêmios e poetas. Viva as folhas caídas de outono!

Outono de 2012.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

SIMPLESMENTE LINDA


SIMPLESMENTE LINDA
Gilvan


Não a conheço. Contudo, é como a conhecesse, pois não tem aula que a jovem mãe não fale da Maria Eduarda. Mãe é assim mesmo, boba, coruja, baba pela prole. A Maria Eduarda, assim como muitas outras crianças, parece crescer feliz. Sim, feliz porque amada. O amor desperta não apenas o sorriso, mas acalenta a alma e faz brotar por sobre a Terra homens e mulheres de bem. Saudáveis emocionalmente. Equilibrados psicologicamente. Num país marcado pelo descaso, pelo abandono, pela bastardia, onde seres nascem sem a oportunidade de serem, de fato, crianças, ser amado ou amada, por certo, constitui-se num privilégio. É a Maria Eduarda, mas poderia ser Thaíse, Marcelly, Matheus, Thamires, Samuel ou Leonardo. Crianças felizes. No lugar de cestos de vime, um aconchegante berço. Ao invés de sacos plásticos, boiando sobre a água, a envolver o corpo inocente, mantas e roupas quentinhas a cobrir-lhes o corpo. No lugar do choro desesperado nascido da dor e do gélido frio, o choromingo manhoso de quem almeja pelo colo materno. Filhos não das pedras, mas do amor. Obras não do acaso, como se acidentes fossem, mas sim frutos de um sentimento muito maior, sem fim, imensurável... A voz da mãe ao pronunciar o nome da Maria Eduarda soa como voz de arauto a anunciar um anjo. Como ser diferente? Ah, se pais e mães soubessem o poder das palavras, jamais amaldiçoariam seus filhos. Palavras doces, nem por isso destituídas de firmeza, fertilizam o terreno das emoções e fazem brotar lindos botões e formosas flores. Palavras ofensivas e expressões de desprezo espezinham o coração e machucam a alma, quase sempre, de maneira indelével. Trazem sérias consequências e ignóbeis marcas, às vezes eternas, sobre a vida. Gerações perdidas são aquelas, simples e irresponsavelmente paridas. Seres que nascem do excesso do álcool ou de outras tantas drogas que entorpecem. Contudo, no olhar de crianças como o da Maria Eduarda renasce a teimosa e sempre bem-vinda esperança de que, quiçá um dia, vivamos cercados de crianças lindas, simplesmente lindas...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

ENTREVISTA COM BAUMAN


ENTREVISTA COM BAUMAN
Revista IstoÉ, setembro de 2010


Zygmunt Bauman
"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar"
Sociólogo polonês cria tese para justificar atual paranoia contra a violência e a instabilidade dos relacionamentos amorosos
Adriana Prado
 O sociólogo polonês radicado na Inglaterra Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados e produtivos da atualidade. Aos 84 anos, escreveu mais de 50 livros. Dois dos mais recentes, “Vida a crédito” e “Capitalismo Parasitário” chegam ao Brasil pela Zahar. As quase duas dezenas de títulos já publicados no País pela editora venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico. Pode-se explicar o apelo de sua obra pela relativa simplicidade com que esmiúça aspectos diversos da “modernidade líquida”, seu conceito fundamental. É assim que ele se refere ao momento da História em que vivemos. Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranóia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas. E cada um por si. “Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de ‘progresso’, se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: ‘progresso’, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração”, afirma. Em entrevista à ISTOÉ, por e-mail, o professor emérito das universidades de Leeds, no Reino Unido, e de Varsóvia, na Polônia, falou também sobre temas que começou a estudar recentemente, mas são muito caros aos brasileiros: tráfico de drogas, favelas e violência policial.

ISTOÉ -
 O que caracteriza a “modernidade líquida”?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida.
ISTOÉ -
 As pessoas estão conscientes dessa situação?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Acredito que todos estamos cientes disso, num grau ou outro. Pelo menos às vezes, quando uma catástrofe, natural ou provocada pelo homem, torna impossível ignorar as falhas. Portanto, não é uma questão de “abrir os olhos”. O verdadeiro problema é: quem é capaz de fazer o que deve ser feito para evitar o desastre que já podemos prever? O problema não é a nossa falta de conhecimento, mas a falta de um agente capaz de fazer o que o conhecimento nos diz ser necessário fazer, e urgentemente. Por exemplo: estamos todos conscientes das consequências apocalípticas do aquecimento do planeta. E todos estamos conscientes de que os recursos planetários serão incapazes de sustentar a nossa filosofia e prática de “crescimento econômico infinito” e de crescimento infinito do consumo. Sabemos que esses recursos estão rapidamente se aproximando de seu esgotamento. Estamos conscientes — mas e daí? Há poucos (ou nenhum) sinais de que, de própria vontade, estamos caminhando para mudar as formas de vida que estão na origem de todos esses problemas.
ISTOÉ -
 A atual crise financeira tem potencial para mudar a forma como vivemos?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Pode ter ou não. Primeiramente, a crise está longe de terminar. Ainda veremos suas consequências de longo prazo (um grande desemprego, entre outras). Em segundo lugar, as reações à crise não foram até agora animadoras. A resposta quase unânime dos governos foi de recapitalizar os bancos, para voltar ao “normal”. Mas foi precisamente esse “normal” o responsável pela atual crise. Essa reação significa armazenar problemas para o futuro. Mas a crise pode nos obrigar a mudar a maneira como vivemos. A recapitalização dos bancos e instituições de crédito resultou em dívidas públicas altíssimas, que precisão ser pagas pelos nossos filhos e netos — e isso pode empobrecer as próximas gerações. As dívidas exorbitantes podem levar a uma considerável redistribuição da riqueza. São os países ricos agora os mais endividados. De qualquer forma, não são as crises que mudam o mundo, e sim nossa reação a elas.
ISTOÉ -
 Ao se conectarem ao mundo pela internet, as pessoas estariam se desconectando da sua própria realidade?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Os contatos online têm uma vantagem sobre os offline: são mais fáceis e menos arriscados — o que muita gente acha atraente. Eles tornam mais fácil se conectar e se desconectar. Casos as coisas fiquem “quentes” demais para o conforto, você pode simplesmente desligar, sem necessidade de explicações complexas, sem inventar desculpas, sem censuras ou culpa. Atrás do seu laptop ou iPhone, com fones no ouvido, você pode se cortar fora dos desconfortos do mundo offline. Mas não há almoços grátis, como diz um provérbio inglês: se você ganha algo, perde alguma coisa. Entre as coisas perdidas estão as habilidades necessárias para estabelecer relações de confiança, as para o que der vier, na saúde ou na tristeza, com outras pessoas. Relações cujos encantos você nunca conhecerá a menos que pratique. O problema é que, quanto mais você busca fugir dos inconvenientes da vida offline, maior será a tendência a se desconectar.
ISTOÉ -
 E o que o senhor chama de “amor líquido”?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Amor líquido é um amor “até segundo aviso”, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação. O amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele. Na sua forma “líquida”, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade — mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo. É bom lembrar que o amor não é um “objeto encontrado”, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade.
ISTOÉ -
 Nesse contexto, ainda faz sentido sonhar com um relacionamento estável e duradouro?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Ambos os tipos de relacionamento têm suas próprias vantagens e riscos. Em um mundo “líquido”, em rápida mutação, “compromissos para a vida” podem se revelar como sendo promessas que não podem ser cumpridas — deixando de serem algo valioso para virarem dificuldades. O legado do passado, afinal, é a restrição mais grave que a vida pode impor à liberdade de escolha. Mas, por outro lado, como se pode lutar contra as adversidades do destino sozinho, sem a ajuda de amigos fiéis e dedicados, sem um companheiro de vida, pronto para compartilhar os altos e baixos? Nenhuma das duas variedades de relação é infalível. Mas a vida também não o é. Além disso, o valor de um relacionamento é medido não só pelo que ele oferece a você, mas também pelo que oferece aos seus parceiros. O melhor relacionamento imaginável é aquele em que ambos os parceiros praticam essa verdade.
ISTOÉ -
 O que explicaria o crescimento do consumo de antidepressivos?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Você colocou o dedo em um dos muitos sintomas da nossa crescente intolerância ao sofrimento – na verdade, uma intolerância a cada desconforto ou mesmo ligeira inconveniência. Em uma vida regulada por mercados consumidores, as pessoas passaram a acreditar que, para cada problema, há uma solução. E que esta solução pode ser comprada na loja. Que a tarefa do doente não é tanto usar sua habilidade para superar a dificuldade, mas para encontrar a loja certa que venda o produto certo que irá superar a dificuldade em seu lugar. Não foi provado que essa nova atitude diminui nossas dores. Mas foi provado, além de qualquer dúvida razoável, que a nossa induzida intolerância à dor é uma fonte inesgotável de lucros comerciais. Por essa razão, podemos esperar que essa nossa intolerância se agrave ainda mais, em vez de ser atenuada.
ISTOÉ -
 E a obsessão pelo corpo perfeito?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Não é o ideal de perfeição que lubrifica as engrenagens da indústria de cosméticos, mas o desejo de melhorar. E isso significa seguir a moda atual. Todos os aspectos da aparência corporal são, atualmente, objetos da moda, não apenas o cabelo ou a cor dos lábios, mas os tamanhos dos quadris ou dos seios. A “perfeição” significaria um fim a outras “melhorias”. Na cirurgia plástica, são oferecidos aos clientes cartões de “fidelidade”, garantindo um desconto nas sucessivas cirurgias que eles certamente irão realizar. Assim como a indústria de celebridades, a indústria cosmética não tem limites e a demanda por seus serviços pode, a princípio, se expandir infinitamente.
ISTOÉ -
 O que está por trás desse culto às celebridades?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Não é só uma questão de candidatos a celebridades e seu desejo por notoriedade. O que também é uma questão é que o “grande público” precisa de celebridades, de pessoas que estejam no centro das atenções. Pessoas que, na ausência de autoridades confiáveis, líderes, guias, professores, se oferecem como exemplos. Diante do enfraquecimento das comunidades, essas pessoas fornecem “assuntos-chave” em torno dos quais as quase-comunidades, mesmo que apenas por um breve momento, se condensam —para desmoronar logo depois e se recondensar em torno de outras celebridades momentâneas. É por isso que a indústria de celebridades está garantida contra todas as depressões econômicas.
ISTOÉ -
 Como fica o futuro nesse contexto de constantes mudanças?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de "progresso", se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: “progresso”, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração. De não descer ou embarcar a tempo. De não estar atualizado com a nova moda. De não abandonar rapidamente o suficiente habilidades e hábitos ultrapassados e de falhar ao desenvolver as novas habilidades e hábitos que os substituem. Além disso, ocupamos um mundo pautado pelo “agora”, que promete satisfações imediatas e ridiculariza todos os atrasos e esforços a longo prazo. Em um mundo composto de “agoras”, de momentos e episódios breves, não há espaço para a preocupação com “futuro”. Como diz um outro provérbio inglês: “Vamos cruzar essa ponte quando chegarmos a ela”. Mas quem pode dizer quando (e se) chegar e em que ponte?
ISTOÉ -
 Há cinco anos, a polícia de Londres matou o brasileiro Jean Charles de Menezes, alegando tê-lo confundido com um terrorista. Por que o mundo está tão paranoico com segurança?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Essa obsessão e a nossa gestão dos assuntos globais, responsável por reforçá-la, constituem a ameaça mais terrível à nossa segurança. O fantástico crescimento das “indústrias de segurança”, juntamente com a crescente suspeita de perigo que ela evoca, são motivos para antever uma piora das coisas. Se não por qualquer outro motivo, então porque, na lógica das armas de fogo, uma vez carregadas, em algum elas deverão ser descarregadas.
ISTOÉ -
 No Brasil, a violência é uma questão especialmente preocupante. Como o sr. enxerga isso?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Para começar, as favelas servem como uma lixeira para um número enorme de pessoas tornadas desnecessárias em partes do País onde suas fontes tradicionais de sustento foram destruídas — para quem o Estado não tinha nada a oferecer nem um plano de futuro. Mesmo que não declararem isso abertamente, as agências estatais devem estar felizes pelo fato de o povo nas favelas tomar os problemas em suas próprias mãos. Por exemplo, ao construir seus barracos rapidamente e de qualquer forma, usando materiais instáveis, encontrados ou roubados, na ausência de habitações planejadas e construídas pelas autoridades estaduais ou municipais para acomodá-los.
ISTOÉ -
 Essa ausência do Estado abriu espaço para os traficantes. O combate às quadrilhas às vezes é usado com justificativa para excessos da polícia. Por que tanta violência?
ZYGMUNT BAUMAN -
 As relações entre a polícia e as empresas de tráfico de drogas são, na apropriada expressão de Bernardo Sorj (sociólogo brasileiro, professor da Universidade Federal do Rio), “nem de guerra nem de paz”. Esse amor e ódio entre as duas principais agências de terror aumenta o estigma da favela como o local da violência genocida. Ao mesmo tempo, porém, também contribui para a “funcionalidade” das favelas na manutenção do atual sistema de poder no Brasil. A polícia brasileira tem um longo histórico de tratamento brutal aos pobres, anterior à proliferação relativamente recente das favelas. A brutalidade da polícia é mesmo para ser espetacular. Como não é particularmente bem sucedida no combate à criminalidade e à corrupção, a polícia, para convencer a população de seu potencial coercitivo, deve assustá-la e coagi-la a ser passivamente obediente.
ISTOÉ -
 O sr. vê uma solução?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Algo está sendo feito, mesmo que, até agora, não seja suficiente para cortar um nó firmemente amarrado por décadas, senão séculos. Um exemplo é o Viva Rio (ONG que atua contra a violência). Pequenos passos, talvez, sopros não fortes o suficiente para romper a armadura do ressentimento mútuo e indiferença moral de anos entre “morro” e “asfalto” no Rio. Mas a escolha é, afinal, entre erguer paredes de pedra e aço ou o desmantelamento de cercas espirituais.
ISTOÉ -
 O que o sr. diria ao jovens?
ZYGMUNT BAUMAN -
 Eu desejo que os jovens percebam razoavelmente cedo que há tanto significado na vida quando eles conseguem adicionar isso a ela através de esforço e dedicação. Que a árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos.

FAZENDO O KIKO LEVANTAR
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com



Apesar de aparentemente pornográfico, o título nada tem de imoral. Ao contrário. Serve, quem sabe, de incentivo às boas ações e ao exercício de cidadania. Não faz muito, um fato interessante – apesar de corriqueiro – suscitou minha atenção. Uma aluna da EJA (antigo Supletivo), de uma escola encravada na periferia, chamara atenção de um colega, mais novo, por este ter jogado papel ao chão. Irresignada com a ação, a aluna exigiu que o colega não apenas juntasse, mas que levasse o lixo até o local adequado para depositá-lo. Quantas lições se pode tirar de fato tão pitoresco: a primeira delas, é de que a origem social não é justificativa capaz de condenar ou absolver alguém de seus erros e acertos. Nascer, crescer, trabalhar, estudar, morar, enfim, viver na periferia não pressupõe aversão aos princípios universais de convivência. Nem tampouco significa abrir mão da higiene, do respeito ao meio e às pessoas que nele convivem. Escassez de recursos e falta de bom senso não precisam, necessariamente, estar casadas. A segunda lição é a de que a cidadania se dá a partir de pequenos gestos. Prescinde dos holofotes da mídia ou de matérias jornalísticas. Fazer o bem e agir corretamente deveria ser a regra, jamais a exceção. A honestidade, o respeito, a solidariedade e a ética deveriam ser tão natural e “automático” quanto piscar ou respirar. Uma outra lição, a terceira – se não me trai a memória –, é a de que, em princípio, sempre é tempo para começar. Não importa a idade, nem tampouco o tempo que se perdeu. Boas ações são sempre bem-vindas. O Kiko, como ia dizendo, foi chamado atenção pela colega. Gesto bonito. Firme, mas educado. Sem rodeios, mas amoroso. Típico de quem quer bem. Só “puxa a orelha” aquele que, de fato, está preocupado com o outro. Quem ama, educa. Educar, às vezes, significa repreender. Mais tarde, o tempo dirá o quanto este ou aquele safanão fora importante. A surpresa inicial do Kiko ao ser repreendido, logo deu lugar – no fundo – à admiração: alguém se importou com ele. O gesto da colega, talvez mal interpretado pelos mais desavisados, servira de lição, não apenas para o simpático Kiko, mas para o grupo como um todo. O mundo, o país, a cidade, a escola precisa de pessoas capazes de fazerem o “Kiko” levantar. Homens e mulheres que não se omitam, que não titubeiem frente às injustiças, barbáries e ofensas, especialmente aquelas que firam a ética e os mais elementares princípios de convivência. Precisa-se de homens e mulheres valorosos, mais preocupados com o “fazer” do que com o “dizer”. O velho e carcomido discurso do “politicamente correto” – que, como mantra, mais nos fazem cansar do que agir –, não raras vezes, descomprometido, deve ceder lugar à práxis instigadora de mudanças e de transformações positivas. Parabéns para aquela que fez o Kiko levantar.  

quarta-feira, 9 de maio de 2012

JUSTIÇA SOCIAL: O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO DESENVOLVIMENTO


JUSTIÇA SOCIAL: O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO DESENVOLVIMENTO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com


                País desenvolvido é aquele que garante à esmagadora maioria da população boa qualidade de vida. Mais do que números positivos na balança comercial, no PIB, nas taxas de crescimento do mercado interno, etecetera e tal, o que realmente caracteriza um país desenvolvido é a qualidade do ensino, do atendimento médico-hospitalar, da segurança, dos meios de transporte, do saneamento básico, do acesso à informação, do lazer, da infraestrutura, entre outros. O desenvolvimento de um país é medido, ainda, pelo nível de confiança das pessoas nos aparelhos e órgãos do Estado, na capacidade dos entes públicos em darem respostas rápidas e eficazes às demandas suscitadas pelos cidadãos. Um país desenvolvido é aquele que transforma os balancetes frios da economia em escolas, hospitais, praças, rodovias, teatros, etc. País desenvolvido é o que tem seus Poderes constituídos verdadeiramente livres e independentes, jamais amasiados com interesses privados. Desenvolvido é o país que tem ojeriza à corrupção e ao ganho que nasce nas entranhas do crime, organizado ou não. País desenvolvido é o que expurga, de forma exemplar, os que – togados ou não, graduados ou sem estudo, ricos ou sem grandes posses – ofendem os princípios da moralidade, da impessoalidade e da gestão séria e comprometida com o real interesse público. País desenvolvido é o que valoriza a produção, mas também aquele que produz. É o que acredita no ser humano e protege a vida. Desenvolvido é o país que se coaduna à sustentabilidade. É aquele que supera o discurso fácil e transforma em realidade a letra fria e morta da lei. Portanto, o Brasil, nem de perto, é um país desenvolvido.

                Nosso país precisa avançar muito no que tange à justiça social e distribuição de renda. Apesar das inegáveis melhorias no aumento do mercado interno e no poder de compra das classes mais baixas – alavancadas por uma perigosa e cara ciranda de crédito aparentemente fácil –, o Brasil ainda convive com enormes e vergonhosos bolsões de miséria. O campo segue marcado pela distribuição desigual das terras, incitando conflitos fundiários com consequências nefastas não apenas para os mais fracos, mas para sociedade como um todo. A relação entre capital e trabalho, apesar de mais estável do que tempos idos, segue a reboque de uma legislação que, por um lado, onera de forma irresponsável o empregador, enquanto, por outro lado, insiste em retirar dos trabalhadores direitos historicamente conquistados. Nunca o Estado arrecadou tanto, resultado de uma insana carga tributária a encarecer o chamado “custo Brasil”, contudo – ainda assim –, nunca esteve tão ameaçado o sistema previdenciário, trazendo profunda insegurança e injustiça no que tange à maioria dos atuais e futuros aposentados. Insegurança é, também, o sentimento que aumenta de forma geometricamente proporcional à permissividade, inoperância, ineficiência, ineficácia e incompetência dos aparelhos preventivo e repressivo do Estado. Estado e crime organizado, por vezes, se confundem. As penas aplicadas aos criminosos, apesar de nem sempre serem em tese brandas, na prática servem de zombaria e pilhéria, haja vista o não cumprimento – de fato – das mesmas. Os presídios, país adentro, são antros do tráfico, da prostituição, das doenças infectocontagiosas, em nada contribuindo para ressocialização dos presos. Servem, tão somente, a interesses espúrios de alguns narcotraficantes associados a alguns inescrupulosos protegidos, às vezes, por mandatos, diplomas ou cargos que, na prática, alimentam o ciclo da corrupção. Enquanto isso, a população segue refém do medo e do sentimento de impotência, para vergonha de toda uma nação.

                Assim, o desenvolvimento – pautado na justiça social – segue sendo, ainda, um sonho distante. Apesar disso, possível. Contudo, a melhoria na qualidade de vida da população passa, necessária e obrigatoriamente, pela “refundação” do Estado. Este precisa ser, urgente e profundamente, transformado, remodelado, assentado em outras bases que não a do clientelismo, personalismo, empreguismo e outros “ismos” infames que servem, tão-somente, para perpetuar privilégios de uma casta que, a cada dia, enriquece às custas da maioria. Esvaem-se não apenas recursos, mas confiança e credibilidade no Estado. Este, no Brasil hodierno, é dispensável, pois apesar de excessivamente caro, não presta, não funciona, não responde aos anseios de quem o sustenta. O Estado brasileiro, há muito vem sendo um enorme cabide de empregos, estáveis e, não raras vezes, muito bem remunerados. Um Estado que serve aos interesses, quase que exclusivamente, da própria “máquina”, não precisa existir. Não merece existir. O Estado só tem sentido enquanto, de fato e de direito, “serve” ao cidadão.  

                Ano eleitoral é um bom momento, infelizmente –  às vezes – o único, de reflexão. Que país desejamos? Que município sonhamos? Uma cidade para poucos ou para a maioria? Um município que fique à margem da capital ou forte e respeitado? Uma cidade excludente ou acolhedora? Cachoeirinha precisa sair das sombras de Porto Alegre. Necessita ganhar vida. Nossa cidade precisa superar a histórica e triste imagem de uma “avenida cercada de vilas”. Precisamos criar e investir em espaços culturais, escolas, saneamento básico, postos de saúde, hospitais, geração de emprego e renda, segurança pública e sistema viário, por exemplo. Para tanto, faz-se necessário um Poder Público sério e forte. Indispensável é que se tenha um Executivo “limpo” e transparente. Não menos urgente é um Legislativo afinado aos interesses da coletividade. A Câmara precisa ser depurada e renovada. Figuras “dinossáuricas” – algumas delas destituídas do preparo intelectual que se espera de um representante do povo – soam, hoje, como anacrônicas. Politiqueiros que pautam sua atuação na troca de favores e numa “rede” imoral (apesar de “legal”) sustentada por CCs e FGs, todos pagos com dinheiro público, não são merecedores do sagrado mandato parlamentar. Candidatos que usam de seu poder hierárquico como instrumento de pressão sobre os eleitores não merecem a investidura que nasce das bases. Assim, façamos do pleito de outubro um momento de verdadeira mudança. Deseja-se que a reflexão, o espírito crítico e propositivo, enfim, o exercício da cidadania, promovam profundas mudanças em Cahoeirinha. Seja nosso município motivo de orgulho, não do tipo ufanista, mas um orgulho pautado nos mais nobres valores da solidariedade, da honestidade, do espírito público, da ética. Somente assim, promoveremos justiça social e, com ela, o verdadeiro desenvolvimento. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

FILHOS E TEXTOS


FILHOS E TEXTOS
Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com

                Filhos se parecem com textos. Por mais feios que, para os outros, possam parecer, para nós são as criaturas mais belas. Os concebemos, a ambos (filhos e textos), muito antes de nascerem de fato. Mesmo antes de existirem, já os imaginávamos assim ou assado. Filhos e textos vão se constituindo a cada momento. São um eterno devir. Podem ter uma vírgula a mais, um ponto a menos, muitas exclamações e um número sem fim de interrogações. Não interessa, são nossos. Os amamos. São produtos de nosso ser, oriundos das mais profundas entranhas. Revelam um tanto daquilo que somos e acreditamos. Como dizem os amigos: “a cara de um, o focinho de outro!”. Nem poderia ser diferente. Tal pai, tal filho. Tal criador, tal criatura. Tal escritor, tal texto. Teimamos em mostrá-los a terceiros. Sinuosos ou não, tortos ou ajeitadinhos, pequenos ou grandes, prolixos ou boçais, são o nosso orgulho. Olhos de pai (e de escritor) são cegos. Às vezes, é bem verdade. Outras vezes, nem tanto. Como textos, os filhos até podem parecer “acabados”, prontos. Para quem os cria, sempre falta algo. Teimamos em “largá-los” para o mundo. Quando saem, deixam como que um profundo vazio, um sentimento de abandono. É para o bem deles, sabemos. Deles e, é claro, do mundo. Porém coração de pai é assim mesmo... Espécie de egoísmo, não daquela espécie vil, mas um egoísmo virtuoso, aceitável e, por que não, admirável. Filhos e textos representam para nós, que os criamos, o que nem sempre representam para os outros. Para estes, talvez prosa. Para nós poesia. Para aqueles, afirmação, para nós dúvida. Para os outros, crítica, para nós condescendência. Talvez não percebamos – nós, pais e escritores – que uma vez lançados ao mundo, nossas criações e criaturas têm vida própria. Mesmo antes, talvez. É duvidar, até mesmo os textos têm vontade própria. O que não dizer, então, dos filhos? Traçamos, de antemão, o destino dos filhos e dos textos. Contudo, assim como o enredo, a vida nos prega peças. Insistir? Que jeito? Tentar, até que tentamos. Insistimos daqui, escrevemos dali... Sem sucesso, muitas vezes. Nossas obras-primas (em forma de linhas ou de gente), por vezes, criam asas. Autonomia que, muito antes de envergonhar aqueles que as concebem, enche de orgulho. Serão, quem sabe, porta-vozes e instrumentos dos valores que acreditamos. Livros e filhos devem semear virtudes. Assim o fazendo, terá sido válido cada minuto vivido, cada palavra escrita. Mais do que belas capas ou roupas de grife, o que se quer é conteúdo. Filhos se parecem com textos.  


Ver:  http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=newsletter&idNews=16428&idPai=554&id=16429