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domingo, 4 de dezembro de 2016

A BASTILHA



A BASTILHA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

                Menos pomposa e conhecida do que a de Paris, a Bastilha do Planalto Central quiçá tenha um destino parecido com a da capital francesa. Tomada pelos ratos da República, a Bastilha tupiniquim tem servido de palco não apenas a longos discursos vazios e mal escritos, mas à aprovação de leis que reforçam o status quo perverso, marginalizando a maior parte de nossa gente. Historicamente usurpada por uma classe política eleita, muitas vezes, por meios espúrios, a Bastilha do Planalto Central tem sido não fonte de esperança de um povo, mas de vergonha e descrédito no presente e no porvir. Não por acaso, na calada da noite, leis são gestadas e aprovadas, escarnecendo o interesse público e violentando, despudoradamente, a vontade popular. Acastelados em seus interesses inconfessáveis, acostumados a ardis e mesquinhas práticas, escondidas sob a máscara do foro privilegiado, larápios de toda espécie infestam a Bastilha. Enfiados em seus ternos bem alinhados, fajardos lotam os gabinetes. Estes, como bueiros, exalam o mau cheiro das consciências corrompidas pela ganância. A mesa farta da Bastilha, a contrastar com a fome do povo, só faz recrudescer a ignominiosa contradição. Enquanto o contribuinte, o trabalhador, o produtor e o empresário honesto veem o próprio suor escorrer pelo rosto e os vinténs fugirem pelo sumidouro da insana carga tributária, facínoras regurgitam seus dólares em contas secretas nos paraísos fiscais. Feito piranhas, os ocupantes da Bastilha, com maestria e invejável agilidade, unem-se para rasgarem a carne do brasileiro, num frenesi doentio e sem limite. É duvidar, sequer ficam os ossos para contarem a história. Ideologias e siglas partidárias são postas de lado, revelando o instinto assassino da bandalheira da Bastilha. Desdenham e traem o eleitor, fazendo pouco caso das promessas de campanha. Feito vermes, não têm palavra. Desonestos, indignos, repugnantes. Ao morrerem, não deixarão saudade e a história há de sepultá-los na vala comum dos indigentes, não daqueles sem posses, mas dos destituídos do maior patrimônio da pessoa humana, a saber, os valores universais e atemporais da ética, verdade e hombridade. Fazem lembrar não homens, mas moscas em torno da própria imundice. Seus perfumes caros, automóveis potentes, coberturas luxuosas e rechonchudos saldos bancários são insuficientes para torna-los verdadeiros homens e mulheres. Desmerecem a Bastilha. Esta não é para eles. Desratizemos seus corredores e usemos de todos os meios para torná-la um símbolo nacional. Pelo voto ou pelo fórceps, extirpemos a praga que tomou conta da Bastilha. Esta é patrimônio do povo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

UNIPARTIDARISMO: DEMOCRACIA A PIQUE

UNIPARTIDARISMO: DEMOCRACIA A PIQUE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Dentre as marcas de um governo totalitário, merece destaque a inexistência de partidos políticos ou, na melhor (pior?) das hipóteses, o unipartidarismo. As ditaduras, ao que tudo indica, preferem esta última “saída” à primeira. Assim, acreditam conseguir esconder suas práticas espúrias por detrás de uma falsa imagem de democracia. Mantém-se o formalismo e, sob seu teto, esconde-se a repressão a toda e qualquer espécie de oposição. O último pleito, em muitos municípios gaúchos, revelou o que já sabíamos, a saber, a flagrante tentativa de alguns setores em acabar com a dita “esquerda”. Para tanto, há algum tempo, tem sido recorrente uma poderosa e milionária propaganda midiática contra grupos políticos ideologicamente identificados com o marxismo, por exemplo. O fracasso de tais partidos nas urnas, por certo, é resultado, em parte, dos equívocos por eles praticados, traindo a esperança de grande parcela da população, especialmente a mais pobre. Contudo, inegável é, também, a orquestração de grupos políticos e econômicos com intuito de espezinharem projetos alternativos que pudessem ou possam colocar em risco o pérfido status quo. Para os “donos do poder”, algumas plataformas soam como inaceitáveis, especialmente aquelas que visam a distribuição de renda e o fortalecimento de políticas afirmativas. Demoniza-se a “esquerda”, como se a “direita” fosse o repositório da solução à violência, desemprego, precariedade da educação e saúde públicas. Ora, a história é reveladora: foram os setores que hoje fazem apologia da moralidade e da ética os que, ainda ontem, se locupletaram com os benesses da República Velha, do voto de cabresto, do populismo, da ditadura... Como apregoar equidade e justiça social com um passado maculado pela perfídia e insensibilidade em relação aos desvalidos? Como discursar em favor da probidade frente a um passado improbo? Como falar em esperança diante de uma história marcada pelo descaso quanto aos mais necessitados? Respaldados, por vezes, num Judiciário falido e sem crédito, alguns grupos políticos não conseguem disfarçar um misto de alegria orgástica e doentia com o insucesso dos “adversários”. Estamos a caminhar em direção a uma espécie de “unipartidarismo”, não literal obviamente. Ao contrário, nunca tivemos uma miríade tão grande, confusa e insana de agremiações partidárias, a maioria, verdadeiros balcões de negócio. São partidos ideologicamente vazios, voltados à obtenção e/ou manutenção de privilégios individuais ou de grupos. A pretensa “governabilidade” – comprada a preço de compadrios regados a cargos de confiança, funções gratificadas e outras trocas de favores – é garantidora, sobretudo, de vis privilégios e mesquinhos projetos pessoais de poder, em detrimento do interesse coletivo. Ganham alguns poucos, enquanto perde a sociedade como um todo. Tende-se a outra forma de “unipartidarismo”, travestido de “base governamental”. A “governabilidade” é o pretexto favorito, apesar de surrado, para incontáveis conchavos e troca de favores. À luz do dia, o interesse público é violentado sob o olhar complacente daqueles que, por força de lei (já que desconhecem a ética...), deveriam zelar pelo Estado democrático de Direito. Serve a quem e para quem o arcabouço jurídico? Ao que tudo indica, expressões como “impessoalidade” não passam de verbetes acadêmicos, indigestos no mundo dos fatos. Caminhamos em direção a uma ditadura “branca”, sutil, mas não menos cruel e danosa do que aquela que nos atormentou ao longo de duas décadas. É sôfrega nossa democracia e combalida, apesar de teimosa, nossa esperança. O futuro incerto aponta em direção às brumas, restando a desconfiança de que marchamos em direção ao precipício. 

domingo, 11 de setembro de 2016

À MINGUA

À MINGUA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Morrer à mingua. Conhecem a expressão? Certamente. O problema é vivenciá-la, levá-la à literalidade. Seria, quem sabe, à letalidade? É, o governo de Cachoeirinha, assim como do estado do Rio Grande do Sul, tem conseguido dar vida às mais fúnebres expressões. Antes, cidade “dormitório”. Hoje, cidade “pesadelo”. As aves que por aqui gorjeiam são as da pior espécie. Sujam as ruas com suas fezes mal cheirosas, robustecendo o chorume da perfídia e da vileza. O arrulho que soltam por entre os bicos lembram uma espécie de insuportável mantra. Os mesmos bicos que não cansam de arrancar enormes nacos da pouca carne que ainda resta do mísero contribuinte. Enquanto sobre a tribuna da Casa do Povo pavoneiam-se algumas aves de rapina com aqueles discursos mal elaborados, a denunciarem a fragilidade intelectual das mesmas, paira sobre a cidade uma profunda escassez ética. Daí, talvez, tantas diárias gastas em viagens obscuras e destituídas do mínimo pudor quanto ao dinheiro público. Qual a intenção? Apagar as digitais e pegadas de práticas indecorosas? Por que tantos cursos, seminários e simpósios? A ignorância não as abandona. Mal conseguem articular meia dúzia de palavras. Por que tantas idas e vindas à capital federal? Identificam-se, quiçá, com o ambiente daquela que é o maior símbolo de nossa débil e fracassada República. Cachoeirinha está jogada às moscas. Homicídios, latrocínios, roubos, estupros... Nada vale uma vida por aqui. Buracos nas ruas confundem-se com os dos cachimbos do crack. O tráfico se alastra, multiplicando o exército de zumbis que assombra a cidade e põe por terra qualquer faísca de esperança. A sujeira das ruas entope não apenas as bocas-de-lobo, mas, ao que parece, também as veias e artérias que alimentam a (in)consciência de quem governa. Os já caóticos serviços públicos conseguem piorar dia após dia. Crianças, mulheres e idosos veem suas dores sendo agravadas pelo nefasto descaso do Poder Público em relação à saúde. Sobram filas, faltam médicos, leitos e medicamentos. Sobra incompetência, falta humanidade. Alunos aprendem cada vez menos. Entra ano, sai ano, e nossos pupilos seguem à margem do conhecimento minimamente razoável. Quanto potencial desperdiçado em meio à tamanha mediocridade. Enquanto recursos públicos esvaem pelo ralo – em parte, para alimentar os “cortesãos” a mamarem nas tetas do Poder –, servidores públicos concursados minguam. Homens e mulheres que, apesar de terem ingressado pela “porta da frente”, seguem alijados dos “manjares” servidos à mesa. Sobram-lhes menos do que as migalhas. Parcelam-lhes o salário e esfacelam sua dignidade. Não bastasse, exigem deles abnegação e estoica resignação, numa brutal inversão de valores, onde a vítima torna-se algoz. É duvidar, a dívida social recai sobre o colo dos municipários, como se estes fossem os responsáveis pelos desmandos da cidade. Cachoeirinha precisa reagir, expurgar os larápios de toda ordem e de todas as espécies, inclusive aqueles que têm na lábia sua principal arma de manutenção do poder e dos privilégios. Sirva teu voto na urna, como fogo na pira, para queimar os cadáveres que teimam em levantar a cada pleito, infestando nossa cidade com seu cheiro nauseabundo. Morram eles à mingua, e não os valentes servidores que, como titãs, garantem alguma dignidade à Cachoeirinha. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

INDEPENDÊNCIA, PARA QUEM?


INDEPENDÊNCIA, PARA QUEM?
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Cento e noventa e quatro anos! Sonho duradouro este, não é mesmo? Quase dois séculos de história, desde a dita “independência” e continuamos como que a sonhar. A ideia de um país verdadeiramente livre, justo e solidário segue ainda no plano do discurso, vez por outra inflamado pela disputa eleitoral. A prosperidade até que deu as caras por aqui, mas apenas para uma minoria. Enquanto isso, a maioria de nossa gente – assim como os escravos de outrora – segue à margem da boa qualidade de vida. Nossa pátria tem sido “gentil” apenas para alguns poucos. Educação, saúde, segurança, assim como a renda, têm faltado à maioria. A grandeza do território e a pujança do subsolo contrastam com a esperança esfarrapada de nosso povo. Enormes clareiras, impulsionadas pela ganância, vêm acabando com o verde da bandeira, enquanto o amarelo tem sido surrupiado pela corrupção endêmica que contamina todas as esferas do Poder. O azul, há horas sombreado pelas brumas do egoísmo, ostenta não mais estrelas, mas pontas de baseados embebidas no cheiro nauseante saído de cachimbos tomados de pedra que levam à morte. O que antes era branco, agora é luto. Ouve-se, por toda parte, gritos de socorro. Mães desesperadas veem seus rebentos serem tragados pelo tráfico e por toda sorte de violência. Para elas, filhos. Para o Estado, números. Para elas, a tristeza e saudade eternas. Para o Estado, estatísticas. O que vale a vida por estas terras? Um par de tênis, um boné, um celular, um carro ou, quem sabe, um punhado de reais? Como bastardos, não temos sido reconhecidos por este país. A Constituição, feito letra morta, pouco mais serve do que carne putrefata aos vermes e abutres vestidos em suas togas a pousarem em tribunais asseados e astronomicamente distantes da realidade de quem os sustenta. É, o tempo passou e a real independência não veio. Por que então comemorar? Há razões para fazê-lo? Sim e não são poucas. Muitos são os que ainda teimam em crer no amanhã. Mais do que “crer”, levantam todo dia dispostos a “agir”, transformando mera intenção em ação. Estudantes, professores, serventes, porteiros, operários, empresários, médicos, advogados, servidores públicos... Empregados, patrões, desempregados, aposentados, pensionistas... Letrados, analfabetos, atletas, enfermos... Enfim, um universo de crianças, jovens, homens e mulheres que teimam em fazer “seu melhor”. Não titubeiam em optar pelo caminho da ética, da alteridade e da resiliência, esta jamais confundida com subserviência. Amigos que são da verdade e da justiça, enjeitam o dinheiro fácil e desonesto. Trilham o caminho da (auto)disciplina e do interesse coletivo, sem perder de vista o respeito às diferenças, ainda que incômodas. Não menor do que o Brasil, é o senso de justiça que brota em meio à indiferença e desesperança. No interior das casas, escolas, fábricas, hospitais, quarteis, igrejas e canteiros de obra pulsa uma esperança propositiva, irrequieta, explosiva, capaz de subverter qualquer status quo, ainda que com aparência atávica. Ora, que a fajuta independência registrada nos livros didáticos possa dar lugar à verdadeira, a saber, uma independência construída no dia-a-dia, nas relações de poder estabelecidas entre pais e filhos, homens e mulheres, governantes e governados, professores e educandos. País independente é aquele que prima pelo respeito à dignidade da pessoa humana, pela proteção e valorização da vida, pela educação fundada na qualidade, pela aplicação impessoal da lei, pela garantia de oportunidades iguais a todos, pela manutenção da ordem respaldada na soberania popular e pela capacidade de manter acesa a tão necessária esperança. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ROSAS, AINDA QUE COM ESPINHOS

ROSAS, AINDA QUE COM ESPINHOS...
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Há muito, nossa cidade sente falta do frescor das rosas. Estas, sufocadas pela insensibilidade fria do concreto e do asfalto, parecem ter sucumbido. Contudo, feito a esperança, ainda que tênue, o perfume das rosas resiste à maldade humana e teimosamente borrifa o ar com seu inigualável cheiro. Mesmo o mais forte odor do chorume, resultante do  engodo e da falta de ética, se mostra incapaz de liquidar, por completo, a simples – mas poderosa – fragrância das rosas. Insuperáveis na capacidade de encantarem, não são poucos os que tentam criar artifícios com o vão intuito de imitá-las. Imbecis. Não sabem eles que a beleza das rosas reside na simplicidade? Esta não tem preço. Rosas são belas não por serem caras, mas por serem tão-somente rosas. Ao contrário dos vermes camaleônicos que mudam de tez partidária conforme a direção do vento e de acordo com os interesses espúrios e inconfessáveis, consubstanciados em projetos de poder, as rosas permanecem firmes e resolutas. Esperam e querem ser aceitas como são: rosas. Os espinhos são tidos por elas não como empecilho ou vergonha, mas como virtude. Através deles, as rosas falam e sentem-se vivas. Como porta-vozes, os espinhos nos fazem lembrar que somos homens, portanto mortais. Daí, quem sabe, serem as rosas mal quistas pelos ditadores e por aqueles que se veem como eternos. Impérios são desnudos ante o poder avassalador dos espinhos. Pode alguém resistir à imperiosa verdade revelada pelas rosas? Cachoeirinha precisa mais de rosas. As ruas escuras e tomadas pelo medo, enlameadas pelas drogas que entorpecem e transformam gente em trapo, gritam por socorro. Indigentes, prostitutas, trabalhadores e toda sorte de gente esquecida pela “mãe gentil”, feito gado no abatedouro, lutam contra um destino aparentemente selado. O sorriso forçado e o impecável traje do candidato estampado na foto ao fundo só faz esgaçar o vergonhoso fosso entre governantes e governados. A quem pertence a cidade? Assim como as rosas, homens e mulheres de bem foram perdendo espaço para homicidas, estupradores, estelionatários, corruptos, traficantes e falsos políticos. Falsos porque fazem da política ferramenta para enriquecimento próprio. Sevem-se do eleitor e locupletam-se, fazendo do Estado meio para obtenção de vantagens sórdidas e mesquinhas. Tamanho egocentrismo e ganância mal cabem no interior do terno alinhado. Brincam e zombam da lei, sob o olhar embasbacado de um Judiciário pífio. Assim como as rosas, homens e mulheres de bem existem não para serem ardilosamente manipulados. Cachoeirinha precisa mais de rosas. Contagiem a cidade com sua beleza! Jamais seja a delicadeza das rosas confundida com subserviência. Rosas são pétalas, mas também espinhos! Afagam, mas também espetam! Fazem-se presentes entre apaixonados e debutantes, mas também entre seguidores do féretro. Aparecem no altar, mas também sobre a lápide. Invadam as rosas os espaços públicos! Ocupem a Câmara e demais repartições públicas! Espalhem seu bálsamo sobre a política da cidade, dando-lhe real significado e fazendo ressurgir a necessária e indispensável esperança. Cachoeirinha precisa mais de rosas!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

E.I


E.I
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                As iniciais acima trazem à lembrança o Estado Islâmico, mas também o Estado Irresponsável, o Estado Inconsequente, o Estado Insano... O que têm eles em comum? Tudo! Inegável é a relação, por exemplo, entre o avanço das ideias do Estado Islâmico e a miséria e vulnerabilidade da população. A omissão do Estado e a precariedade dos serviços públicos são como fermento que leveda a massa da revolta e indignação daqueles que diuturnamente são vomitados para longe do bem-estar social. Quantas vidas foram ceifadas, ao redor do mundo, pelo Estado Islâmico nos últimos doze meses? Quantas vidas, no Brasil, foram tiradas, em igual período? Alguma dúvida sobre onde reside, de fato, o maior perigo? A violência urbana neste país tem gerado consequências infinitamente mais funestas do que o famigerado grupo terrorista. Computemos, então, as vítimas do falido sistema de saúde e da carnificina do trânsito brasileiro e veremos que o Estado Islâmico mais parece brincadeira de criança. Qual o verdadeiro alcance do discurso odioso do Estado Islâmico para nós brasileiros? Será maior do que o histórico engodo travestido em promessas de nossas campanhas eleitorais? Quem mais mata, ameaça, oprime e aterroriza em nossas terras? Quem mais alicia, mente, suborna e entorpece nossa gente? Será o Estado Islâmico ou “nosso” (!?) Estado? Quem tem por triste hábito extorquir o contribuinte por meio de uma insuportável carga tributária, sem a devida contraprestação? Será o Estado Islâmico? Quem tem fechado os olhos à atávica miséria de nosso povo? Quem tem assistido e garantido a manutenção de privilégios corporativos de um grupo de togados e engravatados, sob o argumento esfarrapado da “independência e autonomia dos Poderes”, enquanto a maioria de nosso povo segue entregue às moscas? Será o Estado Islâmico? Quem alimenta a impunidade por meio de leis falhas e um sistema prisional que mais faz lembrar as masmorras medievais? Quem alija nossas crianças e jovens de uma educação de qualidade? Quem faz vistas grossas à corrupção endêmica há muito enraizada nas estruturas do poder? Será o Estado Islâmico? Quem confunde o público e o privado? Quem coloca o interesse individual espúrio à frente do interesse coletivo? Quem aniquila o direito e esperança de um povo? Quem surrupia dinheiro público ou frauda licitações? Quem faz “parcerias” com o crime organizado? Será o Estado Islâmico? Quem transforma o ente público em cabide de empregos, tomado de CCs que, em regra, pouco mais fazem do que empunhar bandeirinhas em período de campanha? Quem transforma repartições públicas em ilhas regadas a leite e mel, enquanto quem paga a conta vegeta na fome e desesperança? Será o Estado Islâmico? Quem fiscaliza as Agências Reguladoras que, salvo exceções, não passam de redutos de apadrinhados? Quem cria e mantém o profundo fosso que separa as poucas aposentadorias rechonchudas daquelas que são incapazes de garantirem a subsistência mínima de milhões de velhinhos? Quem mantém e fiscaliza as polícias que, muito comumente, ultrapassam o tênue limite do abuso de poder ou se deixam levar pelo mundo do crime? Será o Estado Islâmico? Por que então, toda preocupação com este último? Estamos tentando provar o “quê” e para “quem”? Valem mais os olhos do “mundo” do que os de nosso povo? Enquanto o aparato policial se debruça sobre criadores de galinhas do interior do Rio Grande do Sul, as raposas seguem soltas. Enquanto o discurso oficial se volta contra a etérea ameaça jihadista, nosso país segue entregue à triste sorte. Até quando? O terrorismo internacional precisa ser tratado com cuidado e responsabilidade, mas, não tenho dúvidas, nem de perto é nosso maior problema!

sábado, 26 de março de 2016

TERNEIRO MAMÃO


TERNEIRO MAMÃO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                No centro da atual e, ao que parece, interminável crise política que o país atravessa, o PMDB pousa como uma espécie de fiel da balança. Logo ele, um partido que – como nenhum outro – sempre esteve de braços dados com o Poder. Feito terneiro mamão, o Partido segue mamando nas tetas da República, dançando conforme a música. Amorfo ideologicamente, se prostitui em troca dos tão cobiçados “espaços” junto a ministérios, secretarias e autarquias. Não titubeia em mudar de cor, indo do vermelho marxista ao preto da suástica totalitária. Quiçá, uma técnica camaleônica de sobrevivência, apesar de vil e pouco confiável. Assim é que, por exemplo, o Partido atravessou o período da Ditadura, assumindo o papel de oposição “água-com-açúcar”, consentida (cooptada?) e, por isso, aceitável em tempos pretéritos. Entra governo e sai governo, lá está ele, o PMDB. Este está para o Brasil, assim como os ratos para o navio a pique ou como as baratas para o mundo assolado pela guerra. O PMDB tem se revelado um partido maquiavelicamente palaciano, comungando das orgias – pagas com dinheiro público! –, porém à espreita, sempre pronto a apear ante à fumaça que precede as eventuais mudanças de cetro. Trata-se de um Partido paradoxal: por um lado, obeso e robusto, espalhando seus tentáculos por incontáveis rincões deste país. Por outro, pífio e insosso, destituído de personalidade própria. Um Partido que pauta seu discurso na tênue ideia do “politicamente correto”, mas que, na prática, tem entre seus maiores “caciques” grandes vultos da pérfida e asquerosa história política deste país. Jamais ousou cortar na própria carne. Optou pelo (des)caminho da manutenção de privilégios, confusão entre público e privado, bem como pelas práticas eleitorais espúrias, onde prevalece o poder econômico a contrastar com a atávica fome que assola nosso povo. Como víbora, o PMDB troca de pele. Por vezes, ainda, assume ares de cordeiro, ainda que a catinga denuncie a raposa que ali se esconde. É este o PMDB que temos. É este o PMDB que ameaça romper com o governo. É este o PMDB que vem se aproximando dos que defendem o impeachment. É este o PMDB que, uma vez consumado o sepultamento deste (des)governo sórdido, não vê a hora de assumir o trono. Será a crise ética apenas do PT? Ao que se vê, soa evidente que não! Diz respeito a todas (ou quase todas) as agremiações partidárias, independentemente do matiz ideológico. Serão os partidos criações diabólicas ou, ao contrário, refletem a natureza humana? A bagunça político-partidária do Brasil é, sem dúvida, produto de nossa própria miséria no que tange à ética e aos valores. Estes diuturnamente são vilipendiados, “negociados”, negligenciados... Esperamos o quê em troca? Partidos confiáveis pressupõem filiados confiáveis. Filiados éticos pressupõem cidadãos éticos. Quem são os “políticos”, senão nós mesmos? Eleitos e eleitores fazem parte de uma mesma moeda, portanto indissociáveis, obrigatoriamente cúmplices e solidários. Mal ou bem, o sistema partidário-representativo ainda é o melhor caminho para perfectibilização da democracia. Assim, os partidos políticos precisam, neste país, passar por uma profunda reflexão propositiva, depurando seus quadros, zelando por condutas probas, cumprindo com suas promessas de campanha, afastando-se de qualquer espécie de conluio (travestido, às vezes, em “governabilidade”...), clareando e tornando factíveis suas teses. Sirva a presente crise política como pira expiatória para repensarmos NOSSA conduta, de modo a termos não apenas um PMDB, mas também um PT, DEM, PSB, PCB, PSDB ... melhores e em consonância com a busca do verdadeiro desenvolvimento econômico e social de nossa terra.




segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

SUS, UMA VESÍCULA INFLAMADA


SUS, UMA VESÍCULA INFLAMADA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Assim como o ensino e a segurança, a saúde pública neste país há muito vem sendo motivo de vergonha e desespero. Vergonha, porque é o retrato fiel de um país que viola os direitos mais elementares do ser humano. Desespero, porque nossa gente vê o sofrimento ganhar corpo, sem um naco sequer de esperança. Apesar da insana e irresponsável carga tributária, os serviços prestados pelo Estado seguem infinitamente aquém do mínimo necessário. O ente público, ao que parece, é um fim em si mesmo. Triste e asqueroso culto narcísico, tendo por plateia um séquito que, historicamente, se locupleta em detrimento do interesse coletivo. Enquanto os ditos “Poderes” da malfadada República mais fazem lembrar Os Três Patetas, a população brasileira segue jogada às moscas. Nem mesmo o marketing pago a preço de ouro tem se mostrado eficaz para afugentar o cheiro fétido exalado pela pocilga em que se tornou o Brasil. O Sistema Único de Saúde (SUS) é um triste exemplo da inegável falência do Estado. Feito um doente terminal, o SUS segue respirando com ajuda de aparelhos. Apesar do esforço hercúleo de um grande número de abnegados servidores, o Sistema sangra pelas ventas. Resultado de muitos anos de descaso, gestão fraudulenta, incompetência administrativa, falta de fiscalização, corporativismo doentio, omissão e tantas outras práticas por nós conhecidas. O resultado não poderia ser diferente. Hospitais lotados e sucateados, filas intermináveis nas emergências, esperas infindáveis por exames e consultas... O verdadeiro quadro da dor. Estará o país em guerra? O cenário repugnante e desolador dá a entender que sim. Muitos são, por certo, os exemplos a ilustrarem de maneira farta e inconteste o inferno dantesco em que se tornou o SUS, exemplos como o do meu irmão. Acometido de dores na vesícula, ingressou na “emergência” do hospital Conceição de Porto Alegre no dia primeiro de fevereiro do presente ano (2016). Apesar do quadro clínico, ficou não menos do que quatro dias sentado numa cadeira junto ao corredor. Depois de muitas idas e vindas na Ouvidoria, finalmente, conseguimos uma maca para que pudesse descansar. Passado mais algum tempo, finalmente, foi deslocado para um quarto, sem qualquer previsão para o procedimento cirúrgico. No dia vinte e quatro (sim, quase um mês depois...), por fim, faria a cirurgia. Faria... Após ter sido sedado, a “brilhante” equipe médica percebeu que faltava um cateter, lapso este que inviabilizaria o prosseguimento do trabalho. Assim, meu irmão retornou ao quarto, com previsão de cirurgia para dali alguns dias. Hoje, contabiliza-se um mês de internação, sem que a cirurgia tenha sido feita, tempo este para lá do razoável e que revela o caos em que se encontra o SUS. Prejuízo não apenas para a saúde do paciente – pois que exposto a um maior risco de infecções, além dos inequívocos danos psicológicos –, mas para o próprio Sistema (enorme custo da diária hospitalar) e para a economia como um todo (dias e mais dias afastado do trabalho). Verdadeiro atestado de incompetência e desleixo frente a um direito assegurado na Constituição. Mais do que a vesícula de meu irmão, o SUS tem se mostrado inflamado pela vileza de alguns, omissão de tantos outros e pela atávica prática espúria de fazer do interesse público mero trampolim para obtenção de vantagens indevidas. Enquanto isso, vidas são ceifadas, famílias são enlutadas e a esperança de um porvir melhor se esvai. 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

PARA ALÉM DO "SHORTINHO"


PARA ALÉM DO SHORTINHO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Não são poucos os que vivem sob a ditadura de infantes, filhos e filhas de pretensos reis que, muito comumente, preparam a prole para ser “herdeira” e não “sucessora”. Trata-se de uma geração mimada, dada à estupidez narcísica de olhar não mais além do que o limite do próprio umbigo. Uma geração que, na busca insana do prazer a qualquer preço (ainda que, quase sempre, efêmero...) entrega-se de corpo e alma às drogas, anabolizantes, álcool e inúmeros outras “bengalas” produzidas pelo consumismo doentio e desenfreado. Mais importa a aparência do que a essência, o ter do que o ser. Enquanto, por vezes, ecoam discursos sob uma roupagem ética, seguem indiferentes às agruras dos pobres mortais. Entorpecem a consciência com seus smartphones modernos, looks a peso de ouro e viagens à Disney. Passam longe das filas do SUS, desconhecem a masmorra em que se transformaram nossos presídios, nem, tampouco, sabem o que é a fome ou a miséria. Enquanto o inglês fluente contrasta com o vernáculo mal escrito, os príncipes e princesas dedilham nas redes sociais em busca de aceitação e fútil notoriedade. Amizades, eles as têm, contudo quase todas tomadas da típica frieza do mundo virtual. Parecem cegos e indiferentes ante à dura realidade da vida e, até por isso, buscam levantar bandeiras que preencham o enorme vazio existencial. Daí venha, talvez, o endeusamento do “eu”, relativizando a autoridade e negando os limites e as regras. Terreno fértil à formação de homens e mulheres individualistas, egoístas e avessos ao bem comum. Homens e mulheres que, apesar de avançada idade, se portam feito crianças. Seres mal resolvidos emocionalmente e presos a um eterno cordão umbilical. Dar as costas, irresponsavelmente, às convenções sociais – se justas, necessárias e oportunas – soa como algo perigoso. Atenta contra não apenas uma regra ou instituição, mas sim contra a própria noção de “autoridade”. Esta é imprescindível na formação de pessoas equilibradas, felizes e sadias. Indispensável na construção de uma sociedade verdadeiramente solidária, menos injusta e mais fraterna. Uma sociedade capaz de educar seus mancebos para os difíceis desafios do mundo moderno, livrando nossos guris e gurias das armadilhas impostas pela mercantilização do corpo e coisificação das relações. A escola – pública ou privada – tem indelével importância nessa empreitada. Precisa, com o apoio da comunidade, fazer valer suas convicções. É, indubitavelmente, um espaço privilegiado para a reflexão propositiva, esta capaz de superar o limite do discurso fácil, ainda que “politicamente correto”. Urge sairmos em defesa da escola, pois sob sua guarda está nosso bem mais precioso: nossos filhos!



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

OS ÚLTIMOS DOZE ANOS DA MINHA VIDA


Os Últimos Doze Anos da Minha Vida

Eu entrei para o Instituto de Educação São Francisco em 2003, na época eu tinha 5 anos. Se me lembro bem, não era o local onde eu mais gostaria de estar naquele momento, não porque eu estava em uma escola, mas porque eu tinha que deixar o ambiente onde eu tinha passado outros anos da minha vida: a creche (ou escola de educação infantil, como preferem chamar hoje em dia). Essa transição foi, com certeza, complicadíssima, mas aos poucos fui percebendo que todas as crianças também estavam passando por isso; com exceção de um outro, estávamos todos em um mundo novo. E então relaxei.
Uma coisa nunca me esqueço: eu queria ser “os grandes”, sabe aquelas crianças da primeira série que tinham incríveis mochilas de rodinha e alguns (no máximo dois) cadernos dentro? Eu queria ser como eles. Na minha escola tinha uma área dedicada aos pequenos da educação infantil, um pouco afastada do resto, mas para chegar lá era preciso atravessar todo o colégio. Dividindo essas duas áreas existia um grande portão azul (pelo menos eu achava imenso) e eu passava algum tempo atrás do portão olhando as crianças da primeira série, desejando ser como eles e dizendo constantemente para meus pais: “um dia vou ser ‘dos grandes’, um dia vou estar do lado de lá do portão”.
Não demorou muito, dois anos depois eu era “dos grandes”.
Recordo-me de algumas gincanas, as professoras das crianças pequenas sempre foram muito mais loucas do que qualquer professor de matemática ou física e parte da diversão daqueles dias cabia à elas, faziam de forma fantástica, é claro. Lembro-me também da participação de alguns pais agitados e barulhentos na caminhada da paz – que encerrava a Gincana São Francisco.
Falando em caminhada da paz... No início dos anos 2000, existia outro fator que dividia a escola: de onde a turma partiria da caminhada. Bom, as crianças pequenas não tinham condições de caminhar muito, acredito eu, por isso, partíamos do São Francisco Santa Fé (na época, Monsenhor); os mais velhos, a partir da quinta série até o último ano ensino médio partiam do Instituto de Educação São Francisco e paravam em frente ao Monsenhor esperando as crianças; de onde todos dirigiam-se ao Instituto e a caminhada era finalizada. Desde a primeira caminhada que participei, eu esperava os alunos vindo do Instituto com um único desejo e dizendo para meus pais: “um dia vou ser ‘dos grandes’, um dia vou estar vindo do Instituto e passarei aqui para as crianças entrarem na caminhada e depois voltaremos para lá”.
Não demorou muito, cheguei à quinta série. A partir daquele ano, então, sairia do Instituto na caminhada da paz todos os anos até terminar de cursar a escola; eu estava contente. A partir desse momento, minha história escolar começou a andar a passos largos: sexta, sétima, oitava série...
Em 2012, após dez anos de São Francisco, estava no último do ensino fundamental, me preparando para os três anos finais da minha trajetória na escola. A oitava série foi um pouco dolorida, o momento de separação de muitos colegas e o fim de uma fase muito longa, oito anos. Olhando para o passado hoje é curioso que estivéssemos felizes porque faltaria a partir de 2013 somente 3 anos para acabar a escola e estaríamos livres; e atualmente, se pudéssemos voltar ao menos um dia o faríamos, para ter a certeza absoluta que aproveitamos essa fase da vida.
Enfim, o ensino médio – o início da fase final. Todos os alunos que tive a oportunidade de conversar a respeito, acreditam que suas vidas estudantis mudaram no primeiro ano do ensino médio, em parte por causa da diferença no nível de cobrança, em parte pela dificuldade aumentada nos conteúdos e principalmente por um trabalho. Tal tarefa era vista como o marco do ensino médio, ficava assustado de ter que o fazer, era o famoso trabalho de Cidadania. Em frente a uma banca de três ou quatro professores, os alunos deveriam apresentar o trabalho que fora realizado praticamente o ano inteiro – até hoje é realizado, com pouquíssimas mudanças em sua estrutura. Toda a situação foi um desafio, mas após aquele trabalho senti que estava mais preparado para a vida e para a fase que viria a seguir quando acabasse a escola – a faculdade.
Seguiu o segundo ano, então. Alguns amigos e eu fundamos o Clube do Café da Manhã na escola, uma clara referência ao filme da década de oitenta – The Breakfast Club. A ideia era um clube cultural onde iríamos relacionar o cinema, a música, a televisão e a arte ao nosso dia-a-dia estudantil, fosse com o ambiente escolar e a convivência social ou com os conteúdos estudados propriamente ditos. Por alguns dias corremos atrás de professores para conseguir o apoio, distribuindo cópias do projeto e convocando alunos. Apesar do sucesso da fundação e de alguns encontros proveitosos, o projeto não foi adiante e morreu no fim daquele mesmo ano, por causa da falta de apoio da escola – por vezes, parecia que ninguém sabia o que fazíamos nas tardes de segunda-feira no colégio e os que sabiam, sentíamos que não tinham a real ideia do potencial daquele projeto.
Terceirão - terceiro ano do ensino médio e o último ano da escola. Doze anos estudando na mesma instituição, vendo os mesmos funcionários diariamente, entrando e saindo de salas parecidíssimas, sabendo ir de qualquer lugar a outro e saber exatamente onde se encontra cada coisa. Acontece que em algum momento isso tudo acaba e diferente do que pensava quando estava na oitava série, não é tão prazeroso o fim, chega a ser doloroso e amedrontador, na verdade. A escola foi sempre o lugar aconchegante para onde eu voltava todo início de ano, e nas próximas férias que eu tiver, não é para lá que vou. O fato é que quando estava no início dessa jornada, o fim era tão distante que parecia impossível; quando estava na metade nada mais importava do que chegar ao final; e agora que está acabando, se pudesse voltar alguns dias faria.
E em 2015, em nenhum momento eu pensei nisso, não pensei em voltar ao passado, não relembrei o que vivi com nostalgia, não pensei em como seria o próximo ano sem voltar ao São Francisco. Não pensei em nada disso, porque a ficha demorou muito tempo para cair. Relembrei minha história de estudante e revivi minhas memórias após um dia: a minha última caminhada; lá estava eu na turma 31, finalizando a caminhada da paz. Junto a 32, erámos as duas turmas que acabavam a escola naquele ano, éramos os últimos; e eu que por tantos anos desejei ser “os grandes” era agora o “grande” máximo que poderia chegar. Enfim, acabou.


Thomas Canal

OBS: A responsabilidade sobre o texto acima é do autor. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

PEDRA FUNDAMENTAL


PEDRA FUNDAMENTAL
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



           Feliz é aquele que edifica sua casa sobre a rocha. Por maiores que sejam as intempéries e por mais sombrias que sejam as nuvens, a morada permanece incólume. O lançamento da “Pedra Fundamental” da mais nova unidade da Rede de Escolas São Francisco marca, primeiro, a parceria entre esta e a Prefeitura Municipal de Gravataí. Marca, ainda, a crença de que o desenvolvimento econômico e social passa, obrigatória e necessariamente, pelo investimento em educação de qualidade, afinal “cuidar das pessoas faz uma cidade melhor”. Pode haver melhor demonstração de cuidado do que formar “seres humanos, felizes, sadios e prósperos”? Mais do que a justaposição de slogans, a iniciativa representa imensurável acréscimo ao Município, contribuindo na formação de sujeitos críticos, participativos, solidários e comprometidos com o bem-comum. A nova escola trará para Gravataí a experiência de mais de meio século na área do ensino, experiência esta permeada de sucesso reconhecido no Brasil e no exterior. Os incontáveis prêmios coroam, acima de tudo, o árduo trabalho dos excelentes profissionais que, pautados numa gestão eficiente, moderna e responsável, veem o educando como o “bem” principal, maior patrimônio do processo ensino-aprendizagem. Tamanho sucesso deve-se, ainda, ao incessante e permanente diálogo com as famílias e a comunidade em geral, partindo-se da premissa de que a educação de nossas crianças e jovens é responsabilidade de todos. A Rede de Escolas São Francisco traz para o Município não apenas um know-how em educação cristã de qualidade, assentada numa formação cognitiva e humana, mas, também, o compromisso social consubstanciado em ações efetivas, especialmente junto aos que mais necessitam. A “Pedra Fundamental”, assim como as raízes de uma frondosa árvore, coroa a aposta no presente e no porvir, mas, sobretudo, no homem, pois – como bem diz um conhecido provérbio – “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Votos, portanto, de muito sucesso e parabéns pela iniciativa!  

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O ESTADO NA HISTORIA DO BRASIL


O ESTADO NA HISTÓRIA DO BRASIL
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Nossa história teve início, oficialmente, com a chegada dos portugueses, em 1500. Começou aí o chamado período Pré-Colonial (1500-1530), onde a metrópole mostrou flagrante descaso com suas novas terras, quiçá mais preocupada com o lucrativo comércio junto às Índias Orientais. A partir de 1530, até a chamada “Independência” (1822), tivemos o período Colonial. Neste último, assim como o momento anterior, tínhamos não um Estado “brasileiro”, mas um Estado lusitano que – dentro de uma lógica fundada no Pacto Colonial – impunha sua vontade sobre a Colônia. Durante o período, apesar das riquezas advindas dos “Ciclos Econômicos” (principalmente, da Cana e do Ouro), a qualidade de vida da maioria da população seguiu marcada pela miséria e escravidão. À época, o Estado português não titubeava ao usar a força para reprimir qualquer tentativa de revolta contra a Coroa. Exemplo disso, vale lembrar, foi a Inconfidência Mineira (1789), movimento inspirado, em parte, nos ideais iluministas.

                A Independência (1822) inaugurou uma nova fase na história do Brasil: o período Imperial. Apesar da expectativa gerada pela mudança de status (de Colônia à país independente), o Brasil manteve praticamente as mesmas estruturas políticas, econômicas e sociais do período anterior. A distribuição de renda seguiu abjeta e vergonhosa, mantendo-se o trabalho escravo como principal sustentáculo da economia. O Estado “brasileiro” (Dom Pedro I possuía fortes vínculos sanguíneos, afetivos e políticos com Portugal...) se mostrou incapaz de transformar o país numa potência respeitada e, menos ainda, numa verdadeira democracia. O poder centralizador do monarca (que tinha sob seu controle o Poder Moderador), durante o Primeiro Império (1822–1831), instigou inúmeras revoltas (como, por exemplo, a Confederação do Equador, em1828), todas elas prontamente sufocadas, apesar do enorme desgaste político que levaria, mais tarde, à abdicação do trono. Durante a Regência (1831–1840), os problemas continuaram, merecendo destaque a Revolução Farroupilha (1835-1845). O Estado, mais uma vez, demonstrara insensibilidade social ao usar a sangrenta repressão para debelar os levantes. O Segundo Império (1840-1889), apesar de alguns avanços e “lampejos” socioeconômicos (processo de Abolição da Escravidão, Era Mauá, etc.), manteve a profunda desigualdade social e o atraso político. A expulsão da família real apenas “coroou” uma longa crise encabeçada, principalmente, pelos grandes fazendeiros, pelos militares e pela Igreja, descontentes que estavam com o governo de Dom Pedro II.

                A República brasileira (1889-...), infelizmente, da mesma forma que a Monarquia, começara mal. Nosso primeiro Presidente assumiu após um golpe, “método” este que, ao que parece, teima em manchar nossa história. Durante a chamada República Velha (1889-1930), por exemplo, tivemos a Política do Café com Leite (onde apenas São Paulo e Minas Gerais se revezavam na presidência) e a “política dos coronéis” (marcada pelo voto de cabresto). Não por acaso, muitos foram os movimentos sociais surgidos à época, a maioria duramente sufocado pelo Estado. O golpe de 1930 – que daria início à Era Vargas e à República Nova – foi a saída encontrada por algumas elites brasileiras que desejavam, ansiosamente, participar das decisões nacionais. Getúlio Vargas era a própria encarnação de uma “nova” forma das classes mais ricas não apenas permanecerem no poder, mas fortalecerem-se. O conhecido título “pai dos pobres” atribuído ao ícone do populismo deixava transparecer o lado mais perverso de seu estilo de governar, onde ficavam às escondidas suas reais intenções. O Estado Novo (1937-1945) é a prova cabal do autoritarismo getulista, onde o arbítrio, a censura e o aniquilamento da oposição foram a tônica.

                Durante o período que se estende do suicídio de Vargas (1954) ao Golpe Militar de 1964, tivemos altos e baixos na relação entre o Estado (aqui entendido como “governo”) e a sociedade. Os governos de Café Filho, Juscelino, Jânio e Jango tiveram em comum a incapacidade do Estado em estabelecer uma efetiva distribuição de renda, apesar dos discursos ideológicos (Jânio e Jango) à “direita” ou à “esquerda”. Apesar dos avanços econômicos e da modernização da indústria – especialmente no governo JK –, o Brasil seguiu sendo um país “de poucos” e “para poucos”.

                A Ditadura Militar (1964-1985) inscreve-se entre os períodos mais sombrios de nossa história. Mais do que nunca, o Estado distanciou-se da democracia, da liberdade de expressão e da busca de uma sociedade justa e igualitária. A tortura, censura, bipartidarismo e permanente repressão diuturnamente mancharam as duas décadas sob os governos militares. Sob o argumento de defender o Brasil da ameaça “comunista”, atrocidades foram cometidas. Enquanto isso, as desigualdades sociais não apenas permaneceram, como se aprofundaram, em que pese o crescimento da economia impulsionado pelo dito Milagre Econômico. Os Atos Institucionais cerceavam a opinião pública e legitimavam as cassações políticas. A morte, quando não consumada, espreitava a vida de todos aqueles que ousavam discordar do governo ou que por este eram considerados uma ameaça.


                O Estado que nasceu com a Nova República (1985...), no fundo, trouxe consigo os mesmos vícios e fragilidades dos períodos anteriores. Não por coincidência, o primeiro Presidente da nova fase foi “entronizado” pelo Congresso e não pelo voto popular. Não por acaso, quem fora escolhido (Tancredo Neves) não assumiu. Quem o fez (José Sarney) era (e é...) um representante das elites do coronelismo nordestino. Ironicamente, o primeiro Presidente eleito após tantos anos de Ditadura, Collor de Melo, foi afastado por um impeachment. Depois veio Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma...Muitos governos, porém o Estado brasileiro segue eivado de problemas estruturais (corrupção, ineficiência, custo elevado, clientelismo, etc.) que mantêm a maioria da população à margem da qualidade de vida. Educação, saúde, segurança, renda, moradia, transporte público estão muito aquém do razoável, fazendo do Brasil um país de profundas e inaceitáveis contradições: rico, porém subdesenvolvido.   

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

MERETRÍCIO PARTIDÁRIO


MERETRÍCIO PARTIDÁRIO
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Já, de antemão, peço escusas às “profissionais do sexo” pela comparação, mas Brasília há muito se tornou num enorme e malcheiroso bordel, onde a prostituição corre solta. Não a do tipo clássico, onde o sexo – quase sempre mal pago – é a principal mercadoria. O prostíbulo encravado no Planalto Central é o da pior e mais vergonhosa espécie, onde homens e mulheres vendem, alugam e permutam a própria consciência. Fazem “ponto” nos corredores e gabinetes, sem nenhuma parcimônia ou vestígio de decência. Enfiados em seus ternos finos, modelitos Versace e Prada ou togas negras, corrompem e se deixam corromper, num misto de escárnio e descaso com o populacho. Apesar dos perfumes caros, não conseguem disfarçar o cheiro de murrinha resultante da propina, do dinheiro fácil e dos incontáveis cadáveres que, teimosa e incessantemente, cobram a trágica morte nascida da violência urbana, da falta de leitos hospitalares, do vergonhoso transporte público, das estradas mal conservadas, das sentenças mal proferidas, da fome e da falta de esperança. Cheiram a sangue coagulado de inocentes: crianças, jovens, idosos, pais e mães de família. Ainda assim, não são poucos os que topam um “programa” com tamanhas aberrações paridas pelo arremedo de República. Lobistas, banqueiros, empreiteiros, fazendeiros, empresários, traficantes... Apesar de “rapidinha”, a relação traz profundas e imensuráveis consequências para quem mantém e sustenta o bordel: o contribuinte. Os recursos que escoam pelas pernas dos “gigolôs” e “marafonas” de Brasília, mal cabendo em suas cuecas e calcinhas, são os mesmos que faltam à educação, à moradia popular, à reforma agrária e aos mais diversos programas sociais. Há muito, os partidos políticos no Brasil mais fazem lembrar as vitrines de Amsterdã, onde as prostitutas expõem seus “dotes” aos transeuntes. Por aqui, não são poucos os “representantes do povo” que se oferecem a quem estiver disposto a gastar algumas patacas. Trocam de “vitrine” como quem troca de roupa, sem nenhum escrúpulo, até porque – no fundo – todas aquelas siglas se parecem. Um emaranhado de letrinhas, sem sentido, sem conteúdo, sem ética. Apenas letrinhas, confusas e mesquinhas. Quase toda legenda tem seu preço, verdadeiro balcão de negócios. Parlamentares trocam de “parceiros” sem ruborizarem. Pulam de galho em galho, conforme a direção do cheiro familiar das cédulas maculadas pela perfídia e odiosa escassez de espírito público. Lambuzam os beiços com o sêmen do inferno e tergiversam, dando as costas à maioria dos eleitores. O bordel, ainda quando em recesso, exala o nauseante cheiro do coito ímprobo e indigno, apesar do esforço do séquito formado de bajuladores comissionados que vivem de mamar nas tetas do Estado. Trabalham pouco ou quase nada os “rufiões” e “meretrizes” da capital federal. Pudera, cobram caro pela influência que exercem nas Comissões e Plenárias. Quando na tribuna, ante a forma fálica do microfone, usam do discurso e do poder do voto para a defesa, não raras vezes, de interesses espúrios e abjetos. Lançam mão da caneta para a elaboração de leis confusas e, muito comumente, inócuas, inflacionando, ainda mais, o dito ordenamento jurídico que onera quem, de fato, produz. Aceleram ou retardam Projetos de Lei conforme suas conveniências, ainda que em detrimento do interesse público. Prostituem-se em nome da suposta governabilidade ou, quando se sentem traídos, assumem ares de oposição, contudo sem deixar de lado os mesmos trejeitos e vícios de quem condenam. Rameira por rameira, há de se preferir as do tipo Madame de Pompadour, ao menos mais original e interessante do que as que gorjeiam por aqui.



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

SERVIDORES, NÃO SUBSERVIENTES !


SERVIDORES, NÃO SUBSERVIENTES!
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Vergonha, humilhação, tristeza, desrespeito... A lista de expressões associadas à situação dos servidores públicos do Executivo, no estado do Rio Grande do Sul, parece interminável. Verdadeira “crônica da morte anunciada”, sem, contudo, o romantismo e elegância da Obra original. A crise econômica – talvez falimentar –, associada à crise política, é inegável e compreensível (não, necessariamente, justificável...), precariedade esta intimamente associada, também, ao contexto econômico e político mundial e nacional. Porém, o que soa como inaceitável é jogar sobre o colo dos servidores os efeitos colaterais da referida crise. As “saídas” encontradas pelo governo gaúcho são não apenas patéticas, mas revelam um misto de incompetência e insensibilidade. A má gestão, a confusão entre público e privado, a transformação do Estado em balcão de negócios, o uso da máquina pública para alimentar interesses espúrios individuais e/ou de grupos e tantos outros conhecidos vícios há muito entranhados nas estruturas do Poder são, por certo, antigos, maculando a história deste arremedo de República. Por outro lado, deixar de enfrentar – sob a desculpa de um passado inglório – os problemas e demandas da sociedade hodierna, buscando respostas efetivas, concretas e duradouras, representa um ato de covardia. Assim, o que se espera de um gestor é sim capacidade para superação das intempéries surgidas ao longo do caminho. Espera-se dele iniciativa, honestidade, equilíbrio, ética, firmeza, isonomia, inteligência... Espera-se dele planejamento, trabalho árduo, coerência, compromisso com a verdade e cumprimento das promessas firmadas em período de campanha. Espera-se dele sensatez, hombridade, habilidade e destreza política... Espera-se dele espírito público e respeito os nobres valores que norteiam qualquer Constituição democrática. Falta ao Rio Grande do Sul um gestor à altura de nossas necessidades. Falta aos gaúchos um verdadeiro Estado democrático de Direito. A Magna Carta tem sido diuturnamente rasgada por aqueles que, sob juramento, prometeram respeitá-la. Executivo, Legislativo e Judiciário, em todas as esferas e níveis, ferem os princípios mais elementares da democracia, fazendo destas terras verdadeira pocilga onde, em meio à lama da corrupção e da defesa de privilégios mesquinhos, se locupletam em detrimento do interesse coletivo. Somos o país das desigualdades, o estado das políticas públicas fracassadas e capengas, o município da politicagem lesiva e perniciosa. Por aqui, o velho e conhecido ditado onde se diz que a “corda arrebenta no lado mais fraco” é reeditado a cada fração de segundos. Faltou dinheiro para “fechar as contas” do governo? Fácil, parcela os salários dos servidores, aumenta a já extorsiva carga tributária e reduz as já parcas verbas da educação, saúde e segurança, por exemplo. Macabra e perversa matemática, cujo resultado todos conhecemos: recessão, desemprego, falta de leitos nos hospitais, escolas sucateadas, superlotação dos presídios, precária infraestrutura e tantas outras pragas que nos envergonham e adoecem. Como servidores, urge sairmos em defesa do Plano de Carreira – desde que justo e sensato, sem devaneios corporativistas que lesam o interesse público e afrontam o contribuinte –, bem como lutarmos pela qualidade do serviço prestado à população. Urge sairmos em defesa do pagamento em dia, direito este inalienável e indispensável à sobrevivência dos servidores e suas famílias. Urge mostrarmos nossa força ante o descaso do Poder Público frente às necessidades de nossa gente. Urge apontarmos as incoerências de um governo que prega “austeridade”, mas que perpetua práticas de apadrinhamento político-partidário. Urge mobilizarmos a população (trabalhadores, desempregados, estudantes, donas de casa) em defesa dos interesses verdadeiramente nacionais, regionais e municipais. Urge resistirmos às investidas e afrontas morais, ideológicas, belicistas e midiáticas que buscam denegrir a imagem do servidor. Vamos à luta!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

OS "MANDAMENTOS" DA INDEPENDÊNCIA


OS “MANDAMENTOS” DA INDEPENDÊNCIA
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

                Não terás outros deuses. Um país verdadeiramente independente é aquele onde, apesar do Estado ser laico, sua gente jamais abre mão da fé alicerçada nos princípios bíblicos e nos frutos do amor. É aquele país onde inexiste o endeusamento do mercado e do consumo desmedido.

                Não tomarás o nome de Deus em vão. Um país verdadeiramente independente é aquele onde a ética e o respeito ao outro – este, como imagem e semelhança do Criador – são inegociáveis. Um país onde o interesse coletivo se sobrepõe ao individualismo doentio e ao narcisismo egocêntrico.

                Lembra-te de guardar o melhor de teu tempo para o aprimoramento da alma. Um país verdadeiramente independente é aquele formado por pessoas sadias, famílias equilibradas e relacionamentos fraternos. Um país que privilegia o “ser” ante o “ter”, enaltecendo as virtudes e jamais aquiescendo com o erro.

                Honra a teu pai e tua mãe. Um país verdadeiramente independente é aquele que gera crianças e jovens amorosos, humildes, respeitosos, disciplinados e críticos. Um país governado por adultos coerentes, que ensinam não por meio de discursos vazios, mas através de condutas exemplares.

                Não matarás. Um país verdadeiramente independente é aquele onde a vida – sob as mais diversas formas – é respeitada e valorizada. Um país que semeia o amor, a solidariedade e a cumplicidade com a dor alheia. Um país que não fecha os olhos ante a injustiça e o infortúnio dos mais necessitados.

                Não adulterarás. Um país verdadeiramente independente é aquele onde a fidelidade é reguladora de todas as ações, onde a palavra tem valor e o reconhecimento de firma se dá pela confiança no “outro”.

                Não furtarás. Um país verdadeiramente independente é aquele onde o que há de mais caro são as próprias pessoas, não o que elas têm. Um país que valoriza, sobretudo, os bens incorruptíveis, não aqueles que se consomem e se esvaem com o tempo.

                Não dirás falso testemunho contra teu próximo. Um país verdadeiramente independente não flerta com a mentira e nem tampouco se amanceba com o engodo.
               

                Não desejarás o que é do outro. Um país verdadeiramente independente é o que reconhece a função social da propriedade sem perder de vista a conquista justa e legítima. É o país que respeita os contratos ainda que não formais e se mostra avesso ao relativismo desvairado. É o país que encara como abjeta e inaceitável qualquer forma de enriquecimento ilícito e condena a confusão entre interesse público e privado. 

Veja também: http://www.institutosaofrancisco.com.br/site/artigos_visualizar.php?artigo_autenticacao_=6e34b92a701abc568d24e5562c18a422

domingo, 30 de agosto de 2015

FORMATURA DA EJA (PRIMEIRO SEMESTRE DE 2015)


DISCURSO FORMATURA EJA 2015-1
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

Boa noite!


            Saúdo à mesa, aos convidados e, de forma muito especial, aos formandos. Nada pode e, nem tampouco, deve nos separar de nossos sonhos. Nem surto de meningite, nem crise econômica, nem instabilidade política, nem mesmo o tempo... Este, por sinal, talvez por ser “eterno”, é sábio. Passamos nós, ele não. Passam as dificuldades, as paixões, os mandatos. O tempo permanece incólume. Pode, aparentemente, tardar, porém certa e inevitavelmente chegará. Prova disso, é que estamos aqui. Não por acaso, o tempo postergou a presente Formatura. Sabem por quê? Assim como o bom vinho, envelhecido em barris de carvalho, vocês são especiais. Por isso a demora. Perderia muito da graça o casamento sem o tradicional atraso da noiva, ou a viagem sem a expectativa da criança que, a cada curva, inquire os pais sobre o ponto de chegada. Esta Formatura não é diferente. Chegou na hora certa, no momento e do jeito que deveria chegar. Olhem para vocês, formandos. Estão lindos! Seus semblantes denunciam uma incontida alegria a disputar espaço com a esperança de ser este momento um divisor de águas, cuja ponte é a força de vontade de cada um e cada uma de vocês. Quanta correnteza, heim? Quantas quedas e galhos pelo caminho, muitos deles – feito mãos inimigas – tentando vos submergirem? Pedras de todo tamanho e forma a machucarem não apenas o corpo, mas por vezes a própria alma, numa vã tentativa de vos fazerem desistir. Resolutos, contudo, vocês persistiram, apesar de cansados. Fizeram dos obstáculos, intransponíveis muralhas ante o pessimismo e o derrotismo. Transformaram os “nãos” da vida em antídoto contra as agruras típicas de um país que não valoriza o conhecimento e a pesquisa, um país que teima em sabotar o presente em nome de um futuro que jamais chega. Um país que precisa de vocês, como estudantes, trabalhadores, pais e mães de família, cidadãos e cidadãs. Sejam o que sejam, façam o que façam, jamais abram mão da ética, do respeito, da solidariedade e cumplicidade com o “outro”. Não escamoteiem a verdade e resistam ao canto da vaidade que, em nome de interesses espúrios, faz adoecer a sociedade. Guardem na memória o que há de melhor de seus familiares, amigos, colegas e professores. Destes, jamais esqueçam, ainda, os ensinamentos. Não tanto os cálculos, a gramática ou um que outro conceito da Geografia, mas, sobretudo, o apego à vida e à certeza de que um novo horizonte é possível, mais feliz, sadio e fraterno! Sejam felizes.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

MANIFESTO


MANIFESTO
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


                Para que serve o Estado, senão para garantir, com qualidade, a materialização dos princípios constitucionais, como saúde, educação e segurança? Para que serve o Estado, senão para garantir a paz social fundada na justiça e respeito à dignidade da pessoa humana? Para que serve o Estado, senão para retirar da esfera privada iniciativas violentas que, na busca de proteção, vingança ou satisfação de desejos mesquinhos, acabam por fazer sombra aos avanços civilizatórios? O Estado não é um fim em si mesmo. Existe, sobretudo, para “servir” aqueles que não apenas lhe sustentam, mas lhe dão sentido.

                Vivemos tempos de medo. As ruas e avenidas há muito vêm sendo manchadas de sangue. As praças viraram local “seguro”, não para as crianças, jovens e trabalhadores, mas para o consumo e tráfico de drogas. Como zumbis, hordas de pichadores, arruaceiros, viciados e criminosos de toda espécie infestam a cidade, fazendo dos espaços públicos e privados um verdadeiro inferno. O velho ditado “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” vem assumindo proporções cada vez mais trágicas e preocupantes. Inexiste local seguro ou a salvo da barbárie que vem ceifando vidas e enlutando lares. Enquanto os muros altos das residências evidenciam a sensação de insegurança, as frágeis grades dos presídios – que mais parecem masmorras medievais – escancaram a falência do ente público, este há muito motivo de escárnio e deboche. O avanço da criminalidade contrasta com a incapacidade do Estado em transformar o conhecido e surrado discurso em ações concretas capazes de estancarem o avanço do câncer da violência urbana que tem levado à metástase da teia social.

                Queremos, merecemos e exigimos dias melhores. Nossas mães não geraram filhos para serem precoce e violentamente arrancados desta vida. O sangue, inocentemente vertido, de cada criança, jovem ou adulto, clama por justiça. Não apenas façamos memória a cada filho, irmão, pai, mãe, amigo que perderam a vida em decorrência desta guerra urbana – alimentada pela omissão, incompetência, quando não pela íntima relação do Estado com o crime organizado –, mas transformemos nossa dor e indignação em ações concretas. As escolas que compõem a Paróquia Estudantil, através do presente documento manifestam a profunda preocupação, repúdio e indignação frente ao avanço da violência. A dor da família do Gabriel (Escola Estadual Júlio César Ribeiro de Souza, em Alvorada), covardemente assassinado, é, também, a nossa dor. O sofrimento do Henrique (Instituto de Educação São Francisco, em Porto Alegre) e de sua família é, também, o nosso sofrimento. Quantos mais perderão a vida? Quantos mais serão privados de curtirem a infância e a juventude? Quantos mais trocarão muitos anos de vida por uma pequena nota nas páginas policiais de um jornal qualquer? Quantas flores de debutantes darão lugar àquelas postas sobre a lápide fria como a morte?

                Enquanto o cidadão de bem definha e agoniza, o crime engorda e avança a passos largos. Atinge, indistintamente, a todos: brancos e negros, pobres e ricos, letrados e analfabetos, crianças e idosos, homens e mulheres... Entrar ou sair de casa é um risco. Ir à escola, ao trabalho, à padaria, ao posto de gasolina é um risco. Andar a pé, de carro ou de ônibus é um risco. Sair de dia ou à noite, sozinho ou em grupo é um risco. Ser abordado por alguém com farda ou sem ela, é um risco. Estamos a ponto de temer a própria sombra, não sem razão. Nossos direitos vêm sendo vilipendiados diuturnamente. Há muito, não enxergamos sequer a luz no final do túnel. Foi-nos subtraída.

                Abaixo, portanto, à impunidade! Abaixo ao discurso evasivo ou ao leque de promessas jamais cumpridas. Abaixo à frouxidão do Poder Público. Abaixo às decisões de magistrados que, em nome de uma lei – por vezes equivocadamente interpretada – dão salvo conduto a delinquentes de toda sorte. Abaixo à gestão assentada no amadorismo, na troca de favores e na defesa de interesses espúrios. Abaixo ao corporativismo de toda espécie que, ao olhar para o próprio umbigo, olvida o interesse verdadeiramente “público”. Abaixo à falta de investimentos nas áreas vitais, como a da segurança.

Queremos, através do presente Manifesto, marcar posição, iniciativa esta que, tenham certeza, não se limitará à formalidade deste documento. Sozinhos, mais fazemos lembrar uma ovelha ameaçada pela matilha, mas juntos somos fortes. Assumamos aqui o compromisso com o “outro”. Uma relação pautada na ética, no respeito, na empatia e na solidariedade. Exerçamos nossa cidadania com firmeza, não titubeando ante às falhas e vícios do Estado.


Ante o exposto, encaminhamos este Manifesto – em nome das escolas (e comunidades a elas associadas) da Paróquia Estudantilaos representantes de todos os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), ao Ministério Público, à imprensa e à Sociedade Civil Organizada, para EXIGIR, por parte do Poder Público, ações concretas e duradouras que garantam a segurança de nossa comunidade, conforme previsto na Constituição Federal. 

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