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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

ESCOLA, PARA QUÊ?


ESCOLA, PARA QUÊ?
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



        Foi-se o tempo de ver a escola como local de aprendizagem? Não o sendo, serve ela para quê? Sobram frases de efeito e jargões estéreis, talvez a esconderem a mais profunda incompetência e inabilidade de muitos que veem a carreira do magistério tão somente como um atalho à aposentadoria precoce. Há muito a qualidade de ensino foi abandonada, jogada às traças. Multiplica-se a burocracia, criam-se inúmeros conselhos, comissões, fóruns… Sobra “planejamento” (muitas vezes, não mais do que “retalhos” inacabados…), falta ação, fazendo lembrar o cuteleiro que diuturnamente, durante uma vida inteira, afia sua faca sem jamais usá-la. O resultado não poderia ser pior. São estarrecedores, embora não surpreendentes, os pífios resultados revelados pelo SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica – 2017). Cachoeirinha, por exemplo, segue a vergonhosa tendência nacional. No Município, tivemos 33,91% de alunos do 5º Ano do Ensino Fundamental com desempenho considerado “insuficiente” (0-3), 60,54% com desempenho considerado “básico” (4-6) e apenas 5,55% dos alunos com desempenho “avançado” (7-9). Já no 9º Ano do Fundamental, os números são, respectivamente, 70,14% (insuficiente), 28,99% (básico) e 0,88% (avançado). Verdadeiro caos! Quanto tempo, recursos e energia desperdiçados. Uma, duas, várias gerações vêm sendo perdidas, com imensuráveis prejuízos sociais e econômicos. O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) não deixa dúvidas: caso exista uma luz ao final do túnel, estamos caminhando na direção oposta à ela! Conseguimos piorar o que já era terrível. No último ano do Fundamental, por exemplo, em 2015, a média do Município foi 4,4. Já em 2017, o número caiu para 4,2. Andamos para trás! No Rio Grande do Sul, o quadro não é menos grave. No ano passado (2017), o 9º Ano do Ensino Fundamental obteve a vexatória média de 4,4, enquanto a meta para o referido ano era 5,1. Nosso estado e Município conseguiram o que há alguns anos soava como impensável: estar aquém da média nacional nos índices que medem a qualidade da educação. No Brasil, em 2017, a média do 9º Ano no IDEB foi de 4,7. Definitivamente, educação neste país não é prioridade. Enquanto o dinheiro público escoa pelo ralo da corrupção e/ou e da incompetência dos gestores, seguimos enterrando sonhos e aumentando as levas de maltrapilhos intelectuais. Crianças, jovens e adultos destituídos da formação mínima necessária para alavancar o desenvolvimento. Gerações inteiras à beira da estupidez, da ignorância e de toda sorte de analfabetismo – inclusive o mais terrível de todos, o “político” -, verdadeiro húmus a alimentar as profundas desigualdades existentes. Qual é a saída para tamanha hecatombe? Inexistem respostas simples para problemas complexos. Todavia, já sabemos o que não funciona! Discursos intermináveis e vazios, por exemplo, são insuficientes para alcançar os objetivos desejados. Concepção pedagógica, implementação deste ou daquele “sistema”, adoção desta ou daquela “menção” avaliativa… Tudo será em vão se, lá na “ponta” (relação professor-aluno, relação ensino-aprendizagem), não ocorrer a verdadeira, urgente e necessária transformação. Urge buscarmos resultados efetivos, aparentes, que comprovem a aprendizagem. Optou-se, ao longo dos últimos anos, pelo discurso que beira a imbecilidade, onde as avaliações externas (como o SAEB) foram demonizadas, taxadas de retrógradas, como se estivessem a serviço do “capital”. Por quê? Desconhecimento, talvez. Quem sabe, temor em revelar as próprias contradições? O fato é que a repulsa às avaliações externas inibiram ações oportunas, impediram ou, no mínimo, prejudicaram iniciativas capazes de evitarem a que chegássemos onde chegamos: no fundo do poço. Apesar dos números saídos de tais instrumentos serem incapazes de “falarem” por si mesmos ou de encerrarem “toda” verdade, ainda assim são fundamentais, pois que “indicadores” do que está ou não dando certo. O ensino (público e privado) precisa ser rediscutido, urgentemente. Estamos menosprezando e aniquilando a capacidade criativa, reflexiva, propositiva, empreendedora de nossos educandos. O que se vê, é a mais absoluta falta de uma política de Estado voltada à qualificação do ensino. Pouco avançou-se, por exemplo, na valorização dos profissionais da educação. Seguem mal pagos e mal preparados, socialmente desprestigiados e, por vezes, à mercê de entidades classistas que – apesar do surrado discurso amigável – reproduzem as mesmas mazelas que condenam. As escolas por sua vez, especialmente as públicas, convivem por exemplo, salvo raríssimas exceções, com prédios e equipamentos sucateados, escassez ou inexistência de espaços para prática de esportes, falta de professores, insegurança de toda ordem, falta ou precariedade da merenda, currículos falhos e distanciamento da família. Temos hoje um flagrante e pérfido círculo vicioso do fracasso escolar: legislação equivocada, investimento público insuficiente, precariedade da escola, professor mal pago e mal preparado, distanciamento da família, aluno descomprometido, fracasso total do ensino. Podemos mudar a ordem, substituir ou agregar expressões, mas o resultado será o mesmo: colapso total do ensino.
        A solução passa pela quebra do “círculo” acima e para fazê-lo – assim como para se fazer uma omelete há de se quebrar os ovos – precisamos romper com inúmeras práticas, ranços e vícios arraigados à “cultura” existente. O que compete a cada um? “A César o que é de César, ...”. A primeira medida é identificar as competências, afinal trata-se de um concatenamento de ações. Falhando um, compromete-se – às vezes mais, às vezes menos – o todo. A legislação precisa ser revista. A escola pública (ante à falta de recursos e o aumento das demandas) precisa ser abraçada também pela iniciativa privada, por meio de parcerias, incentivos fiscais, tendo como pano de fundo, sempre!, o interesse público. Infelizmente, hoje, o que se vê é uma burocracia insana que desmotiva qualquer iniciativa voltada às parcerias entre os entes público e privado, como se não fizessem parte da mesma moeda. Somado a isso, o Poder Público precisa não apenas aumentar os investimentos, mas (e, sobretudo!) otimizá-los, focar em resultados, principalmente naqueles que atestem a boa qualidade do ensino ofertado. O que se espera do atendimento à criança da Educação Infantil? O que se espera de um aluno ao término do Ensino Fundamental e/ou do Ensino Médio? Uma vez não atendida à expectativa, o Estado precisa interferir, buscando os porquês e trabalhando no sentido de sanar os problemas verificados. Para tanto, a Escola precisa se remodelar (pois o que se vê hoje é a verdadeira “casa da mãe Joana”, onde confunde-se “autonomia” com “independência”) e também trabalhar focada em “resultados” (não com o cunho mercadológico, mas social), onde o verdadeiro sentido do “planejamento”, “operacionalização” e “avaliação” deverá ser resgatado. Para isso, o professor deverá ser, primeiro, valorizado, mas também cobrado para que, efetivamente, cumpra seu papel. Deverá estar sob permanente (auto)avaliação, precisando corresponder aos investimentos realizados (formação, Progressão de Nível, Promoção por Merecimento, etc.). Na Escola pública, nós professores somos SERVIDORES, portanto temos a obrigação não apenas ética e moral, mas jurídica, de devolvermos à coletividade o investimento que esta faz em nós! A Escola não é um feudo. Tem ela uma função social a cumprir e ao não fazê-lo perde o sentido da própria existência. A família, por sua vez, também precisa ser chamada à responsabilidade. A presença dela não pode ficar restrita à entrega dos “boletins” ou às “festinhas”. Precisa ser chamada à responsabilidade – da mesma forma que a Escola – por eventual fracasso do aluno, sua infrequência, indisciplina, etc.. A comunidade escolar, como um todo, deve sentir-se envolvida e comprometida com o processo ensino-aprendizagem. O Conselho Escolar, por exemplo, necessita deixar de ser uma instância meramente formal. Precisa, assim como o CPM e o Grêmio Estudantil, existir de fato, exercendo aquelas atribuições previstas no ordenamento. O educando (ah, o aluno…) deve ser o “protagonista” em todo esse processo. Trata-se, portanto, de ônus e bônus. O mesmo aluno que deve ser “protegido” em seu direito (ver Constituição Federal, ECA, LDB, etc.), pois que sujeito em formação, deve, também, ser “exigido” quanto às obrigações que lhe dizem respeito, respeitada, é claro, a capacidade de compreensão decorrente da idade e/ou outras peculiaridades. Precisamos romper com a cultura do “coitadismo” e “vitimização”, onde prejudica-se a formação integral do educando, nivelando-o “por baixo”, como se fosse incapaz de alçar patamares mais elevados. Utiliza-se de “concepções” pedagógicas comprovadamente fracassadas em nome de uma pretensa “educação libertadora”, mas que na prática embota o conhecimento, emburrece e embrutece o sujeito e fulmina toda e qualquer esperança numa sociedade melhor e mais justa, condição esta só possível mediante um ensino de qualidade.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

AVALIAÇÃO: DESNUDANDO A INTENCIONALIDADE


AVALIAÇÃO: DESNUDANDO A INTENCIONALIDADE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



          A discussão em torno do Projeto Político-Pedagógico (PPP) e Regimento da escola traz consigo, também, a necessidade de uma profunda e oportuna reflexão acerca da “avaliação” na EJA EAD-Semipresencial. Indiscutivelmente, nos últimos quatro anos, melhoramos muito no que tange, por exemplo, ao percentual de alunos aprovados. Tão ou mais importante do que isso – por ser condição sine qua non para aprovação – foi conseguirmos diminuir, significativamente, a evasão docente, a partir da implantação do EAD-Semipresencial. Facilitamos o acesso e permanência do aluno ao adotarmos um sistema híbrido de aulas presenciais e virtuais, onde o educando precisa fazer-se presente apenas duas vezes por semana na escola, podendo (e devendo!) complementar sua carga horária na plataforma Moodle. Somado a isso, optamos por um horário de aula presencial (das 20 às 22h30min.) que vem ao encontro, principalmente, do aluno trabalhador e/ou chefe de família. Os “números”, portanto, são bons. O grande desafio, agora, é “qualificá-los”! Garantirmos ao educando a “qualidade” daquilo que é ofertado, tornando a aprendizagem em algo realmente significativo, capaz, por exemplo, de contribuir na sua formação enquanto sujeito (cidadão), abrindo um maior leque de possibilidades de inserção no mercado de trabalho e fornecendo os pré-requisitos para que alce níveis mais elevados de escolarização. É nesse contexto que deve ser inserida e compreendida a “avaliação”. Trata-se não de algo pronto, estanque, rígido. Ao contrário, é um “processo” contínuo, aberto, flexível. Serve a “avaliação”, sobretudo, para que educador e educando possam analisar (avaliar) um ao outro e autoanalisar-se (autoavaliar-se). É um “olhar” sobre o “outro” (do professor frente ao aluno e vice-versa) e sobre si mesmo. Avaliar não pode e não deve ser sinônimo de “açoitar”. Objetiva-se, com ela (avaliação) auscultar a que ponto anda o processo ensino-aprendizagem. Caminha-se na direção correta? A metodologia é adequada? O que precisa ser revisto, modificado ou reforçado? A avaliação, nem de perto, tem como objetivo principal “aprovar” ou, menos ainda, “reprovar”. Até porque a aprovação deveria ser decorrência natural do processo, enquanto a reprovação uma anomalia, uma excrecência, verdadeira exceção. Infelizmente, tem sido comum vermos a avaliação como se fosse um fim em si mesmo. Desejamos, por vezes, que o aluno se “encaixe” na avaliação, não percebendo que ao fazê-lo nos tornamos, nós mesmos (educadores), escravos dos instrumentos que, em tese, deveriam estar ao nosso serviço. Portanto, o foco da discussão não deve ser se o aluno será ou não aprovado. Seria colocar a carroça à frente dos bois. O cerne da discussão deve ser: como garantir que o educando avance com qualidade? Quais serão as medidas a serem tomadas pelo professor, serviços de apoio (SSE, SOE, LA, Biblioteca, etc.), Direção, mantenedora, família e aluno para que a aprendizagem aconteça? Somos todos responsáveis pelo processo. Este, caso falhe, diz respeito a todos os envolvidos. Ao aluno com dificuldade de aprendizagem, seja ofertada a maior e mais variada gama possível de meios facilitadores (acompanhamento individualizado, material concreto, currículo adaptado, etc.), não para que “passe” (pois que não é o objetivo primeiro), mas para que “aprenda”. Ao aluno descomprometido e/ou indisciplinado, seja lançado sobre ele o olhar “viajante” do educador, buscando sua inserção, de fato, no ambiente de aprendizagem, sem abrir mão da exigência no que tange aos princípios de convivência e cumprimento das necessárias regras sociais. A família deve ser tensionada a participar, ativamente, do processo, sob o risco de, não o fazendo, responder junto às instâncias existentes (Conselho Tutelar, Ministério Público, Juizado da Infância e da Juventude, etc.).
           A avaliação, quando da discussão e reelaboração dos documentos escolares (PPP, Regimento, etc.), precisa ser tratada sob dois grandes aspectos. O primeiro deles eu chamaria de “originário”, associado à intencionalidade. Originário porque embasador não apenas do segundo “aspecto” (associado à expressão formal dos resultados obtidos pelo aluno: notas, conceitos, etc.), mas da própria prática docente. Sob tal aspecto, originário, a avaliação precisa casar com o projeto de cidadão, de escola, de sociedade e de mundo que se vislumbra. Trata-se do principal aspecto da avaliação, com profundas consequências e desdobramentos. Precisa estar claro aos olhos de toda comunidade escolar. Cabe a esta definir e decidir, por exemplo, qual é o “perfil” de aluno (cidadão) a ser formado, sem olvidar, obviamente, das idiossincrasias existentes, respeitando-se as diferenças e limitações. Objetiva-se com isso não a “eugenização” social, mas um salutar e indispensável “planejamento”, sem o qual seguirá rumando ao fracasso nosso ensino. Deseja-se um cidadão autônomo ou autômato? Crítico ou alienado? Responsável ou inconsequente? Trabalhador ou indolente? Sadio ou não? Honesto ou ímprobo? Solidário ou narcisista? A definição desse “perfil” deve nascer do diálogo entre o maior e mais variado número de atores e, uma vez instituído, precisa servir de norte à escola. O que vemos hoje, infelizmente, é uma absoluta falta de planejamento, seja a curto, médio e, principalmente, longo prazo. Sobram jargões completamente vazios, por vezes dourados por posicionamentos político-ideológicos que atendem a outros interesses que não o do educando.
          O segundo aspecto da avaliação a ser considerado é o da “expressão formal” dos resultados obtidos pelo aluno. Apesar de “secundário” (menos importante do que o aspecto originário), é o que mais aparece e, infelizmente, muito comumente acaba por ser determinante na reprovação do educando. Apesar de ser apenas a ínfima parte do iceberg, frequentemente faz naufragar sonhos, alimentando a evasão e a multirrepetência. Faz lembrar o sôfrego e caquético corpo, à beira da putrefação, incapaz de acompanhar a potencialidade da alma (primeiro aspecto da avaliação). Portanto, reduzir o aluno à nota (ou algo similar) é como encerrar a complexidade da alma num corpo frágil e mortal. Todavia, ainda assim, é inegável a importância (e dependência), especialmente sob o ponto de vista operacional, das mensurações. Por vezes, elege-se a adoção da “nota” como vilã do processo avaliativo. Outras vezes, a bola da vez é o “conceito” ou outra forma de expressão do rendimento escolar. Vã discussão, diga-se de passagem. Faz diferença o invólucro do veneno? A cor da pílula é capaz de mudar seus efeitos? Alguns parecem acreditar que sim. Adotam formas aparentemente emancipatórias de avaliação, mas suas práticas e olhar sobre o aluno seguem lógica diversa. Tais mensurações são como lobo em pele de ovelha, portanto mais perigosas e traiçoeiras do que a formas ditas tradicionais de avaliar o educando. Conclui-se, assim, que todas as formas de mensuração (ao menos, as mais usadas...) são, em essência, falhas e insuficientes para abarcarem o aluno como um todo. Portanto, três cuidados soam como necessários. O primeiro diz respeito à consciência que deve ter o educador acerca da falibilidade das mensurações propostas, por melhor que seja a intenção. O segundo cuidado é quanto à necessidade de construirmos critérios razoavelmente objetivos que sirvam de “espinha” dorsal no processo avaliativo, critérios estes que – como vimos acima – precisam estar de acordo com o desejo da comunidade escolar (formada também, mas não somente, por professores...). Terceiro, último e principal. O cuidado em fazer da “intencionalidade” (principal aspecto da avaliação) o fio condutor de todo processo avaliativo.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

CADA ESQUERDA TEM A DIREITA QUE MERECE


CADA ESQUERDA TEM A DIREITA QUE MERECE
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br


        Não deveria surpreender a ascensão, no Brasil, de uma “direita” empunhando um discurso assentado no talião, na família “tradicional” e no “antipolítico”. Cada “esquerda” tem a “direita” que merece. Trata-se da já conhecida lei da ação-reação, onde o porvir refletirá aquilo que fazemos hoje, da mesma forma que as práticas pretéritas levam ao que hodiernamente se assiste. Da mesma forma que a redemocratização trouxe, em seu bojo, a ampliação dos direitos como resposta aos “anos de chumbo” das décadas de 1960 e 70, o fortalecimento da “direita”, hoje, nada mais é do que uma resposta às frustrações nascidas da dicotomia entre teoria e prática de governos ditos de “esquerda”. Os históricos e aparentemente atávicos problemas da educação, saúde e segurança não foram sequer minorados, quanto mais resolvidos, pelos governos alinhados ao, há muito surrado, discurso marxista. Vícios outrora combatidos – quando se estava na oposição – passaram a fazer parte do diabólico repertório do jeito de governar da “esquerda”. Carga tributária insana, confusão entre público e privado, promiscuidade e meretrício partidários, enriquecimento dos bancos, sucateamento dos serviços básicos, mendicância de estados e municípios frente ao centralismo do Planalto Central, incapacidade de transformar as riquezas do país em qualidade de vida para nossa gente, insignificância no cenário internacional, corporativismos de toda sorte, corrupção… Verdadeiro quadro da dor, onde os sete pecados capitais soam quase como brincadeira de criança. Infelizmente, a “esquerda” jogou ao lixo não apenas a esperança de milhões de brasileiros, mas a oportunidade de um “fazer” diferente. Movida pela desculpa da governabilidade, optou-se pelo presidencialismo de coalizão, vendendo-se a alma e a história de luta aos algozes que, desde sempre, vêm surrupiando nosso povo. Alianças espúrias e impudicas foram celebradas, desprezando a ética e a coerência. Não por acaso, coube – principalmente – à “base” a derrubada do famigerado governo da “esquerda”. Esta, portanto, colheu o que semeou. Não tardará, o país voltará às urnas. A “esquerda” precisa reconhecer os erros cometidos. Precisa, ainda, entender e aceitar que o Brasil – por sua extensão continental e formação cultural – é um país complexo, marcado por idiossincrasias, por vezes, irreconciliáveis. Urge, também, auscultar os sussurros de uma população refém do medo, ou os gritos de uma juventude que vê seu futuro esvaindo em meio à estreiteza de perspectivas. A “esquerda” precisa repensar-se antes de repensar o Brasil. Precisa submeter-se ao divã da humildade e forjar um novo pacto social, depurando suas fragilidades, seus vícios, seus discursos e suas posturas. Às demandas do século XXI, mostram-se inócuas as receitas do passado, ainda que bem intencionadas. A “esquerda” precisa entender que aqueles que dela discordam ou que, então, simpatizam com outras ideologias, têm o direito de fazê-lo, respeitados, por óbvio, os princípios da dignidade da pessoa humana e do verdadeiro Estado democrático de direito (não esse engodo que conhecemos...). A democracia não deve sepultar o antagonismo de ideias, sob o risco de enveredarmos para o caos. A “esquerda” precisa cortar na própria carne, rompendo, de fato, com práticas clientelistas e que têm levado este país ao jugo de uma cleptocracia asquerosa, insensível e desumana. Precisa quebrar os grilhões do corporativismo, que submete o interesse da maioria aos caprichos de alguns grupos que entravam o desenvolvimento social. Necessita romper com privilégios e com a cultura da “esmola”, pois que esta alimenta o coronelismo e a política de favores. À esquerda cabe propugnar por uma educação de qualidade, na formação de sujeitos autônomos, comprometidos, éticos e responsáveis. Lutar por um sistema tributário racional, justo e proporcional à capacidade econômica do contribuinte. Tensionar pela oferta urgente, com qualidade, de serviços públicos de saúde, diminuindo a dor, sofrimento e humilhação de milhões de brasileiros. Precisa sublevar-se frente à violência que ceifa vidas, combatendo o crime organizado em todas suas esferas, inclusive (principalmente...) estatal. Debruçar-se sobre políticas públicas de curto, médio e longo prazos, voltadas às diversas áreas, como transporte, moradia, saneamento, áreas estas que representam sérios gargalos a serem resolvidos. Somente assim teremos uma “esquerda” (e seu oposto, salutar e necessário) confiável, capaz de representar, a contento, importante parcela da população.

terça-feira, 3 de julho de 2018

RESUMO DAS AULAS DE SOCIOLOGIA (UNIVERSITÁRIO - EJA)

RESUMO DAS AULAS DE SOCIOLOGIA
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br
  
Primeiramente, lembro que o presente material é tão-somente um auxílio, mas não substitui tuas anotações e, principalmente, atenção às aulas de Sociologia. Vamos lá?

Nosso primeiro encontro versou sobre o “Trabalho Infantil”, lembras? Ele é tão antigo quanto o próprio homem, havendo registro dele já na Idade Antiga (3.500 a.C até 476). Vale lembrar que, por exemplo, no período em que a escravidão era uma prática socialmente aceitável (Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, etc.), o filho de escravo era, via de regra, também escravo, trabalhando como tal. Na fase do Artesanato (até o século XV-XVI, aproximadamente), era comum a criança e o adolescente auxiliarem no trabalho dos adultos, sem qualquer regramento legal que coibisse os excessos. Na fase da Manufatura (do século XVI ao XVIII), era comum vermos “aprendizes” trabalhando nas Oficinas a partir dos doze anos de idade. Contudo, foi a partir da Revolução Industrial (XVIII), especialmente na Europa, que a exploração sobre o trabalho infantil ganhou força. A situação dos jovens trabalhadores era cruel, sem qualquer direito assegurado. Incontáveis horas de trabalho, ambientes insalubres, alimentação precária contribuíam para o triste quadro. Somente a partir do final do século XIX e início do século XX é que alguns países passaram a criar leis voltadas à proteção da criança e do adolescente, fiscalizando – quando não proibindo – o dito trabalho infantil. No Brasil, a questão do trabalho infantil não diferiu muito do que foi dito acima. Com a chegada dos primeiros portugueses, a partir de 1500, já temos registros de jovens sendo explorados em sua força de trabalho. Estima-se, por exemplo, que cerca de 10% da tripulação das caravelas lusitanas era formada por crianças e adolescentes. A situação das crianças negras no Brasil também era por demais difícil. Faltava-lhes não apenas liberdade, mas dignidade e expectativa de dias melhores. Somente no ano de 1891, tivemos um Decreto que buscou regulamentar o trabalho infantil. A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), a partir de 1943, trouxe importante proteção aos trabalhadores como um todo, proibindo o trabalho infantil (antes dos 16 anos, salvo o “menor aprendiz” a partir dos 14 anos). A Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), promulgado em 1990, contribuíram de forma significativa para a proteção de nossas crianças e adolescentes.

Nossa segunda aula tratou acerca da “Organização das Nações Unidas” (ONU). Para entende-la, resgatamos a história da Primeira (1914-1918) e Segunda (1939-1945) Guerras Mundiais. Dissemos que a Primeira Guerra, assim como a Segunda, teve causas econômicas, políticas, militares, etc. Na época, formaram-se dois grandes blocos de países: a Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia) e a Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália). O primeiro bloco venceu o segundo, com um triste saldo de mais de dez milhões de mortos. Terminada a Primeira Guerra (1918), assinou-se o Tratado de Versalhes (1919) e criou-se a Liga das Nações, esta com o objetivo principal de evitar uma nova guerra de grandes proporções. Vimos que a intenção não vingou, por inúmeros motivos. Um deles é que no período entre-guerras (1918-1939) a Europa assistiu o avanço do nazismo, alimentado pelo sentimento de vingança por parte da Alemanha, que não se conformava com as humilhantes regras trazidas pelo Tratado de 1919.  Alguns países voltaram a se organizar em blocos, Aliados (Inglaterra, França e, mais tarde, União Soviética e Estados Unidos), de um lado, e, de outro, as potências do Eixo (Alemanha, Japão e Itália). O mundo assistiu, então, à Segunda Guerra (1939-1945), mais terrível e avassaladora do que a anterior. Foram mais de cinquenta milhões de mortos e um incontável número de feridos e mutilados. Principalmente a Europa e o Japão foram atingidos, com imensuráveis prejuízos econômicos. Diante do caos, foi criada a ONU (1945), composta pelos países da Terra (quase duzentos). Ela é composta por vários órgãos, como Assembleia Geral, Conselho Econômico e Social, Secretaria Geral, Tribunal Internacional Penal. Todavia, o principal deles é o Conselho de Segurança, órgão composto por um seleto grupo de cinco países (Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França) com poder de “veto”. Infelizmente, a ONU vem, ano após ano, demonstrando estar muito longe daquele que deveria ser seu principal objetivo, diminuir a desigualdade entre os países.

A terceira aula de Sociologia tratou sobre as “guerras ao longo da história”. Vimos que elas têm acompanhado, tragicamente, a trajetória humana, desde a Pré-História. Já na Idade Antiga, são muitos os exemplos de conflitos, sejam eles “externos” (envolvendo dois ou mais povos distintos) ou “internos” (envolvendo um mesmo povo). Na Grécia, por exemplo, tivemos a famosa Guerra de Tróia (1250-1240 a.C) – entre gregos e troianos – e a Guerra do Peloponeso (431 – 404 a.C), onde atenienses e espartanos digladiaram-se entre si. Na Idade Média (476 – 1453), tivemos inúmeras guerras envolvendo senhores feudais ávidos por poder e território, as Cruzadas (uma guerra dita “santa” pela Igreja) e a Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453), entre França e Inglaterra. Na Idade Moderna (1453 – 1789), por sua vez, podemos citar a Independência dos Estados Unidos (1776) em relação à Inglaterra. Finalmente, na Idade Contemporânea (1789 – aos dias de hoje), podemos exemplificar os conflitos por meio de guerras como a da Independência do Brasil (1822), frente a Portugal, a Revolução Farroupilha (1835 – 1845), envolvendo gaúchos e governo central, Revolução Federalista (1893 – 1895), colocando em campos opostos chimangos e maragatos. Podemos citar, ainda, a Revolução Russa (1917), as duas Guerras Mundiais, a Guerra do Vietnã (1964 -1973), o Yom Kipur (1973), as Malvinas (1982) e a Guerra do Iraque (2003 – 2010). O que as guerras, em geral, têm em comum? Suas motivações, quase sempre políticas e econômicas, embora, às vezes, revistam-se de um caráter “religioso”, por exemplo. As consequências de tantos conflitos são inúmeras. Prejuízos econômicos é uma delas. No ano de 2013, por exemplo, o mundo gastou cerca de 1,75 trilhão de dólares em armas, sendo que somente os EUA foram responsáveis por cerca de 682 bilhões desse montante. Porém, o lado mais macabro das guerras diz respeito ao número incontável de mortos, mutilados, “exilados” e órfãos.


A quarta aula trouxe à pauta a questão do uso e importância do “petróleo”. Este já era usado na Antiguidade. Existem registros de sua utilização em 4 mil a.C.. Como pavimento nas ruas de Roma, vedação de reservatórios entre os incas, construção da Arca de Noé, impermeabilização de palácios, armas de guerra, embalsamento de corpos... Todavia, foi a partir da Revolução Industrial (especialmente, a partir da segunda fase, entre 1850 e 1970) que o petróleo ganhou força como principal fonte de energia. Dentre as principais regiões produtoras, temos o Oriente Médio, Golfo do México, sul dos EUA, Venezuela e Rússia (Sibéria). Os países que mais produzem petróleo, por sua vez, são: Arábia Saudita, Rússia, EUA, Irã, México e China. O valor do “ouro negro” para o mundo pode ser avaliado, infelizmente, pelas inúmeras guerras a ele relacionadas, como a própria Segunda Guerra (1939-1945), Guerra do Golfo (1991), Guerra do Iraque (2002) e a Guerra da Síria (2011). Tamanha dependência em relação ao petróleo tem contribuído, ainda, para as profundas desigualdades socioeconômicas entre os países (e dentro deles), bem como para preocupante degradação do meio ambiente, com o aumento da temperatura da Terra e seus desdobramentos. O Brasil, hoje, vem buscando um “lugar ao sol” junto aos principais produtores de petróleo, expectativa essa alimentada pela descoberta e exploração do chamado Pré-Sal. Espera-se que a alegada riqueza se confirme e, principalmente, contribua para construção de um país melhor, menos injusto e desigual. 

RESUMO DAS AULAS DE FILOSOFIA (UNIVERSITÁRIO - EJA)

RESUMO DAS AULAS DE FILOSOFIA
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br
  
Primeiramente, lembro que o presente material é tão-somente um auxílio, mas não substitui tuas anotações e, principalmente, atenção às aulas de Filosofia. Vamos lá?

Nosso primeiro encontro tratou sobre o tema “ideologia e dominação social”. Ideologia pode ser definida como a “doutrina das ideias”, portanto pode ser positiva ou negativa. Será boa quando contribuir para compreensão da realidade e transformação social, de modo a se ter uma sociedade menos injusta e mais solidária. Por outro lado, será negativa quando ofuscar a realidade, levando à indiferença e apatia social, alienando o sujeito e reforçando as desigualdades existentes. Marx (1818 – 1883), em geral, tinha um olhar pessimista em relação à ideologia, vendo-a como algo negativo, servindo ela para mascarar e perpetuar as profundas desigualdades promovidas pelo Capitalismo. Segundo ele, o Capital (dinheiro) utiliza de seus “aparelhos ideológicos” (Estado, meios de comunicação, escola, igreja, etc.) para manter a exploração do patrão (burguesia) sobre o empregado (proletariado). Para Marx, a ideologia não apenas aliena o trabalhador, mas oculta a “luta de classes”, esta o grande motor da História, segundo ele. Procurei, em nossas aulas, mostrar que para compreender a teoria marxista, faz-se necessário debruçar-se sobre o período histórico em que viveu. A Inglaterra daquela época (meados do século XIX), nem de perto se parecia com o país que hoje conhecemos. Convivia-se à época com um processo de industrialização que fechava, por completo, os olhos aos direitos dos trabalhadores, onde eram comuns jornadas de trabalho extenuantes, baixíssimos salários e total inexistência de garantias trabalhistas. É nesse contexto que Marx precisa ser “lido”, daí sua crítica ao Capitalismo e à “mais-valia”.

A segunda aula tratou acerca da chamada “teoria do conhecimento”. Diz respeito à área da Filosofia que busca investigar “o que é o conhecimento”, bem como a “possibilidade de conhecermos” algo. Enquanto o senso comum diz, com certeza, ser possível conhecer, a Filosofia, por sua vez, traz muitas dúvidas sobre tal possibilidade. Independentemente da corrente filosófica que se adote, há em comum a ideia de que para que exista conhecimento são necessários três elementos: sujeito, objeto e relação entre os dois. A Teoria do Conhecimento trata desse último elemento. Quanto aos “tipos” de conhecimento, temos o Falso (quando a representação feita pelo sujeito não está de acordo com o objeto) e o Verdadeiro (quando a representação está de acordo). Estudamos algumas “correntes” que tratam sobre o assunto. Quanto à possibilidade do sujeito conhecer o objeto, o “ceticismo” nega que seja possível conhecer a verdade. O “dogmatismo” diz, com certeza, ser possível conhecer a verdade. Já o “criticismo” alega ser possível, mas desde que estejam presentes as condições necessárias para fazê-lo. Outra questão que tratamos na mesma aula diz respeito ã pergunta: é a razão ou a experiência (sentidos) a fonte do conhecimento? O “empirismo” afirma que o conhecimento provêm da experiência, sendo um de seus teóricos John Locke (1632-1704). Já o “racionalismo” alega que o conhecimento nasce é da razão, dos princípios lógicos, até porque os sentidos podem levar ao erro. Finalmente, o “apriorismo” busca, digamos, conciliar as duas teorias anteriores, tendo em Kant (1724-1804) um de seus principais expoentes.

Nossa terceira aula tratou sobre a chamada “Filosofia Popular”, onde trabalhamos com algumas ideias de Russel (1872-1970). Segundo ele, a Filosofia está numa situação intermediária entre a Teologia e a Ciência. Enquanto esta última trata das “certezas” nascidas do método, a primeira trata das “certezas” nascidas do dogma. A Filosofia, por sua vez, trata de lançar perguntas e questionamentos, dúvidas e mais dúvidas que servem de “matéria-prima” para teologia e para Ciência.


Finalmente, em nosso último encontro conversamos sobre o “homem em relação aos outros”, usando como referência teórica Thomas Hobbes (1588-1679). Vimos que o homem, ao longo de toda história, sempre envolveu-se em conflitos. Na Pré-História, a grande briga era pelo fogo. A Antiguidade (Grécia, Roma, etc.), Idades Média (guerras feudais, Inquisição, etc.), Moderna (dominação europeia na América, etc.) e Contemporânea (Revoluções Farroupilha, Federalista, duas Guerras Mundiais, etc.) estão recheadas de conflitos entre os homens. Por quê? Segundo Hobbes, o “homem é lobo do próprio homem”, por isso tantas guerras e conflitos de toda ordem. Ainda segundo o autor, para que problema seja resolvido ou amainado, o homem precisa abrir mão de sua liberdade e repassá-la ao Rei. Este, com poderes concentrados em suas mãos (Estado Absolutista) pacificaria a sociedade. Ainda hoje, em que pese tanto tempo ter se passado, a discussão segue atual. Como estabelecer um “contrato social” sem prejuízo das liberdades individuais? Ainda mais numa sociedade que convive com o seguinte paradoxo: de um lado, demandas que são cada vez mais “globais” (terrorismo, tráfico de drogas, meio ambiente, etc.) e, de outro, uma geração cada vez mais egocêntrica e individualista. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

MEDIAÇÃO EM GRAVATAÍ: DISTENSIONANDO AS RELAÇÕES

MEDIAÇÃO EM GRAVATAÍ: DISTENSIONANDO AS RELAÇÕES
Gilvan Teixeira
Mediador Comunitário do Sistema “Mediar Brasil” (núcleo Gravataí/RS)
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Mais do que nunca, os espíritos estão armados. Tudo parece ser motivo para inflamar os ânimos, onde falta bom senso e equilíbrio e sobram opiniões raivosas, estas quase sempre alimentadas pela falsa “democracia” das redes sociais. O que se vê é um perigoso e explosivo caldo cultural, com sérios (tomara que não irreversíveis...) prejuízos às relações que compõem a complexa teia social. Gravataí, a partir deste ano (2018), passará a contar com um privilegiado espaço que visa, dentre outros objetivos, construir “pontes” voltadas ao diálogo entre as partes em litígio. Parte-se da premissa da boa fé e predisposição dos envolvidos em buscar saídas para o conflito. Este, sob a ótica da Mediação, é tido não como obstáculo intransponível, mas como matéria-prima para o aprimoramento individual e coletivo. Divergências e/ou dificuldades no cumprimento do acordado são, por vezes, inevitáveis. Vive-se num mundo “real”, não “ideal” ou de fantasia. Um mundo onde, muito comumente, o avençado não consegue romper o Rubicão das boas intenções. Nasce daí a desconfiança em relação ao “outro”, quando não em relação à humanidade. Desumaniza-se, portanto o conjunto da sociedade, onde tudo e todos são vistos de soslaio. Todos perdem! O núcleo Gravataí do Sistema “Mediar Brasil” nasce com o firme propósito de contribuir para o distensionamento das relações, especialmente aquelas que tenham como “pano de fundo” questões patrimoniais. Deseja servir o Núcleo – por meio de seus mediadores comunitários – de farol aos homens e mulheres de bem que, por algum motivo, tenham enfrentado dificuldade, seja como Requerente ou como Requerido, no equacionamento deste ou daquele conflito. O “Mediar Brasil”, núcleo Gravataí, vem para contribuir na construção de uma coletividade mais sadia, pautada no diálogo como principal instrumento da resolução de conflitos, onde as partes têm a oportunidade de conversarem de forma propositiva, objetivando uma saída consensual. A Mediação vem se mostrando uma poderosa, hábil e eficaz ferramenta de materialização da justiça. Veio não para “competir” com os mecanismos tradicionais associados ao Judiciário, mas para “contribuir” na formatação de uma sociedade melhor. Celeridade, transparência e discrição serão a tônica do “Mediar Brasil”. Não faltarão a seus membros competência e abnegação, nem tampouco a crença na capacidade do ser humano em resolver seus conflitos serena e equilibradamente. Mediar é preciso...   

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

DISCURSO DE FORMATURA DOS JUÍZES DO TRIBUNAL DE MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, SECCIONAL GRAVATAÍ/RS



DISCURSO DE FORMATURA
Gilvan Teixeira
Boa tarde.

            Cumprimento o Professor Paulo Conceição, representando o Tribunal de Mediação e Arbitragem do Estado do Rio Grande do Sul, e, ao fazê-lo, cumprimento toda mesa, convidados e, de forma muito especial, meus queridos colegas. Nossa jornada, da inscrição no Curso à presente Formatura, apesar de não muito longa, como que espelhou a própria vida, com intempéries, dúvidas, embates e, por que não dizer, desconfianças. Apesar disso, ou quem sabe “por isso” – dizem que é em meio ao mar encapelado que nos tornamos melhores – seguimos, teimosamente, em frente, fazendo valer a crença na capacidade do ser humano de transformar a realidade, por mais dura e opaca que possa parecer. Não por acaso, optamos pela nobre tarefa de sermos arautos e, sobretudo, operadores da mediação como forma de dirimir conflitos, opção esta assentada no diálogo e confiança entre as partes, pressupostos indispensáveis para a construção de saídas capazes não apenas de desafogarem o Judiciário, mas, sobretudo, de fortalecerem a teia social por meio de um instrumento de justiça marcado pela celeridade e grande probabilidade de sucesso.

            Ao optarmos pela atuação como juízes mediadores revelamos a intenção de auscultarmos as partes, despojados de ranços e preconceitos. A nobre função, revestida de imensurável responsabilidade, exigirá de cada um de nós competência, equilíbrio, sobriedade, ética, ponderação, respeito ao ordenamento jurídico, bem como estudo e muita organização. Exigirá, ainda, uma constante e sólida parceria, virtuosa cumplicidade e trabalho colaborativo. Eventuais antipatias, dissabores, implicâncias e animosidades precisam ser trabalhadas e transformadas em força propulsora, convergindo para o interesse coletivo e qualificação de nosso trabalho. Quem ganha com isso? Todos! Ganham o TMA e sua seccional. Ganha, sobretudo, o município de Gravataí ao poder contar com um Tribunal mais “humanizado”, acolhedor e sensível às demandas existentes.

            Não poderia encerrar esta singela fala sem elogiar meus colegas. Apesar das inúmeras dificuldades, desencontros e algumas frustrações, não titubeamos. Seguimos em direção ao norte por nós estabelecido, qual seja, o de sermos, de fato e de direito, juízes mediadores. Para isso, contamos com o apoio incondicional de nossos familiares. Por isso, obrigado. Agradecemos, ainda, à Escola Técnica Sul Ensino, instituição que nos acolheu durante toda formação e ofereceu seu espaço para instalação do TMA-Seccional Gravataí. Nosso reconhecimento aos professores Paulo e Elisabete que, competente e pacientemente, nos deram o embasamento teórico necessário. Nossa deferência, ainda, aos colegas da turma anterior pelo apoio, companheirismo e sementes lançadas no caminho.

            Finalmente, desejo muitas bênçãos e sucesso a nós, formandos nesta tarde. Façamos do Tribunal de Mediação e Arbitragem, Seccional Gravataí, uma exemplar ferramenta para solução de conflitos, ferramenta esta que deve representar uma mudança de paradigma, de forma a superarmos a cultura da judicialização tradicional, notoriamente incapaz de dar à sociedade as respostas esperadas. Parabéns!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

  

            Quem balança nosso “berço esplêndido”? A quem temos delegado tamanha responsabilidade? O Sete de Setembro, como a Páscoa ou Finados, é um ótimo momento para reflexão acerca da vida ou da morte, da esperança ou da finitude, do porvir ou do ocaso. Qual é a história que desejamos escrever? Qual é o caminho que escolheremos trilhar? Qual é a força que pretendemos atribuir ao passado? Se “determinante”, então teremos de conviver, inevitável e fatalmente, com os descalabros por ele produzidos. Neste caso, sentemos e choremos ante tanta desigualdade social, corrupção, malversação do dinheiro público, indiferença com a educação, saúde e segurança. Porém, se – por outro lado – optarmos por fazer do nosso passado uma fonte inspiradora e propulsora de transformações, aí sim haverá espaço para subvertermos o triste e cruel status quo. A política nacional tem sido palco por onde desfilam “babás” da pior espécie. Desonestas, hipócritas, prepotentes, mentirosas, larápias e corruptas. Assim como a personagem criminosa do filme homônimo, aqueles que deveriam cuidar e servir a este país, o traem, o enganam, o fazem morrer à míngua, roubando-lhe o último suspiro. Tamanha vilania se agrava e se perpetua, alimentada que é por eleitores omissos, ignorantes, avessos à reflexão política e destituídos de memória. Como cães, retornam ao próprio vômito. Feito “corno manso”, traídos são pelas rameiras da política, candidatos que vendem a própria consciência e negociam a dignidade em troca dos votos que levam à dita “Casa do Povo” ou ao Executivo. São sabedores da deslealdade e da perfídia, porém com elas mantêm uma relação de hipocrisia e fingimento. Eleitores que tecem discursos inflamados, porém reproduzem, muito comumente, os mesmos vícios por eles condenados. O Brasil chora, enlutado pela violência desmedida e sem controle, entregue que está ao crime infinitamente mais “organizado” do que o próprio Estado. O país está em prantos ante a fome que assola milhões e milhões de nossos irmãos. A nação se contorce de dor, jogado às moscas frente à vergonhosa precariedade do (des)serviço de saúde pública. O “gigante” se apequena diante do dantesco quadro da educação, onde – enquanto alguns poucos enriquecem – professores são explorados e alunos relegados a uma (de)formação de péssima qualidade. Sobre o berço, a penumbra sombria de uma história marcada pelo descaso, instabilidade política e promiscuidade partidária. Fantasmas, com suas enormes togas negras, como abutres à espreita, sobrevoam a “criança”, aguardando a morte tida como certa. O que era para ser sonho virou pesadelo e o que deveria ser sono tem se transformado em morte. Qual é o futuro que se desenha, senão o triste infortúnio de gerações vindouras natimortas? Mesmo a esperança, ainda que um fiozinho, tem sucumbido sob a insistência doentia de trilharmos por caminhos tortuosos. Queridos amigos e amigas, aprendamos com a história.

REFLEXÕES DE UM ALUNO

REFLEXÕES DE UM ALUNO[1]

     Assim como Albert Einstein já dizia: “Todo mundo é um gênio, mas se você julgar um peixe pela sua capacidade de subir em uma árvore, ele viverá toda a sua vida acreditando que é estúpido”.
                A educação a qual conhecemos foi originada no século XVII na Prússia, em uma época histórica chamada Despotismo Esclarecido, onde, basicamente, um rei comandava toda a sociedade através de suas expectativas e necessidades. Todavia, ele percebia que as pessoas estavam sendo influenciadas por um movimento que ocorria na França neste período, o Iluminismo, onde ideais de liberdade estavam sendo pregados e influenciados pelo mundo. Por conseguinte, ele teve a iniciativa de criar um sistema educacional para que as pessoas se adaptassem ao seu modo de governo, sem questionamentos. Foi criada a Escola do Povo, com o objetivo de “medianizar” todas as pessoas, em todas as disciplinas adotadas por ele, diminuindo a margem para o surgimento de gênios. Porém, ele percebeu que as crianças, filhas de seus súditos mais próximos, bem como seus próprios filhos estavam inseridos naquele sistema pífio de ensino que foi criado para a esfera pública. Em vista disso, criou a Verdadeira Escola, voltada para o “verdadeiro” ensino das crianças as quais eram ligadas aos sistemas governamentais e que futuramente herdariam o trono. Lá se exercitava tudo aquilo que as crianças tinham como habilidades, assim como disciplinas, tais como, por exemplo, humanidades, artes e sociologia, deixando de lado matérias que pareciam desnecessárias para o desenvolvimento humanístico desses jovens.
                Todos esses aspectos dissertados nos levam a uma semelhança com a Escola do Povo e com a Escola Moderna na qual estamos inseridos. Essa tal Escola Moderna que não só faz peixes serem obrigados a escalarem árvores, mas também a descerem e correrem. A exposição da dúvida é evidente; será que a escola se orgulha de fazer com que milhões de jovens se comparem a robôs, com esse sistema sórdido de ensino, mal adaptado para a sociedade atual? Fazendo com que crianças se assemelhem a peixes e as obrigando exercerem “atos insignificantes”. Pensam que são estúpidas e que não têm potencial. Quantas vidas e potenciais criativos serão “assassinadas” até tomarmos uma atitude? Este sistema, com certeza, já resistiu mais do que devia.
                A banda de rock progressivo Pink Floyd, já disse isso na década de 70, no disco “The Wall”, mais especificamente nas faixas de “Another Brick In The Wall” e “The Happiest Days Of Our Lives”. Nesse álbum há uma profunda crítica social, não só ao sistema escolar, mas também à maneira que o ser humano está se comportando e como a sociedade interfere na vida de cada um de nós.
                  O ser humano é o ser que tem a maior facilidade de adaptação. Para provar isso utilizamos a tecnologia como exemplo; ela foi evoluindo de acordo com as necessidades do ser humano. Quando nós não precisamos mais daquele objeto ou instrumento, deixamos de usá-lo. Para exemplificar: um telefone que foi usado há 150 anos convém ser utilizado hoje? A resposta é clara. Sua função já foi cumprida. Por isso, a tecnologia evoluiu e os smartphones chegaram ao mercado, para a adaptação, de acordo com as necessidades das pessoas.                             
                A escola de 150 anos atrás demonstrou alguma mudança para a adaptação do ser humano de “hoje em dia”? Olhemos para ela e não notaremos expressivas diferenças.
           Se a escola reivindica uma preparação de jovens para o futuro, é necessário a seguinte reflexão: por que nada mudou? Essa preparação é para o futuro ou para o passado?
                Essa escola foi criada para treinar pessoas, após a Revolução Industrial, para trabalharem em fábricas, o que explica o porquê dela colocar alunos em fila, sentados, calados e, caso haja a oportunidade de falar, é obrigatório levantar a mão para se expressar. Além disso, dá um pequeno intervalo para comer e socializar, e durante mais de cinco horas moldam o pensamento de cada criança, manipulando-a e dizendo o que é certo e errado de pensar. Alunos alienados disputando por uma nota dez, enquanto outros, verdadeiros gênios, acham que são insignificantes por não se compararem a estes.
            Até quando vamos criar adultos “medianos”? Quando vamos estimular pessoas para a genialidade? O mundo evoluiu. O ser humano evoluiu e precisamos parar de transformar pessoas em robôs e zumbis, e começarmos a dar valor à criatividade, inovação e criticidade, fazendo com que, de forma autônoma, as pessoas desenvolvam o dom de se “conectarem”.
Todas as pessoas são diferentes, e a ciência atesta que dois cérebros nunca serão iguais. Então por que a escola nos trata como fôrmas, moldando nosso jeito de pensar, dando-nos uma “medida que serve para todos”? Porém, segundo Richard Williams, se um médico prescrever exatamente o mesmo medicamento para todos, o resultado será catastrófico. Essa negligência também está presente na escola, onde o professor fica à frente de trinta ou quarenta pessoas, cada uma com diferentes habilidades, diferentes necessidades, diferentes dons, diferentes sonhos, ensinando todos da mesma maneira.
A profissão que os professores exercem deve ser valorizada, afinal este é o trabalho mais importante do planeta. Porém, continuam recebendo (ou quando recebem) um salário, muitas vezes é pouco para o próprio sustento. Não é de se admirar que a maioria das pessoas não possuem boa formação, ou são semianalfabetas ou, ainda, analfabetos políticos continuando a eleger aquelas mesmas figuras que destruíram nosso país. As grades curriculares são criadas por políticos, os quais sequer ensinaram algo em suas vidas. Eles são simplesmente obcecados por provas padronizadas, pensam que marcar um “X” em uma questão de múltipla escolha determina o quanto você é inteligente. Concluímos, que para essas pessoas estarem no poder, uma questão de múltipla escolha não é o melhor caminho a se tomar.  Esses testes são extremamente ultrapassados para serem utilizados. Isso deveria ser abandonado. O próprio Frederick J. Kelly, o homem que criou os testes padronizados, disse: “Essas provas são muito rudimentares para serem utilizadas”.
Se continuarmos acreditando que a mudança não é possível, o resultado será catastrófico. Devemos ter esperança. Esperança em nós mesmo. Ora, se conseguimos atualizar nosso perfil no Facebook, ou em nossos celulares, somos capazes de fazermos isso com a educação. Para que se acabem com essas aulas padronizadas devemos alcançar as necessidades de cada aluno dentro da sala de aula. Deve-se investir muito mais, por exemplo, na capacidade do ser humano de socializar e entender o espaço em que vive, valorizando seu espírito e sua cultura. Colocando, em primeiro plano, o papel do autoconhecimento, para uma evolução intelectual individual, em vista de uma sociedade mais harmoniosa. Isso não é uma utopia. Países como a Finlândia estão fazendo mudanças extraordinárias. Eles possuem horas reduzidas de aula, professores recebem um salário digno, e, além disso, as lições de casa foram abolidas e há um foco nos trabalhos em grupo, colaborativos, ao invés de objetivarem na disputa por essa “inteligência” adotada por provas padronizadas. Há uma preparação do jovem para ser um ser humano disposto a conviver em um meio social, com a valorização da consciência e do psicológico de cada jovem. Mas a melhor parte é que o resultado é mais efetivo do que qualquer outro país. Além da Finlândia, países como Singapura estão evoluindo rapidamente, com criação de programas escolares como Khan Academy.
Eu acredito nesse mundo. Um mundo onde os peixes não são forçados em subir em árvores. Um mundo onde, nós, seres humanos possamos ser valorizados pelo que realmente somos. Porém, repito, isso não é uma utopia, é apenas um mundo mais justo, focando-se no desenvolvimento do indivíduo.




[1] O texto é de responsabilidade de seu autor, o aluno Thiago Lermen, Turma 33, do Instituto de Educação São Francisco.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

LEVEDAR

LEVEDAR[1]
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Era uma vez um certo padeiro. Fazia não apenas pão, mas operava milagres. Nascido e criado de forma humilde, tornou-se mais do que um simples homem, mas um GRANDE HOMEM. Apesar das inúmeras dificuldades e incontáveis obstáculos, tornou-se um exemplo de esposo, pai, padeiro e professor. Mal sabia ele que, ao contrário do que pensava, muito mais ensinava do que aprendia. Semanalmente, todas as quintas, lá estava ele, discreta e silenciosamente, a depositar um enorme pão caseiro sobre a mesa da biblioteca. Duvidasse, esquivava-se antes mesmo de receber um simples “obrigado”. Dava sem esperar nada, absolutamente nada, em troca. O humilde gesto reacendia a chama de que é possível construir um mundo melhor. O pão depositado por ele servia a todos, independentemente de ideologias, tez partidária, posição hierárquica, etnia, gênero ou credo. O pão parecia levedar o sentimento de partilha. Um a um, iam fatiando o alimento, fazendo-o multiplicar. Foram dois anos (quatro semestres), distribuindo, acima de tudo, a poderosa e genuína mensagem do amor e de seus frutos, cada vez mais esquecidos. A partilha do pão é emblemática. Pressupõe despojamento, perdão, equidade, solidariedade, empatia. É um ato de hombridade e humanidade. Não por acaso, Cristo o dividiu e, antes d’Ele, o salmista fez menção aquele que dá vigor ao homem. Antes de padeiro, professor! Quanta sabedoria por detrás da ação singela. Eis aí o verdadeiro testemunho. O verdadeiro mestre convence menos pela palavra do que pelo exemplo. Este sim é capaz de fomentar profundas e avassaladoras mudanças. Seja a escola o espaço para levedura das grandes transformações, onde, assim como o padeiro, aprendamos a amassar o pão. Arte que exige técnica, paciência, confiança, esperança. Moldemos e nos deixemos moldar. Sem pressa, soberba ou desconfiança quanto à capacidade do “outro” em modificar-se ou nos modificar. A “massa” precisa estar para o padeiro, assim como o barro para o oleiro. Trata-se não de uma relação desigual, mas, acima de tudo, de uma necessária e produtiva cumplicidade, assentada no respeito, no diálogo e no reconhecimento do “outro” como sujeito indispensável à nossa própria existência. Meus parabéns ao Sr. Aury, e ao fazê-lo, parabenizo todos os formandos do primeiro semestre de 2017 da EMEF Fidel Zanchetta. Deus nos abençoe!



[1] Texto em homenagem ao Sr. Aury, formando do Bloco 9aB (primeiro semestre de 2017), da EMEF Fidel Zanchetta. 

sábado, 19 de agosto de 2017

CACHORRO, SOMOS NÓS...

CACHORRO, SOMOS NÓS...
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Verdadeira ofensa à classe dos mammalias e à família dos canidaes, a declaração de um ministro do STF não surpreende. Deixa às claras o que há muito é sabido: o Judiciário, nem de perto, é sinônimo de ética ou credibilidade. Os mesmos vícios, que deveriam ser exemplarmente punidos pela caneta do magistrado, tangenciam a conduta de inúmeros juízes Brasil à fora, da primeira à última instância, da longínqua comarca do interior à mais alta Corte. Os valores trazidos na cartilha são letra-morta, sucumbem frente à consciência putrefata daqueles que usam a normativa jurídica para defesa de interesses escusos. Hermético é não apenas o “juridiquês”, mas o corporativismo doentio que, historicamente, vem sangrando os cofres públicos e cristalizando privilégios, em detrimento do interesse público. Donos de uma falsa moral, não são poucos os togados que, feito abutres, alimentam-se da carniça de um país combalido e sôfrego. Ao que tudo indica, fazendo uso da verborreia do ministro que acredita ser Deus, o Judiciário – não apenas, e eventualmente, o instituto do habeas corpus – tem, muito comumente, se tornado um “valhacouto de covardes”. O dito ministro, ao que tudo indica, parece também ter confundido a relação entre o cachorro e seu rabo. Precisa entender que ele, SERVIDOR PÚBLICO, é o “rabo”, enquanto quem o paga (a quem ele chama de “opinião pública”) é o “cachorro”.  Tantos anos enfiado em seu gabinete, embasbacado entre incontáveis benesses, talvez o tenha feito perder o sentido da dura realidade da maioria de nosso povo. Não se ponha a carreta na frente dos bois, “Excelência”! Não passas de um “rabinho”, pois que insignificante diante daquele que te dá sentido. Cachorro, e dos grandes, somos nós! Infelizmente, cachorro cotó, pois que, lamentável e vergonhosamente, o nosso “rabo” tem sido de pouca serventia. Apesar de viver às custas de seu dono, mais tem estorvado do que ajudado. Não abana e nem tampouco espanta as moscas. Não denota tristeza, dor ou felicidade. Faz lembrar o apêndice, só lembramos dele quando inflama. Passou da hora do rabo colocar-se no seu devido lugar, assim como o Judiciário no seu. Saia este do meio entre as pernas da malfadada República e cumpra, já, com seu papel. Urge refundarmos este país, saldando a imensa dívida com seus cidadãos, sequiosos por serviços públicos de qualidade, necessitados de justiça social e cansados de tamanha exploração.  

sexta-feira, 28 de julho de 2017

NOTA DE ESCLARECIMENTO

NOTA DE ESCLARECIMENTO
Prof. Gilvan
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br



                Por meio desta, em respeito à comunidade escolar, INFORMO que a partir do dia 31 de julho do presente ano, após mais de uma década como Coordenador, estarei me afastando do Setor de Disciplina. Quanto aos motivos, não parece oportuno e adequado expô-los aqui, mas dizem respeito a uma série de questões, a maioria delas, alheias à minha vontade. Agradeço, primeiramente, a Deus pela sua enorme bondade. Meus sinceros agradecimentos, ainda, aos colegas de Setor (Ernesto, Luís, Thaís, Jonathan e, até pouco tempo, Márcia), professores, SSE, SOE, SOR, funcionários em geral (portaria, secretaria, limpeza, etc.), pais e, principalmente, ALUNOS, pois são estes últimos que dão razão à existência de uma instituição de ensino. Espero – e tenho convicção de que o fiz – ter contribuído para formação integral de algumas gerações (trabalho no Instituto de Educação São Francisco desde 1992), formação esta marcada pela ética, profissionalismo, competência e, principalmente, crença no ser humano. A partir de agora, atuarei apenas como professor de Geografia das turmas de Segundo e Terceiro Anos, função esta que seguirei exercendo com excelência e zelo.   

sábado, 1 de julho de 2017

O GRANDE LIXÃO DO PLANALTO CENTRAL

O GRANDE LIXÃO DO PLANALTO CENTRAL
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Surpreende a decisão do STF em permitir que um Senador da República, até então afastado por flagrante envolvimento em crime, retornasse ao convívio com seus pares no Congresso Nacional? Acredito que não! Mais do que isso, a decisão do Ministro do Supremo vem ao encontro da lógica e da coerência, afinal, lugar de lixo onde é, senão na lixeira? Brasília, e o que ela representa, é o grande lixão nacional. A cidade fede. O chorume nauseantemente fétido corre pelas ruas e avenidas largas da capital federal. A mistura de togas prepotentes, caras fatiotas e ternos imponentes, todos eles a contrastarem com a roupa maltrapilha de quem paga a vergonhosa conta, exala a inhaca típica da histórica sujeira sob o tapete da malfadada República. Sobrevoando Brasília, além de jatinhos movidos à propina e troca de favores espúrios, revoadas de cupins e urubus. Enquanto os primeiros consomem, sorrateiramente, os alicerces da democracia, os segundos lambuzam os bicos com a carniça resultante de tantos sonhos destruídos. O lixão de Brasília é lugar predileto, ainda, dos incontáveis ratos, estes das mais variadas cores e pretensas ideologias. Infestam os salões e plenários, deixando o inconfundível e malcheiroso rastro por onde passam. Sentem-se em casa, tomam conta da tribuna e – pasmem – ousam tecer discursos em nosso nome. Brasília está jogada às moscas. Nasceu assim, cresceu assim, é mesmo assim, mas será sempre assim? A maldição de Gabriela estará selada? Os seres vis, abjetos e infames que tomaram conta de Brasília acreditam que sim. Locupletam-se, por isso, às custas de qualquer pudor, pois acreditam e apostam na impunidade, no “jeitinho”, nas brechas da legislação, na caneta da magistratura e em tantos outros subterfúgios típicos de uma republiqueta que desconhece o verdadeiro Estado democrático de Direito. Confundem, e tentam nos fazer confundir, “contraditório” com “protelatório”, “ampla defesa” com “safadeza”, “transitado em julgado” com “a perder de vista”... Enquanto isso, a saúde do eleitor, do contribuinte, do trabalhador, da gente honesta, enfim, da maioria – quase sempre silenciosa, feito gado no brete pronto para o abate – vai de mal a pior. Esvaem-se não apenas as forças, mas a seiva da esperança e a crença de que seja possível um país melhor. Ponha-se fim, portanto, ao lixão. Salvem-se os dedos, ainda que, para isso, perca-se o anel entalado no coração do país. Anel que soa como ouro, pavoneia-se como joia, mas que, no fundo, representa o que temos de pior, mais desumano, degradante e vexatório. Verdadeiro lixão no Planalto Central.  

quarta-feira, 28 de junho de 2017

SALA DE AULA: PROTAGONISMO DE QUEM?

SALA DE AULA: PROTAGONISMO DE QUEM?
Prof. Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br




                Tem sido comum vermos nossos colegas, professores, “correndo” errado dentro das quatro linhas do campo. Não surpreende, portanto, o cansaço, estresse e péssimos resultados obtidos na sala de aula. Alunos distraídos, indisciplinados, irrequietos, com rendimento muito aquém do razoável, beirando, por vezes, a mais absoluta mediocridade. Gasta-se muita energia, sem o retorno minimamente esperado. As baixas notas nas provas apenas corroboram o triste “círculo vicioso”, onde todos perdem. Assim tem caminhado o ensino neste país. O abismo, há muito deixou de estar “acolá”, sendo uma triste e presente realidade, comprometendo a saúde do professor e lançando no lixo qualquer esperança acerca de uma educação de qualidade. Inexistem receitas frente a desafios tão complexos. Contudo, urge uma profunda reflexão a respeito do caótico quadro da aprendizagem de nossos educandos, reflexão esta que precisa ser propositiva, viável e, acima de tudo, construída de forma coletiva, deixando de lado velhos e carcomidos ranços e apontando (apostando!) para um norte. Tamanho envolvimento requer disposição, envolvimento, planejamento, investimento e uma gestão competente, capaz de ouvir, contrapor e, sobretudo, agir, deixando de lado o discurso vazio e, no caso das escolas privadas, às vezes, meramente comprometido com a dita “saúde financeira” das referidas instituições. O professor, por sua vez, tem um papel fundamental no processo de refundação do ensino. Precisa repensar sua ação pedagógica, deixando, quiçá, de carregar a pesada cruz que, muito comumente, tem sido colocada sobre seus ombros. O protagonismo na sala de aula cabe a quem? Aqui, talvez, a principal pergunta a ser feita e respondida quando da busca de uma melhor qualidade de ensino. Irônica e contraditoriamente, o professor tem atribuído ao aluno um papel de coadjuvante, estratégia esta, diga-se de passagem, por vezes inconsciente e não dolosa. O educando, a maior parte do tempo, é levado ao anonimato, sumindo em meio ao grande e irresponsável número de colegas. É, quase sempre, apenas um “número na chamada” ao longo do dia, da semana, do mês, do ano letivo... Tem sido comum vermos o professor jogar em todas as posições: planeja a aula, explica o conteúdo, gasta a saliva à exaustão. Quando pergunta, ele mesmo responde. Enquanto isso, o aluno segue ali, feito paisagem-morta, indiferente, sonolento, descomprometido com aquele enredo que, para ele, “não lhe pertence”, “não lhe diz respeito”. Campo fértil à tergiversação, conversas paralelas e completo descaso com o desfecho da história. Há, porém, um raro momento – talvez, único – em que o aluno é chamado a assumir o papel de protagonismo: a prova! Quase sempre “individual” e “sem consulta”... Pode haver maior protagonismo do que esse? Tal questionamento soaria como engraçado, não fosse trágico. Representa a flagrante incoerência do processo ensino-aprendizagem levado a cabo na esmagadora maioria das instituições de ensino, públicas e privadas. Espera-se do aluno um protagonismo equivocado e inoportuno, frágil e traumatizante, mal pensado e malfadado. Ao educando, cabe uma outra espécie de protagonismo, não pontual ou esporádico, não simplista ou impessoal, não “fechado” ou cerceado. Há de se buscar, isto sim, um protagonismo permanente e contundente, humano e fraterno, amplo e franco. A escola, e a sala de aula de maneira particular, precisa se transformar no verdadeiro palco da aprendizagem, conciliando os currículos formal e oculto, lançando seus holofotes sobre aquele que deve ser, de fato e de direito, seu principal ator: o aluno!  

terça-feira, 4 de abril de 2017

AS MURALHAS DE JERICÓ

AS MURALHAS DE JERICÓ
Gilvan Teixeira
blog: profgilvanteixeira.blogspot.com.br

Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas. Tendo ouvido o povo o sonido da trombeta e levantado grande grito, ruíram as muralhas, e o povo subiu à cidade, cada qual em frente de si, e a tomaram. (Josué 6; 20).

            Jericó fica aqui. Encravada no meio de Cachoeirinha, bem que poderia estar em Brasília, São Luís, Recife, Porto Alegre... Marcada pelo pecado, há muito a Câmara da cidade busca esconder suas vergonhas por detrás das muralhas, como se estas fossem capazes de escamotear o fétido cheiro exalado por tamanha imundície. Corre solta, ali, a pior espécie de prostituição, aquela onde são vendidas consciências, negociadas em nome de uma pretensa governabilidade. Como moeda de troca, alguns cargos em comissão, alimentando um ignóbil círculo vicioso, onde quem mais perde é o cidadão comum. Jericó é um lugar contaminado, vingando nela a falsidade e o narcisismo doentio. Apesar de muito feios, os que nela habitam, pavoneiam-se, buscando amainar a imagem bizarra por meio de trajes, penteados e perfumes que vão do caro ao cafona, do exagerado ao ridículo. Jericó custa caro, muito caro, ao contribuinte. Enquanto este convive com a violência, o desemprego, o ônibus lotado, a precariedade do ensino e a falência da saúde, Jericó esbanja suntuosidade. Bela arquitetura, veículos caros, ambiente climatizado, papel higiênico de invejável textura... Parece outro mundo. Jura ser o centro do universo, a Casa do Povo. Não surpreende, pois que risível e pífia a inteligência de sua gente. Quiçá, por isso, tamanha indiferença com o destino da educação para além de suas muralhas. Sim, outro mundo, aquele de um passado marcado pelo coronelismo e troca de favores. Apesar de ínfima no tamanho, os arredores de Jericó servem de latifúndio aos que tomaram assento (ou será de “assalto”?) no lugar. Elegem-se e reelegem-se com a dor e sofrimento alheios. Para os habitantes de Jericó, o fracasso dos serviços públicos, feito cabeleira de Sansão, representa força. Faltou remédio? Adivinha, lá está o coronel para consegui-lo. Faltou a lâmpada na rua, sobrou entulho na frente de casa, precisou de vaga na creche? O coronel, como que num passe de mágica, logo aparece. Feito vampiros, alimentam-se do sangue da gente desgraçada e pobre. Inebriados por um misto de gratidão e profunda ignorância, o eleitor faz de Jericó um lugar de privilégios eternos, onde viceja o nepotismo e a relação promíscua entre interesses público e privado. Pode sair algo bom de Jericó? Como quadrilha, os demais Poderes comungam à mesa de Jericó, restando ao povo não mais do que míseras migalhas. Comum é o viajante confundi-la com Babel, tamanha é a confusão de siglas a formarem o triste mosaico. Não passam de letrinhas mortas, destituídas de sentido e carentes de ideologia. Outros, a confundem com Sodoma, tal a impureza de Jericó. A leitura da Bíblia, junto a seus portões, há de livrá-la da ira divina? Servirá de carranca contra a fúria do povo? Certo é que hoje tem soado como deboche aos que, naquele lugar, ainda buscam algum socorro. A fé em Jericó é protocolar, não mais do que mero e insuportável formalismo. Ouve-se, a todo instante, feito mantra, os nomes de seus senhores. “Presente, presente, presente...”. Pudera, é um dos raros momentos em que parecem existir. Buscam, talvez, dar significado à própria insignificância. Jericó parece enferma, combalida, moribunda. Suas muralhas parecem ruir. Ouvem-se as trombetas anunciando novos tempos. Jericó chegou ao fim (!?)