A POLÍTICA
Gilvan
Aprendi, quando guri, naquele tempo em que a turminha ainda ouvia a professora, que o homem é por essência um ser político. O termo, ainda que complexo para a limitada compreensão de alguém em tão tenra idade, inspirava como que um ar de respeito, quase reverência. O tempo passou. A escola (excetuando-se a disposição das classes) já não é a mesma, como também não o é a visão do que venha a ser política. Esta, de aparentemente honrosa e virtuosa, passou a ser motivo de escárnio. Sequer é tema de conversa entre ébrios e loucos. Poucos a conhecem e menos ainda são os que a tomam como algo sério. O desprezo só não é menor do que a indignação, especialmente por parte dos que pagam a “conta”. Como leprosos, os que ainda vivem da política não raras vezes se escondem por entre os gabinetes daquela que outrora era chamada de “a casa do povo”. Não fosse o voto compulsório – verdadeiro atentado à liberdade das pessoas em exercerem o direito de escolherem ou não seus ditos “representantes” -, alguém duvida do insignificante quorum que teríamos? Por certo mancharíamos a imagem, distorcida e enganadora, de sermos uma das maiores democracias do mundo. Famílias se perpetuam no poder. O coronelismo atávico, em muitos rincões, segue ditando as normas. Compra-se consciências, vende-se ilusões. Os favores, há muito que são moeda de troca. Público e privado, ao contrário do que faz crer a lei (só viva para os que têm vez e voz), se misturam sim. Senado, Câmara Federal, Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores... Verdadeiros saaras de confiabilidade e honestidade. Legisla-se, não raras vezes, em causa própria. O povo? Que povo? O que dizer do Executivo em todas suas esferas? Verdadeiro prostíbulo de interesses espúrios e mesquinhos. Mais parece uma mal-acabada colcha de retalhos, fétida e mal-cheirosa. Partidos, muitos deles nanicos, hora se amancebam, hora se revezam, hora ainda se digladiam. O intuito, ao final das contas, parece ser sempre o mesmo: permanecer no poder e deste poder usufruir todas suas vantagens e benesses. Ideologia partidária? Nada disso. Teorias e bandeiras são postas de lado tão logo estejam diante do banquete dos poderosos. O Judiciário, por sua vez, segue com os olhos vendados, os ouvidos encebados e os braços encolhidos diante das agruras dos que sofrem. O acesso à dita Justiça não passa de discurso, pois que na prática inexiste. O julgamento dos processos segue o rito quase sempre “ordinário” na acepção mais vil da palavra. Magistrados se deixam corromper e põem em risco e em dúvida a credibilidade naquele que deveria ser um importante baluarte social. Enfim, há de questionar-se o famigerado Estado Democrático de Direito. Que Estado? Que democracia? Que Direito? Tal construção teórica – pois que em sua práxis se mostra eivado de engodo – há muito não convence, despertando num que outro sonhos de guri.
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Este "blog" objetiva servir de ferramenta de pesquisa e de diálogo constante com o público. Os textos são originais e trazem o ponto de vista do autor acerca de inúmeras temáticas. Boa leitura!
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
O bicho-papão
O BICHO-PAPÃO
Gilvan
Quando pequeno, algumas historinhas eram muito comuns, sendo contadas, quase sempre, pelos mais velhos. Iam desde os clássicos – como Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, Joãozinho e Maria – até aquelas que, via de regra, estavam mais no imaginário popular do que propriamente em livros. Preferíamos as últimas. Lobisomem, Mão-Preta,Velho do Saco e tantos outros “monstros” emergiam das rodas que se formavam em torno de quem as contava. Rodas formadas pelas crianças e pelos mais crescidinhos. A fala do contador de histórias, entrecortada por gestos, ia sendo recriada indelevelmente na imaginação dos ouvintes. Tudo era propício. O silêncio, a escuridão do ambiente, a chama colorida que dançava sobre um pedaço de vela. Bons tempos aqueles. Era um tempo onde um dos maiores prazeres era assentar-se bem encostadinho junto ao pai ou à mãe, sentir o calor dos corpos paternos, a respiração deles, o coração a palpitar-lhes o peito. Ainda há pouco, ralhavam conosco. Vez por outra tomávamos uns safanões. Beliscão aqui, puxão de orelha ali. A vara (quase sempre ficava só na ameaça...), só para os casos considerados mais graves. Era a “pena-capital”. A temíamos. Apesar de tudo, amávamos e respeitávamos nossos pais. Rancor, tristeza, remorso, trauma daquilo tudo? Nenhum, absolutamente nenhum. Aquela combinação de afago e palmadas esporádicas só fazia fortalecer nossos laços, nosso respeito, nosso caráter. Crescemos saudáveis.
Uma das histórias mais comuns à época era a do Bicho-Papão. Era curta, mas eficaz. A versão que mais nos contavam era a de um bicho enorme, com uma grande boca que roubava as crianças e as levava para longe dos pais. Dormir após histórias como essa era um desafio aos menores. Muitas vezes, nossa salvação era uma ou outra tia que pousava por casa e aceitava nossa súplica para que dormíssemos com ela. Os tempos, hoje são outros. A “modernidade” tem sepultado nossas fantasias. A virtualidade criada pelas novas tecnologias tem se mostrado incapaz de substituir à altura o sentido daquelas histórias. Os “monstros”, hoje, são mais coloridos (os daquele tempo eram em preto e branco), mas vazios. São excessivamente superficiais. Não calam no imaginário. São destituídos de mensagens, quer boas ou permanentes.
O Bicho-Papão de outrora tem sido substituído pelo Estado. Este, num país subdesenvolvido como o nosso, longe de ser um verdadeiro Estado democrático e de Direito, tem sido um Estado surrupiador da liberdade e da criatividade. Tal Estado, até algum tempo, vinha “furtando” (sutil e sorrateiramente) das famílias sua prole. Hoje as têm “roubado”, mediante a força e violência de uma legislação equivocada e aparentemente – só aparentemente – bem intencionada. O Bicho-Papão daqueles tempos tirava as criancinhas de casa, porém as devolvia com o passar dos anos. As “vítimas” cresciam e percebiam a importância do Bicho-Papão para suas vidas, para o crescimento moral e o amadurecimento ético, a ponto de passarem a amá-lo e a ressuscitá-lo nas histórias a serem contadas às gerações seguintes. O Estado, por sua vez, demonstra não intencionar devolver nossas crianças. As separa, cada vez mais, das famílias, através de uma legislação que se arvora como sadia mas que, na prática, tem se mostrado incapaz de contribuir para a formação de sujeitos participativos, críticos, responsáveis e felizes. Ao contrário, a infância tem sido uma etapa da vida cada vez mais curta e mal trabalhada, prova disso é o crescente número de “adultescentes”, seres nem adultos, nem adolescentes, verdadeiras aberrações sócio-patológicas. O contato entre pais e filhos além de exíguo tem estado marcado pela superficialidade, pela falta de limites, pela violência física e psicológica, a mesma violência não raras vezes praticada pelo Estado e fomentada pelos meios de comunicação. Um tempo maior na escola (há uma forte tendência em aumentar, ainda mais, o tempo de permanência do aluno na instituição de ensino) não é, por certo, garantia de qualidade. O nível cognitivo de nossos alunos é cada vez mais pífio. Comportamentalmente, então, a tragédia não tem sido menor. Formam-se levas e levas de analfabetos não apenas políticos, mas gerações de crianças e jovens que sabem cada vez menos da Matemática, da História, da Literatura, da Geografia, etc. Pior, sabem cada vez menos da vida. Crianças e jovens que têm um mundo de informações a seus pés, mas mostram-se incapazes de interpretá-las e de as usarem para a melhoria das relações e do mundo em que vivem.
O mesmo Estado que tece leis pretensamente “humanas” como a que busca coibir o chamado “tapa pedagógico” , sob a alegação de que fere a pessoa da criança e do adolescente, é o Estado que tem se mostrado incapaz de sanar os mais antigos e elementares problemas nas áreas da saúde, educação, segurança, etc. Um Estado cada vez maior e menos confiável. Mais inchado – com seus incontáveis cargos em comissão –, portanto mais caro, e menos eficaz. Um Estado que tem se mostrado incompetente em todos seus Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e esferas (federal, estaduais, municipais). Omisso, quando não submisso a interesses econômicos espúrios. Legisladores que legislam em causa própria. Um Judiciário que mais parece um “paspalho” perdido em meio ao incontável número de processos, onde só quem ganha é aquele que tem o tempo como aliado. Um Executivo marcado muito mais pelo discurso e pelas promessas do que por políticas sociais verdadeiramente sérias e inclusivas. Um sistema partidário risível, incapaz de despertar a mínima atenção do eleitor.
O Estado não tem a base moral necessária para interferir na esfera familiar. A “moral de cuecas” apregoada pelo Poder Público não pode servir de norteador às famílias no que tange à educação de crianças e adolescentes. A “palmada pedagógica” – como tem sido chamada por alguns – é não uma questão de Estado, mas diz respeito à forma como as famílias educam suas crianças. Ah, mas quando houver violência? Ora, quando o que deveria ser um ato meramente disciplinador (e, portanto, amoroso...) transformar-se em ato de violência, já existe legislação atinente à questão. Devemos nos sublevar contra a presente onda de liberalismo e permissividade doentia que assola nossas famílias. Há um poderoso movimento midiático (especialmente através da televisão e da internet) que tem corrompido importantes valores de outrora. Impera um “relativismo” vazio e danoso. Os “tempos líquidos” têm sepultado preciosas referências e formado gerações inteiras de verdadeiras “bestas”, contribuindo para a expansão das drogas, do álcool e da pornografia.
Grande é a saudade do velho e bom Bicho-Papão. Quisera cultivássemos os monstros de outrora. Mais do que saudosismo, impera o temor em relação às futuras gerações. Eis que se levanta um Leviatã, não o de Hobbes, mas um Estado envolto numa cultura marcada pela mesquinhez, superficialidade, consumismo, coisificação das pessoas... Um Estado que se apodera não apenas de nossos recursos (já parcos, muitas vezes), mas de nosso mais valioso patrimônio: nossos filhos e filhas.
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http://www.sinepe-rs.org.br/core.php?snippet=artigos_interna&id=13524
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Gilvan
Quando pequeno, algumas historinhas eram muito comuns, sendo contadas, quase sempre, pelos mais velhos. Iam desde os clássicos – como Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, Joãozinho e Maria – até aquelas que, via de regra, estavam mais no imaginário popular do que propriamente em livros. Preferíamos as últimas. Lobisomem, Mão-Preta,Velho do Saco e tantos outros “monstros” emergiam das rodas que se formavam em torno de quem as contava. Rodas formadas pelas crianças e pelos mais crescidinhos. A fala do contador de histórias, entrecortada por gestos, ia sendo recriada indelevelmente na imaginação dos ouvintes. Tudo era propício. O silêncio, a escuridão do ambiente, a chama colorida que dançava sobre um pedaço de vela. Bons tempos aqueles. Era um tempo onde um dos maiores prazeres era assentar-se bem encostadinho junto ao pai ou à mãe, sentir o calor dos corpos paternos, a respiração deles, o coração a palpitar-lhes o peito. Ainda há pouco, ralhavam conosco. Vez por outra tomávamos uns safanões. Beliscão aqui, puxão de orelha ali. A vara (quase sempre ficava só na ameaça...), só para os casos considerados mais graves. Era a “pena-capital”. A temíamos. Apesar de tudo, amávamos e respeitávamos nossos pais. Rancor, tristeza, remorso, trauma daquilo tudo? Nenhum, absolutamente nenhum. Aquela combinação de afago e palmadas esporádicas só fazia fortalecer nossos laços, nosso respeito, nosso caráter. Crescemos saudáveis.
Uma das histórias mais comuns à época era a do Bicho-Papão. Era curta, mas eficaz. A versão que mais nos contavam era a de um bicho enorme, com uma grande boca que roubava as crianças e as levava para longe dos pais. Dormir após histórias como essa era um desafio aos menores. Muitas vezes, nossa salvação era uma ou outra tia que pousava por casa e aceitava nossa súplica para que dormíssemos com ela. Os tempos, hoje são outros. A “modernidade” tem sepultado nossas fantasias. A virtualidade criada pelas novas tecnologias tem se mostrado incapaz de substituir à altura o sentido daquelas histórias. Os “monstros”, hoje, são mais coloridos (os daquele tempo eram em preto e branco), mas vazios. São excessivamente superficiais. Não calam no imaginário. São destituídos de mensagens, quer boas ou permanentes.
O Bicho-Papão de outrora tem sido substituído pelo Estado. Este, num país subdesenvolvido como o nosso, longe de ser um verdadeiro Estado democrático e de Direito, tem sido um Estado surrupiador da liberdade e da criatividade. Tal Estado, até algum tempo, vinha “furtando” (sutil e sorrateiramente) das famílias sua prole. Hoje as têm “roubado”, mediante a força e violência de uma legislação equivocada e aparentemente – só aparentemente – bem intencionada. O Bicho-Papão daqueles tempos tirava as criancinhas de casa, porém as devolvia com o passar dos anos. As “vítimas” cresciam e percebiam a importância do Bicho-Papão para suas vidas, para o crescimento moral e o amadurecimento ético, a ponto de passarem a amá-lo e a ressuscitá-lo nas histórias a serem contadas às gerações seguintes. O Estado, por sua vez, demonstra não intencionar devolver nossas crianças. As separa, cada vez mais, das famílias, através de uma legislação que se arvora como sadia mas que, na prática, tem se mostrado incapaz de contribuir para a formação de sujeitos participativos, críticos, responsáveis e felizes. Ao contrário, a infância tem sido uma etapa da vida cada vez mais curta e mal trabalhada, prova disso é o crescente número de “adultescentes”, seres nem adultos, nem adolescentes, verdadeiras aberrações sócio-patológicas. O contato entre pais e filhos além de exíguo tem estado marcado pela superficialidade, pela falta de limites, pela violência física e psicológica, a mesma violência não raras vezes praticada pelo Estado e fomentada pelos meios de comunicação. Um tempo maior na escola (há uma forte tendência em aumentar, ainda mais, o tempo de permanência do aluno na instituição de ensino) não é, por certo, garantia de qualidade. O nível cognitivo de nossos alunos é cada vez mais pífio. Comportamentalmente, então, a tragédia não tem sido menor. Formam-se levas e levas de analfabetos não apenas políticos, mas gerações de crianças e jovens que sabem cada vez menos da Matemática, da História, da Literatura, da Geografia, etc. Pior, sabem cada vez menos da vida. Crianças e jovens que têm um mundo de informações a seus pés, mas mostram-se incapazes de interpretá-las e de as usarem para a melhoria das relações e do mundo em que vivem.
O mesmo Estado que tece leis pretensamente “humanas” como a que busca coibir o chamado “tapa pedagógico” , sob a alegação de que fere a pessoa da criança e do adolescente, é o Estado que tem se mostrado incapaz de sanar os mais antigos e elementares problemas nas áreas da saúde, educação, segurança, etc. Um Estado cada vez maior e menos confiável. Mais inchado – com seus incontáveis cargos em comissão –, portanto mais caro, e menos eficaz. Um Estado que tem se mostrado incompetente em todos seus Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e esferas (federal, estaduais, municipais). Omisso, quando não submisso a interesses econômicos espúrios. Legisladores que legislam em causa própria. Um Judiciário que mais parece um “paspalho” perdido em meio ao incontável número de processos, onde só quem ganha é aquele que tem o tempo como aliado. Um Executivo marcado muito mais pelo discurso e pelas promessas do que por políticas sociais verdadeiramente sérias e inclusivas. Um sistema partidário risível, incapaz de despertar a mínima atenção do eleitor.
O Estado não tem a base moral necessária para interferir na esfera familiar. A “moral de cuecas” apregoada pelo Poder Público não pode servir de norteador às famílias no que tange à educação de crianças e adolescentes. A “palmada pedagógica” – como tem sido chamada por alguns – é não uma questão de Estado, mas diz respeito à forma como as famílias educam suas crianças. Ah, mas quando houver violência? Ora, quando o que deveria ser um ato meramente disciplinador (e, portanto, amoroso...) transformar-se em ato de violência, já existe legislação atinente à questão. Devemos nos sublevar contra a presente onda de liberalismo e permissividade doentia que assola nossas famílias. Há um poderoso movimento midiático (especialmente através da televisão e da internet) que tem corrompido importantes valores de outrora. Impera um “relativismo” vazio e danoso. Os “tempos líquidos” têm sepultado preciosas referências e formado gerações inteiras de verdadeiras “bestas”, contribuindo para a expansão das drogas, do álcool e da pornografia.
Grande é a saudade do velho e bom Bicho-Papão. Quisera cultivássemos os monstros de outrora. Mais do que saudosismo, impera o temor em relação às futuras gerações. Eis que se levanta um Leviatã, não o de Hobbes, mas um Estado envolto numa cultura marcada pela mesquinhez, superficialidade, consumismo, coisificação das pessoas... Um Estado que se apodera não apenas de nossos recursos (já parcos, muitas vezes), mas de nosso mais valioso patrimônio: nossos filhos e filhas.
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Tutano
TUTANO
Gilvan Teixeira
Ainda lembro de meu avô Juca grudado num osso em meio à sopa envolta na fumaça. Bem-vinda numa noite de inverno. O minuano soprava intenso lá fora, fazendo estalar as paredes de madeira. Guri, não sabia o porquê do encantamento que a cena produzia. Parece que ainda o vejo. Franzino na aparência, mas um touro para o trabalho duro. Mesmo velho, levantava sozinho uma casa. Óculos postos na ponta do nariz como a cair, o velho Juca sorvia a sopa. Vez por outra deixava soar o barulhinho característico de quem deixa passar por entre os lábios o caldo quente. Logo, o prato fundo já não abrigava a sopa, mas tão-somente um osso enorme que ocupava todo o fundo da porcelana. Com uma das mãos segurava o osso quase a escorregar entre os dedos calejados por uma história de muito trabalho. A outra segurava o garfo. Mais parecia um cirurgião a futricar com o bisturi. Olhos fixos no tutano que em parte se desprendia do interior do osso. A boca do vô Juca, já ensebada pela gordura animal, deixava vez por outra transparecer a chapa que o velho usava. Determinado em acabar com o tutano, o vô Juca não desistia. Vendo que o garfo era insuficiente, apelava para uma faquinha de ponta. Arranhava o fundo do osso, até não restar nada em seu interior. Parecia uma questão de honra.
Hoje, os tempos são outros. O velho Juca já não existe. Da mesma forma, não se come mais tutano. Os poucos que, talvez, o façam, já não demonstram a gana e persistência do meu avô. A empreitada – para os que nela se aventuram – já nasce como que perdida. Somos uma geração vencida pelo osso. O tutano a ser perseguido parece não tangível, distante em demasia para valer a pena. É como se nascêssemos mortos. Sim, geração de natimortos. Nossa juventude e os de minha idade demonstram um cansaço que parece atávico. Perdemos a capacidade de renunciar, de esperar, de espreitar. Quando esperamos, o fazemos da forma errada. Coisas erradas e da maneira errada. Esperamos sem disposição de dar algo em troca. Meu avô trocava o prazer de saborear um bom tutano pelo trabalho em obtê-lo. Todas as suas conquistas foram-lhe caras, daí o valor que lhes dava. Amava o que tinha, não por atribuir valor demasiado aos objetos, mas pelo que representavam. Pareciam sagrados. Cuidava com amor cada uma de suas ferramentas: o martelo, o serrote, o lápis que riscava a madeira... O quanto não cuidava dos seus? A Ina, minha avó, quem o diga. Estamos a formar uma geração que aprecia mais o garfo (o quanto vale...) do que sua verdadeira funcionalidade. Nos atemos à complexidade (sem compreendê-la ou analisá-la) em detrimento das coisas simples da vida.
Precisamos ensinar nossos filhos a comerem tutano. Para tanto, mister é que nós mesmos aprendamos a comê-lo. Fazer uso dos talheres. Sejamos mais pacienciosos, menos inquietos e não tão dados ao consumo desenfreado e irresponsável. Deixemos nossas crianças e jovens “roerem” o osso, darem-se ao trabalho de buscarem o tutano que nele se esconde. Saudades do meu avô.
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Gilvan Teixeira
Ainda lembro de meu avô Juca grudado num osso em meio à sopa envolta na fumaça. Bem-vinda numa noite de inverno. O minuano soprava intenso lá fora, fazendo estalar as paredes de madeira. Guri, não sabia o porquê do encantamento que a cena produzia. Parece que ainda o vejo. Franzino na aparência, mas um touro para o trabalho duro. Mesmo velho, levantava sozinho uma casa. Óculos postos na ponta do nariz como a cair, o velho Juca sorvia a sopa. Vez por outra deixava soar o barulhinho característico de quem deixa passar por entre os lábios o caldo quente. Logo, o prato fundo já não abrigava a sopa, mas tão-somente um osso enorme que ocupava todo o fundo da porcelana. Com uma das mãos segurava o osso quase a escorregar entre os dedos calejados por uma história de muito trabalho. A outra segurava o garfo. Mais parecia um cirurgião a futricar com o bisturi. Olhos fixos no tutano que em parte se desprendia do interior do osso. A boca do vô Juca, já ensebada pela gordura animal, deixava vez por outra transparecer a chapa que o velho usava. Determinado em acabar com o tutano, o vô Juca não desistia. Vendo que o garfo era insuficiente, apelava para uma faquinha de ponta. Arranhava o fundo do osso, até não restar nada em seu interior. Parecia uma questão de honra.
Hoje, os tempos são outros. O velho Juca já não existe. Da mesma forma, não se come mais tutano. Os poucos que, talvez, o façam, já não demonstram a gana e persistência do meu avô. A empreitada – para os que nela se aventuram – já nasce como que perdida. Somos uma geração vencida pelo osso. O tutano a ser perseguido parece não tangível, distante em demasia para valer a pena. É como se nascêssemos mortos. Sim, geração de natimortos. Nossa juventude e os de minha idade demonstram um cansaço que parece atávico. Perdemos a capacidade de renunciar, de esperar, de espreitar. Quando esperamos, o fazemos da forma errada. Coisas erradas e da maneira errada. Esperamos sem disposição de dar algo em troca. Meu avô trocava o prazer de saborear um bom tutano pelo trabalho em obtê-lo. Todas as suas conquistas foram-lhe caras, daí o valor que lhes dava. Amava o que tinha, não por atribuir valor demasiado aos objetos, mas pelo que representavam. Pareciam sagrados. Cuidava com amor cada uma de suas ferramentas: o martelo, o serrote, o lápis que riscava a madeira... O quanto não cuidava dos seus? A Ina, minha avó, quem o diga. Estamos a formar uma geração que aprecia mais o garfo (o quanto vale...) do que sua verdadeira funcionalidade. Nos atemos à complexidade (sem compreendê-la ou analisá-la) em detrimento das coisas simples da vida.
Precisamos ensinar nossos filhos a comerem tutano. Para tanto, mister é que nós mesmos aprendamos a comê-lo. Fazer uso dos talheres. Sejamos mais pacienciosos, menos inquietos e não tão dados ao consumo desenfreado e irresponsável. Deixemos nossas crianças e jovens “roerem” o osso, darem-se ao trabalho de buscarem o tutano que nele se esconde. Saudades do meu avô.
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Reprovação: será esta a questão?
REPROVAÇÃO: SERÁ ESTA A QUESTÃO?
Gilvan
Mais uma vez o Poder Público arvora-se no direito de interferir na autonomia das escolas quanto ao processo ensino-aprendizagem. Novamente, o governo busca “resolver” um problema – qual seja, o da retenção dos alunos – de forma simplista e equivocada. Por certo, a reprovação do educando em qualquer série ou ano escolar representa uma enorme preocupação, ainda mais nos ditos anos iniciais, haja visto a criança estar ingressando no mundo das letras. Retê-la, tão cedo, pode significar sim uma profunda ferida em sua formação enquanto sujeito que aprende. Até porque, sabe-se, a alfabetização ocorre ao longo de um demorado processo que dificilmente casa dentro de apenas um ou dois anos letivos. Por outro lado, o que parece inconcebível é a tentativa de pretensa solução, a problema tão complexo, fundada em fórmulas “mágicas”. Ao que parece, o Estado insiste em primar pela “aparência” em detrimento da “essência”. Esta é preterida em nome de índices de aprovação que venham ao encontro de interesses eleitoreiros, contribuindo para o surgimento de belíssimos gráficos multicoloridos que nada mais fazem do que mascarar a pífia e vergonhosa qualidade do ensino, especialmente público, deste país. Desloca-se o foco da discussão. Esta passa a centrar-se no “recheio”, não na “massa”. Combate-se o efeito, sem que se toque nas verdadeiras causas que levam ao fracasso escolar. A reprovação é apenas a ponta de um enorme e historicamente preocupante iceberg. O que deve ser discutido é a quase imbecilização do saber de nossos educandos provocada por políticas (ou a falta delas...) públicas equivocadas. Tão grave quanto a insuficiência de investimentos no ensino, é a precariedade dos projetos governamentais para a referida área. Projetos engendrados em gabinetes, sem a devida, necessária e indispensável discussão junto aos mais diversos seguimentos ligados à educação. Projetos com vida útil não maior do que a gestão deste ou daquele ministro ou secretário de governo. Projetos construídos in vitro por pedagogos que, às vezes, jamais sentiram o cheiro do pó de giz. A questão atinente à retenção nos anos iniciais deve ser discutida sim, mas dentro de uma discussão muito mais ampla, com enfoque nas causas que levam ao fracasso escolar, causas estas inúmeras e por demais complexas. Questão a ser travada, principalmente, por educadores e instituições de ensino, resguardando-se a sempre bem-vinda autonomia destas últimas.
Gilvan
Mais uma vez o Poder Público arvora-se no direito de interferir na autonomia das escolas quanto ao processo ensino-aprendizagem. Novamente, o governo busca “resolver” um problema – qual seja, o da retenção dos alunos – de forma simplista e equivocada. Por certo, a reprovação do educando em qualquer série ou ano escolar representa uma enorme preocupação, ainda mais nos ditos anos iniciais, haja visto a criança estar ingressando no mundo das letras. Retê-la, tão cedo, pode significar sim uma profunda ferida em sua formação enquanto sujeito que aprende. Até porque, sabe-se, a alfabetização ocorre ao longo de um demorado processo que dificilmente casa dentro de apenas um ou dois anos letivos. Por outro lado, o que parece inconcebível é a tentativa de pretensa solução, a problema tão complexo, fundada em fórmulas “mágicas”. Ao que parece, o Estado insiste em primar pela “aparência” em detrimento da “essência”. Esta é preterida em nome de índices de aprovação que venham ao encontro de interesses eleitoreiros, contribuindo para o surgimento de belíssimos gráficos multicoloridos que nada mais fazem do que mascarar a pífia e vergonhosa qualidade do ensino, especialmente público, deste país. Desloca-se o foco da discussão. Esta passa a centrar-se no “recheio”, não na “massa”. Combate-se o efeito, sem que se toque nas verdadeiras causas que levam ao fracasso escolar. A reprovação é apenas a ponta de um enorme e historicamente preocupante iceberg. O que deve ser discutido é a quase imbecilização do saber de nossos educandos provocada por políticas (ou a falta delas...) públicas equivocadas. Tão grave quanto a insuficiência de investimentos no ensino, é a precariedade dos projetos governamentais para a referida área. Projetos engendrados em gabinetes, sem a devida, necessária e indispensável discussão junto aos mais diversos seguimentos ligados à educação. Projetos com vida útil não maior do que a gestão deste ou daquele ministro ou secretário de governo. Projetos construídos in vitro por pedagogos que, às vezes, jamais sentiram o cheiro do pó de giz. A questão atinente à retenção nos anos iniciais deve ser discutida sim, mas dentro de uma discussão muito mais ampla, com enfoque nas causas que levam ao fracasso escolar, causas estas inúmeras e por demais complexas. Questão a ser travada, principalmente, por educadores e instituições de ensino, resguardando-se a sempre bem-vinda autonomia destas últimas.
Reprovação: será esta a questão? (artigo publicado na Zero Hora)
Mais uma vez o Poder Público arvora-se no direito de interferir na autonomia das escolas quanto ao processo ensino-aprendizagem. Novamente, o governo busca “resolver” um problema – qual seja, o da retenção dos alunos – de forma simplista e equivocada.
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Os riscos do mau uso da "internet"
Os riscos do mau uso da "internet"
Necessário é que se deixe claro aos usuários dos meios eletrônicos que existem limites à liberdade de expressão e à manifestação do pensamento, limites estes que não podem violar direitos de terceiro (inclusive pessoas jurídicas), nem tampouco devem ofender aos princípios éticos, muitos deles protegidos pelo ordenamento jurídico. Enganam-se os que cometem os seus erros (alguns, inclusive, tipificados como crime) sob a falsa idéia do anonimato do mundo virtual, pois que não apenas a própria consciência os condena, como ainda não são poucas as técnicas hoje aplicadas no desvelar de práticas ilícitas cometidas no mundo da internet.
Finalmente, a Rede de Escolas São Francisco reitera a crença não apenas nas novas tecnologias a serviço do homem, mas principalmente no próprio ser humano, este sujeito de direitos e obrigações. Pede-se a todos os pais e responsáveis que exerçam o papel não apenas de “fiscais”, mas sobretudo de “cuidadores” em relação às crianças e adolescentes sob sua tutela.
Porto Alegre, abril de 2011.
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1. Recentemente, por exemplo, o nome de nossa Escola foi utilizado de forma indevida na internet. Vale lembrar que o uso do nome e da marca de uma instituição, sem a devida autorização, é uma prática que ofende à legislação, constituindo-se em ilícito passível de sanção (punição) jurídica, inclusive nas esferas cível e criminal. A própria Constituição Federal (Art. XXIX) assegura a proteção à “marca” de uma empresa. O nome comercial constitui direito de personalidade da pessoa jurídica, cuja violação enseja a recomposição patrimonial pelos danos materiais e à imagem ocasionados por terceiros que dele se utilizem.
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